Rex Brown – “Train Song”

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Infeliz na F1, Alonso se redescobre com experiência na Indy, acha rumo na carreira e leveza na vida

No fim de 2014, Fernando Alonso vinha amargurando um período de poucos resultados em meio a uma crise de gestão da Ferrari. Todos eram culpados, e as críticas vinham de todos os lados. O ambiente era pesadíssimo, e isso se refletia nas atitudes e declarações do espanhol, que, claramente, não tinha mais paciência para os italianos. De personalidade tão competitiva, a frustração pela ausência de um carro vencedor ficava mais evidente a cada corrida. E uma mudança em Maranello acabou sendo inevitável. O asturiano ainda tinha um ano a mais de contrato, mas decidiu encerrar antes seu vínculo com os vermelhos. E, na época, só havia um lugar a ir: a McLaren, que se preparava para reeditar com a Honda a parceria de sucesso que vivera lá no fim dos anos 1980.

Alonso acreditou no projeto. Foi só elogios ao comando de Ron Dennis e, realmente, embarcou na propaganda feita pelos japoneses. Só que as promessas não vingaram. A Honda se bateu – e ainda se bate – para fazer um motor minimamente decente. E, uma vez mais, o bicampeão se viu longe das brigas por vitórias e títulos. E a fase atual é ainda pior do que a vivida pela Ferrari, porque não há muita esperança de mudança a curto prazo.

A McLaren sofre igualmente. E Alonso novamente tem de encarar os fantasmas do passado e as críticas sobre suas escolhas na carreira. Porém, assim como a Ferrari, a cúpula da esquadra britânica também não suportou tanta derrota e decidiu mudar o comando das ações. Dennis foi obrigado a entregar o cargo e o escolhido para assumir o posto veio dos EUA. Um apaixonado pela F1, mas principalmente pela McLaren, Zak Brown chegou no fim do ano passado com uma significativa diferença no modo de ver a competição.

Só que nem ele conseguiu mudar o maior problema da equipe: a falta de confiabilidade das unidades da Honda. Começou 2017, e o motor entregue pela fabricante surgiu ainda mais problemático. Os abandonos se tornaram uma constante. Até que surgiu a ideia de atravessar o Atlântico e tentar algo realmente novo.

É bem verdade que Alonso já havia mencionado a vontade de correr atrás da Tríplice Coroa do automobilismo, mas quem abriu a porta mais viável para o sonho foi Brown. Foi ainda quando ambos estavam na Austrália. As conversas evoluíram. Zak ligou para o amigo Mark Miles e um carro, uma equipe e um motor foram providenciados.

O Alonso iria mesmo disputar as 500 Milhas de Indianápolis, abrindo mão da corrida em Mônaco – o circuito onde a McLaren teria provavelmente a melhor chance de um bom resultado em 2017.

O anúncio-bomba aconteceu no início do mês de abril, logo depois da segunda etapa da temporada 2017 da F1. A partir dali, Alonso embarcou de corpo e alma na aventura de correr em Indianápolis. Deu o pontapé inicial com uma visita à Indy no Alabama. Depois, participou do programa de novatos no IMS com a Andretti. Esse teste já deu uma pista do que ainda estava por vir. Mais de dois milhões de espectadores acompanharam a primeira vez do espanhol em um oval. Foi tudo ali, ao vivo e sem cortes, sem censura. Até as primeiras conversas com os engenheiros, com Michael Andretti e o ‘coach’ Gil de Ferrari foram disponibilizadas.

Daí para frente, Alonso virou um fenômeno de mídia e se apaixonou pela Indy. E foi correspondido. Centralizou as atenções todas em Indianápolis. E se entregou. Participou pacientemente de todas as entrevistas, atendeu aos fãs, postou tudo que estava acontecendo nas redes. Sorria, enfim.

Fernando não ganhou a Indy 500. Mas fez bonito. Andou bem e provou o quanto é grande neste esporte chamado automobilismo. Um dos melhores de todos os tempos, sem dúvida. Mas, mais do que isso, foi contagiado pelo clima mais alegre e divertido da Indy e levou isso consigo quando deixou a ‘Capital Mundial do Automobilismo’. É uma pessoa melhor, como disse algumas vezes.

Duas semanas depois da aventura no IMS, o asturiano voltou à F1 e ao calvário habitual com a McLaren Honda. Foi também bombardeado de perguntas sobre a Indy e seu futuro. Reclamou da maneria como a principal categoria do esporte a motor entende seus protagonistas. E disse que vai esperar até setembro para decidir o que vai fazer em 2018.

Veio, então, um episódio que deixou ainda mais claro o quanto o mês de maio mudou sua cabeça. No sábado à noite, Alonso ligou para a TV americana, no meio da corrida do Texas, para dizer que a série de Indiana não está assim totalmente fora do seu radar. De fato, a F1 não tem mais o mesmo peso.

No domingo, o piloto não completou a corrida, uma vez mais. Só que, quando parou o MCL32 a duas voltas do fim, foi para a galera. Falou que tinha apenas vontade de jogar as luvas para o público, como uma forma de retribuir todo o carinho dos canadenses, mas foi além. Subiu as arquibancadas e desapareceu no meio do povo. Chegou rindo ao paddock.

“Eu esperava apenas dar a eles as luvas, mas a arquibancada estava longe demais, então achei não daria certo apenas jogar as luvas. Então, pensei em subir lá e aí jogar. Mas, uma vez que entrei, não conseguia mais sair. Nós sempre recebemos muito apoio toda vez que a F1 vem aqui, então era hora de dar algo em troca”, disse.

Alonso é uma pessoa diferente, sem dúvida. Aquele cara difícil da F1, de semblante sempre sério e sisudo, deu lugar a um ser sorridente e bem-humorado.

A Indy lhe fez muito bem. Não só por colocá-lo de volta em uma posição competitiva de novo, mas, principalmente, por mostrar que existe felicidade fora da F1.

Seja lá o que o futuro lhe reserva, Alonso se encontrou na carreira. O presente é um presente a Alonso: o piloto que há em si tem como ser feliz.

 

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*Fonte: grandepremio