20 frases de Carl Jung que economizam 10 anos de terapia

É claro que o título é uma brincadeira, entretanto, as frases abaixo definitivamente merecem a nossa atenção devido a sua profundidade. São grandes lições.

Vamos lá!?

1. “Até que você torne o inconsciente em consciente, aquele irá direcionar a sua vida e você irá chamá-lo de destino.”

2. “Tudo que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão de nós mesmos.”

3. “A reunião de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas são transformadas.”

4. “Você não se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas sim ao tornar a escuridão consciente. Porém, esse procedimento é desagradável, portando, não popular.”

5. “Conhecer a sua própria escuridão é o melhor método para lidar com as trevas das outras pessoas.”

6. “Se você é uma pessoa talentosa, isso não significa que você ganhou algo. Significa que você tem algo a oferecer.”

7. “Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade. Se um homem não sabe o que uma coisa é, já é um avanço saber o que ela não é.”

8. “Sua visão se tornará clara somente quando você olhar para o seu próprio coração. Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta.”

9. “As pessoas vão fazer qualquer coisa, não importa o quão absurdo, para evitar olharem para suas próprias almas.”

10. “Solidão não é não ter pessoas ao seu redor, e sim ser incapaz de expressar coisas que parecem importantes, ou de perceber certos pontos de vista que os outros acham inadmissíveis.”

11. “A depressão é como uma mulher vestida de preto. Se ela aparecer, não a afaste. Convide-a para entrar, ofereça-lhe um assento, trate-a como uma convidada e ouça o que ela tem a dizer.”

12. “Um homem que não tenha passado pelo inferno de suas paixões, nunca irá superá-las.”

13. “Sua percepção se tornará clara somente quando você puder olhar para dentro de sua alma.”

14. “O pêndulo da mente oscila entre sentido e absurdo, não entre certo e errado.”

15. “O que você resiste, persiste.”

16. “Um sonho é uma pequena porta escondida no santuário mais profundo e mais íntimo da alma, que se abre para a noite cósmica e primordial, que é a alma, muito antes de existir o ego consciente.”

17. “Nós podemos pensar que conseguimos controlar totalmente a nós mesmos. No entanto, um amigo pode facilmente revelar algo sobre nós e do qual não temos absolutamente nenhuma ideia.”

18. “Tudo o que diz respeio às outras pessoas que não nos satisfaz, nos ajuda a entender melhor a nós mesmos.”

19. “Eu não sou o que aconteceu comigo, eu sou o que eu escolhi ser.”

20. “Não se apegue a quem estiver partindo porque assim você não irá conhecer quem estiver chegando.”

 

 

 

 

 

 

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*Fonte: contioutra

Era Spock um estoico?

Em 8 de setembro de 1966 estreava na televisão norte-americana a série Jornada nas Estrelas, idealizada pelo roteirista Gene Roddenberry. Ambientada em meados do século XXIII, trazia em cada episódio as aventuras da tripulação da espaçonave USS Enterprise, parte da frota da Federação dos Planetas Unidos. Apesar do pano de fundo pluriplanetário, todos os subordinados do capitão James T. Kirk (William Shatner) eram humanos, à exceção de um único personagem. Era este uma figura de orelhas pontudas, sobrancelhas alçadas e tez ligeiramente amarelada — pois fora essa a solução encontrada pela equipe de maquiagem da Desilu Productions para dar ares alienígenas ao ator Leonard Nimoy. Com o prosseguimento da série, o público ficou sabendo que Spock, a criatura que ocupava o posto de Primeiro Oficial e Oficial de Ciências, era um ser híbrido: filho do embaixador vulcano Sarek (Mark Lenard) e da humana Amanda Grayson (Jane Wyatt).

A série original nunca foi uma unanimidade e viveu na corda bamba da audiência. Foi cancelada em 1969, com apenas 79 episódios. Uma crítica frequente a Roddenberry era que ele havia criado uma atração “intelectual” ou “complexa” demais para os padrões televisivos da época. Mesmo a aparência de Spock, que se assemelharia a certas representações demoníacas, causava preocupação ao canal que transmitia a série, e houve tentativas de reduzir a participação do personagem ao mínimo. Graças à persistência de Roddenberry e ao talento de Nimoy, Spock conquistou o seu espaço em Jornada nas Estrelas, rivalizando em popularidade com o próprio Kirk. É até hoje, quase três anos após a morte de Nimoy, um dos personagens mais icônicos da história da TV e do cinema dos Estados Unidos — e do mundo.

Spock sobreviveu à sanha dos executivos da NBC porque foi dotado de uma história pessoal, bem, fascinante. Como híbrido, ele vivia entre duas culturas, a dos vulcanos e a dos humanos. Criado na terra natal do pai, o planeta Vulcano, ele recebera a rigorosa educação dos habitantes do local, que incluía um treinamento aturado nas modalidades do pensamento lógico e um programa de supressão das emoções. Todavia, embora exemplarmente dedicado, Spock era alvo de desconfiança, quando não de desdém, da parte de muitos vulcanos, que sempre duvidaram das habilidades cognitivas e emocionais do rapaz meio humano, meio vulcano. Talvez por conta disso, chamado a optar entre a Academia Vulcana de Ciências e um organismo interplanetário, a Frota Estelar, ele tenha ficado com a segunda alternativa. Ali, ele teria a possibilidade de conviver com seres humanos e entender melhor a sua metade não vulcana, além de poder travar contato com espécies inteiramente desconhecidas. O grande sucesso do personagem Spock repousa nesta dualidade, à qual a interpretação de Nimoy conferiu traços bastante vivazes: sendo fisiologicamente indistinguível de seus pares e um produto da melhor tradição vulcana, ele demonstrava ter uma curiosidade genuína frente às maneiras “não lógicas” de compreender o universo. Uma de suas reações mais comuns, um simples erguer de sobrancelhas, era um gesto que dava testemunho do misto de disciplina das emoções e generosidade do intelecto que, não sem grãos de autoironia, o caracterizava.

Felizmente, Roddenberry e continuadores puderam expandir sua visão imaginária do futuro por várias séries e alguns filmes, o que incluiu, na esteira do impacto popular de Spock, um tratamento mais denso à cultura vulcana. Surgiram, por exemplo, outros vulcanos notáveis, como Solok (Gregory Wagrowski), de Deep Space Nine (1993-1999), Tuvok (Tim Russ), de Voyager (1995-2001), e T’Pol (Jolene Blalock), de Enterprise (2001-2005). Muitos aspectos da história do planeta fictício foram revelados ao longo de décadas de franquia. Em resumo, o que se pode dizer é que a civilização criada pelos vulcanos nem sempre foi um exemplo de equilíbrio e harmonia. O passado desses humanoides fora marcado por violência e impetuosidade incomparáveis, superiores a qualquer coisa que se tenha visto entre terráqueos. Muito sangue verde foi derramado na história do planeta. Com o avanço tecnológico, os pendores agressivos dos vulcanos criaram uma situação crítica, de sorte que a espécie ficou à beira da autodestruição. Foi então que se deu a intervenção de um indivíduo chamado Surak, proponente de uma filosofia que reformou radicalmente a maneira de viver de seus conterrâneos.

Depois de palmilhar as vastidões inóspitas da região conhecida como Forja Vulcana, um deserto sacudido por tempestades de areia eletromagnéticas, Surak chegou ao Monte Seleya, o mais alto do planeta, onde completou o seu processo de iluminação — ou “despertar” (awakening). Contemporânea a essa peregrinação foram as tribulações ocasionadas por uma guerra nuclear planetária, da qual o próprio Surak acabou vítima, morrendo em decorrência da radiação. Esse período da história vulcana, que coincide com o século IV d. C. dos terráqueos, foi chamado de “Tempo do Despertar”. Enquanto cruzava a parte mais áspera do deserto, a Planície de Sangue, o reformador colheu do próprio solo — i. e., do sofrimento de todos os vulcanos que se entrematavam naquele momento — os fundamentos de sua lógica. Chegado ao topo do Seleya, sua visão filosófica foi rematada pela intuição do Kol-Ut-Chan, chamado em linguagem terrena de “Diversidade Infinita em Combinações Infinitas” (IDIC, em sigla inglesa), um princípio metafísico que encapsulava a noção de variabilidade ilimitada do universo. Base da filosofia de Surak, o IDIC se consolidara em um símbolo que, sob a forma de um pingente constituído por um círculo e um triângulo obliquamente sobreposto e encimado por um adorno semelhante a uma pérola, era bastante apreciado pelos vulcanos. O conflito nuclear terminou quando os partidários de Surak se impuseram sobre os beligerantes: foi o início de uma nova era, marcada por paz e prosperidade inauditas, para os habitantes do planeta.

É preciso dar o braço a torcer: há intelectualidade e complexidade razoáveis no universo criado por Roddenberry e companhia, algo que só pode ser realmente apreciado quando se é, por assim dizer, dotado de uma certa “nerdice”. Desse modo, nerds de todo o mundo notaram as inúmeras referências bem terrenas que, entretecidas, permitiram a sugestão de uma civilização alienígena como a vulcana. Assim como os rituais e as práticas meditativas que os vulcanos exibem em cena devem muito às tradições budistas, o essencial da mensagem ética da doutrina de Surak, a noção de que é necessário rejeitar as emoções e guiar-se apenas pela lógica, foi muito provavelmente inspirado nos ensinamentos dos antigos estoicos. E é justamente aqui, no tópico “estoicismo dos vulcanos”, que devemos nos deter, visto que personagens de ficção científica como Spock e a inflexível T’Pau (Betty Matsushita, Kara Zediker), acabam por sobrepor-se à imagem que muitos fazem dos estoicos que de fato existiram na Antiguidade. Um estoico, portanto, seria alguém que se assemelharia a um vulcano de Jornada nas Estrelas — seria esta a visão correta das coisas?

Não exatamente. E por algumas razões, que elencaremos a seguir.

• Estamos comparando uma filosofia inventada para um produto de entretenimento a uma escola de pensamento que efetivamente existiu. — Soa óbvio dizê-lo, mas o papel e a película aceitam tudo, até possibilidades alienígenas, até rigores sobre-humanos. A filosofia estoica, que era sumamente difícil, limitava-se a pensar nas questões que podia conhecer: era dotada de uma antropologia, não de uma exobiologia. A situação do ser humano ocupava-lhe o centro, motivo pelo qual ela se esforçava por olhar de frente o problema da finitude, tentando fornecer remédios às sugestões nascidas do medo excessivo da morte e a toda sorte de não aceitação do destino. E os filósofos do Pórtico sabiam que muitas vezes falhavam nesse intento. As grandes virtudes e o heroísmo, na ficção, não custam nada; na vida real, podem ser uma jogada mortal — por isso são coisas raras. Ao final do filme Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan (1982), Spock se sacrifica para salvar os companheiros, justificando-se em termos perfeitamente lógicos: “as necessidades dos que são numerosos se impõem sobre as necessidades dos que são poucos”. É bonito e pode, a depender das circunstâncias, ser verdadeiro, mas, pensando bem, não é sério. Spock ressuscita no filme subsequente, em expediente dramatúrgico dos mais questionáveis. Na vida real, ninguém tem um deus ex machina, um reboot ou um universo alternativo para salvar a própria pele (e o estoicismo insistia bastante no valor precioso, intransferível e irrepetível, do momento que se vivia). Quando Catão de Útica, para não servir a Júlio César, pôs fim à própria vida, ele sabia que seu gesto era irrevogável, cheio de dor e angústia, para valer. Com efeito, nós não o vimos mais por aí, no século XX, de bandana na cabeça, empregando-se no resgate de baleias, como sucedeu a Spock em Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa (1987).

• A filosofia de Surak tem uma função estruturante na sociedade vulcana, ao passo que o estoicismo sempre ficou confinado a grupos restritos no mundo greco-romano. — Os vulcanos salvaram-se da ruína ao abraçarem as ideias de Surak, aplicando-as a toda a coletividade. Nesse sentido, a doutrina do reformador do modo de vida daquele povo assemelha-se ao budismo e ao taoísmo — uma filosofia com aspectos de religião. De fato, o “surakismo” conta com uma mística, com um grupo de escrituras autógrafas (o Kir’Shara, dado como perdido) e mesmo com templos e rituais. Os fundadores da ordem social daquele planeta são idolatrados. Há até uma sobrenaturalidade própria dos vulcanos: na franquia, cada um deles é mostrado como portador de um katra, espécie de espírito ou alma, capaz de subsistir à morte e de se transmitir para outro corpo. Particularmente em Enterprise, que se passa no século XXII, há uma série de episódios destinados a mostrar o lado não tão glorioso da conversão dos vulcanos ao “surakismo”. Como se pode supor, uma doutrina tão rígida só pôde prevalecer com a exclusão de muitos grupos, com arbitrariedades e mentiras de Estado por parte do Alto Conselho Vulcano e com a distorção de boa porção das ideias de Surak ao longo do tempo. No mundo real, as escolas de filosofia helenísticas jamais correram o risco de metamorfosear-se em religiões institucionalizadas porque, filhas de Sócrates, viam o dissenso como forma de fazer o conhecimento progredir, cultivavam em algum nível a dúvida e tinham como meta uma vida digna de ser vivida, não a salvação de uma sociedade. Se você quisesse ser estoico, cético ou epicurista, deveria ir procurar as escolas onde se ensinavam essas filosofias, porque ninguém viria bater à sua porta com uma boa notícia. Um prokópton que passasse a discordar das ideias de Zenão e Crisipo podia simplesmente deixar a escola. Em Jornada nas Estrelas, um vulcano que não aceite os princípios de Surak se torna um pária.

• Para os vulcanos, o rigor é uma via de mão dupla. — Como consequência do caráter social da filosofia de Surak, as instituições vulcanas foram moldadas para premiar aqueles que exibissem pensamento lógico mais aperfeiçoado e menor presença de emoções. Isso equivale a dizer que o rigor vulcano se exercitava não apenas ao nível da individualidade, mas também sob a forma de uma exigência que se voltava a outrem. É fácil imaginar os vulcanos como mais inteligentes e robustos que os seres humanos, superando os duzentos anos de idade, mas é um verdadeiro desafio a nosso senso de verossimilhança conceber uma sociedade como a deles que não estivesse infestada de variadas formas de orgulho, formalismo vazio e hipocrisia, além de um contingente enorme de “inadaptados” e “perdedores” vingativos. Uma doutrina que não se volta unicamente à melhora do indivíduo, mas que torna lícito que ele possa cobrar isso dos outros, tende a criar uma atmosfera social quase irrespirável. Inverossimilhanças à parte, digamos, entretanto e somente, que tudo isso é bastante “não estoico”. Um estoico não podia cobrar dos outros que agissem segundo princípios que para ele mesmo já impunham dificuldades consideráveis.

• Segundo os estoicos, a lógica era apenas a terça parte da filosofia. — Assim como os peripatéticos, os estoicos desenvolveram com grande proveito e interesse a lógica formal. E do mesmo modo como os seguidores de Aristóteles, eles não pensavam que a filosofia se reduzisse à lógica, embora soubessem da importância dessa área do conhecimento. Quando consideravam a filosofia como um todo, eles empregavam alguns símiles, sendo o mais interessante deles o que a descrevia como um jardim ou pomar em que o cercado correspondia à lógica, o solo fértil à física e os frutos à ética. Para não nos estendermos demais, digamos somente que é bastante difícil, se não impossível, dar comprovação cabal e para todos convincente de certas intuições que dizem respeito à ética: a argumentação em tais casos torna-se tortuosa e sem parada. Constituem tópicos desafiadores dizer por que seria mais lógico criar os filhos ao invés de abandoná-los, ser fiel aos amigos ao invés de traí-los, ser um trabalhador aplicado ao invés de um preguiçoso. Os estoicos não ignoravam que aquilo que era mais central em sua filosofia dependia de um fundo de experiências humanas não totalmente acessível ao pensamento lógico — embora o julgassem em conformidade com a razão que ordenava o universo. Eles provavelmente concordariam com o Spock mais velho (Nimoy) que, em uma linha do tempo alternativa em que Vulcano fora destruído, diante de uma versão mais jovem de si mesmo (Zachary Quinto), contraria os cânones e aconselha: “faça um favor a si mesmo: deixe a lógica de lado, faça o que você sente ser o certo” (no filme Star Trek, de 2009).

• Não, os estoicos não se opunham às emoções por si mesmas. — Aqui reside um dos maiores equívocos que certa visão difusa, não instruída, tem do estoicismo. Não se trata de uma filosofia que busque, a exemplo dos vulcanos de Jornadas nas Estrelas, a supressão das emoções, ou que tenha por meta a formação de seres humanos meio robóticos. Quando os adeptos do Pórtico falavam de apátheia como finalidade desejável, estavam se referindo a uma tranquilidade bastante sólida, não sujeita às influências de emoções violentas ou causadoras de sofrimento. Era a ausência das páthē, “paixões” — um estado psicológico, em todo caso, só atingido plenamente pelo sábio. Eles nada tinham contra as emoções agradáveis e suaves (eupátheiai), como as várias nuances do contentamento e da gratidão, por exemplo. Uma das coisas que eles pretendiam, por meio de sua filosofia, era fortalecer o “amante da sabedoria” em seu poder de considerar, racionalmente, as suas expansões interiores antes que elas viessem a tomar a forma de paixões. Tornada hábito, essa prática produziria indivíduos contidos, com sangue frio quando necessário, não robôs de carne e osso. Ademais, não havia nada no estoicismo minimamente parecido com o kolinahr, ritual, que durava seis anos ou mais, pelo qual os vulcanos maduros se purificavam de toda e qualquer emoção vestigial.

• “Vida longa e próspera” versus “vida segundo a natureza”. — Nesta leitura, o lema que acompanha a saudação vulcana não seria aprovado ou adotado pelos estoicos. Isso se deve ao fato de que a longevidade e a prosperidade nunca foram valoradas positivamente pelos adeptos do Pórtico, mas simplesmente etiquetadas como “indiferentes” (adiáphorai), coisas neutras. Viver mais anos ou com mais recursos não torna ninguém, de acordo com os estoicos, melhor ou pior do que ninguém. Para eles, o que importava era viver melhor. E o melhor tipo de existência era garantido pela natureza, que inscrevera no ser humano a razão e a sociabilidade. Um homem é tão mais feliz quanto mais cumpre a tarefa de ser o mais racional e sociável que puder. Se, por live long and prosper, entendermos algo como “viva longamente e prospere, cresça como indivíduo”, o dito estará um tanto mais em conformidade com o que diziam os estoicos. Sêneca explica a seus interlocutores, por diversos ângulos, a suficiência do bem moral (honestum); vejamos uma dessas passagens:

Não se exige a uma régua que seja bonita, mas sim que seja rigorosamente reta. Ou seja, cada objeto é avaliado segundo a sua finalidade, segundo a sua qualidade específica. Por conseguinte, também na avaliação de um homem é irrelevante a área das terras de cultura que possui, a quantidade de dinheiro que empresta a juros, o número de clientes, o preço do leito em que dorme ou a transparência dos seus cristais: interessa é saber até que ponto ele é bom. Um homem será bom se a sua razão for desenvolvida e justa, e se estiver adequada à plena realização da natureza humana. É a isto que se chama “virtude”, nisto consiste o bem moral, que é o único bem próprio do homem. (Sêneca, Cartas a Lucílio, LXXVI, 14-16; trad. J. A. Segurado e Campos)

Para finalizar, digo apenas que me deu grande prazer redigir esta comparação. Ficou mais longa que o previsto, admito, mas creio ter conseguido esclarecer algumas coisas para mim mesmo: de fato, vistas de perto, as diferenças entre vulcanos e estoicos me parecem de grande monta. E fecho com uma constatação do físico Marcelo Gleiser, no bom artigo “O que aprendi com os ETs”, em que fala da maneira como, por meio da ficção científica, projetamos as potencialidades humanas nas civilizações alienígenas imaginárias: “De modo bem concreto, somos nós os alienígenas. A pluralidade de representações ficcionais destes reflete o que sabemos do mundo, o que sabemos de nós, os nossos medos e expectativas, as nossas esperanças e desespero”.

Não é fascinante dar-se conta disso?

*Por Donato Ferrara (publicado originalmente em “De vita stoica”)

 

 

 

 

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*Fonte: socientifica

Filósofo defende importância de ficar em silêncio e caminhar nos dias de hoje

O pensador francês, autor de livros como El silencio e Elogio del caminar, descreve o seu ideário nesta entrevista concedida ao Grupo Joly, antes de pronunciar uma conferência em La Térmica.

O pensador francês David Le Breton é doutor em Sociologia pela Universidade Paris VII e professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Ciências Humanas Marc Bloch, de Estrasburgo. Ele publicou recentemente um livro chamado El silencio, Elogio del caminar e Desaparecer de sí: una tentación contemporánea, no qual afira que, a fim de combatermos a desumanização dos dias atuais, é preciso apostar em formas concretas de resistência.

Dentre um dos tipos de resistência sugeridos, Le Breton destaca o silêncio.

Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico, especialmente em seu caráter mais portátil: sempre carregamos sobre nós dispositivos que nos recordam que estamos conectados, que nos avisam quando recebemos uma mensagem, que organizam os nossos horários com base no ruído. Esta circunstância veio incorporar-se às que já haviam tomado forma no século XX como hábitos contrários ao silêncio, especialmente nas grandes cidades, governadas pelo tráfego de veículos e por numerosas variedades de contaminação acústica. Neste contexto, o silêncio implica uma forma de resistência, uma maneira de manter a salvo uma dimensão interior frente às agressões externas. O silêncio permite-nos ser conscientes da conexão que mantemos com esse espaço interior, o silêncio a visibiliza, enquanto o ruído a esconde. Outra maneira de nos conectarmos com o nosso interior é o caminhar, que transcorre no mesmo silêncio. O maior problema, provavelmente, é que a comunicação eliminou os mecanismos próprios da conversação e se tornou altamente utilitarista com base nos dispositivos portáteis. E a pressão psicológica que suportamos para os armazenar é enorme.

saber ficar sozinho – Filósofo defende importância de ficar em silêncio e caminhar nos dias de hoje

O pensador destaca que diferentes culturas tendem a encarar o silêncio de maneira diferente. Por exemplo, na tradição japonesa existe uma noção muito importante de disciplina interior, cristalizada em sistemas de pensamento como a filosofia zen.

O silêncio é a expressão mais verdadeira e efetiva das coisas inomináveis. E a tomada de consciência de que há determinadas experiências para as quais a linguagem não serve, ou que a linguagem não alcança, é um traço decisivo do conhecimento. Nesse sentido, tradições como a cristã, em que o silêncio é muito importante, tornam-se reveladoras: a sabedoria dirige-se a compreender o que não se pode dizer, o que transcende a linguagem. Nessa mesma tradição, o silêncio é uma via de aproximação de Deus, o que também se pode interpretar como um conhecimento. Podemos utilizar o silêncio para nos conhecermos melhor, para nos distanciarmos do ruído. E este é um valor a reivindicar no presente.

Mas como abrir espaço para o silêncio em nossas vidas? O pensador defende a meditação como uma forma de nos encontrarmos com nós mesmos, e assim criarmos um espaço de reflexão em nosso cotidiano. Para Le Breton, ter feito o caminho de Compostela foi um experiência que mudou a sua vida, nesse sentido.

A minha melhor experiência nesse sentido, a definitiva, foi no Caminho de Santiago: quando cheguei enfim a Compostela, compreendi que eu havia me transformado completamente, depois de numerosos dias em marcha e em absoluto silêncio. Foi um renascimento.

Além do silêncio, o pensador defende a livre caminhada ou, como ele gosta de chamar, o vagar sem uma meta concreta.

Caminhar é outra forma de tomar consciência de si, de reparar no próprio corpo, na respiração, no silêncio interior. Na Idade Média havia aqueles que se dispunham intensamente a caminhar no deserto. Porém, a prática do caminhar nas cidades encerra conotações relacionadas ao prazer. Trata-se de desfrutar daquilo que você percebe, de se deleitar com os atrativos que a cidade lhe oferece pelos sentidos. É uma atividade hedonista.

O pensador comenta que atualmente o planejamento das cidades parecem se opor cada vez maior ao ato de caminhar sem rumo, pois criam obstáculos à caminhada, sob a figura de shoppings e outros centros comerciais.

O fato de caminhar por suas ruas sem nenhum interesse em comprar ou em gastar dinheiro, somente em vagar sem rumo, daqui até ali, porque sim, também é uma forma de deixá-las mais humanas, de rebelar-se contra as ordens que convertem todas e cada uma das interações humanas num processo econômico

Para o pensador francês, é possível resistir à velocidade do cotidiano e retomar controle sobre a própria vida cultivando o silêncio e a caminhada. Em seus livros, ele aprofunda a sua reflexão e comenta como tem mantido esses hábitos em sua vida. Mas nós queremos saber: como você encara isso? Você concorda com Le Breton? Pratica o silêncio e a caminhada? Acredita que essas práticas ajudariam você na sua vida?

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*Fonte: maisvibes

“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”

As Torres Gêmeas, edifícios idênticos que se refletem mutuamente, um sistema fechado em si mesmo, impondo o igual e excluindo o diferente e que foram alvo de um ataque que abriu um buraco no sistema global do igual. Ou as pessoas praticando binge watching (maratonas de séries), visualizando continuamente só aquilo de que gostam: mais uma vez, multiplicando o igual, nunca o diferente ou o outro… São duas das poderosas imagens utilizadas pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959), um dos mais reconhecidos dissecadores dos males que acometem a sociedade hiperconsumista e neoliberal depois da queda do Muro de Berlim. Livros como A Sociedade do Cansaço, Psicopolítica e A Expulsão do Diferente reúnem seu denso discurso intelectual, que ele desenvolve sempre em rede: conecta tudo, como faz com suas mãos muito abertas, de dedos longos que se juntam enquanto ajeita um curto rabo de cavalo.

“No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação”, alertou em sua palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), na Espanha, onde o professor formado e radicado na Alemanha falou sobre a expulsão da diferença. E expôs sua particular visão de mundo, construída a partir da tese de que os indivíduos hoje se autoexploram e têm pavor do outro, do diferente. Vivendo, assim, “no deserto, ou no inferno, do igual”.

Autenticidade.
Para Han, as pessoas se vendem como autênticas porque “todos querem ser diferentes uns dos outros”, o que força a “produzir a si mesmo”. E é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque “nessa vontade de ser diferente prossegue o igual”. Resultado: o sistema só permite que existam “diferenças comercializáveis”.

Autoexploração.
Na opinião do filósofo, passou-se do “dever fazer” para o “poder fazer”. “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout”. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento.

‘Big data’.
”Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual… Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”. A revolta implicaria em deixar de compartilhar dados ou sair das redes sociais? “Não podemos nos recusar a fornecê-los: uma serra também pode cortar cabeças… É preciso ajustar o sistema: o ebook foi feito para que eu o leia, não para que eu seja lido através de algoritmos… Ou será que o algoritmo agora fará o homem? Nos Estados Unidos vimos a influência do Facebook nas eleições… Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias”.

Comunicação.
“Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”.

Jardim.
“Eu sou diferente; estou cercado de aparelhos analógicos: tive dois pianos de 400 quilos e por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações… Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, fazia tudo com as mãos; o digital não pesa, não tem cheiro, não opõe resistência, você passa um dedo e pronto… É a abolição da realidade; meu próximo livro será esse: Elogio da Terra. O Jardim Secreto. A terra é mais do que dígitos e números.

Narcisismo.
Han afirma que “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. O problema reside no fato de que “o narcisista é cego na hora de ver o outro” e, sem esse outro, “não se pode produzir o sentimento de autoestima”. O narcisismo teria chegado também àquela que deveria ser uma panaceia, a arte: “Degenerou em narcisismo, está ao serviço do consumo, pagam-se quantias injustificadas por ela, já é vítima do sistema; se fosse alheia ao sistema, seria uma narrativa nova, mas não é”.

Os outros.
Esta é a chave para suas reflexões mais recentes. “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”. Por isso propõe “retornar ao animal original, que não consome nem se comunica de forma desenfreada; não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo… Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente; o mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”.

Refugiados.
Han é muito claro: com o atual sistema neoliberal “não se sente preocupação, medo ou aversão pelos refugiados, na verdade são vistos como um peso, com ressentimento ou inveja”; a prova é que logo o mundo ocidental vai veranear em seus países.

Tempo.
É preciso revolucionar o uso do tempo, afirma o filósofo, professor em Berlim. “A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”.

O “Monstro” da União Europeia

“Estamos na Rede, mas não escutamos o outro, só fazemos barulho”, diz Byung-Chul Han, que viaja o necessário, mas não faz turismo “para não participar do fluxo de mercadorias e pessoas”. Também defende uma política nova. E a relaciona com a Catalunha, tema cuja tensão atenua brincando:

“Se Puigdemont prometer voltar ao animal original, eu me torno separatista”.

Já no aspecto político, enquadra o assunto no contexto da União Europeia: “A UE não foi uma união de sentimentos, mas sim comercial; é um monstro burocrático fora de toda lógica democrática; funciona por decretos…; nesta globalização abstrata acontece um duelo entre o não lugar e a necessidade de ser de um lugar concreto; o especial é incômodo, gera desassossego e arrebenta o regional. Hegel dizia que a verdade é a reconciliação entre o geral e o particular e isso, hoje, é mais difícil…”. Mas recorre à sua revolução do tempo: “O casamento faz parte da recuperação do tempo livre: vamos ver se haverá um casamento entre a Catalunha e Espanha, e uma reconciliação”.

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*Fonte: elpais / Por Carles Geli

A filosofia por trás do lobo no provérbio siciliano

Desde o começo do Império Romano e até mesmo antes, vindo dos povos que vieram a fundar a cidade de Roma, a figura do Lobo sempre esteve presente.

Mas o que significa está imagem? O que ela representa? Por que nós sicilianos em nosso provérbio dizemos que Leões e Tigres são fortes, mas lobos não trabalham em circos?

A imagem da Loba amamentando Rômulo e Remo significa que aquele povo era como uma alcateia, tanto que os princípios da Gravitas Romana são princípios de alcateia.

“Um lobo é um animal que simbolicamente representa várias coisas, como a coragem, a disciplina, a honra, a fidelidade (principalmente pela sua família/alcateia), o respeito pelos seus semelhantes, e tantos outros valores tradicionais que deveriam preencher o homem. O “cão” é o homem que se perdeu em seus valores e foi amansado. Ainda continua fiel, mas sua fidelidade é doentia e cega a ponto de esquecer quem realmente é, tendo assim seus valores derrubados por ordens superiores. O “cão” é a representação fiel ao homem pós-moderno, onde está acomodado em sua vida, come o que colocam no seu pote e só ladra para aquilo que ameaça desconstruir a realidade dele.” – Bruno Formagio

O lobo em si, é uma visão diplomática do que o homem deveria seguir em relação a seus princípios éticos. O que vemos hoje, temo que seja simplesmente uma imagem dos homens que tornaram-se “cães”.

Homens deixaram há muito tempo de ser lobos, atualmente são meros “cães” adestrados e manipulados. “Cães” que andam abanando o rabo para qualquer novidade que julguem interessante. Só saem de coleira no pescoço, guiados pelo “dono” para andar em círculos ao redor do quarteirão, sempre tentando marcar seu território ilusoriamente e comendo ração de “qualidade”, que não passa de sobras do banquete principal.

Você pode ser um lobo, um tigre, um leão. Mas o que você tem que aprender é viver para proteger sua família, seus princípios e não ser adestrado para se tornar um “cão” ou um “gatinho” meramente criado para entretenimento. Use a cabeça, tenha suas ideias, seja cordial, honesto e ande na sua “matilha/alcateia/bando”, onde todos devem proteger um ao outro. Se você conseguir essa façanha, estará vários passos à frente desse grande canil que se tornou o mundo.

Um lobo nunca abandona seu irmão, um lobo nunca aceita ser subjugado por um estranho e defende com a vida seus valores, um lobo é fiel aos seus, o lobo não se vende.

E você é um lobo? Ou é um cão que tem até seus valores, mas se acovarda muitas vezes? Ou você é um leão forte imponente, mas ao estalo de um chicote age como um gatinho?

Nós sicilianos somos lobos, lutamos por nossa alcateia, nunca nos curvamos por mais forte que seja o inimigo, calmamente nós o cercamos, nossa união retira nossa momentânea desvantagem, e logo nosso inimigo está no chão a ser dilacerado, e aquilo que era forte e amedrontador virou nosso alimento.

Davvero amici seja em qual situação da vida que você esteja passando, pode escrever o que digo, se não tiveres espirito de lobo, você será subjugado, e acabará no circo sendo entretenimento de fracassados.

Il Lupo è coraggio, lealtà, fedeltà, onore, vendetta e Omertà.
Cent’anni a tutti!

*Por: Luigi Pallazzolo

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*Fonte: cosanostranews

“Seguindo o Universo” ou “Freud e o Inquietante”

Li, não me lembro onde, que certa vez Isaac Newton teria recebido a visita de um amigo em sua casa que teria ficado intrigado com uma ferradura de cavalo próxima à porta. Não resistindo à curiosidade, teria perguntado ao formulador lei da gravidade se ele de fato acreditava que o objeto traria boa sorte. Ao que o cientista teria respondido: “Claro que não. Mas ouvi dizer que funciona mesmo assim”.

Pesquisando um pouco, vi que a frase já foi atribuída a Bohr e a Einstein, entre outros, e que na verdade nem se sabe se ela realmente foi dita por qualquer um deles. Mesmo assim, a anedota tem seu apelo: até as mentes de mais aguçada razão não vão deixar de ter algum grau de superstição, ainda que em muitos casos façam de tudo para nela não acreditar.

Até as mentes de mais aguçada razão não vão deixar de ter algum grau de superstição, ainda que em muitos casos façam de tudo para nela não acreditar.

 

De qualquer forma, difícil negligenciar coincidências que se tornam recorrentes. Imagine o caso de um mesmo número que insiste em se repetir (o número do quarto do hotel é o mesmo da poltrona no cinema, que é também o preço do táxi de volta, por exemplo). Não será apenas notado. Provavelmente vai causar um certo estranhamento… Algo que Freud trata no ensaio “O inquietante”, de 1919 . Inquietante é a tradução para o português do original alemão unheimliche, que, pela Wikipedia, refere-se a algo que não é propriamente misterioso, mas “estranhamente familiar, suscitando uma sensação de angústia, confusão e estranhamento”.

Segundo Freud, entre as diversas origens desse estranhamento estaria a “onipotência dos pensamentos”, uma espécie de “supervalorização narcisista que uma pessoa teria de seus próprios processos mentais”. Em outras palavras, uma crença arcaica no poder mágico dos pensamentos, os quais seriam capazes de fazer com que desejos se realizassem. “Nós – ou nossos ancestrais primitivos – um dia acreditamos que essas possibilidades eram realidades, e estávamos convencidos de que elas realmente aconteciam. Hoje em dia, não mais temos tal crença, ultrapassamos esses modos de pensamento. […] Uma experiência misteriosamente inquietante [unheimliche] ocorre tanto quando complexos infantis que foram reprimidos são reavivados por alguma impressão, ou quando crenças primitivas que foram ultrapassadas parecem uma vez mais ser confirmadas”. Por exemplo: queria muito que chovesse para não ter que sair amanhã, e acordo com o barulho de um temporal. Algo lá no fundo parece querer me dizer que fui capaz de mudar o tempo.

Realmente, um pensamento assim parece um tanto exagerado nos dias de hoje. O avanço da ciência fez que os “pensamentos mágicos” parecessem algo meio ridículo. A ironia é que isso tenha ocorrido não sem a criação de pelo menos um substituto que também de certa forma exerce apelo ao narcisismo existente em cada um de nós. Diria ser algo como uma crença na “onipotência das ações”. Só aquilo pelo qual batalhei é passível de valorização? O que realizo com facilidade não é digno de reconhecimento?

Trabalhar é, de certa forma, pôr em prática algo que não aconteceria espontaneamente. Qualquer que seja o trabalho que realizemos, ele sempre “muda o mundo”, ainda que infinitesimalmente. Assim, é meio óbvio que quanto mais fizermos as coisas acontecerem de uma determinada maneira, que quanto mais “mudarmos o mundo”, mais seremos recompensados. Claro: mais valor terá sido criado quanto mais as coisas tenham ocorrido em dissonância de seu fluxo natural. Quem já carrega em si uma certa tendência à obsessão acaba recebendo um “reforço negativo”: promoções, salários maiores indicando que vale a pena agir de maneira obsessiva, tentar controlar tudo. E aí essa tal de “onipotência das ações” acaba virando um vício.

 

Quem já carrega em si uma certa tendência à obsessão acaba recebendo um “reforço negativo”: promoções, salários maiores indicando que vale a pena agir de maneira obsessiva, tentar controlar tudo.

 

Quanto maior o sucesso obtido no plano profissional, mais seremos tentados a acreditar que somos capazes e devemos fazer as coisas acontecerem de uma determinada maneira pré-concebida. Estaremos tentados a interferir em tudo com nossos atos. Em todos as demais esferas da vida. Recebemos todos os sinais de que nosso trabalho não é compatível com nossa vocação, mas movemos mundos e fundos para fazer dar certo. Treinamos na academia com uma lesão porque aguentar a dor parece mais importante do que abrir mão de um determinado objetivo – mesmo que esse objetivo tenha sido criado puramente por nós mesmos.

Parece esoterismo falar em “seguir o universo” – ainda que o universo, o cosmos, tenha sido o modelo de vida dentro da mitologia que originou a racionalidade ocidental, a grega. Mas não precisa ter nada de sobrenatural. Não é preciso nenhuma fé para se guiar por algo além da razão. Uma intuição de que algo “feels right” pode ser suficiente. Mudar de ideia. Seguindo a terminologia do próprio Freud, ir atrás do princípio do prazer. E não puramente da vontade cega de fazer. Uma queda d’água sempre encontra o caminho de menor resistência, até porque não quer desafiar as leis da física. Sem esforço.

Talvez por isso Newton tenha descoberto a lei da gravidade: por ter deixado abertos os canais de sua intuição! Teria algum valor toda a racionalidade da física newtoniana sem aquela sacada inicial da maçã?

 

 

 

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*Fonte: blumvivante

23 Frases Brilhantes de Dostoiévski que vão Libertar sua Mente

Fyodor Dostoyevsky é um dos escritores mais famosos da literatura mundial. Suas obras interrogam as questões mais difíceis e importantes sobre a vida e da morte.

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Você tem que amar a vida além doo significado da própria vida.

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Dar um novo passo, pronunciar uma nova palavra: eis o que as pessoas mais temem.

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Existe um limite na mente das pessoas sobre quão longe é seguro ir. Após cruzar essa linha é impossível voltar atrás.

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Felicidade não está na felicidade, mas sim na sua busca.

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Quando você para de ler livros, você para de pensar.

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Liberdade não está na restrição, mas sim no controle de si mesmo.

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Felicidade não vem do conforto, mas sim do sofrimento.

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Num coração verdadeiramente amoroso, ou o ciúme mata o amor, ou o amor mata o ciúme.

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Não é necessário muito para destruir uma pessoa. Basta convencê-la de que todo o seu trabalho não possuiu nenhum significado.

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O silêncio é sempre bonito, e uma pessoa silenciosa é sempre mais bonita do que alguém que fala muito.

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Uma pessoa pode ser sábia, mas para agir com sabedoria a inteligência não é suficiente.

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Você nunca alcançará seu destino se você parar e jogar pedras em cada cachorro que latir.

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Quero falar sobre tudo com pelo menos uma pessoa enquanto falo sobre essas as coisas comigo mesmo.

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É incrível o que apenas um raio de luz solar pode fazer pela sua alma.

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É preciso conversar com os outros de uma maneira que revele os pensamentos mais internos através do rosto, que revele os problemas do coração diretamente em suas palavras. Uma palavra dita com o convicção, com total sinceridade, sem hesitação, enquanto se olha para os olhos de outra pessoa, significa mais que dezenas de páginas de um livro.

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Viver sem um objetivo é sufocante.

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A alma é curada na presença de crianças.

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Mesmo uma pessoa de mãos atadas pode fazer o bem, se desejar.

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A beleza salvará o mundo.

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As pessoas falam de crueldade bestial, mas essa é uma grande injustiça e insulto para os animais. Uma besta nunca pode ser tão artisticamente cruel quanto um homem.

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Adultos se esquecem que as crianças podem dar conselhos extremamente bons, mesmo nos casos mais difíceis.

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Não preencha sua memória com todas as vezes que você se sentiu ofendido; você pode acabar sem espaço para guardar os momentos mais maravilhosos que você experimentou.

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Uma pessoa que sabe como abraçar outra é uma boa pessoa.

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*Fonte: sociologialiquida

O Mito da Caverna – (Platão)

É Platão quem nos dá uma idéia magnífica sobre a questão da ordem implícita e explícita no seu célebre “Mito da Caverna” que se encontra no centro do Diálogo A República.

O Mito da Caverna

Vejamos o que nos diz Platão, através da boca de Sócrates:

Imaginemos homens que vivam numa caverna cuja entrada se abre para a
luz em toda a sua largura, com um amplo saguão de acesso. Imaginemos que esta caverna seja habitada, e seus habitantes tenham as pernas e o pescoço amarrados de tal modo que não possam mudar de posição e tenham de olhar apenas para o fundo da caverna, onde há uma parede. Imaginemos ainda que, bem em frente da entrada da caverna, exista um pequeno muro da altura de um homem e que, por trás desse muro, se movam homens carregando sobre os ombros estátuas trabalhadas em pedra e madeira, representando os mais diversos tipos de coisas. Imaginemos também que, por lá, no alto, brilhe o sol. Finalmente, imaginemos que a caverna produza ecos e que os homens que passam por trás do muro estejam falando de modo que suas vozes ecoem no fundo da caverna.

Se fosse assim, certamente os habitantes da caverna nada poderiam ver além das sombras das pequenas estátuas projetadas no fundo da caverna e ouviriam apenas o eco das vozes. Entretanto, por nunca terem visto outra coisa, eles acreditariam que aquelas sombras, que eram cópias imperfeitas de objetos reais, eram a única e verdadeira realidade e que o eco das vozes seriam o som real das vozes emitidas pelas sombras.

Suponhamos, agora, que um daqueles habitantes consiga se soltar das correntes que o prendem. Com muita dificuldade e sentindo-se freqüentemente tonto, ele se voltaria para a luz e começaria a subir até a entrada da caverna. Com muita dificuldade e sentindo-se perdido, ele começaria a se habituar à nova visão com a qual se deparava. Habituando os olhos e os ouvidos, ele veria as estatuetas moverem-se por sobre o muro e, após formular inúmeras hipóteses, por fim compreenderia que elas possuem mais detalhes e são muito mais belas que as sombras que antes via na caverna, e que agora lhes parece algo irreal ou limitado.

Suponhamos que alguém o traga para o outro lado do muro. Primeiramente ele ficaria ofuscado e amedrontado pelo excesso de luz; depois, habituando-se, veria as várias coisas em si mesmas; e, por último, veria a própria luz do sol refletida em todas as coisas. Compreenderia, então, que estas e somente
estas coisas seriam a realidade e que o sol seria a causa de todas as outras coisas.

Mas ele se entristeceria se seus companheiros da caverna ficassem ainda em sua obscura ignorância acerca das causas últimas das coisas. Assim, ele, por amor, voltaria à caverna a fim de libertar seus irmãos do julgo da ignorância e dos grilhões que os prendiam. Mas, quando volta, ele é recebido como um louco que não reconhece ou não mais se adapta à realidade que eles pensam ser a verdadeira: a realidade das sombras. E, então, eles o desprezariam….

Platão

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*Fonte: holos

25 frases de Fiódor Dostoiévski que vão te fazer pensar

Dostoiévski foi um escritor que penetrou nos cantos mais escuros da alma russa. Ele é considerado um psicólogo da escrita e um pesquisador do coração humano, porque compadecia o sofrimento dos seus personagens. O que eles sentiam, ele havia conhecido na própria pele.

O Incrível.club juntou 25 frases marcantes deste escritor. Elas vão te fazer refletir por um bom tempo.

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Devemos amar mais a vida do que o sentido da vida.

Nenhum dos dois dará o primeiro passo porque ambos pensam que não é mútuo.

Tudo tem uma linha e cruzá-la é perigoso; uma vez cruzada, é impossível voltar atrás.

Felicidade é saber alcançar a felicidade.

O povo aproveita o próprio sofrimento.

Parar de ler livros é parar de pensar.

Liberdade não é conter-se, é saber se controlar.

Não há felicidade na comodidade; a felicidade se compra com o sofrimento.

Em um coração que ama de verdade, ou o ciúme mata o amor, ou o amor mata o ciúme.

Não é preciso muito para matar uma pessoa: basta convencê-la de que ninguém precisa do que ela faz.

Meu amigo, lembre-se: ficar em silêncio é bom, seguro e bonito.

Um escritor cujas obras não fizeram sucesso, facilmente se transforma em um crítico ácido; como um vinho ruim e sem sabor que se transforma em vinagre.

É uma pessoa inteligente, mas para agir com inteligência ela não é suficiente.

Se, ao tentar alcançar um objetivo, você parar para jogar pedras em cada cachorro que latir, você nunca vai chegar ao final.

Quero poder falar de tudo com pelo menos uma pessoa, até comigo mesmo.

É surpreendente o que um raio de sol pode fazer com a alma humana!

É preciso falar cara a cara para poder ler a alma no rosto, para que o coração soe em palavras. Uma palavra dita com convicção, com plena sinceridade e sem medo, vale muito mais que dez folhas de papel cobertas de palavras.

A vida é salva sem um propósito.

A alma se cura ao lado das crianças.

Quem quer ser útil, até com as mãos atadas pode fazer o bem.

A beleza salvará o mundo.

Às vezes, se fala na brutalidade animal do ser humano, mas isso é incrivelmente injusto e insultante para as feras; um animal nunca poderia ser tão cruel como o ser humano, tão artisticamente cruel.

Os adultos não sabem que uma criança pode dar um conselho extremamente importante até em um assunto super complicado.

Não encha a sua memória com rancores para que não falte espaço para os momentos bonitos.

A pessoa que sabe abraçar é uma boa pessoa.

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*Fonte: incrivelclub

“A era do humanismo está terminando” – Achille Mbembe

Achille Mbembe (1957, Camarões francês) é historiador, pensador pós-colonial e cientista político; estudou na França na década de 1980 e depois ensinou na África (África do Sul, Senegal) e Estados Unidos. Atualmente, ensina no Wits Institute for Social and Economic Research (Universidade de Witwatersrand, África do Sul). Ele publicou Les Jeunes et l’ordre politique en Afrique noire (1985), La naissance du maquis dans le Sud-Cameroun. 1920-1960: histoire des usages de la raison en colonie (1996), De la Postcolonie, essai sur l’imagination politique dans l’Afrique contemporaine (2000), Du gouvernement prive indirect (2000), Sortir de la grande nuit – Essai sur l’Afrique décolonisée (2010), Critique de la raison nègre (2013). Seu novo livro, The Politics of Enmity, será publicado pela Duke University Press neste ano de 2017.

O artigo foi publicado, originalmente, em inglês, no dia 22-12-2016, no sítio do Mail & Guardian, da África do Sul, sob o título “The age of humanism is ending” e traduzido para o espanhol e publicado por Contemporea filosofia, 31-12-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo:

Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016.

Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo.

Nos Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow.

A Europa continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural Stuart Hall chamou de populismo autoritário. Apesar dos complexos acordos alcançados nos fóruns internacionais, a destruição ecológica da Terra continuará e a guerra contra o terror se converterá cada vez mais em uma guerra de extermínio entre as várias formas de niilismo.

As desigualdades continuarão a crescer em todo o mundo. Mas, longe de alimentar um ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão cada vez mais a forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais.

A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa.

Com o triunfo desta aproximação neodarwiniana para fazer história, o apartheid, sob diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma. Sua restauração abrirá caminho para novos impulsos separatistas, para a construção de mais muros, para a militarização de mais fronteiras, para formas mortais de policiamento, para guerras mais assimétricas, para alianças quebradas e para inumeráveis divisões internas, inclusive em democracias estabelecidas.

Nenhuma das alternativas acima é acidental. Em qualquer caso, é um sintoma de mudanças estruturais, mudanças que se farão cada vez mais evidentes à medida que o novo século se desenrolar. O mundo como o conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, com os longos anos da descolonização, a Guerra Fria e a derrota do comunismo, esse mundo acabou.

Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo.

O capitalismo e a democracia liberal triunfaram sobre o fascismo em 1945 e sobre o comunismo no começo dos anos 1990 com a queda da União Soviética. Com a dissolução da União Soviética e o advento da globalização, seus destinos foram desenredados. A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização.

Apoiado pelo poder tecnológico e militar, o capital financeiro conseguiu sua hegemonia sobre o mundo mediante a anexação do núcleo dos desejos humanos e, no processo, transformando-se ele mesmo na primeira teologia secular global. Combinando os atributos de uma tecnologia e uma religião, ela se baseava em dogmas inquestionáveis que as formas modernas de capitalismo compartilharam relutantemente com a democracia desde o período do pós-guerra – a liberdade individual, a competição no mercado e a regra da mercadoria e da propriedade, o culto à ciência, à tecnologia e à razão.

Cada um destes artigos de fé está sob ameaça. Em seu núcleo, a democracia liberal não é compatível com a lógica interna do capitalismo financeiro. É provável que o choque entre estas duas ideias e princípios seja o acontecimento mais significativo da paisagem política da primeira metade do século XXI, uma paisagem formada menos pela regra da razão do que pela liberação geral de paixões, emoções e afetos.

Nesta nova paisagem, o conhecimento será definido como conhecimento para o mercado. O próprio mercado será re-imaginado como o mecanismo principal para a validação da verdade. Como os mercados estão se transformam cada vez mais em estruturas e tecnologias algorítmicas, o único conhecimento útil será algorítmico. Em vez de pessoas com corpo, história e carne, inferências estatísticas serão tudo o que conta. As estatísticas e outros dados importantes serão derivados principalmente da computação. Como resultado da confusão de conhecimento, tecnologia e mercados, o desprezo se estenderá a qualquer pessoa que não tiver nada para vender.

A noção humanística e iluminista do sujeito racional capaz de deliberação e escolha será substituída pela do consumidor conscientemente deliberante e eleitor. Já em construção, um novo tipo de vontade humana triunfará. Este não será o indivíduo liberal que, não faz muito tempo, acreditamos que poderia ser o tema da democracia. O novo ser humano será constituído através e dentro das tecnologias digitais e dos meios computacionais.

A era computacional – a era do Facebook, Instagram, Twitter – é dominada pela ideia de que há quadros negros limpos no inconsciente. As formas dos novos meios não só levantaram a tampa que as eras culturais anteriores colocaram sobre o inconsciente, mas se converteram nas novas infraestruturas do inconsciente. Ontem, a sociabilidade humana consistia em manter os limites sobre o inconsciente. Pois produzir o social significava exercer vigilância sobre nós mesmos, ou delegar a autoridades específicas o direito de fazer cumprir tal vigilância. A isto se chamava de repressão.

A principal função da repressão era estabelecer as condições para a sublimação. Nem todos os desejos podem ser realizados. Nem tudo pode ser dito ou feito. A capacidade de limitar-se a si mesmo era a essência da própria liberdade e da liberdade de todos. Em parte graças às formas dos novos meios e à era pós-repressiva que desencadearam, o inconsciente pode agora vagar livremente. A sublimação já não é mais necessária. A linguagem se deslocou. O conteúdo está na forma e a forma está além, ou excedendo o conteúdo. Agora somos levados a acreditar que a mediação já não é necessária.

Isso explica a crescente posição anti-humanista que agora anda de mãos dadas com um desprezo geral pela democracia. Chamar esta fase da nossa história de fascista poderia ser enganoso, a menos que por fascismo estejamos nos referindo à normalização de um estado social da guerra. Tal estado seria em si mesmo um paradoxo, pois, em todo caso, a guerra leva à dissolução do social. No entanto, sob as condições do capitalismo neoliberal, a política se converterá em uma guerra mal sublimada. Esta será uma guerra de classe que nega sua própria natureza: uma guerra contra os pobres, uma guerra racial contra as minorias, uma guerra de gênero contra as mulheres, uma guerra religiosa contra os muçulmanos, uma guerra contra os deficientes.

O capitalismo neoliberal deixou em sua esteira uma multidão de sujeitos destruídos, muitos dos quais estão profundamente convencidos de que seu futuro imediato será uma exposição contínua à violência e à ameaça existencial. Eles anseiam genuinamente um retorno a certo sentimento de certeza – o sagrado, a hierarquia, a religião e a tradição. Eles acreditam que as nações se transformaram em algo como pântanos que necessitam ser drenados e que o mundo tal como é deve ser levado ao fim. Para que isto aconteça, tudo deve ser limpo. Eles estão convencidos de que só podem se salvar em uma luta violenta para restaurar sua masculinidade, cuja perda atribuem aos mais fracos dentre eles, aos fracos em que não querem se transformar.

Neste contexto, os empreendedores políticos de maior sucesso serão aqueles que falarem de maneira convincente aos perdedores, aos homens e mulheres destruídos pela globalização e pelas suas identidades arruinadas.

A política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo.

Sob tais condições, o futuro da política de massas de esquerda, progressista e orientada para o futuro, é muito incerto. Em um mundo centrado na objetivação de todos e de todo ser vivo em nome do lucro, a eliminação da política pelo capital é a ameaça real. A transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política.

Se a civilização pode dar lugar a alguma forma de vida política, este é o problema do século XXI.

Fonte: Revista IHU On-line

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*Fonte: revistaprosaversoearte

A desconstrução do mérito: Foucault e a categorização dos indivíduos como um regime de poder

Desde o processo de socialização primária e diariamente em nosso cotidiano, estamos expostos à uma série de influências discursivas que impregnam a nossa maneira de observar os elementos que ao nosso redor se encontram e mesmo os meios pelos quais exercemos a capacidade de disposição do livre-arbítrio. Certamente algum tempo é necessário para que os sujeitos se apercebam de tais limitações instituídas ao pensamento e passem a refletir criticamente acerca do meio no qual se encontram inseridos. Essa “quebra de correntes” pressupõe primeiramente que aquele que está sob o jugo dessas externalidades capte as interações mais elementares que constituem os nossos relacionamentos em sociedade e os converta mentalmente em panoramas que possam ser dignos de questionamentos ou não, bem como tenha os espaços e as oportunidades para constituir um reflexão autônoma.

Logicamente, esse exercício do intelecto não é uma tarefa fácil e para grande parte dos sujeitos sequer aprazível ou mesmo disponível, tendo em vista que as possibilidades de constituição de olhares próprios no que diz respeito à realidade vem sendo cerceada sistemática e historicamente por uma série de razões “convenientes” que passam fundamentalmente pela manutenção do status quo da presente ordem sócio-econômica vigente. Diante disso, os regimes de poder (e aqui me valho de uma categoria foucaultiana) acabam passando desaperbecidos no momento em que estão sendo praticados. O modus operandi de classificação e categorização dos indivíduos, conhecido por todos nós pelo divino nome “meritocracia”, é um deles. Talvez seja essa uma das mais problemáticas formas de exercício do poder em nossa sociedade, a depender do ponto de vista do observador.

A justificativa da meritocracia em si passa pela ideia de que a organização social se dá da melhor maneira possível quando alguns são recompensados pelos seus esforços hercúleos enquanto outros são punidos por sua incompetência. A noção que está por trás desse argumento joga toda a conta do sucesso ou fracasso de um indivíduo apenas na chamada “responsabilidade individual”, algo que deita raízes em parte do pensamento liberal clássico que chegou, em meados do século XIX e por meio de alguns teóricos, a atribuir a pobreza de ampla gama de pessoas a uma mera questão de dedicação ou talento. Uma das incoerências que aí reside tem a ver com a ignorância acerca dos contextos micro e macro onde os sujeitos se fazem presentes, pois os locais nos quais cada um está inserido pode apresentar limitações ou aberturas de ordem gigantesca, que facilitam ou não a aquisição de diversos tipos de capitais.

Outro ponto frágil dessa crença ideológica é a conclusão “lógica” de que a escolha adequada de meios de auferição do conhecimento e de outros tipos de capacidade dos sujeitos resultarão em uma distribuição mais justa dos bens materiais e imateriais em uma dada sociedade. Uma análise superficial é suficiente para constatar que na verdade os mecanismos avaliatórios disponíveis nada mais são do que perpetuadores das desigualdades que vem de berço (para utilizar a expressão popular), já que àqueles aos quais foi concedido um treinamento específico e de razoável ou grande qualidade, algo que exige capital econômico considerável principalmente quando se trata de sociedades que não dispõem de equipamentos públicos de porte, se faz mais realista um horizonte que contenha como resultante a conquista de “prêmios” pelos seus esforços, no fundo uma resultante das condições estabelecidas.

É evidente que exceções a esse quadro podem vir à tona, mas ao invés de fatos corriqueiros de escape ao poder, elas devem ser pensadas muito mais como pautas fetichistas para a imprensa, que trata de expô-las em matérias que celebram esforços muitas vezes anormais e que nada mais são do que o retrato de uma pirâmide social repleta de abismos e mazelas. Não se trata aqui de enxergar como ideal um mundo no qual há a desvalorização da qualidade de trabalhos bem-feitos ou o desestímulo para que os sujeitos exerçam aquilo para o qual estão melhor vocacionados, até mesmo porque ir nessa direção seria de um simplismo aterrador.

O ponto do qual não se pode escapar é a necessidade de desvelar todas as contradições de um discurso que move paixões em nossa sociedade, enxergando o mérito não como um “dom” concedido divinamente ou uma simples questão de esforço mas como um atributo construído gradualmente e observando atentamente para a meritocracia (regime de exponencialização do mérito) enquanto maneira de eternizar a distribuição dispare dos recursos existentes. Esse regime de poder em exercício, assim como outros, é uma ficção reguladora a ser enfrentada, pois não possui necessariamente um criador ou dono identificável e intencionado, já que o poder, como o próprio Foucault menciona na sua obra, não emana de alguma fonte. Dando alguns passos para pensar nesse sentido, quem sabe novas formas de concessão, mais niveladoras, não possam ser construídas, ainda que no plano das ideias.

Referências bibliográficas:

Michel Foucault, 1926 – 1984. Microfísica do Poder/Michel Foucault; organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machad. – 4. ed. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

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*Fonte/texto: genialmentelouco

A ideia de uma vida boa foi substituída pela de uma vida a ser invejada

“Um dos mais influentes psicanalistas da Inglaterra, autor de dez livros e editor da nova tradução da obra de Sigmund Freud (1856-1939), Adam Phillips, mais parece um profeta do que um homem da ciência. Pelo menos essa é a ideia que se tem depois de ler a entrevista que ele concedeu à revista Veja em 12 de março de 2003, “Páginas amarelas”), mas que sete anos depois me parece atualizadíssima as questões erguidas por ele, da qual se extraíram as dez denúncias abaixo numeradas:

1. Hoje as pessoas têm mais medo de morrer do que no passado. Há uma preocupação desmedida com o envelhecimento, com acidentes e doenças. É como se o mundo pudesse existir sem essas coisas.

2. A ideia de uma vida boa foi substituída pela de uma vida a ser invejada.

3. Hoje todo mundo fala de sexo, mas ninguém diz nada interessante. É uma conversa estereotipada atrás da outra. Vemos exageros até com crianças, que aprendem danças sensuais e são expostas ao assunto muito cedo. Estamos cada vez mais infelizes e desesperados, com o estilo de vida que levamos.

4. Nos consultórios, qualquer tristeza é chamada de depressão.

5. As crianças entram na corrida pelo sucesso muito cedo e ficam sem tempo para sonhar.

6. No século 14, se as pessoas fossem perguntadas sobre o que queriam da vida, diriam que buscavam a salvação divina. Hoje a resposta é: “ser rico e famoso”. Existe uma espécie de culto que faz com que as pessoas não consigam enxergar o que realmente querem da vida.

7. Os pais criam limites que a cultura não sanciona. Por exemplo: alguns pais tentam controlar a dieta dos filhos, dizendo que é mais saudável comer verduras do que salgadinhos, enquanto as propagandas dão a mensagem diametralmente oposta. O mesmo pode ser dito em relação ao comportamento sexual dos adolescentes. Muitos pais procuram argumentar que é necessário ter um comportamento responsável enquanto a mídia diz que não há limites.

8. [Precisamos] instruir as crianças a interpretar a cultura em que vivemos, ensiná-las a ser críticas, mostrar que as propagandas não são ordens e devem ser analisadas.

9. Uma coisa precisa ficar clara de uma vez por todas: embora reclamem, as crianças dependem do controle dos adultos. Quando não têm esse controle, sentem-se completamente poderosas, mas ao mesmo tempo perdidas. Hoje há muitos pais com medo dos próprios filhos.

10. Ninguém deveria escolher a profissão de psicanalista para enriquecer. Os preços das sessões deveriam ser baixos e o serviço, acessível. Deve-se desconfiar de analistas caros. A psicanálise não pode ser medida pelo padrão consumista, do tipo “se um produto é caro, então é bom”. Todos precisam de um espaço para falar e refletir sobre sua vida.”

 

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*Fonte: pensadoranonimo

 

SÉRIE: Humano, Demasiado Humano – Martin Heidegger: Projeto Para Viver

Documentário
Humano, Demasiado Humano – Martin Heidegger: Projeto Para Viver

O projeto do tratado Ser e Tempo, foi publicado em 1927 no mesmo ano que Minha Luta (Adolf Hitler). Este programa examina a vida e a filosofia de Martin Heidegger, descreve a sua ascensão a proeminência intelectual, expondo os motivos do seu envolvimento no partido Nazi. Entrevistas com o seu filho, Hermann Heidegger, George Steiner autor de uma influente critica da sua filosofia, contado também com o seu biógrafo Hugo Ott; e ex-aluno de Hans-Georg Gadamer, fornecem novas ideias enquanto se faz uma reconstrução dos momentos chaves da vida de Heidegger. Vida e história de um homem cujos apologistas e os antagonistas ainda amargamente se dividem.

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*Fonte: revistaprosaversoearte

 

SÉRIE: Humano, Demasiado Humano – Friedrich Nietzsche: Além do bem e do mal

Documentário
Humano, Demasiado Humano – Friedrich Nietzsche: Além do bem e do mal

A semente do pensamento disseminado por Nietzsche no século 19 prefigurava o piloto do século 20 sobre os conceitos do existencialismo e da psicanálise. Este programa conta com entrevistas de grandes estudiosos do pensamento do Nietzsche sendo eles: Ronald Hayman e Leslie Chamberlain (biógrafos de Nietzsche), Andrea Bollinger (arquivista), Reg Hollingdale (tradutor), Will Self (escritor) e Keith Ansell Pearson (filosofa) que sonda a vida e os escritos de Nietzsche. Além de mostrar também o papel da irmã de Nietzsche na edição das suas obras para o uso como propaganda nazi. Conta também com partes de prosas aforísticas extraídas de obras como a parábola de um louco e assim falou Zaratustra.

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*Fonte: revistaprosaversoearte

SÉRIE- Humano, Demasiado Humano (Jean Paul Sartre)

Documentário
Humano, Demasiado Humano – Jean-Paul Sartre: O Caminho Para a Liberdade

Neste episódio é abordada a vida e a obra do mais famoso filósofo existencialista europeu, Jean-Paul Sartre (1905-1980). O homem que passou a vida a desafiar a lógica convencional amava os paradoxos. O documentário expõe estes paradoxos da sua vida e da sua obra, ao mesmo tempo em que ambos são questionados. A pergunta central que é colocada é: Se o ser humano é livre para fazer o que quiser, como justifica Sartre, então como devemos viver as nossas vidas no dia-a-dia?

 

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*Fonte: revistaprosaversoearte

 

“Somos inundados de informação e famintos de sabedoria”

Zygmunt Bauman é dos grandes pensadores da Modernidade, conhecido mundialmente por seu célebre conceito de “”liquidez””.

Perspicaz analista dos fatos cotidianos, o sociólogo tem vasta obra sobre temas contemporâneos, com destaque para o best-seller Amor líquido, fundamental para a compreensão das relações afetivas no mundo atual.

Bauman nasceu na Polônia e mora na Inglaterra desde 1971. Professor emérito das Universidades de Varsóvia e Leeds, tem mais de trinta livros publicados no Brasil.

 

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*Fonte: pensadorcontemporaneo

Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro

“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”, afirma Giorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salvà e publicada por Ragusa News, 16-08-2012.

Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.

Segundo ele, “a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governabilidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas”. Assim, “a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben.

A tradução é de Selvino  J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC [e tradutor de três das quatro obras de Agamben publicadas pela Boitempo], para o site do Instituto Humanitas Unisinos.

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O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe  financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itália. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?

“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. “Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.  O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu  o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?

A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado.  Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história e o passado têm um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.

O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar) têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim, da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com  as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.

Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado  ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.

A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?

Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo, foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política. O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma  da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.

O mal-estar, para usar um eufemismo, com que  o ser humano comum se põe frente ao mundo da política tem a ver especificamente com a  condição italiana ou é de algum modo inevitável?

Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais  econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.

O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?

Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia  em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos. Poucos  sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmeras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível  aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmeras não é mais um lugar público: é uma prisão.

A  grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal,  o futuro será melhor do que o presente?

Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: “a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.

Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a aula que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação  de como sair do xeque-mate no qual a arte contemporânea está envolvida.

Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade  que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercantilização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea, as duas coisas coincidem.

Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um  objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.

Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercantilização.  Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com não-obras e performances em museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

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Sobre o autor

Giorgio Agamben nasceu em Roma em 1942. É um dos principais intelectuais de sua geração, autor de muitos livros e responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin. Deu cursos em várias universidades europeias e norte-americanas, recusando-se a prosseguir lecionando na New York University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos. Foi diretor de programa no Collège International de Philosophie de Paris. Mais recentemente ministrou aulas de Iconologia no Istituto Universitario di Architettura di Venezia (Iuav), afastando-se da carreira docente no final de 2009. Sua obra, influenciada por Michel Foucault e Hannah Arendt, centra-se nas relações entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente, política. Entre seus principais livros destacam-se Homo sacer (2005), Estado de exceção (2005), Profanações (2007), O que resta de Auschwitz (2008) e O reino e a glória (2011), os quatro últimos publicados no Brasil pela Boitempo Editorial.

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*Fonte: blogdaboitempo

giorgioagamben

 

A filosofia real por trás das lições de 10 mestres da cultura pop

Estes gurus da ficção lutam, protegem e, acima de tudo, ensinam. O que você não sabia é que estes ensinamentos têm base em correntes de pensamento do mundo real. Vista seu uniforme de gafanhoto e descubra de onde vêm as ideias que guiam os heróis

 

MESTRE YODA (Star Wars)

Frase: “O medo é o caminho para o lado sombrio. O medo leva à raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento”

Corrente filosófica: Estoicismo. Assim como Yoda, o pensador Sêneca defendia que uma ira desmedida acaba em loucura. Por isso, a ira deve ser evitada para conservar não apenas o autodomínio mas também a própria saúde. Em resumo, a reflexão de Yoda ensina a ter paciência e coragem para aceitar que não temos o controle sobre todas as coisas

Frase: “Muitas das verdades que temos dependem do nosso ponto de vista”

Corrente filosófica: Relativismo.É uma questão de interpretação, sugere o mestre Jedi. Segundo o filósofo Immanuel Kant, a realidade não é o que realmente é, mas como nós a enxergamos. Ou seja, a lição dessa concepção, que encara os fatos como sendo discutíveis, é que ninguém pode ser dono da razão

Frase: “Que a Força esteja com você”

Corrente filosófica: Taoísmo. Mencionada desde o primeiro Star Wars, a Força é um poder metafísico que envolve e liga todas as coisas vivas, é a energia pura. Seu conceito é semelhante ao princípio yin e yang, de polos opostos que equilibram o Universo – nos filmes, os lados claro e escuro. A Força auxiliou a ambos, os bons e os maus, enquanto competiam por poder. Obs.: para o cristianismo, é inconcebível pensar que essa força seja Deus. A Bíblia diz que Nele “não há mudança nem sombra” (Tiago 1:17)

 

MESTRE SPLINTER (Tartarugas Ninja)

Frase: “Não existe um monstro mais perigoso do que a falta de compaixão”

Corrente filosófica: Budismo. Máxima do Dalai Lama (saiba mais na página 41), o senso de preocupação com os outros beneficiaria a nós mesmos, pois segundo sua doutrina, ao ajudar alguém, a mente se amplia e os próprios problemas perdem a capacidade de afligir. A anulação desse sentimento, por outro lado, destruiria o caráter humano

Frase: “A morte vem para todos nós, mas muito pior é morrer sem honra”

Correntes filosóficas: Confucionismo e budismo. Para Splinter, assim como para os samurais seguidores do bushido (o código de ética desses guerreiros para viver com virtude), a honra era tudo, mesmo após a morte. A falta dela implicaria na traição aos princípios da justiça e da lealdade e o único jeito de recuperá-la seria se o desonrado cometesse suicídio. Em japonês, o termo haraquiri significa “cortar a barriga” e é a expressão mais nobre para esse tipo de suicídio

 

MESTRE DOS MAGOS (Caverna do Dragão)

Frase: “A resposta não está no poder de alguém, ela está no íntimo de cada um de vocês”

Corrente filosófica: Hegelianismo. O baixinho poderia ser o avatar do filósofo alemão Hegel, que afirmou que não é seu cargo ou posição que dá poder a você, mas sim a sua autonomia. Ou seja, é da sua capacidade de escolha que vem a possibilidade de agir. Portanto, é preciso ter valores sólidos para que a decisão seja bem tomada. Quanto mais bem resolvido por dentro, mais poderoso você é

Frase: “O lar é o reflexo do coração”

Corrente filosófica: Taoísmo.A casa mostra como está o astral de quem vive nela. É o que prega a arte milenar chinesa Feng Shui, que busca o equilíbrio emocional das pessoas com o mundo físico. No livro Zang Shu, do mestre taoísta Guo Pu, a mente e os sentimentos provocam estímulos externos que determinam a maneira de viver

 

PROFESSOR ALVO DUMBLEDORE (Harry Potter)

Frase: “Claro que está acontecendo em sua mente, mas porque isso significa que não é real?”

Corrente filosófica: Platonismo.Nesse diálogo com Harry Potter, fica claro que a noção de realidade do diretor de Hogwarts é a mesma que existia na Grécia antiga, na obra de Platão. Para esse filósofo, o que se capta pelos sentidos é apenas uma fração da própria realidade, que consiste na imaginação. Assim, o mundo real deveria ser interpretado como uma representação

Frase: “Não vale a pena mergulhar nos sonhos e se esquecer de viver”

Corrente filosófica: Mobilismo.Segundo o filósofo grego Heráclito, sonhos só seriam relevantes quando capazes de colocar o inconsciente em estado de vigília, isto é, em sintonia com a própria realidade. Sonhar serviria, portanto, para treinar o cérebro humano a reagir, quando acordado, a situações atípicas

Frase: “Não tenha pena dos mortos, Harry. Tenha pena dos vivos, e acima de tudo daqueles que vivem sem amor”

Correntes filosóficas:Platonismo e epicurismo.Dumbledore só poderia ser grego! Assim como ele, o filósofo ateniense Epicuro enxergava a morte sem drama. Para ele, a vida seria um conjunto de átomos que se dissolveriam para, mais tarde, se reunir e criar novos seres. Já Platão considerava a vida sem amor uma existência vazia e sem plenitude de espírito.

 

PROFESSOR CHARLES XAVIER (X-Men)

Frase: “A humanidade não é ruim, está apenas desinformada”

Corrente filosófica: Iluminismo.Xavier acredita que os seres humanos têm medo dos mutantes e até os odeiam por preconceito e superstição. O filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau sempre defendeu que o homem é bom em essência, mas que a vida civilizada o induz à maldade por meio de normas que o afastam de sentir a liberdade e questionar suas infinitas formas de expressão

Frase: “Por pior que pareça, essa dor te deixará mais forte”

Corrente filosófica: Existencialismo.Coincidência ou não, a reflexão de Xavier corresponde à famosa frase”O que não causa a minha morte me deixa mais forte”, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Contrário à opinião de que o sofrimento é ruim, Nietzsche defendia que sem dor não haveria como treinar a resistência para alcançar o sucesso

 

RAFIKI (O Rei Leão)

Frase: “O passado pode doer, mas, do jeito que eu vejo, você pode fugir dele ou aprender com ele”

Corrente filosófica: Existencialismo.Pois não é que o macaco tem razão? Para o filósofo Nietzsche, por mais que se queira planejar o futuro, é impossível modificar o passado. Com isso, ensina-se que, quando não se aceita a passagem do tempo, ele é capaz de nos “aprisionar”

Frase: “Para conseguir o que quer, você deve olhar além do que você vê”

Corrente filosófica: Platonismo.Em O Rei Leão 3, foi a vez de o suricate Timão se consultar com o símio. Para ele, o conselho veio da filosofia de Platão, que buscou mostrar que, para enxergar a realidade material, é necessário ultrapassar os próprios sentidos e encarar o visível com com a percepção mental

 

GANDALF (O Senhor dos Anéis, O Hobbit)

Frase: “Você pode encontrar as coisas que perdeu, mas nunca as que abandonou”

Corrente filosófica: Platonismo.A frase do mago eremita caberia na fábula Os Viajantes e o Urso, do escritor da Grécia antiga Esopo. Nela, o abandono é retratado como uma prova para se testar a sinceridade e a amizade. O motivo? Para ele, quando alguém que está junto se perde pelo caminho, a solidão é superável, mas, quando uns aos outros se abandonam, na verdade abandonam a si mesmos. Quem age com indiferença não deve se surpreender se os outros o esquecem

Frase: “Para os olhos tortos, a realidade pode ter um rosto desvirtuado”

Corrente filosófica: Idealismo.O filósofo irlandês George Berkeley desenvolveu uma reflexão que afirma que todo conhecimento provém dos sentidos. Assim, a existência das coisas nada mais é do que a percepção que se tem dessa existência. Então toda a realidade material restringe-se à ideia que se faz das coisas, sejam elas boas ou más

Frase: “A jornada não acaba aqui. A morte é apenas um outro caminho”

Corrente filosófica: Agostinismo.Segundo o papa Francisco, seguidor da filosofia de Santo Agostinho, se a morte for entendida como o fim de tudo, transforma-se em ameaça. Afeta qualquer sonho, qualquer perspectiva. Portanto, para ele, a morte é como uma porta que deve ser atravessada com fé e amor numa continuidade feliz e sem fim

 

SENHOR MIYAGI (Karatê Kid)

Frase: “Não existe mau aluno, só mau professor. Professor diz, aluno faz”

Corrente filosófica: Antropocentrismo.”Um mestre inspira e anima ideias”, diria o filósofo holandês Erasmo de Roterdã. Desse ponto de vista, ser um bom professor seria elevar a condição coletiva. É por isso que não se deve confundir ensinar com regrar. Regras estariam ligadas à hierarquia, diferentemente de ensino, que teria como base a admiração e o respeito

Frase: “Para uma pessoa sem perdão no coração, viver é pior que morrer”

Corrente filosófica: Existencialismo.Revide o inimigo de outra maneira! Segundo o filósofo Jean-Paul Sartre, perdoar é cessar de odiar, em vez de anular ou apagar a ofensa cometida. Sendo assim, o perdão emerge como a possibilidade de romper o processo da mágoa. Sem ele, o ofendido jamais conseguirá prosseguir em paz

 

MORPHEUS (Matrix)

Frase: “Há uma grande diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho”

Corrente filosófica: Taoísmo.Um ajuda a ganhar a vida, o outro a construí-la. O filósofo chinês Lin Yutang afirmava que o conhecimento está ligado diretamente à percepção, pois se trata de tudo aquilo que recebemos do mundo exterior para dentro de nós. Já o “trilhar” seria a sabedoria, ou seja, o conhecimento que foi posto em prática e assimilado

Frase: “Não pense que é capaz. Saiba que é”

Corrente filosófica: Aristotelismo.Para poder ilustrar a mensagem de Morpheus, vale recorrer à filosofia de Aristóteles, que defendia que, quando se duvida da própria capacidade, demonstra-se insegurança e incerteza. Com isso, o resultado tende a dar errado, fica incerto. Já quando estamos 100% seguros, o resultado sai como queremos.

 

SEU MADRUGA (Chaves)

Frase:“Não existe trabalho ruim. Ruim é ter de trabalhar”

Corrente filosófica:Pluralismo. O filósofo grego Demócrito diria a mesma coisa. Sobrecarregar a agenda equivaleria a sobrecarregar o espírito de angústia. Eliminar as tarefas penosas que nos impomos é vital para ter “euthymia” – grego para “paz de espírito”

Frase:“A vingança nunca é plena. Mata a alma e a envenena”

Corrente filosófica:Estoicismo. Entre todos os pensadores, o que melhor refletiu sobre a vingança foi o neoestoico Lúcio Sêneca. Para ele, dar o troco é um ato condenável, pois, além de fazer com que a injúria sofrida se estenda para causar mais dor, provoca desejos perversos e uma falsa sensação de consolo no vingador

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*Fonte: munsdoestranho
FONTES Livros Super-Heróis e a Filosofia, de Matt Morris e Tom Morris, A Arte da Guerra, de Sun Tzu, Entre Quatro Paredes e O Ser e o Nada, de Jean-Paul Sartre, O Poder dos Quietos, de Susan Cain, The Optimism Bias, de Tali Sharot, Manual de Limpeza de um Monge Budista, de Keisuke Matsumoto; site Diário do Centro do Mundo; e programa Academia CBN, da rádio CBN, com o filósofo Mario Sergio Cortella
CONSULTORIA Luciana Félix, professora de filosofia e mitologia greco-romana da Escola Superior de Direito Constitucional

20 pensamentos de Carl Jung que podem ajudar na autocompreensão

Podemos dizer que Carl Gustav Jung foi um psicólogo positivo e filósofo.
Em qualquer neurose ou depressão, ele via um impulso para a expansão da consciência.
Essas 20 frases deste discípulo de Freud, podem lhe ajudar a se compreender e se aceitar melhor, da forma como você é:

1. Não prenda quem se afasta de você. Assim, quem deseja se aproximar de você não irá conseguir fazê-lo.

2. Tudo aquilo que nos irrita nos outros nos leva a um melhor entendimento de nós mesmos.

3. Se você é uma pessoa talentosa, não quer dizer que tenha recebido algo. Quer dizer que você pode dar algo.

4. O encontro de duas pessoas é como o contato entre duas substâncias químicas: quando há uma reação, ambas se transformam.

5. Nada tem uma influência psicológica mais forte em seu ambiente, e especialmente em seus filhos, do que a vida não vivida de um pai.

6. A vida não vivida é uma doença que pode levar à morte.

7. Sua visão só ficará mais clara quando você olhar para dentro do seu coração. Aquele que olha para fora, sonha.
Quem olha para seu interior, desperta.

8. A solidão não chega por você não ter pessoas ao seu redor, e sim por não conseguir comunicar as coisas que são importantes para você, ou por manter certos pontos de vista que os outros consideram inadmissíveis.

9. Me mostre uma pessoa sã e eu a curarei para você.

10. Temos a tendência de olhar para o passado, para nossos pais; e para a frente, para nossos filhos, para um futuro que nunca iremos ver, mas do qual queremos tomar conta.

11. Aquilo a que você resiste, persiste.

12. A depressão é como uma senhora vestindo preto. Se ela chegar, não a expulse. É melhor convidá-la para a mesa e ouvir o que ela tem a dizer.

13. Às vezes, as mãos resolvem um mistério com o qual o intelecto lutou em vão.

14. O sonho é uma pequena porta secreta abrindo-se durante a noite cósmica que a alma era muito antes do surgimento da consciência.

15. Um homem que não cruzou o inferno de suas paixões, nunca as superou.

16. As pessoas fazem o que for, não importa o absurdo que seja, para evitar o confronto com sua própria alma.

17. Eu não sou o que me aconteceu. Sou o que escolhi ser.

18. Podemos chegar a pensar que não controlamos nada por completo. Porém, um amigo pode facilmente nos contar algo sobre nós de que não fazíamos nem ideia.

19. “Mágico” é apenas outra palavra para definir a alma.

20. De uma forma ou de outra, somos partes de uma só mente que tudo engloba, um único ’grande homem (…)’.

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*Fonte: fasdapsicanalise

carljung100

25 Lições de vida que todos deveriam aprender com Rumi

“Estude-me o tanto que quiser, você não vai me conhecer, porque eu sou diferente em uma centena de maneiras daquilo que você me vê. Coloque-se atrás dos meus olhos e me veja como eu me vejo, por que eu escolhi estar em um lugar que você não pode ver. “~ Rumi

Rumi, também conhecido como Jalāl ad-Din Muhammad Balkhi, era um místico, teólogo e poeta sufi persa do século 13. Suas palavras foram carregadas com sabedoria e poder. Ele foi realmente incrível.

Abaixo estão 25 lições de vida que todos podem aprender com as palavras de Rumi. Esperamos que elas poderão inspirá-los a viver uma vida mais bela e significativa.

 

1.PARE DE VIVER TÃO PEQUENO. VOCÊ É O UNIVERSO EM MOVIMENTO ESTÁTICO

“Você nasceu com potencial. Você nasceu com bondade e confiança. Você nasceu com ideais e sonhos. Você nasceu com grandeza. Você nasceu com asas. Você não está destinado a rastejar, então não rasteje. Você tem asas. Aprenda a usá-las e voe. ”

“Você senta aqui por dias dizendo: isso é algo estranho. Você é que é algo estranho. Você tem a energia do sol em você, mas você a mantém na base de sua espinha. Você é um tipo estranho de ouro que quer ficar derretido no forno, para não ter que se tornar moedas. ”

“Por que eu devo ficar no fundo de um poço se tenho uma corda na minha mão?”

“Torne-se o céu. Tome um machado e derrube a parede da prisão. Escape. ”

“Sabe o que você é? Você é um rascunho de uma carta divina. Você é um espelho que reflete um rosto nobre. Este universo não está fora de você. Olhe para dentro de si mesmo; tudo o que você quiser, você já é. ”

 

2.SUA FUNÇÃO É VIVER SUA VIDA DE FORMA QUE FAÇA SENTIDO PARA VOCÊ, NÃO PARA “ELES”

“Inicie um projeto enorme e insensato, como Noé … não faz absolutamente nenhuma diferença o que as pessoas pensam de você.”

 

3.NUNCA DESISTA DE SI MESMO

“Quando você passar por um período difícil, quando tudo parecer se opor a você … Quando você sentir que não pode sequer suportar mais de um minuto, não desista! Porque esse será o momento e lugar que o curso irá desviar! ”

“Tristeza prepara você para a alegria. Ela violentamente varre tudo para fora de sua casa, de modo que uma nova alegria pode encontrar espaço para entrar. Ela sacode as folhas amarelas do galho do seu coração, para que, folhas verdes podem crescer em seu lugar. Ela puxa as raízes podres, de modo que novas raízes escondidas embaixo tenham espaço para crescer. Qualquer que seja a tristeza, sacuda-a de seu coração, coisas muito melhores tomarão o seu lugar. ”
“Dance, quando você se sentir machucado. Dance, quando você tirar o curativo. Dance enquanto luta. Dance em seu sangue. Dance enquanto se liberta. ”

4. IGNORÂNCIA É PRISÃO

“A ignorância é a prisão de Deus. Conhecimento é o palácio de Deus.”

 

5.OS TESOUROS QUE PODEM SER ENCONTRADOS FORA DE VOCÊ NÃO PODEM SEQUER SER COMPARADOS COM OS TESOUROS QUE PODEM SER ENCONTRADOS DENTRO DE VOCÊ

“Você vagueia de sala em sala de caçando o colar de diamantes que já está em torno de seu pescoço!”
“Tudo no universo está dentro de você. Pergunte tudo a partir de si mesmo. ”
“Por que você se encanta com o mundo exterior, quando uma mina de ouro está dentro de você?”
“Você vai de aldeia em aldeia em seu cavalo perguntando a todos: ‘ Alguém viu meu cavalo’? ”

“Há um poço dentro de você. Não ande por aí com um balde vazio. ”

 

6.QUANDO VOCÊ DEIXA DE SER AQUILO QUE VOCÊ É, VOCÊ SE TORNA AQUILO QUE VOCÊ PODE SER

“Bata, e se abrirá a porta. Desapareça, você brilhará como o sol. Caia, que se levantará aos céus. Torne-se nada, e se transformará em tudo.”
“Esqueça segurança. Viva onde você tem medo de viver. Destrua sua reputação. Seja notório. ”
“Não fique satisfeito com histórias, coisas que têm acontecido com os outros. Desdobre seu próprio mito. ”
“Ateie fogo em sua vida. Procure aqueles que gostem de você em chamas. ”
“Seja a neve derretendo. Lavar-se a partir de si mesmo. ”

 

7.HÁ ALGO QUE VOCÊ SABE FAZER MELHOR DO QUE NINGUÉM

“Todo mundo foi sido feito para um trabalho em particular, e o desejo por esse trabalho foi colocado em cada coração.”

“Seja uma lâmpada, um bote salva-vidas, ou uma escada. Ajude a alma de alguém a se curar. Saia de sua casa como se fosse um pastor.”

 

8.VOCÊ NÃO TEM QUE VER TODA A ESCADA, APENAS DÊ O PRIMEIRO PASSO

“Quando você começa a caminhar, o caminho aparece.”

 

9.QUANDO SE COMPROMETER COM ALGUMA COISA, FAZÊ-LO COM TODO O SEU CORAÇÃO

“Falta de entusiasmo não te permite chegar a maestria. Você está em busca de Deus, mas vive parando em lugares mesquinhos. ”
“Quando você faz coisas a partir de sua alma, você sente um rio em movimento em você, uma alegria. Quando a ação vêm de outra seção, essa sensação desaparece. ”
“Onde quer que você estiver, e faça o que fizer, tenha amor.”

 

10. COISAS BOAS ACABAM PARA QUE COISAS MELHORES POSSAM SURGIR

“Não se aflija. Qualquer coisa que você perde volta de outra forma. ”

11. A FERIDA É O LUGAR POR ONDE A LUZ ENTRA EM VOCÊ

“O que te machuca, te abençoa. A escuridão é a sua vela. ”
“Onde há ruína, há esperança de um tesouro.”
“Não se afaste. Mantenha o seu olhar no lugar machucado. É por onde a luz entra em você. ”
“Luto pode ser o jardim da compaixão. Se você mantém o coração aberto para tudo, a dor pode se tornar o seu maior aliado na busca por amor e sabedoria “.

 

12. FAÇA O QUE AMA E FAÇA COM AMOR

“Deixe a beleza de amar ser aquilo que faz.”
“Deixe-se silenciosamente se levar pela atração mais forte do que você realmente ama.”
“Se ocupe, então, com aquilo que você realmente valoriza e deixe o ladrão levar o resto.”

 

13.PENSE MENOS. SINTA MAIS

“A razão é impotente comparada ao amor.”

“Coloque seus pensamentos para dormir, não deixe-nos lançar uma sombra sobre a Lua de seu coração. Pare de pensar. ”
“Somente a partir do coração você pode tocar o céu.”
“Há uma vela em seu coração, pronta para ser acesa. Há um vazio em sua alma, pronto para ser preenchido. Você sente isso, não? ”
“Livre-se de preocupações. Pense em quem criou a preocupação! Por que você ficar preso quando a porta é tão aberta? ”
14. O AMOR VALE TUDO

“Jogue tudo por amor, se você é um verdadeiro ser humano. Se não, deixe este lugar. ”

“Deixe o amante se envergonhar, ser louco, distraído. Alguém sóbrio vai se preocupar com eventos indo mal. Deixe o amante amar. ”

 

15. APRECIE TANTO O BOM QUANTO O RUIM EM SUA VIDA

“Seja grato por quem vem, porque cada um foi enviado como um guia do além.”
“Se você está irritado com cada esfregar, como você vai ser polido?”
“Quando alguém bate num tapete, os golpes não são contra o tapete, são contra a poeira.”

 

16. VOCÊ MUDA O SEU MUNDO, MUDANDO-SE A SI MESMO

“Ontem eu era inteligente, então eu queria mudar o mundo. Hoje eu sou sábio, então eu estou mudando a mim mesmo. ”

 

17. SOMOS FEITOS DE AMOR E FEITOS PARA AMAR

“Nascemos do amor; O amor é a nossa mãe. ”
“Sua tarefa não é procurar o amor, mas apenas procurar e encontrar todas as barreiras dentro de si mesmo que você construiu contra ele.”
“Através do amor de tudo o que é amargo será doce. Com o amor, tudo o que é de cobre vai ser de ouro. Através do amor toda mistura se tornará vinho. Através do Amor toda a dor vai virar remédio.”
“Eu não tenho nenhum companheiro a não ser o amor. Sem começo, fim, ou amanhecer. Minha alma chama de dentro de mim: ‘Você, ignorante do amor, se liberte. ”
“Aquilo que é falso incomoda o coração, mas a verdade traz alegre tranquilidade.”

 

18. SUA ALMA NÃO PERTENCE A ESTE MUNDO. SEU CORPO, SIM

“Todo o dia eu penso sobre isso, então a noite eu digo: de onde venho, e o que eu devo fazer? Eu não faço ideia. Minha alma é de outro lugar, eu tenho certeza disso, e tenho a intenção de acabar lá “.
“Quando eu morrer, vou subir com anjos, e quando eu morrer dos anjos, vou passar a ser algo que você não pode imaginar.”

 

19.AO NÍVEL DA ALMA, SOMOS TODOS UM

“Todas as religiões cantam uma música. As diferenças são apenas ilusão e vaidade. A luz do sol parece um pouco diferente em cada parede, mas ainda é uma só luz. ”
“O que eu vou dizer, Ó muçulmanos? Eu não me conheço, não sou cristão, nem judeu, nem Zoroastro, nem muçulmano.”
“Eu não sou nem do Oriente nem do Ocidente, não existem limites dentro do meu peito.”

 

20.SUA ALMA É MAIS PRECIOSA QUE QUALQUER OUTRA COISA

“Você pode saber o valor de toda e qualquer mercadoria. Mas se você não sabe o valor da sua alma, é tudo bobagem.”

 

21. ESCOLHA SEU PARCEIRO PARA A VIDA SABIAMENTE

“Escolha alguém que não esteja contando os pontos, que não esteja procurando ser mais rico, ou que tenha medo de perder, que não tenha o menor interesse mesmo em sua própria personalidade: ele está livre.”

 

22. O VERDADEIRO AMOR TRANSCENDE O PLANO MATERIAL E NÃO IMPORTA SE OS SEUS CORPOS ESTÃO SEPARADOS, AS SUAS ALMAS SEMPRE ESTARÃO CONECTADAS

“Despedidas são apenas para aqueles que amam com os olhos. Porque para quem ama com o coração e alma não existe tal coisa como a separação.

 

23. LEVANTE SUAS PALAVRAS, NÃO A SUA VOZ

“Levantem suas palavras, não sua voz. É a chuva que cresce flores, não o trovão “.

 

24. O SILENCIO É LINGUAGEM DO UNIVERSO

“O silêncio é a linguagem de Deus, todo o resto é má tradução.”

“As palavras são um pretexto. É o vínculo interior que atrai uma pessoa a outra, não suas palavras. ”

 

25.ESTAR VIVO NÃO É SUFICIENTE

“Você acha que você está vivo, porque você respira o ar? Que vergonha, estar vivo de uma forma tão limitada. Não fique sem amar, então você não se sentirá morto. Morra apaixonado e permanecerá vivo para sempre. ”
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*Fonte: osegredo

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‘Andar nos ensina a desobedecer’ diz filósofo francês

Especialista em psiquiatria, filosofia penal e editor dos últimos cursos de Michel Foucault no Collège de France, Frederic Gros escreveu um tratado sobre o caminhar que conecta as idéias de pensadores como Kant, Thoreau, Nietzsche e Rousseau com suas caminhadas. Uma reinvindicação ao prazer de passear.

Kant, Rousseau, Nietzsche e Rimbaud gostavam de caminhar. E eles o faziam de formas diferentes. As caminhadas do jovem Rimbaud, dispersas e desorganizadas, estavam cheias de raiva, enquanto Nietzsche procurava nelas o tom e a energia da marcha. Kant era metódico e sistemático: o fazia todo dia, à mesma hora, na mesma rota. Todos acabaram mudando seus escritórios de trabalho para o campo, onde as idéias fluíam mais livremente e em plena natureza. Analisando de perto, estas caminhadas guardam alguns paralelos com seus pensamentos, diz o filósofo francês (e grande caminhador ) Frederic Gros no livro ‘Andar. Uma filosofia’, um best-seller que por enquanto, só foi traduzido na França.

 

Quando você começou a caminhar?
Foi relativamente tarde, aos 20 anos. Foram alguns amigos que me convenceram. Quando eu era criança, gostava de ir sozinho para as montanhas, mas a verdade é que o passeio consistente como uma excursão, veio mais tarde. Minha primeira experiência importante foi no verão quando eu dei uma volta pela Córsega. Eu andei a estrada GR-20. Foi difícil, mas a aliança entre as altas montanhas e o mar fez com que fosse maravilhoso.

Quantos quilómetros fez?
Éramos em sete pessoas e durou 15 dias, mas não sei quantos quilômetros fizemos. A verdade é que, quando se caminha não se conta, porque a dificuldade das trilhas faz você percorrer às vezes, poucos quilômetros em um dia. Quando se caminha mais fácil, através de estradas planas, como os andarilhos, a média é de 40 quilômetros por dia.

E o que acha dos aplicativos que calculam a distância e até mesmo as calorias consumidas?
Não uso. O importante é ter uma visão geral e que você só consegue com um mapa desdobrável. Em relação as calorias, quando se caminha sete ou mais horas, a maior preocupação é chegar ao próximo abrigo.

Em seu ensaio você associa a caminhada com grandes filósofos, por quê?
Esses pensadores transformaram as montanhas e florestas em locais de trabalho. Para eles, o andar não era um esporte ou um passeio turístico. Realmente, eles saíam com seus cadernos e lápis para encontrar novas ideias. Solidão era uma das condições para a criação.

E a relação entre a caminhadas e as suas ideias?
Existem maneiras de caminhar que na verdade são estilos filosóficos. Por exemplo: Kant era sério e disciplinado, e é um filósofo que exige provas muito rigorosas com definições estritas. Ele tinha um jeito de andar que consistia em fazer todos os dias a mesma caminhada, na mesma hora. A escrita de Nietzsche, muito mais dispersa, com menos coesão, tem a ver com o fato de que ele procurava com o caminhar, sentimentos de energia e luz. Sua escrita é muito forte e rápida, não tão demonstrativa como a de Kant.

O que você quer dizer quando escreve sobre a perda da identidade que acontece quando se anda?
Bem, os efeitos da intensidade do passeio podem variar. Se você andar por quatro ou seis horas você está acompanhado de si mesmo, você pode dar atenção às suas memórias ou ter novas idéias. Mas depois de oito ou nove horas, o cansaço é tal que já não se sente o corpo. Toda a concentração é dirigida para o impulso de avançar. É quando ocorre a perda de identidade, devido à fadiga extrema. Caminhamos para nos reinventar, para nos dar outras identidades, outras possibilidades. Acima de tudo, ao nosso papel social. Na vida diária tudo está associado a função, uma profissão, um discurso, uma postura. Andar a pé é se livrar disso tudo. No final, a caminhada é não mais do que uma relação entre um corpo, uma paisagem e uma trilha.

Mas cada vez se anda menos, especialmente nas cidades, onde cada vez mais pessoas vivem.
No Terceiro Mundo, ao contrário, se anda muito. Mas é verdade que nas cidades isto está desaparecendo. Elas não são feitas para os pedestres.

Os jovens também não andam a pé.
As novas gerações consideram, e eles podem estar certos, que você tem que ser louco para ir aos lugares a pé, especialmente quando têm à disposição todos os tipos de invenções técnicas que fazem com que não tenham que andar. Para eles, a caminhada é um pouco monótona, em parte porque eles se acostumaram a mudar as telas de imagens que usam muito rapidamente e, quando andamos, as paisagens evoluem muito lentamente. Além disso, quando caminhamos, é sempre a mesma coisa.

E isso é visto como chato.
Para algumas pessoas, a caminhada é o exato oposto do significado de prazer porque nós tendemos a comparar prazer com excitação. E para que haja excitação é preciso uma novidade. Diante disso, descobrir o prazer de caminhar pode ser algo completamente exótico. Descobre-se uma dimensão que hoje está praticamente banida de nossa vida: a lentidão, a presença física. Durante a caminhada, todos os sentidos estão presentes: ouvimos os ruídos da floresta, se percebem as luzes.

E quem mais caminha são os aposentados?
Os sábios de antigamente tinham um ditado que pode nos supreender hoje, “tenha pressa para chegar à velhice.” Eles consideravam que a velhice seria o tempo de vida em que poderíamos nos livrar de tudo e nos envolver com o cuidar de nós mesmos, “le souci de soi” (a atenção para si, apud Michel Foucault ), cura sui em latim. A caminhada também não tem nada de violenta ou brutal. Há uma regularidade nela que tranquiliza, acalma. E isso está longe de qualquer busca de resultado. Assim, a primeira frase do livro é “andar não é um esporte.” Não faça marcas, não tente superar a si mesmo. Andar a pé é uma experiência autêntica, embora talvez não seja moderna.

Andar libertou você da vida acadêmica? Eu li que você está preparando um livro sobre a desobediência.
Thoreau escreveu o primeiro livro em pé e, curiosamente, também escreveu o primeiro livro sobre a desobediência civil. É verdade que a caminhada nos ensina a desobedecer. Porque andar nos obriga a ter uma distância que é também uma distância crítica. No mundo acadêmico, todo mundo é obrigado a provar o que diz. Neste livro eu queria explorar sonhos. A provocação que faço aos pensadores, é que você não é o que você pensa, mas como você anda. Eu não queria voltar para as doutrinas, mas sim explorar os estilos.

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*Fonte: saopaulosao / Leticia Blanco de Barcelona no El Mundo.

 

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Filósofo francês Deleuze fala sobre o verdadeiro charme das pessoas: seus traços de loucura

Gilles Deleuze (1925-1995), filósofo francês, vinculado aos denominados movimentos pós-estruturalistas, categorizações que o próprio Deleuze questionava pelo que trazem, ainda, da visão e luta pelo idêntico. Suas teorias acerca da diferença e da singularidade nos desafiam a pensar em temas como rizoma, ontologia da experiência, a teoria do que fazemos, a virtualidade e a atualidade.

No vídeo abaixo o filósofo faz considerações interessantíssimas sobre o verdadeiro charme das pessoas: seus traços de loucura!

*Fonte: contioutra

3 aspectos que indicam que você já deu um grande passo na Terra

Em nosso caminhar, aos poucos vamos compreendendo que tudo isso é na verdade uma grande escola.

Quando passamos a ter consciência deste fato, três aspectos passam a ser fundamentais para o grande passo, o Real Aprendizado.

O primeiro aspecto é que passamos a contemplar mais. A mesma contemplação e alegria que sentimos ao ver um lindo nascer do Sol passa a acontecer de forma mais frequente em nossa vida.

Passamos a desfrutar com muito mais alegria de momentos comuns, como um simples caminhar, ou um simples encontro, momentos que até então passavam despercebidos. Tudo passa a ter um novo frescor. O tédio deixa de existir, pois a percepção das minúcias de cada momento trazem sempre algo novo aos nossos olhos. O mundo fica mais colorido, o sabor dos alimentos mais aprazível e a vida mais divertida.

O segundo aspecto é a habilidade de criar um distanciamento entre o que você sente e pensa do que você realmente é. Isso nasce, tendo consciência de que é possível se observar e que também é possível se questionar. Quem é que pensa? Quem é que sente? Quem deseja? Quem sou eu além deste pensar e sentir? O que eu seria se não estivesse identificado com este estado atual? Quem sou eu?

Esse distanciamento nos permite compreender que existe alguém além do pensar, do sentir e do querer. Passamos a compreender que o Existir está além de tudo isso. Assim, o que até então acontecia de forma inconsciente e instintiva, passa agora a ser orquestrado por esse Ser.

Aumentando essa percepção, tomamos uma maior consciência dos nossos atos e percebemos padrões de comportamento que muitas vezes nos levou a caminhos que não queríamos estar. Padrões esses que foram formatados durante toda a nossa história, pedindo agora, à luz da compreensão, um redesenho completo para uma nova vida.

O terceiro aspecto é a capacidade de perceber e aceitar os acontecimentos externos com gratidão, independente do que são. Lembrando que, gostando ou não, todos são aprendizados.

Todos os eventos e principalmente todos os encontros passam a ser vistos como uma grande oportunidade. São oportunidades de perceber padrões da nossa inconsciência. Sim, visualizamos claramente que estávamos dormindo profundamente.

Quanto maior a nossa identificação com o problema, ou com a dor, maior a possibilidade de exercitarmos o distanciamento consciente, obtendo com isso um grande aprendizado e uma comprensão profunda.

Agora, diante dos próximos passos, quanto menor a identificação, maior a percepção da sincronicidade dos eventos apoiando o nosso despertar. Passamos a perceber a beleza da escola da vida e como ela, de forma harmônica nos leva para o centro do nosso Ser. O perfume que emerge é uma profunda gratidão à vida.

Posso garantir que ver a vida como a escola do Ser, levando nossa espécie em direção à consciência plena é muito mais confortante do que ver a vida como um grande caos desordenado e perigoso.

Se você já tem consciência desta escola e percebe em sua vida esses três aspectos, você já deu o maior passo: Essa é a Real Iniciação, o começo da grande jornada à verdadeira liberdade. Vôa!!!

Mahadeva

*Fonte: Wladimir Bianchi

Amor líquido – Zygmunt Bauman

Me chamou muito a atenção esse post do UpdatOrDie do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, um dos intelectuais ativos mais respeitados da atualidade.

*Confira o texto da matéria abaixo:

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Com 89 anos, Bauman já publicou mais de 50 livros, tem produções citadas em grandes universidades e, com ajuda de sua clareza, vendeu mais de 200 mil livros mundo afora – um marco significativo para um teórico. Em um de seus livros mais famosos, “Amor líquido”, ele trata sobre a fragilidade das relações humanas e como a sociedade está tendo dificuldades em se comunicar e manter laços afetivos.

Na atualidade, com tudo acontecendo na velocidade da luz, os relacionamentos não foram feitos para durar. Um exemplo disso é a rapidez com que você se conecta a alguém via Facebook; e se desconecta mais rápido ainda.

Bauman, no entanto, nos faz atentar a duas coisas:

– Há uma grande diferença entre fazer uma amizade olhando nos olhos e fazer uma amizade no Facebook.

– Há uma diferença maior ainda entre romper uma ligação pela internet e rompê-la frente a frente.

Jean Sartre dizia que precisávamos criar um “projeto de vida”. Mas isso parece fora de moda, pois as pessoas não tem a mínima ideia do que vai acontecer com elas no próximo ano. Quem dirá saber como será a trajetória de sua vida. E isso impacta nos relacionamentos, tornando-os frágeis como uma taça de cristal.

“Não há como ter um plano para uma vida num mundo em que a vida acontece de maneira episódica.”

As sociedades foram individualizadas e a democracia está ficando fora de moda. Passamos de sociedade de produção à sociedade de consumo à fragmentação da vida humana.

Para Bauman, durante a vida você precisa criar a sua própria identidade, pois não nasce com ela. E, se não bastasse passar a vida moldando uma identidade, você também precisa continuar redefinindo-a porque os estilos de vida mudam com o tempo.

Bauman acredita que entre as mudanças históricas mais significativas, duas parecem irreversíveis. A primeira delas é a globalização:

“Estamos todos conectados ao globo terrestre; se algo acontece na Malásia, pode afetar diretamente uma criança em São Paulo.”

Já a segunda aconteceu durante a revolução pós-moderna nos anos 1980, quando uma mulher falou ao vivo num talk show que nunca tinha tido um orgasmo, pois o seu marido sofria de ejaculação precoce.

Esse tipo de informação, apresentada ao estilo Big Brother, começou a revelar acontecimentos da intimidade. Relatos que até então só seriam ditos para o padre (caso fosse católico) ou para amigos muito íntimos.

Mas algo mudou e nós instalamos microfones nos confessionários.

E assim, vivemos todos em meio a solidão e uma multidão ao mesmo tempo.

O vídeo abaixo é uma aula sobre a individualização da sociedade, democracia, laços sociais, comunidade, internet, pós-modernidade, dentre outros tópicos refletidos por uma das grandes mentes da atualidade.

>> Não tema, você não vai perder tempo em assistir a esse vídeo, vai ser importante para sua vida, podes crer!

zygmunt-bauman_01               *Fonte: UpdateorDie