José Saramago e a indiferença social

Uma das obras mais famosas e célebres de José Saramago é Ensaio sobre a Cegueira, romance que convida a uma reflexão profunda sobre a alma humana e sobre o que aos nossos olhos parece invisível.

José Saramago foi a voz mais autoritária da literatura portuguesa. O refinamento de sua escrita lhe valeu o Prêmio Nobel, mas não menos importante foi seu compromisso do ponto de vista político e social. Obras como “Ensaio sobre a cegueira” são um meio excepcional de catarse, um ponto de partida para a reflexão filosófica, um convite claro para “acordar”.

De José Saramago diz-se frequentemente que ele era um agitador de consciências. Ele nunca desistiu de denunciar as injustiças e sempre assumiu uma posição clara contra os conflitos de sua época. Em uma de suas palestras, ele se definiu como um escritor apaixonado, impulsionado pela necessidade de levantar cada pedra, mesmo sabendo que monstros reais poderiam estar escondidos embaixo.

A busca da verdade e o desejo de estimular a mente eram os ingredientes de um estilo literário único. Suas parábolas, construídas com imaginação, ironia e compaixão, desenham uma realidade que ninguém pode permanecer indiferente.

Vários anos após sua morte, os trabalhos de Saramago continuam sendo reimpressos em diferentes idiomas. E nem mesmo as novas gerações permanecem insensíveis ao encanto de uma personalidade tão multifacetada, um homem que chegou a pensar em completar a Declaração Universal dos Direitos Humanos com sua Carta de Deveres e Obrigações. .

Foi o escritor mais brilhante que Portugal nos deu, ao lado de outros nomes ilustres como o de Fernando Pessoa e Eça de Queiroz . Sua provocativa, mágica e perturbadora obra nos convidou a analisar o presente através de seus olhos.

“Os três males do homem moderno são a ausência de comunicação, a revolução tecnológica e uma vida centrada no triunfo pessoal”.

-José Saramago-

Biografia de José Saramago, um estudioso de origens humildes

José de Sousa Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922 na Golegã, Portugal. Seus pais eram José de Sousa e María da Piedade, um casal de agricultores de origem humilde que ganhavam a vida com o trabalho duro da terra. Quando o pequeno José tem apenas dois anos, os dois decidem emigrar para Lisboa em busca de melhor sorte.

Na capital portuguesa conseguem alcançar uma certa estabilidade econômica. O pai começa a trabalhar como policial e José tem a oportunidade de receber educação primária. Por alguns anos ele frequentou um Instituto Técnico, mas foi forçado a sair quando seus pais não podiam mais pagar a ele o ensino médio.

Por esse motivo, o jovem José não tem escolha senão começar a trabalhar em uma fundição. Ao realizar essa atividade, com a qual ele ganha a vida, ele também usa outras roupas: as de erudito . Na verdade, ele nunca para de ler, aprendendo sozinho e, acima de tudo, escrevendo . Assim, em 1947, aos 25 anos, publicou seu primeiro romance, Terra del Peccato . Nesse mesmo ano nasceu sua filha Violante, fruto do primeiro casamento.

Maturidade como escritor e jornalista comprometido

A partir de 1955, José Saramago começou a traduzir as obras de Hegel e Tolstoi para a editora Estúdios Cor. Ao mesmo tempo, ele se esforça para tornar seu estilo de escrita mais maduro, e está empenhado em buscar novas oportunidades para alcançar o sucesso com seus romances. No momento, na verdade, apesar do talento inquestionável, nenhum editor está disposto a publicar seus trabalhos.

Depois de ver o novo romance rejeitado, Claraboia (que será publicado somente após sua morte), Saramago leva vários anos para decidir tentar novamente. Teremos que esperar até 1966, com Poemas Possíveis e uma segunda coleção de poemas, Provavelmente Alegria

Tendo alcançado o sucesso literário, Saramago sente a necessidade de embarcar em uma nova carreira no mundo do jornalismo. Começou a trabalhar para o jornal Diário de Notícias, onde mais tarde retornou como vice-diretor. Mais tarde trabalhou como comentarista político no Diário de Lisboa.

Em 25 de abril de 1974, a chamada Revolução dos Cravos explode em Portugal e, desde então, Saramago tomou a decisão de dedicar-se exclusivamente à escrita. Agora é uma figura conhecida e respeitada, e o que ele quer é deixar mais obras, mais livros para o mundo. Desde 1976 publica Os Apontamentos, obras teatrais como A Noite (1979) e livros de histórias como Objecto quase (1978).

O Prêmio Nobel

Nos anos 80, José Saramago é agora um escritor mundialmente famoso. Memorial do Convento (1982) consagra-o definitivamente como um autor internacionalmente apreciado. Alguns anos depois, ele consolidou seu sucesso com A Jangada de Pedra (1986), o polêmico O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991) e, em particular, Ensaio sobre a cegueira (1995).

Seu estilo agora é mais procurado e seus livros são mais engajados, de modo que, em 1998, o Comitê de Estocolmo (Suécia) deu a ele o maior prêmio por um escritor: o Prêmio Nobel de Literatura. Naquela época, José Saramago dividia sua vida entre duas terras: Lisboa e Lanzarote (Ilhas Canárias). Neste último lugar, ele passou os últimos anos de sua vida com sua terceira esposa, Maria del Pilar del Rio Sánchez, jornalista e tradutora espanhola.

Ele morreu em 18 de junho de 2010 depois de lutar por um longo tempo contra a leucemia. Ele tinha 87 anos e acabava de começar um novo romance , dos quais existem apenas as primeiras 30 páginas.

Ensaio sobre cegueira

“Nós não somos cegos, mas nós não vemos”. Essas palavras resumem bem a metáfora argumentativa de uma das obras mais perturbadoras de Saramago. Em Cegueira, falamos sobre a incapacidade dos seres humanos de reconhecer o próximo. As pessoas de repente se transformam em criaturas mesquinhas, seres cegos que precisam da orientação dos outros para entender as coisas e sobreviver.

O romance é uma profunda reflexão sobre a alma humana. É um conto distópico, que mantém você preso até pela curiosidade de descobrir por que essa estranha forma de cegueira afetou a população e continua a se espalhar como uma infecção. As coisas precipitam quando o governo decide colocar em quarentena os doentes, sujeitando-os a formas estritas de controle.

Entre os protagonistas da história, só se pode ver: uma mulher que acompanha o marido naquela prisão, emprestando-lhe, por sua vez, seus olhos para ajudá-lo em tudo o mais. No entanto, todo o cenário não é menos opressivo. A higiene é escassa, os soldados não hesitam em atirar em quem chega perto demais e a degradação começa a se espalhar. Lentamente, a situação assume a forma de uma verdadeira ditadura. O caos reina e a esperança é consumida inexoravelmente.

Uma obra em que nos é mostrada a cegueira interna do ser humano. Essa incapacidade de reconhecer um ao outro e que evoca egoísmo, perda de razão, conflito e medo. Um cenário perturbador, através do qual Saramago convida a uma reflexão moral corajosa.

Ensaio sobre a Cegueira é um livro chocante, um marco na literatura contemporânea que vale sempre a pena redescobrir ou descobrir pela primeira vez.

……………………………………………………………………
*Fonte: pensarcontemporaneo

 

“Ler é sempre um ato de poder”, afirma o escritor argentino Alberto Manguel

O escritor argentino Alberto Manguel, reconhecido internacionalmente por honrarias como o título de Oficial da Ordem das Artes e das Letras, do Ministério da Cultura da França, Alberto Manguel é diretor da Biblioteca Nacional argentina e autor de obras como “Dicionário de lugares imaginários” e “Uma história da leitura”.

Para o escritor, “ler é sempre um ato de poder” e, em sua opinião, a isso se deve o fato do leitor ser temido em quase todas as sociedades.

Manguel nos faz peercorrer um caminho histórico sobre a capacidade de ler – e da liberdade de ler – e nos faz refletir sobre fronteiras, identidade, poder e literatura.

……………………………………………………………..
*Fonte: revistapazes

Milton Santos ganha homenagem do Google

Para minha surpresa hoje ao abrir a página do Google lá está uma bela homenagem ao geógrafo Milton Santos. Fiquei contente, me fez lembrar de que na época da faculdade eu li dois ou três livros dele e que de alguma forma, me foram bem impactantes. Tenho algumas referências dessas leituras que trago junto comigo na bagagem da vida até hoje. E o interessante é de que justamente há poucos dias atrás eu comentava com um amigo sobre um de seus livros.

Abaixo um texto da Isto É sobre Milton Santos, que acredito ser mais prático do que eu mesmo aqui escrever algo sem grande conhecimento ou profundidade sobre a sua vida ou mesmo a amplitude de sua obra. Fica portanto o reconhecimento do blog a mais um grande e ilustre personagem Brasileiro – Milton Santos.

>> E a quem interessar possa, aqui um link para download FREE de 13 de seus livros em PDF:
https://www.geledes.org.br/milton-santos-13-livros-em-pdf-para-download/

……………………………………………………………………………..

A geografia não é geralmente considerada uma disciplina acadêmica controversa. Mas o estudioso brasileiro Milton Santos criou uma escola de pensamento diferente que via a geografia em sua totalidade, investida de significado e valor críticos. Durante uma carreira que durou mais de 50 anos, Santos defendeu uma “Nova Geografia” que abrangia mais do que as características físicas da Terra, abordando a vida das pessoas que vivem lá, bem como a distribuição de espaço e recursos que molda sua vida.

Nascido em 3 de maio de 1926, no bairro de Brotas de Macaúbas, na Bahia, Santos era filho de dois professores do ensino fundamental e, como resultado, foi educado em casa. Embora o ensino superior não fosse facilmente acessível a Santos, ele foi motivado a estudar, pelas lembranças de seu pai, que eles descendiam de escravos. Santos continuou sua busca pela educação ensinando geografia do ensino médio para pagar suas mensalidades universitárias. Em 1958 obteve seu doutorado em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, retornando da França para lecionar na Universidade Católica de Salvador e na Universidade Federal da Bahia.

Depois de décadas de contribuições para o seu campo, Santos tornou-se o primeiro brasileiro a ganhar o Prêmio Vautrin Lud International Geography, conhecido como o “Prêmio Nobel de Geografia” – em 1994. O prestigioso prêmio nunca foi concedido a um estudioso que escreveu em um idioma além do inglês. Nunca para descansar sobre os louros, a busca de Santos por conhecimento continuou com seu livro inovador The Nature of Space , que ganhou o Prêmio Jabuti do Brasil em 1997. Nesse mesmo ano ele também recebeu o título de Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Nem a velhice nem a doença amorteceram sua paixão pelas idéias em que acreditava. Em julho de 2000, Santos e alguns de seus alunos da Universidade de São Paulo publicaram um panfleto intitulado “O papel ativo da geografia: um manifesto”, que distribuíram em uma reunião nacional de geógrafos brasileiros. O texto provocativo desencadeou um debate apaixonado, assim como Santos pretendia sobre os efeitos sociais de uma dada geografia.

Embora seu trabalho ainda não tenha sido tão amplamente traduzido e distribuído como ele gostaria, o legado de Santos se destaca como um estudioso brilhante que se importava profundamente com as formas de criar um mundo melhor para toda a humanidade.

 

 

…………………………………………………………….
*Fonte: istoé

Woody Allen elege ‘Memórias póstumas de Brás Cubas’ como um de seus livros favoritos

RIO – Clássico da literatura brasileira, “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, é um dos livros favoritos do cineasta americano Woody Allen. “É uma obra muito, muito original”, disse o diretor de “Manhattan” e “Vicky Cristina Barcelona”.

Allen elencou para o jornal britânico “The Guardian”, as cinco obras de literatura que mais tiveram impacto sobre sua vida e sua obra. O livro de Machado de Assis aparece ao lado do aclamado “O apanhador no campo de centeio”, de J. D. Salinger; da coletânea de textos de humor “The world of S. J. Perelman”; e das biografias “Really the blues”, de Mezz Mezzrow e Bernard Wolfe, e “Elia Kazan”, de Richard Schickel.

Allen conta que ganhou o livro de presente de um brasileiro. “Eu recebi pelos correios. Alguém que eu não conhecia me mandou e escreveu ‘Você vai gostar disso’. Eu li porque não um livro grande. Se fosse maior, eu teria descartado. Mas fiquei chocado com como ele era charmoso e divertido. Não acreditava que ele tivesse vivido numa época tão distante. Você pensaria que foi escrito ontem. É tão moderno e prazeroso. É uma obra muito, muito original. O livro me despertou alguma coisa, da mesma forma que aconteceu com ‘O apanhador no campo de centeio’. Era um assunto de que eu gostava e que foi tratado com muita inteligência, uma originalidade tremenda e nenhum sentimentalismo”.

 

……………………………………………………………..
*Fonte:  oglobo

 

“El poema que Borges nunca escribió”

“Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo”

 

Você conhece esse poema?
Provavelmente já o leu ou alguém quem sabe, o tenha comentado algum dia com você. Se não o conhece, bem vale a leitura, é bom.
Mas acontece que erroneamente é considerado por muitos (há muitos anos), como sendo da autoria do escritor Jorge Luis Borges, mas na realidade não é. Nem se sabe ao certo o porque de atribuírem a ele, sua autoria.

Confira o texto abaixo de Elizabeth Lorenzotti que esclarece o assunto.

…………………………………………………………..
Desvendado o enigma. Esta matéria saiu no jornal espanhol El Pais, de 10/5/99.
A autora da poesia é uma senhora americana, Nadine Stair.  Quem está brava é a Maria Kodama, mas acho que brava demasiado.  Afinal, essa poesia rodou o mundo, de repente. Eu  fiquei procurando nas obras completas de Borges e nunca encontrei. Se ela rodou o mundo, é porque alguma função há de ter. E a poesia, como diz Anónio Scarmeta (O carteiro e o poeta) é para quem precisa dela.
  Um abraço
                                    Elizabeth

…………………………………………………………..

“El poema que Borges nunca escribió”

Una poetisa norteamericana es la autora de unos versos falsamente atribuidos al insigne argentino Jorge Luis Borges.
FRANCISCO PEREGIL, Madrid

El siguiente poema ha sido inscrito hasta en camisetas y tazas de porcelana; algunos lectores de Jorge Luis Borges, como Alfonso Guerra, ex vicepresidente del Gobierno, lo han reproducido en su última felicitación navideña, aunque se cubrió las espaldas sobre la autoría del mismo atribuyéndoselo a un “anónimo borgiano”. E incluso un anuncio de una compañía de seguros que se ve estos días en televisión parafrasea su comienzo:

“Si pudiera vivir nuevamente mi vida,  
en la próxima trataría de cometer más errores.  
No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.  
Sería más tonto de lo que he sido;  
de hecho tomaría muy pocas cosas con seriedad.
Correría más riesgos, haría más viajes,  
contemplaría más atardeceres,  
subiría más montañas,
nadaría más ríos.  

Iría a más lugares a donde nunca he ido,  
comería más helados y más habas,  
tendría más problemas reales y menos imaginarios
(…)”.
Pero también el anuncio en cuestión omite referirse al autor, que, según la creencia de la calle, sería Borges. Craso error, porque la verdadera
autora del apócrifo es una desconocida poetisa norteamericana llamada Nadine Stair, que lo publicó en 1978, ocho años antes de que Borges muriera, en Ginebra, a los 86 años.
La bola de nieve había comenzado a rodar en 1983. Aquel año, el escritor de best sellers Leo Buscaglia reproduce el citado poema en su libro Living,
loving & learning. Se lo atribuía a un hombre que sabía que iba a morir.  En 1986, el estadounidense Harold Kushner, autor de libros como ¿Quién
necesita a Dios?, publica Cuando nada te basta, cómo dar sentido a tu vida, libro de la editorial Emecé en cuya página 162 se lee: “Recuerdo haber leído un reportaje sobre una mujer de los montes de Kentucky, en el cual se le pedía que pasara revista a su vida y reflexionara sobre todo lo que había aprendido. Con el típico toque de nostalgia que tiñe toda evolución del pasado, la anciana respondió: ‘Si pudiera vivir nuevamente mi vida (…) He sido de esas que nunca iban a ninguna parte sin un termómetro, una bolsa de agua caliente, un paraguas y un paracaídas”.

Después de muerto Borges, la revista argentina Uno Mismo, especializada en psicología, publicó el poema bajo el título Instantes y se lo atribuyó al poeta argentino. María Kodama, viuda del escritor, consiguió que Uno Mismo rectificara y que el Ministerio de Cultura y Educación publicara  una gacetilla donde se aclarase quién fue la autora del poema. Pero en eso tardó ocho años.

Nadie sabía al principio de dónde procedían aquellas palabras. “Tardé demasiado tiempo en descubrir que ese poema fue publicado originariamente en inglés”, afirma Kodama. Cuando consiguió reparar el entuerto, el poema se había expandido a base de fotocopias por los
institutos y universidades de medio mundo.

El año pasado, en la librería de Alfonso Guerra en Sevilla, una mujer próxima al ex vicepresidente le confesó a María Kodama su admiración por esos versos, su identificación con el contenido. A lo cual, Kodama contestó: “Si Borges hubiera escrito eso yo habría dejado de estar enamorada de él en ese momento”.

“El poema, sin ningún valor literario”, ha escrito Kodama, “desvirtúa el mensaje de la obra de Borges. Amparándose en una firma famosa, se
intenta transmitir un sentido de la vida completamente materialista, sin ninguna busca de perfección espiritual ni inquietud intelectual”. 

 

…………………………………………..
*Fonte: jornaldapoesia

Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro

“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”, afirma Giorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salvà e publicada por Ragusa News, 16-08-2012.

Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.

Segundo ele, “a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governabilidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas”. Assim, “a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben.

A tradução é de Selvino  J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC [e tradutor de três das quatro obras de Agamben publicadas pela Boitempo], para o site do Instituto Humanitas Unisinos.

***

O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe  financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itália. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?

“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. “Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.  O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu  o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?

A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado.  Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história e o passado têm um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.

O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar) têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim, da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com  as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.

Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado  ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.

A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?

Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo, foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política. O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma  da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.

O mal-estar, para usar um eufemismo, com que  o ser humano comum se põe frente ao mundo da política tem a ver especificamente com a  condição italiana ou é de algum modo inevitável?

Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais  econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.

O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?

Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia  em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos. Poucos  sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmeras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível  aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmeras não é mais um lugar público: é uma prisão.

A  grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal,  o futuro será melhor do que o presente?

Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: “a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.

Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a aula que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação  de como sair do xeque-mate no qual a arte contemporânea está envolvida.

Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade  que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercantilização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea, as duas coisas coincidem.

Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um  objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.

Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercantilização.  Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com não-obras e performances em museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

***

Sobre o autor

Giorgio Agamben nasceu em Roma em 1942. É um dos principais intelectuais de sua geração, autor de muitos livros e responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin. Deu cursos em várias universidades europeias e norte-americanas, recusando-se a prosseguir lecionando na New York University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos. Foi diretor de programa no Collège International de Philosophie de Paris. Mais recentemente ministrou aulas de Iconologia no Istituto Universitario di Architettura di Venezia (Iuav), afastando-se da carreira docente no final de 2009. Sua obra, influenciada por Michel Foucault e Hannah Arendt, centra-se nas relações entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente, política. Entre seus principais livros destacam-se Homo sacer (2005), Estado de exceção (2005), Profanações (2007), O que resta de Auschwitz (2008) e O reino e a glória (2011), os quatro últimos publicados no Brasil pela Boitempo Editorial.

…………………………….
*Fonte: blogdaboitempo

giorgioagamben

 

Jack London, o mito permanente

Um dos mais vigorosos autores norte-americanos, Jack London, não teve até agora uma biografia à altura de sua vida, movimentada o bastante para preencher um livro onde se mesclariam aventura, drama, política, romance e tragédia. Fora alguns fracos relatos biográficos aqui e ali (incluso um escrito pela filha de Jack, Joan London, em 1938), dois autores intentaram descrever sua vida: Irving Stone, em 1938, e mais recentemente, Alex Kershaw, em 2000. O livro de Stone foi traduzido e lançado, há anos, no Brasil, com o título: “A Vida Errante de Jack London”. Deixa muito a desejar, levando em conta que o autor fez trabalhos melhores, incluindo uma biografia de Van Gogh, e uma de Michelangelo, levada ao cinema no filme “Agonia e Êxtase”, com Charlton Heston.

Talvez os métodos de pesquisa, relativamente pobres na década de 1930, tenham limitado o trabalho de Stone. Kershaw teve mais sucesso, embora não se possa dizer que seja uma biografia definitiva. Com mais fontes ao seu alcance, encontrando dados organizados em bibliotecas, universidades e fundações mais recentes, ele conseguiu construir um livro mais profundo, aprimorado e ilustrado. Pena que ainda não haja tradução em português. Mas quem quiser conhecê-lo, pode conseguir a versão espanhola, “Jack London — Un Soñador Americano”, da Editora La Liebre de Marzo, de Barcelona. A internet põe qualquer livraria do mundo ali na esquina.

London escreveu o que viveu, e seus livros têm três cenários distintos: o mais apreciado é, sem dúvida, o da corrida do ouro no Alaska, vindo depois o das ilhas até hoje deslumbrantes do Pacífico Sul e finalmente o espaço político socialista (e comunista) norte-americano do fim do século 19 e início do século 20. Nesses três cenários, Jack London gastou intensamente sua breve existência, viveu as emoções mais profundas, correu os riscos mais mortais, travou as mais duras batalhas. De fato, tinha o que relatar. Cumpriu o que prometia: “Mais vale uma existência curta, mas brilhante. Não passarei meus dias tentando prolongá-los; prefiro ser cinzas a ser pó”. Morreu aos 40 anos. Uma emenda: além dos relatos nesses três espaços que mencionei, Jack London também deixou uma produção curta, mas de qualidade, no que poderíamos classificar como ficção científica. E uma novela autobiográfica, “John Barleycorn, ou Memórias Alcoólicas”, na qual narra sua briga com o alcoolismo.

Não podia, como todo homem inteligente, deixar de se perguntar: de onde viemos, para onde vamos? London buscou respostas em algumas fontes conhecidas: Spencer, Darwin, Marx e Nietzsche. Teve como livro de cabeceira, durante anos, “Os Primeiros Princípios”, de Herbert Spencer. Encantou-se com Charles Darwin depois das aventuras no vale gelado do Yukon, onde a sobrevivência era privilégio dos mais fortes. Achou que Karl Marx tinha as respostas quando a sensibilidade que ele escondia atrás de sua fortaleza indagava sobre as injustiças sociais. Foi um militante comunista. Mas en­­­cantava-se com a ideia de que havia seres superiores, mais fortes e mais aptos — condutores — destinados a apontar caminhos para as massas, como interpretava nas leituras de Friedrich Nietzsche (1844 — 1900), justamente o filósofo que inspiraria Hitler, meio século depois, a tentar esmagar o comunismo. No último ano de vida, ainda buscou respostas em outro psicólogo e psiquiatra: Carl Jung.

Jack London teve uma infância pobre e difícil, em companhia da mãe, Flora Wellman Griffith, abandonada pelo primeiro marido, e pai de Jack, que nunca o reconheceu, William Chaney, quando o garoto tinha apenas alguns meses. Aos quatorze anos, logrou terminar a escola secundária, mas a penúria não só o fez interromper os estudos, como o obrigou a um trabalho duro, de 12 horas diárias ininterruptas e miseravelmente pagas, em uma fábrica em São Francisco, onde havia nascido. Vivia então em Oakland, do outro lado da baía de São Francisco. Autodidata desde essa idade, nas horas vagas frequentava a biblioteca de Oakland. E foi então que, para fugir às agruras da vida, começou com a bebida, vício que não deixaria — embora o negasse — até a morte prematura. Outra consequência desses tempos duros foi fazê-lo abraçar, mais tarde, o comunismo, que nada mais era, à época, do que uma teoria promissora de igualdade e abastança, e só mais tarde viria, na prática, a mostrar a sua crua face de utopia esmagadora. London, buscando uma independência — já falava em ser escritor — passou por uma fase em que pilhava ostras nos criatórios da baía de São Francisco, em camaradagem com outros jovens piratas. Depois mudou de lado, e empregou-se na guarda costeira, que perseguia os piratas.

Aos 17 anos, engajou-se num navio que se dirigia, na caça às focas, ao gelado Mar de Bering. Quase um ano no mar e ele desembarcou de volta na baía de São Francisco com algum dinheiro — pouco — no bolso, mas muitos livros lidos a bordo, muitas aventuras vividas e muitas ideias na cabeça para novelas e contos futuros. Foi dessa experiência que tirou mais tarde um dos livros de maior sucesso de sua carreira (e da literatura americana): “O Lobo do Mar”. O pontapé inicial de sua vida de escritor foi dado nessa volta: London ganhou um concurso para autores jovens que um jornal de São Francisco havia aberto, com o conto “Tufão nas Costas do Japão”. Não havia feito nada mais que contar, com seu talento nascente, uma experiência que o havia marcado para sempre, e que não se cansaria de mencionar em suas conversas: o quase naufrágio do navio caça-focas em que estava, quando enfrentou um furacão na costa japonesa. Passou dois anos acompanhando pelos EUA desempregados pela depressão de 1890 e frequentando reuniões promovidas pelo Partido Comunista Americano, uma criação de imigrantes alemães da década de 1840, a que Jack aderiu com entusiasmo juvenil, mesmo porque já era leitor de Marx.

Foi aos vinte anos, em 1896, que fez sua última tentativa de concluir um ensino formal. Estudando só, e com muito esforço, desempregado, conseguiu ser aprovado na admissão ao curso de letras da Universidade de Berkeley. Não ficou um ano. Tinha que trabalhar, cuidar da mãe. E era muito inquieto para o formalismo dos bancos de escola. Convencido de que havia de ser escritor, começou a enviar trabalhos para revistas americanas, sem sucesso. Foi obrigado a aceitar alguns empregos menores para sobreviver, até que ouviu falar de Klondike, no noroeste do Canadá, onde o ouro era abundante e a fortuna era fácil. Conseguiu um empréstimo com a irmã de criação (Flora, sua mãe, havia se casado pela segunda vez, com um viúvo, John London, que tinha um casal de filhos, e de quem Jack adotaria o sobrenome) e, junto com o marido dela, partiu para o Alaska. Jack tinha 21 anos. Viajaram num navio onde se empilhavam centenas de aventureiros ansiosos pela colheita de ouro. Pouquíssimos conseguiriam algum sucesso, e muitos encontrariam a morte pela estafa, pelo congelamento, pela fome, pelas disputas entre eles mesmos ou com os nativos ferozes. Depois de um ano e muitas dificuldades, incluindo um grave ataque de escorbuto, Jack estava de volta a São Francisco. Sem uma grama de ouro sequer, mas com uma fortuna intangível em sua memória: lembranças para mais contos e novelas do que ele chamou de o silêncio branco e dos homens e animais que o desafiaram. Jack agora só queria escrever.

Leitor de Herman Melville, Robert Louis Stevenson, Zola, Flaubert e Turguêniev, sonhava com o sucesso deles. Acima de tudo, invejava Rudyard Kipling, então o escritor mais famoso do mundo. Chegou a copiar, à mão, as obras de Kipling, pensando assim absorver seu estilo. Logo London, dizendo-se comunista e admirando o mais colonialista dos autores. Durante quase um ano, a máquina de escrever de Jack trabalhou muito, mas os resultados não vinham. Jornais e revistas publicaram alguma coisa, sem grande repercussão. Por sobrevivência, London chegou a ocupar um posto inexpressivo nos correios, até, que em 1899, a maior revista da costa oeste americana, “Overland Monthly”, publicou seu conto — que até hoje faz parte das grandes antologias do conto mundial — “O Silêncio Branco”. O sucesso foi imediato, e lhe abriu as portas de outras publicações, inclusive da então maior revista americana, a “Atlantic Monthly”, que fechou com ele um contrato para mais algumas estórias. Com a fama crescente vieram os contratos com as editoras, revistas e jornais, mas nunca a fortuna. London gastava sempre mais que ganhava e vivia atolado em dívidas. Alguns anos depois, num artigo na revista “The Editor”, daria conselhos aos pretensos escritores, e usaria uma frase que seria repetida e tornada famosa por Churchill décadas depois, ao começo da Segunda Guerra: “Não deixe seu trabalho para escrever, a não ser que ninguém dependa de você. De todas as classes de obras, a ficção paga melhor e quando tem qualidade, se vende mais fácil. Uma boa piada vende melhor que um bom poema e, visto que você verteu sangue, suor e lagrimas, estará mais bem remunerado…”.

Entre 1902 e 1915 foram publicados seus livros de maior sucesso, alguns ainda sobre o Yukon: “A Filha das Neves”, “O Chamado Selvagem” e “Caninos Brancos”, outros sobre a vida no mar: “O Lobo do Mar” e “O Motim do Elsinore”, os politicamente engajados: “O Tacão de Ferro” e “Martin Eden”, e os science-fiction: “Antes de Adão”, “A Praga Escarlate” e “O Vagabundo das Estrelas”. O livro “A Estrada”, de Cormac McCarthy, tem muito de “A Praga Escarlate”. Houvesse o que houvesse, Jack escrevia mil palavras por dia. Só assim pôde produzir tanto em poucos anos de trabalho (e de existência). Mas uma vida de bebedeiras, drogas (sim, já existiam) e péssima alimentação cobrou a conta. Ele não estava disposto a pagar. Sua saúde deteriorava-se rapidamente. O antigo boxeur tornara-se frágil. Matou-se, ingerindo morfina, em 1916, aos 40 anos. Alex Kershaw, inexplicavelmente, esconde ou lança dúvidas sobre esse ato. Inútil. É sabido que London até calculou a dose fatal antes de tomá-la.

Bonitão, atlético, bem falante, e, ao final, famoso, foi homem de muitas mulheres. Nunca amou, na verdade, sua primeira mulher, Elizabeth (Bess) Madern, que lhe deu duas filhas, e que guardou ressentimentos até a morte por ter sido abandonada e trocada por sua melhor amiga, Charmian Kittredge, ela, sim, o grande e permanente amor, correspondido, de Jack London, que teve ainda, ao lado de muitas aventuras ocasionais, um amor platônico: a bela judia Anna Strunsky, que acabou se casando com outro, para grande desgosto de Jack, mas que manteve correspondência com ele, por quem tinha grande admiração e amizade, até sua morte.

London é muito lido, até hoje, e não só nos países de língua inglesa. E já lá vai um século desde que morreu. Por que é tão lido? Jack London, como todo grande escritor, consegue dar algumas sacudidas em nossa alma. Aprofunda algumas de nossas perguntas mais renitentes e até consegue responder a outras. O faz, às vezes, num simples conto, e London foi, como Tchekhov, acima de tudo um grande contista. Sugiro ao leitor dois contos seus, reveladores da sabedoria da vida: “O Combate” e “As Tartarugas do Tasman”.

Seus romances políticos, ainda que de um vigor incomum, não são o melhor de sua produção. Não foi Marx seu maior inspirador. O que conta mesmo, em sua obra, e é conhecido por isso, é sua descrição do que se convencionava chamar “struggle for life”. A luta que todos enfrentamos, em alguma ocasião, por nossa existência. O instante fatal, a que poucos conseguem emprestar o valor e o brilho — mencionado pelo Kipling admirado por London. E, embora com o coração tocado pela solidariedade, pela fraternidade e pela brandura, Jack London relatou o que viveu, e viveu a dura disputa pela sobrevivência, o homem contra outros homens, contra animais e contra a natureza, ora perdendo, ora vencendo.

Lutador pela igualdade entre os homens, sempre exaltou os mais fortes, e nunca deixou de enunciar a lei da natureza que contempla os mais aptos. Acreditou mesmo nessa igualdade inexistente? Defensor do internacionalismo, viu no Britânico qualidades superiores, de desbravador e civilizador, a ponto de sempre falar no “fardo do homem branco”, do poema de Kipling, cujos primeiros versos são mais que sugestivos: “Toma o fardo do homem branco/ Desterra o melhor de tua prole/ Obriga teus filhos ao exílio/ A servir as necessidades dos conquistados/ A esperar com pesadas cadeias/ Sobre um povo abatido e selvagem/ As recém aprisionadas desconsoladas pessoas/ Meio demônios e meio crianças”. O fato é que a lei da vida está presente em seus escritos mais atraentes, mais vigorosos e até mais verazes. Foi ela, com sua dureza, e não outra lei qualquer, por mais ideal e encantadora que fosse, que ele encontrou pela existência afora, como não poderia deixar de ser. Uma lição de sua obra é a de que podemos sonhar com outros mundos, mas a natureza inexorável nos traz de volta a este onde vivemos, tão logo abramos os olhos. Onde a brandura é mais rara que o ouro. A natureza não derrama lagrimas.
…………………………..
*Fonte: revistabula /

 

Sete tons de física: como um cientista levou seu livro de teorias a superar best-sellers eróticos

Físicos de alto nível estão acostumados a desvendar alguns dos mais complexos e misteriosos fenômenos da natureza. Mas dificilmente conseguem a façanha alcançada pelo italiano Carlo Rovelli: transformar em assunto atraente e popular temas áridos como a Teoria da Relatividade Geral, a mecânica quântica e as partículas elementares. Depois de publicar seu livro Sete Breves Lições de Física, no ano passado, Rovelli viu os exemplares sumirem das prateleiras como se tivessem sido engolidos por um buraco negro.

Na Itália, o livro de apenas 78 páginas superou as vendas do best-seller 50 Tons de Cinza, com mais de 350 mil cópias, depois de 18 reimpressões. A obra já foi traduzida a 28 línguas e está entre as mais vendidas nos Estados Unidos e na Inglaterra, feito raro para obras que não são escritas em inglês. Com tal sucesso no mercado mundial, a editora Objetiva, que lançou o livro de Rovelli no Brasil no fim de 2015, decidiu repensar a estratégia de marketing da edição brasileira.

Rovelli conta que o fenômeno de vendas, no início, o deixou mais intrigado que as espinhosas questões de seu campo de pesquisa: a gravidade quântica. “Foi uma surpresa enorme. Quando comecei a tratar com meu editor italiano, falávamos em 3 mil cópias”, disse ao Aliás.

Apesar da surpresa, Rovelli, que é professor de física na Universidade Aix-Marseille, na França, também tem suas teorias para explicar a popularidade. “As pessoas são mais curiosas sobre a ciência, a origem e o funcionamento do mundo, do que imaginamos. E, um pouco por acaso, o livro encontrou uma forma de falar com todo mundo.”

O segredo de Rovelli se apoia em aliar o domínio de seu campo de conhecimento ao interesse por filosofia, arte, história. Como pesquisador, ele foi capaz de manter no livro o rigor científico. Como humanista, distanciou-se de discursos muito técnicos. “O livro oferece uma visão simples do mundo, que é compatível com a ciência. Mas, ao mesmo tempo, não é frio. Há espaço para paixão, fascínio, emoção e beleza na física.”

Beleza é justamente a característica que Rovelli atribui à Teoria da Relatividade de Albert Einstein, da qual trata o primeiro capítulo do livro. “É a mais bela das teorias, por sua extrema simplicidade e clareza.” No texto, ele conquista o leitor ao narrar a emoção que sentiu ao compreender pela primeira vez a teoria que revolucionou nossa noção do espaço e do tempo – no fundo, é simples: a gravidade não era uma “força” de atração entre os corpos, como se pensava, mas uma “deformação no espaço-tempo” provocada pela presença de objetos com massa. A maçã cai porque o espaço se curva com a gravidade da Terra. “Era como se um amigo me sussurrasse uma extraordinária verdade oculta, e de repente afastasse um véu, para revelar nela uma ordem mais simples e mais profunda”, escreve Rovelli, em seu livro.

Ao contrário da relatividade, a mecânica quântica – tema do segundo capítulo – é obscura, com suas ondas que são partículas e vice-versa. “É um tema com muitos pontos de interrogação”, diz Rovelli. Se “a relatividade geral é uma pedra preciosa compacta”, a teoria quântica “ainda permanece envolta em um estranho aroma de desconhecimento e mistério”, como ele escreve. A obscuridade, no entanto, não impediu que essa teoria produzisse aplicações tão concretas como os computadores.

Com o título “A arquitetura do cosmo”, a terceira lição se baseia em desenhos simples e esquemáticos, quase infantis, para mostrar o que a física sabe sobre o Universo em grande escala. A perspectiva é histórica: Rovelli mostra como a imagem que o ser humano tem do cosmo se transformou ao longo do tempo, da Terra plana da antiguidade à consciência de um Universo que se expande sem parar há 13,7 bilhões de anos.

Da imensidão do cosmo, Rovelli passa ao infinitamente pequeno na quarta lição, sobre as partículas elementares que compõem a matéria. Ele tenta desconstruir a ideia de que as partículas são pequenos tijolos, como pensavam os autores da mecânica positivista. Elétrons, quarks, fótons, neutrinos e “novas” partículas como o bóson de Higgs “vibram e flutuam continuamente entre o existir e o não existir” – quem diz que não é sexy? –, combinando-se como “um alfabeto cósmico para contar a imensa história das galáxias, das montanhas, dos campos de trigo, dos sorrisos dos jovens nas festas…”

A especialidade de Rovelli é o tema da quinta parte do livro: a gravidade quântica, que nada mais é que uma tentativa de harmonizar duas teorias até agora inconciliáveis: a relatividade geral de Einstein e a mecânica quântica. Sua previsão central (vamos lá) é difícil de conceber: o espaço não seria contínuo, nem divisível ao infinito, mas sim formado por “grãos”, uma espécie de “átomos de espaço”, bilhões de vezes menores que os núcleos atômicos. “É uma teoria que ainda não está estabelecida, estamos trabalhando nela.” O impacto prático da gravidade quântica é ainda imprevisível. Mas quando um jovem grupo de cientistas desenvolveu a física quântica, no início do século 20, ninguém poderia imaginar que resultaria no desenvolvimento – para ficar num só exemplo entre milhares – nos relógios atômicos que permitem a existência do GPS.

A sexta lição trata de um tema ainda mais intrigante: a ligação entre o conceito de calor e a noção de tempo. “É o capítulo mais difícil, no qual mostro que o tempo tem a ver com a termodinâmica, que é a física do calor.” Sabemos que o calor de uma substância aumenta à medida que seus átomos se movem com mais velocidade. E sabemos que o calor flui sempre das coisas mais quentes para a mais frias. O que talvez não saibamos é que essa “direção” do calor é a chave da natureza do tempo. “Mostro em meu livro que, para distinguir passado do futuro, é preciso haver trocas de calor.”

Embora ele fale no título de sete “lições”, o último capítulo é mais uma reflexão sobre a humanidade – algo que atrai cientistas, de Isaac Newton a Stephen Hawking. “São considerações sobre como pensar este mundo, que é o nosso mundo, mas é muito diferente do que nos contam.” Podem servir, inclusive, para nos tornar mais livres. Por meio da física? Por meio do conhecimento. “Ser livre não significa que nossos comportamentos não sejam determinados pelas leis da natureza. Significa que eles são determinados pelas leis da natureza que agem no nosso cérebro”, ensina Rovelli.

………

*Fonte: estadao

fisica2026

Ah! Os relógios!

Ah! Os relógios!
Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológicos…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de Poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…

Mario Quintana – A Cor do Invisível, 1989.

relogios1

João Ubaldo Ribeiro

Sem querer fazer deste blog um obituário, mas com pesar se noticia a morte do escritor João Ubaldo Ribeiro, um dos escritores nacionais preferidos aqui da diretoria.

Prêmios:
– Prêmio Golfinho de Ouro, do Estado do Rio de Janeiro, conferido, em 1971, pelo romance Sargento Getúlio;
– Dois prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1972 e 1984, respectivamente para o Melhor Autor e Melhor Romance do Ano, pelo romances Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro;
– Prêmio Altamente Recomendável – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil,1983, para Vida e Paixão de Pandonar, o Cruel;
– Prêmio Anna Seghers, em 1996 (Mogúncia, Alemanha);
– Prêmio Die Blaue Brillenschlange (Zurique, Suíça);
– Detém a cátedra de Poetik Dozentur na Universidade de Tubigem, Alemanha (1996).
– Prêmio Lifetime Achievement Award, em 2006;
– Prêmio Camões, em 2008.

Romances:
– Setembro não tem sentido – 1968
– Sargento Getúlio – 1971
– Vila Real – 1979
– Viva o povo brasileiro – 1984
– O sorriso do lagarto – 1989
– O feitiço da Ilha do Pavão – 1997
– A Casa dos Budas Ditosos – 1999
– Miséria e grandeza do amor de Benedita (primeiro livro virtual lançado no Brasil) – 2000
– Diário do Farol – 2002
– O Albatroz Azul12 – 2009

Contos:
– Vencecavalo e o outro povo – 1974
– Livro de histórias – 1981. Reeditado em 1991, incluindo os contos “Patrocinando a arte” e “O estouro da boiada”, sob o título de Já podeis da pátria filhos

Crônicas:
– Sempre aos domingos – 1988
– Um brasileiro em Berlim – 1995
– Arte e ciência de roubar galinhas – 1999
– O Conselheiro Come – 2000
– A gente se acostuma a tudo – 2006
– O Rei da Noite – 2008

Ensaios:
– Política: quem manda, por que manda, como manda – 1981

Literatura infanto-juvenil:
– Vida e paixão de Pandonar, o cruel – 1983
– A vingança de Charles Tiburone – 1990
– Dez bons conselhos de meu pai – 2011

joao ubaldo ribeiro