Um Brasil sem Melodia

O cantor carioca Luiz Melodia morreu nesta sexta-feira, aos 66 anos, em decorrência de um câncer de medula óssea, no Rio de Janeiro. Um dos maiores compositores brasileiros, Melodia é autor de sucessos da Música Popular Brasileira como Pérola Negra e Estácio, Holly Estácio, essa última uma homenagem ao local onde nasceu, o bairro do Estácio.

Luiz Melodia se definia como um compositor “da perifa do Rio”. “Eu sou um compositor de tudo, mas [antes de tudo] sou um negro”, disse, certa vez, na casa do cantor Zeca Pagodinho, por quem tinha muita admiração. “Quando um compositor do porte do Zeca dá esta oportunidade é emocionante”, afirmou, sobre o sambista interpretar suas músicas. “A invisibilidade [do compositor] não importa”.

Com mais de 40 anos de carreira, o felino negro tinha um estilo único, que mesclava suingue com MPB. Estourou quando a cantora Gal Costa interpretou Pérola Negra, em 1971. Dois anos mais tarde, Melodia lançava seu primeiro álbum, que ganhou o mesmo nome da canção: Pérola Negra (1973).

Filho do sambista e funcionário público Oswaldo Melodia, de quem herdou o nome artístico, Luiz Carlos do Santos lançou 16 álbuns ao longo da carreira. Seu pai, a quem Luiz Melodia se referia como “um compositor genial”, queria que ele fosse “doutor”. Mas o filho seguiu os passos artísticos do pai. Além dos álbuns, participou de novelas e minisséries e realizou turnês pela Europa. Em 2015, ganhou o Prêmio Música Popular Brasileira, na categoria Melhor Cantor. A morte de Luiz Melodia foi lamentada por grandes nomes da música brasileira, como o cantor Gilberto Gil, que em seu Twitter publicou uma foto com o compositor.

Após o diagnóstico do miolema múltiplo, nome técnico deste tipo raro de câncer no sangue, Melodia iniciou o tratamento com quimioterapia em abril deste ano. Em maio, porém, fora submetido a um transplante de medula óssea, pois não estava respondendo bem ao tratamento com quimioterapia. A cirurgia fora bem-sucedida, mas a doença não regrediu.

Enquanto esteve internado, sua casa na zona sul do Rio fora invadida por bandidos que levaram alguns pertences do cantor, incluindo o computador onde estava guardado todo seu acervo histórico, como a biografia em inglês, releases de lançamento de Pérola Negra, além de toda a discografia.

Luiz Melodia era casado com a compositora, cantora e produtora Jane Reis e era pai do rapper Mahal Reis.

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*Fonte: elpais

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Por que “teoria” é uma palavra tão confusa?

Teoricamente falando, há uma confusão generalizada sobre a palavra “teoria”. Certo?

Muitas pessoas interpretam a palavra como conhecimento indefinido, baseado principalmente no pensamento especulativo. Ela é usada indiscriminadamente para indicar coisas que conhecemos — isto é, baseadas em evidências empíricas concretas — e coisas das quais não temos certeza. Não é uma boa mistura, especialmente quando certas teorias dizem respeito diretamente às sensibilidades religiosas e baseadas no valor das pessoas, como a “teoria da evolução” ou “teoria do Big Bang”. Existe também o perigo de cair nas armadilhas de significado estabelecidas por grupos com agendas específicas.

A definição de “teoria”, de acordo com o New Oxford American Dictionary (NOAD), não ajuda:

  1. Uma suposição ou um sistema de ideias destinado a explicar algo, especialmente algo baseado em princípios gerais independentes da coisa a ser explicada: a teoria da evolução de Darwin.
  2. Um conjunto de princípios sobre os quais se baseia a prática de uma atividade: uma teoria da educação.
  3. Uma ideia usada para explicar uma situação ou justificar uma linha de ação: minha teoria seria a de que…

Assim, há um uso dentro de um contexto científico (“a teoria de…”) e em um contexto subjetivo (“minha teoria é…”) — um problema óbvio.

Quando usado no contexto de uma frase, como “em teoria”, fica pior. Segundo a NOAD, “usada para descrever o que é suposto acontecer ou ser possível, geralmente com a implicação de que não acontece de fato”. Claramente, neste contexto, “em teoria” significa algo que provavelmente está errado.

Não me admira que haja confusão. Isso é confuso!

Um primeiro passo para tentar esclarecer o(s) significado(s) de teoria é entender em que contexto a palavra está sendo usada e manter diferentes contextos separados. Assim, se um cientista está usando a palavra teoria, como em “teoria da relatividade”, “teoria da evolução” ou “teoria do Big Bang”, ela deve ser entendida como uma afirmação dentro de um contexto científico. Nesse caso, uma teoria com certeza NÃO é mera especulação subjetiva, ou algo que esteja provavelmente errado, mas, pelo contrário, é algo que foi examinado pelo processo científico de validação empírica e, até agora, tem passado no teste de explicar os dados.

Infelizmente, mesmo dentro do contexto científico, a palavra é mal utilizada, o que só aumenta a confusão. Por exemplo, “teoria das supercordas” refere-se a uma teoria especulativa em física de alta energia onde os blocos de construção fundamentais da matéria não são partículas elementares, mas minúsculos tubos vibrantes de energia. Dada a falta de apoio empírico até agora para a ideia, a “hipótese das supercordas” seria uma caracterização muito mais apropriada. Os cientistas podem saber o status da hipótese, mas a maioria das pessoas não.

Devemos ter mais cuidado.

Uma teoria científica é um acúmulo de conhecimento construído para descrever fenômenos naturais específicos, como a força da gravidade ou a biodiversidade, que foi aprovada pela comunidade científica. Isso é o melhor que podemos encontrar para obter o senso de natureza em um determinado momento.

Tenha em mente que, como nossa compreensão dos fenômenos naturais mudam, as teorias também podem mudar. Isso não significa necessariamente que as velhas teorias estejam erradas. Isso geralmente significa que as velhas teorias têm um alcance limitado de validade não coberto por fenômenos recém-descobertos. Por exemplo, a teoria da gravidade de Newton funciona muito bem para enviar foguetes para Netuno, mas não para descrever um buraco negro. Novas teorias nascem de brechas nas antigas.

Infelizmente, a suspeita de certas teorias científicas pode advir da confusão da especulação subjetiva com a descrição objetiva. Uma teoria científica é diferente de uma hipótese científica. Uma hipótese científica é uma ideia ainda não empiricamente testada e, portanto, ainda não aprovada pela comunidade científica. Uma teoria é uma hipótese que foi testada e aprovada.

Muita confusão popular poderia ser evitada se a palavra teoria fosse compreendida dentro do contexto correto. A armadilha frequentemente usada de explorar o duplo significado da palavra teoria para confundir ou deliberadamente induzir a opinião popular deve apenas pegar aqueles que não sabem ou optam por negligenciar o que a teoria significa dentro de seu contexto científico ou subjetivo.

*Por: Por Marcelo Gleiser / Publicado na National Public Radio

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*Fonte: universoracionalista

Tim Vickery: A religiosidade brasileira muitas vezes é fé de conveniência

Estou sozinho agora na casa da minha mãe, nos arredores de Londres, porque ela foi à igreja – ela faz parte de uma minoria da sociedade britânica, de talvez 5%, que ainda tem o hábito de ir ao culto.

E essa fatia minúscula não é de fanáticos. Uma vez, numa visita anterior, eu (que não tenho nenhum sentimento religioso) comentei que não consigo ver a ligação entre a morte de Jesus Cristo e nossos pecados.

“Estranho”, respondeu a minha mãe. “O meu pastor falou exatamente a mesma coisa na semana passada.”

Trata-se de uma doutrina fundamental de qualquer religião cristã, mas até um empregado da Igreja Anglicana não acredita nele. A igreja dele tem pouco a ver com religião, mais a ver com uma missão vaga de ser “um bom sujeito”.

Tudo isso, claro, nada mais é do que uma consequência do recuo da fé cega a partir do Iluminismo, no século 16, e a descoberta de que a Terra gira ao redor do Sol. Por que acreditar naqueles que afirmavam o contrário?

Uma pesquisa recente aponta que somente 28% da população britânica acredita em Deus ou em qualquer poder espiritual, ante 38% totalmente sem tal fé. Me lembra bem a minha época na escola, quando uma sessão de zombaria da professora sempre começava com a pergunta “Senhora, você acredita em Deus?”

Como a situação é diferente nas Américas! Nos Estados Unidos, por volta de 60% da população vai para a igreja. E, no Brasil, não acreditar em Deus é inconcebível para muitos.

As minhas enteadas ficavam tão fascinadas com o assunto que cada vez que alguém me visitava da Inglaterra isso sempre era a primeira pergunta que tinha que traduzir.

Uma vez a resposta a respeito de religiosidade foi “Não, não tenho nenhuma tolerância para superstições medievais”, frase que foi um desafio e tanto para suas mentes então pré-adolescentes.

Mas – e estou ciente de estar entrando em uma generalização vasta e vulgar – se a crença na existência de Deus é quase total no Brasil, a fé, em muitos casos, parece bastante rasa.

Quando vejo políticos corruptos dando benção para dinheiro ilegal, ou jogadores de futebol louvando depois de cavar um pênalti, fico com a sensação de que a religiosidade brasileira, com frequência, trata-se de uma fé de conveniência.

É menos um código que determina como viver a vida e mais um recurso que se pega ou se larga conforme as circunstâncias.

Pode ser que seja uma extensão da tara brasileira por parentesco fictício. A figura do pai ausente é muito importante numa terra de padrinhos, onde o personagem político de mais destaque na formação do país, Getúlio Vargas, cultivava um tipo de fascismo benigno do tio universal.

É bastante factível que vários brasileiros imaginem Deus como uma espécie de Vargas celestial, bonzinho e indulgente.

Vargas também desempenhou um papel importante no desenvolvimento da religião no Brasil, e não me refiro à aproximação com a Igreja Católica que leva à estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Muito mais importante é a urbanização do país que ele promoveu.

O interessante aqui é que, no exemplo inglês, o crescimento das cidades foi um fator significativo no declínio da religião.

No caso da minha mãe, por exemplo, ela é uma mulher do interior que cresceu com o hábito de ir à igreja e nunca o perdeu. Mas não é de hoje que as igrejas nas cidades vivem vazias – na verdade, nunca encheram. A mudança para uma vida urbana acabou cortando a prática de ir à igreja.

No Brasil, entretanto, o que mais se vê na periferia das cidades são igrejas – só que nesse caso a Igreja Católica tradicional perdeu, mas as evangélicas novas ganharam espaço.

E seu público, em grande parte, são os migrantes internos, que trocaram a vida do campo pelas oportunidades da cidade grande – e também as suas complexidades, problemas a ameaças.

Nesse ambiente novo, complexo e confuso, as igrejas evangélicas não somente oferecem o conforto espiritual da fé, mas também uma rede de apoio social.

Nesse cenário, não é somente a ausência da figura paternal que impulsionou o crescimento da religião, mas também a ausência do Estado.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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*Fonte: bbc