Vem autobiografia aí e João Gordo já avisa: “Sou exemplo do que não fazer”

Autodefinido como “um senhor de 52 anos”, João Gordo sentiu que havia chegado a hora de contar sua história. Com ajuda do jornalista André Barcinski, o vocalista e apresentador de TV lança este mês o livro “Viva La Vida Tosca” (Ed. DarkSide), em que reúne suas memórias, desde a infância na Zona Norte de São Paulo à fama televisiva no século 21.

O livro, que estará nas lojas a partir do dia 23 de novembro, faz rir com histórias saborosas de brigas, drogas e tudo o que se espera de um ícone punk. Mas, mais do que isso, mostra outras dimensões de João Gordo do que a do personagem trash que o grande público conheceu pela televisão a partir dos anos 1990.

“Sempre tive uma imagem caricata. Por causa dessa imagem que eu passei pela televisão de escroto, o gordão drogadão, o doidão, as pessoas deviam me ver e pensar: ‘Ele é um burro, um tapado’. Mal sabem como eu sou realmente”, diz.

Nas 320 páginas, Barcinski mostra como João Francisco Benedan, o menino que decorava enciclopédias na década de 1970, viu no punk o antídoto para o autoritarismo do pai policial e viveu todo tipo de excessos até se tornar ele mesmo um pai de família responsável e amoroso.

O livro foi escrito após quase um ano e meio de entrevistas, não só com João Gordo, mas também com parceiros e parentes. Mas os preparativos demoraram mais de 20 anos. “Sempre contei minhas histórias para o Barcinski e ele sempre rachou o bico. Desde o começo dos anos 1990 ele dizia que eu tinha que fazer um livro”.

Narrado em primeira pessoa, o livro é fiel à linguagem desbocada e informal do protagonista, mas mostra que por trás dos palavrões que existe uma personalidade sensível e cerebral, sem a qual o João Gordo que conhecemos hoje não existiria. “Quando você é criança e gordo você é nerd. Ou você é magro, joga bola bem e anda de bicicleta ou vai ficar em casa. Eu ficava brincando de Forte Apache, vendo ‘Os Três Patetas’ e estudando enciclopédia. ‘Os Bichos’, ‘Conhecer’, ‘Barsa’, eu adorava tudo isso”, conta.

De gordinho nerd a ícone punk

“Viva La Vida Tosca” sai quase simultaneamente a outro livro de memórias de um ícone do punk nacional, “Garotos em Fúria”, parceria do vocalista e guitarrista dos Inocentes, Clemente Nascimento, com o escritor Marcelo Rubens Paiva. “Um livro complementa o outro”, diz Gordo.

Outra comparação óbvia é com a biografia de Tim Maia “Vale Tudo”, de Nelson Motta. Os dois biografados compartilham não só o porte físico, mas também o escracho e a tendência aos excessos. A diferença é que João Gordo conseguiu domá-los. “Nunca fui toxicômano, de ter crise de abstinência. Sou é cara de pau e sem vergonha, mas se não fosse minha família eu estaria na Cracolândia. Já levei meus filhos lá com 5 e 6 anos de idade e disse: ‘Olha o “Walking Dead” aqui'”.

Os filhos, aliás, agora podem ler sobre as peripécias do pai num livro que relata, em detalhes gráficos, episódios que envolvem não apenas drogas, mas sexo, violência e outros assuntos que a maioria dos progenitores preferiria esconder. “Sou um exemplo do que eles não devem fazer”, define Gordo.

Entre os maus exemplos há ainda pequenos trambiques, como quando pegava dinheiro escondido do caixa na lendária casa noturna Napalm e quando tentou fugir de ônibus com o equipamento do Capital Inicial. Sem falar na mentalidade primitiva de muitos dos punks paulistanos no início da década de 1980. “A gente só não era racista, o resto a gente era tudo: machista, homofóbico, tudo que não presta. Fora um ou outro ali, nossa noção de ideologia era rudimentar”.

Ainda assim, acredite se quiser, nem tudo entrou no livro. “Tenho meus esqueletos no armário. Também não vou abrir meu cu assim e falar: ‘Olha aí, pessoal'”. Mas se João Francisco era um gordinho nerd da Zona Norte, João Gordo é um ídolo para milhares de jovens no Brasil. Será que o livro não é um mau exemplo para eles? Qual um Nelson Rodrigues punk de 52 anos, ele proclama, rindo: “Fodam-se os jovens!”

Seis fatos insólitos sobre João Gordo em “Viva La Vida Tosca”

– Foi campeão de xadrez na escola, estudava e lia livros sobre o assunto. Um de seus ídolos de infância era o enxadrista Mequinho, que anos depois ficou perplexo ao ser reconhecido no aeroporto pelo ícone punk.

– Herdou a inteligência do pai, o policial militar Milton Benedan. “Seu Milton” como era conhecido aprendeu a falar espanhol, turco, árabe e armênio na juventude quando trabalhava em lojas da Rua 25 de Março. Na meia idade, descobriu uma ascendência judaica, decidiu aprender hebraico e chegou a viajar para Israel.

– Curte Carnaval e chegou a ser mestre de bateria em um bloco na adolescência quando foi obrigado pelo pai a morar em Angatuba, interior de São Paulo, após repetir de ano e se envolver com o punk.

– Em 1983 fez figuração junto com outros punks paulistanos célebres na novela “Eu Prometo” da Rede Globo, a última da autora Janete Clair.

– Trabalhou como recepcionista de um flat na região da Rua Augusta onde morava o repórter Roberto Cabrini.

– Certa vez, nos anos 1990, deixou de ver o show de uma de suas bandas favoritas, o AC/DC, para ver a cantora islandesa Björk.

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*Fonte: musicauol

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