O filósofo Alan Watts: “Por que a educação moderna é uma farsa”

Explore a visão de um filósofo lendário sobre como a sociedade falha em nos preparar para a educação e o progresso.

Um prolífico orador, escritor e filósofo, Alan Watts foi uma das primeiras figuras contemporâneas no início do século XX a levar a filosofia e o pensamento Zen Oriental a um grande público ocidental. Ele foi uma figura instrumental na revolução da contracultura dos anos 60 e continuou a escrever e filosofar até sua morte em 1973. Suas palestras e escritos hoje parecem estar vendo um ressurgimento da popularidade.

Com incontáveis horas de suas extensas palestras online, testadas na música dos sonhos do chillwave e na similaridade de sua voz, ele até aparece como um I.A avançado no filme Her, parece que Alan Watts ainda tem muito a nos dizer.

O conselho de Alan Watts sobre educação é mais presciente agora do que nunca

Em nossa era atual de ansiedade industrializada em massa, tanto estudantes quanto educadores estão trabalhando em horas mais extenuantes e improdutivas, enquanto, ao mesmo tempo, ainda estão com desempenho ruim quando comparados a sistemas educacionais mais relaxados e produtivos, como os da Escandinávia.

Aqui está um pronunciamento de Alan Watts que resume uma grande parte de sua perspectiva filosófica.

“Se a felicidade sempre depende de algo esperado no futuro, estamos perseguindo um fogo-fátuo que jamais alcançaremos, até o futuro, e nós mesmos desapareceremos no abismo da morte.”

Levando em conta algumas das filosofias de Watts, podemos mudar nossos pontos de vista sobre o tema da vida, aprendizagem e educação através de um ponto de vista mais inspirado e caprichoso.

O ciclo interminável da escola para nos preparar para o que está por vir

Para a grande maioria de nós, nossos primeiros anos de vida foram definidos pelas escalas sempre crescentes que progredimos, desde o ensino fundamental até o ensino médio e assim por diante. Estes eram os nossos símbolos internos de classificação e status à medida que avançávamos nas grandes mudanças biológicas e mentais de nossa vida, mudando de um degrau bem colocado para outro e seguindo as ordens de nosso professor, se quiséssemos acompanhar o caminho já estabelecido para nos tornarmos um membro de sucesso da sociedade.

Alan Watts achava essa ideia uma progressão estranha e antinatural de nossos primeiros anos de vida, e algo que indicava uma questão muito mais profunda em como vemos a natureza da mudança e da realidade. Watts diz:

“Vamos fazer a educação. Que farsa. Você tem uma criança, você vê, e você a coloca em uma armadilha e a envia para a creche. E na creche, você diz à criança: ‘Você está se preparando para ir adiante. E então vem o primeiro grau, e segundo, e terceiro grau ‘. Você está gradualmente subindo a escada em direção ao progresso, e então, quando chega ao final dessa etapa, você diz: ‘agora você está realmente indo em frente’. Certo? Errado.”

Quer conscientemente reconheçamos isso ou não, essa natureza progressiva e expectante da realidade que fomentamos durante nossos anos de escola é algo que se torna um tecido inegável da maneira como vivemos e pensamos. Ela fica conosco toda a nossa vida.

Estamos constantemente avançando para uma meta que está fora de alcance – nunca no agora, sempre mais tarde, ou depois disso ou daquilo que foi alcançado.

Watts acreditava que essa mesma lógica se aplica a nós quando deixamos o sistema escolar em camadas. Ele continua dizendo:

“Mas na direção dos negócios, você vai sair para o mundo e ter a sua pasta e seu diploma. E então você vai para sua primeira reunião de vendas, e eles dizem ‘Agora saia e venda essas coisas’, porque então você está subindo a escala nos negócios, e talvez você consiga uma boa posição, e você a vende e aumenta sua cota.

“E então, por volta dos 45 anos, você acorda certa manhã como vice-presidente da empresa e diz para si mesmo olhando no espelho: ‘Eu cheguei. Mas me sinto um pouco enganado porque eu sinto o mesmo que sempre senti…’”

Já cheguei?

Aqui, Alan Watts aborda um pouco da filosofia budista clássica – a ideia de que realmente não há de fato nada para se esforçar e desejar. Watts vincula esse aspecto ao desejo de superação do sistema educacional que penetra em nossas vidas profissionais. Este é um exemplo do enfado interminável da busca materialista de alguma forma ou de outra.

Alan Watts continua dizendo:

“Alguma coisa está faltando. Eu não tenho mais um futuro.” “Uh uh” diz o vendedor de seguros: “Eu tenho um futuro para você. Esta apólice permitirá que você se aposente confortavelmente aos 65 anos, e você será capaz de esperar por isso.” E você está encantado, e você compra a apólice e, aos 65 anos, se aposenta pensando que essa é a realização do objetivo da vida, exceto que você tem problemas de próstata, dentes falsos e pele enrugada.

“E você é um materialista. Você é um fantasma, você é um abstracionista, você não está em nenhum lugar, porque nunca lhe disseram, e nunca percebeu que a eternidade é agora.”

Agora, ao invés de cair em um niilismo passivo (que é onde o pensamento budista pode levar), Alan Watts, ao contrário, argumenta por estar dentro do aqui e agora. Aprenda por aprender! A eternidade é agora … isto é, tornar-se parte integral do processo – seja o que for – e não se concentrar em um objetivo final sempre ilusório.

Não nos amarrarmos ao resultado final é algo que a maioria das pessoas nunca entenderá porque é contra-intuitivo. Este ideal foi um foco central da filosofia de Alan Watts.

No capítulo de abertura de seu livro The Wisdom of Insecurity, ele cunhou o termo “lei reversa”, da qual ele diz:

“Quando você tenta ficar na superfície da água, você afunda; mas quando você tenta afundar você flutua.”

Este koan dele ilustra que quando colocamos muita pressão em nós mesmos para encontrar algum ideal ou objetivo no futuro espectral, nós diminuímos o processo de trabalho em questão. Isso nunca será alcançado porque o que precisa ser feito não é nosso foco central.

Por outro lado, por estar completamente envolvido no presente, essas metas ilusórias no futuro poderiam um dia vir a ser concretizadas. É aí que o conceito fica confuso para alguns.

Mas isso pode ser resumido da seguinte maneira: não olhar para o futuro irá prepará-lo para isso.

Um sistema falho desde o início

Alan Watts comparou a educação compulsória ao sistema penal.

Alan Watts sentia que o sistema educacional falhava conosco, da mesma forma que nos preparava para esperar pelo resto de nossas vidas. Uma versão idealizada que ele inventou em sua cabeça sobre a aparência de uma grande educação educacional pode ser extraída dessa passagem:

“Quando trazemos crianças para o mundo, jogamos jogos terríveis com elas. Em vez de dizer: ‘Como você está? Bem-vindo à raça humana. Agora, meu querido, estamos jogando alguns jogos muito complicados, e essas são as regras de o jogo que estamos jogando, eu quero que você os entenda, e quando você os aprender quando ficar um pouco mais velho, você poderá pensar em algumas regras melhores, mas, por enquanto, quero que você jogue segundo nossas regras.

“Em vez de sermos diretos com nossos filhos, dizemos: ‘Você está aqui em liberdade condicional, e você deve entender isso. Talvez, quando crescer um pouco, você seja aceitável, mas até então você deve ser visto e não ouvido. Você é uma porcaria, e você tem que ser educado e instruído até que você seja humano. ‘”

Ele chegou a comparar o sistema educacional compulsório com fortes ressonâncias religiosas.

“‘Olhe, você está aqui sofrendo. Você está em liberdade condicional. Você ainda não é um ser humano.’ Então, as pessoas sentem isso bem na velhice e imaginam que o universo é presidido por esse terrível Deus-pai ”.

Muito disso ainda ressoa conosco hoje. Os sábios conselhos de Alan Watts sobre educação podem ser a coisa que precisamos rever se quisermos escapar da realidade monótona da educação moderna.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

As lendas: o “rico por merecimento” e as “pessoas são só números”

Você já conheceu alguém que conseguiu ser feliz sozinho por toda vida? Já viu alguém sozinho gerir um negócio por completo e alcançar grandes resultados? O que faz um ser humano se desenvolver é a vida em comunidade. Um negócio só cresce com uma equipe alinhada e consumidores interessados. Se está cansado de ouvir lendas, conviver com crenças limitantes e quer um Brasil melhor, pare de se comportar como um número nulo. Seja um empreendedor e/ou consumidor consciente! Se cada um fizer a sua parte o Brasil pode entrar na lista dos países mais desenvolvidos. Mas tem que optar por isso agora!

O Brasil deveria ser o país dos legendários, mas, infelizmente, é o país dos lendários. Em 2017, o Brasil era o 5º colocado no ranking dos países com menos noção da realidade. Isso é grave! Quer dizer que acreditamos em muitas mentiras.

O problema é que essas lendas contadas de geração em geração é o que norteia o desenvolvimento ou retrocesso da sociedade. Seguindo esse caminho, nós (brasileiros) somos um povo desinformado da própria história. Porque até hoje o episódio da escravidão no Brasil não teve o devido valor do desastre que causou e ainda causa.

Durante o tempo da escravidão, os senhores donos de terras eram, na verdade, exploradores humanos. Muitas famílias que enriqueceram ao longo da história não eram ricos porque nasceram ricos ou ganharam com o suor do próprio rosto, eles ganharam dinheiro escravizando os negros, não compartilharam os ganhos igualmente.

É por esse começo da história do Brasil que afirmo que “rico por merecimento” é uma lenda urbana. Mas, daí alguém pode dizer “hoje é diferente, existem pessoas ricas por merecimento”. Infelizmente, não existiu e nunca existirá! O ser humano não é capaz de viver de forma saudável sozinho no mundo. Esse é um dos motivos de vivermos em comunidade, precisamos uns dos outros para nos desenvolvermos.

Geralmente, uma pessoa que é rica ela poupa dinheiro, ela tem controle de seus gastos e é um ótimo estrategista. Ela deve gerir um ou vários negócios, liderar uma equipe alinhada e oferecer produtos de qualidade para que seus consumidores queiram comprar. Sendo assim, ninguém enriquece sozinho, porque precisa de várias pessoas para que o produto exista e precisa ter pessoas interessadas em comprar. Tudo na vida segue um ciclo. Nada acontece por acaso. Não existe milagre no mundo dos negócios. Se alguém está fazendo milagres é bom verificar como é o processo desse negócio, provavelmente, é de exploração.

Outro motivo para repensar na afirmação “rico por merecimento”, são os incentivos fiscais e financeiros oferecidos pelo Governo às empresas, com o objetivo de que sejam desenvolvidos projetos para que tenham mais oportunidades de emprego a diversidade humana, projetos sociais e ambientais.

O Governo é um representante do povo, então, quem está contribuindo com os incentivos é o povo, que paga os impostos. A obrigação das empresas é dar continuidade a esse ciclo. As empresas que não estão retribuindo com a sociedade estão quebrando o ciclo de melhorias e enriquecendo as custas do povo. É possível haver pessoas ricas por ter bons projetos que incluam ótimos profissionais, mas rico que fez riqueza sozinho não existi!

É nesse momento que é importante sabermos, como consumidores, a maneira que devemos agir para desconstruir a frase “as pessoas são só números”. As empresas que exploram seus funcionários só agem dessa maneira porque a fiscalização do nosso país é frouxa. Na Europa, por exemplo, uma empresa não pode demitir um funcionário sem uma explicação plausível.

A maior dificuldade atualmente é identificar as empresas que enriquecem de maneira ilícita. Com a missão de desmascarar as empresas que exploram seus colaboradores, no mundo da moda, foi criado o Movimento Fashion Revolution. Onde eles incentivam os consumidores a postarem uma foto com um produto da sua marca preferida nas redes sociais, questionando como as marcas produzem seus produtos, quem são os funcionários por trás daquelas roupas, calçados e acessórios.

O Brasil da Ordem e Progresso só será real quando tivermos um olhar sincero para as dores da atualidade, entendendo a raiz de toda a injustiça.

Já compartilhei em outros artigos que o Brasil é o país dos sem direitos porque ignoramos a realidade e acreditamos em lendas. Porque não estamos focados em entender nossas necessidades e prioridades, apenas seguimos o que está na moda ou é tendência.

O Brasil precisa resgatar suas raízes, precisamos descobrir a nossa identidade como brasileiros. Isso só será possível aceitando a realidade. Quem está preparado para mudanças?

Reflita e seja a mudança que quer ver no mundo. Hoje. Agora.

*Por Michele Cruz

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*Fonte: obvious

Quando é que vamos achatar a curva do pensamento crítico?

Ao estudar filosofia, alguns filósofos foram classificados como “pensadores livres”. Outros não. Os primeiros recebiam atenção superficial. Os segundos detalhados. E isso disparou meus alarmes. Porque se você não é um livre pensador, não pensa.

Se o pensamento está ligado a regras e deve seguir um roteiro, torna-se dogmático. E nesse exato momento paramos de pensar. Ipso facto.

Parar de pensar é altamente perigoso. Tornamo-nos suscetíveis à manipulação. Corremos o risco de desenvolver posições extremas que alguém diligentemente se encarregará de capitalizar a seu favor. Então nos tornamos autômatos que seguem ordens.

O falso dilema: podemos nos unir mesmo que pensemos de maneira diferente

O coronavírus transformou o mundo em um enorme reality show que joga com as emoções. O rigor e a objetividade são evidentes por sua ausência quando nos arrastam para a infoxicação. Quanto mais informações contraditórias nosso cérebro recebe, mais difícil é colocar ordem e pensar. Estamos no caos. É assim que embota nosso pensamento. E assim o medo vence o jogo.

Nestes tempos, falamos sobre a importância da empatia e de podermos nos colocar no lugar do outro, aceitar nossa vulnerabilidade e nos adaptar à incerteza. Falamos de altruísmo e heroísmo, de compromisso e coragem. Essas são habilidades e qualidades louváveis, sem dúvida, mas o que não foi discutido é o pensamento crítico.

Ao usar eufemismos de todos os tipos, uma mensagem implícita se tornou tão clara que se tornou explícita: é hora de confiar, não criticar. O pensamento foi devidamente selado e estigmatizado, para que não haja dúvida de que não é desejável, exceto em doses tão pequenas que são completamente inócuas e, portanto, completamente inúteis.

Essa crença introduziu um falso dilema, porque o apoio não está em desacordo com o pensamento. Ambas as ações não são exclusivas. Pelo contrário. Podemos unir forças, mesmo que não pensemos da mesma forma. E esse pacto é muito mais forte porque vem de pessoas autoconfiantes que pensam e decidem livremente.

Obviamente, esse pacto exige um trabalho intelectual mais árduo. Exige que nos abramos a posições diferentes das nossas. Vamos refletir juntos. Vamos encontrar pontos de encontro. E todos nós cedemos para alcançar um objetivo comum.

Porque não estamos em uma guerra na qual é exigida obediência cega aos soldados. A narrativa de guerra apaga o pensamento crítico. Condenar quem discordar. E subjugar com medo.

Este inimigo, pelo contrário, conquista com inteligência. Com a capacidade de olhar para o futuro e antecipar eventos. Com a capacidade de projetar planos de ação eficazes com base em uma visão global. E com flexibilidade mental para se adaptar às novas circunstâncias. Tão achatada a curva do pensamento crítico é a pior coisa que podemos fazer.

Pensar pode nos salvar

“Projetar e implementar as vacinas culturais necessárias para evitar desastres, respeitando os direitos daqueles que precisam da vacina, será uma tarefa urgente e extremamente complexa”, escreveu o biólogo Jared Diamond. “Expandir o campo da saúde pública para incluir a saúde cultural será o maior desafio do próximo século”.

Essas “vacinas culturais” passam a parar de assistir ao lixo, a fim de desenvolver uma consciência crítica contra a manipulação da mídia. Eles buscam encontrar um ponto comum entre interesse individual e coletivo. Passam a assumir uma atitude ativa em relação à busca de conhecimento. E passam a pensar. Livremente, se possível.

Infelizmente, o pensamento crítico parece ter se tornado o inimigo público número um, justamente quando mais precisamos dele. Em seu livro “On Liberty”, o filósofo inglês John Stuart Mill argumentou que silenciar uma opinião é “uma forma peculiar do mal”.

Se a opinião estiver correta, não teremos “a oportunidade de mudar o erro pela verdade”; e se estiver errada, somos privados de uma compreensão mais profunda da verdade em seu “choque com o erro”. Se apenas conhecemos o nosso lado do argumento, dificilmente sabemos o seguinte: fica murcho, torna-se algo que é aprendido de cor, não passa por testes e acaba sendo uma verdade pálida e sem vida.

Em vez disso, precisamos entender que, como o filósofo Henri Frederic Amiel disse: “Não é por ser útil que a crença é verdadeira.”. Uma sociedade de pessoas de pensamento livre pode tomar melhores decisões, individual e coletivamente. Que a sociedade não precisa ser vigiada para cumprir as regras ditadas pelo senso comum. Na verdade, você nem precisa dessas regras porque segue o bom senso.

Uma sociedade pensante pode tomar melhores decisões. É capaz de pesar mais variáveis. Dar voz às diferenças. Antecipar-se aos problemas. E, é claro, encontrar melhores soluções para todos e cada um de seus membros.

*Por Rincon de la psicologia


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*Fonte: pensarcontemporaneo

O amor é mais falado do que vivido e por isso vivemos um tempo de secreta angústia

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar.

O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.

Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida.

Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra.

O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angústia. Filosoficamente a angústia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Chomsky: “coronavírus é algo sério o suficiente, mas há algo mais terrível se aproximando”

Do Dossiersul – Acompanhe, entrevista do filósofo e linguista americano Noam Chomsky. Hoje com 92 anos e tendo vivido como testemunha muitos dos grandes fatos que marcaram o século XX e o início do XXI, ele analisa o cenário da crise do coronavírus e traça um quadro nada animador para os próximos anos. No entanto, cita que o isolamento social destes tempos deve ser usado para fortalecer os laços sociais e desenvolver projetos de resistência. A entrevista foi concedida no fim de março de 2020, uma conversa com o filósofo e co-fundador do DiEM25, Srecko Horvat. Acompanhe.

Srecko Horvat: Você nasceu em 1928 e escreveu seu primeiro ensaio quando tinha 10 anos de idade sobre a Guerra Civil Espanhola, após a queda de Barcelona em 1938, o que parece bem distante. Sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, testemunhou Hiroshima e muitos eventos históricos e políticos importantes, da Guerra do Vietnã, a crise do preço do petróleo, a queda do muro de Berlin, Chernobyl, testemunhou o momento histórico que levou ao 11 de setembro e o crash financeiro de 2007/2008. Com esse background e sendo um ator da maioria desses processos, como vê a atual crise do coronavírus, algo sem precedente histórico. Surpreende você? Como observa isso tudo?

Noam Chomsky: Devo dizer que as memórias mais tenras que me assombram agora são dos anos 1930, o artigo que você mencionou sobre a queda de Barcelona foi sobre, aparentemente, a inexorável propagação da praga fascista sobre a Europa e como chegou ao fim. Descobri muito mais tarde, quando os documentos internos vieram à publico que os analistas do governo americano, na época e nos anos seguintes esperavam que a guerra terminasse com mundo dividido entre regiões dominadas pelos EUA e uma região dominada pela Alemanha.

Meus medos infantis não estavam completamente errados. E essas memórias voltam agora. Quando era criança, posso lembrar, ouvindo comício de Hitler em Nuremberg no rádio, podia não compreender as palavras, mas podia facilmente entender o clima daquilo tudo, e tenho que dizer que quando escuto os discursos de Trump hoje, soa algo parecido. Não que ele seja fascista, não tem muito de uma ideologia, é apenas um sociopata, um indivíduo preocupado consigo mesmo, mas o clima e o medo é similar e a ideia de que o destino do país e do mundo está nas mãos de um sociopata bufão é chocante.

O coronavírus é algo sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à frente disso, na corrida para o abismo. De fato, há duas ameaças imensas que estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exacerbada pela tensão dos regimes militares e claro pelo aquecimento global. Ambas podem ser resolvidas, mas não há muito tempo e o coronavírus é terrível e pode ter péssimas consequências, mas será superado, enquanto as outras não serão. Se nós não resolvermos isso, estaremos acabados. As memórias da infância continuam voltando para me assustar, mas em uma dimensão diferente. A ameaça de guerra nuclear não fazia sentido com o mundo onde está, mas olhando para o passado recente, em janeiro, o relógio do juízo final é ajustado a cada ano com os ponteiros dos minutos a uma certa distância da meia noite, que seria o fim. Desde que Trump foi eleito, o ponteiro tem se movido para mais perto da meia noite. Ano passado estava a dois minutos da meia noite. O mais próximo já alcançado. Esse ano os analistas retiraram os “minutos” e movem agora o ponteiro em segundos, 100 segundos para a meia noite, o mais próximo que já estivemos. Observando três questões: A ameaça da guerra nuclear, a ameaça do aquecimento global e a deterioração da democracia, essa última que não está tendo espaço aqui, mas é a única esperança que temos para a superação da crise. Para que as pessoas tenham controle sobre seu destino, se isso não acontecer, estamos condenados.

Se deixarmos nosso destino com sociopatas bufões, será o fim. E isso está próximo, Trump é o pior, por causa do poder dos EUA, que é esmagador. Estamos falando do declínio dos EUA, mas você olha para o mundo e não vê quando os EUA impõem sanções, assassinatos, sanções devastadoras, é o único país que pode fazer isso, mas todo mundo tem de segui-lo. A Europa pode não gostar das ações odiosas contra o Irã, mas tem que acompanhar, deve seguir o mestre, ou será chutada do sistema financeiro internacional. Não é uma lei da natureza, é uma decisão na Europa estar subordinada ao mestre em Washington, outros países não tem nem tem mesmo como escolher. Voltando ao coronavírus, um dos mais chocantes e severos aspectos disso, é o uso de sanções para maximizar a dor, intencionalmente, o Irã está em uma zona com enormes problemas internos pelo estrangulamento do arrocho das sanções, que são intencionalmente desenhadas, para fazer sofrer mais e mais agora. Cuba vem sofrendo, desde o momento em que ganhou sua independência, mas é surpreendente que tenha sobrevivido, mas ficaram resilientes e um dos elementos mais irônicos desta crise do vírus, é que Cuba está ajudando a Europa. Quero dizer, isso é tão chocante, que você não sabe como descrevê-lo. Que a Alemanha não pode ajudar a Grécia, mas Cuba pode ajudar a Europa. Se você parar pra pensar sobre o que significa isso, todas as palavras não servirão. Quando você vê milhares de pessoas morrendo no Mediterrâneo, fugindo de uma região que foi devastada por séculos e sendo enviadas para morrrer ali, você não sabe que palavras usar. A crise civilizacional do ocidente neste ponto é devastadora, pensar nisso e trazer memórias de infância de ouvir Hitler no radio enrouquecer as multidões, faz você pensar se esta espécie é mesmo viável.

Você mencionou a crise da democracia. Neste momento acho que devemos nos encontrar em um momento sem precedentes no sentido de que cerca de 2 bilhões de pessoas estão de uma forma ou de outra confinadas em casa, em isolamento, auto-isolamento ou quarentena. Ao mesmo tempo o que nós podemos observar é que a Europa, mas também outros países perto de suas fronteiras, internas ou externas, há um estado de exceção em todos os países em que possamos pensar, em regressão em lugares como França, Servia, Espanha, Itália e outros, exército nas ruas… e quero perguntar a você como linguista. A linguagem que circula nesse momento: Ouvindo não apenas Trump, se você ouvir Macron ou alguns outros políticos europeus, constantemente escutará que eles falam sobre Guerra. Mesmo na mídia se fala sobre “frontliners” e o vírus sendo tratado como inimigo. O que me lembra também Victor Klemperer em “Lingua Tertii Imperii”, livro em que falou da linguagem do Terceiro Reich e como a linguagem e a ideologia foram impostas. Sob sua perspectiva , o que esse discurso sobre guerra representa, para legimitar um estado de exceção, ou algo mais profundo neste discurso?

Eu penso que não é exagero. O significado é se nós lidamos com a crise, estamos nos movendo para uma mobilização como as de tempos de guerra. Se você pensar, pegue um país rico, como os Estados Unidos que tem recursos para superar a questão econômica de imediato. A mobilização para a 2ª guerra Mundial deixou o país com uma grande dívida que está completamente saldada hoje e a mobilização foi bem sucedida, praticamente quadruplicou a indústria dos Estados Unidos, acabou com a depressão e deixou o país com mais capacidade para crescer.

Isso é menos do que precisamos provavelmente, não naquela escala, isso não é uma guerra mundial, mas nós precisamos da mentalidade desse movimento, nessa crise que essa é severa aqui nós também podemos lembrar da epidemia da gripe suína em 2009, originada nos Estados Unidos. Centenas de milhares de pessoas se recuperaram do pior, mas tem que lidar com isso em um país rico como os Estados Unidos.

Agora dois bilhões de pessoas, a maioria está na Índia. O que acontece para os indianos, eles vivem “da mão para a boca”, estão isolados e morrem de fome. O que irá acontecer? Em um mundo civilizado os países ricos dariam assistência, aqueles que estivessem em necessidade ao invés de estrangulá-los, que é o que estamos fazendo particularmente na Índia e em muitos dos países no mundo.

Se a atual tendência persiste no sul da Ásia, se tornará inabitável em poucas décadas. A temperatura alcançou 50 graus no Rajastão, neste verão está aumentando. A questão das águas agora pode piorar, há dois núcleos de poder que irão lutar por recursos reduzidos de água. Eu digo que que o coronavírus é muito sério, nós não podemos subestima-lo, mas nós temos que lembrar que isso é uma pequena fração da crise que está vindo. Pode talvez não ameaçar a vida o que o coronavírus faz hoje mas, (tais fatos) irão perturbar a vida ao ponto de tornar a espécie inviável em um futuro não muito distante.

Então nós temos que lidar com muitos problemas, problemas imediatos, o coronavírus é sério, como muitos outros maiores, vastamente maiores, e que são eminentes. Agora há uma crise civilizacional, temos que ver o lado bom do coronavírus, o que pode fazer as pessoas pensarem sobre que tipo de mundo nós queremos? Nós queremos um mundo que nos leva a isso? Devemos pensar sobre a origem desta crise, por quê há uma crise do coronavírus? É uma falha colossal do mercado, leva direto a essência dos mercados exacerbados pelo neoliberalismo selvagem, a intensificação neoliberal, os problemas socioeconômicos. Isso era sabido há muito tempo, que a pandemia era muito provável, entendemos muito bem a probabilidade da pandemia do coronavírus, uma modificação epidemia da SARS, que foi superado há 15 anos atrás, o vírus foi identificado, sequenciado, vacinas estavam disponíveis, laboratórios ao redor do mundo poderiam trabalhar diretamente em desenvolver uma proteção para uma potencial pandemia do coronavírus.

Por que não fizeram isso? As companhias farmacêuticas. Nós temos entregado nosso destino a tiranias privadas, corporações, que são inexplicadas para o público, nesse caso, o Big Farma. Para eles fazer novos cremes corporais é mais lucrativo do que encontrar uma vacina que proteja as pessoas da destruição total. É possível para o governo entrar nisso, voltar às mobilizações dos tempos de guerra, foi o que o que aconteceu com a pólio naquele tempo, eu posso me lembrar muito bem, a terrível ameaça que foi extinta pela descoberta da vacina Salk, por uma instituição do governo, apoiada pela administração Roosevelt. Sem patentes, disponível a todos. Que pode ser feito agora, mas a praga neoliberal bloqueia isso. Estamos vivendo sobre uma ideologia para qual os economistas tem uma boa parte de responsabilidade, que vem do setor corporativo. Uma ideologia que é tipificada por aquilo que Ronald Reagan colocou no script, pelo seu Mestres corporativos com seus sorrisos reluzentes, dizendo que governo é o problema. Vamos nos livrar do governo que quer dizer “vamos deixar as decisões nas mãos das tiranias privadas que não tem responsabilidade com o público”. Do outro lado do Atlântico Margaret Thatcher nos mostra que há uma sociedade, em que apenas indivíduos jogados dentro do mercado podem sobreviver de alguma forma e para além disso não há alternativa. O mundo tem sofrido sob o poder dos ricos por anos, e agora é o ponto onde as coisas podem estar acabadas. Com intervenção direta do governo no escopo da invenção da vacina salk, mas que é bloqueado por razões ideológicas da praga neoliberal e o ponto é que essa epidemia de coronavírus poderia ter sido prevenida.

A informação estava ali para ser lida era bem conhecida em outubro de 2019 logo antes do surto. Houve uma grande simulação em escala nos Estados Unidos para uma possível pandemia Mundial deste tipo. Nada foi feito, agora a crise ficou bem pior pela traição do sistema político. Nós não prestamos atenção a informação que estavam cientes em 31 de dezembro, a China informou À OMS sobre uma pneumonia com sintomas com etiologia desconhecida. Uma semana depois eles identificaram, alguns cientistas chineses, como um coronavírus, também sequenciaram e deram a informação ao mundo pelos seus virologistas, outros que ficaram incomodados em ler o report da OMS. Os países naquela área, China, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura começaram a fazer algo e contiveram o surgimento da crise. Na Europa o que aconteceu, Alemanha foi capaz de agir de maneira egoísta, não ajudando os outros. Outros países apenas ignoraram. Um dos piores deles o Reino Unido e o pior de todos, os Estados Unidos, que disseram um dia que não havia crise, diziam “ser apenas uma gripe”, e no dia seguinte era uma terrível crise, que sabiam de tudo. No dia seguinte: “nós temos que tratar de negócios, porque tenho que vencer a eleição…”

A ideia de que o mundo está nessas mãos é chocante, mas, o ponto é que começou com uma, novamente, colossal falha do mercado ao ponto fundamental da ordem econômico-social deixada muito pior pela praga neoliberal e ela continua por causa do colapso nas estruturas institucionais que poderiam lidar com isso, se estivessem funcionando.

Esses são os pontos que nós temos que pensar seriamente e pensando mais profundamente digo, em que tipo de mundo nós queremos viver? Se superarmos de qualquer forma haverá opções. O alcance das opções vão da instalação de Estados altamente autoritários por todas as partes até a reconstrução da sociedade em termos mais humanos, preocupados com as necessidades humanas ao invés do lucro privado. Isso é o que nós devemos ter em mente, que estados altamente autoritários e viciados são bastante compatíveis com o neoliberalismo, os teóricos do neoliberalismo como Hayek e o resto eram perfeitamente felizes com o estado massivo de violência apoiada pela economia. O neoliberalismo tem suas origens em 1920 em Viena.. no estado proto fascista austríaco que esmagou a união dos trabalhadores e a social-democracia austríaca e fez parte do governo proto fascista e louvou o fascismo e sua economia protecionista. Quando Pinochet instalou ditadura assassina brutal no Chile eles amaram, eles lutaram lá, auxiliando esse “milagre maravilhoso”, que que trouxe “solidez da economia”, grandes lucros, para uma pequena parte da população.

Não é errado pensar que sistema neoliberal selvagem pode ser reinstalado por auto-proclamados liberais por forte violência do Estado, um pesadelo que pode vir. mas é necessário a possibilidade de que as pessoas se organizem, se tornem engajados para um mundo muito melhor, que também enfrentará os enormes problemas que estamos lidando… Problema da guerra nuclear que está mais próximo do que nunca esteve, o problema da catástrofe ambiental do qual pode não haver retorno uma vez que chegamos em tal estágio e não está em uma distância tão grande, a menos que nós arranjamos decisivamente. Então é um momento crítico da história humana não apenas por causa do coronavírus, mas deve nos trazer a consciência das profundas falhas, de forma mais profunda, as características disfuncionais de todo sistema sócio-econômico. Pode ser um sinal de alerta em uma lição para nos prevenir de uma explosão, mas pensando sobre isso e como essas vai nos levar a mais crises piores que essas com um preço extra a se pagar.

Como se dará a resistência em tempos de distanciamento social e o que se esperar de um futuro pós-coronavírus?

Primeiro de tudo nós devemos ter em mente que há, desde poucos anos atrás, uma forma de isolamento social que é muito danosa. Você vai ao McDonald’s e vê adolescentes sentados ao redor da mesa comendo hambúrguer e o que você vê é uma conversa rasa de uns ou alguns outros mexendo no seu próprio celular com algum indivíduo remoto, isso tem atomizado e isolado as pessoas em uma extensão extraordinária. As redes sociais tem tornado as criaturas muito isoladas, especialmente os jovens. Atualmente, as universidades nos Estados Unidos onde os passeios tem placas dizendo “olhe para frente” porque cada jovem ali está grudado em si mesmo, essa é uma forma de isolamento social auto-induzido, o que é muito prejudicial. Estamos agora em situação real de isolamento social. Que deve ser superada com recreação, laços sociais e tudo que puder ser feito. Qualquer coisa que puder ajudar as pessoas em necessidades, desenvolvendo organizações, expandindo análises… Fazendo planos para o futuro trazendo as pessoas para perto… Procurando soluções para os problemas que encaram e trabalhar neles. Estender e aprofundar atividades, pode não ser fácil, mas os humanos tem encarado seus problemas. Soberania para todas as pessoas em português.

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*Fonte: dialogosdosul

 

Cientistas afirmam que o DNA pode ser reprogramado por nossas próprias palavras

Cientistas russos provam que o DNA pode ser reprogramado apenas por nossas palavras e outras frequências externas

O DNA HUMANO É UMA INTERNET BIOLÓGICA e pode ser reprogramado.

A pesquisa científica russa explica os fenômenos sobrenaturais humanos, como clarividência, intuição, atos espontâneos e remotos de cura, autocura, técnicas de afirmação, luz / auras incomuns em torno de pessoas (ou seja, mestres espirituais), influência da mente nos padrões climáticos e muito mais. Além disso, há evidências de todo um novo tipo de medicamento em que o DNA pode ser influenciado e reprogramado por palavras e frequências SEM cortar e substituir genes únicos.

Apenas 10% do nosso DNA está sendo usado para a construção de proteínas. É esse subconjunto de DNA que interessa aos pesquisadores ocidentais e está sendo examinado e categorizado. Os outros 90% são considerados “DNA lixo”.

Os pesquisadores russos, no entanto, convenceram que a natureza não era burra, juntou linguistas e geneticistas em um empreendimento para explorar esses 90% do “DNA lixo”. Seus resultados, descobertas e conclusões são simplesmente revolucionárias! Segundo eles, o nosso DNA não é apenas responsável pela construção do nosso corpo, mas também serve como armazenamento de dados e na comunicação. Os lingüistas russos descobriram que o código genético, especialmente nos 90% aparentemente inúteis, segue as mesmas regras que todas as nossas línguas humanas.

Para esse fim, eles compararam as regras de sintaxe (a maneira como as palavras são reunidas para formar frases e sentenças), semântica (o estudo do significado nas formas de linguagem) e as regras básicas da gramática. Eles descobriram que os alcalinos do nosso DNA seguem uma gramática regular e estabelecem regras como as nossas línguas. Portanto, as línguas humanas não apareceram por coincidência, mas são um reflexo do nosso DNA inerente.

O biofísico russo e biólogo molecular Pjotr ​​Garjajev e seus colegas também exploraram o comportamento vibracional do DNA. A conclusão era: “Os cromossomos vivos funcionam como computadores solitônicos / holográficos usando a radiação laser de DNA endógena”. Isso significa que eles conseguiram, por exemplo, modular certos padrões de frequência em um raio laser e, com ele, influenciaram a frequência do DNA e, portanto, a própria informação genética. Como a estrutura básica dos pares DNA-alcalinos e da linguagem (como explicado anteriormente) são da mesma estrutura, nenhuma decodificação de DNA é necessária.

Pode-se simplesmente usar palavras e frases da linguagem humana! Isso também foi comprovado experimentalmente! A substância viva do DNA (no tecido vivo, e não in vitro) sempre reagirá aos raios laser com linguagem modulada e até às ondas de rádio, se as frequências adequadas estiverem sendo usadas.

Isso finalmente e cientificamente explica por que afirmações, treinamento autógeno, hipnose, mediação, oração e outras formas de foco podem ter efeitos tão fortes nos seres humanos e em seus corpos. É inteiramente normal e natural que o nosso DNA reaja à linguagem. Enquanto os pesquisadores ocidentais cortam genes únicos das cadeias de DNA e os inserem em outros lugares, os russos trabalharam com entusiasmo em dispositivos que podem influenciar o metabolismo celular através de frequências de rádio e luz moduladas adequadas e, assim, reparar defeitos genéticos.

O grupo de pesquisa de Garjajev conseguiu provar que com esse método os cromossomos danificados por raios-x, por exemplo, podem ser reparados.
Eles até capturaram padrões de informação de um DNA em particular e o transmitiram para outro, reprogramando as células para outro genoma. Assim, eles conseguiram transformar, por exemplo, embriões de sapo em embriões de salamandra simplesmente transmitindo os padrões de informação do DNA! .

Professores esotéricos e espirituais sabem há séculos que nosso corpo é programável por linguagem, palavras e pensamentos. Isso já foi comprovado e explicado cientificamente. Claro que a frequência tem que estar correta. E é por isso que nem todos são igualmente bem-sucedidos ou podem fazê-lo sempre com a mesma força. A pessoa individual deve trabalhar nos processos internos e na maturidade, a fim de estabelecer uma comunicação consciente com o DNA. Os pesquisadores russos trabalham em um método que não depende desses fatores, mas SEMPRE funcionará, desde que se use a frequência correta.

Na natureza, a hipercomunicação foi aplicada com sucesso por milhões de anos. O fluxo organizado da vida nos estados de insetos prova isso de maneira dramática. O homem moderno sabe disso apenas em um nível muito mais sutil como “intuição”. ?? Mas nós também podemos recuperar o uso total dela.

Um exemplo da natureza: quando uma formiga rainha é espacialmente separada de sua colônia, a construção ainda continua fervorosamente e de acordo com o plano. Se a rainha for morta, no entanto, todo o trabalho na colônia será interrompido. Nenhuma formiga sabe o que fazer. Aparentemente, a rainha envia os “planos de construção” também de longe, através da consciência de grupo de seus súditos.

Ela pode estar tão longe quanto ela quiser, enquanto estiver viva. No homem, a hipercomunicação é mais frequentemente encontrada quando de repente se obtém acesso a informações que estão fora da base de conhecimento. Essa hipercomunicação é então experimentada como inspiração ou intuição. O compositor italiano Giuseppe Tartini, por exemplo, sonhou uma noite que um demônio estava sentado ao seu lado tocando violino. Na manhã seguinte, Tartini conseguiu anotar exatamente a peça de memória, que chamou de Sonata do Diabo.

No livro “Vernetzte Intelligenz” (Inteligência em Rede), Grazyna Gosar e Franz Bludorf explicam essas conexões de maneira precisa e clara. Os autores também citam fontes presumindo que em épocas anteriores a humanidade estivera, assim como os animais, muito fortemente conectada à consciência do grupo e agia como um grupo.

Para desenvolver e experimentar a individualidade, nós humanos, no entanto, tivemos que esquecer a hipercomunicação quase completamente. Agora que estamos razoavelmente estáveis ​​em nossa consciência individual, podemos criar uma nova forma de consciência de grupo, a saber, aquela em que obtemos acesso a todas as informações através do nosso DNA sem ser forçado ou controlado remotamente sobre o que fazer com essas informações.

Agora sabemos que, assim como na Internet, nosso DNA pode alimentar seus dados apropriados na rede, pode acessar dados da rede e estabelecer contato com outros participantes na rede. Cura remota, telepatia ou “sensoriamento remoto” ?? sobre o estado dos parentes etc. pode ser explicado. Alguns animais também sabem de longe quando seus donos planejam voltar para casa. Isso pode ser recentemente interpretado e explicado através dos conceitos de consciência de grupo e hipercomunicação. Qualquer consciência coletiva não pode ser sensatamente usada durante qualquer período de tempo sem uma individualidade distinta. Caso contrário, voltaríamos a um instinto primitivo de manada que é facilmente manipulado.

Isso pode ser recentemente interpretado e explicado através dos conceitos de consciência de grupo e hipercomunicação. Qualquer consciência coletiva não pode ser sensatamente usada durante qualquer período de tempo sem uma individualidade distinta. Caso contrário, voltaríamos a um instinto primitivo de manada que é facilmente manipulado. Isso pode ser recentemente interpretado e explicado através dos conceitos de consciência de grupo e hipercomunicação. Qualquer consciência coletiva não pode ser sensatamente usada durante qualquer período de tempo sem uma individualidade distinta. Caso contrário, voltaríamos a um instinto primitivo de manada que é facilmente manipulado.

A hipercomunicação no novo milênio significa algo bem diferente: os pesquisadores pensam que, se os seres humanos com plena individualidade recuperassem a consciência de grupo, teriam um poder divino para criar, alterar e moldar as coisas na Terra!

Mais e mais crianças clarividentes estão nascendo. Algo nessas crianças está se esforçando cada vez mais em direção à consciência de grupo do novo tipo, e não será mais suprimida.

Quando um grande número de pessoas se reúne através da oração ou meditação, todas focadas no mesmo resultado, podemos mudar o mundo. O conceito de mudarmos nosso próprio DNA, através de nossas palavras e vibrações, agora é um FATO CONHECIDO. Estamos recebendo uma atualização.

 

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Zygmunt Bauman: “As redes sociais são uma armadilha”

Zygmunt Bauman acaba de completar 90 anos de idade e de tomar dois voos para ir da Inglaterra ao debate do qual participa em Burgos (Espanha). Está cansado, e admite logo ao começar a entrevista, mas se expressa com tanta calma quanto clareza. Sempre se estende, em cada explicação, porque detesta dar respostas simples a questões complexas. Desde que colocou, em 1999, sua ideia da “modernidade líquida” – uma etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso” –, Bauman se tornou uma figura de referência da sociologia. Suas denúncias sobre a crescente desigualdade, sua análise do descrédito da política e sua visão nada idealista do que trouxe a revolução digital o transformaram também em um farol para o movimento global dos indignados, apesar de que não hesita em pontuar suas debilidades.

O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense. Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.

Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida. Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar. O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.

Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.

Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?

Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes. A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.

“Foi uma catástrofe arrastar a classe media ao precariat. O conflito já não é entre classes, mas de cada um com a sociedade”

P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?

R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro… pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou. A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence… O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.

P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?

R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas. A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.

P. Você sustenta que o movimento dos indignados “sabe como preparar o terreno, mas não como construir algo sólido”.

R. O povo esqueceu suas diferenças por um tempo, reunido na praça por um propósito comum. Se a razão é negativa, como se indispor com alguém, as possibilidades de êxito são mais altas. De certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são muito potentes e muito breves.

P. E você também lamenta que, por sua natureza “arco íris”, o movimento não possa estabelecer uma liderança sólida.

R. Os líderes são tipos duros, que têm ideias e ideologias, o que faria desaparecer a visibilidade e a esperança de unidade. Precisamente porque não tem líderes o movimento pode sobreviver. Mas precisamente porque não tem líderes não podem transformar sua unidade em uma ação prática.

P. Na Espanha, as consequências do 15-M chegaram à política. Novos partidos emergiram com força.

“O 15-M, de certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são potentes e breves”

R. A mudança de um partido por outro não vai a resolver o problema. O problema hoje não é que os partidos estejam equivocados, e sim o fato de que não controlam os instrumentos. Os problemas dos espanhóis não estão restritos ao território nacional, são globais. A presunção de que se pode resolver a situação partindo de dentro é errônea.

P. Você analisa a crise do Estado-nação. Qual é a sua opinião sobre as aspirações independentistas da Catalunha?

R. Penso que continuamos com os princípios de Versalhes, quando se estabeleceu o direito de cada nação baseado na autodeterminação. Mas isso, hoje, é uma ficção porque não existem territórios homogêneos. Atualmente, todas as sociedades são uma coleção de diásporas. As pessoas se unem a uma sociedade à qual são leais, e pagam impostos, mas, ao mesmo tempo, não querem abrir mão de suas identidades. A conexão entre o local e a identidade se rompeu. A situação na Catalunha, como na Escócia ou na Lombardia, é uma contradição entre a identidade tribal e a cidadania de um país. Eles são europeus, mas não querem ir a Bruxelas por Madri, mas via Barcelona. A mesma lógica está emergindo em quase todos os países. Mantemos os princípios estabelecidos no final da Primeira Guerra Mundial, mas o mundo mudou muito.

P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?

R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.

*Por Ricardo De Querol

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*Fonte: elpais

Por que as pessoas gritam?

Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta a seus discípulos:

Por que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?
Gritamos porque perdemos a calma, disse um deles.
Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado?
Questionou novamente o pensador.
Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça, retrucou outro discípulo.

E o mestre volta a perguntar:
Então não é possível falar-lhe em voz baixa?

Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador.
Então ele esclareceu:
Vocês sabem porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecida?
O fato é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito.

Para cobrir esta distância precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente.

Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvir um ao outro, através da grande distância.

Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão enamoradas?

Elas não gritam. Falam suavemente.

E por quê?

Porque seus corações estão muito perto.

A distância entre elas é pequena.

Às vezes estão tão próximos seus corações, que nem falam, somente sussurram.

E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer sussurrar, apenas se olham, e basta.

Seus corações se entendem.

É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas.

Por fim, o pensador conclui, dizendo:
Quando vocês discutirem, não deixem que seus corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta.”

*Mahatma Gandhi

 

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*Fonte: naterradosbudas

 

Stephen Hawking: Ganância e estupidez são o que acabará com a raça humana

O físico e cosmólogo de renome mundial, Stephen Hawking (1942-2018) deixou para trás uma trilha de citações famosas, palavras sábias e ditados inspiradores antes de sua morte.

Em 2016, durante uma entrevista com Larry King, do programa de entrevistas Larry King Now , Hawking disse que a humanidade sempre foi seu maior problema. Estamos conscientemente nos aproximando demais de um momento em que as mudanças climáticas seriam irreversíveis e, infelizmente, não há avanços à vista.

“Certamente não nos tornamos menos gananciosos ou menos estúpidos”, disse Hawking. “ Seis anos atrás eu estava preocupado com poluição e superlotação. Isso piorou desde então. A população cresceu meio bilhão desde a nossa última reunião [seis anos antes], sem fim à vista. Nesse ritmo, serão onze bilhões até 2100.

Em outra entrevista à BBC , Hawking disse: “Estamos perto do ponto crítico em que o aquecimento global se torna irreversível. A ação de Trump poderia levar a Terra à beira do abismo, para se tornar como Vênus, com uma temperatura de duzentos e cinquenta graus e chovendo ácido sulfúrico. ”…

“A mudança climática é um dos grandes perigos que enfrentamos e podemos evitar se agirmos agora.”

Realocação interplanetária como a única solução plausível

Embora ainda possa haver uma chance de salvar a Terra, Hawking estava convencido de que a humanidade nunca veria razões para tomar ações sólidas, unidas e bem direcionadas. Nas suas palavras, “[…] a evolução incorporou ganância e agressão ao genoma humano. Não há sinal de diminuição de conflitos, e o desenvolvimento de tecnologia militarizada e armas de destruição em massa pode tornar isso desastroso. ”

A única maneira de preservar nossa espécie seria garantir algum tipo de planeta reserva por um tempo em que a Terra se tornasse completamente habitável.

“A melhor esperança para a sobrevivência da raça humana pode ser colônias independentes no espaço.”

Sobre poluição e abuso de IA

Hawking mencionou que a poluição do ar estava ficando rapidamente fora de controle, pois a curva de crescimento havia subido constantemente nos últimos cinco anos.

” A poluição do ar aumentou nos últimos cinco anos” , disse ele. ” Mais de 80% dos habitantes das áreas urbanas estão expostos a níveis inseguros de poluição do ar”.

A poluição do ar é o maior contribuinte para o clima. Hoje, a principal causa da poluição do ar é a combustão de combustíveis fósseis, um subproduto da industrialização e, como a humanidade a governou, não há como voltar atrás dos avanços da era moderna.

Hawking também discutiu a inteligência artificial com King, afirmando que os governos mundiais estão se envolvendo perigosamente em ” uma corrida armamentista da IA”.

“Pode ser difícil parar uma IA desonesta ” , disse o físico. ” Precisamos garantir que a IA seja projetada eticamente com as salvaguardas em vigor”.

A inteligência artificial tem muitos benefícios, mas quando usada para cumprir a agenda errada, pode se tornar uma ferramenta de invasão e destruição em massa.

De acordo com a pesquisadora Kate Crawford em 2017, “Assim como estamos vendo uma função de etapa aumentar na disseminação da IA, algo mais está acontecendo: a ascensão do ultra-nacionalismo, autoritarismo de direita e fascismo “, disse ela ao The Guardian

Stephen Hawking (QI-162 estimado) era mais conhecido por suas contribuições aos campos da cosmologia, relatividade geral e gravidade quântica, especialmente no contexto de buracos negros . O cientista formado em Cambridge e Oxford foi diagnosticado com uma forma de progressão lenta da esclerose lateral amiotrófica ou da doença de Lou Gehrig, uma doença da motoneurona que o deixou paralisado por grande parte de sua vida.

Ele causou um impacto permanente no mundo da ciência e da física, deixando inúmeros livros de autoria e citações inspiradoras em seu nome.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

O conselho de Nietzsche: que a pressa de fazer não nos impeça de ser

“As pessoas vivem para o presente, com pressa e de uma maneira irresponsável: e isso é chamado de ‘liberdade’”, escreveu Friedrich Nietzsche no final do século 19. Se o filósofo tivesse testemunhado a pressa contemporânea, provavelmente teria dito que somos loucos – secos – e que teríamos se retirado para viver na floresta, como Thoreau, para recuperar a calma necessária exigida pela reflexão e pela introspecção.

A verdade é que a pressa tornou-se uma condição sine qua non da modernidade, de modo que nossa vida geralmente acontece num frenesi de atividades supostamente irrefreáveis, inescapáveis e inalienáveis. Nesse mundo, a pausa é um luxo. Atraso, uma virtude perdida nos recessos da memória. E enquanto nos concentramos em fazer, nos esquecemos de ser.

A pressa nos afasta de nós mesmos

A velocidade com que vivemos nada mais é do que uma ilusão baseada na crença de que nos poupa tempo quando, na verdade, a pressa e a velocidade aceleram. Vivemos em um estado perene de “estimulação violenta e complexa dos sentidos, que nos torna progressivamente menos sensíveis e, portanto, mais necessitados de estimulação ainda mais violenta. Ansiamos por distração, um panorama de visões, sons, emoções e excitações em que o maior número possível de coisas deve ser acumulado no menor tempo possível […] E apesar da tensão nervosa, estamos convencidos de que o sonho é um perda de tempo valioso e continuamos a perseguir essas fantasias até tarde da noite ”, escreveu Alan Watts.

Nós não percebemos que enquanto corremos de um lugar para outro, perdemos nossas vidas. Assim, caímos em uma contradição: quanto mais pretendemos agarrar a vida através da aceleração, mais ela nos escapa. Vítimas de pressa, não temos tempo para olhar para dentro, desdobramos para operar de modo automático e poder com tudo. E esse modo de vida se torna um hábito tão arraigado que logo nos desconectamos do nosso “eu”.

Nietzsche resumiu com maestria: “a pressa é universal porque todos estão fugindo de si mesmos”. Qualquer tentativa de reconectar, impulsionada pela calma e pelo atraso, nos assusta, por isso procuramos refúgio às pressas, inventamos coisas novas para fazer, novos compromissos a cumprir, novos projetos para se inscrever, na esperança de que devolva-nos ao estado de sonolência pré-consciente, porque não sabemos o que vamos encontrar naquele exercício de introspecção, não sabemos se a pessoa que nos tornamos vai gostar de nós. E isso assusta. Muito.

Introspecção exige atraso

Não é fácil desaprender alguns dos hábitos que desenvolvemos. Vítimas de impaciência, consumidas pelo incessante tique-taque do relógio, aprendemos a preencher nossa agenda e nos orgulhar disso. Nós condensamos experiências no menor tempo possível para fazer mais, como se a vida fosse resumida a uma competição na qual quem completa mais tarefas ganha.

No entanto, se pararmos apenas um segundo e pensarmos sobre isso, a pressa em que vivemos quase nunca responde a coisas realmente importantes e urgentes, mas é devido às exigências de um modo de vida que tenta por todos os meios nos manter distraído e ocupado o máximo de tempo possível. A pressa atual é encher nossas vidas com atividades febris e velocidade, de modo que não há tempo para enfrentar os problemas reais, o essencial.

Qual é o antídoto?

Nietzsche, que chegou a classificar a pressa como “indecorosa”, disse que os pilares essenciais para estabelecer as bases que nos permitem viver com mais calma e plenitude, transformando a vida em uma obra de arte que é apreciada com cuidado e lentidão.

Em “O crepúsculo dos ídolos” disse: “Você tem que aprender a ver e você tem que aprender a pensar […] Aprender a ver significa ficar de olho na calma, paciência, deixando as coisas chegarem perto de nós ; aprenda a adiar o julgamento, a cercar e cobrir o caso particular de todos os lados ”.

Nietzsche explicou que devemos aprender a “não responder imediatamente a um estímulo, mas controlar os instintos que põem obstáculos, que nos isolam”, para poder adiar decisões e ações. No extremo oposto localizavam-se aqueles que não conseguiam resistir a um estímulo, aqueles que reagiam e seguiam os impulsos, considerando que a pressa em responder “é um sintoma de doença, decadência e exaustão”.

Com essas linhas, Nietzsche nos convida a fazer as pausas necessárias para refletir, de maneira tranquila, permitindo que a realidade se revele pouco a pouco, sabendo que a razão exige desmembramento enquanto a correria funciona baseada em preconceitos e idéias preconcebidas.

Embora o raciocínio rápido possa ser adaptativo em certas circunstâncias, a falta de reflexão e tranqüilidade nos leva à irracionalidade e a decisões erradas. Precisamente por isso, a lentidão pode tornar-se tremendamente subversiva no mundo de hoje: precisamos desacelerar para viver, a fim de pensar, para decidir por nós mesmos o que queremos – e o que não queremos.

É nesses momentos de calma e paciência que o sentido da vida emerge. Que “deixar as coisas se aproximarem de nós”, a que Nietzsche se refere, é um precioso intervalo de tempo entre o fato e nossa reação, entre pensamento e ato, uma espécie de “vazio” que pode ser preenchido inesperadamente com a plena existência. Então, e somente então, podemos fazer as pazes conosco mesmos. Aprenderemos a desfrutar da companhia daquele “eu” que havíamos negligenciado e não precisaremos mais fugir de nós mesmos.

*Adaptação de Rincón de La Psicologia

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*Fonte: pensarcomtemporaneo

A humanidade e seus lobos

Homo hominis lupus. A frase em destaque significa “o homem é o lobo do homem” em latim. Tal sentença foi criada por Plauto, um dramaturgo romano que viveu no período republicano de Roma entre 230 – 180 a.C., aparecendo pela primeira vez em sua obra conhecida como “Asinaria”. Nessa obra, a variação escrita por Plauto se encontra da seguinte forma: “o homem não é homem, mas sim um lobo para com um estranho.” Aqui, interpretando-se homem como sendo toda a sociedade humana (homens e mulheres), o autor tenta exprimir um comportamento antropológico característico— a capacidade que nós temos de julgar e excluir aqueles que não fazem parte de nosso grupo.

Thomas Hobbes, um filósofo inglês e um dos fundadores da filosofia política, utilizou-se da frase citada acima em sua obra “De Cive” (Sobre o Cidadão, em tradução livre). Nela, o mesmo fundamento lógico é usado para endereçar o mesmo problema: nós, humanos, gostamos de fazer parte de grupos sociais e no momento em que reconhecemos a presença de estranhos, inicialmente os tratamos não da forma com que rotineiramente tratariamos aqueles pertencentes a nossa sociedade, mas de uma forma diferente. Envolvido em uma teia de argumentos ratificando o resultado do ser humano sem uma entidade intermediadora, algo que conhecemos como estado, Hobbes concordava com o fato do ser humano não compactuar com indivíduos de grupos diferentes que o seu e colocou como sendo importante o estabelecimento de tal entidade. Nesse contexto, esse é o significado da frase “o homem é o lobo do homem”.

Mas eu quero seguir em um caminho diferente no que diz respeito ao significado de tal sentença. Um caminho que pode se desviar um pouco daquele percorrido por Hobbes e Plauto, mas que vale a pena ser refletido e analisado. É possível encontrarmos diversos exemplos na curta vida da civilização de nossa espécie — alguns meros milhares de anos — que sugerem uma característica peculiar sobre nós mesmos: a habilidade que temos de dar significado aquilo que nos rodeia. Por toda a natureza, consegue-se localizar uma gigantesca dose de impessoalidade. Supernovas, imensas explosões que marcam de uma estrela em seus últimos dias de vida e que podem devastar vários mundos que estiverem perto demais pela liberação de letais raios-X e raios gama; buracos negros, que devido a sua imensa gravidade consegue capturar até mesmo a luz, não deixando sair, portanto, nenhuma outro objeto físico (pelo menos não por onde entraram); e, em uma escala mais local, olhemos os terremotos e furacões, nos quais os primeiros são ocasionados pelo encontro de ventos fortes que se chocam em direções específicas, transformando a energia cinética de seus gases em momento angular, girando sem parar e podendo causar grande dano, além do segundo causar igual ou até maior estrago, sendo originado pela movimentação contínua do magma abaixo da crosta terrestre, e, especificamente, pela colisão dessas — as conhecidas placas tectônicas. Todos esses eventos acontecem em todo o lugar no Universo, a todo momento. Alguns desses, como no caso das supernovas, foram essenciais para a evolução do Cosmos como conhecemos hoje, apesar dos aparentes estragos que eles podem ocasionar.

Esses eventos são produtos das leis da física presentes no Universo ao nosso redor. Eles simplesmente acontecem. Porém, pode-se perguntar, será que os acontecimentos naturais ao nosso redor são categoricamente bons ou ruins? Somente a partir da ascensão da consciência é que essas questões começam a fazer algum sentido. E, devido a isso, cabe aos seres que possuem tal consciência determinarem o significado de eventos que, sem aquela, são indiferentes para a realidade física. Creio que essa habilidade é tanto uma benção quanto uma maldição. Uma vez que temos a capacidade de estabelecer significados para eventos, categorizando-os como coisas boas ou ruins, estamos fadados a possibilidade de não possuir sabedoria suficiente para discernir entre um e outro. Diferentemente dos eventos naturais que acontecem independente de nossa vontade, mas sim em decorrência de leis físicas do mundo em que vivemos, cabe a nós escolhermos cuidadosamente nossas ações com relação ao ambiente que nos circunda. É bem verdade que nós, seres humanos, possuímos incríveis qualidades. Porém, como a história de nossa espécie mostra, e o século XX ratifica, podemos ser capazes de coisas inimaginavelmente terríveis. Essa dualidade — em que podemos fazer coisas incríveis e, ao mesmo tempo, realizar atrocidades inimagináveis — pode se tornar, se não é que já se tornou, algo danoso para a sobrevivência da nossa espécie no longo prazo.

Um exemplo claro disso é a jornada mais bem-sucedida já embarcada por nós: a ciência. Através dela, fomos capazes de dizimar diversas doenças antes consideradas incuráveis, aumentar a expectativa e a qualidade de vida, minimizar o tempo de locomoção entre locais, conectar todo globo em uma rede de comunicação mundial, além de criar indústrias antes inimagináveis e, a partir dessas, garantir o desenvolvimento econômico do mundo, só para citar algumas. Incríveis conquistas para uma espécie de primatas com um cérebro mais desenvolvido que os demais e que anda em suas duas pernas. Com tal método, conseguimos avançar tecnologicamente a escalas nunca pensadas antes, desde colocarmos os pés em outro mundo até enviar robôs para outros planetas e sóis. Porém, com essa mesma ferramenta, guerras foram iniciadas, armas foram desenvolvidas, matando um incontável número de pessoas no processo. Bombas de destruição em massa acabaram, no dia 6 de abril de 1945 na cidade de Hiroshima, com dezenas de milhares de vidas em questão de segundos, além de outras centenas de milhares em Nagasaki, no dia 9 de agosto do mesmo ano. Enquanto estamos tentando desenvolver a cura de doenças hoje incuráveis como o câncer, o mal de Alzheimer e a AIDS, buscando acabar com o sofrimento de incontáveis pessoas ao redor do planeta, hoje possuímos o poder destrutivo de dizimar toda a população mundial com bombas atômicas e outras armas de alta destruição. Somado a este fato, estamos destruindo a nossa casa planetária que chamamos de Terra, liberando imensas quantidades de gases do efeito estufa na atmosfera sem entender, ou em parte simplesmente negligenciando, o impacto que essa decisão acarretará para as próximas gerações. Assim como outras áreas do conhecimento, a ciência também está refém de decisões políticas que são tomadas por um pequeno grupo de indivíduos, sendo muitas vezes resultado de investidas econômicas por parte desses agentes. Faz sentido perguntar, logo, se possuímos a sabedoria suficiente para tomar uma decisão para, no mínimo, não causarmos danos maiores a nós mesmos e ao que está ao nosso redor.

Mesmo não possuindo o mesmo sentido utilizado por Houbes e Plauto, às vezes percebemos que, realmente, nós podemos ser nossos próprios “lobos”. A humanidade pode ser inimiga de si própria quando coloca sentimentos extremistas e imediatos na frente do pensamento crítico e de uma visão holística e de longo prazo. Devemos pensar mais sobre esta fase de nossa civilização. Estamos com uma ferramenta (o método científico) que possui capacidades exponenciais, porém se não utilizado de maneira correta mais se parece com uma arma na mão de uma criança. Mesmo parecendo pensamentos caracteristicamente filosóficos, são ideias que valem a pena serem consideradas. É o nosso papel como cidadãos conscientes entender sobre a contribuição que a ciência possui em nossa sociedade, não apenas em nosso país, mas em uma escala global — e isso inclui quem colocamos no poder e as políticas que possuem nesse sentido. Cabe a nós a escolha de fazermos desse um período de aprendizagem por meio dos inúmeros erros já cometidos. Caso negativo, talvez este seja o último erro de uma espécie que, mesmo tendo tido uma infância humilde, tantas qualidades e prospecções, tantos sonhos e objetivos, não conseguiu superar sua adolescência tecnológica e as suas perigosas crises.

*Por Weslley Victos

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*Fonte: ciencianautas

Falta de horas de descanso faz com que nossa melancolia se torne raiva ou depressão

Joke J. Hermsen (Middenmeer, Holanda, 1961), doutora em Filosofia e especialista na vida e na obra das filósofas Hannah Arendt e Lou Andreas-Salomé, analisa em seu último livro – La Melancolía en Tiempos de Incertidumbre – um sentimento humano que, diz ela, explica em parte a ascensão da extrema direita. Defende que a epidemia de depressão que assola o mundo se deve ao fato de que não soubemos deter a melancolia em sua versão insana, o que leva o ser humano a cair no lado escuro, na ira e no medo.

Pergunta. De que maneira os políticos influenciam em nossa melancolia?

Resposta. Neste momento temos muitos políticos que semeiam mais o medo do que a esperança. E isso é perigoso. Nossa melancolia precisa de esperança, de amor, de luz, de amizade… e quando a cercamos de medo corremos o risco de transformá-la em depressão. A responsabilidade desses políticos é grande. Existe o perigo, como dizia Hannah Arendt, de cair de novo em um sistema totalitário. Nunca devemos pensar que isso não vai acontecer conosco.
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P. E o que podemos fazer para ir nessa direção?

R. Apontar a responsabilidade desses políticos. Tudo o que podemos fazer é criticá-los e fazer propostas esperançosas. Todos nós sofremos de fadiga parlamentar, não acreditamos mais em nossa democracia. Não acreditamos mais que os políticos vão consertar as coisas, temos que inventar outros instrumentos. E o que eu proponho são comitês de cidadãos. Pessoas escolhidas de modo rotativo por sorteio que tenham dias pagos por todos para se informar, debater e tomar decisões. A principal vantagem é que as pessoas se sentiriam mais responsáveis e representadas. Sentiriam de novo sua liberdade política, porque não devemos esquecer que também somos seres políticos. Temos que repensar nossa democracia, experimentar. Não temos nada a perder.

P. A senhora diz que a dificuldade que temos hoje para encontrar a calma é uma das causas da epidemia de depressão no Ocidente.

R. Tento readaptar a distinção feita por Aristóteles entre a melancolia criativa e solidária, a melancolia zen e a melancolia que se transforma em uma depressão muito séria, uma melancolia insana. Existem várias causas para essa evolução; uma delas é a falta de esperança que torna a melancolia cada vez mais escura e que faz com que nos sintamos ameaçados. E outra é a falta de horas de descanso, de calma, de ataraxia, que faz com que nossa melancolia se transforme em cólera ou em medo, em depressão. E este é um problema generalizado.

“Quando crescemos, é importante reaprender a ser aquela criança que fomos, que se sentia una com o mundo”

 

P. Outra causa de nossa melancolia, como a senhora diz, está na nostalgia que sentimos por nossos primeiros anos de vida, de que não nos lembramos porque não tínhamos desenvolvido a linguagem.

R. Escrevi minha tese em parte sobre Lou Andreas-Salomé, que descobri através de Nietzsche. Ela elaborou a ideia de que durante a primeira infância temos a impressão de sermos unos, uma unidade com tudo o que nos rodeia. As crianças dizem sempre nós, nunca eu. Se você se olhar no espelho com um bebê nos braços, ele não verá diferenças entre ambos. Nascemos em algo que nos transcende. Por isso é tão importante quando crescemos e nos tornamos esse eu, ou esse ego completamente angustiado, reaprender a ser aquela criança que fomos, que era mais do que apenas ela mesma. É uma forma de pensar sobre a transcendência do eu para o nós. Sempre sentiremos melancolia por aquela criança que fomos, por esse nós.

P. Em que momento começou a falar sobre depressão?

R. Em praticamente todas as culturas encontramos esse estado de alma melancólico ao qual cantamos descrito na poesia, na literatura, na arte… Mas a partir de Freud passou a se chamar depressão. E o que lamento é que percamos o lado positivo da melancolia. A melancolia não é alegria nem tristeza, é algo que combina essas duas sensações. Quando queremos alcançar uma verdade profunda, precisamos das ambivalências, elas nos aproximam melhor da verdade de nossa existência como seres humanos. A condição humana se desenvolve em uma ambivalência maior do que supomos nesses momentos. Mas suportamos cada vez menos as ambivalências. Quando vemos no cinema que todo mundo chora ou todo mundo ri… Pode ser muito divertido, mas existe algo no fundo da alma que não se comove. Muitas vezes o que nos chega realmente é algo melancólico, uma tristeza que sorri ou uma alegria por estar triste.

“Sofremos de fadiga parlamentar. Proponho criar comitês de cidadãos, pessoas escolhidas de modo rotativo por sorteio”

 

P. A senhora acredita que para tratar a atual epidemia de depressão o mundo precisa de uma aproximação às pessoas afetadas que integre o tratamento filosófico. Pode explicar melhor?

R. Não proponho isso como remédio. Quero ir mais longe. Nosso estado de alma é melancólico porque estamos conscientes de nossas perdas, estamos conscientes de que um dia morreremos e estamos conscientes dos anos e de tudo o que vamos deixando para trás. E o que é importante é que criemos horizontes de esperança em torno dessas nuvens, à sombra da melancolia. A melancolia precisa de esperança, amor, música, amizade, luz, dança… para não se tornar escura. Não é uma terapia, o que proponho é que percebamos que necessitamos, além da calma, também do amor. Não apenas com relacionamentos românticos, também o amor mundi, o amor pelo mundo mencionado por Hannah Arendt. Que nos sintamos em comunhão com o mundo e que sintamos esse amor compartilhado com ele. Necessitamo-nos mutuamente.

P. As pessoas com depressão são párias do sistema neoliberal?

R. Sim, elas são. O neoliberalismo é quem as deixa doentes. O que é necessário para que a melancolia seja saudável? Descanso, e no capitalismo isso não existe. O sistema faz com que as pessoas fiquem deprimidas e, além disso, essas pessoas não são cuidadas. Ele as afasta. A terapia que proponho não custa dinheiro, mas tempo, entretanto o tempo se tornou o produto de luxo por excelência.

*Por Carmen Pérez-Lanzac

 

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*Fonte: el-pais

Gilles Lipovetsky: A identidade na era Facebook

Quais crenças fundamentam sua existência? Quais sistemas de governo você defende? Esqueça estas perguntas.

Atualmente, para reafirmar (ou até formar) sua identidade, o que importa é saber o que você gosta de fazer, de ouvir, de ver… E compartilhar tudo isso, é claro. Na era das mídias sociais, os elementos que definem quem você é se transformaram e têm nos seus gostos culturais.

Os incontáveis posts sobre nosso cotidiano são a base da explicação do filósofo francês Gilles Lipovetsky, que explica como nossos murais revelam mais sobre nós do que pensamos e clamam por um reconhecimento questionável.

Teórico da hipermodernidade e da pós-modernidade, o francês Gilles Lipovetsky é professor de Filosofia na Universidade de Grenoble e autor de best-sellers como O império do efêmero – A moda e seu destino nas sociedades modernas e A era do vazio – Ensaios sobre o individualismo contemporâneo.

O intelectual francês defende que a consagração do bem-estar triunfa na sociedade pós-moderna. Em seu mais recente livro, Da leveza – Rumo a uma civilização sem peso, ele aborda o culto contemporâneo à felicidade em contraposição à rotina veloz e exigente que enfrentamos, temas também tratados no texto que você confere logo abaixo.

Gilles Lipovetsky | A identidade na era Facebook

Anteriormente, havia uma relação de face a face na construção identitária. Essa dimensão continua existindo, mas agora também existe, graças às redes sociais, a possibilidade de mostrar aos outros coisas que você não pode mostrar na vida, quando encontra alguém no restaurante, na rua ou no trabalho.

Parece-me que hoje, quando observamos as redes sociais, constatamos que a identidade passa muito menos pelas questões graves que definiam a identidade anteriormente: a política e a religião, por exemplo. É cada vez mais por meio de atividades e gostos culturais que os indivíduos afirmam sua identidade individual. Eles dizem o que fazem na vida pessoal, o que apreciam, seus gostos. “Eu fui ver tal filme, eu tirei tal fotografia.” A partir daí as pessoas postam suas mensagens, suas fotos, e recebem “curtidas”.

No Facebook e em outras redes sociais não existe o “não curti”. Isso foi objeto de uma grande discussão interna na plataforma, aliás, e tiveram a intuição de que não deveriam tornar possível o “não curti” para que fosse, no fundo, simplesmente um lugar de reconhecimento e de gratificação. Você pode receber mensagens desagradáveis, mas isso não está inscrito na formatação da rede. E agora estudamos tudo isso de perto.

As pessoas postam uma foto, por exemplo, que tiraram no passeio do domingo, quando viram alguma coisa em geral um pouco original. A gente gosta de postar coisas um pouco originais, e colocamos a foto, talvez acompanhada de um pequeno texto. E aí a questão se coloca: “Por que postei essa foto?”. O que acontece na cabeça? Não é sua profissão, você não é jornalista, não existe razão alguma.

Bem, muitas pesquisas mostram que as pessoas esperam, em relação a essas postagens, um retorno simbólico e afetivo. As pessoas esperam “curtidas”. E existe uma contrariedade quando ninguém reage a uma postagem que você fez no Facebook.

Você se sente excluído ou mal-amado e, consequentemente, a identidade aqui é construída na aprovação, no reconhecimento dos outros, que me dizem: “Sim, é formidável, adorei sua foto etc”, e os indivíduos recebem diariamente uma espécie de alimentação simbólica, que lhes dá certa satisfação: “Eu sou apreciado pelos meus amigos. Tenho um pequeno valor, pois as pessoas gostam daquilo que faço”. Então, eu me afirmo nas redes sociais, no fundo, sobre bases hedonistas.

 

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Estar bem consigo mesmo é melhor do que estar bem com todos

«Um jovem e notável discípulo de artes marciais estava aprendendo sob a tutela de um professor famoso.

Um dia, o professor estava observando uma sessão de prática no quintal e percebeu que a presença dos outros alunos estava interferindo nas tentativas do jovem de aperfeiçoar sua técnica.

O professor podia perceber o desejo do jovem de ficar bem diante dos outros e sua frustração por não conseguir. Ele se aproximou e deu um tapa no ombro dele.

– Qual é o problema? – ele perguntou.

– Não sei – disse o jovem visivelmente tenso. – Por mais que eu tente, não consigo executar os movimentos corretamente.

-Venha comigo, eu explico para você – respondeu o professor.

O professor e o aluno deixaram o prédio e caminharam até um riacho. O professor permaneceu em silêncio na praia por um tempo. Então ele falou.

– Olhe para o riacho. Há pedras no seu caminho. Tenta impressioná-las? Golpea-se contra elas por frustração? Simplesmente flui e segue em frente. Seja como a água.

O jovem tomou nota do conselho do professor e, em poucos dias, mal notou a presença de outros alunos ao seu redor. Nada poderia afetar sua maneira de executar os movimentos, cada vez mais perfeitos ».

Essa história maravilhosa nos fala sobre a necessidade de encontrar equilíbrio e paz interior, em vez de tentar impressionar os outros e obter sua aprovação. De fato, quando aguardamos a aceitação dos outros, ocorre uma contradição: quanto mais a procuramos, mais ilusória ela se torna e menos valorizamos os outros.

A parábola usa a água como um recurso, pois na filosofia budista ela tem um simbolismo especial porque encerra perfeitamente seus ensinamentos. A água flui constantemente, se adapta às formas dos recipientes e levanta todos os tipos de obstáculos. É sua capacidade de se adaptar sem perder sua essência que a torna tão especial.

Os riscos de buscar a aprovação de outras pessoas

1 – Estamos cada vez mais nos afastando de nossa essência. Quando buscamos a aceitação de outros, assumimos que algumas de nossas características não serão bem recebidas, por isso tentamos escondê-las. Colocamos uma máscara social que nos afasta da autenticidade e nos “força” a interpretar um personagem. Obviamente, viver naquele “teatro” é cansativo, porque precisamos estar cientes de reprimir muitos dos pensamentos, atitudes e emoções que experimentamos naturalmente.

2 – Vivemos em uma montanha-russa emocional. Quando a opinião dos outros se torna a bússola que dita nossos passos, subimos por conta própria a uma montanha-russa emocional, porque nosso humor começará a depender diretamente de avaliações externas. Ficaremos felizes se nos lisonjearem ou profundamente infelizes e frustrados se nos criticarem ou nos rejeitarem. Nesse ponto, paramos de possuir nossas emoções e damos controle aos outros. Tornamo-nos pessoas reativas à mercê da opinião de outras pessoas.

3 – Esquecemos nossos sonhos. É algo terrível, tão terrível que normalmente afastamos isso da mente, mas quando nossa vida gira em torno da aprovação de outros, abandonamos nossos sonhos e planejamos adaptar e adotar os objetivos dos outros. Dessa maneira, acabamos perdendo a motivação intrínseca, que é o nosso motor de direção, e ficamos sem paixão. Assim, acabamos vivendo a vida que os outros querem, não a vida que queremos.
É possível sermos nós mesmos sem “prejudicar” os outros?

Um dos obstáculos que para as pessoas no caminho da autenticidade e da libertação pessoal é o medo de prejudicar pessoas importantes. No entanto, o fato de crescer, perseguir nossos sonhos, ser independente e se sentir bem consigo mesmo não deve ser um problema para os outros. Pelo contrário, se eles realmente nos amam, devem se sentir felizes pelo nosso crescimento.

O problema é que, quando criamos um relacionamento de dependência com alguém, buscando sua aprovação antes de tomar decisões, do mais inconseqüente ao mais importante, estamos conferindo um enorme poder sobre nós. Muitas pessoas se sentem confortáveis nesse papel, gostam do poder que têm sobre nossas vidas e não querem romper esse vínculo. No entanto, muitas vezes essas pessoas se tornam cada vez mais exigentes, tentam nos amarrar mais rapidamente e suas demandas de controle se tornam desproporcionais. Nesses casos, cortar o laço é uma questão de sobrevivência psicológica.

É claro que, quando nos tornamos independentes, ousamos desejar coisas diferentes e começar a tomar nossas próprias decisões, essas pessoas estarão “magoadas” porque desejam manter esse vínculo de dependência. De certa forma, a dor é uma forma de manipulação emocional. No entanto, devemos lembrar que muitas vezes os laços que nos mantêm unidos também são os que mais nos amarram.

Nesses casos, não devemos ter medo de “prejudicar” essa pessoa porque não estamos realmente machucando-a, mas estamos dando ao relacionamento uma chance de amadurecer. O que estamos fazendo é elevar o relacionamento a um nível superior, onde não há dependência, mas duas pessoas maduras que gostam de estar juntas a partir de sua individualidade, sem dependências tóxicas.
Não seja você mesmo, seja a melhor versão de você

Um dos piores conselhos de auto-ajuda que podem nos dar é incentivar-nos a ser nós mesmos. Devemos ter em mente que muitas pessoas conseguiram ser elas mesmas, mas muitas outras falharam miseravelmente. Muitas pessoas foram felizes por serem elas mesmas, mas outras foram profundamente infelizes.

O conselho mais sábio é: seja a melhor versão de você. Isso não significa que devemos renunciar à nossa essência, mas que devemos aprender a tirar o melhor de nós mesmos. Por exemplo, ser uma pessoa raivosa no final só nos trará problemas, além de nos fazer sentir mal. Isso não significa que devemos esconder nossa decepção ou descontentamento, mas que devemos expressá-la de forma assertiva. O objetivo não é agradar aos outros, mas ser capaz de gerenciar nossas emoções porque acumular ressentimento, ódio e ressentimento acabará nos prejudicando.

O segredo para ser a melhor versão de nós mesmos é muito simples: quando desenvolvemos um bom equilíbrio interno, sabemos exatamente o que queremos na vida e estamos em paz consigo mesmos; Tudo isso se traduz em cada um de nossos atos e nos permite relacionar de forma mais assertiva e autentica.

De fato, ser autêntico não significa explodir quando nos sentimos zangados e frustrados ou dizemos a primeira coisa que vem à mente sem refletir sobre suas conseqüências, que é simplesmente um comportamento infantil.

Nas palavras de Jean Paul Sartre: “Quem é autêntico assume responsabilidade pelo que é e se reconhece livre de ser o que é”.

A pessoa autêntica pratica a congruência, é ela quem expressa o que sente e pensa assertivamente. No entanto, a autenticidade não se limita à congruência, não é simplesmente “seja você mesmo”, mas também implica um profundo conhecimento interior, assumindo responsabilidade e uma sólida auto-estima que não depende das opiniões dos outros.

A pessoa autêntica é sensível às emoções e opiniões dos outros, não pode ser diferente, mas decide não subordinar suas decisões aos julgamentos e críticas dos outros. O mais interessante é que, quando estamos bem conosco, quando somos autênticos de maneira madura e com um profundo autoconhecimento, os outros percebem isso e conquistamos seu respeito e admiração, mesmo que esse não seja o objetivo final.

*Adaptado de Rincon de la psicologia

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Edgar Morin: “Estamos caminhando como sonâmbulos em direção à catástrofe”

Traduzido do site TerraEco

O que fazer neste período de crise aguda? Indignar-se, certamente. Mas, acima
de tudo, aja. Aos 98 anos, o filósofo e sociólogo nos convida a resistir ao
ditame da urgência. Para ele, a esperança está próxima.

Por que a velocidade está tão arraigada no funcionamento de nossa
sociedade?

A velocidade faz parte do grande mito do progresso que anima a civilização
ocidental desde os séculos 18 e 19. A idéia subjacente é que agradecemos a
ela por um futuro cada vez melhor. Quanto mais rápido formos em direção a
esse futuro, melhor, é claro.

É neste contexto que as comunicações, econômicas e sociais, e todos os tipos
de técnicas que possibilitaram a criação de transporte rápido se multiplicaram.
Penso em particular no motor a vapor, que não foi inventado por razões de
velocidade, mas em servir a indústria ferroviária, que se tornou cada vez mais
rápida.

Tudo isso é correlativo por causa da multiplicação de atividades e torna as
pessoas cada vez mais com pressa. Estamos numa época em que a
cronologia se impõe.

Então isso é novo?

Antigamente, você consultava o sol para para se orientar no tempo. No Brasil,
em cidades como Belém, ainda hoje nos encontramos “depois da chuva”.
Nesses padrões, seus relacionamentos são estabelecidos de acordo com um
ritmo temporal pontuado pelo sol. Mas o relógio de pulso, por exemplo, fez com
que o tempo abstrato substituísse o tempo natural. E o sistema de competição
e concorrência – que é o de nossa economia de mercado capitalista – significa
que, para a competição, o melhor desempenho é aquele que permite a maior
velocidade. A competição, portanto, se transformou em competitividade, o que
é uma perversão da concorrência.

Essa busca por velocidade não é uma ilusão?

De alguma forma. Não percebemos – embora pensemos que estamos fazendo
as coisas rapidamente – que estamos intoxicados pelo meio de transporte que
afirma ser rápido. O uso de meios de transporte cada vez mais eficientes, em
vez de acelerar o tempo de viagem, acaba – principalmente por causa de
engarrafamentos – desperdiçando tempo! Como já disse Ivan Illich (filósofo
austríaco nascido em 1926 e morto em 2002, ed): “O carro nos atrasa muito.
Até as pessoas, imobilizadas em seus carros, ouvem o rádio e sentem que
ainda estão usando o tempo de uma maneira útil. O mesmo vale para o
concurso de informações. Agora recorremos ao rádio ou a TV para não
esperar a publicação dos jornais. Todas essas múltiplas velocidades fazem
parte de uma grande aceleração do tempo, a da globalização. E tudo isso nos
leva ao desastre.

O progresso e o ritmo em que o construímos necessariamente nos destroem?

O desenvolvimento tecnoeconômico acelera todos os processos de produção
de bens e riquezas, os quais aceleram a degradação da biosfera e a poluição
generalizada. As armas nucleares estão se multiplicando e os técnicos estão
sendo solicitados a fazer as coisas mais rapidamente. Tudo isso, de fato, não
vai na direção de um desenvolvimento individual e coletivo!

Por que buscamos sistematicamente utilidade no decorrer do tempo?

Veja o exemplo do almoço. Tempo significa convívio e qualidade. Hoje, a idéia
de velocidade faz com que, assim que terminemos o prato, chamemos um
garçom que corre para recolher os pratos. Se você ficar entediado com seu
vizinho, tende a querer diminuir esse tempo.

Esse é o significado do movimento slow-food que deu origem à idéia de “vida
lenta”, “tempo lento” e até “ciência lenta”. Uma palavra sobre isso. Vejo que a
tendência dos jovens pesquisadores, assim que eles têm um campo de
trabalho, mesmo muito especializado, é que eles se apressem para obter
resultados e publiquem um “grande” artigo em uma “grande” revista científica
internacional, para que ninguém mais publique antes deles.

Esse espírito se desenvolve em detrimento da reflexão e do pensamento.
Nosso tempo rápido é, portanto, um tempo anti-reflexo. E não é por acaso que
existem várias instituições especializadas em nosso país que promovem o
tempo de meditação. O yoguismo, por exemplo, é uma maneira de interromper
o tempo rápido e obter um tempo silencioso de meditação. Dessa maneira,
evita-se a cronometria. As férias também permitem que você recupere seu
tempo natural e esse tempo de preguiça. O trabalho de Paul Lafargue O direito
à preguiça (que data de 1880, ed) permanece mais atual do que nunca, porque
não fazer nada significa tempo limite, perda de tempo, tempo sem fins
lucrativos.

Por quê?

Somos prisioneiros da ideia de rentabilidade, produtividade e competitividade.
Essas idéias foram exasperadas com a concorrência globalizada, nas
empresas, e depois se espalharam para outros lugares. O mesmo vale para o
mundo da escola e da universidade! O relacionamento entre o professor e o
aluno exige um relacionamento muito mais pessoal do que apenas as noções
de desempenho e resultados. Além disso, o cálculo acelera tudo isso. Vivemos
um tempo em que ele é privilegiado por tudo. Bem como saber tudo e dominar
tudo. Pesquisas que antecipam um ano de eleições fazem parte do mesmo
fenômeno. Chegamos a confundi-los com o anúncio do resultado. Tentamos
eliminar o efeito de surpresa sempre possível.

De quem é a culpa? Capitalismo? a ciência?

Estamos presos em um processo espantoso em que o capitalismo, as trocas e
a ciência são levados a esse ritmo. Não se pode ser culpa de um homem.
Devemos acusar Newton por ter inventado o motor a vapor? Não. O
capitalismo é essencialmente responsável, de fato. Por sua fundação, que é
buscar lucro. Pelo seu motor, que é tentar, pela competição, avançar seu
oponente.

Pela incessante sede de “novo” que promove através da publicidade … O que
é essa sociedade que produz objetos cada vez mais obsoletos? Essa
sociedade de consumo que organiza a fabricação de geladeiras ou máquinas
de lavar não para a vida útil infinita, mas para se decompor após oito anos? O
mito do novo, como você pode ver – mesmo para detergentes – visa sempre
incentivar o consumo. O capitalismo, por sua lei natural – a concorrência –
empurra, assim, para uma aceleração permanente e por sua pressão
consumista, sempre para obter novos produtos que também contribuem para
esse processo.

Vemos isso através de múltiplos movimentos no mundo, esse capitalismo é questionado. Em particular na sua dimensão financeira …

Entramos em uma crise profunda sem saber o que sairá dela. As forças de
resistência realmente se manifestam. A economia social e solidária é uma
delas. Ela representa uma maneira de lutar contra essa pressão. Se
observarmos um impulso para a agricultura orgânica com pequenas e médias
fazendas e um retorno à agricultura, é porque grande parte do público começa
a entender que galinhas e porcos industrializados são adulterados e
desnaturalizam solos e águas subterrâneas.

Uma busca por produtos artesanais indica que desejamos fugir dos
supermercados que, eles próprios, exercem pressão do preço mínimo sobre o
produtor e tentam repassar um preço máximo para o consumidor. O Comércio
Justo também está tentando ignorar os intermediários predatórios. O
capitalismo triunfa em certas partes do mundo, mas outra margem vê reações
que surgem não apenas de novas formas de produção (cooperativas, fazendas
orgânicas), mas também da união consciente dos consumidores.

É aos meus olhos uma força não utilizada e fraca porque ainda dispersa. Se
essa força tomar conhecimento de produtos de qualidade e de produtos
nocivos, superficiais, uma força de pressão incrível será aplicada e influenciará
a produção.

Os políticos e seus partidos parecem não estar cientes dessas forças
emergentes. Eles não carecem de análise de inteligência …

Mas você parte do pressuposto de que esses homens e mulheres políticos já
fizeram essa análise. Mas você tem mentes limitadas por certas obsessões,
certas estruturas.

Por obsessão, você quer dizer crescimento?

Sim Eles nem sabem que o crescimento – supondo que volte aos chamados
países desenvolvidos – não excederá 2%! Não é esse crescimento que
conseguirá resolver a questão do emprego! O crescimento que queremos
rápido e forte é um crescimento na competição. Isso leva as empresas a
colocar as máquinas no lugar dos homens e, assim, liquidar as pessoas e
aliená-las ainda mais. Parece-me assustador que os socialistas possam
defender e prometer mais crescimento. Eles ainda não fizeram um esforço
para pensar e buscar novos pensamentos.

Desaceleração significaria decadência?

O importante é saber o que deve crescer e o que deve diminuir. É claro que
cidades não poluentes, energias renováveis e obras públicas saudáveis devem
crescer. O pensamento binário é um erro. É a mesma coisa para globalizar e
desglobalizar: é necessário continuar a globalização no que cria solidariedades
entre as pessoas e com o planeta, mas deve ser condenada quando cria ou
não traz zonas de prosperidade, mas de corrupção ou desigualdade. Eu
defendo uma visão complexa das coisas.

A velocidade em si não tem culpa?

Não. Se eu pegar minha bicicleta para ir à farmácia e tentar fazer isso antes
dela fechar, vou pedalar o mais rápido possível. Velocidade é algo que
precisamos e podemos usar quando necessário. O verdadeiro problema é
diminuir com êxito nossas atividades. Retomar o tempo, natural, biológico,
artificial, cronológico e conseguir resistir.

Você está certo ao dizer que o que é velocidade e aceleração é um processo
extremamente complexo da civilização, no qual técnicas, capitalismo, ciência e
economia têm sua parte. Todas essas forças combinadas nos levam a acelerar
sem que tenhamos controle sobre elas. Porque a nossa grande tragédia é que
a humanidade é arrastada em uma corrida acelerada, sem nenhum piloto a
bordo. Não há controle ou regulamentação. A própria economia não é regulada.
O Fundo Monetário Internacional não é, nesse sentido, um sistema real de
regulamentação.

A política ainda não deveria “levar tempo para reflexão”?

Muitas vezes, temos a sensação de que, por sua pressa de agir, de se
expressar, ele vem trabalhar sem nossos filhos, mesmo contra eles … Você
sabe, os políticos estão embarcando nessa corrida para acelerar. Li
recentemente uma tese sobre gabinetes ministeriais. Às vezes, nos escritórios
dos conselheiros, havia anotações e registros rotulados como “U” para
“urgentes”. Depois veio o “MU” para “muito urgente” e depois o “MMU”. Os
gabinetes ministeriais agora estão invadidos, desatualizados.

A tragédia dessa velocidade é que ela cancela e mata o pensamento político
pela raiz. A classe política não fez nenhum investimento intelectual para
antecipar, enfrentar o futuro. Foi o que tentei fazer em meus livros como
Introdução a uma política do homem, Caminho, Terre-patrie … O futuro é incerto,
é preciso tentar navegar, encontrar um caminho, uma perspectiva. Sempre
houve ambições pessoais na história. Mas eles estavam relacionados a idéias.
De Gaulle sem dúvida teve uma ambição, mas teve uma ótima ideia. Churchill
tinha ambição a serviço de uma grande idéia, que era salvar a Inglaterra do
desastre. Agora, não há mais grandes idéias, mas grandes ambições com
homenzinhos ou mulheres.

Michel Rocard recentemente lamentou sobre “Terra eco” o desaparecimento da visão de longo prazo…

Ele tinha razão e não tinha. Uma política real não está posicionada no imediato,
mas no essencial. Por esquecer o essencial da urgência, acabamos
esquecendo a urgência do essencial. O que Michel Rocard chama de “longo
prazo”, eu chamo de “problema de substância”, “questão vital”. Pensar que
precisamos de uma política global para a salvaguarda da biosfera – com um
poder de decisão que distribua responsabilidades porque não podemos
atribuir as mesmas responsabilidades aos países ricos e aos países pobres – é
uma política essencial para longo prazo. Mas esse longo prazo deve ser rápido
o suficiente, porque a ameaça está se aproximando.

Edgar Morin, o estado de urgência perpétua de nossas sociedades o torna pessimista?

Essa falta de visão me força a ficar na brecha. Há uma continuidade na
descontinuidade. Eu fui da época da Resistência quando jovem, onde havia um
inimigo, um ocupante e um perigo mortal, para outras formas de resistência
que não carregavam o perigo da morte, mas o de permanecer
incompreendido, caluniado ou desprezado.

Depois de ser comunista de guerra e depois de ter lutado com a Alemanha
nazista com grandes esperanças, vi que essas esperanças eram enganosas e
rompi com esse totalitarismo, que se tornou o inimigo da humanidade. Eu lutei
contra isso e resisti. Eu, naturalmente – defendi a independência do Vietnã ou
da Argélia, quando se tratava de liquidar um passado colonial. Pareceu-me
muito lógico depois de ter lutado pela independência da França, ameaçada
pelo nazismo. No final do dia, estamos sempre envolvidos na necessidade de
resistir.

E hoje?

Hoje, percebo que estamos sob a ameaça de duas barbáries associadas.
Antes de tudo, humano, que vem do fundo da história e que nunca foi liquidado:
o campo americano de Guantánamo ou a expulsão de crianças e pais que
estão separados, acontece hoje ! Essa barbárie é baseada no desprezo
humano. E então o segundo, frio e gelado, com base em cálculo e lucro. Essas
duas barbáries são aliadas e somos forçados a resistir em ambas as frentes.
Por isso, continuo com as mesmas aspirações e revoltas que as da minha
adolescência, com a consciência de ter perdido ilusões que poderiam me
animar quando, em 1931, eu tinha dez anos.

A combinação dessas duas barbáries nos colocaria em perigo mortal …

Sim, porque essas guerras podem a qualquer momento se desenvolver no
fanatismo. O poder destrutivo das armas nucleares é imenso e o da
degradação da biosfera para toda a humanidade é vertiginoso. Estamos indo,
por essa combinação, em direção a cataclismos. No entanto, o provável, o pior,
nunca está certo aos meus olhos, porque às vezes apenas alguns eventos são
suficientes para que as evidências se revertam.

Mulheres e homens também podem ter esse poder?

Infelizmente, em nosso tempo, o sistema impede que espíritos se rompam.
Quando a Inglaterra foi ameaçada de morte, um homem marginal foi levado ao
poder, seu nome era Churchill. Quando a França foi ameaçada, foi De Gaulle.
Durante a Revolução, muitas pessoas, sem treinamento militar, conseguiram se
tornar generais formidáveis, como Hoche ou Bonaparte; avocaillons como
Robespierre, grandes tribunos. Grandes momentos de crise terrível despertam
homens capazes de resistir. Ainda não estamos suficientemente cientes do
perigo. Ainda não entendemos que estamos caminhando para um desastre e
estamos nos movendo a toda velocidade como sonâmbulos.

O filósofo Jean-Pierre Dupuy acredita que da catástrofe nasce a solução. Você
compartilha a análise dele?

Não é dialético o suficiente. Ele nos diz que o desastre é inevitável, mas que é
a única maneira de saber que pode ser evitado. Eu digo: é provável que haja
um desastre, mas é improvável. Quero dizer com “provável” que, para nós,
observadores, no tempo em que estamos e nos lugares em que estamos, com
as melhores informações disponíveis, vemos que o curso das coisas está nos
levando a desastres. No entanto, sabemos que é sempre o improvável que
surgiu e que “fez” a transformação. Buda era improvável, Jesus era improvável,
Muhammad, a ciência moderna com Descartes, Pierre Gassendi, Francis
Bacon ou Galileu era improvável, o socialismo com Marx ou Proudhon era
improvável, o capitalismo era improvável na Idade Média … Veja Atenas. Cinco
séculos antes de nossa era, você tem uma pequena cidade grega diante de um
império gigantesco, a Pérsia. E duas vezes – embora destruída pela segunda
vez – Atenas consegue expulsar esses persas graças ao golpe de gênio do
estrategista Temístocles, em Salamina. Graças a essa incrível improbabilidade,
nasceu a democracia, que poderia fertilizar toda a história futura e depois a
filosofia. Então, se você quiser, posso chegar às mesmas conclusões que
Jean-Pierre Dupuy, mas meu caminho é bem diferente. Hoje, existem forças de
resistência dispersas, aninhadas na sociedade civil e que não se conhecem.
Mas acredito no dia em que essas forças se reunirão, em feixes. Tudo começa
com um desvio, que se transforma em uma tendência, que se torna uma força
histórica.

Portanto, é possível reunir essas forças, engajar a grande metamorfose, do indivíduo e depois da sociedade?

O que chamo de metamorfose é o termo de um processo no qual várias
reformas, em todas as áreas, começam ao mesmo tempo.

Já estamos em processo de reformas …

Não, não. Não são essas pseudo-reformas. Estou falando de reformas
profundas da vida, civilização, sociedade, economia. Essas reformas terão que
começar simultaneamente e ser inter-solidárias.

Você chama essa abordagem de “viver bem”. A expressão parece fraca, tendo em vista a ambição que você lhe dá.

O ideal da sociedade ocidental – “bem-estar” – deteriorou-se em coisas
puramente materiais, conforto e propriedade de objetos. E embora essa
palavra “bem-estar” seja muito bonita, outra coisa teve que ser encontrada. E
quando o presidente do Equador, Rafael Correa, encontrou essa fórmula de
“boa vida”, retomada por Evo Morales (presidente boliviano, ed)significava
florescimento humano, não apenas na sociedade, mas também na natureza.

A expressão “viver bem” é sem dúvida mais forte em espanhol do que em
francês. O termo é “ativo” na língua de Cervantes e passivo na de Molière. Mas
essa idéia é a que melhor se relaciona com a qualidade de vida, com o que
chamo de poesia da vida, amor, carinho, comunhão e alegria e, portanto, com a
qualitativa, que a devemos nos opor à primazia do quantitativo e da
acumulação. O bem-estar, a qualidade e a poesia da vida, inclusive em seu
ritmo, são coisas que devem – juntas – nos guiar. É para a humanidade uma
finalidade tão bonita. Implica também controlar simultaneamente coisas como
especulação internacional … Se não conseguirmos nos salvar desses polvos
que nos ameaçam e cuja força é acentuada, acelera, não haverá nada de bom.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

O amor é mais falado do que vivido e por isso vivemos um tempo de secreta angústia

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman declara que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar.

O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo.

Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados, se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito.

Não existe a troca vivida.

Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra.

O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angústia. Filosoficamente a angústia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

A vida não pode ser trabalhar a semana inteira e ir ao supermercado no sábado

Paleoantropólogo Juan Luis Arsuaga, que acaba de publicar um livro, tenta desvendar o sentido da vida: “Deve haver algo mais… E essa outra coisa se chama cultura. É a música, a poesia, a natureza, a beleza…”

As escavações na jazida arqueológica de Atapuerca em Burgos começaram no final dos anos setenta. Em 1982 se juntou ao trabalho o paleoantropólogo Juan Luis Arsuaga (Madri, 1954), um dos diretores da Fundação Atapuerca com Eudald Carbonell e José María Bermúdez de Castro, além de diretor científico do Museu da Evolução Humana em Burgos. Pouco depois, começariam a ser descobertos restos de fósseis humanos que iluminariam a história da humanidade.

Atualmente centenas de milhares de pessoas visitam todos os anos a escavação e o museu, que de acordo com Arsuaga proporciona modernidade e identidade “da boa”. “O museu é um bom exemplo de como fazer as coisas”, diz.

“Minha participação na criação do Parque Nacional de Guadarrama é a coisa mais importante que já fiz em minha vida, mais até do que descobrir fósseis”

Além da descoberta de fósseis, o cientista se sente especialmente orgulhoso de sua participação na criação do parque nacional da Serra de Guadarrama em Madri em 2013. “É a coisa mais importante que fiz em toda minha vida, mais até do que descobrir fósseis”, afirma.

Junto com a publicação de seu último livro Vida, la gran historia (Vida, a Grande História), o pesquisador foi recentemente nomeado presidente da Fundação Gadea Ciencia com um objetivo: “Que a fundação se transforme em algo útil à sociedade”. Mas para o paleoantropólogo, seu cargo mais importante é o de professor na Universidade Complutense de Madri.

Pergunta. Imaginou em algum momento quais descobertas poderiam ocorrer em Atapuerca?

Resposta. Não poderia imaginar e, de fato, todos os anos ocorrem surpresas. A melhor coisa que pode acontecer em um projeto científico é que ele te surpreenda. Se não o faz significa que seus potenciais já se esgotaram.

P. E o que mais o surpreendeu ao longo desses anos?

R. A descoberta de tantos fósseis humanos é obviamente o mais importante em meu trabalho, mas nesses anos ocorreram coisas em Atapuerca e na ciência, como as análises genéticas, com as quais ninguém contava e sequer imaginava. Agora temos estudos de DNA de 400.000 anos. Foi uma surpresa para todo mundo. Em Atapuerca o mais importante foi o grande número de descobertas de restos humanos, que aparecem mais do que em qualquer outro lugar, mais do que no restante das outras jazidas arqueológicas juntas.

P. Por que escolheu a jazida arqueológica de Atapuerca?

R. É uma história que se parece com qualquer outra no mundo da ciência. Diferentes possibilidades são investigadas, linhas são exploradas, algumas parecem mais interessantes e lá se coloca mais esforço, se progride e os resultados aparecem. Então se investe mais. A história de Atapuerca não é o resultado de uma intuição genial. Na verdade, Atapuerca só começou a dar resultados em 1992, quando foi feita a primeira grande descoberta. Mas o começo foi muito duro, como o é para um astrônomo, um biólogo molecular e um botânico. No começo é uma roda que gira muito devagar. A ciência tem um método comum. Não há tanta diferença entre estudar terremotos e procurar fósseis. Consiste em explorar o desconhecido e ninguém sabe como fazê-lo.

P. Apesar de trabalhar com o desconhecido, pensam no que pode ser descoberto?

R. Não, mas escavamos onde já sabemos que há fósseis. Essas jazidas arqueológicas são para obter mais do mesmo. E depois surge o desconhecido. Há mundos novos que são os fascinantes e os conhecidos dos quais podemos saber mais. Em Atapuerca temos isso, os mundos já conhecidos e outros que não conhecemos bem.

P. Mas depois surgem descobertas, como a de uma mandíbula em Israel, que reescrevem o que já sabíamos…

R. Bom, não se deve dar tanta importância aos autores. É preciso matizar. Às vezes fico preocupado quando se diz que uma descoberta obriga a reescrever a evolução humana. Seria um desastre. É como se antes não soubéssemos nada. Se descobríssemos uma nova cidade romana, mudaria tudo o que sabemos sobre os romanos? Claro que não! Ganhamos mais conhecimento sobre certas épocas e momentos da evolução humana, mas sem exagerar.

“Ao contrário do que se pensa, a ciência é sumamente cautelosa e conservadora. As publicações científicas são muito sóbrias”

P. Ainda que algumas vezes tenha sido esse o caso…

R. Sim, é verdade que às vezes se produzem conhecimentos que não mudam o que já se sabia, mas que ampliam o conhecimento. Por exemplo, em 1994 se pensava que a Europa teria sido povoada há quinhentos mil anos, mas nesse mesmo ano encontramos fósseis humanos em grande abundância de 900.000 anos atrás. Ou seja, 400.000 anos mais antigos. Isso é como chegar a um continente desconhecido, mas o descobrimento da América não mudou a Ásia e a Europa, simplesmente acrescentou algo. A ciência cresce.

P. Em relação ao pedaço de maxilar encontrado em Israel, sua descoberta foi suficiente para determinar que o Homo sapiens saiu antes da África. Como é possível?

R. É como encontrar um relógio em um templo asteca. O que você diria? Isso é muito importante. Somente um relógio muda tudo. Como podem saber que faziam tecnologia avançada? Se faziam relógios… Há casos que são óbvios. Existem notícias que obrigam a revisar muitas coisas. Na verdade, não aparecem relógios, e sim aperfeiçoamentos e amplificações do que sabemos. Ao contrário do que se pensa, a ciência é sumamente cautelosa e conservadora. As publicações científicas são muito sóbrias.

P. Por que a antropologia nos atrai tanto?

R. Porque nossas origens nos interessam. Só há duas explicações: a religião e a ciência. As pessoas querem saber de onde vêm e por que estamos aqui. Costumamos dizer que as três perguntas da filosofia basca refletem o ser humano: quem somos? De onde viemos? E onde vamos comer? Mas além disso temos preocupações intelectuais: o que fazemos aqui? O que nos criou? Há quem procure uma explicação religiosa, mística ou extraterrestre, mas todo mundo precisa saber por que está aqui. Essa pergunta, inerente ao humano, é a mais importante que pode ser feita. Assim que você solucionar a questão da comida, a próxima é essa [risos]. As crianças que nascerem nos próximos milênios irão se fazer a mesma pergunta.

P. E na verdade nunca será totalmente respondida… ou será?

R. A religião dá uma explicação falsa e os cientistas explicam. Cada um procura sua felicidade pessoal. Mas se você quer saber de onde viemos, eu te explico. Se quer saber por que estamos aqui, eu te explico…

“Há quem procure uma explicação religiosa, mística ou extraterrestre, mas todo mundo precisa saber por que está aqui”

P. Não sei se vou perguntar ao senhor [risos]… Por que estamos aqui?

R. Meu novo livro é justamente sobre isso. A evolução, da origem do cosmos à origem da vida, passa por diferentes etapas: o surgimento da Terra, a vida nela, as células complexas, a consciência, a mente simbólica, o pensamento abstrato, etc. Cada um desses passos poderia ou não ter acontecido. Provavelmente não era preciso que acontecessem ou talvez fossem inevitáveis. A pergunta é se a história da vida e a história humana têm uma direção, um sentido. O próprio leitor, com a informação que lhe dou, decide se cada passo é algo que tinha que acontecer ou poderia nunca ter ocorrido.

P. De modo que o leitor responde a si mesmo?

R. Sim, deixo que decida por si mesmo. O leitor é tão inteligente que pode chegar às suas próprias conclusões. De modo que não sou responsável pela filosofia dos outros. Dou todas as informações sobre o que pensaram os diversos gênios. Eu conto o que existe, dou minha opinião, e o que os mais inteligentes disseram sobre os diferentes passos que nos fizeram chegar até aqui.

P. O senhor poderia me dizer, hoje, por que estamos aqui?

R. Você está aqui porque seu pai e sua mãe tiveram relações uma noite. Mas é preciso procurar a explicação. E isso está no livro.

P. Mas quanto mais informação temos, mais o mundo nos parece complexo…

R. É que é muito complexo e contraditório… Os que tentam simplificar o complexo são muito perigosos. Se pegarmos, por exemplo, o código genético que temos, o DNA, é o único possível? Podem existir outros códigos genéticos? Por que temos esse e não outro que poderia ser melhor? Por que não?

“Em meu livro, o leitor decide por si mesmo se cada passo da história humana é algo que precisava acontecer ou poderia nunca ter ocorrido”

P. Falando de DNA, me vem a cabeça a descoberta de Denny, a filha de uma neandertal e um denisovano. Com essas descobertas sempre vem à discussão uma pergunta recorrente: Homo sapiens, neandertais e denisovanos poderiam ser a mesma espécie?

R. Não, não somos. Nesse instante, você está falando em espanhol ou em árabe?

P. Espanhol, que eu saiba.

R. Você sabia que a palavra alcalde (prefeito, em português, que também tem a palavra alcaide, de significado semelhante) vem de ‘al-qadi’, de origem árabe? Mas não é por isso que falamos árabe. Termos palavras de origem árabe não transforma o espanhol em árabe. Ter 2% de genes neandertais não transforma você em neandertal. Em biologia, como nas línguas, todas as populações têm alguns genes de outras espécies. Como não foi um deus que nos criou, se espera que as espécies absorvam genes umas das outras. Somente um criacionista poderia pensar que as espécies são puras, separadas e que não têm contato com outras.

P. Essas três espécies viveram ao mesmo tempo, mas só compartilhamos uma pequena porcentagem de genes. É isso o que nos diferencia?

R. Temos genes de todas as partes. Veja os espanhóis. Temos um monte de genes africanos e das estepes. Veja os ursos da Cantábria. Têm 2% de genes de ursos das cavernas. É como se você dissesse que o espanhol foi criado por Deus como uma língua diferente do francês. Nesse caso sim seria surpreendente que tivéssemos uma palavra em comum. Deus não se repete. Mas os idiomas são um produto da evolução linguística e, levando em consideração que somos vizinhos, não me surpreende que digamos cruasán (variação em espanhol da palavra francesa croissant) mesmo não sendo franceses, e sim espanhóis. Aplico esse mesmo raciocínio à biologia.

P. O que acha das análises genéticas vendidas hoje para conhecer nossa origem? Eu, por exemplo, que sou francesa, não tenho nada de francês. Isso deve ter acontecido com muita gente. Como se explicaria isso a essas pessoas?

R. É que o francês não existe, é um conceito político. Realmente não existem o gene francês e o basco. São na realidade diferentes proporções e misturas.

P. Se as pessoas soubessem disso, acha que afetaria os nacionalismos?

R. Em princípio, não. O fato de termos genes diferentes não deveria mudar nada. O nacionalismo atual é mais cultural. Sabia que o sobrenome mais comum da Catalunha é Fernández, por exemplo? O nacionalismo renunciou há tempos ao componente biológico e agora é baseado na cultura. Utilizam outros elementos para definir a identidade. Dito isso, eu não sou nacionalista e minha família é basca e fala o idioma basco.

“Como não foi um deus que nos criou, se espera que as espécies absorvam genes umas das outras”

P. Focando na Espanha, que obstáculos enfrentam a antropologia, a arqueologia e a paleontologia?

R. Como dizia Groucho Marx, comparado com que? Se compararmos com a Argélia, estamos muito bem. Se compararmos com a França e a Itália, a situação não é tão boa. Mas houve progressos. Temos um patrimônio imenso e precisamos saber contar. É preciso investir. As instituições devem saber que isso é uma indústria e um recurso econômico, em todo caso. Essa é a nossa luta. Há trabalho a ser feito.

“O nacionalismo renunciou há tempos ao componente biológico e agora se baseia na cultura para definir a identidade”

P. Em parte, conhecer nosso passado nos faz entender e valorizar mais nosso presente, não acha?

R. Sim, e nos faz mais felizes, espero. Aprendemos, aproveitamos, vivemos outras vidas. Eu sempre digo que a vida não pode ser trabalhar a semana inteira e ir ao supermercado no sábado. Não pode ser assim. Essa vida não é humana. Deve haver algo mais, mas aqui, nessa vida. E essa outra coisa se chama cultura. É a música, a poesia, a natureza, a beleza… É o que se deve apreciar e aproveitar porque, caso contrário, isso é uma merda.

P. Nossos antepassados seguramente sabiam apreciar melhor a vida…

R. Sem dúvida. Não trabalhavam a semana inteira e não iam ao supermercado no sábado.

P. Então o que nós fizemos de errado?

R. Alguma coisa fizemos errado, mas ainda temos tempo. Temos Mozart. Não é pouco. Apreciar a beleza é uma questão de educação e sensibilidade. Procure o que é belo na vida. Há muita beleza.

* Juan Luis Arsunaga / Adeline Marcos

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*Fonte: elpais

Umberto Eco alerta: “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos.”

Cada vez mais intolerantes, as pessoas parecem precisar revestir seus discursos de agressividade, para que pareçam convincentes.

Uma das maiores dificuldades comunicativas diz respeito à capacidade de expor pontos de vista sem exagerar no tom impositivo ou mesmo agressivo com que se defendem argumentos, mesmo os mais incoerentes. Cada vez mais intolerantes, as pessoas parecem precisar revestir seus discursos de agressividade, para que pareçam convincentes.

Com o advento da Internet, todos possuímos espaços virtuais onde podemos nos expressar, expondo nossos pontos de vista sobre assuntos vários. Ilusoriamente protegidos pela distância que a tela fria traz, muitas vezes excedemos no radicalismo com que pontuamos nossos comentários, sem levar em conta a maneira como aquelas palavras atingirão o outro.

A frieza do cotidiano e a concorrência de mercado acabam por contaminar nocivamente os relacionamentos humanos, que se tornam cada vez menos afetivos, tão robóticos quanto as máquinas de café que nos entopem os sentidos. Importamo-nos quase nada com os sentimentos alheios, com a historia de vida alheia, com a necessidade de entender as razões que não são nossas, pois queremos a todo custo extravasar tudo isso que se acumula dentro de nós em meio à velocidade estressante de nossas vidas.

Nesse contexto, quando expomos aquilo que pensamos sobre determinado assunto, principalmente relacionados à política e/ou à religião, acabamos sendo vítimas de contra-ataques violentos que não rebatem o que expusemos, mas tão somente tentam neutralizar nossa verdade com destemperos emocionais isentos de criticidade. Aceitável seria, entretanto, uma contra-argumentação pautada por reflexões plausíveis, o que não ocorre, em grande parte dos casos.

O fato é que poucos estão dispostos a se abrir ao que o outro tem a oferecer, a dizer, a mostrar, a trazer de diferente para suas vidas, porque é trabalhoso refletir sobre idéias já postas e cristalizadas dentro de nós, ao passo que manter intacto aquilo que carregamos há tempos é cômodo e tranquilo. E quem não quer não muda, não recebe o novo, somente dá em troca o pouco que tem e, pior, muitas vezes de forma deselegante e depreciativa.

Portanto, é necessário que aprendamos a nos expressar e a debater nossas ideias com quem realmente estiver pronto para trocar conhecimentos, com quem possui uma postura receptiva para com o novo e que não se importa com a quebra de certezas. Não percamos nosso precioso tempo com quem só ouve o que quer e da forma que lhe convém, diminuindo-nos por conta da diversidade de opiniões. Esses definitivamente não merecem nem mesmo nossa presença.

*Por Marcel Camargo

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*Fonte: caminhoseu

A humanidade e seus lobos

Homo hominis lupus. A frase em destaque significa “o homem é o lobo do homem” em latim. Tal sentença foi criada por Plauto, um dramaturgo romano que viveu no período republicano de Roma entre 230 – 180 a.C., aparecendo pela primeira vez em sua obra conhecida como “Asinaria”. Nessa obra, a variação escrita por Plauto se encontra da seguinte forma: “o homem não é homem, mas sim um lobo para com um estranho.” Aqui, interpretando-se homem como sendo toda a sociedade humana (homens e mulheres), o autor tenta exprimir um comportamento antropológico característico— a capacidade que nós temos de julgar e excluir aqueles que não fazem parte de nosso grupo.

Thomas Hobbes, um filósofo inglês e um dos fundadores da filosofia política, utilizou-se da frase citada acima em sua obra “De Cive” (Sobre o Cidadão, em tradução livre). Nela, o mesmo fundamento lógico é usado para endereçar o mesmo problema: nós, humanos, gostamos de fazer parte de grupos sociais e no momento em que reconhecemos a presença de estranhos, inicialmente os tratamos não da forma com que rotineiramente tratariamos aqueles pertencentes a nossa sociedade, mas de uma forma diferente. Envolvido em uma teia de argumentos ratificando o resultado do ser humano sem uma entidade intermediadora, algo que conhecemos como estado, Hobbes concordava com o fato do ser humano não compactuar com indivíduos de grupos diferentes que o seu e colocou como sendo importante o estabelecimento de tal entidade. Nesse contexto, esse é o significado da frase “o homem é o lobo do homem”.

Mas eu quero seguir em um caminho diferente no que diz respeito ao significado de tal sentença. Um caminho que pode se desviar um pouco daquele percorrido por Hobbes e Plauto, mas que vale a pena ser refletido e analisado. É possível encontrarmos diversos exemplos na curta vida da civilização de nossa espécie — alguns meros milhares de anos — que sugerem uma característica peculiar sobre nós mesmos: a habilidade que temos de dar significado aquilo que nos rodeia. Por toda a natureza, consegue-se localizar uma gigantesca dose de impessoalidade. Supernovas, imensas explosões que marcam de uma estrela em seus últimos dias de vida e que podem devastar vários mundos que estiverem perto demais pela liberação de letais raios-X e raios gama; buracos negros, que devido a sua imensa gravidade consegue capturar até mesmo a luz, não deixando sair, portanto, nenhuma outro objeto físico (pelo menos não por onde entraram); e, em uma escala mais local, olhemos os terremotos e furacões, nos quais os primeiros são ocasionados pelo encontro de ventos fortes que se chocam em direções específicas, transformando a energia cinética de seus gases em momento angular, girando sem parar e podendo causar grande dano, além do segundo causar igual ou até maior estrago, sendo originado pela movimentação contínua do magma abaixo da crosta terrestre, e, especificamente, pela colisão dessas — as conhecidas placas tectônicas. Todos esses eventos acontecem em todo o lugar no Universo, a todo momento. Alguns desses, como no caso das supernovas, foram essenciais para a evolução do Cosmos como conhecemos hoje, apesar dos aparentes estragos que eles podem ocasionar.

Esses eventos são produtos das leis da física presentes no Universo ao nosso redor. Eles simplesmente acontecem. Porém, pode-se perguntar, será que os acontecimentos naturais ao nosso redor são categoricamente bons ou ruins? Somente a partir da ascensão da consciência é que essas questões começam a fazer algum sentido. E, devido a isso, cabe aos seres que possuem tal consciência determinarem o significado de eventos que, sem aquela, são indiferentes para a realidade física. Creio que essa habilidade é tanto uma benção quanto uma maldição. Uma vez que temos a capacidade de estabelecer significados para eventos, categorizando-os como coisas boas ou ruins, estamos fadados a possibilidade de não possuir sabedoria suficiente para discernir entre um e outro. Diferentemente dos eventos naturais que acontecem independente de nossa vontade, mas sim em decorrência de leis físicas do mundo em que vivemos, cabe a nós escolhermos cuidadosamente nossas ações com relação ao ambiente que nos circunda. É bem verdade que nós, seres humanos, possuímos incríveis qualidades. Porém, como a história de nossa espécie mostra, e o século XX ratifica, podemos ser capazes de coisas inimaginavelmente terríveis. Essa dualidade — em que podemos fazer coisas incríveis e, ao mesmo tempo, realizar atrocidades inimagináveis — pode se tornar, se não é que já se tornou, algo danoso para a sobrevivência da nossa espécie no longo prazo.

Um exemplo claro disso é a jornada mais bem-sucedida já embarcada por nós: a ciência. Através dela, fomos capazes de dizimar diversas doenças antes consideradas incuráveis, aumentar a expectativa e a qualidade de vida, minimizar o tempo de locomoção entre locais, conectar todo globo em uma rede de comunicação mundial, além de criar indústrias antes inimagináveis e, a partir dessas, garantir o desenvolvimento econômico do mundo, só para citar algumas. Incríveis conquistas para uma espécie de primatas com um cérebro mais desenvolvido que os demais e que anda em suas duas pernas. Com tal método, conseguimos avançar tecnologicamente a escalas nunca pensadas antes, desde colocarmos os pés em outro mundo até enviar robôs para outros planetas e sóis. Porém, com essa mesma ferramenta, guerras foram iniciadas, armas foram desenvolvidas, matando um incontável número de pessoas no processo. Bombas de destruição em massa acabaram, no dia 6 de abril de 1945, com a cidade de Hiroshima, no Japão, com dezenas de milhares de vidas em questão de segundos, além de outras centenas de milhares em Nagasaki, no dia 9 de agosto do mesmo ano. Enquanto estamos tentando desenvolver a cura de doenças hoje incuráveis como o câncer, o mal de Alzheimer e a AIDS, buscando acabar com o sofrimento de incontáveis pessoas ao redor do planeta, hoje possuímos o poder destrutivo de dizimar toda a população mundial com bombas atômicas e outras armas de alta destruição. E, além disso, assim como outras áreas do conhecimento a ciência também está refém de decisões políticas que são tomadas por um pequeno grupo de indivíduos, sendo muitas vezes resultado de investidas econômicas por parte desses agentes. Faz sentido perguntar, logo, se possuímos a sabedoria suficiente para tomar uma decisão para, no mínimo, não causarmos danos maiores a nós mesmos e ao que está ao nosso redor.

Mesmo não possuindo o mesmo sentido utilizado por Houbes e Plauto, às vezes percebemos que, realmente, nós podemos ser nossos próprios “lobos”. A humanidade pode ser inimiga de si própria quando coloca sentimentos extremistas e imediatos na frente do pensamento crítico e de uma visão holística e de longo prazo. Devemos pensar mais sobre esta fase de nossa civilização. Estamos com uma ferramenta (o método científico) que possui capacidades exponenciais, porém se não utilizado de maneira correta mais se parece com uma arma na mão de uma criança. Mesmo parecendo pensamentos caracteristicamente filosóficos, são ideias que valem a pena serem consideradas. É o nosso papel como cidadãos conscientes entender sobre a contribuição que a ciência possui em nossa sociedade, não apenas em nosso país, mas em uma escala global — e isso inclui quem colocamos no poder e as políticas que possuem nesse sentido. Cabe a nós a escolha de fazermos dessa um período de aprendizagem por meio dos inúmeros erros já cometidos ou o último erro de uma espécie que, mesmo tendo tido uma infância humilde, possuía tantas qualidades e prospecções, tantos sonhos e objetivos, mas que não conseguiu superar sua adolescência e as crises inerentes a ela.

*Por Weslley Victor

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*Fonte: ciencianautas

A consciência é apenas uma ilusão?

O cérebro humano realmente é apenas uma coleção de máquinas complexas?

O cientista cognitivo Daniel Dennett acredita que nossos cérebros são máquinas, feitas de bilhões de minúsculos “robôs” — nossos neurônios ou células cerebrais. A mente humana é realmente tão especial?

Em uma nota infame escrita em 1965, o filósofo Hubert Dreyfus afirmou que os humanos sempre venceriam os computadores no xadrez porque as máquinas não tinham intuição. Daniel Dennett não concordou.

Alguns anos mais tarde, Dreyfus se encontrou vergonhosamente com o xeque-mate de um computador. E em maio de 1997, o computador da IBM, Deep Blue derrotou o campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov.

Muitos que não estavam satisfeitos com este resultado alegaram que o xadrez era um jogo aborrecido e lógico. Os computadores não precisavam de intuição para vencer. Os trilhos mudaram.

Daniel Dennett sempre acreditou que nossas mentes são máquinas. Para ele, a questão não é “os computadores podem ser humanos?”, mas “os humanos são realmente tão espertos?”.

Em uma entrevista para o programa de rádio The Life Scientific, da BBC Radio 4, Dennett diz que não há nada de especial em relação à intuição. “A intuição é simplesmente saber algo sem saber como você chegou a esse algo”.
Daniel Dennett acredita que nossas células cerebrais são “robôs” que respondem a sinais químicos. (Créditos da imagem: BBC/Maria Simons).

Dennett culpa o filósofo Rene Descartes por poluir permanentemente nosso pensamento sobre como pensamos a respeito da mente humana.

Descartes não conseguiu imaginar como uma máquina poderia ser capaz de pensar, sentir e imaginar. Tais talentos devem ser dadas por Deus. Ele escreveu no século 17, quando as máquinas eram feitas de alavancas e polias, não de CPU’s e RAM’s, então talvez possamos perdoá-lo.

Robôs feitos de robôs

Nossos cérebros são feitos de algo em torno de cem bilhões de neurônios — as mais recentes estimativas contam 86 bilhões dessas células: se você fosse contar todos os neurônios em seu cérebro a uma taxa de um segundo, levaria mais de 3 mil anos.

Nossas mentes são feitas de máquinas moleculares, também conhecidas como células cerebrais. E se você achar isso deprimente, então lhe falta imaginação, diz Dennett. “Você conhece o poder de uma máquina feita de um trilhão de peças móveis?”, pergunta ele.
As pessoas ficaram chocadas quando um computador bateu o ex-campeão de xadrez Garry Kasparov em 1997.

Nossas células cerebrais são robôs que respondem a sinais químicos. As proteínas motorizadas que esses robôs criam são robôs. E assim vai. “Nós não somos apenas robôs”, completa o filósofo. “Somos robôs, feitos de robôs, feitos de robôs”.

Como uma tela do telefone

A consciência é real. Claro que é. Nós a experimentamos todos os dias. Mas para Daniel Dennett, a consciência não é mais real do que a tela no seu laptop ou no seu telefone.

Os geeks que fazem aparelhos eletrônicos chamam o que vemos em nossas telas de “ilusão do usuário”. É um pouco paternalista, talvez, mas eles têm um porquê.

Pressionar ícones em nossos telefones nos faz sentir no controle. Nós nos sentimos no comando do hardware que há lá dentro. Mas o que fazemos com os dedos nos nossos telefones é uma contribuição bastante patética para a soma total da atividade do telefone. E, claro, não nos diz absolutamente nada sobre como eles funcionam.

A consciência humana é a mesma, diz Dennett: “É a própria ‘ilusão do usuário’ do cérebro”. Parece real e importante para nós, mas isso não é uma coisa muito grande. “O cérebro não precisa entender como o cérebro funciona”, completa.

Não tão inteligente quanto pensamos

Sabemos que evoluímos de símios. Sabemos que compartilhamos 99% do nosso DNA com chimpanzés.

Reconhecemos que alguns de nossos comportamentos são devidos à nossa natureza animal (embora geralmente não são esses os aspectos de que estamos mais orgulhosos). Nossas qualidades mais especiais, nossa inteligência, nossa percepção e nossa criatividade, nós gostamos de pensar, devem ter causas mais especiais.
Nós humanos tradicionalmente enfatizamos nossas diferenças do reino animal, mas todos somos apenas o resultado de experimentos evolutivos. (Créditos da imagem: Adam Jones/Science Photo Library).

Nossos cérebros, como nossos corpos, evoluíram ao longo de centenas de milhões de anos. Eles são o resultado de milhões e milhões de anos de experimentos aleatórios e experimentais errôneos.

Do ponto de vista evolutivo, nossa capacidade de pensar não é diferente da nossa capacidade de digerir, diz Dennett.

Ambas as atividades biológicas podem ser explicadas pela Teoria da Seleção Natural de Charles Darwin, muitas vezes descrita como a sobrevivência do mais apto.

Tentativa e erro

Nós evoluímos de bactérias incapazes de compreender. Nossas mentes, com todos os seus talentos notáveis, são o resultado de inúmeras experiências biológicas.

Nosso gênio não é dado por Deus. É o resultado de milhões de anos de tentativa e erro.

Quando uma bactéria se move em direção a uma fonte de alimento, os cientistas não elogiam as bactérias por serem inteligentes. Isso seria altamente não científico. Mas quando os cientistas descrevem o pensamento como uma atividade biológica, eles se arriscam serem ridicularizados ou indignar (dependendo da empresa que lhes mantenham).

Tal reducionismo feroz ofende. Quão ingênuo sugerir que não há nada mais na mente humana do que um monte de neurônios!

Descartes subestimou as máquinas grosseiramente. Alan Turing as ajustou direito.

Ele previu que até o final do século XX “o uso de palavras e opiniões educadas em geral terão alterado tanto que alguém poderá falar com máquinas pensantes sem ser contraditado”.

Os computadores na década de 1960 não eram muito bons no jogo de xadrez. Agora eles tocam saxofone como John Coltrane.

Nesta era digital de supercomputadores e telefones inteligentes, certamente não é tão difícil imaginar como uma máquina composta de trilhões de peças móveis pode ser capaz de ser humana.

*Por Diógenes Henrique

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*Fonte: ciencianautas

A obsessão por ser feliz o tempo todo faz as pessoas se sentirem péssimas

Segundo Tal Ben-Shahar, filósofo e psicólogo israelense da contemporaneidade, o estresse (que ele considera se tratar de uma pandemia global) tem sido há muito tratado de forma equivocada. Segundo ele, tem-se deixado “de dar importância ao descanso, à recuperação, e não basta o sono”.

Recentemente, em evento sobre educação e tecnologia realizado em Madri (o EnlighTed), Tal Ben-Shahar concedeu uma entrevista em que, dentre outras questões, se debruça sobre o tema do estresse, da ansiedade, da felicidade e da educação que tem sido proporcionada aos jovens hoje em dia.

P. O que é a felicidade?

R. Não é possível estar feliz sempre. As emoções negativas, como a raiva, o medo e a ansiedade, são necessárias para nós. Só os psicopatas estão a salvo disso. O problema é que, por falta de educação emocional, quando as sentimos as rejeitamos, e isso faz que se intensifiquem e que o pânico nos domine. Se bloquearmos uma emoção negativa, igualmente bloquearemos as positivas. É preciso sentir o medo e sermos conscientes de que vamos em frente mesmo com ele. Não é resignação, e sim aceitação ativa. Quando meu filho David nasceu, um mês depois comecei a sentir ciúmes dele. Minha esposa lhe dedicava mais atenção que a mim. Às vezes as emoções se polarizam, chegamos a extremos, e nem por isso somos melhores ou piores pessoas. Somos humanos.

P. A depressão ameaça 14% dos jovens europeus entre 15 e 24 anos, segundo o último relatório do Eurofound, e lideram o ranking países como a Suécia (com uma taxa de 41%), Estônia (27%) e Malta (22%). Na Espanha, onde a taxa de desemprego juvenil é mais elevada, está abaixo de 10%. O que está falhando?

R. Vou lhe dar outro exemplo. Nos Estados Unidos, a cada cinco anos se medem os níveis de saúde mental, que costumam variar 1% para cima ou para baixo. No último período, os resultados foram muito diferentes: entre adolescentes, os níveis de depressão cresceram até 30%. Um dos motivos é que estão diminuindo as interações cara a cara, substituídas pelo smartphone. As relações pessoais são um antídoto contra a depressão.

P. No século XIX, trabalhava-se até 18 horas por dia, e nenhuma lei impedia de fazê-lo 24 horas se fosse necessário. Hoje temos maior qualidade de vida. Qual é a raiz da insatisfação permanente?

R. A expectativa dos trabalhadores na vida era prover suficiente comida à sua família para sobreviver. Hoje pensamos em ganhar mais dinheiro, nas férias sonhadas… Hoje você pode fazer tudo; mesmo que tenha um emprego interessante e goste de seus colegas, não é suficiente. Como pode escolher e mudar, nunca está satisfeito.

P. Como a escola pode nos preparar para saber o que é a felicidade?

R. É preciso ensinar a cultivar relações sadias, a identificar propósitos e sentido no que fazemos. E o mais importante: a encontrar tempo para o descanso. As pesquisas demonstraram que esse é o grande problema, que não nos recuperamos do estresse. Não vale ler best-sellers de autoajuda, é preciso uma ação. No trabalho, fazer uma pausa de 30 minutos a cada duas horas, ou de 30 segundos se você trabalhar na Bolsa, mas desconectar e respirar. Tirar um dia de folga. Aprender que a felicidade não é um código binário, de um a zero, e sim um sobe e desce. É uma viagem imprevisível que termina quando você morre.

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*Fonte: revistapazes

William James e o conceito de verdade

O conceito de verdade de James é, até hoje, um dos mais importantes tanto em âmbito filosófico como para outras disciplinas, e aplicável em quase todos as áreas.

O conceito de verdade não é fácil de definir, embora nós o utilizemos com frequência e muitas vezes lhe damos importância. Nós o usamos quase a qualquer hora do dia e sempre o mantemos à nossa disposição. No entanto, a verdade é difícil de delinear e, por mais que acreditemos que a entendamos perfeitamente, os exemplos que destacam como é difícil encontrar um espaço bem definido são claros. Neste artigo, veremos o conceito de verdade de acordo com William James (1842 – 1910), filósofo americano, professor de psicologia na Universidade de Harvard e fundador da psicologia funcional.

William James defendeu uma concepção humanista e prática da verdade, enraizada na experiência humana e indexada em termos de evidências disponíveis. O conceito de verdade de James é hoje um dos mais importantes em nas disciplinas filosóficas e outras, e aplicável em quase todas as áreas.

Verdade e conhecimento

James marcou duas maneiras de conhecer as coisas. Por um lado, o indivíduo pode entender algo instintivamente, com a experiência direta, assim como ele reconhece um objeto quando o encontra diante de seus olhos (James falou dele como um “abraço completo” do objeto pelo pensamento). . Ao mesmo tempo, pode-se aprender através de uma cadeia externa de intermediários físicos e mentais que conectam o pensamento às coisas.

Ele argumentou, portanto, que o aprendizado direto ocorre sem mediação, enquanto a verdade através do conhecimento intuitivo é uma questão de consciência direta no fluxo da experiência. Ao contrário, no conhecimento conceitual ou representativo, uma crença se torna verdadeira quando é “transportada através de um contexto que o mundo fornece”.

Verdade e verificabilidade

De acordo com William James, a verdade não é uma propriedade inerente e imutável em relação à ideia, mas assume valor de acordo com a sua verificabilidade. Nesse sentido, para James, a verificabilidade consiste em um agradável sentimento de harmonia e progresso na sucessão de idéias e fatos. Em outras palavras, uma série de idéias deve seguir uma a outra e adaptar-se harmoniosamente aos eventos da realidade que está sendo vivenciada.

As ideias reais desempenham uma função fundamental: são recursos úteis para que o indivíduo possa se orientar na realidade. Ter essas idéias é, portanto, um bem prático que pode satisfazer outras necessidades vitais. Dizendo isso, James associa o verdadeiro ao útil, introduzindo um benefício vital que merece ser preservado.
Teoria Pragmática da Verdade, de William James

A concepção da verdade por William James faz parte das teorias pragmáticas da verdade, teorias reunidas dentro da filosofia do pragmatismo. Teorias pragmáticas da verdade foram propostas pela primeira vez por Charles Sanders Peirce, William James e John Dewey. As características comuns de tais teorias são a confiança na máxima pragmática como um meio de esclarecer os significados de conceitos difíceis, como a verdade. Eles também enfatizam como a crença, a certeza, o conhecimento ou a verdade são o resultado da pesquisa.

A versão de William James da teoria pragmática pode ser resumida com sua seguinte definição: “verdade significa recorrer ao nosso modo de pensar, enquanto” certo “significa recorrer ao nosso modo de agir”. Com essas palavras, James sublinha como a verdade é uma qualidade cujo valor é confirmado por sua própria eficácia aplicada a conceitos de prática real (portanto, pragmáticos).

A teoria pragmática de James é uma síntese da teoria da correspondência da verdade e da teoria da coerência da verdade com uma dimensão extra. A verdade se torna verificável dependendo de quanto os pensamentos e afirmações coincidem com as coisas reais. É adicionado ou adaptado, assim como as peças de um quebra-cabeça podem coincidir e são verificadas pelos resultados observados da aplicação de uma ideia na prática real.

Conclusões

Nesse sentido, James argumentou que todos os processos verdadeiros devem, de alguma forma, levar à verificação direta de experiências sensíveis. Ele estendeu sua teoria pragmática muito além do potencial da verificabilidade científica, mesmo no âmbito místico. Segundo William James, em princípios pragmáticos, se a hipótese de Deus funciona satisfatoriamente no sentido mais amplo da palavra, então é “verdadeira”.

“A verdade, como qualquer dicionário irá afirmar, é uma propriedade de algumas de nossas idéias. Implica um “acordo” com a realidade, já que a falsidade significa desacordo com ela. Tanto pragmatistas quanto intelectuais aceitam essa definição como uma questão de rotina. Apenas duas questões entram em conflito: o que significa realmente o termo “acordo” e o que isso significa em relação ao conceito de “realidade”, quando a realidade é concebida como algo com o qual nossas idéias estão de acordo “.

-William James-

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Jorge Luis Borges: “O futebol é popular porque a estupidez é popular”

À primeira vista, o animus do escritor argentino em relação ao “jogo bonito” parece refletir a atitude do odiador típico de hoje em dia, cujo citações quase se tornaram um refrão: futebol é entediante. Existem muitas pontuações de empate. Eu não suporto as falsas lesões.

E é verdade: Borges chamou o futebol de “esteticamente feio”. Ele disse: “O futebol é um dos maiores crimes da Inglaterra”. E aparentemente ele até programou uma de suas palestras para o mesmo dia e horário em que aconteceria o primeiro jogo da Argentina na Copa de 1978.

Mas a aversão de Borges pelo esporte resultou de algo muito mais preocupante do que a estética. Seu problema era com a cultura dos fãs de futebol, que ele ligava ao tipo de apoio popular cego que sustentava os líderes dos movimentos políticos mais horripilantes do século 20. Em sua vida, ele viu elementos do fascismo, peronismo e até mesmo anti-semitismo emergirem na esfera política argentina, então sua intensa suspeita de movimentos políticos populares e cultura de massa – cujo apogeu, na Argentina, é o futebol – faz muito sentido.

(“Existe uma idéia de supremacia, de poder [no futebol] que me parece horrível”, escreveu ele certa vez.) Borges se opunha ao dogmatismo em qualquer forma, por isso ele naturalmente desconfiava da devoção incondicional de seus compatriotas a qualquer doutrina ou religião – até mesmo para sua querida seleção “albiceleste”.

O futebol está inextricavelmente ligado ao nacionalismo, outra das objeções de Borges ao esporte. “O nacionalismo só permite afirmações, e toda doutrina que descarta a dúvida, a negação, é uma forma de fanatismo e estupidez”, disse ele. Equipes nacionais geram fervor nacionalista, criando a possibilidade de um governo inescrupuloso usar um astro como porta-voz para se legitimar. Na verdade, foi exatamente isso que aconteceu com um dos maiores jogadores de todos os tempos: Pelé. “Mesmo com seu governo arrebatando dissidentes políticos, também produziu um cartaz gigante de Pelé esforçando-se para cabecear a bola através do gol, acompanhado pelo slogan” Ninguém segura este país”, escreve Dave Zirin em seu livro, O Brasil Dança Com o Diabo.

Governos, como a ditadura militar brasileira, podem aproveitar o vínculo que os torcedores compartilham com suas seleções para angariar apoio popular, e é isso que Borges temia – e se ressentia – sobre o esporte.

Seu conto, “Esse Est Percipi” , também pode explicar seu ódio ao futebol. Mais ou menos na metade da história, é revelado que o futebol na Argentina deixou de ser um esporte e entrou no reino do espetáculo. Neste universo fictício, o simulacro reina supremo: a representação do esporte substituiu o esporte atual. “Esses [esportes] não existem fora dos estúdios de gravação e dos jornais”, diz um presidente do clube de futebol. O futebol inspira um fanatismo tão profundo que os torcedores acompanharão jogos inexistentes na TV e no rádio sem questionar nada:

“Os estádios há muito que foram condenados e estão caindo aos pedaços. Hoje em dia tudo é encenado na televisão e no rádio. A falsa emoção do locutor esportivo nunca te fez suspeitar de que tudo é uma farsa? A última vez que uma partida de futebol foi disputada em Buenos Aires foi em 24 de junho de 1937. A partir desse momento exato, futebol, juntamente com toda a gama de esportes, pertence ao
gênero do drama, realizado por um único homem em uma cabine ou por atores uniformizados diante das câmeras de TV”.

Esta história remonta ao desconforto de Borges com movimentos de massa: ‘Para ser capaz de perceber que’ efetivamente acusa a mídia de cumplicidade na criação de uma cultura de massa que reverencia futebol, e, como resultado, deixa-se aberta à demagogia e manipulação.

De acordo com Borges, os seres humanos sentem a necessidade de pertencer a um plano universal grande, algo maior do que nós mesmos. Religião faz isso para algumas pessoas, futebol para os outros. Personagens do universo borgesiano muitas vezes lidam com esse desejo, voltando-se para ideólogos ou movimentos para efeito desastroso: O narrador da história ” Um Requiem Alemão” torna-se um nazista, enquanto que em “A Loteria da Babilônia” e “O Congresso”, organizações aparentemente inócuas transformam-se rapidamente em vastas burocracias totalitárias que distribuem punições corporais ou queimam livros.

Queremos ser parte de algo maior, tanto que nos cegamos para as falhas que se desenvolvem nesses grandes planos – ou as falhas que eram inerentes a eles o tempo todo. E, no entanto, como o narrador de “O Congresso”” nos lembra, o fascínio dessas grandes narrativas muitas vezes prova demais:”o que realmente importa é ter sentido que o nosso plano, que mais de uma vez fizemos piada, realmente e secretamente existiu e foi o mundo e nós mesmos. ”

Essa frase poderia descrever com precisão como milhões de pessoas na Terra se
sentem em relação ao futebol.

*Artigo escrito por Shaj Mathew originalmente publicado em TheNewRepublic

 

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Pensar é difícil, é por isso que as pessoas preferem julgar

“Pensar é difícil, é por isso que as pessoas preferem julgar “, escreveu Carl Gustav Jung. Na época da opinião, onde tudo é julgado e criticado, muitas vezes sem uma base sólida, sem uma análise prévia e sem um profundo conhecimento da situação, as palavras de Jung assumem maior destaque, tornando-se quase proféticas.

Julgar nos empobrece

Identificar o ato de pensar com o ato de julgar pode nos levar a viver em um mundo distópico mais típico dos cenários imaginados por George Orwell do que da realidade. Quando os julgamentos suplantam o pensamento, qualquer indício se torna evidência, a interpretação subjetiva torna-se uma explicação objetiva e a mera conjectura adquire uma categoria de evidência.

À medida que nos afastamos da realidade e entramos na subjetividade, corremos o risco de confundir nossas opiniões com os fatos, tornando-nos juízes incontestáveis – e bastante parciais – de outros. Essa atitude empobrece o que julgamos e empobrecemos como pessoas.

Quando estamos muito focados em nós mesmos, quando deixamos de acalmar o ego, e ele adquire proporções excessivas, ou simplesmente temos muita pressa para nos impedir de pensar, preferimos julgar. Adicionamos rótulos duplos para catalogar coisas, eventos e pessoas em um espectro limitado de “bom” ou “ruim”, tomando como medida de comparação nossos desejos e expectativas.

Agir como juízes não apenas nos afasta da realidade, mas também nos impede de conhecê-la – e desfrutá-la – em sua riqueza e complexidade, transformando-nos em pessoas hostis – e não muito empáticos. Toda vez que julgamos algo, simplificamos a expressão mínima e fechamos uma porta para o conhecimento. Nós nos tornamos mero animalis iudicantis.

Pensar é um ato enriquecedor

Na sociedade líquida em que vivemos, é muito mais fácil julgar, criticar rapidamente e passar para o próximo julgamento. O que não ressoa em nosso sistema de crenças nós julgamos como inútil ou estúpido e passamos para o seguinte. Na era da gratificação instantânea, o pensamento exige um esforço que muitos não estão dispostos – ou não querem – a assumir.

O problema é que os juízos são tarefas interpretativas que damos a eventos, coisas ou pessoas. Cada julgamento é um rótulo que usamos para atribuir um valor – profundamente tendencioso – já que é um ato subjetivo baseado em nossos preconceitos, crenças e paradigmas. Julgamos com base em nossas experiências pessoais, o que significa que muitas críticas são um ato mais emocional que racional, a expressão de um desejo ou uma decepção.

Pensar, pelo contrário, exija reflexão e análise. Mais uma dose de empatia com o que foi pensado. É necessário separar o emocional dos fatos, lançar luz sobre a subjetividade adotando uma distância psicológica essencial.

Para Platão, o homem sábio é aquele que é capaz de observar tanto o fenômeno quanto sua essência. Uma pessoa sábia é aquela que não apenas analisa as circunstâncias contingentes, que geralmente são mutáveis, mas é capaz de rasgar o véu da superficialidade para alcançar o mais universal e essencial.

Portanto, o ato de pensar tem um enorme potencial enriquecedor. Através do pensamento, tentamos chegar à essência dos fenômenos e das coisas. Vamos além do percebido, superamos essa primeira impressão para mergulhar nas causas, efeitos e relacionamentos mais profundos. Isso exige uma árdua atividade intelectual através da qual crescemos como pessoas e expandimos nossa visão de mundo.

Pensar significa parar. Fazer silêncio. Prestar atenção. Controle o impulso de julgar precipitadamente. Pesar as possibilidades. Aprofundar nas coisas, com racionalidade e da empatia.

O segredo está em “ser curioso, não crítico”, como disse Walt Whitman.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Por que você deve se esforçar por uma vida significativa, não feliz

“Há apenas um erro inato, e essa é a noção de que existimos para sermos felizes … Enquanto persistirmos nesse erro inato, e até mesmo nos confirmarmos através de dogmas otimistas, o mundo parece estar cheio contradições ”. — Arthur Schopenhauer

O mundo moderno é obcecado com a noção de felicidade. Isso é visto como a medida e o objetivo da vida boa e, como Sigmund Freud observou, muito do que fazemos é motivado pelo desejo, que tudo consome, de ser feliz.

“… O que o comportamento dos próprios homens revela como o propósito e objeto de suas vidas, o que eles exigem da vida e desejam alcançar nela. A resposta para isso dificilmente pode ficar em dúvida: eles buscam a felicidade, querem se tornar felizes e permanecer assim ”. — Sigmund Freud

Mas essa busca sem fim pela felicidade é realmente uma maneira saudável de viver? Pois se estamos infelizes, o que para a maioria das pessoas é assim que é a maior parte do tempo, provavelmente nos perguntaremos o que há de errado conosco. Nós não somos recortados para este mundo? Os produtos químicos em nosso cérebro precisam de um ajuste farmacêutico? Ou melhor, Schopenhauer estava certo ao sugerir que visar a felicidade é um esforço fútil? Poderíamos considerar nossas vidas mais gratificantes se, em vez de lutarmos pela felicidade, dedicássemos nossas energias ao cultivo de uma vida significativa?

A felicidade nem sempre foi considerada uma meta pela qual vale a pena lutar. A raiz da palavra felicidade, na maioria das línguas indo-europeias, é sorte ou destino, implicando que a felicidade era originalmente vista como algo a ser dado e levado pelos deuses, ou pelo acaso. Não foi pensado para ser atingível apenas pelo esforço humano.

No Ocidente, foi Sócrates quem popularizou a ideia de que a felicidade é o maior bem e, portanto, deveria ser o objetivo final da vida.

A suposição de Sócrates de que devemos almejar a felicidade foi amplamente aceita pelos filósofos da Grécia Antiga que vieram depois dele. Os filósofos iluministas dos séculos XVII e XVIII, cujas ideias lançaram as bases para a civilização moderna, também adotaram a visão de Sócrates da felicidade como o fim último. Mas enquanto os gregos antigos tendiam a fundar a felicidade no cultivo da virtude e da excelência pessoal, alguns dos mais proeminentes pensadores do Iluminismo amarravam a busca da felicidade à busca do prazer.

“A felicidade, então, é em toda a sua extensão, o máximo prazer de que somos capazes e a miséria, a maior dor.” – John Locke

A maximização do prazer e a minimização da dor é a receita que muitos em nossos dias usam na tentativa de alcançar a felicidade. Mas estruturar nossa vida dessa maneira nos coloca em uma esteira hedônica. Passamos nossas vidas freneticamente correndo em direção aos bens, objetivos, eventos e pessoas que esperamos que imbuirão nossa vida com o prazer necessário para uma existência feliz. No entanto, ao atingir os objetos do nosso desejo, nos adaptamos rapidamente às novas condições e retornamos ao nosso estado padrão de ser. Ou como o filósofo Arthur Schopenhauer observou:

“… [Esforçar-se pela felicidade] é como uma sede insaciável: podemos alcançar breves satisfações, alguma liberação momentânea, mas, na natureza das coisas, elas nunca podem ser mais do que temporárias, e então estamos de novo no suporte. Portanto, a infelicidade, ou pelo menos a insatisfação, é o nosso estado normal de coisas. ” – Arthur Schopenhauer

Em nossos momentos mais introspectivos, muitos de nós reconhecem a busca constante da felicidade como um apego às sombras. Mas, qual é a alternativa? Se abandonarmos a busca da felicidade, o que deve tomar o seu lugar? No restante deste artigo, argumentaremos que devemos buscar uma vida significativa, pois, como Carl Jung observou:

“… a falta de significado na vida é uma doença da alma, cuja extensão e importância total ainda não começou a compreender.” – Carl Jung

Uma das principais razões em favor do cultivo do significado como nosso objetivo primário é devido à inevitabilidade do sofrimento. Embora a maior parte do nosso sofrimento seja menor e administrável, tendemos a ignorar o fato de estarmos sempre em risco de cair em períodos de grande adversidade – tempos em que somos forçados a lidar com o que Shakespeare chamou de “as eslingas e flechas da ultrajante fortuna”. (Shakespeare) Nestes momentos de crise, é apenas o significado – não a felicidade – que pode nos fornecer a resiliência necessária para perdurar. “Aquele que tem um porquê pode suportar quase qualquer coisa”, escreveu Nietzsche. Ou, como Carl Jung colocou “… o significado torna muitas coisas suportáveis – talvez tudo.” (Carl Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões) O significado, em outras palavras, é a matéria-prima a partir da qual podemos construir nossa “cidadela interna”. Ou fortaleza psicológica, a partir da qual podemos navegar pelas correntes caóticas da vida.

Mas como cultivamos significado em nossa vida? Embora não exista receita garantida, algumas abordagens parecem ser muito mais sustentáveis ​​do que outras. Uma abordagem que não se enquadra na categoria de tenacidade é a tentativa de encontrar significado por meio da obtenção de bens externos, como dinheiro, fama, status ou relacionamentos. Esses bens podem aumentar a qualidade de nossa vida, mas é improvável que eles sejam imbuídos de significado. Muitas pessoas desenvolvem uma carreira de sucesso, criam uma família, acumulam riqueza e status social, apenas para descobrir, muitas vezes na meia-idade, que, apesar de seu sucesso externo, sua existência interior permanece desolada e desprovida de significado. Ou como Jung escreveu:

“Uma carreira, produção de filhos, são todos maya [ilusão] em comparação com aquela coisa que faz com que sua vida seja significativa” – Carl Jung

Uma abordagem muito mais prática para a busca do significado é focar no cultivo de nosso caráter. “O que sua consciência diz? “Você deve se tornar a pessoa que você é” (Nietzsche, A Gaia Ciência). Ou como diz o pré-socrático Heráclito: “Caráter é destino” . Se nos concentrarmos em nos tornarmos um indivíduo mais integrado e completo, aumentamos muito nossa chance de encontrar significado por duas razões principais. Em primeiro lugar, esta abordagem é um antídoto para a estagnação e passividade que garante uma existência sem sentido. E em segundo lugar, esforçando-se para cultivar nossas forças, provavelmente descobriremos o “porquê” ou o propósito de nossa existência, que é a chave para uma vida subjetivamente significativa. Para ajudar nesse caminho, precisamos discutir o papel que os objetivos desempenham nesse processo.

A importância de estabelecer metas para o desenvolvimento pessoal é bem conhecida. Pois assim como a pedra só pode ser moldada em uma escultura através da força de um martelo e cinzel, também nosso potencial, ou o desenvolvimento de nosso caráter, só pode ser realizado por meio de disciplina e esforço. Simplesmente flutuar com a corrente da vida promove um corpo fraco e uma mente macia. Portanto, devemos aprender a nadar com o fluxo da vida e esforçar-se e lutar por nossos objetivos dignos.

“Tolos são aqueles que… não têm objetivo para o qual possam direcionar todo impulso e, na verdade, todo pensamento.”
Marco Aurélio

Enquanto a maioria está ciente da importância do estabelecimento de metas, muitos cometem o erro de se sacrificarem por seus objetivos. Eles acreditam que é a consecução de objetivos que constrói caráter e cultiva significado, quando na verdade é a luta contínua para eles que mais importa. Este tema da importância do esforço incessante é fundamental no conto clássico de Fausto de Goethe. Para Goethe, Fausto só alcança a auto-realização através do seu compromisso com a luta perpétua e o esforço.

“Quem quer que se empenhe em constante esforço, Ele pode nos redimir.”
Goethe, Fausto

Ao se esforçar continuamente para alcançar objetivos, é crucial ter em mente que nossos objetivos só valem a pena se contribuírem para o crescimento de nosso caráter. Às vezes, nossos objetivos não nos levam adiante, pois podem ter sido apropriados apenas para um estágio de nosso desenvolvimento que superamos. Com a idade de 20 anos, o escritor Hunter Thompson elaborou este conselho em uma carta para um amigo:

“Quando você era jovem, digamos que você queria ser bombeiro. Eu me sinto razoavelmente seguro em dizer que você não quer mais ser um bombeiro. Por quê? Porque sua perspectiva mudou. Não é o bombeiro que mudou, mas você. Todo homem é a soma total de suas reações à experiência. À medida que suas experiências diferem e se multiplicam, você se torna um homem diferente e, portanto, sua perspectiva muda … Portanto, não nos esforçamos para ser bombeiros, não nos esforçamos para ser banqueiros, nem policiais, nem médicos. Nós nos esforçamos para sermos nós mesmos … O objetivo é absolutamente secundário: é o funcionamento em direção ao objetivo que é importante ”. — Hunter Thompson

Ao seguir este conselho – esforçando-se implacavelmente pelos objetivos, modificando-os continuamente para facilitar o desenvolvimento contínuo de nosso caráter – nos colocaremos em um caminho de vida potencialmente significativo. Escolher esse caminho requer que abandonemos nossa obsessão por felicidade e prazer, mas, ironicamente, ao sairmos da esteira hedônica e nos expormos às lutas e conflitos necessários para cultivar o caráter, provavelmente alcançaremos o estado transitório de felicidade com muito mais frequência do que aqueles que apontam diretamente para isto. Pois, como Hunter Thompson escreveu:

“… Quem é o homem mais feliz, aquele que enfrentou a tempestade da vida e viveu ou aquele que permaneceu seguro na praia e simplesmente existiu?”
Hunter Thompson

 

 

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*Fonte: pensarcontemporaneo

A psicologia da resiliência: prosperando na adversidade

“A excelência murcha sem um adversário”.


Seneca, cartas de um estóico

A vida nos traz uma abundância de obstáculos e adversidades e assim, alguém poderia pensar, a mera passagem do tempo nos ensinaria a lidar de forma lucrativa com os desafios que cruzam nosso caminho. Mas o tempo apenas ensina os que estão dispostos e, portanto, muitos de nós estão extremamente despreparados para a vida. Um dos principais culpados por essa fraqueza nos dias atuais é a proliferação de uma mentalidade de vítima. Ser vítima é agora visto como um distintivo de honra. Mas se quisermos florescer e nos tornarmos o que Nietzsche chamou de “o verdadeiro timoneiro da nossa existência” ( Nietzsche, Meditações Inoportunas ), precisamos nos separar desse espírito impotente da época, assumir a responsabilidade por nossa vida e aprender a encarar ao que nos é apresentado.

Para conseguir esse feito, a resiliência psicológica é crucial. Precisamos aprender a emergir dos desafios da vida não mais fracos e mais apáticos, como a vítima perpétua, mas mais fortes e mais sábios. Ou como o antigo filósofo estóico Epicteto explicou:

“Toda dificuldade na vida nos apresenta uma oportunidade de nos voltarmos e de invocar nossos próprios recursos interiores submersos. Os ensaios que suportamos podem e devem nos apresentar aos nossos pontos fortes … Aprofundar. Você possui pontos fortes que você pode não perceber que tem. Encontre o caminho certo. Use-o.”

Epicteto, a arte de viver

Ao cultivar a resiliência, é necessário descartar a crença de que é melhor evitar obstáculos devido ao estresse que eles evocam. Pois, como os psicólogos estão descobrindo, nem todas as formas de estresse são iguais; alguns, de fato, são componentes cruciais de uma mente e um corpo florescentes.

“A ciência mais recente revela que o estresse pode torná-lo mais inteligente, mais forte e mais bem-sucedido. Isso ajuda você a aprender e crescer ”.

Kelly McGonigal, o lado positivo do estresse

Se o estresse em nossa vida é prejudicial ou benéfico depende de como reagimos a ele. Se acreditamos que as barreiras diante de nós são muito pesadas e uma ameaça ao nosso bem-estar, o estresse que elas provocam é prejudicial à nossa saúde. Mas se adotarmos uma “resposta de desafio” (Kelly McGonigal) – percebendo-as como problemas a serem resolvidos em busca do sucesso e crescimento – a tensão que experimentamos age como um companheiro construtivo; isso nos leva à ação.

Muitas pessoas sonham em viver uma vida livre de estresse; mas na realidade tal vida seria insuportavelmente chata. Para florescer, não devemos evitar dificuldades. Em vez disso, devemos adotar uma atitude mais competitiva em relação à nossa existência – uma vida de agon, como os gregos antigos a chamavam – e em quaisquer domínios aos quais nos dedicamos, nosso objetivo deve ser a excelência. Viver dessa maneira exigirá uma abundância de desafios e, portanto, o tipo de estresse significativo e luta que precisamos para sentir a vida vale a pena ser vivido.

Ou como o escritor e médico Boris Cyrulnik escreveu:

“A pior forma de estresse é a ausência de estresse, porque a sensação de que não há vida antes da morte dá origem a um sentimento de vazio em desespero diante do vazio.”

Boris Cyrulnik, Resiliência

Mas desenvolver a resiliência não é apenas uma questão de buscar estresse e lutar a serviço de fins significativos. Devemos também aprender a lidar com as formas mais severas de adversidade que ninguém em sã consciência convida voluntariamente à vida. Embora gostemos de acreditar que reviravoltas cruéis do destino só acontecem com os outros, quanto mais tempo vivermos, maior é a probabilidade de que tal momento nos sobreviva. Seria ideal se Nietzsche estivesse dizendo: “Aquilo que não mata você o torna mais forte” ( Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos ) era verdadeiro para todos. Mas a adversidade severa tende a destruir mais pessoas do que eleva. Então, como podemos ser um dos poucos que não são maltratados e quebrados pelos períodos mais angustiantes da vida?

Uma técnica que podemos usar para obter esse tipo de resiliência é o que os estóicos chamam de “premeditação dos males”. Em vez de viver com um otimismo ingênuo de que tudo vai dar certo no final, devemos meditar periodicamente para perder as coisas que mais apreciamos. Eles pensaram que, se criarmos o hábito de visualizar o fracasso da carreira ou do relacionamento, a doença, a traição ou até a morte, nos tornaremos semelhantes ao rei que fortalece seu reino da invasão. Com o tempo, desenvolveremos uma armadura psicológica para nos ajudar a suportar as dificuldades da vida. “Ele rouba os males presentes de seu poder que perceberam sua vinda de antemão.” ( Sêneca, Cartas de um Estóico ) escreveu Sêneca. Ou como ele explicou ainda:

“Todo mundo se aproxima de um perigo com mais coragem se tiver preparado antecipadamente como enfrentá-lo. Qualquer um pode suportar melhor as dificuldades se já tiver praticado como lidar com elas. Pessoas que estão despreparadas podem ficar desequilibradas até mesmo pelas menores coisas. ”

Sêneca, cartas morais para Lucílio

Muitos fogem desta prática acreditando que meditar no lado negro da vida produzirá um pessimismo sombrio. Afinal, não é melhor permanecer no lado mais ensolarado da vida? Embora seja comum em nossos dias assumir isso, nem todas as culturas aderiram a essa visão. Na verdade, duas das eras de ouro da história – Atenas Antiga e Inglaterra Elisabetana – foram infundidas com um “senso de vida trágico”. Como observou a classicista Edith Hamilton, do século XX, eles tinham uma percepção lúcida de que a vida humana está “ligada ao mal e que a injustiça [é] da natureza das coisas”. ( Edith Hamilton, The Greek WayNo entanto, apesar de sua propensão a meditar sobre os males da existência, essas idades também foram permeadas com grande produtividade e desejo pela vida. Parece que ao nos tornarmos conscientes e mais receptivos às possibilidades mais sombrias da vida, não apenas cultivamos a resiliência, mas também nos tornamos mais plenamente vivos. Pois, como Edith Hamilton explicou:

“O que esses dois períodos tinham em comum, dois mil anos e mais separados no tempo… pode nos dar alguma pista da natureza da tragédia, pois longe de serem períodos de trevas e derrotas cada um era um tempo em que a vida era vista exaltada de possibilidades ilimitadas e insondáveis. O mundo era um lugar de admiração; a humanidade era bela; a vida era vivida na crista da onda. Mais do que tudo, a alegria pungente do heroísmo havia despertado o coração dos homens. Não é coisa para tragédia, você diria? Mas na crista da onda deve-se sentir tragicamente ou alegremente; Ninguém pode se sentir indiferente ”.

Edith Hamilton, o caminho grego

Desenvolver a resiliência não é claramente para os fracos de coração – mas também não é muito para a vida. Assim, para nos dar a melhor chance de não apenas duradouros, mas prósperos, devemos resistir às tentações da vitimização e tentar nos comportar mais como um filósofo, no sentido antigo.

“Ser um filósofo não é meramente ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola … é resolver alguns dos problemas da vida, não só teoricamente, mas na prática”.

Henry David Thoreau, Walden

Pois talvez o problema mais crítico da vida seja como permanecer forte e afirmativo em meio aos muitos fardos e golpes da vida. E para resolver esse problema, não apenas a sabedoria, mas o cultivo da resiliência, é necessário. Ou como o antigo Epicteto Estóico aconselhou:

“Tome exemplo dos mestres de wrestling. O menino caiu? Levante-se, novamente, eles dizem; lute novamente até que você tenha se fortalecido. Esse é o tipo de atitude que você deveria ter… Pois tanto a ruína quanto a salvação têm sua fonte dentro de você ”.

Epicteto, Discursos

 

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*Fonte: pensarcontemporaneo

A direção de sua vida é marcada por seus valores, não por seus objetivos

Que impressão você gostaria de deixar quando tudo acabar? Às vezes bate
aquela sensação de que não temos o controle. Parece que somos um grande
ônibus seguindo as indicações dos passageiros que nos acompanham na
viagem. Acatamos decisões que as pessoas nos recomendam e acabamos por
tomar outra direção, bem diferente da que tomaríamos se seguíssemos a
intuição dos nossos valores.

A insegurança é uma bagagem que pesa demais, pesa no corpo e aprisiona o
espírito, arranca a liberdade, o gosto por ser livre. O inseguro quase nunca está
certo de suas decisões e se torna dependente de que outros as tomem por ele.
Nisso a vida vai passando, o tempo correndo veloz sem esperar por ninguém.
Porque o tempo não espera, a vida não estaciona a esperar que façamos
nossas escolhas com calma.

E é por saber que tudo está em movimento, que a vida corre a galope, que
optamos rápido pelo caminho que nos parece mais ideal aos nossos propósitos.
E nisso, independente do resultado, de alguma forma já estaremos perdendo
alguma coisa, porque toda escolha implica numa perda, mas nos daremos por
satisfeito se os ganhos superarem a perda. E isso é bom quando a decisão
partiu da gente, quando não nos orientamos apenas pelas vozes do senso
comum, quando não apenas seguimos as placas indicadoras deixadas por
outros.

Você é quem melhor sabe o que é melhor para você, mas a pressão que vem de
fora quer te fazer acreditar que não, que o caminho padrão traçado pela
sociedade é que é por onde você deve trilhar. Sair desse caminho, tentar uma
trilha alternativa, tem um preço que a maioria não está disposta a pagar. Você
está disposto a pagar? talvez esteja, talvez não; pode ser que se atraia mesmo
pelo convencional, por seguir no estouro da boiada ainda que tenha que
sacrificar seus valores.

Valores são direções de vida

Para começar, um valor não é um resultado em si mesmo, não é um objetivo; um
valor não se esgota, está sempre ali. Os valores definem as palavras que você
vai usar para moldar o argumento de sua vida: aceitação, persistência, ordem,
conformidade, imparcialidade ou intimidade. Uma longa lista composta de
direções que permite decidir quais metas são as que realmente importam.

Portanto, uma vida valiosa é o resultado de agir a serviço do que você realmente
valoriza. O problema é que muitas vezes não sabemos identificar quais são
esses valores e como eles se relacionam com nossas áreas vitais. São nove as
principais áreas que compõem a nossa vida: relações familiares, relações
íntimas ou de casal, relações sociais, trabalho, educação, lazer, espiritualidade,
cidadania e saúde.

“A maturidade é alcançada quando uma pessoa adia prazeres imediatos por
valores de longo prazo”

– Joshua Loth Liebman

Para cada área damos um nível de importância e em cada um agimos de forma
diferente para resolver os obstáculos que surgem. No entanto, o caso é que
muitas vezes as soluções que implementamos não coincidem com nossos
princípios. É por isso que fazemos coisas que nos arrependemos ou
bloqueamos ao tomar decisões. Tudo isso nos leva a nos sentirmos
sobrecarregados, exaustos ou perdidos.

Lamentos na hora errada

Bronnie Ware, uma enfermeira canadense, coletou ao longo de vários anos os
últimos arrependimentos de seus pacientes na unidade de cuidados paliativos.
Um artigo publicado mais tarde pela Harvard Business Review corroborou isso,
há cinco lamentos comuns que se repetem em pessoas que vão morrer:

• Eu gostaria de ter vivido uma vida fiel a mim mesmo e não o que os outros
queriam.

• Eu gostaria de não ter trabalhado tanto e ter tido mais tempo com meu parceiro
e minha família.

• Eu gostaria de ter tido a coragem de expressar meus sentimentos.

• Eu deveria ter contatado mais com meus amigos.

• Eu gostaria de ter me feito mais feliz.

As pessoas se arrependem de perder as rédeas de suas vidas, de terem
perdido tempo com seus entes queridos, não tendo se expressado para evitar
conflitos com os outros ou por medo. Somos pegos em um conformismo
medíocre. Nós enjaulamos nossa rotina e deixamos de lado o tempo e o esforço
que merecem o que realmente importa para nós.

A felicidade é uma escolha, o medo da mudança nos prende a hábitos que não
produzem satisfação. Passamos mais tempo fazendo os outros acreditarem que
somos mais felizes do que realmente somos.
Você escolhe aonde ir

Pense que a chave está em antecipar essa frustração, encontrar nossos valores
e estabelecer objetivos que deem sentido às viagens que escolhermos. Os
profissionais da psicologia ajudam as pessoas a passar da fala para a ação. O
primeiro passo é identificar seus valores e sua hierarquia com base no momento
vital em que você se encontra.

A partir daí, metas de curto e longo prazo são estabelecidas. Ou seja, os valores
formarão os pilares sobre os quais estaremos estabelecendo objetivos ao longo
do tempo. Objetivos que realmente nos dão sentido e com os quais teremos a
oportunidade de nos aperfeiçoar e nos sentirmos confortáveis.

Mais tarde, concretizaremos e planejamos esses objetivos em ações. Esta é a
parte que dá mais medo por causa das dificuldades que antecipamos. Fazer
mudanças nos causa insegurança e queremos fugir para evitar enfrentá-las. Da
psicologia trabalhamos ao longo do processo para superar obstáculos e
barreiras. Pense que não há bem-estar maior do que o alcançado por meio de
escolhas próprias.

“Abra seus braços para mudar, mas não deixe seus valores”

– Dalai Lama

 

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Sem educação, os homens ‘vão matar-se uns aos outros’, diz neurocientista António Damásio

O neurocientista António Damásio advertiu que é necessário “educar massivamente as pessoas para que aceitem os outros”, porque “se não houver educação massiva, os seres humanos vão matar-se uns aos outros”.

O neurocientista português falou no lançamento do seu novo livro A Estranha Ordem das Coisas, na Escola Secundária António Damásio, em Lisboa, onde ele defendeu perante um auditório cheio que é preciso educarmo-nos para contrariar os nossos instintos mais básicos, que nos impelem a pensar primeiro na nossa sobrevivência.

“O que eu quero é proteger-me a mim, aos meus e à minha família. E os outros que se tramem. […] É preciso suplantar uma biologia muito forte”, disse o neurocientista, associando este comportamento a situações como as que têm levado a um discurso anti-imigração e à ascensão de partidos neonazis de nacionalismo xenófobo, como os casos recentes da Alemanha e da Áustria. Para António Damásio, a forma de combater estes fenômenos “é educar maciçamente as pessoas para que aceitem os outros”.

Em ” A Estranha Ordem das Coisas”(editora: Temas e Debates), Damásio volta a falar da importância dos sentimentos, como a dor, o sofrimento ou o prazer antecipado.

“Este livro é uma continuação de O Erro de Descartes, 22 anos mais tarde. Em ‘O Erro de Descartes’ havia uma série de direções que apontavam para este novo livro, mas não tinha dados para o suportar”, explicou António Damásio, referindo-se ao famoso livro que, nos finais da década de 90, veio demonstrar como a ausência de emoções pode prejudicar a racionalidade.

O autor referiu que aquilo que fomos sentindo ao longo de séculos fez de nós o que somos hoje, ou seja, os sentimentos definiram a nossa cultura. António Damásio disse que o que distingue os seres humanos dos restantes animais é a cultura: “Depois da linguagem verbal, há qualquer coisa muito maior que é a grande epopeia cultural que estamos a construir há cem mil anos.”

O neurocientista acredita que o sentimento – que trata como “o elefante que está no meio da sala e de quem ninguém fala” – tem um papel único no aparecimento das culturas. “Os grande motivadores das culturas atuais foram as condições que levaram à dor e ao sofrimento, que levaram as pessoas a ter que fazer alguma coisa que cancelasse a dor e o sofrimento”, acrescentou António Damásio.

“Os sentimentos, aquilo que sentimos, são o resultado de ver uma pessoa que se ama, ou ouvir uma peça musical ou ter um magnífico repasto num restaurante. Todas essas coisas nos provocam emoções e sentimentos. Essa vida emocional e sentimental que temos como pano de fundo da nossa vida são as provocadoras da nossa cultura.”

No livro o autor desce ao nível da célula para explicar que até os microrganismos mais básicos se organizam para sobreviverem. Perante uma plateia com centenas de alunos, o investigador lembrou que as bactérias não têm sistema nervoso nem mente mas “sabem que uma outra bactéria é prima, irmã ou que não faz parte da família”.

Perante uma ameaça, como um antibiótico, “as bactérias têm de trabalhar solidariamente”, explicou, acrescentando que, se a maioria das bactérias trabalha em prol do mesmo fim, também há bactérias que não trabalham. “Quando as bactérias (trabalhadoras) se apercebem que há bactérias vira-casaca, viram-lhes as costas”, concluiu o neurocientista, sublinhando que estas reações são ao nível de algo que possui “uma só célula, não tem mente e não tem uma intenção”, ou seja, “nada disto tem a ver com consciência”.

E é perante esta evidência que o investigador conclui que “há uma coleção de comportamentos – de conflito ou de cooperação – que é a base fundamental e estrutural de vida”.

Durante o lançamento do livro, o investigador usou o exemplo da Catalunha para criticar quem defende que o problema é uma abordagem emocional e não racional: “O problema é ter mais emoções negativas do que positivas, não é ter emoções.”

“O centro do livro está nos afetos. A inteira realidade dos sentimentos e a ciência dos sentimentos e do que está por baixo dos sentimentos. O sentimento é a personagem central. É também central uma coisa que me preocupa muito, o presente estado da cultura humana. Que é terrível. Temos o sentimento de que não está apenas a desmoronar-se, como está a desmoronar-se outra vez e de que devemos perder as esperanças visto que da última vez que tivemos tragédias globais nada aprendemos. O mínimo que podemos concluir é que fomos demasiado complacentes, e acreditamos, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, que haveria um caminho certo, uma tendência para o desenvolvimento humano a par da prosperidade. Durante um tempo, acreditamos que assim era e havia sinais disso”

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*Fonte: pensarcomtemporaneo

A triste geração que virou escrava da própria carreira

E a juventude vai escoando entre os dedos.

Era uma vez uma geração que se achava muito livre.

Tinha pena dos avós, que casaram cedo e nunca viajaram para a Europa.

Tinha pena dos pais, que tiveram que camelar em empreguinhos ingratos e suar muitas camisas para pagar o aluguel, a escola e as viagens em família para pousadas no interior.

Tinha pena de todos os que não falavam inglês fluentemente.

Era uma vez uma geração que crescia quase bilíngue. Depois vinham noções de francês, italiano, espanhol, alemão, mandarim.

Frequentou as melhores escolas.

Entrou nas melhores faculdades.

Passou no processo seletivo dos melhores estágios.

Foram efetivados. Ficaram orgulhosos, com razão.

E veio pós, especialização, mestrado, MBA. Os diplomas foram subindo pelas paredes.

Era uma vez uma geração que aos 20 ganhava o que não precisava. Aos 25 ganhava o que os pais ganharam aos 45. Aos 30 ganhava o que os pais ganharam na vida toda. Aos 35 ganhava o que os pais nunca sonharam ganhar.

Ninguém podia os deter. A experiência crescia diariamente, a carreira era meteórica, a conta bancária estava cada dia mais bonita.

O problema era que o auge estava cada vez mais longe. A meta estava cada vez mais distante. Algo como o burro que persegue a cenoura ou o cão que corre atrás do próprio rabo.

O problema era uma nebulosa na qual já não se podia distinguir o que era meta, o que era sonho, o que era gana, o que era ambição, o que era ganância, o que necessário e o que era vício.

O dinheiro que estava na conta dava para muitas viagens. Dava para visitar aquele amigo querido que estava em Barcelona. Dava para realizar o sonho de conhecer a Tailândia. Dava para voar bem alto.

Mas, sabe como é, né? Prioridades. Acabavam sempre ficando ao invés de sempre ir.

Essa geração tentava se convencer de que podia comprar saúde em caixinhas. Chegava a acreditar que uma hora de corrida podia mesmo compensar todo o dano que fazia diariamente ao próprio corpo.

Aos 20: ibuprofeno. Aos 25: omeprazol. Aos 30: rivotril. Aos 35: stent.

Uma estranha geração que tomava café para ficar acordada e comprimidos para dormir.

Oscilavam entre o sim e o não. Você dá conta? Sim. Cumpre o prazo? Sim. Chega mais cedo? Sim. Sai mais tarde? Sim. Quer se destacar na equipe? Sim.

Mas para a vida, costumava ser não:

Aos 20 eles não conseguiram estudar para as provas da faculdade porque o estágio demandava muito.

Aos 25 eles não foram morar fora porque havia uma perspectiva muito boa de promoção na empresa.

Aos 30 eles não foram no aniversário de um velho amigo porque ficaram até as 2 da manhã no escritório.

Aos 35 eles não viram o filho andar pela primeira vez. Quando chegavam, ele já tinha dormido, quando saíam ele não tinha acordado.

Às vezes, choravam no carro e, descuidadamente começavam a se perguntar se a vida dos pais e dos avós tinha sido mesmo tão ruim como parecia.

Por um instante, chegavam a pensar que talvez uma casinha pequena, um carro popular dividido entre o casal e férias em um hotel fazenda pudessem fazer algum sentido.

Mas não dava mais tempo. Já eram escravos do câmbio automático, do vinho francês, dos resorts, das imagens, das expectativas da empresa, dos olhares curiosos dos “amigos”.

Era uma vez uma geração que se achava muito livre. Afinal tinha conhecimento, tinha poder, tinha os melhores cargos, tinha dinheiro.

Só não tinha controle do próprio tempo.

Só não via que os dias estavam passando.

Só não percebia que a juventude estava escoando entre os dedos e que os bônus do final do ano não comprariam os anos de volta.

*Por Ruth Manus

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*Fonte: provocacoesfilosoficas

Hipócrates e a teoria dos humores essenciais em humanos

A história de Hipócrates e a teoria dos estados essenciais datam de quase quatro séculos em nossa era. É considerada uma das primeiras abordagens à psicologia, uma nova ciência que nasceu vinte séculos depois.

Hipócrates é chamado de “pai da medicina” porque foi o primeiro no Ocidente a sistematizar o conhecimento disponível sobre saúde e doença. Ele também propôs uma explicação para esses fenômenos e meios terapêuticos para tratá-los.

“É muito mais importante saber qual pessoa está sofrendo de uma doença do que saber de qual doença a pessoa está sofrendo.” -Hippocrate-

A teoria de Hipócrates sobre os estados de espírito essenciais foi assimilada e usada pela maioria dos médicos até meados do século 19. Isso nos dá uma ideia da solidez dos fundamentos de Hipócrates. De fato, continuamos hoje a citar alguns dos postulados dessa teoria.

A teoria dos humores essenciais

A teoria dos humores essenciais de Hipócrates sugere, para resumir, que o corpo humano consiste em quatro substâncias. Estas substâncias recebem o nome de humores. Eles devem manter um equilíbrio perfeito entre eles. Quando eles perdem, a doença aparece, tanto no corpo quanto na mente.

Qualquer deficiência ou doença significava que o equilíbrio dos estados de ânimo tenha alterado. Portanto, para curá-los, era necessário encontrar uma maneira de restaurar o equilíbrio perdido.

Segundo a teoria dos humores essenciais, as substâncias que compõem o corpo humano são: a bílis negra, a bílis amarela, o sangue e a linfa. Cada um desses humores está diretamente relacionado a um elemento do universo e a uma qualidade atmosférica. O relacionamento seria:

Bile negra: terra, seco e frio

Bílis amarela: relacionada ao fogo, seca e quente

Sangue: ligado ao ar, molhado e quente

Linfa: relacionada à água, úmida e fria

Humor e personalidade

Hipócrates nunca viu a doença como um tema exclusivamente orgânico. Ele manteve uma concepção em que a mente e o corpo formavam apenas uma realidade. Portanto, o que estava acontecendo na mente tinha efeitos no organismo físico e vice-versa.

Os alunos da escola peripatética trouxeram um novo elemento à teoria dos humores essenciais. Eles sugeriram que a predominância de um dos humores leva a um temperamento específico nas pessoas. Mais tarde, Galien completou essas idéias. Ele apontou que o desequilíbrio do humor afeta nosso modo de ser, sentir, pensar e agir.

Os alunos da escola peripatética trouxeram um novo elemento à teoria dos humores essenciais. Eles sugeriram que a predominância de um dos humores leva a um temperamento específico nas pessoas. Mais tarde, Galien completou essas idéias. Ele apontou que o desequilíbrio do humor afeta nosso modo de ser, sentir, pensar e agir.

Foi o próprio Galen quem acabou por estabelecer a existência de quatro temperamentos da teoria dos humores essenciais. Aqui estão eles:

Melancolia. Caracteriza quem tem predominância da bile negra em seu corpo. Pessoas com esse temperamento são tristes, bastante prováveis ​​e orientadas para atividades artísticas.

Colérico. Representa aqueles que têm uma grande quantidade de bílis amarela. Isso leva a um temperamento apaixonado, com enorme vitalidade e uma tendência a se irritar com muita facilidade.

Sangue. Neste caso, o humor do sangue predomina. Os traços do temperamento do sangue são autoconfiança, alegria, otimismo, expressividade e sociabilidade.

Fleumático. Caracteriza aqueles que têm uma predominância de linfa em seu corpo. As pessoas fleumáticas são atenciosas, justas, quietas, com pouco compromisso e um pouco preguiçosas.

Abordagens hipocráticas no mundo de hoje

Hipócrates, Galeno e todos os seus seguidores criaram e completaram a teoria dos humores essenciais baseados na observação. Eles não aplicaram nenhum método científico. Com o nascimento e a consolidação das ciências formais, toda essa teoria caiu em desuso. Hoje, não é dada qualquer validade objetiva: é considerada apenas como referência histórica.

No entanto, a teoria dos humores essenciais tem o mérito de ter sido o primeiro esforço sério para classificar diferentes tipos de temperamentos. O fato desses médicos ilustres entenderem que as emoções também têm consequências fisiológicas também é muito interessante.

De fato, os primeiros psicólogos foram inspirados pelas teorias de Hipócrates e Galeno. De um modo ou de outro, esses pensadores demonstraram muita intuição. Suas classificações são semelhantes aos diferentes tipos de personalidade definidos pelos pesquisadores, quase 2000 anos depois desses precursores das ciências da saúde.

 

 

 

 

 

 

 

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Por que as mulheres se estressam mais que os homens?

O estresse é o mal moderno. Vivemos, ou acreditamos que vivemos, em um mundo sitiado por perigos, perigos potenciais que nos cercam e esperam que baixemos a guarda para nos atacar. Isso gera um estado de alerta constante que nos deixa tensos e irritados. No entanto, nem todos reagem da mesma maneira. O estresse nas mulheres se manifesta de forma diferente e é frequentemente mais intenso do que os sintomas de estresse nos homens. Existem diferenças de gênero no modo de experimentar e enfrentar esse estado de ansiedade.

O nível de estresse nas mulheres duplica o estresse nos homens

Psicólogos da Universidade de Cambridge conduziram um estudo no qual descobriram que as mulheres ocidentais são quase duas vezes mais estressadas do que os homens. Esses pesquisadores analisaram 48 estudos anteriores sobre transtornos de ansiedade para identificar quais grupos experimentam mais estresse, levando em conta fatores como sexo, idade, condições médicas e transtornos mentais.

Foi revelado que 4 em cada 100 pessoas sofrem algum grau de ansiedade, do estresse à ansiedade generalizada. No entanto, para cada homem estressado, há 1,9 mulheres que sofrem de um transtorno de ansiedade, e as mulheres com menos de 35 anos são as mais afetadas.

Curiosamente, as mulheres casadas também relatam níveis mais altos de estresse do que as mulheres solteiras: 33% versus 22%, respectivamente. Além disso, as mulheres solteiras têm uma maior percepção de controle sobre suas vidas e sentem que estão fazendo o que é necessário para gerenciar o estresse. Pelo contrário, as mulheres casadas relatam maior afetação devido ao estresse, sofrendo mais episódios de choro, irritação, raiva, fadiga e dores de cabeça.

Os sintomas do estresse nas mulheres

Homens e mulheres reagem de maneira diferente ao estresse, tanto física quanto mentalmente. Tentam controlar o estresse seguindo estratégias muito diferentes e também percebem sua capacidade de lidar com problemas, bem como as coisas que estão em seu caminho, de maneiras muito diferentes. Essas diferentes formas de perceber e lidar com contratempos determinam os sintomas de estresse nas mulheres.

1. pensamentos negativos recorrentes. As mulheres tendem a girar mais as coisas, o que significa que elas têm pensamentos intrusivos mais recorrentes, como mostrou um estudo realizado na Universidade do Colorado. Essa tendência a ruminar piora o estresse e aumenta as chances de sofrer de depressão.

2. Tristeza e ansiedade. As mulheres tendem a reagir mais emocionalmente ao estresse. Um estudo da Universidade de Yale descobriu que muitas vezes se sentem mais tristes ou mais ansiosas quando estão tensas e estressadas. Essa inundação emocional muitas vezes as sobrecarrega, gerando uma sensação de falta de controle.

3. Somatização. Um dos sintomas mais característicos de estresse nas mulheres é a somatização. As mulheres geralmente relatam mais sintomas somáticos relacionados à tensão e ansiedade, como demonstrado por um estudo realizado na Universidade de La Laguna. Na verdade, eles não são meras experiências subjetivas, descobriu-se que as mulheres respondem com um aumento na freqüência cardíaca ao estresse e relatam dores de cabeça mais emocionais.

Por que as mulheres se estressam mais?

As diferenças hormonais são apenas uma variável na equação que exacerba os sintomas de estresse nas mulheres. As diferenças no modo de viver o estresse e lidar com ele desempenham um papel mais importante em seu impacto no bem-estar feminino.

– Sensibilidade a conflitos interpessoais

As mulheres são mais sensíveis aos conflitos e problemas nos relacionamentos interpessoais, porque tendem a conferir maior importância a elas. 84% das mulheres dizem que manter um bom relacionamento familiar é muito importante, comparado a 74% dos homens. Curiosamente, elas também relatam mais estresse quando precisam se conectar com outras pessoas e passar tempo com a família e os amigos.

Portanto, não é surpreendente que a pesquisa conduzida na Universidade da Califórnia sugere que a maioria dos eventos estressantes que desencadeiam o estresse em mulheres estão relacionados com a sua rede social nas proximidades, como problemas no relacionamento, a criação dos filhos ou a perda de uma pessoa próxima.

– Significado dos sintomas físicos

Em muitos casos, os sintomas de estresse nas mulheres são intensificados devido à importância que elas dão a eles. Na prática, ao focar mais nelas e conferir-lhes um papel mais protagônico, a percepção de desconforto e insatisfação aumenta, fechando assim um círculo vicioso.

Por exemplo, embora a insônia atinja homens e mulheres, 75% delas relatam que o sono é muito importante, uma opinião compartilhada apenas por 58% dos homens. Isso significa que o impacto psicológico e físico da insônia acabará sendo mais pronunciado nas mulheres. Não podemos esquecer que tudo em que focamos nossa atenção é amplificado.

– Estratégias de enfrentamento do estresse

Há muitas razões para serem enfatizadas, por isso é importante ter boas estratégias de enfrentamento. Se não tivermos boas ferramentas psicológicas para lidar com contratempos e adversidades, o estresse aumentará. Mais uma vez, homens e mulheres muitas vezes se comportam de maneira diferente quando chega a hora de lidar com o estresse.

As mulheres tendem a usar estratégias de enfrentamento mais emocionais e evitativas. Também são menos racionais quando avaliam a situação e têm mais dificuldade em praticar o desapego. Não é estranho uma vez que um estudo conduzido na Universidade da Pensilvânia, no qual mais de 1.000 imagens do cérebro foram analisadas, revelou que o cérebro feminino é melhor “conectado” para reter detalhes emocionais, o que permite que eles se conectem melhor com os outros, mas também se converte em uma barreira ao estabelecer uma distância psicológica. Os homens, por outro lado, tendem a inibir emoções e praticar estratégias diretas de enfrentamento.

– Sentimento de falta de controle

Talvez uma das variáveis que mais influenciam a percepção do estresse em mulheres e homens seja o autocontrole. Embora tanto mulheres como homens estressados indiquem que a principal barreira para fazer mudanças positivas em seu estilo de vida que afastam o estresse é a força de vontade, muitas mulheres reconhecem que a falta de autocontrole é o principal obstáculo para lidar com o estresse.

O problema é que quando percebemos que não temos controle sobre a nossa vida, indefesa aprendida logo aparecerá, o que nos faz perder a confiança em nossas habilidades para superar a adversidade. Sentir que somos uma folha movida pelo vento gera ainda mais estresse.

A melhor estratégia para lidar com o estresse: Contextualizar Existe uma maneira de lidar melhor com o estresse do que outra? Tudo depende da situação. Por exemplo, um estilo de enfrentamento direto pode ser útil em algumas circunstâncias e em outras pode ser mais adaptativo assumir um estilo de enfrentamento evitativo. Às vezes é necessário se deixar levar por emoções e outras vezes é melhor ser mais racional.

Além das diferenças nas estratégias de enfrentamento e nos sintomas de estresse em mulheres e homens, o mais importante é conhecer nossos pontos fracos, trabalhar para reforçá-los e analisar cada situação para responder da maneira mais assertiva possível. Afinal, você não precisa se envolver em todas as batalhas e não precisa vencer todas as contendas.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

7 vezes em que Shakespeare adivinhou o que você estava sentindo

Shakespeare não é considerado um dos maiores dramaturgos e poetas de todos os tempos à toa!

Com o dom de conseguir captar a essência dos instintos e desejos humanos em palavras, o criador de “Romeo e Julieta” e “Hamlet” é um dos autores mais citados do mundo.

Shakespeare sabe o que você está sentindo! Quer uma prova? Te damos sete! Confira as vezes em que ele definitivamente “leu os seus pensamentos”!

1. Quando todos ao seu redor querem que você seja forte…

“Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.” – Shakespeare

Você tem consciência de como poderia lidar com determinadas situações, mas os sentimentos envolvidos fazem com que aquela “dor no coração” seja mais forte do que a “voz da razão”.

2. A vida é muito curta para fazer aquilo de que não se gosta…

“O que não dá prazer não dá proveito. Em resumo, senhor, estude apenas o que lhe agradar.” – William Shakespeare

Eis uma lição que muitos aprendem tarde, mas Shakespeare já adianta a resposta para a sua grande dúvida: arrisque! Escolha o caminho que te dê mais felicidade e lute por isso!

3. Saber viver e aproveitar o presente…

“O passado e o futuro parecem-nos sempre melhores; o presente sempre pior. – William Shakespeare

Pensar que os melhores momentos da sua vida já passaram ou que ainda estão por vir é um erro! É um mal do ser humano pensar que a “grama do vizinho é sempre mais verde”, assim como não aproveitar os bons momentos (mesmo pequenos) que vive!

Lembre com alegria do passado, faça planos para o futuro, mas não deixe de viver o seu presente!

4. Sou dono do meu futuro!

“Em certos momentos os homens são donos de seus próprios destinos.” – William Shakespeare

Ao longo da vida somos confrontados com alguns momentos especiais, onde são apresentados caminhos que nos levarão para diferentes destinos… E lembre-se: você é livre para trilhar o caminho que quiser, basta escolher e seguir em frente!

Você é o “senhor do seu destino” e o único responsável por fazer os seus sonhos se tornarem realidade, por isso saiba escolher os caminhos certos, ok?

5. Palavra-chave para a ansiedade: paciência!

“Tenha paciência. Tudo aquilo que você deseja, se for verdadeiro, e o mais importante: se for para ser seu, acontecerá.’ – William Shakespeare

Todo mundo tem seus momentos de ansiedade, mas nem todos sabem como lidar com essa sensação angustiante. Com o tempo você acaba encontrando a resposta, e não poderia ser mais perfeita do que a descrição feita por Shakespeare!

Sejamos pacientes!

6. Quando as ações valem mais do que mil palavras…

“Os sentimentos verdadeiros se manifestam mais por atos que por palavras” – William Shakespeare

Quem já esteve (ou está) apaixonado sabe muito bem que mais vale uma ação do que mil cartas de amor para provar os verdadeiros sentimentos, certo?

Como diz o ditado popular: “quem muito fala, nada quer”.

7. A vida é um filme!

“O mundo inteiro é um palco e todos os homens e todas as mulheres são apenas atores” – William Shakespeare

A sua vida é um grande filme, onde você é o protagonista principal! Lembre de fazer a sua melhor atuação para ter não apenas um, mas vários finais felizes ao longo da sua história!

Não importa qual seja a sua idade, o seu gênero sexual ou classe social… As pessoas passam pelos mesmos dilemas ao longo da vida. É da natureza humana ter de enfrentar determinadas questões e, como era de se esperar, Shakespeare conseguiu compreender isso muito bem, não concordam?

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Jean-Paul Sartre – A liberdade reside na escolha

Para o filósofo francês Jean-Paul Sartre, o ser humano é livre, e a liberdade reside no ato da escolha. Nós sempre escolhemos, afirma o filósofo, e não há como evitarmos. Quando dizemos que não há opções, na verdade estamos dizendo que não gostamos ou não queremos as que estão disponíveis, pois elas sempre existem.

Essa situação evoca uma experiência comum a todos. Imagine: nem que seja o “menos ruim”, é preciso tomar o remédio quando se está seriamente doente; seja por via injetável, seja por via oral, mesmo que nenhuma das duas opções seja prazerosa. Diante disso, podemos ainda escolher não tomar. Porém, nesse caso devemos estar cientes das consequências desta opção; nossa doença pode se agravar e isto é consequência de “não escolher”.
Sartre: não escolher já é uma escolha

Porém, ao escolher não escolher, já estamos escolhendo. Fugir da escolha, portanto, é impossível. Da mesma forma como fugir da liberdade é também impossível. Por isso estamos condenados a ser livres. Seremos sempre forçados a escolher e também responsáveis pelas consequências de nossas escolhas.

Quando fazemos uma escolha entre uma via e outra, julgamos e avaliamos com base nos valores que nos servem de referência. Se não os temos, escolhemos algo para preencher essa ausência. O valor, como seu motor, impulsiona o indivíduo a sempre agir, isto é, a escolher sempre entre um valor e outro, uma via e outra, e a executar uma ação. De qualquer forma, até mesmo nossos valores podem nascer diante das escolhas inevitáveis que temos de fazer.

Nesse sentido Sartre afirma que o ser humano está “condenado a ser livre”. Desde que nascemos até nossa morte, nossa vida consiste irremediavelmente em agir. Essa expressão ressalta a condição paradoxal (e talvez cruel) do ser humano: ao mesmo tempo que estamos condenados a agir, temos também de arcar com as consequências de nossas ações, feitas livremente apenas por nós mediante opções sempre existentes.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

‘O pensamento crítico morreu’, afirma o filósofo italiano Franco Berardi

“A possibilidade de futuro passa por estarmos abertos ao imprevisível”

A trajetória de Franco Berardi é no mínimo eclética. Na década de 60, ingressa no grupo Poder Operário, quando estudava na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Bolonha, onde se licenciou em Estética. Em 1975, funda a revista “A/Traverso”, que se transforma no núcleo do movimento criativo de Bolonha, e centra o seu trabalho intelectual na relação entre tecnologia e comunicação. Em finais da década de 70 exila-se em Paris e, posteriormente, ruma a Nova Iorque. Quando regressa a Itália, em meados dos anos 80, publica o artigo “Tecnologia comunicativa”, que preconiza a expansão da internet como fenómeno social e cultural decisivo. Com vasta obra publicada, o filósofo italiano e professor de História Social dos Media na Accademia di Brera, em Milão, continua a refletir sobre o papel dos media e da tecnologia de informação no capitalismo pós-industrial, a precariedade existencial e a necessidade de repensarmos “o nosso futuro económico”.

Entrevista* concedida à Ana Pina/O jornal Económico (Portugal), em 17 de junho 2018.
Leia trechos da entrevista com o filósofo italiano Franco Berardi:

O acrónimo inglês TINA – There Is No Alternative [não há alternativa] – é usado recorrentemente para justificar a necessidade de trabalhar mais e de aumentar a produtividade. Na sua opinião, não há mesmo alternativa?

Esse tem sido o discurso dos líderes políticos nos últimos 40 anos, desde que Margaret Thatcher declarou que “a sociedade não existe”. Existem apenas indivíduos, empresas e países competindo e lutando pelo lucro. É este o objetivo do capitalismo financeiro. E com esta declaração foi proclamado o fim da sociedade e o início de uma guerra infinita: a competição é a dimensão económica da guerra. Quando a competição é a única relação que existe entre as pessoas, a guerra passa a ser o ‘ponto de chegada’, o culminar do processo. Penso que, em breve, acabaremos por assistir a algo que está para além da nossa imaginação…

O que pode pôr em causa o capitalismo financeiro? Enfrenta alguma ameaça?

A solidariedade é a maior ameaça para o capitalismo financeiro. A solidariedade é o lado político da empatia, do prazer de estarmos juntos. E quando as pessoas gostam mais de estar juntas do que de competir entre si, isso significa que o capitalismo financeiro está condenado. Daí que a dimensão da empatia, da amizade, esteja a ser destruída pelo capitalismo financeiro. Mas atenção, não acredito numa vontade maléfica. O que me parece é que os processos tecnológico e econômico geraram, simultaneamente, o capitalismo financeiro e a aniquilação tecnológica digital da presença do outro. Nós desaparecemos do campo da comunicação porque quanto mais comunicamos menos presentes estamos – física, erótica e socialmente falando – na esfera da comunicação. No fundo, o capitalismo financeiro assenta no fim da amizade. Ora, a tecnologia digital é o substituto da amizade física, erótica e social através do Facebook, que representa a permanente virtualização da amizade. Agora diz-se que é preciso “consertar o Facebook”. O problema não está em “consertar” o Facebook, mas sim em ‘consertarmo-nos’ a nós. Precisamos de regressar a algo que o Facebook apagou.

O pensamento crítico pode ajudar a “consertarmo-nos”?

Não há pensamento crítico sem amizade. O pensamento crítico só é possível através de uma relação lenta com a ciência e com as palavras. O antropólogo britânico Jack Goody explica na sua obra “Domesticação do Pensamento Selvagem” que o pensamento crítico só é possível quando conseguimos ler um texto duas vezes e repensar o que lemos para podermos distinguir entre o bem e o mal, entre verdade e mentira. Quando o processo de comunicação se torna vertiginoso, assente em multicamadas e extremamente agressivo, deixamos de ter tempo material para pensarmos de uma forma emocional e racional. Ou seja, o pensamento crítico morreu! É algo que não existe nos dias de hoje, salvo em algumas áreas minoritárias, onde as pessoas podem dar-se ao luxo de ter tempo e de pensar.

Como vê o papel dos media e das redes sociais nos tempos que correm?

Devo dizer que, nos dias de hoje, a expressão “media” não é muito óbvia. Remete para quê exatamente? Remete para o The New York Times (NYT) ou para o Facebook? Digamos que, neste último ano, houve uma disputa cerrada entre o NYT e o Facebook e foi este que acabou por vencer, porque o pensamento crítico morreu. E o pensamento imersivo está fora do alcance da crítica. A imersividade é, pois, a única possibilidade. Esta é outra questão relevante. Acredita que o Facebook pode ser ‘consertado’? Pessoalmente não acredito. Em tempos, eu e muitas outras pessoas acreditávamos que a Internet ia libertar a humanidade. Errado. As ferramentas tecnológicas não vão libertar-nos. Só a humanidade pode libertar-se a si própria. Voltando ao Facebook, como podemos defini-lo? O Facebook é uma máquina de aceleração infinita. E esta aceleração, intensificação, obriga a distrair-nos daquilo que é a genuína amizade.

Considera que as redes sociais padronizam formas de estar?

Sem dúvida. A nossa energia emocional foi absorvida pelo mundo digital, por isso as pessoas esperam que os outros “gostem” do que dizemos [nas redes sociais] e muita gente sente-se infeliz quando os seus posts não produzem esse efeito. Uma das consequências desse investimento emocional é o chamado ‘efeito da câmara de eco’, ou seja, tendemos a comunicar, a trocar informações e opiniões com pessoas que pensam como nós, ou que reforçam as nossas expetativas, e reagimos mal à diferença. Podemos chamar-lhe psicopatologia da comunicação. O futuro só é imaginável quando estamos dispostos a investir emocionalmente nos outros, na amizade, na solidariedade e, claro, no amor. Mas se não formos capazes de sentir empatia, o futuro não existe. São os outros que nos validam, que nos conferem humanidade.

Refere num artigo que o ser humano tem de abandonar o desejo de controlar…

Hoje em dia, o grau de imprevisibilidade aumentou de tal forma que pôs fim à potência masculina. O ponto de vista feminino, por seu turno, representa a complexidade, a imprevisibilidade da infinita riqueza da natureza e da tecnologia – não no sentido de algo oposto à natureza, mas como uma forma de evolução natural. Atualmente, só o ponto de vista feminino é que pode salvar a raça humana. O ponto de vista masculino já não é capaz de fazer o tipo de ‘trabalho’ de que fala Maquiavel: dominar a natureza. Isso já não é possível, por isso temos de libertar a produtividade da natureza e da mente humana, isto é, o conhecimento. Hoje em dia, o problema não está no excesso de tecnologia, mas sim na nossa incapacidade de lidar com a tecnologia sem ficarmos reféns do preconceito do poder, do controlo, da dominação. Temos de abandonar essa pretensão: a de controlar.

Subscreve as palavras de Keynes: “o inevitável geralmente não acontece, porque o imprevisível prevalece”.

Sem dúvida. E embora não seja meu hábito fazer sugestões, deixo esta: as pessoas devem estar abertas ao inesperado, ao imprevisível. Se olharmos para o presente, constatamos que a guerra, a violência, o fascismo são inevitáveis. Mas o inevitável nunca acontece porque existe o imprevisível. Ora, nós não sabemos o quão imprevisível as coisas podem ser, mas podemos estar receptivos ao imprevisível. Devemos estar atentos e procurar continuamente uma ‘linha de fuga’ para o inevitável, sendo que isso requer muito empenho, uma enorme energia e atividade.

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*Fonte: revistaprosaversoearte