Como funciona a Mente Forte do Samurai

No último post comentei sobre Zanshin, a mente contínua, ou o estado de constante atenção e alerta para tudo que acontece ao nosso redor. Além do zanshin, existem outros estados mentais que juntos se completam para compor o que podemos chamar de A Mente Forte do Samurai.

Um destes é o Fudoshin, que refere-se à mente imóvel. Não imóvel no termo literal da palavra, mas no sentido de que é uma mente impenetrável, que não é facilmente perturbada por fatores internos ou externos. O fudoshin permite que mantenha o foco mesmo que as coisas estejam contra isso, por exemplo, quando você toma uma pancada numa luta e prossegue normalmente, sentindo a dor só depois… ou quando está perdendo de Waza-Ari e consegue manter o controle para reverter a pontuação a seu favor.

O Mushin, significa, “não-mente”. Na verdade, uma abreviação de mushin no shin, isto é, “mente sem mente”. É quando sua consciência não está presa nem fixada, totalmente ausente de emoção e pensamento. Uma consciência pronta para reagir da forma mais pura e instintiva possível, pois nela não há julgamento, nem medo, nem receio.

A junção destes estados mentais é capaz de tornar sua mente hábil para, no momento ideal, estar totalmente alerta, impenetrável como uma rocha e, ao mesmo tempo vazia e instintiva, que não julga e não teme. Um exemplo ilustrado temos no filme O Último Samurai, vejam abaixo:

Para nós ocidentais, essas definições podem parecer um pouco descabidas ou confusas. Este estado de “mente vazia” pode funcionar para um vegetal, não para uma pessoa… é o que dizemos. Afinal, como se pode não pensar em nada e estar ao mesmo tempo focado em tudo?

Um outro erro é achar que isso é apenas espiritualismo barato… Coisa de gente Zen e que só deve ter algum valor pra quem acredita. Pois bem, estou aqui pra mostrar-lhe que, mesmo que não acredite, isso está no seu dia a dia, e que aprender a manipular estes estados mentais a seu favor pode ser mais útil do que imagina.

Você pode por exemplo agora, experimentar o zanshin, porque mesmo enquanto lê este tópico, sem tirar os olhos do monitor ou do celular, consegue abrir sua percepção e saber se há pessoas à frente ou atrás de você; saber o que está passando na TV se estiver ligada; ouvir os pássaros cantando e os cachorros latindo lá fora (se for de noite, talvez os grilos)… Sentir o ritmo de sua respiração… Isso é zanshin.

O fudoshin é sua habilidade de mesmo tendo percebido todas estas coisas acima, não ter perdido o entendimento e o foco de sua leitura. Aliás, é comum entrarmos nesse estado quando lemos um bom livro, ou enquanto ouvimos uma música que gostamos muito. As vezes estamos tão mergulhados na coisa que as pessoas nos chamam e não escutamos.. É preciso que cheguem e nos chacoalhem para “acordarmos”.

O Mushin é praticamente a junção dos outros dois com a capacidade de não pensar. Para exemplificar… Você se lembra da última vez que conseguiu um lindo Ippon numa luta? Se lembra qual foi seu golpe mais bonito em um randori ou shiai? O que você estava pensando no exato momento em que aplicou seu golpe? Muito provavelmente você não pensava em nada. Não pensava porque na realidade não há tempo pra pensar.. O vacilo de seu oponente dura uma fração de segundos, e se seu cérebro estivesse ocupado pensando em todas as possibilidades de golpes a utilizar naquele momento, você travaria. Se você está bem treinado e durante uma luta, seu oponente estica os braços e lhe empurra continuamente, você percebe a oportunidade e nem pensa em “posso fazer seoi nage, ou tai otoshi, ou seria melhor tomoe nage?”, você simplesmente faz. Você está atento a cada movimento do oponente e nada tira a atenção da sua luta na hora. As vezes nem o árbitro.. aliás, trabalhando como árbitro já tive muitas vezes que entrar no meio de uma luta pra dar um Mattê

Enquanto somos iniciantes é muito difícil ter sucesso lutando não só por falta de habilidade, mas por termos a mente cheia de julgamento durante os combates. Tememos entrar um golpe errado, tememos o contra golpe, enfim, pensamos muito. Sempre digo aos alunos que nosso maior obstáculo nem sempre é o oponente, somos nós mesmos.

Não se pode confundir o ato de não pensar com falta de estratégia. Não é isso. É apenas incorporar a estratégia e a técnica de modo pleno para que a Mente Forte prevaleça no momento certo.

Hoje em meus treinamentos, a hora que mais percebo que atingi este estado mental é praticando o Nague No Katá. Não só eu como meu parceiro também. Um dia desses ele até me disse: “Cara, eu só te vejo quando começa e quando termina, durante o katá eu não vejo nada!”. E é bem por aí mesmo. Recomendo muito que os judocas treinem os katás para buscarem mais facilmente este aprimoramento. Principalmente que promovam e participem de competições de katá, pois o medo da avaliação, o medo de errar, são muito benéficos para aprender a controlar o estado mental em favor de extinguir estes medos e consequentemente conseguir manipular sua consciência.

Enfim, aprendemos que a Mente Forte é útil em todos os aspectos que requerem o máximo de desempenho em nossa vida. Para finalizar, gostaria de deixar um vídeo de um músico que para mim, expressa toda sua virtuosidade colocando tudo de si em uma ligação quase orgânica com seu instrumento. Ele não se importa com mais nada no momento, ele não precisa pensar, ele não precisa olhar para a guitarra, ele não erra, ele simplesmente toca. Um exemplo claro de Mente Forte.

 

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*Fonte: ojudoca

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