A sublime arte de dormir de conchinha!

Freud, conspiro, nunca dormiu de conchinha. Ele imaginava que o gozo, o deleite e a satisfação plena eram apenas impossibilidades. Nem desconfiava que a conchinha, que a verdadeira conchinha dos amantes, seria a realização de toda sua idealização. Lacan, confabulo, também nunca dormiu de conchinha. Ele dizia que a relação sexual perfeita não existia. Jamais concebeu a ideia de que a conchinha, que a autêntica conchinha dos apaixonados, fosse muito mais envolvente, íntima e profunda que o sexo propriamente dito. Tampouco Platão, o grande filósofo, que provou que tudo deveria principiar pelo amor, mas que ele, o Amor, apenas subsistia em um mundo distante, o das Ideias, foi capaz de refletir sobre a metafísica da conchinha. Se tivesse pensado, filosofado ou apenas adormecido carinhosamente nessa posição, teria certamente criado outras filosofias em seu famoso “Banquete”.

Eu nunca conseguia realmente dormir com alguém. Nunca. Conchinha, então, nem pensar! Já nos dois primeiros minutos meu braço se anestesiava e eu achava que teria que amputá-lo em questão de segundos, perdia a respiração, já que meu nariz avantajado ficava inteiramente inserido naquela vasta cabeleira e, por fim, em um ataque de pânico, sentia meu pé gangrenar e uma dor incrível de barriga. Assim sendo, era necessário desfazer logo aquela posição e fugir desesperadamente dali.

Mesmo depois da mais perfeita cumplicidade entre os corpos, da mais profunda troca de carinhos, carícias, licores e canções, minha mente não se aquietava. No mutismo e nas invenções monstruosas da noite, aquela outra pessoa ao meu lado muito me incomodava. Aquele ser estranho, diferente, enigmático me importunava durante as muitas horas que nos separavam do constrangedor amanhecer. Será que faltava amor? Sinceridade? Intimidade? Empenho? Eu me sentia como o neurologista de Milan Kundera, em seu maravilhoso “A Insustentável Leveza do Ser”, viril nas travessuras, impotente na intimidade velada da noite. E a vida seguia assim, fugidia… escapando sorrateiramente do dormir, do acalentar… da utopia aconchegante do encontro.

Mas como são belos os dias em que nos esquecemos de nós mesmos. De nossos monstros, medos, invenções e loucuras. Como são formidáveis, e raras, as noites em que nos libertamos, totalmente blasés, leves, livres e descuidados, das nossas oníricas Quimeras. Num desses poéticos momentos adormeci acompanhado. E de conchinha. Sonhei, e senti deveras, a verdadeira leveza do ser: “Com as outras mulheres ele nunca dormia. (…) Portanto, qual não foi sua surpresa quando acordou com Tereza segurando firmemente sua mão! Olhou-a e custou a compreender o que estava acontecendo. Evocou as horas que tinham se passado e acreditou respirar o perfume de uma felicidade desconhecida. (…) Deitar com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes, mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série incansável de mulheres), mas pelo o desejo do sono compartilhado (desejo que só se sente por uma única mulher)”. Acordei surpreso, contente, realizado, e com meu corpo intacto, sem gangrenas e suplícios. Converti-me e aceitei o sublime. Virei um pregador da divina conchinha.

*Jacques Fux, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2013 com o livro ‘Antiterapias’. Autor do badalado livro ‘Brochadas: Confissões Sexuais de um Jovem Escritor’, publicado pela Editora Rocco.

*Fonte/Texto: revistabula

dormir de conchinha

 

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