Para enlouquecer com saúde

Vaiar o morto. Contar piadas às carpideiras. Ser convidado, com energia, a se retirar do recinto. Sair de cabeça em pé, levando uma flor entre os dentes. Dizer toda a verdade que lhe vier à telha. Morder a imprópria língua. Envenenar as palavras com doses letais de franqueza. Ser um desanimador de festas infantis. Riscar-se de uma lista de convidados. Pular de uma ponte e sair voando. Contribuir com o futuro do planeta, clamando pela boa pontaria do meteoro. Contentar-se com dois pares de calçados. Economizar água-que-passarinho-não-bebe. Urinar pelos canteiros de casa. Escandalizar a vizinhança com sua nudez domiciliar, o seu território livre. Entrar na pauta da próxima assembleia do condomínio. Passar dias sem tomar banho. Malhar os neurônios com livros de filosofia. Ser, com orgulho, o garoto mais impopular da escola. Escalar o Monte de Vênus sem usar as mãos. Lamber. Lamber. Lamber. Ser parceiro íntimo dos micróbios. Reconhecer-se como um reles microrganismo no âmbito universal e, apesar disso, ir além, exagerar, pular corguinhos com a sua cadeira de rodas. Nadar contra a correnteza. Torcer pelo jacaré num filme de Tarzan. Sacanear, fazer amor consigo mesmo, gozar na boca da noite. Rastejar a esmo numa guerra hercúlea contra a hipocrisia. Desligar o cérebro pelos caminhos de Compostela. Tomar sopa com outros homens miseráveis. Tocar para o sul, apesar do frio. Desnortear-se, apesar de um norte. Abolir o uso da bússola e dos relógios de pulso. Matar o tempo por asfixia das horas. Orar para os deuses do rock. Nunca ter escutado o hit mais tocado nas rádios, de acordo com a lista da Billboard. Usar as pedras do caminho para espatifar os telhados de vidro. Rimar amor com dor e com os cubos de gelo na caixinha de isopor. Tomar um uísque nas piores e nas melhores horas do dia. Assinar a profissão poeta na sua carteira de trabalho. Relaxar sem ser frouxo. Embriagar-se sem ser alcoólatra. Perder a ternura, endurecer. Apaixonar-se por uma completa desconhecida que parece ser a mulher dos seus sonhos. Preferir os pesadelos só por causa das altas doses de adrenalina. Doar sangue para um facínora sanguinário. Temperar a vida com o sargaço dos mares revoltosos. Cegar o ódio. Cagar no mato. Seguir uma nuvem de moscas pelas merdas do caminho. Apostar no azarão. Deixar-se cavalgar por uma potra louca-varrida com gosto de amanhã-logo-cedo-tem-mais. Faltar às passeatas. Marchar contra a multidão. Saquear uma biblioteca. Ser preso por uma policial à paisana e a atado à cama com meias de seda bacana. Ensimesmar. Cair em desgraça com elegância. Levantar a moral da tropa desnudando-se, desfilando a gostosa bunda da verdade para que todos toquem nela. Delatar aquele cara no espelho, se ele tiver culpa no cartório. Vestir-se rigorosamente fora da moda. Comer gordura trans. Comer uma gordinha trans. Transformar-se. Transtornar-se. Endeusar-se, amar a si próprio acima de todas as coisas e o resto que se Jack Daniel’s. No final das contas, se nada der certo e este contrato antissocial firmado consigo mesmo fracassar, então, terá valido a pena.

*Por Eberth Vêncio

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*Fonte: revistabula

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