Black Mirror

Todas as perguntas que acompanham os episódios da série britânica são relevantes, mas há um questionamento implícito nas temporadas como um todo, que poucos percebem: Você está ouvindo?

Essa é uma matéria que se comunicará individualmente com os leitores.

Todos já assistimos ao filme Matrix. A ficção científica das irmãs Wachowski questionou a nossa noção de realidade como obra nenhuma tinha feito antes dela. A narrativa segue a famosa jornada do herói, mas com elementos originais o suficiente para nos deixar paranoicos por pelo menos algumas semanas.

Também já vimos Clube da Luta, o clássico cult do diretor David Fincher que questiona as raízes do consumismo e a triste manipulação a que somos submetidos diariamente por grandes empresas em um sistema que se alimenta de pessoas, tirando delas sua individualidade.

Lembra da chama de rebeldia que se manifestou no seu coração quando terminou de assistir aos dois filmes acima? A sensação de que você tem poder suficiente para lutar contra o sistema conspiratório que constitui o seu mundo e o mundo daqueles que você ama. A sensação de que você, diferente dos outros, foi avisado. E lembra da atitude que você tomou para mudar a realidade? Pois é…

Black Mirror é a obra do momento que tenta, mais uma vez, abrir nossos olhos. É claro que você está ouvindo, você prestou atenção aos episódios certo? Sofreu com os personagens e até refletiu sobre alguns episódios depois que eles terminaram, antes de pular para o próximo, por puro entretenimento.

Os roteiristas brincam com a nossa indiferença, pois eles sabem que não tomaremos uma medida e não usaremos seus avisos para mais do que uma diversão passageira, que talvez dure algumas semanas na nossa mente. O episódio Fifteen Million Merits (S01E02) é o mais pessoal de todos, porque nos retrata diretamente. Nós como a sociedade que ri de programas fúteis e que gera energia sabe-se lá para que, apenas por dinheiro e a própria série, Black Mirror, como Bing, o protagonista.

Bing tentou avisar as pessoas que a vida que levavam era falsa, medíocre e acima de tudo triste. O que fizeram com seu aviso? Aplaudiram, apoiaram, mas de dentro de seus cubículos, através de uma tela. O que ele disse não foi interpretado como realidade, mas sim como um entretenimento um pouco mais desafiador do que o comum.
O discurso
O discurso

Toda semana Bing vai ao ar, com uma mensagem visceral e real sobre a vida que as pessoas nas bicicletas levam. É um programa adorado por todos, que concordam com ele, mas que jamais param de pedalar para mudar a natureza da sociedade em que vivem.

Agora, leitor(a), eu pergunto: Isso te lembra algo?

Black Mirror destaca-se por dar a volta em si mesma e criticar não só os clássicos vilões abstratos (o “sistema” a “sociedade”), mas também aqueles que estão cientes do que está acontecendo ao seu redor, mas que mesmo assim não se manifestam para mudar, apenas esperam pela semana seguinte, que trará consigo um novo, chocante e descartável episódio de realidade.

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*Fonte: cinerama


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