Fughetti Luz sai da toca e prepara novo disco

Depois de 15 anos de recolhimento em Tapes, Fughetti Luz acaba de aprontar seu terceiro álbum solo. Aos 68 anos, o mais mítico e influente cantor do rock gaúcho anda faceiro. Após o lançamento do segundo, Xeque-mate (2002), que acaba de ser reeditado, ele dera a carreira por encerrada – cantou pela última vez em público em 2004, a convite da banda paulista Tutti-Frutti. Tinha cada vez mais dificuldade para estar no palco devido ao desgaste da condição física: a paralisia infantil, que marca sua vida desde os três anos, com o tempo passou a cobrar das pernas esforços muito doloridos. E ele se recusa a cantar sentado:

– Rock’n’roll, pra mim, é em pé. Mesmo sem palco, ao gravar as músicas para o novo disco, faço questão de cantar em pé. Posso parar, descansar, mas cantar é em pé.

“Dogmas” desse tipo fazem parte da personalidade e da trajetória de quem teve de lutar bravamente para se afirmar, como mostra o muito bom Fughetti Luz – O Rock Gaúcho, songbook biográfico do jornalista Gilmar Eitelwein lançado com o primeiro CD em 1996. Fughetti mantém posições firmes, de espírito hippie, libertário, como se pode ler na entrevista das páginas 6 e 7, em que repassa sua trajetória à frente de duas bandas primordiais do rock porto-alegrense, o Liverpool e o Bixo da Seda. Sob a liderança de Fughetti, fizeram um disco cada (1969 e 1976), com certo sucesso no centro do país. Sem ele, se dissolveram.

Mas não tem briga nessa história. O Bixo se tornou uma espécie de estado de espírito e até hoje às vezes se reúne para lembrar os velhos tempos, com os eternos parceiros Mimi, Marcos e Edinho, mais Marcelo Guimarães fazendo as vezes de Fughetti. Compositor e vocalista da Robô Gigante (que, de certa forma, descende do Bixo e das bandas criadas nos anos 1980 por Fughetti para tocar suas músicas, a Bandaliera e a Guerrilheiro Anti-nuclear), Guimarães é um dos mentores do novo disco, ao lado de outro Marcelo, o Truda. Também da Robô e guitarrista de referência revelado pelo Taranatiriça, Truda é seguidor de Fughetti desde os 12 anos. Participou dos outros discos do ídolo e assumiu a produção do novo, que vai se chamar Tempo Feiticeiro.]

Será um álbum com 15 faixas, a maioria inéditas – as outras são versões novas para músicas dos discos solo e das bandas citadas, entre elas hits como Campo Minado, Rockinho, Nosso Lado Animal e Solitário Rocker. Ao lado de Fughetti, um dream team do rock gaúcho: Duca Leindecker (produtor dos primeiros discos), Gabriel Guedes (ex-Pata de Elefante), Duda Calvin (Tequila Baby), Zé Natálio (Papas da Língua), Egisto Dal Santo, Bebeto Mohr, o paulista Luiz Carlini (Tutti-Frutti/Rita Lee). E, naturalmente, Mimi, Marcos e Edinho.

Tempo Feiticeiro virá como um testamento, pois é improvável que ele volte a gravar. Um dos locais de lançamento será o Palheta’s Bar, em Tapes, onde Fughetti tem cadeira cativa para ouvir “a rapaziada” que está começando. Carlos Eduardo Miranda, ex- Taranatiriça, que saiu do rock gaúcho para tornar-se produtor de referência no rock brasileiro, lembra a importância de Fughetti para seu início:

– Eu e o Truda não perdíamos um show do Bixo, admirávamos demais o Fughetti. Era um cara loucão que dava para abordar depois do show e trocar uma ideia. Sempre se mostrou um cara que curte novidade e sabe respeitar as diferenças.

Os guitarristas e as mulheres são centrais na vida de Marco Antônio Figueiredo Luz – o apelido Fughetti (originalmente Fuguete) vem da infância, pois estava sempre fazendo molecagens. O novo disco tem cinco guitarristas. Uma das músicas inéditas, parceria com Mimi, faz homenagem ao maior de todos: Hendrixmania. E a questão feminina começa naturalmente pela mãe, a professora Leonita, nascida em Minas Gerais. “Tô vivo graças a ela, à sua vontade que eu vivesse”, conta ele no livro citado. Depois vêm a mulher, Zefa (se conheceram em um show), a filha Shanti, a neta Bibiana e a cuidadora Úrsula.

O apaixonado casamento durou de 1973 até a morte de Zefa, em 2012. Nascida em Amsterdã, em 1974, durante o ano em que o casal viveu um périplo hippie na Europa, Shanti morou em Tapes, com a mãe e os avós, até os 17 anos. Depois de formada em Publicidade, foi conhecer a cidade natal e acabou conhecendo o holandês que seria o pai de Bibiana – a família vive em Amsterdã desde 2003. Ela lembra que teve uma infância difícil, mas que o tempo foi ajeitando as coisas.

– Eu queria um pai normal, como os de minhas amigas. Que tivesse uma profissão, me levasse na escola. Meus avós não gostavam de ver minha mãe levando aquela vida instável e tendo que pagar as contas. Mas, na adolescência, viajando com a Bandaliera, encontrando Engenheiros do Hawaii, Cascavelletes e tal, comecei a entender e curtir o pai que eu tinha.

Shanti conta que se aproximou mais dele (“meu velho bruxo”) depois da morte da mãe. Fughetti, que se mantém graças à pensão de professora deixada por Zefa e parte do arrendamento de terras da família dela, sintetiza: “Shanti é minha luz, cuido de seu patrimônio”. A loirinha Bibiana, 11 anos, nas recentes férias passou alguns dias com o avô na casa Tapes e disse para a mãe: “Gosto muito dele. Amo ele do jeito que é”.

Os 3 discos solo

FUGHETTI LUZ (1996)
Produzido por Duca Leindecker e Gilmar Eitelwein, foi lançado juntamente com o songbook biográfico Fughetti Luz – O Rock Gaúcho, com financiamento do Fumproarte. Algumas músicas: Solitário Rocker, Tempo Feiticeiro, Deixe Rolar, Shanti, Homem que Caminha nas Calçadas, Força Interior e Insatisfeito.

XEQUE-MATE (2002)
Produzido por Duca Leindecker e Gilmar Eitelwein, foi lançado pelo selo independente Rotação. Está sendo relançado agora com distribuição da Jam Sons Raros (51 3594-8825). Algumas músicas: Nova Pulsação, Tão Jovem pra Esquecer de Si, Suspiram Blues, Campo Minado, Se Vira, Rockinho, Falta Pouco e Nosso Lado Animal.

TEMPO FEITICEIRO (2015)
Produzido por Marcelo Truda, com lançamento previsto para o final de 2015/início de 2016. Ainda sem capa definida, o álbum terá 15 músicas gravadas neste ano, mesclando inéditas e sucessos da carreira. Entre as novas, estão Descontentes (parceria com Shanti Luz), Hendrixmania (com Mimi Lessa) e Linha de Frente.

 

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*Fonte: zh/Juarez Fonseca – crítico musical e colunista do 2º Caderno

fughettiluz


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