A má formação da identidade e os desequilíbrios emocionais modernos

Com o passar das gerações, surgiram e se acentuaram os desequilíbrios ligados ao comportamento humano. Ocorrências generalizadas de ansiedade, crises de pânico e depressão podem não ser de fato o problema, mas sintomas de algo que representa a real ameaça ao bem-estar emocional moderno.

É sabido que, do nascimento até a fase adulta, o ser humano passa por diversas fases na sua construção intelectual e emocional, fases essas que, se não forem vividas corretamente desde o seu primeiro dia, resultarão em desvios e desequilíbrios no comportamento do indivíduo adulto, seja pela própria postergação dessas fases, como um adulto que apresenta comportamentos de adolescente, como também o que pode ser a fonte de muitos problemas vastamente observados hoje, a má-formação da identidade.

A identidade é um dos mais importantes aspectos da formação do indivíduo e ela acontece desde o primeiro dia de vida, pois uma criança deve aprender o que ela é e o que são os outros, ela deve aprender a se descolar do mundo para tornar-se alguém e, sendo alguém, consequentemente, poderá ser inserida neste mundo que se divide em culturas, sociedades, regras e limites.

Porém, se ocorrer erros na formação da identidade dessa criança, ela se tornará um adulto que não se define em coisa alguma, com uma identidade sem forma e que dependerá exclusivamente do meio exterior para ser identificada, o que por si só já se torna o primeiro sintoma do problema, pois a identidade é o que faz o indivíduo se posicionar no mundo e não o contrário.

É claro que nós dependemos uns dos outros para nos definir, aprendemos quem somos, nossa posição no mundo, gostos e afinidades a partir das comparações feitas com terceiros, porque, quando o outro se posiciona como tal, eu tenho a autonomia de me posicionar como sou. As informações que recebemos dos demais ajudam na construção da nossa identidade, mas, como regra, a fonte desse posicionamento precisa vir de dentro, do nosso senso crítico, vontades e gostos.

No entanto, o que acontece quando estamos inseridos em uma sociedade em que, majoritariamente, as pessoas não possuem identidade construída? E dependem unicamente da posição que o mundo e terceiros dão a elas para que se sintam algo e parte de algo?

Caminhamos para mais um passo no problema que se instalou na sociedade moderna: uma massa gigantesca de pessoas sem identidade, e, quando não se tem identidade, você pode ser tudo, mas não é definitivamente nada; você pode viver grandes experiências, mas elas não fazem parte de fato de quem você é. Tudo passa por você e some, não importa o quão intenso seja, no fim, desaparece.

E, como nada fica, sobra apenas a angústia de não se sentir nada e pertencente a nada, daí surge a ansiedade pela eterna espera de se tornar algo, o medo e o pânico por essa situação perdurar e, por fim, a depressão por perceber que o concreto de fato é o vazio.
A consequência de tudo isso é vermos adultos agindo como crianças, desesperados para se sentirem parte de qualquer coisa, de serem desejados, como o próprio psicanalista francês Jacques Lacan disse: “A fonte de todos os desejos do ser humano é o desejo de ser desejado sempre”. E isso pode se traduzir em diversos aspectos presentes no comportamento social moderno.

Por exemplo, não é incomum a presença de pessoas inteiramente tatuadas, com piercings ou quaisquer outros artefatos que são usados para chamar a atenção e, subliminarmente, usados para uma definição de identidade. Até porque, quando um indivíduo tatua o seu corpo, fura-o ou compra um carro chamativo, pode ser uma tentativa desesperada de concretizar uma identidade em si que, claro, precisa ser legitimada pelo outro.

Um indivíduo qualquer conhece um grupo de pessoas que gosta de carros. Ele vive aquilo intensamente e faz uma tatuagem de um carro no braço. Tempos depois, conhece outro grupo, dessa vez de motoqueiros, e, mais uma vez, vive a experiência intensamente, compra uma moto e a tatua. A questão é: esse indivíduo não gosta nem de carros nem de motos. Ele vai aonde dá e faz o que puder para se sentir parte, se sentir desejado por determinado grupo. Mas a questão é que de fato ele é nada, e, sendo nada, não será a tatuagem de carro ou moto que definirá sua identidade – essas tatuagens, agora, também não significam mais nada, e esse ciclo recomeça sem fim.

Isso é muito diferente de alguém que desenvolveu corretamente sua identidade, que realmente gosta de carros ou motos desde criança, que monta e desmonta essas máquinas e estuda tudo sobre elas. Esse indivíduo pode também fazer uma tatuagem, mas essa tatuagem representa realmente quem ele é, já o indivíduo que tem má-formação de identidade o faz como um recurso de solidificar algo em si, do lado de fora, na sua pele, o que dentro ele não consegue. E toda essa tentativa externa de manter uma identidade necessita do outro como agente de confirmação dessa identidade, mas o outro também não é nada; o mundo muda mais rápido do que conseguimos acompanhar, e novamente caímos na angústia do vazio.

Esse comportamento é visto e representado claramente em muitos campos da sociedade, da política e da cultura. As redes sociais se tornaram o veículo perfeito dessa busca pela aceitação alheia e o desespero por uma identidade que em sua maioria vem de forma deturpada e alimenta ainda mais os desequilíbrios emocionais modernos.

Em suma, a identidade, quando não bem construída, abre a porta para que o indivíduo seja utilizado como bem entender por um mundo exigente e vaidoso no qual a moral se tornou estética e não ética, e a infeliz pergunta “Sabe com quem você está falando?” se tornou realidade, porque esse indivíduo realmente não sabe quem ele é, e espera que um mundo tal qual sem forma lhe diga.

Não é à toa que a filosofia e a psicologia, hoje, foram tomadas pelo pensamento positivo e pela autoajuda, que reforçam ainda mais um teatro social que ofusca a realidade, dando valor apenas àquilo que é visto no palco, mesmo que não seja real. E como todos que assistem ao espetáculo não têm identidade, não importa o que está sendo mostrado lá, porém, se alguém levanta e diz que não vê nada, é chamado de louco.

*Por Gabriel Fraga
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*Fonte: provocacoesfilosoficas

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