‘O ato de ouvir exige humildade de quem ouve’, uma bela crônica de Rubem Alves

Sobre o ouvir
O ato de ouvir exige humildade de quem ouve. E a humildade está nisso: saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos. Mas isso, admitir que o outro vê coisas que nós não vemos, implica reconhecer que somos meio cegos… Vemos pouco, vemos torto, vemos errado.

Bernardo Soares diz que aquilo que vemos é aquilo que somos. Assim, para sair do círculo fechado de nós mesmos, em que só vemos nosso próprio rosto refletido nas coisas, é preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos. Não somos o umbigo do mundo. E isso é muito difícil: reconhecer que não somos o umbigo do mundo! Para se ouvir de verdade, isso é, para nos colocarmos dentro do mundo do outro, é preciso colocar entre parêntesis, ainda que provisoriamente, as nossas opiniões.

Minhas opiniões! É claro que eu acredito que as minhas opiniões são a expressão da verdade. Se eu não acreditasse na verdade daquilo que penso, trocaria meus pensamentos por outros. E se falo é para fazer com que aquele que me ouve acredite em mim, troque os seus pensamentos pelos meus. É norma de boa educação ficar em silêncio enquanto o outro fala. Mas esse silêncio não é verdadeiro. É apenas um tempo de espera: estou esperando que ele termine de falar para que eu, então, diga a verdade.

A prova disto está no seguinte: se levo a sério o que o outro está dizendo, que é diferente do que penso, depois de terminada a sua fala eu ficaria em silêncio, para ruminar aquilo que ele disse, que me é estranho. Mas isso jamais acontece. A resposta vem sempre rápida e imediata. A resposta rápida quer dizer: “Não preciso ouvi-lo. Basta que eu me ouça a mim mesmo. Não vou perder tempo ruminando o que você disse. Aquilo que você disse não é o que eu diria, portanto está errado…”.

– Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola”. Editora Planeta, 20

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*Fonte: revistaprosaeverso

7 passos básicos para se escrever um livro

Para se fazer literatura é preciso sujar as mãos de lama e sangue, visto que prosa de ficção de gabinete entendia o Leitor de tal maneira, que, decerto, o obriga a abandonar o livro sem pudor ou hesitação. Logo, o romance (ou o conto) deve ser feito de paixão, intrigas, perfídia, reticências, pus e lágrimas. Destarte, a matéria-prima da literatura de ficção é o espanto orquestrado pelo autor, como se fosse uma sinfonia desenfreada sob a batuta da verossimilhança. Mas como o escritor deverá habilitar-se ao ofício literário?

Para início de diálogo, para se fazer literatura de ficção vem a ser necessário intentar-se ao inaudível da narração; e, neste contexto, a representação deve ser arquitetada no mapa-múndi da escrituração do narrador, do enredo, do espaço, do tempo e das personagens, que serão ferramentas da ação e/ou da reflexão. Neste sentido, a presente crônica se predispõe a delinear ao escrevinhador iniciante os sete passos básicos da produção literária, que se alicerça nos elementos teóricos dos estudos científicos, que abarcam o ofício da escrita.

Primeiro passo:
Após a definição do enredo (história), o escritor deverá decidir-se entre a narração em primeira ou terceira pessoa, ainda que ainda possa se utilizar da narrativa híbrida, a partir da seguinte definição autoral: qual a história do livro e como será contada ao Leitor?

Segundo passo:
Quando se define o enredo (história) e a voz narrativa, o autor já instituiu espontaneamente o espaço (lugar geográfico em que se passa a história); e o tempo da narração (ambiência cronológica do enredo), de modo que já se formulou a estrutura da obra de ficção, que pode até ser fragmentada, o que se configura como livro de contos.

Terceiro passo:
Neste momento da efabulação, é imprescindível definir o perfil das personagens. Após tal distinção entre protagonistas e secundários, torna-se cogente o cronograma de desenvolvimento das suas características físicas e psicológicas, aproximando-os da condição humana.

Quarto passo:
De porte dos cinco elementos da narração: narrador, enredo, tempo, espaço e personagens, o sexto fator essencial ao ato da criação literário vem a ser a acepção da linguagem, que será forjada pela narrativa a partir do direcionamento do discurso ao público leitor.

Quinto passo:
Neste ponto da escrita, cabe a seguinte indagação: a história será contada em ordem cronológica? Em caso contrário, é elementar decidir sobre a estratégia da narração, de acordo com o fluxo do encadeamento narrativo — início, meio e fim, embora o escritor possa se utilizar do recurso do flashback (ruptura da sequência temporal).

Sexto passo:
Neste estágio da criação, o escritor irá deliberar sobre a estruturação da obra literária; ou seja, se o discurso será subdivido por partes e capítulos, uma vez que é fundamental estabelecer o subterfúgio da divisão estrutural, como suporte para o armazenamento das ações/reflexões do enredo (história).

Sétimo passo:
De posse das informações delineadas, o autor deverá se munir de disciplina, concentração e resistência, para lidar com as intempéries da criação literária. Não obstante, o mais fundamental da prática da escritura vem a ser a organização das ideias, o que se caracteriza como concisão discursiva (clareza e fluidez), que se alia ao contexto da coerência (exclusão do contraditório não intencional); da coesão (emprego adequado dos conectivos); e do conhecimento gramatical (domínio da ortografia, concordância e regência).

Enfim, o ideal é recordar-se do conselho do poeta chileno Pablo Neruda, que nos diz que: “Escrever é fácil: começa com letra maiúscula e termina com ponto final. Depois, é só colocar a palavras no meio”.

Mãos à obra!…

*Por Wander Lourenço
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*Fonte: revistabula