É um hábito secular culpar os jovens por estarem”arruinando tudo”

Recentemente, surgiu uma discussão na internet sobre o que é considerado “cringe” pela geração Z que os millennials fazem. No entanto, já é antigo para os “velhos” que os jovens são responsáveis por estragarem as coisas que eles gostam.

Tornou-se comum para os millennials culparem os Z por tudo estar tão “chato e problematizado”. Por isso muitos consideram os que nasceram a partir da década de 1990 como uma geração preguiçosa, superficial, disruptiva e “insuportável”.

Em contraponto, os Z se enxergam como mais engajados politicamente e em questões estruturais que permaneceriam enrijecidas na sociedade se eles não tivessem a visão visionária o suficiente para fazerem a mudança acontecer.

Raízes passadas

Apesar de a ideia de que os jovens estão arruinando a sociedade pareça uma discussão recente, já é antigo o desejo de culpá-los. Isso já ficava claro na poesia do autor medieval Geoffrey Chaucer, que viveu e trabalhou em Londres na década de 1380.

Em seu trabalho The House of Fame, ele retrata uma falha massiva na comunicação de ambos os lados da sociedade, em que verdades e mentiras circulam de maneira indiscriminada em uma casa de vime que gira. A casa, na verdade, é uma metáfora para a representação da Londres medieval, que crescia em tamanho e complexidade política de maneira espantosa para a época.

Chaucer reafirma de maneira mais direta a culpa dos jovens em poemas como Troilus and Criseyde, em que ele demonstra sua preocupação com relação às gerações futuras que destruiria sua poesia devido à mudança de linguagem — o que hoje poderia ser considerado como linguagem informal.

No século XIV, cresceu na Inglaterra o medo de que uma nova classe considerada “mais burocrática” estivesse destruindo a própria ideia da verdade. Richard Firfth Green, no livro A Crisis of Truth, pontua que a centralização do governo inglês mudou a verdade que passava de uma pessoa a outra para uma realidade objetiva localizada em documentos. As pessoas da época não aceitavam que promessas verbais não eram mais o suficiente, e que era preciso declarar tudo por escrito. Hoje, a documentação é um processo naturalizado.

O fim do que era bom

Como se a política não fosse o bastante, o romancista inglês Thomas Malory, do final do século XV, também ressaltou que os jovens destruíram o sexo. Em A Morte de Arthur, um livro sobre o Rei Arhur e a Távola Redonda, ele reclama que os jovens amantes são rápidos demais para “pular na cama”, escrevendo que antes o amor não costumava ser assim.

Esse tipo de questionamento serviu para aglutinar a ansiedade existencial que existia no final da Idade Média, e que hoje em dia pode parecer ridículo para os millennials que criticam tudo o que está sendo “corrompido”.

Enquanto aqueles tempos são lidos como repleto de fanatismo religioso, sofrimento, tortura e loucura para autores como Chaucer e Malory, era o futuro moderno que representava a catástrofe e sua influência sobre o presente.

De acordo com Eric Weiskott, professor especializado em poesia inglesa da Universidade de Boston: “a ansiedade com relação aos jovens é equivocada, não porque nada muda, mas porque a mudança histórica não pode ser prevista”. E a maneira como os millennials se posicionam do outro lado dessa “placa tectônica” social é mesma resposta secular dos mesmos sentimento de mudança que querem evitar.

O mundo continuará mudando de maneiras imprevisíveis ou inexplicáveis, porque o status quo é algo móvel, para melhor ou pior. E, no final das contas, sempre haverá uma geração para culpar a outra.

*Por Julio Cezar de Araujo
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*Fonte: megacurioso

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