A obsessão por ser feliz o tempo todo faz as pessoas se sentirem péssimas

Segundo Tal Ben-Shahar, filósofo e psicólogo israelense da contemporaneidade, o estresse (que ele considera se tratar de uma pandemia global) tem sido há muito tratado de forma equivocada. Segundo ele, tem-se deixado “de dar importância ao descanso, à recuperação, e não basta o sono”.

Recentemente, em evento sobre educação e tecnologia realizado em Madri (o EnlighTed), Tal Ben-Shahar concedeu uma entrevista em que, dentre outras questões, se debruça sobre o tema do estresse, da ansiedade, da felicidade e da educação que tem sido proporcionada aos jovens hoje em dia.

P. O que é a felicidade?

R. Não é possível estar feliz sempre. As emoções negativas, como a raiva, o medo e a ansiedade, são necessárias para nós. Só os psicopatas estão a salvo disso. O problema é que, por falta de educação emocional, quando as sentimos as rejeitamos, e isso faz que se intensifiquem e que o pânico nos domine. Se bloquearmos uma emoção negativa, igualmente bloquearemos as positivas. É preciso sentir o medo e sermos conscientes de que vamos em frente mesmo com ele. Não é resignação, e sim aceitação ativa. Quando meu filho David nasceu, um mês depois comecei a sentir ciúmes dele. Minha esposa lhe dedicava mais atenção que a mim. Às vezes as emoções se polarizam, chegamos a extremos, e nem por isso somos melhores ou piores pessoas. Somos humanos.

P. A depressão ameaça 14% dos jovens europeus entre 15 e 24 anos, segundo o último relatório do Eurofound, e lideram o ranking países como a Suécia (com uma taxa de 41%), Estônia (27%) e Malta (22%). Na Espanha, onde a taxa de desemprego juvenil é mais elevada, está abaixo de 10%. O que está falhando?

R. Vou lhe dar outro exemplo. Nos Estados Unidos, a cada cinco anos se medem os níveis de saúde mental, que costumam variar 1% para cima ou para baixo. No último período, os resultados foram muito diferentes: entre adolescentes, os níveis de depressão cresceram até 30%. Um dos motivos é que estão diminuindo as interações cara a cara, substituídas pelo smartphone. As relações pessoais são um antídoto contra a depressão.

P. No século XIX, trabalhava-se até 18 horas por dia, e nenhuma lei impedia de fazê-lo 24 horas se fosse necessário. Hoje temos maior qualidade de vida. Qual é a raiz da insatisfação permanente?

R. A expectativa dos trabalhadores na vida era prover suficiente comida à sua família para sobreviver. Hoje pensamos em ganhar mais dinheiro, nas férias sonhadas… Hoje você pode fazer tudo; mesmo que tenha um emprego interessante e goste de seus colegas, não é suficiente. Como pode escolher e mudar, nunca está satisfeito.

P. Como a escola pode nos preparar para saber o que é a felicidade?

R. É preciso ensinar a cultivar relações sadias, a identificar propósitos e sentido no que fazemos. E o mais importante: a encontrar tempo para o descanso. As pesquisas demonstraram que esse é o grande problema, que não nos recuperamos do estresse. Não vale ler best-sellers de autoajuda, é preciso uma ação. No trabalho, fazer uma pausa de 30 minutos a cada duas horas, ou de 30 segundos se você trabalhar na Bolsa, mas desconectar e respirar. Tirar um dia de folga. Aprender que a felicidade não é um código binário, de um a zero, e sim um sobe e desce. É uma viagem imprevisível que termina quando você morre.

……………………………………………………………………
*Fonte: revistapazes

William James e o conceito de verdade

O conceito de verdade de James é, até hoje, um dos mais importantes tanto em âmbito filosófico como para outras disciplinas, e aplicável em quase todos as áreas.

O conceito de verdade não é fácil de definir, embora nós o utilizemos com frequência e muitas vezes lhe damos importância. Nós o usamos quase a qualquer hora do dia e sempre o mantemos à nossa disposição. No entanto, a verdade é difícil de delinear e, por mais que acreditemos que a entendamos perfeitamente, os exemplos que destacam como é difícil encontrar um espaço bem definido são claros. Neste artigo, veremos o conceito de verdade de acordo com William James (1842 – 1910), filósofo americano, professor de psicologia na Universidade de Harvard e fundador da psicologia funcional.

William James defendeu uma concepção humanista e prática da verdade, enraizada na experiência humana e indexada em termos de evidências disponíveis. O conceito de verdade de James é hoje um dos mais importantes em nas disciplinas filosóficas e outras, e aplicável em quase todas as áreas.

Verdade e conhecimento

James marcou duas maneiras de conhecer as coisas. Por um lado, o indivíduo pode entender algo instintivamente, com a experiência direta, assim como ele reconhece um objeto quando o encontra diante de seus olhos (James falou dele como um “abraço completo” do objeto pelo pensamento). . Ao mesmo tempo, pode-se aprender através de uma cadeia externa de intermediários físicos e mentais que conectam o pensamento às coisas.

Ele argumentou, portanto, que o aprendizado direto ocorre sem mediação, enquanto a verdade através do conhecimento intuitivo é uma questão de consciência direta no fluxo da experiência. Ao contrário, no conhecimento conceitual ou representativo, uma crença se torna verdadeira quando é “transportada através de um contexto que o mundo fornece”.

Verdade e verificabilidade

De acordo com William James, a verdade não é uma propriedade inerente e imutável em relação à ideia, mas assume valor de acordo com a sua verificabilidade. Nesse sentido, para James, a verificabilidade consiste em um agradável sentimento de harmonia e progresso na sucessão de idéias e fatos. Em outras palavras, uma série de idéias deve seguir uma a outra e adaptar-se harmoniosamente aos eventos da realidade que está sendo vivenciada.

As ideias reais desempenham uma função fundamental: são recursos úteis para que o indivíduo possa se orientar na realidade. Ter essas idéias é, portanto, um bem prático que pode satisfazer outras necessidades vitais. Dizendo isso, James associa o verdadeiro ao útil, introduzindo um benefício vital que merece ser preservado.
Teoria Pragmática da Verdade, de William James

A concepção da verdade por William James faz parte das teorias pragmáticas da verdade, teorias reunidas dentro da filosofia do pragmatismo. Teorias pragmáticas da verdade foram propostas pela primeira vez por Charles Sanders Peirce, William James e John Dewey. As características comuns de tais teorias são a confiança na máxima pragmática como um meio de esclarecer os significados de conceitos difíceis, como a verdade. Eles também enfatizam como a crença, a certeza, o conhecimento ou a verdade são o resultado da pesquisa.

A versão de William James da teoria pragmática pode ser resumida com sua seguinte definição: “verdade significa recorrer ao nosso modo de pensar, enquanto” certo “significa recorrer ao nosso modo de agir”. Com essas palavras, James sublinha como a verdade é uma qualidade cujo valor é confirmado por sua própria eficácia aplicada a conceitos de prática real (portanto, pragmáticos).

A teoria pragmática de James é uma síntese da teoria da correspondência da verdade e da teoria da coerência da verdade com uma dimensão extra. A verdade se torna verificável dependendo de quanto os pensamentos e afirmações coincidem com as coisas reais. É adicionado ou adaptado, assim como as peças de um quebra-cabeça podem coincidir e são verificadas pelos resultados observados da aplicação de uma ideia na prática real.

Conclusões

Nesse sentido, James argumentou que todos os processos verdadeiros devem, de alguma forma, levar à verificação direta de experiências sensíveis. Ele estendeu sua teoria pragmática muito além do potencial da verificabilidade científica, mesmo no âmbito místico. Segundo William James, em princípios pragmáticos, se a hipótese de Deus funciona satisfatoriamente no sentido mais amplo da palavra, então é “verdadeira”.

“A verdade, como qualquer dicionário irá afirmar, é uma propriedade de algumas de nossas idéias. Implica um “acordo” com a realidade, já que a falsidade significa desacordo com ela. Tanto pragmatistas quanto intelectuais aceitam essa definição como uma questão de rotina. Apenas duas questões entram em conflito: o que significa realmente o termo “acordo” e o que isso significa em relação ao conceito de “realidade”, quando a realidade é concebida como algo com o qual nossas idéias estão de acordo “.

-William James-

…………………………………………………………………….
*Fonte: pensarcontemporaneo

Jorge Luis Borges: “O futebol é popular porque a estupidez é popular”

À primeira vista, o animus do escritor argentino em relação ao “jogo bonito” parece refletir a atitude do odiador típico de hoje em dia, cujo citações quase se tornaram um refrão: futebol é entediante. Existem muitas pontuações de empate. Eu não suporto as falsas lesões.

E é verdade: Borges chamou o futebol de “esteticamente feio”. Ele disse: “O futebol é um dos maiores crimes da Inglaterra”. E aparentemente ele até programou uma de suas palestras para o mesmo dia e horário em que aconteceria o primeiro jogo da Argentina na Copa de 1978.

Mas a aversão de Borges pelo esporte resultou de algo muito mais preocupante do que a estética. Seu problema era com a cultura dos fãs de futebol, que ele ligava ao tipo de apoio popular cego que sustentava os líderes dos movimentos políticos mais horripilantes do século 20. Em sua vida, ele viu elementos do fascismo, peronismo e até mesmo anti-semitismo emergirem na esfera política argentina, então sua intensa suspeita de movimentos políticos populares e cultura de massa – cujo apogeu, na Argentina, é o futebol – faz muito sentido.

(“Existe uma idéia de supremacia, de poder [no futebol] que me parece horrível”, escreveu ele certa vez.) Borges se opunha ao dogmatismo em qualquer forma, por isso ele naturalmente desconfiava da devoção incondicional de seus compatriotas a qualquer doutrina ou religião – até mesmo para sua querida seleção “albiceleste”.

O futebol está inextricavelmente ligado ao nacionalismo, outra das objeções de Borges ao esporte. “O nacionalismo só permite afirmações, e toda doutrina que descarta a dúvida, a negação, é uma forma de fanatismo e estupidez”, disse ele. Equipes nacionais geram fervor nacionalista, criando a possibilidade de um governo inescrupuloso usar um astro como porta-voz para se legitimar. Na verdade, foi exatamente isso que aconteceu com um dos maiores jogadores de todos os tempos: Pelé. “Mesmo com seu governo arrebatando dissidentes políticos, também produziu um cartaz gigante de Pelé esforçando-se para cabecear a bola através do gol, acompanhado pelo slogan” Ninguém segura este país”, escreve Dave Zirin em seu livro, O Brasil Dança Com o Diabo.

Governos, como a ditadura militar brasileira, podem aproveitar o vínculo que os torcedores compartilham com suas seleções para angariar apoio popular, e é isso que Borges temia – e se ressentia – sobre o esporte.

Seu conto, “Esse Est Percipi” , também pode explicar seu ódio ao futebol. Mais ou menos na metade da história, é revelado que o futebol na Argentina deixou de ser um esporte e entrou no reino do espetáculo. Neste universo fictício, o simulacro reina supremo: a representação do esporte substituiu o esporte atual. “Esses [esportes] não existem fora dos estúdios de gravação e dos jornais”, diz um presidente do clube de futebol. O futebol inspira um fanatismo tão profundo que os torcedores acompanharão jogos inexistentes na TV e no rádio sem questionar nada:

“Os estádios há muito que foram condenados e estão caindo aos pedaços. Hoje em dia tudo é encenado na televisão e no rádio. A falsa emoção do locutor esportivo nunca te fez suspeitar de que tudo é uma farsa? A última vez que uma partida de futebol foi disputada em Buenos Aires foi em 24 de junho de 1937. A partir desse momento exato, futebol, juntamente com toda a gama de esportes, pertence ao
gênero do drama, realizado por um único homem em uma cabine ou por atores uniformizados diante das câmeras de TV”.

Esta história remonta ao desconforto de Borges com movimentos de massa: ‘Para ser capaz de perceber que’ efetivamente acusa a mídia de cumplicidade na criação de uma cultura de massa que reverencia futebol, e, como resultado, deixa-se aberta à demagogia e manipulação.

De acordo com Borges, os seres humanos sentem a necessidade de pertencer a um plano universal grande, algo maior do que nós mesmos. Religião faz isso para algumas pessoas, futebol para os outros. Personagens do universo borgesiano muitas vezes lidam com esse desejo, voltando-se para ideólogos ou movimentos para efeito desastroso: O narrador da história ” Um Requiem Alemão” torna-se um nazista, enquanto que em “A Loteria da Babilônia” e “O Congresso”, organizações aparentemente inócuas transformam-se rapidamente em vastas burocracias totalitárias que distribuem punições corporais ou queimam livros.

Queremos ser parte de algo maior, tanto que nos cegamos para as falhas que se desenvolvem nesses grandes planos – ou as falhas que eram inerentes a eles o tempo todo. E, no entanto, como o narrador de “O Congresso”” nos lembra, o fascínio dessas grandes narrativas muitas vezes prova demais:”o que realmente importa é ter sentido que o nosso plano, que mais de uma vez fizemos piada, realmente e secretamente existiu e foi o mundo e nós mesmos. ”

Essa frase poderia descrever com precisão como milhões de pessoas na Terra se
sentem em relação ao futebol.

*Artigo escrito por Shaj Mathew originalmente publicado em TheNewRepublic

 

……………………………………………………………….
*Fonte: pensarcontemporaneo

Pensar é difícil, é por isso que as pessoas preferem julgar

“Pensar é difícil, é por isso que as pessoas preferem julgar “, escreveu Carl Gustav Jung. Na época da opinião, onde tudo é julgado e criticado, muitas vezes sem uma base sólida, sem uma análise prévia e sem um profundo conhecimento da situação, as palavras de Jung assumem maior destaque, tornando-se quase proféticas.

Julgar nos empobrece

Identificar o ato de pensar com o ato de julgar pode nos levar a viver em um mundo distópico mais típico dos cenários imaginados por George Orwell do que da realidade. Quando os julgamentos suplantam o pensamento, qualquer indício se torna evidência, a interpretação subjetiva torna-se uma explicação objetiva e a mera conjectura adquire uma categoria de evidência.

À medida que nos afastamos da realidade e entramos na subjetividade, corremos o risco de confundir nossas opiniões com os fatos, tornando-nos juízes incontestáveis – e bastante parciais – de outros. Essa atitude empobrece o que julgamos e empobrecemos como pessoas.

Quando estamos muito focados em nós mesmos, quando deixamos de acalmar o ego, e ele adquire proporções excessivas, ou simplesmente temos muita pressa para nos impedir de pensar, preferimos julgar. Adicionamos rótulos duplos para catalogar coisas, eventos e pessoas em um espectro limitado de “bom” ou “ruim”, tomando como medida de comparação nossos desejos e expectativas.

Agir como juízes não apenas nos afasta da realidade, mas também nos impede de conhecê-la – e desfrutá-la – em sua riqueza e complexidade, transformando-nos em pessoas hostis – e não muito empáticos. Toda vez que julgamos algo, simplificamos a expressão mínima e fechamos uma porta para o conhecimento. Nós nos tornamos mero animalis iudicantis.

Pensar é um ato enriquecedor

Na sociedade líquida em que vivemos, é muito mais fácil julgar, criticar rapidamente e passar para o próximo julgamento. O que não ressoa em nosso sistema de crenças nós julgamos como inútil ou estúpido e passamos para o seguinte. Na era da gratificação instantânea, o pensamento exige um esforço que muitos não estão dispostos – ou não querem – a assumir.

O problema é que os juízos são tarefas interpretativas que damos a eventos, coisas ou pessoas. Cada julgamento é um rótulo que usamos para atribuir um valor – profundamente tendencioso – já que é um ato subjetivo baseado em nossos preconceitos, crenças e paradigmas. Julgamos com base em nossas experiências pessoais, o que significa que muitas críticas são um ato mais emocional que racional, a expressão de um desejo ou uma decepção.

Pensar, pelo contrário, exija reflexão e análise. Mais uma dose de empatia com o que foi pensado. É necessário separar o emocional dos fatos, lançar luz sobre a subjetividade adotando uma distância psicológica essencial.

Para Platão, o homem sábio é aquele que é capaz de observar tanto o fenômeno quanto sua essência. Uma pessoa sábia é aquela que não apenas analisa as circunstâncias contingentes, que geralmente são mutáveis, mas é capaz de rasgar o véu da superficialidade para alcançar o mais universal e essencial.

Portanto, o ato de pensar tem um enorme potencial enriquecedor. Através do pensamento, tentamos chegar à essência dos fenômenos e das coisas. Vamos além do percebido, superamos essa primeira impressão para mergulhar nas causas, efeitos e relacionamentos mais profundos. Isso exige uma árdua atividade intelectual através da qual crescemos como pessoas e expandimos nossa visão de mundo.

Pensar significa parar. Fazer silêncio. Prestar atenção. Controle o impulso de julgar precipitadamente. Pesar as possibilidades. Aprofundar nas coisas, com racionalidade e da empatia.

O segredo está em “ser curioso, não crítico”, como disse Walt Whitman.

…………………………………………………………….
*Fonte: pensarcontemporaneo

Por que você deve se esforçar por uma vida significativa, não feliz

“Há apenas um erro inato, e essa é a noção de que existimos para sermos felizes … Enquanto persistirmos nesse erro inato, e até mesmo nos confirmarmos através de dogmas otimistas, o mundo parece estar cheio contradições ”. — Arthur Schopenhauer

O mundo moderno é obcecado com a noção de felicidade. Isso é visto como a medida e o objetivo da vida boa e, como Sigmund Freud observou, muito do que fazemos é motivado pelo desejo, que tudo consome, de ser feliz.

“… O que o comportamento dos próprios homens revela como o propósito e objeto de suas vidas, o que eles exigem da vida e desejam alcançar nela. A resposta para isso dificilmente pode ficar em dúvida: eles buscam a felicidade, querem se tornar felizes e permanecer assim ”. — Sigmund Freud

Mas essa busca sem fim pela felicidade é realmente uma maneira saudável de viver? Pois se estamos infelizes, o que para a maioria das pessoas é assim que é a maior parte do tempo, provavelmente nos perguntaremos o que há de errado conosco. Nós não somos recortados para este mundo? Os produtos químicos em nosso cérebro precisam de um ajuste farmacêutico? Ou melhor, Schopenhauer estava certo ao sugerir que visar a felicidade é um esforço fútil? Poderíamos considerar nossas vidas mais gratificantes se, em vez de lutarmos pela felicidade, dedicássemos nossas energias ao cultivo de uma vida significativa?

A felicidade nem sempre foi considerada uma meta pela qual vale a pena lutar. A raiz da palavra felicidade, na maioria das línguas indo-europeias, é sorte ou destino, implicando que a felicidade era originalmente vista como algo a ser dado e levado pelos deuses, ou pelo acaso. Não foi pensado para ser atingível apenas pelo esforço humano.

No Ocidente, foi Sócrates quem popularizou a ideia de que a felicidade é o maior bem e, portanto, deveria ser o objetivo final da vida.

A suposição de Sócrates de que devemos almejar a felicidade foi amplamente aceita pelos filósofos da Grécia Antiga que vieram depois dele. Os filósofos iluministas dos séculos XVII e XVIII, cujas ideias lançaram as bases para a civilização moderna, também adotaram a visão de Sócrates da felicidade como o fim último. Mas enquanto os gregos antigos tendiam a fundar a felicidade no cultivo da virtude e da excelência pessoal, alguns dos mais proeminentes pensadores do Iluminismo amarravam a busca da felicidade à busca do prazer.

“A felicidade, então, é em toda a sua extensão, o máximo prazer de que somos capazes e a miséria, a maior dor.” – John Locke

A maximização do prazer e a minimização da dor é a receita que muitos em nossos dias usam na tentativa de alcançar a felicidade. Mas estruturar nossa vida dessa maneira nos coloca em uma esteira hedônica. Passamos nossas vidas freneticamente correndo em direção aos bens, objetivos, eventos e pessoas que esperamos que imbuirão nossa vida com o prazer necessário para uma existência feliz. No entanto, ao atingir os objetos do nosso desejo, nos adaptamos rapidamente às novas condições e retornamos ao nosso estado padrão de ser. Ou como o filósofo Arthur Schopenhauer observou:

“… [Esforçar-se pela felicidade] é como uma sede insaciável: podemos alcançar breves satisfações, alguma liberação momentânea, mas, na natureza das coisas, elas nunca podem ser mais do que temporárias, e então estamos de novo no suporte. Portanto, a infelicidade, ou pelo menos a insatisfação, é o nosso estado normal de coisas. ” – Arthur Schopenhauer

Em nossos momentos mais introspectivos, muitos de nós reconhecem a busca constante da felicidade como um apego às sombras. Mas, qual é a alternativa? Se abandonarmos a busca da felicidade, o que deve tomar o seu lugar? No restante deste artigo, argumentaremos que devemos buscar uma vida significativa, pois, como Carl Jung observou:

“… a falta de significado na vida é uma doença da alma, cuja extensão e importância total ainda não começou a compreender.” – Carl Jung

Uma das principais razões em favor do cultivo do significado como nosso objetivo primário é devido à inevitabilidade do sofrimento. Embora a maior parte do nosso sofrimento seja menor e administrável, tendemos a ignorar o fato de estarmos sempre em risco de cair em períodos de grande adversidade – tempos em que somos forçados a lidar com o que Shakespeare chamou de “as eslingas e flechas da ultrajante fortuna”. (Shakespeare) Nestes momentos de crise, é apenas o significado – não a felicidade – que pode nos fornecer a resiliência necessária para perdurar. “Aquele que tem um porquê pode suportar quase qualquer coisa”, escreveu Nietzsche. Ou, como Carl Jung colocou “… o significado torna muitas coisas suportáveis – talvez tudo.” (Carl Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões) O significado, em outras palavras, é a matéria-prima a partir da qual podemos construir nossa “cidadela interna”. Ou fortaleza psicológica, a partir da qual podemos navegar pelas correntes caóticas da vida.

Mas como cultivamos significado em nossa vida? Embora não exista receita garantida, algumas abordagens parecem ser muito mais sustentáveis ​​do que outras. Uma abordagem que não se enquadra na categoria de tenacidade é a tentativa de encontrar significado por meio da obtenção de bens externos, como dinheiro, fama, status ou relacionamentos. Esses bens podem aumentar a qualidade de nossa vida, mas é improvável que eles sejam imbuídos de significado. Muitas pessoas desenvolvem uma carreira de sucesso, criam uma família, acumulam riqueza e status social, apenas para descobrir, muitas vezes na meia-idade, que, apesar de seu sucesso externo, sua existência interior permanece desolada e desprovida de significado. Ou como Jung escreveu:

“Uma carreira, produção de filhos, são todos maya [ilusão] em comparação com aquela coisa que faz com que sua vida seja significativa” – Carl Jung

Uma abordagem muito mais prática para a busca do significado é focar no cultivo de nosso caráter. “O que sua consciência diz? “Você deve se tornar a pessoa que você é” (Nietzsche, A Gaia Ciência). Ou como diz o pré-socrático Heráclito: “Caráter é destino” . Se nos concentrarmos em nos tornarmos um indivíduo mais integrado e completo, aumentamos muito nossa chance de encontrar significado por duas razões principais. Em primeiro lugar, esta abordagem é um antídoto para a estagnação e passividade que garante uma existência sem sentido. E em segundo lugar, esforçando-se para cultivar nossas forças, provavelmente descobriremos o “porquê” ou o propósito de nossa existência, que é a chave para uma vida subjetivamente significativa. Para ajudar nesse caminho, precisamos discutir o papel que os objetivos desempenham nesse processo.

A importância de estabelecer metas para o desenvolvimento pessoal é bem conhecida. Pois assim como a pedra só pode ser moldada em uma escultura através da força de um martelo e cinzel, também nosso potencial, ou o desenvolvimento de nosso caráter, só pode ser realizado por meio de disciplina e esforço. Simplesmente flutuar com a corrente da vida promove um corpo fraco e uma mente macia. Portanto, devemos aprender a nadar com o fluxo da vida e esforçar-se e lutar por nossos objetivos dignos.

“Tolos são aqueles que… não têm objetivo para o qual possam direcionar todo impulso e, na verdade, todo pensamento.”
Marco Aurélio

Enquanto a maioria está ciente da importância do estabelecimento de metas, muitos cometem o erro de se sacrificarem por seus objetivos. Eles acreditam que é a consecução de objetivos que constrói caráter e cultiva significado, quando na verdade é a luta contínua para eles que mais importa. Este tema da importância do esforço incessante é fundamental no conto clássico de Fausto de Goethe. Para Goethe, Fausto só alcança a auto-realização através do seu compromisso com a luta perpétua e o esforço.

“Quem quer que se empenhe em constante esforço, Ele pode nos redimir.”
Goethe, Fausto

Ao se esforçar continuamente para alcançar objetivos, é crucial ter em mente que nossos objetivos só valem a pena se contribuírem para o crescimento de nosso caráter. Às vezes, nossos objetivos não nos levam adiante, pois podem ter sido apropriados apenas para um estágio de nosso desenvolvimento que superamos. Com a idade de 20 anos, o escritor Hunter Thompson elaborou este conselho em uma carta para um amigo:

“Quando você era jovem, digamos que você queria ser bombeiro. Eu me sinto razoavelmente seguro em dizer que você não quer mais ser um bombeiro. Por quê? Porque sua perspectiva mudou. Não é o bombeiro que mudou, mas você. Todo homem é a soma total de suas reações à experiência. À medida que suas experiências diferem e se multiplicam, você se torna um homem diferente e, portanto, sua perspectiva muda … Portanto, não nos esforçamos para ser bombeiros, não nos esforçamos para ser banqueiros, nem policiais, nem médicos. Nós nos esforçamos para sermos nós mesmos … O objetivo é absolutamente secundário: é o funcionamento em direção ao objetivo que é importante ”. — Hunter Thompson

Ao seguir este conselho – esforçando-se implacavelmente pelos objetivos, modificando-os continuamente para facilitar o desenvolvimento contínuo de nosso caráter – nos colocaremos em um caminho de vida potencialmente significativo. Escolher esse caminho requer que abandonemos nossa obsessão por felicidade e prazer, mas, ironicamente, ao sairmos da esteira hedônica e nos expormos às lutas e conflitos necessários para cultivar o caráter, provavelmente alcançaremos o estado transitório de felicidade com muito mais frequência do que aqueles que apontam diretamente para isto. Pois, como Hunter Thompson escreveu:

“… Quem é o homem mais feliz, aquele que enfrentou a tempestade da vida e viveu ou aquele que permaneceu seguro na praia e simplesmente existiu?”
Hunter Thompson

 

 

………………………………………………………..
*Fonte: pensarcontemporaneo

A psicologia da resiliência: prosperando na adversidade

“A excelência murcha sem um adversário”.


Seneca, cartas de um estóico

A vida nos traz uma abundância de obstáculos e adversidades e assim, alguém poderia pensar, a mera passagem do tempo nos ensinaria a lidar de forma lucrativa com os desafios que cruzam nosso caminho. Mas o tempo apenas ensina os que estão dispostos e, portanto, muitos de nós estão extremamente despreparados para a vida. Um dos principais culpados por essa fraqueza nos dias atuais é a proliferação de uma mentalidade de vítima. Ser vítima é agora visto como um distintivo de honra. Mas se quisermos florescer e nos tornarmos o que Nietzsche chamou de “o verdadeiro timoneiro da nossa existência” ( Nietzsche, Meditações Inoportunas ), precisamos nos separar desse espírito impotente da época, assumir a responsabilidade por nossa vida e aprender a encarar ao que nos é apresentado.

Para conseguir esse feito, a resiliência psicológica é crucial. Precisamos aprender a emergir dos desafios da vida não mais fracos e mais apáticos, como a vítima perpétua, mas mais fortes e mais sábios. Ou como o antigo filósofo estóico Epicteto explicou:

“Toda dificuldade na vida nos apresenta uma oportunidade de nos voltarmos e de invocar nossos próprios recursos interiores submersos. Os ensaios que suportamos podem e devem nos apresentar aos nossos pontos fortes … Aprofundar. Você possui pontos fortes que você pode não perceber que tem. Encontre o caminho certo. Use-o.”

Epicteto, a arte de viver

Ao cultivar a resiliência, é necessário descartar a crença de que é melhor evitar obstáculos devido ao estresse que eles evocam. Pois, como os psicólogos estão descobrindo, nem todas as formas de estresse são iguais; alguns, de fato, são componentes cruciais de uma mente e um corpo florescentes.

“A ciência mais recente revela que o estresse pode torná-lo mais inteligente, mais forte e mais bem-sucedido. Isso ajuda você a aprender e crescer ”.

Kelly McGonigal, o lado positivo do estresse

Se o estresse em nossa vida é prejudicial ou benéfico depende de como reagimos a ele. Se acreditamos que as barreiras diante de nós são muito pesadas e uma ameaça ao nosso bem-estar, o estresse que elas provocam é prejudicial à nossa saúde. Mas se adotarmos uma “resposta de desafio” (Kelly McGonigal) – percebendo-as como problemas a serem resolvidos em busca do sucesso e crescimento – a tensão que experimentamos age como um companheiro construtivo; isso nos leva à ação.

Muitas pessoas sonham em viver uma vida livre de estresse; mas na realidade tal vida seria insuportavelmente chata. Para florescer, não devemos evitar dificuldades. Em vez disso, devemos adotar uma atitude mais competitiva em relação à nossa existência – uma vida de agon, como os gregos antigos a chamavam – e em quaisquer domínios aos quais nos dedicamos, nosso objetivo deve ser a excelência. Viver dessa maneira exigirá uma abundância de desafios e, portanto, o tipo de estresse significativo e luta que precisamos para sentir a vida vale a pena ser vivido.

Ou como o escritor e médico Boris Cyrulnik escreveu:

“A pior forma de estresse é a ausência de estresse, porque a sensação de que não há vida antes da morte dá origem a um sentimento de vazio em desespero diante do vazio.”

Boris Cyrulnik, Resiliência

Mas desenvolver a resiliência não é apenas uma questão de buscar estresse e lutar a serviço de fins significativos. Devemos também aprender a lidar com as formas mais severas de adversidade que ninguém em sã consciência convida voluntariamente à vida. Embora gostemos de acreditar que reviravoltas cruéis do destino só acontecem com os outros, quanto mais tempo vivermos, maior é a probabilidade de que tal momento nos sobreviva. Seria ideal se Nietzsche estivesse dizendo: “Aquilo que não mata você o torna mais forte” ( Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos ) era verdadeiro para todos. Mas a adversidade severa tende a destruir mais pessoas do que eleva. Então, como podemos ser um dos poucos que não são maltratados e quebrados pelos períodos mais angustiantes da vida?

Uma técnica que podemos usar para obter esse tipo de resiliência é o que os estóicos chamam de “premeditação dos males”. Em vez de viver com um otimismo ingênuo de que tudo vai dar certo no final, devemos meditar periodicamente para perder as coisas que mais apreciamos. Eles pensaram que, se criarmos o hábito de visualizar o fracasso da carreira ou do relacionamento, a doença, a traição ou até a morte, nos tornaremos semelhantes ao rei que fortalece seu reino da invasão. Com o tempo, desenvolveremos uma armadura psicológica para nos ajudar a suportar as dificuldades da vida. “Ele rouba os males presentes de seu poder que perceberam sua vinda de antemão.” ( Sêneca, Cartas de um Estóico ) escreveu Sêneca. Ou como ele explicou ainda:

“Todo mundo se aproxima de um perigo com mais coragem se tiver preparado antecipadamente como enfrentá-lo. Qualquer um pode suportar melhor as dificuldades se já tiver praticado como lidar com elas. Pessoas que estão despreparadas podem ficar desequilibradas até mesmo pelas menores coisas. ”

Sêneca, cartas morais para Lucílio

Muitos fogem desta prática acreditando que meditar no lado negro da vida produzirá um pessimismo sombrio. Afinal, não é melhor permanecer no lado mais ensolarado da vida? Embora seja comum em nossos dias assumir isso, nem todas as culturas aderiram a essa visão. Na verdade, duas das eras de ouro da história – Atenas Antiga e Inglaterra Elisabetana – foram infundidas com um “senso de vida trágico”. Como observou a classicista Edith Hamilton, do século XX, eles tinham uma percepção lúcida de que a vida humana está “ligada ao mal e que a injustiça [é] da natureza das coisas”. ( Edith Hamilton, The Greek WayNo entanto, apesar de sua propensão a meditar sobre os males da existência, essas idades também foram permeadas com grande produtividade e desejo pela vida. Parece que ao nos tornarmos conscientes e mais receptivos às possibilidades mais sombrias da vida, não apenas cultivamos a resiliência, mas também nos tornamos mais plenamente vivos. Pois, como Edith Hamilton explicou:

“O que esses dois períodos tinham em comum, dois mil anos e mais separados no tempo… pode nos dar alguma pista da natureza da tragédia, pois longe de serem períodos de trevas e derrotas cada um era um tempo em que a vida era vista exaltada de possibilidades ilimitadas e insondáveis. O mundo era um lugar de admiração; a humanidade era bela; a vida era vivida na crista da onda. Mais do que tudo, a alegria pungente do heroísmo havia despertado o coração dos homens. Não é coisa para tragédia, você diria? Mas na crista da onda deve-se sentir tragicamente ou alegremente; Ninguém pode se sentir indiferente ”.

Edith Hamilton, o caminho grego

Desenvolver a resiliência não é claramente para os fracos de coração – mas também não é muito para a vida. Assim, para nos dar a melhor chance de não apenas duradouros, mas prósperos, devemos resistir às tentações da vitimização e tentar nos comportar mais como um filósofo, no sentido antigo.

“Ser um filósofo não é meramente ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola … é resolver alguns dos problemas da vida, não só teoricamente, mas na prática”.

Henry David Thoreau, Walden

Pois talvez o problema mais crítico da vida seja como permanecer forte e afirmativo em meio aos muitos fardos e golpes da vida. E para resolver esse problema, não apenas a sabedoria, mas o cultivo da resiliência, é necessário. Ou como o antigo Epicteto Estóico aconselhou:

“Tome exemplo dos mestres de wrestling. O menino caiu? Levante-se, novamente, eles dizem; lute novamente até que você tenha se fortalecido. Esse é o tipo de atitude que você deveria ter… Pois tanto a ruína quanto a salvação têm sua fonte dentro de você ”.

Epicteto, Discursos

 

………………………………………………………….
*Fonte: pensarcontemporaneo

A direção de sua vida é marcada por seus valores, não por seus objetivos

Que impressão você gostaria de deixar quando tudo acabar? Às vezes bate
aquela sensação de que não temos o controle. Parece que somos um grande
ônibus seguindo as indicações dos passageiros que nos acompanham na
viagem. Acatamos decisões que as pessoas nos recomendam e acabamos por
tomar outra direção, bem diferente da que tomaríamos se seguíssemos a
intuição dos nossos valores.

A insegurança é uma bagagem que pesa demais, pesa no corpo e aprisiona o
espírito, arranca a liberdade, o gosto por ser livre. O inseguro quase nunca está
certo de suas decisões e se torna dependente de que outros as tomem por ele.
Nisso a vida vai passando, o tempo correndo veloz sem esperar por ninguém.
Porque o tempo não espera, a vida não estaciona a esperar que façamos
nossas escolhas com calma.

E é por saber que tudo está em movimento, que a vida corre a galope, que
optamos rápido pelo caminho que nos parece mais ideal aos nossos propósitos.
E nisso, independente do resultado, de alguma forma já estaremos perdendo
alguma coisa, porque toda escolha implica numa perda, mas nos daremos por
satisfeito se os ganhos superarem a perda. E isso é bom quando a decisão
partiu da gente, quando não nos orientamos apenas pelas vozes do senso
comum, quando não apenas seguimos as placas indicadoras deixadas por
outros.

Você é quem melhor sabe o que é melhor para você, mas a pressão que vem de
fora quer te fazer acreditar que não, que o caminho padrão traçado pela
sociedade é que é por onde você deve trilhar. Sair desse caminho, tentar uma
trilha alternativa, tem um preço que a maioria não está disposta a pagar. Você
está disposto a pagar? talvez esteja, talvez não; pode ser que se atraia mesmo
pelo convencional, por seguir no estouro da boiada ainda que tenha que
sacrificar seus valores.

Valores são direções de vida

Para começar, um valor não é um resultado em si mesmo, não é um objetivo; um
valor não se esgota, está sempre ali. Os valores definem as palavras que você
vai usar para moldar o argumento de sua vida: aceitação, persistência, ordem,
conformidade, imparcialidade ou intimidade. Uma longa lista composta de
direções que permite decidir quais metas são as que realmente importam.

Portanto, uma vida valiosa é o resultado de agir a serviço do que você realmente
valoriza. O problema é que muitas vezes não sabemos identificar quais são
esses valores e como eles se relacionam com nossas áreas vitais. São nove as
principais áreas que compõem a nossa vida: relações familiares, relações
íntimas ou de casal, relações sociais, trabalho, educação, lazer, espiritualidade,
cidadania e saúde.

“A maturidade é alcançada quando uma pessoa adia prazeres imediatos por
valores de longo prazo”

– Joshua Loth Liebman

Para cada área damos um nível de importância e em cada um agimos de forma
diferente para resolver os obstáculos que surgem. No entanto, o caso é que
muitas vezes as soluções que implementamos não coincidem com nossos
princípios. É por isso que fazemos coisas que nos arrependemos ou
bloqueamos ao tomar decisões. Tudo isso nos leva a nos sentirmos
sobrecarregados, exaustos ou perdidos.

Lamentos na hora errada

Bronnie Ware, uma enfermeira canadense, coletou ao longo de vários anos os
últimos arrependimentos de seus pacientes na unidade de cuidados paliativos.
Um artigo publicado mais tarde pela Harvard Business Review corroborou isso,
há cinco lamentos comuns que se repetem em pessoas que vão morrer:

• Eu gostaria de ter vivido uma vida fiel a mim mesmo e não o que os outros
queriam.

• Eu gostaria de não ter trabalhado tanto e ter tido mais tempo com meu parceiro
e minha família.

• Eu gostaria de ter tido a coragem de expressar meus sentimentos.

• Eu deveria ter contatado mais com meus amigos.

• Eu gostaria de ter me feito mais feliz.

As pessoas se arrependem de perder as rédeas de suas vidas, de terem
perdido tempo com seus entes queridos, não tendo se expressado para evitar
conflitos com os outros ou por medo. Somos pegos em um conformismo
medíocre. Nós enjaulamos nossa rotina e deixamos de lado o tempo e o esforço
que merecem o que realmente importa para nós.

A felicidade é uma escolha, o medo da mudança nos prende a hábitos que não
produzem satisfação. Passamos mais tempo fazendo os outros acreditarem que
somos mais felizes do que realmente somos.
Você escolhe aonde ir

Pense que a chave está em antecipar essa frustração, encontrar nossos valores
e estabelecer objetivos que deem sentido às viagens que escolhermos. Os
profissionais da psicologia ajudam as pessoas a passar da fala para a ação. O
primeiro passo é identificar seus valores e sua hierarquia com base no momento
vital em que você se encontra.

A partir daí, metas de curto e longo prazo são estabelecidas. Ou seja, os valores
formarão os pilares sobre os quais estaremos estabelecendo objetivos ao longo
do tempo. Objetivos que realmente nos dão sentido e com os quais teremos a
oportunidade de nos aperfeiçoar e nos sentirmos confortáveis.

Mais tarde, concretizaremos e planejamos esses objetivos em ações. Esta é a
parte que dá mais medo por causa das dificuldades que antecipamos. Fazer
mudanças nos causa insegurança e queremos fugir para evitar enfrentá-las. Da
psicologia trabalhamos ao longo do processo para superar obstáculos e
barreiras. Pense que não há bem-estar maior do que o alcançado por meio de
escolhas próprias.

“Abra seus braços para mudar, mas não deixe seus valores”

– Dalai Lama

 

………………………………………………………………
*Fonte: pensarcontemporaneo

Sem educação, os homens ‘vão matar-se uns aos outros’, diz neurocientista António Damásio

O neurocientista António Damásio advertiu que é necessário “educar massivamente as pessoas para que aceitem os outros”, porque “se não houver educação massiva, os seres humanos vão matar-se uns aos outros”.

O neurocientista português falou no lançamento do seu novo livro A Estranha Ordem das Coisas, na Escola Secundária António Damásio, em Lisboa, onde ele defendeu perante um auditório cheio que é preciso educarmo-nos para contrariar os nossos instintos mais básicos, que nos impelem a pensar primeiro na nossa sobrevivência.

“O que eu quero é proteger-me a mim, aos meus e à minha família. E os outros que se tramem. […] É preciso suplantar uma biologia muito forte”, disse o neurocientista, associando este comportamento a situações como as que têm levado a um discurso anti-imigração e à ascensão de partidos neonazis de nacionalismo xenófobo, como os casos recentes da Alemanha e da Áustria. Para António Damásio, a forma de combater estes fenômenos “é educar maciçamente as pessoas para que aceitem os outros”.

Em ” A Estranha Ordem das Coisas”(editora: Temas e Debates), Damásio volta a falar da importância dos sentimentos, como a dor, o sofrimento ou o prazer antecipado.

“Este livro é uma continuação de O Erro de Descartes, 22 anos mais tarde. Em ‘O Erro de Descartes’ havia uma série de direções que apontavam para este novo livro, mas não tinha dados para o suportar”, explicou António Damásio, referindo-se ao famoso livro que, nos finais da década de 90, veio demonstrar como a ausência de emoções pode prejudicar a racionalidade.

O autor referiu que aquilo que fomos sentindo ao longo de séculos fez de nós o que somos hoje, ou seja, os sentimentos definiram a nossa cultura. António Damásio disse que o que distingue os seres humanos dos restantes animais é a cultura: “Depois da linguagem verbal, há qualquer coisa muito maior que é a grande epopeia cultural que estamos a construir há cem mil anos.”

O neurocientista acredita que o sentimento – que trata como “o elefante que está no meio da sala e de quem ninguém fala” – tem um papel único no aparecimento das culturas. “Os grande motivadores das culturas atuais foram as condições que levaram à dor e ao sofrimento, que levaram as pessoas a ter que fazer alguma coisa que cancelasse a dor e o sofrimento”, acrescentou António Damásio.

“Os sentimentos, aquilo que sentimos, são o resultado de ver uma pessoa que se ama, ou ouvir uma peça musical ou ter um magnífico repasto num restaurante. Todas essas coisas nos provocam emoções e sentimentos. Essa vida emocional e sentimental que temos como pano de fundo da nossa vida são as provocadoras da nossa cultura.”

No livro o autor desce ao nível da célula para explicar que até os microrganismos mais básicos se organizam para sobreviverem. Perante uma plateia com centenas de alunos, o investigador lembrou que as bactérias não têm sistema nervoso nem mente mas “sabem que uma outra bactéria é prima, irmã ou que não faz parte da família”.

Perante uma ameaça, como um antibiótico, “as bactérias têm de trabalhar solidariamente”, explicou, acrescentando que, se a maioria das bactérias trabalha em prol do mesmo fim, também há bactérias que não trabalham. “Quando as bactérias (trabalhadoras) se apercebem que há bactérias vira-casaca, viram-lhes as costas”, concluiu o neurocientista, sublinhando que estas reações são ao nível de algo que possui “uma só célula, não tem mente e não tem uma intenção”, ou seja, “nada disto tem a ver com consciência”.

E é perante esta evidência que o investigador conclui que “há uma coleção de comportamentos – de conflito ou de cooperação – que é a base fundamental e estrutural de vida”.

Durante o lançamento do livro, o investigador usou o exemplo da Catalunha para criticar quem defende que o problema é uma abordagem emocional e não racional: “O problema é ter mais emoções negativas do que positivas, não é ter emoções.”

“O centro do livro está nos afetos. A inteira realidade dos sentimentos e a ciência dos sentimentos e do que está por baixo dos sentimentos. O sentimento é a personagem central. É também central uma coisa que me preocupa muito, o presente estado da cultura humana. Que é terrível. Temos o sentimento de que não está apenas a desmoronar-se, como está a desmoronar-se outra vez e de que devemos perder as esperanças visto que da última vez que tivemos tragédias globais nada aprendemos. O mínimo que podemos concluir é que fomos demasiado complacentes, e acreditamos, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, que haveria um caminho certo, uma tendência para o desenvolvimento humano a par da prosperidade. Durante um tempo, acreditamos que assim era e havia sinais disso”

……………………………………………………………
*Fonte: pensarcomtemporaneo

A triste geração que virou escrava da própria carreira

E a juventude vai escoando entre os dedos.

Era uma vez uma geração que se achava muito livre.

Tinha pena dos avós, que casaram cedo e nunca viajaram para a Europa.

Tinha pena dos pais, que tiveram que camelar em empreguinhos ingratos e suar muitas camisas para pagar o aluguel, a escola e as viagens em família para pousadas no interior.

Tinha pena de todos os que não falavam inglês fluentemente.

Era uma vez uma geração que crescia quase bilíngue. Depois vinham noções de francês, italiano, espanhol, alemão, mandarim.

Frequentou as melhores escolas.

Entrou nas melhores faculdades.

Passou no processo seletivo dos melhores estágios.

Foram efetivados. Ficaram orgulhosos, com razão.

E veio pós, especialização, mestrado, MBA. Os diplomas foram subindo pelas paredes.

Era uma vez uma geração que aos 20 ganhava o que não precisava. Aos 25 ganhava o que os pais ganharam aos 45. Aos 30 ganhava o que os pais ganharam na vida toda. Aos 35 ganhava o que os pais nunca sonharam ganhar.

Ninguém podia os deter. A experiência crescia diariamente, a carreira era meteórica, a conta bancária estava cada dia mais bonita.

O problema era que o auge estava cada vez mais longe. A meta estava cada vez mais distante. Algo como o burro que persegue a cenoura ou o cão que corre atrás do próprio rabo.

O problema era uma nebulosa na qual já não se podia distinguir o que era meta, o que era sonho, o que era gana, o que era ambição, o que era ganância, o que necessário e o que era vício.

O dinheiro que estava na conta dava para muitas viagens. Dava para visitar aquele amigo querido que estava em Barcelona. Dava para realizar o sonho de conhecer a Tailândia. Dava para voar bem alto.

Mas, sabe como é, né? Prioridades. Acabavam sempre ficando ao invés de sempre ir.

Essa geração tentava se convencer de que podia comprar saúde em caixinhas. Chegava a acreditar que uma hora de corrida podia mesmo compensar todo o dano que fazia diariamente ao próprio corpo.

Aos 20: ibuprofeno. Aos 25: omeprazol. Aos 30: rivotril. Aos 35: stent.

Uma estranha geração que tomava café para ficar acordada e comprimidos para dormir.

Oscilavam entre o sim e o não. Você dá conta? Sim. Cumpre o prazo? Sim. Chega mais cedo? Sim. Sai mais tarde? Sim. Quer se destacar na equipe? Sim.

Mas para a vida, costumava ser não:

Aos 20 eles não conseguiram estudar para as provas da faculdade porque o estágio demandava muito.

Aos 25 eles não foram morar fora porque havia uma perspectiva muito boa de promoção na empresa.

Aos 30 eles não foram no aniversário de um velho amigo porque ficaram até as 2 da manhã no escritório.

Aos 35 eles não viram o filho andar pela primeira vez. Quando chegavam, ele já tinha dormido, quando saíam ele não tinha acordado.

Às vezes, choravam no carro e, descuidadamente começavam a se perguntar se a vida dos pais e dos avós tinha sido mesmo tão ruim como parecia.

Por um instante, chegavam a pensar que talvez uma casinha pequena, um carro popular dividido entre o casal e férias em um hotel fazenda pudessem fazer algum sentido.

Mas não dava mais tempo. Já eram escravos do câmbio automático, do vinho francês, dos resorts, das imagens, das expectativas da empresa, dos olhares curiosos dos “amigos”.

Era uma vez uma geração que se achava muito livre. Afinal tinha conhecimento, tinha poder, tinha os melhores cargos, tinha dinheiro.

Só não tinha controle do próprio tempo.

Só não via que os dias estavam passando.

Só não percebia que a juventude estava escoando entre os dedos e que os bônus do final do ano não comprariam os anos de volta.

*Por Ruth Manus

………………………………………………………………….
*Fonte: provocacoesfilosoficas

Hipócrates e a teoria dos humores essenciais em humanos

A história de Hipócrates e a teoria dos estados essenciais datam de quase quatro séculos em nossa era. É considerada uma das primeiras abordagens à psicologia, uma nova ciência que nasceu vinte séculos depois.

Hipócrates é chamado de “pai da medicina” porque foi o primeiro no Ocidente a sistematizar o conhecimento disponível sobre saúde e doença. Ele também propôs uma explicação para esses fenômenos e meios terapêuticos para tratá-los.

“É muito mais importante saber qual pessoa está sofrendo de uma doença do que saber de qual doença a pessoa está sofrendo.” -Hippocrate-

A teoria de Hipócrates sobre os estados de espírito essenciais foi assimilada e usada pela maioria dos médicos até meados do século 19. Isso nos dá uma ideia da solidez dos fundamentos de Hipócrates. De fato, continuamos hoje a citar alguns dos postulados dessa teoria.

A teoria dos humores essenciais

A teoria dos humores essenciais de Hipócrates sugere, para resumir, que o corpo humano consiste em quatro substâncias. Estas substâncias recebem o nome de humores. Eles devem manter um equilíbrio perfeito entre eles. Quando eles perdem, a doença aparece, tanto no corpo quanto na mente.

Qualquer deficiência ou doença significava que o equilíbrio dos estados de ânimo tenha alterado. Portanto, para curá-los, era necessário encontrar uma maneira de restaurar o equilíbrio perdido.

Segundo a teoria dos humores essenciais, as substâncias que compõem o corpo humano são: a bílis negra, a bílis amarela, o sangue e a linfa. Cada um desses humores está diretamente relacionado a um elemento do universo e a uma qualidade atmosférica. O relacionamento seria:

Bile negra: terra, seco e frio

Bílis amarela: relacionada ao fogo, seca e quente

Sangue: ligado ao ar, molhado e quente

Linfa: relacionada à água, úmida e fria

Humor e personalidade

Hipócrates nunca viu a doença como um tema exclusivamente orgânico. Ele manteve uma concepção em que a mente e o corpo formavam apenas uma realidade. Portanto, o que estava acontecendo na mente tinha efeitos no organismo físico e vice-versa.

Os alunos da escola peripatética trouxeram um novo elemento à teoria dos humores essenciais. Eles sugeriram que a predominância de um dos humores leva a um temperamento específico nas pessoas. Mais tarde, Galien completou essas idéias. Ele apontou que o desequilíbrio do humor afeta nosso modo de ser, sentir, pensar e agir.

Os alunos da escola peripatética trouxeram um novo elemento à teoria dos humores essenciais. Eles sugeriram que a predominância de um dos humores leva a um temperamento específico nas pessoas. Mais tarde, Galien completou essas idéias. Ele apontou que o desequilíbrio do humor afeta nosso modo de ser, sentir, pensar e agir.

Foi o próprio Galen quem acabou por estabelecer a existência de quatro temperamentos da teoria dos humores essenciais. Aqui estão eles:

Melancolia. Caracteriza quem tem predominância da bile negra em seu corpo. Pessoas com esse temperamento são tristes, bastante prováveis ​​e orientadas para atividades artísticas.

Colérico. Representa aqueles que têm uma grande quantidade de bílis amarela. Isso leva a um temperamento apaixonado, com enorme vitalidade e uma tendência a se irritar com muita facilidade.

Sangue. Neste caso, o humor do sangue predomina. Os traços do temperamento do sangue são autoconfiança, alegria, otimismo, expressividade e sociabilidade.

Fleumático. Caracteriza aqueles que têm uma predominância de linfa em seu corpo. As pessoas fleumáticas são atenciosas, justas, quietas, com pouco compromisso e um pouco preguiçosas.

Abordagens hipocráticas no mundo de hoje

Hipócrates, Galeno e todos os seus seguidores criaram e completaram a teoria dos humores essenciais baseados na observação. Eles não aplicaram nenhum método científico. Com o nascimento e a consolidação das ciências formais, toda essa teoria caiu em desuso. Hoje, não é dada qualquer validade objetiva: é considerada apenas como referência histórica.

No entanto, a teoria dos humores essenciais tem o mérito de ter sido o primeiro esforço sério para classificar diferentes tipos de temperamentos. O fato desses médicos ilustres entenderem que as emoções também têm consequências fisiológicas também é muito interessante.

De fato, os primeiros psicólogos foram inspirados pelas teorias de Hipócrates e Galeno. De um modo ou de outro, esses pensadores demonstraram muita intuição. Suas classificações são semelhantes aos diferentes tipos de personalidade definidos pelos pesquisadores, quase 2000 anos depois desses precursores das ciências da saúde.

 

 

 

 

 

 

 

…………………………………………………..
*Fonte: pensarcontemporaneo

Por que as mulheres se estressam mais que os homens?

O estresse é o mal moderno. Vivemos, ou acreditamos que vivemos, em um mundo sitiado por perigos, perigos potenciais que nos cercam e esperam que baixemos a guarda para nos atacar. Isso gera um estado de alerta constante que nos deixa tensos e irritados. No entanto, nem todos reagem da mesma maneira. O estresse nas mulheres se manifesta de forma diferente e é frequentemente mais intenso do que os sintomas de estresse nos homens. Existem diferenças de gênero no modo de experimentar e enfrentar esse estado de ansiedade.

O nível de estresse nas mulheres duplica o estresse nos homens

Psicólogos da Universidade de Cambridge conduziram um estudo no qual descobriram que as mulheres ocidentais são quase duas vezes mais estressadas do que os homens. Esses pesquisadores analisaram 48 estudos anteriores sobre transtornos de ansiedade para identificar quais grupos experimentam mais estresse, levando em conta fatores como sexo, idade, condições médicas e transtornos mentais.

Foi revelado que 4 em cada 100 pessoas sofrem algum grau de ansiedade, do estresse à ansiedade generalizada. No entanto, para cada homem estressado, há 1,9 mulheres que sofrem de um transtorno de ansiedade, e as mulheres com menos de 35 anos são as mais afetadas.

Curiosamente, as mulheres casadas também relatam níveis mais altos de estresse do que as mulheres solteiras: 33% versus 22%, respectivamente. Além disso, as mulheres solteiras têm uma maior percepção de controle sobre suas vidas e sentem que estão fazendo o que é necessário para gerenciar o estresse. Pelo contrário, as mulheres casadas relatam maior afetação devido ao estresse, sofrendo mais episódios de choro, irritação, raiva, fadiga e dores de cabeça.

Os sintomas do estresse nas mulheres

Homens e mulheres reagem de maneira diferente ao estresse, tanto física quanto mentalmente. Tentam controlar o estresse seguindo estratégias muito diferentes e também percebem sua capacidade de lidar com problemas, bem como as coisas que estão em seu caminho, de maneiras muito diferentes. Essas diferentes formas de perceber e lidar com contratempos determinam os sintomas de estresse nas mulheres.

1. pensamentos negativos recorrentes. As mulheres tendem a girar mais as coisas, o que significa que elas têm pensamentos intrusivos mais recorrentes, como mostrou um estudo realizado na Universidade do Colorado. Essa tendência a ruminar piora o estresse e aumenta as chances de sofrer de depressão.

2. Tristeza e ansiedade. As mulheres tendem a reagir mais emocionalmente ao estresse. Um estudo da Universidade de Yale descobriu que muitas vezes se sentem mais tristes ou mais ansiosas quando estão tensas e estressadas. Essa inundação emocional muitas vezes as sobrecarrega, gerando uma sensação de falta de controle.

3. Somatização. Um dos sintomas mais característicos de estresse nas mulheres é a somatização. As mulheres geralmente relatam mais sintomas somáticos relacionados à tensão e ansiedade, como demonstrado por um estudo realizado na Universidade de La Laguna. Na verdade, eles não são meras experiências subjetivas, descobriu-se que as mulheres respondem com um aumento na freqüência cardíaca ao estresse e relatam dores de cabeça mais emocionais.

Por que as mulheres se estressam mais?

As diferenças hormonais são apenas uma variável na equação que exacerba os sintomas de estresse nas mulheres. As diferenças no modo de viver o estresse e lidar com ele desempenham um papel mais importante em seu impacto no bem-estar feminino.

– Sensibilidade a conflitos interpessoais

As mulheres são mais sensíveis aos conflitos e problemas nos relacionamentos interpessoais, porque tendem a conferir maior importância a elas. 84% das mulheres dizem que manter um bom relacionamento familiar é muito importante, comparado a 74% dos homens. Curiosamente, elas também relatam mais estresse quando precisam se conectar com outras pessoas e passar tempo com a família e os amigos.

Portanto, não é surpreendente que a pesquisa conduzida na Universidade da Califórnia sugere que a maioria dos eventos estressantes que desencadeiam o estresse em mulheres estão relacionados com a sua rede social nas proximidades, como problemas no relacionamento, a criação dos filhos ou a perda de uma pessoa próxima.

– Significado dos sintomas físicos

Em muitos casos, os sintomas de estresse nas mulheres são intensificados devido à importância que elas dão a eles. Na prática, ao focar mais nelas e conferir-lhes um papel mais protagônico, a percepção de desconforto e insatisfação aumenta, fechando assim um círculo vicioso.

Por exemplo, embora a insônia atinja homens e mulheres, 75% delas relatam que o sono é muito importante, uma opinião compartilhada apenas por 58% dos homens. Isso significa que o impacto psicológico e físico da insônia acabará sendo mais pronunciado nas mulheres. Não podemos esquecer que tudo em que focamos nossa atenção é amplificado.

– Estratégias de enfrentamento do estresse

Há muitas razões para serem enfatizadas, por isso é importante ter boas estratégias de enfrentamento. Se não tivermos boas ferramentas psicológicas para lidar com contratempos e adversidades, o estresse aumentará. Mais uma vez, homens e mulheres muitas vezes se comportam de maneira diferente quando chega a hora de lidar com o estresse.

As mulheres tendem a usar estratégias de enfrentamento mais emocionais e evitativas. Também são menos racionais quando avaliam a situação e têm mais dificuldade em praticar o desapego. Não é estranho uma vez que um estudo conduzido na Universidade da Pensilvânia, no qual mais de 1.000 imagens do cérebro foram analisadas, revelou que o cérebro feminino é melhor “conectado” para reter detalhes emocionais, o que permite que eles se conectem melhor com os outros, mas também se converte em uma barreira ao estabelecer uma distância psicológica. Os homens, por outro lado, tendem a inibir emoções e praticar estratégias diretas de enfrentamento.

– Sentimento de falta de controle

Talvez uma das variáveis que mais influenciam a percepção do estresse em mulheres e homens seja o autocontrole. Embora tanto mulheres como homens estressados indiquem que a principal barreira para fazer mudanças positivas em seu estilo de vida que afastam o estresse é a força de vontade, muitas mulheres reconhecem que a falta de autocontrole é o principal obstáculo para lidar com o estresse.

O problema é que quando percebemos que não temos controle sobre a nossa vida, indefesa aprendida logo aparecerá, o que nos faz perder a confiança em nossas habilidades para superar a adversidade. Sentir que somos uma folha movida pelo vento gera ainda mais estresse.

A melhor estratégia para lidar com o estresse: Contextualizar Existe uma maneira de lidar melhor com o estresse do que outra? Tudo depende da situação. Por exemplo, um estilo de enfrentamento direto pode ser útil em algumas circunstâncias e em outras pode ser mais adaptativo assumir um estilo de enfrentamento evitativo. Às vezes é necessário se deixar levar por emoções e outras vezes é melhor ser mais racional.

Além das diferenças nas estratégias de enfrentamento e nos sintomas de estresse em mulheres e homens, o mais importante é conhecer nossos pontos fracos, trabalhar para reforçá-los e analisar cada situação para responder da maneira mais assertiva possível. Afinal, você não precisa se envolver em todas as batalhas e não precisa vencer todas as contendas.

………………………………………………………………..
*Fonte: pensarcontemporaneo

7 vezes em que Shakespeare adivinhou o que você estava sentindo

Shakespeare não é considerado um dos maiores dramaturgos e poetas de todos os tempos à toa!

Com o dom de conseguir captar a essência dos instintos e desejos humanos em palavras, o criador de “Romeo e Julieta” e “Hamlet” é um dos autores mais citados do mundo.

Shakespeare sabe o que você está sentindo! Quer uma prova? Te damos sete! Confira as vezes em que ele definitivamente “leu os seus pensamentos”!

1. Quando todos ao seu redor querem que você seja forte…

“Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.” – Shakespeare

Você tem consciência de como poderia lidar com determinadas situações, mas os sentimentos envolvidos fazem com que aquela “dor no coração” seja mais forte do que a “voz da razão”.

2. A vida é muito curta para fazer aquilo de que não se gosta…

“O que não dá prazer não dá proveito. Em resumo, senhor, estude apenas o que lhe agradar.” – William Shakespeare

Eis uma lição que muitos aprendem tarde, mas Shakespeare já adianta a resposta para a sua grande dúvida: arrisque! Escolha o caminho que te dê mais felicidade e lute por isso!

3. Saber viver e aproveitar o presente…

“O passado e o futuro parecem-nos sempre melhores; o presente sempre pior. – William Shakespeare

Pensar que os melhores momentos da sua vida já passaram ou que ainda estão por vir é um erro! É um mal do ser humano pensar que a “grama do vizinho é sempre mais verde”, assim como não aproveitar os bons momentos (mesmo pequenos) que vive!

Lembre com alegria do passado, faça planos para o futuro, mas não deixe de viver o seu presente!

4. Sou dono do meu futuro!

“Em certos momentos os homens são donos de seus próprios destinos.” – William Shakespeare

Ao longo da vida somos confrontados com alguns momentos especiais, onde são apresentados caminhos que nos levarão para diferentes destinos… E lembre-se: você é livre para trilhar o caminho que quiser, basta escolher e seguir em frente!

Você é o “senhor do seu destino” e o único responsável por fazer os seus sonhos se tornarem realidade, por isso saiba escolher os caminhos certos, ok?

5. Palavra-chave para a ansiedade: paciência!

“Tenha paciência. Tudo aquilo que você deseja, se for verdadeiro, e o mais importante: se for para ser seu, acontecerá.’ – William Shakespeare

Todo mundo tem seus momentos de ansiedade, mas nem todos sabem como lidar com essa sensação angustiante. Com o tempo você acaba encontrando a resposta, e não poderia ser mais perfeita do que a descrição feita por Shakespeare!

Sejamos pacientes!

6. Quando as ações valem mais do que mil palavras…

“Os sentimentos verdadeiros se manifestam mais por atos que por palavras” – William Shakespeare

Quem já esteve (ou está) apaixonado sabe muito bem que mais vale uma ação do que mil cartas de amor para provar os verdadeiros sentimentos, certo?

Como diz o ditado popular: “quem muito fala, nada quer”.

7. A vida é um filme!

“O mundo inteiro é um palco e todos os homens e todas as mulheres são apenas atores” – William Shakespeare

A sua vida é um grande filme, onde você é o protagonista principal! Lembre de fazer a sua melhor atuação para ter não apenas um, mas vários finais felizes ao longo da sua história!

Não importa qual seja a sua idade, o seu gênero sexual ou classe social… As pessoas passam pelos mesmos dilemas ao longo da vida. É da natureza humana ter de enfrentar determinadas questões e, como era de se esperar, Shakespeare conseguiu compreender isso muito bem, não concordam?

…………………………………………………………..
*Fonte: pensarcontemporaneo

Jean-Paul Sartre – A liberdade reside na escolha

Para o filósofo francês Jean-Paul Sartre, o ser humano é livre, e a liberdade reside no ato da escolha. Nós sempre escolhemos, afirma o filósofo, e não há como evitarmos. Quando dizemos que não há opções, na verdade estamos dizendo que não gostamos ou não queremos as que estão disponíveis, pois elas sempre existem.

Essa situação evoca uma experiência comum a todos. Imagine: nem que seja o “menos ruim”, é preciso tomar o remédio quando se está seriamente doente; seja por via injetável, seja por via oral, mesmo que nenhuma das duas opções seja prazerosa. Diante disso, podemos ainda escolher não tomar. Porém, nesse caso devemos estar cientes das consequências desta opção; nossa doença pode se agravar e isto é consequência de “não escolher”.
Sartre: não escolher já é uma escolha

Porém, ao escolher não escolher, já estamos escolhendo. Fugir da escolha, portanto, é impossível. Da mesma forma como fugir da liberdade é também impossível. Por isso estamos condenados a ser livres. Seremos sempre forçados a escolher e também responsáveis pelas consequências de nossas escolhas.

Quando fazemos uma escolha entre uma via e outra, julgamos e avaliamos com base nos valores que nos servem de referência. Se não os temos, escolhemos algo para preencher essa ausência. O valor, como seu motor, impulsiona o indivíduo a sempre agir, isto é, a escolher sempre entre um valor e outro, uma via e outra, e a executar uma ação. De qualquer forma, até mesmo nossos valores podem nascer diante das escolhas inevitáveis que temos de fazer.

Nesse sentido Sartre afirma que o ser humano está “condenado a ser livre”. Desde que nascemos até nossa morte, nossa vida consiste irremediavelmente em agir. Essa expressão ressalta a condição paradoxal (e talvez cruel) do ser humano: ao mesmo tempo que estamos condenados a agir, temos também de arcar com as consequências de nossas ações, feitas livremente apenas por nós mediante opções sempre existentes.

…………………………………………………………….
*Fonte: pensarcontemporaneo

‘O pensamento crítico morreu’, afirma o filósofo italiano Franco Berardi

“A possibilidade de futuro passa por estarmos abertos ao imprevisível”

A trajetória de Franco Berardi é no mínimo eclética. Na década de 60, ingressa no grupo Poder Operário, quando estudava na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Bolonha, onde se licenciou em Estética. Em 1975, funda a revista “A/Traverso”, que se transforma no núcleo do movimento criativo de Bolonha, e centra o seu trabalho intelectual na relação entre tecnologia e comunicação. Em finais da década de 70 exila-se em Paris e, posteriormente, ruma a Nova Iorque. Quando regressa a Itália, em meados dos anos 80, publica o artigo “Tecnologia comunicativa”, que preconiza a expansão da internet como fenómeno social e cultural decisivo. Com vasta obra publicada, o filósofo italiano e professor de História Social dos Media na Accademia di Brera, em Milão, continua a refletir sobre o papel dos media e da tecnologia de informação no capitalismo pós-industrial, a precariedade existencial e a necessidade de repensarmos “o nosso futuro económico”.

Entrevista* concedida à Ana Pina/O jornal Económico (Portugal), em 17 de junho 2018.
Leia trechos da entrevista com o filósofo italiano Franco Berardi:

O acrónimo inglês TINA – There Is No Alternative [não há alternativa] – é usado recorrentemente para justificar a necessidade de trabalhar mais e de aumentar a produtividade. Na sua opinião, não há mesmo alternativa?

Esse tem sido o discurso dos líderes políticos nos últimos 40 anos, desde que Margaret Thatcher declarou que “a sociedade não existe”. Existem apenas indivíduos, empresas e países competindo e lutando pelo lucro. É este o objetivo do capitalismo financeiro. E com esta declaração foi proclamado o fim da sociedade e o início de uma guerra infinita: a competição é a dimensão económica da guerra. Quando a competição é a única relação que existe entre as pessoas, a guerra passa a ser o ‘ponto de chegada’, o culminar do processo. Penso que, em breve, acabaremos por assistir a algo que está para além da nossa imaginação…

O que pode pôr em causa o capitalismo financeiro? Enfrenta alguma ameaça?

A solidariedade é a maior ameaça para o capitalismo financeiro. A solidariedade é o lado político da empatia, do prazer de estarmos juntos. E quando as pessoas gostam mais de estar juntas do que de competir entre si, isso significa que o capitalismo financeiro está condenado. Daí que a dimensão da empatia, da amizade, esteja a ser destruída pelo capitalismo financeiro. Mas atenção, não acredito numa vontade maléfica. O que me parece é que os processos tecnológico e econômico geraram, simultaneamente, o capitalismo financeiro e a aniquilação tecnológica digital da presença do outro. Nós desaparecemos do campo da comunicação porque quanto mais comunicamos menos presentes estamos – física, erótica e socialmente falando – na esfera da comunicação. No fundo, o capitalismo financeiro assenta no fim da amizade. Ora, a tecnologia digital é o substituto da amizade física, erótica e social através do Facebook, que representa a permanente virtualização da amizade. Agora diz-se que é preciso “consertar o Facebook”. O problema não está em “consertar” o Facebook, mas sim em ‘consertarmo-nos’ a nós. Precisamos de regressar a algo que o Facebook apagou.

O pensamento crítico pode ajudar a “consertarmo-nos”?

Não há pensamento crítico sem amizade. O pensamento crítico só é possível através de uma relação lenta com a ciência e com as palavras. O antropólogo britânico Jack Goody explica na sua obra “Domesticação do Pensamento Selvagem” que o pensamento crítico só é possível quando conseguimos ler um texto duas vezes e repensar o que lemos para podermos distinguir entre o bem e o mal, entre verdade e mentira. Quando o processo de comunicação se torna vertiginoso, assente em multicamadas e extremamente agressivo, deixamos de ter tempo material para pensarmos de uma forma emocional e racional. Ou seja, o pensamento crítico morreu! É algo que não existe nos dias de hoje, salvo em algumas áreas minoritárias, onde as pessoas podem dar-se ao luxo de ter tempo e de pensar.

Como vê o papel dos media e das redes sociais nos tempos que correm?

Devo dizer que, nos dias de hoje, a expressão “media” não é muito óbvia. Remete para quê exatamente? Remete para o The New York Times (NYT) ou para o Facebook? Digamos que, neste último ano, houve uma disputa cerrada entre o NYT e o Facebook e foi este que acabou por vencer, porque o pensamento crítico morreu. E o pensamento imersivo está fora do alcance da crítica. A imersividade é, pois, a única possibilidade. Esta é outra questão relevante. Acredita que o Facebook pode ser ‘consertado’? Pessoalmente não acredito. Em tempos, eu e muitas outras pessoas acreditávamos que a Internet ia libertar a humanidade. Errado. As ferramentas tecnológicas não vão libertar-nos. Só a humanidade pode libertar-se a si própria. Voltando ao Facebook, como podemos defini-lo? O Facebook é uma máquina de aceleração infinita. E esta aceleração, intensificação, obriga a distrair-nos daquilo que é a genuína amizade.

Considera que as redes sociais padronizam formas de estar?

Sem dúvida. A nossa energia emocional foi absorvida pelo mundo digital, por isso as pessoas esperam que os outros “gostem” do que dizemos [nas redes sociais] e muita gente sente-se infeliz quando os seus posts não produzem esse efeito. Uma das consequências desse investimento emocional é o chamado ‘efeito da câmara de eco’, ou seja, tendemos a comunicar, a trocar informações e opiniões com pessoas que pensam como nós, ou que reforçam as nossas expetativas, e reagimos mal à diferença. Podemos chamar-lhe psicopatologia da comunicação. O futuro só é imaginável quando estamos dispostos a investir emocionalmente nos outros, na amizade, na solidariedade e, claro, no amor. Mas se não formos capazes de sentir empatia, o futuro não existe. São os outros que nos validam, que nos conferem humanidade.

Refere num artigo que o ser humano tem de abandonar o desejo de controlar…

Hoje em dia, o grau de imprevisibilidade aumentou de tal forma que pôs fim à potência masculina. O ponto de vista feminino, por seu turno, representa a complexidade, a imprevisibilidade da infinita riqueza da natureza e da tecnologia – não no sentido de algo oposto à natureza, mas como uma forma de evolução natural. Atualmente, só o ponto de vista feminino é que pode salvar a raça humana. O ponto de vista masculino já não é capaz de fazer o tipo de ‘trabalho’ de que fala Maquiavel: dominar a natureza. Isso já não é possível, por isso temos de libertar a produtividade da natureza e da mente humana, isto é, o conhecimento. Hoje em dia, o problema não está no excesso de tecnologia, mas sim na nossa incapacidade de lidar com a tecnologia sem ficarmos reféns do preconceito do poder, do controlo, da dominação. Temos de abandonar essa pretensão: a de controlar.

Subscreve as palavras de Keynes: “o inevitável geralmente não acontece, porque o imprevisível prevalece”.

Sem dúvida. E embora não seja meu hábito fazer sugestões, deixo esta: as pessoas devem estar abertas ao inesperado, ao imprevisível. Se olharmos para o presente, constatamos que a guerra, a violência, o fascismo são inevitáveis. Mas o inevitável nunca acontece porque existe o imprevisível. Ora, nós não sabemos o quão imprevisível as coisas podem ser, mas podemos estar receptivos ao imprevisível. Devemos estar atentos e procurar continuamente uma ‘linha de fuga’ para o inevitável, sendo que isso requer muito empenho, uma enorme energia e atividade.

…………………………………………………………..
*Fonte: revistaprosaversoearte

20 frases de Carl Jung que economizam 10 anos de terapia

É claro que o título é uma brincadeira, entretanto, as frases abaixo definitivamente merecem a nossa atenção devido a sua profundidade. São grandes lições.

Vamos lá!?

1. “Até que você torne o inconsciente em consciente, aquele irá direcionar a sua vida e você irá chamá-lo de destino.”

2. “Tudo que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão de nós mesmos.”

3. “A reunião de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas são transformadas.”

4. “Você não se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas sim ao tornar a escuridão consciente. Porém, esse procedimento é desagradável, portando, não popular.”

5. “Conhecer a sua própria escuridão é o melhor método para lidar com as trevas das outras pessoas.”

6. “Se você é uma pessoa talentosa, isso não significa que você ganhou algo. Significa que você tem algo a oferecer.”

7. “Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade. Se um homem não sabe o que uma coisa é, já é um avanço saber o que ela não é.”

8. “Sua visão se tornará clara somente quando você olhar para o seu próprio coração. Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta.”

9. “As pessoas vão fazer qualquer coisa, não importa o quão absurdo, para evitar olharem para suas próprias almas.”

10. “Solidão não é não ter pessoas ao seu redor, e sim ser incapaz de expressar coisas que parecem importantes, ou de perceber certos pontos de vista que os outros acham inadmissíveis.”

11. “A depressão é como uma mulher vestida de preto. Se ela aparecer, não a afaste. Convide-a para entrar, ofereça-lhe um assento, trate-a como uma convidada e ouça o que ela tem a dizer.”

12. “Um homem que não tenha passado pelo inferno de suas paixões, nunca irá superá-las.”

13. “Sua percepção se tornará clara somente quando você puder olhar para dentro de sua alma.”

14. “O pêndulo da mente oscila entre sentido e absurdo, não entre certo e errado.”

15. “O que você resiste, persiste.”

16. “Um sonho é uma pequena porta escondida no santuário mais profundo e mais íntimo da alma, que se abre para a noite cósmica e primordial, que é a alma, muito antes de existir o ego consciente.”

17. “Nós podemos pensar que conseguimos controlar totalmente a nós mesmos. No entanto, um amigo pode facilmente revelar algo sobre nós e do qual não temos absolutamente nenhuma ideia.”

18. “Tudo o que diz respeio às outras pessoas que não nos satisfaz, nos ajuda a entender melhor a nós mesmos.”

19. “Eu não sou o que aconteceu comigo, eu sou o que eu escolhi ser.”

20. “Não se apegue a quem estiver partindo porque assim você não irá conhecer quem estiver chegando.”

 

 

 

 

 

 

………………………………………………..
*Fonte: contioutra

Era Spock um estoico?

Em 8 de setembro de 1966 estreava na televisão norte-americana a série Jornada nas Estrelas, idealizada pelo roteirista Gene Roddenberry. Ambientada em meados do século XXIII, trazia em cada episódio as aventuras da tripulação da espaçonave USS Enterprise, parte da frota da Federação dos Planetas Unidos. Apesar do pano de fundo pluriplanetário, todos os subordinados do capitão James T. Kirk (William Shatner) eram humanos, à exceção de um único personagem. Era este uma figura de orelhas pontudas, sobrancelhas alçadas e tez ligeiramente amarelada — pois fora essa a solução encontrada pela equipe de maquiagem da Desilu Productions para dar ares alienígenas ao ator Leonard Nimoy. Com o prosseguimento da série, o público ficou sabendo que Spock, a criatura que ocupava o posto de Primeiro Oficial e Oficial de Ciências, era um ser híbrido: filho do embaixador vulcano Sarek (Mark Lenard) e da humana Amanda Grayson (Jane Wyatt).

A série original nunca foi uma unanimidade e viveu na corda bamba da audiência. Foi cancelada em 1969, com apenas 79 episódios. Uma crítica frequente a Roddenberry era que ele havia criado uma atração “intelectual” ou “complexa” demais para os padrões televisivos da época. Mesmo a aparência de Spock, que se assemelharia a certas representações demoníacas, causava preocupação ao canal que transmitia a série, e houve tentativas de reduzir a participação do personagem ao mínimo. Graças à persistência de Roddenberry e ao talento de Nimoy, Spock conquistou o seu espaço em Jornada nas Estrelas, rivalizando em popularidade com o próprio Kirk. É até hoje, quase três anos após a morte de Nimoy, um dos personagens mais icônicos da história da TV e do cinema dos Estados Unidos — e do mundo.

Spock sobreviveu à sanha dos executivos da NBC porque foi dotado de uma história pessoal, bem, fascinante. Como híbrido, ele vivia entre duas culturas, a dos vulcanos e a dos humanos. Criado na terra natal do pai, o planeta Vulcano, ele recebera a rigorosa educação dos habitantes do local, que incluía um treinamento aturado nas modalidades do pensamento lógico e um programa de supressão das emoções. Todavia, embora exemplarmente dedicado, Spock era alvo de desconfiança, quando não de desdém, da parte de muitos vulcanos, que sempre duvidaram das habilidades cognitivas e emocionais do rapaz meio humano, meio vulcano. Talvez por conta disso, chamado a optar entre a Academia Vulcana de Ciências e um organismo interplanetário, a Frota Estelar, ele tenha ficado com a segunda alternativa. Ali, ele teria a possibilidade de conviver com seres humanos e entender melhor a sua metade não vulcana, além de poder travar contato com espécies inteiramente desconhecidas. O grande sucesso do personagem Spock repousa nesta dualidade, à qual a interpretação de Nimoy conferiu traços bastante vivazes: sendo fisiologicamente indistinguível de seus pares e um produto da melhor tradição vulcana, ele demonstrava ter uma curiosidade genuína frente às maneiras “não lógicas” de compreender o universo. Uma de suas reações mais comuns, um simples erguer de sobrancelhas, era um gesto que dava testemunho do misto de disciplina das emoções e generosidade do intelecto que, não sem grãos de autoironia, o caracterizava.

Felizmente, Roddenberry e continuadores puderam expandir sua visão imaginária do futuro por várias séries e alguns filmes, o que incluiu, na esteira do impacto popular de Spock, um tratamento mais denso à cultura vulcana. Surgiram, por exemplo, outros vulcanos notáveis, como Solok (Gregory Wagrowski), de Deep Space Nine (1993-1999), Tuvok (Tim Russ), de Voyager (1995-2001), e T’Pol (Jolene Blalock), de Enterprise (2001-2005). Muitos aspectos da história do planeta fictício foram revelados ao longo de décadas de franquia. Em resumo, o que se pode dizer é que a civilização criada pelos vulcanos nem sempre foi um exemplo de equilíbrio e harmonia. O passado desses humanoides fora marcado por violência e impetuosidade incomparáveis, superiores a qualquer coisa que se tenha visto entre terráqueos. Muito sangue verde foi derramado na história do planeta. Com o avanço tecnológico, os pendores agressivos dos vulcanos criaram uma situação crítica, de sorte que a espécie ficou à beira da autodestruição. Foi então que se deu a intervenção de um indivíduo chamado Surak, proponente de uma filosofia que reformou radicalmente a maneira de viver de seus conterrâneos.

Depois de palmilhar as vastidões inóspitas da região conhecida como Forja Vulcana, um deserto sacudido por tempestades de areia eletromagnéticas, Surak chegou ao Monte Seleya, o mais alto do planeta, onde completou o seu processo de iluminação — ou “despertar” (awakening). Contemporânea a essa peregrinação foram as tribulações ocasionadas por uma guerra nuclear planetária, da qual o próprio Surak acabou vítima, morrendo em decorrência da radiação. Esse período da história vulcana, que coincide com o século IV d. C. dos terráqueos, foi chamado de “Tempo do Despertar”. Enquanto cruzava a parte mais áspera do deserto, a Planície de Sangue, o reformador colheu do próprio solo — i. e., do sofrimento de todos os vulcanos que se entrematavam naquele momento — os fundamentos de sua lógica. Chegado ao topo do Seleya, sua visão filosófica foi rematada pela intuição do Kol-Ut-Chan, chamado em linguagem terrena de “Diversidade Infinita em Combinações Infinitas” (IDIC, em sigla inglesa), um princípio metafísico que encapsulava a noção de variabilidade ilimitada do universo. Base da filosofia de Surak, o IDIC se consolidara em um símbolo que, sob a forma de um pingente constituído por um círculo e um triângulo obliquamente sobreposto e encimado por um adorno semelhante a uma pérola, era bastante apreciado pelos vulcanos. O conflito nuclear terminou quando os partidários de Surak se impuseram sobre os beligerantes: foi o início de uma nova era, marcada por paz e prosperidade inauditas, para os habitantes do planeta.

É preciso dar o braço a torcer: há intelectualidade e complexidade razoáveis no universo criado por Roddenberry e companhia, algo que só pode ser realmente apreciado quando se é, por assim dizer, dotado de uma certa “nerdice”. Desse modo, nerds de todo o mundo notaram as inúmeras referências bem terrenas que, entretecidas, permitiram a sugestão de uma civilização alienígena como a vulcana. Assim como os rituais e as práticas meditativas que os vulcanos exibem em cena devem muito às tradições budistas, o essencial da mensagem ética da doutrina de Surak, a noção de que é necessário rejeitar as emoções e guiar-se apenas pela lógica, foi muito provavelmente inspirado nos ensinamentos dos antigos estoicos. E é justamente aqui, no tópico “estoicismo dos vulcanos”, que devemos nos deter, visto que personagens de ficção científica como Spock e a inflexível T’Pau (Betty Matsushita, Kara Zediker), acabam por sobrepor-se à imagem que muitos fazem dos estoicos que de fato existiram na Antiguidade. Um estoico, portanto, seria alguém que se assemelharia a um vulcano de Jornada nas Estrelas — seria esta a visão correta das coisas?

Não exatamente. E por algumas razões, que elencaremos a seguir.

• Estamos comparando uma filosofia inventada para um produto de entretenimento a uma escola de pensamento que efetivamente existiu. — Soa óbvio dizê-lo, mas o papel e a película aceitam tudo, até possibilidades alienígenas, até rigores sobre-humanos. A filosofia estoica, que era sumamente difícil, limitava-se a pensar nas questões que podia conhecer: era dotada de uma antropologia, não de uma exobiologia. A situação do ser humano ocupava-lhe o centro, motivo pelo qual ela se esforçava por olhar de frente o problema da finitude, tentando fornecer remédios às sugestões nascidas do medo excessivo da morte e a toda sorte de não aceitação do destino. E os filósofos do Pórtico sabiam que muitas vezes falhavam nesse intento. As grandes virtudes e o heroísmo, na ficção, não custam nada; na vida real, podem ser uma jogada mortal — por isso são coisas raras. Ao final do filme Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan (1982), Spock se sacrifica para salvar os companheiros, justificando-se em termos perfeitamente lógicos: “as necessidades dos que são numerosos se impõem sobre as necessidades dos que são poucos”. É bonito e pode, a depender das circunstâncias, ser verdadeiro, mas, pensando bem, não é sério. Spock ressuscita no filme subsequente, em expediente dramatúrgico dos mais questionáveis. Na vida real, ninguém tem um deus ex machina, um reboot ou um universo alternativo para salvar a própria pele (e o estoicismo insistia bastante no valor precioso, intransferível e irrepetível, do momento que se vivia). Quando Catão de Útica, para não servir a Júlio César, pôs fim à própria vida, ele sabia que seu gesto era irrevogável, cheio de dor e angústia, para valer. Com efeito, nós não o vimos mais por aí, no século XX, de bandana na cabeça, empregando-se no resgate de baleias, como sucedeu a Spock em Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa (1987).

• A filosofia de Surak tem uma função estruturante na sociedade vulcana, ao passo que o estoicismo sempre ficou confinado a grupos restritos no mundo greco-romano. — Os vulcanos salvaram-se da ruína ao abraçarem as ideias de Surak, aplicando-as a toda a coletividade. Nesse sentido, a doutrina do reformador do modo de vida daquele povo assemelha-se ao budismo e ao taoísmo — uma filosofia com aspectos de religião. De fato, o “surakismo” conta com uma mística, com um grupo de escrituras autógrafas (o Kir’Shara, dado como perdido) e mesmo com templos e rituais. Os fundadores da ordem social daquele planeta são idolatrados. Há até uma sobrenaturalidade própria dos vulcanos: na franquia, cada um deles é mostrado como portador de um katra, espécie de espírito ou alma, capaz de subsistir à morte e de se transmitir para outro corpo. Particularmente em Enterprise, que se passa no século XXII, há uma série de episódios destinados a mostrar o lado não tão glorioso da conversão dos vulcanos ao “surakismo”. Como se pode supor, uma doutrina tão rígida só pôde prevalecer com a exclusão de muitos grupos, com arbitrariedades e mentiras de Estado por parte do Alto Conselho Vulcano e com a distorção de boa porção das ideias de Surak ao longo do tempo. No mundo real, as escolas de filosofia helenísticas jamais correram o risco de metamorfosear-se em religiões institucionalizadas porque, filhas de Sócrates, viam o dissenso como forma de fazer o conhecimento progredir, cultivavam em algum nível a dúvida e tinham como meta uma vida digna de ser vivida, não a salvação de uma sociedade. Se você quisesse ser estoico, cético ou epicurista, deveria ir procurar as escolas onde se ensinavam essas filosofias, porque ninguém viria bater à sua porta com uma boa notícia. Um prokópton que passasse a discordar das ideias de Zenão e Crisipo podia simplesmente deixar a escola. Em Jornada nas Estrelas, um vulcano que não aceite os princípios de Surak se torna um pária.

• Para os vulcanos, o rigor é uma via de mão dupla. — Como consequência do caráter social da filosofia de Surak, as instituições vulcanas foram moldadas para premiar aqueles que exibissem pensamento lógico mais aperfeiçoado e menor presença de emoções. Isso equivale a dizer que o rigor vulcano se exercitava não apenas ao nível da individualidade, mas também sob a forma de uma exigência que se voltava a outrem. É fácil imaginar os vulcanos como mais inteligentes e robustos que os seres humanos, superando os duzentos anos de idade, mas é um verdadeiro desafio a nosso senso de verossimilhança conceber uma sociedade como a deles que não estivesse infestada de variadas formas de orgulho, formalismo vazio e hipocrisia, além de um contingente enorme de “inadaptados” e “perdedores” vingativos. Uma doutrina que não se volta unicamente à melhora do indivíduo, mas que torna lícito que ele possa cobrar isso dos outros, tende a criar uma atmosfera social quase irrespirável. Inverossimilhanças à parte, digamos, entretanto e somente, que tudo isso é bastante “não estoico”. Um estoico não podia cobrar dos outros que agissem segundo princípios que para ele mesmo já impunham dificuldades consideráveis.

• Segundo os estoicos, a lógica era apenas a terça parte da filosofia. — Assim como os peripatéticos, os estoicos desenvolveram com grande proveito e interesse a lógica formal. E do mesmo modo como os seguidores de Aristóteles, eles não pensavam que a filosofia se reduzisse à lógica, embora soubessem da importância dessa área do conhecimento. Quando consideravam a filosofia como um todo, eles empregavam alguns símiles, sendo o mais interessante deles o que a descrevia como um jardim ou pomar em que o cercado correspondia à lógica, o solo fértil à física e os frutos à ética. Para não nos estendermos demais, digamos somente que é bastante difícil, se não impossível, dar comprovação cabal e para todos convincente de certas intuições que dizem respeito à ética: a argumentação em tais casos torna-se tortuosa e sem parada. Constituem tópicos desafiadores dizer por que seria mais lógico criar os filhos ao invés de abandoná-los, ser fiel aos amigos ao invés de traí-los, ser um trabalhador aplicado ao invés de um preguiçoso. Os estoicos não ignoravam que aquilo que era mais central em sua filosofia dependia de um fundo de experiências humanas não totalmente acessível ao pensamento lógico — embora o julgassem em conformidade com a razão que ordenava o universo. Eles provavelmente concordariam com o Spock mais velho (Nimoy) que, em uma linha do tempo alternativa em que Vulcano fora destruído, diante de uma versão mais jovem de si mesmo (Zachary Quinto), contraria os cânones e aconselha: “faça um favor a si mesmo: deixe a lógica de lado, faça o que você sente ser o certo” (no filme Star Trek, de 2009).

• Não, os estoicos não se opunham às emoções por si mesmas. — Aqui reside um dos maiores equívocos que certa visão difusa, não instruída, tem do estoicismo. Não se trata de uma filosofia que busque, a exemplo dos vulcanos de Jornadas nas Estrelas, a supressão das emoções, ou que tenha por meta a formação de seres humanos meio robóticos. Quando os adeptos do Pórtico falavam de apátheia como finalidade desejável, estavam se referindo a uma tranquilidade bastante sólida, não sujeita às influências de emoções violentas ou causadoras de sofrimento. Era a ausência das páthē, “paixões” — um estado psicológico, em todo caso, só atingido plenamente pelo sábio. Eles nada tinham contra as emoções agradáveis e suaves (eupátheiai), como as várias nuances do contentamento e da gratidão, por exemplo. Uma das coisas que eles pretendiam, por meio de sua filosofia, era fortalecer o “amante da sabedoria” em seu poder de considerar, racionalmente, as suas expansões interiores antes que elas viessem a tomar a forma de paixões. Tornada hábito, essa prática produziria indivíduos contidos, com sangue frio quando necessário, não robôs de carne e osso. Ademais, não havia nada no estoicismo minimamente parecido com o kolinahr, ritual, que durava seis anos ou mais, pelo qual os vulcanos maduros se purificavam de toda e qualquer emoção vestigial.

• “Vida longa e próspera” versus “vida segundo a natureza”. — Nesta leitura, o lema que acompanha a saudação vulcana não seria aprovado ou adotado pelos estoicos. Isso se deve ao fato de que a longevidade e a prosperidade nunca foram valoradas positivamente pelos adeptos do Pórtico, mas simplesmente etiquetadas como “indiferentes” (adiáphorai), coisas neutras. Viver mais anos ou com mais recursos não torna ninguém, de acordo com os estoicos, melhor ou pior do que ninguém. Para eles, o que importava era viver melhor. E o melhor tipo de existência era garantido pela natureza, que inscrevera no ser humano a razão e a sociabilidade. Um homem é tão mais feliz quanto mais cumpre a tarefa de ser o mais racional e sociável que puder. Se, por live long and prosper, entendermos algo como “viva longamente e prospere, cresça como indivíduo”, o dito estará um tanto mais em conformidade com o que diziam os estoicos. Sêneca explica a seus interlocutores, por diversos ângulos, a suficiência do bem moral (honestum); vejamos uma dessas passagens:

Não se exige a uma régua que seja bonita, mas sim que seja rigorosamente reta. Ou seja, cada objeto é avaliado segundo a sua finalidade, segundo a sua qualidade específica. Por conseguinte, também na avaliação de um homem é irrelevante a área das terras de cultura que possui, a quantidade de dinheiro que empresta a juros, o número de clientes, o preço do leito em que dorme ou a transparência dos seus cristais: interessa é saber até que ponto ele é bom. Um homem será bom se a sua razão for desenvolvida e justa, e se estiver adequada à plena realização da natureza humana. É a isto que se chama “virtude”, nisto consiste o bem moral, que é o único bem próprio do homem. (Sêneca, Cartas a Lucílio, LXXVI, 14-16; trad. J. A. Segurado e Campos)

Para finalizar, digo apenas que me deu grande prazer redigir esta comparação. Ficou mais longa que o previsto, admito, mas creio ter conseguido esclarecer algumas coisas para mim mesmo: de fato, vistas de perto, as diferenças entre vulcanos e estoicos me parecem de grande monta. E fecho com uma constatação do físico Marcelo Gleiser, no bom artigo “O que aprendi com os ETs”, em que fala da maneira como, por meio da ficção científica, projetamos as potencialidades humanas nas civilizações alienígenas imaginárias: “De modo bem concreto, somos nós os alienígenas. A pluralidade de representações ficcionais destes reflete o que sabemos do mundo, o que sabemos de nós, os nossos medos e expectativas, as nossas esperanças e desespero”.

Não é fascinante dar-se conta disso?

*Por Donato Ferrara (publicado originalmente em “De vita stoica”)

 

 

 

 

……………………………………………………..
*Fonte: socientifica

Filósofo defende importância de ficar em silêncio e caminhar nos dias de hoje

O pensador francês, autor de livros como El silencio e Elogio del caminar, descreve o seu ideário nesta entrevista concedida ao Grupo Joly, antes de pronunciar uma conferência em La Térmica.

O pensador francês David Le Breton é doutor em Sociologia pela Universidade Paris VII e professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Ciências Humanas Marc Bloch, de Estrasburgo. Ele publicou recentemente um livro chamado El silencio, Elogio del caminar e Desaparecer de sí: una tentación contemporánea, no qual afira que, a fim de combatermos a desumanização dos dias atuais, é preciso apostar em formas concretas de resistência.

Dentre um dos tipos de resistência sugeridos, Le Breton destaca o silêncio.

Boa parte da nossa relação com o ruído procede do desenvolvimento tecnológico, especialmente em seu caráter mais portátil: sempre carregamos sobre nós dispositivos que nos recordam que estamos conectados, que nos avisam quando recebemos uma mensagem, que organizam os nossos horários com base no ruído. Esta circunstância veio incorporar-se às que já haviam tomado forma no século XX como hábitos contrários ao silêncio, especialmente nas grandes cidades, governadas pelo tráfego de veículos e por numerosas variedades de contaminação acústica. Neste contexto, o silêncio implica uma forma de resistência, uma maneira de manter a salvo uma dimensão interior frente às agressões externas. O silêncio permite-nos ser conscientes da conexão que mantemos com esse espaço interior, o silêncio a visibiliza, enquanto o ruído a esconde. Outra maneira de nos conectarmos com o nosso interior é o caminhar, que transcorre no mesmo silêncio. O maior problema, provavelmente, é que a comunicação eliminou os mecanismos próprios da conversação e se tornou altamente utilitarista com base nos dispositivos portáteis. E a pressão psicológica que suportamos para os armazenar é enorme.

saber ficar sozinho – Filósofo defende importância de ficar em silêncio e caminhar nos dias de hoje

O pensador destaca que diferentes culturas tendem a encarar o silêncio de maneira diferente. Por exemplo, na tradição japonesa existe uma noção muito importante de disciplina interior, cristalizada em sistemas de pensamento como a filosofia zen.

O silêncio é a expressão mais verdadeira e efetiva das coisas inomináveis. E a tomada de consciência de que há determinadas experiências para as quais a linguagem não serve, ou que a linguagem não alcança, é um traço decisivo do conhecimento. Nesse sentido, tradições como a cristã, em que o silêncio é muito importante, tornam-se reveladoras: a sabedoria dirige-se a compreender o que não se pode dizer, o que transcende a linguagem. Nessa mesma tradição, o silêncio é uma via de aproximação de Deus, o que também se pode interpretar como um conhecimento. Podemos utilizar o silêncio para nos conhecermos melhor, para nos distanciarmos do ruído. E este é um valor a reivindicar no presente.

Mas como abrir espaço para o silêncio em nossas vidas? O pensador defende a meditação como uma forma de nos encontrarmos com nós mesmos, e assim criarmos um espaço de reflexão em nosso cotidiano. Para Le Breton, ter feito o caminho de Compostela foi um experiência que mudou a sua vida, nesse sentido.

A minha melhor experiência nesse sentido, a definitiva, foi no Caminho de Santiago: quando cheguei enfim a Compostela, compreendi que eu havia me transformado completamente, depois de numerosos dias em marcha e em absoluto silêncio. Foi um renascimento.

Além do silêncio, o pensador defende a livre caminhada ou, como ele gosta de chamar, o vagar sem uma meta concreta.

Caminhar é outra forma de tomar consciência de si, de reparar no próprio corpo, na respiração, no silêncio interior. Na Idade Média havia aqueles que se dispunham intensamente a caminhar no deserto. Porém, a prática do caminhar nas cidades encerra conotações relacionadas ao prazer. Trata-se de desfrutar daquilo que você percebe, de se deleitar com os atrativos que a cidade lhe oferece pelos sentidos. É uma atividade hedonista.

O pensador comenta que atualmente o planejamento das cidades parecem se opor cada vez maior ao ato de caminhar sem rumo, pois criam obstáculos à caminhada, sob a figura de shoppings e outros centros comerciais.

O fato de caminhar por suas ruas sem nenhum interesse em comprar ou em gastar dinheiro, somente em vagar sem rumo, daqui até ali, porque sim, também é uma forma de deixá-las mais humanas, de rebelar-se contra as ordens que convertem todas e cada uma das interações humanas num processo econômico

Para o pensador francês, é possível resistir à velocidade do cotidiano e retomar controle sobre a própria vida cultivando o silêncio e a caminhada. Em seus livros, ele aprofunda a sua reflexão e comenta como tem mantido esses hábitos em sua vida. Mas nós queremos saber: como você encara isso? Você concorda com Le Breton? Pratica o silêncio e a caminhada? Acredita que essas práticas ajudariam você na sua vida?

……………………………………………………………………
*Fonte: maisvibes

“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”

As Torres Gêmeas, edifícios idênticos que se refletem mutuamente, um sistema fechado em si mesmo, impondo o igual e excluindo o diferente e que foram alvo de um ataque que abriu um buraco no sistema global do igual. Ou as pessoas praticando binge watching (maratonas de séries), visualizando continuamente só aquilo de que gostam: mais uma vez, multiplicando o igual, nunca o diferente ou o outro… São duas das poderosas imagens utilizadas pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959), um dos mais reconhecidos dissecadores dos males que acometem a sociedade hiperconsumista e neoliberal depois da queda do Muro de Berlim. Livros como A Sociedade do Cansaço, Psicopolítica e A Expulsão do Diferente reúnem seu denso discurso intelectual, que ele desenvolve sempre em rede: conecta tudo, como faz com suas mãos muito abertas, de dedos longos que se juntam enquanto ajeita um curto rabo de cavalo.

“No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação”, alertou em sua palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), na Espanha, onde o professor formado e radicado na Alemanha falou sobre a expulsão da diferença. E expôs sua particular visão de mundo, construída a partir da tese de que os indivíduos hoje se autoexploram e têm pavor do outro, do diferente. Vivendo, assim, “no deserto, ou no inferno, do igual”.

Autenticidade.
Para Han, as pessoas se vendem como autênticas porque “todos querem ser diferentes uns dos outros”, o que força a “produzir a si mesmo”. E é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque “nessa vontade de ser diferente prossegue o igual”. Resultado: o sistema só permite que existam “diferenças comercializáveis”.

Autoexploração.
Na opinião do filósofo, passou-se do “dever fazer” para o “poder fazer”. “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout”. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento.

‘Big data’.
”Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual… Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”. A revolta implicaria em deixar de compartilhar dados ou sair das redes sociais? “Não podemos nos recusar a fornecê-los: uma serra também pode cortar cabeças… É preciso ajustar o sistema: o ebook foi feito para que eu o leia, não para que eu seja lido através de algoritmos… Ou será que o algoritmo agora fará o homem? Nos Estados Unidos vimos a influência do Facebook nas eleições… Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias”.

Comunicação.
“Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”.

Jardim.
“Eu sou diferente; estou cercado de aparelhos analógicos: tive dois pianos de 400 quilos e por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações… Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, fazia tudo com as mãos; o digital não pesa, não tem cheiro, não opõe resistência, você passa um dedo e pronto… É a abolição da realidade; meu próximo livro será esse: Elogio da Terra. O Jardim Secreto. A terra é mais do que dígitos e números.

Narcisismo.
Han afirma que “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. O problema reside no fato de que “o narcisista é cego na hora de ver o outro” e, sem esse outro, “não se pode produzir o sentimento de autoestima”. O narcisismo teria chegado também àquela que deveria ser uma panaceia, a arte: “Degenerou em narcisismo, está ao serviço do consumo, pagam-se quantias injustificadas por ela, já é vítima do sistema; se fosse alheia ao sistema, seria uma narrativa nova, mas não é”.

Os outros.
Esta é a chave para suas reflexões mais recentes. “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”. Por isso propõe “retornar ao animal original, que não consome nem se comunica de forma desenfreada; não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo… Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente; o mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”.

Refugiados.
Han é muito claro: com o atual sistema neoliberal “não se sente preocupação, medo ou aversão pelos refugiados, na verdade são vistos como um peso, com ressentimento ou inveja”; a prova é que logo o mundo ocidental vai veranear em seus países.

Tempo.
É preciso revolucionar o uso do tempo, afirma o filósofo, professor em Berlim. “A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”.

O “Monstro” da União Europeia

“Estamos na Rede, mas não escutamos o outro, só fazemos barulho”, diz Byung-Chul Han, que viaja o necessário, mas não faz turismo “para não participar do fluxo de mercadorias e pessoas”. Também defende uma política nova. E a relaciona com a Catalunha, tema cuja tensão atenua brincando:

“Se Puigdemont prometer voltar ao animal original, eu me torno separatista”.

Já no aspecto político, enquadra o assunto no contexto da União Europeia: “A UE não foi uma união de sentimentos, mas sim comercial; é um monstro burocrático fora de toda lógica democrática; funciona por decretos…; nesta globalização abstrata acontece um duelo entre o não lugar e a necessidade de ser de um lugar concreto; o especial é incômodo, gera desassossego e arrebenta o regional. Hegel dizia que a verdade é a reconciliação entre o geral e o particular e isso, hoje, é mais difícil…”. Mas recorre à sua revolução do tempo: “O casamento faz parte da recuperação do tempo livre: vamos ver se haverá um casamento entre a Catalunha e Espanha, e uma reconciliação”.

…………………………………………………………………..
*Fonte: elpais / Por Carles Geli

A filosofia por trás do lobo no provérbio siciliano

Desde o começo do Império Romano e até mesmo antes, vindo dos povos que vieram a fundar a cidade de Roma, a figura do Lobo sempre esteve presente.

Mas o que significa está imagem? O que ela representa? Por que nós sicilianos em nosso provérbio dizemos que Leões e Tigres são fortes, mas lobos não trabalham em circos?

A imagem da Loba amamentando Rômulo e Remo significa que aquele povo era como uma alcateia, tanto que os princípios da Gravitas Romana são princípios de alcateia.

“Um lobo é um animal que simbolicamente representa várias coisas, como a coragem, a disciplina, a honra, a fidelidade (principalmente pela sua família/alcateia), o respeito pelos seus semelhantes, e tantos outros valores tradicionais que deveriam preencher o homem. O “cão” é o homem que se perdeu em seus valores e foi amansado. Ainda continua fiel, mas sua fidelidade é doentia e cega a ponto de esquecer quem realmente é, tendo assim seus valores derrubados por ordens superiores. O “cão” é a representação fiel ao homem pós-moderno, onde está acomodado em sua vida, come o que colocam no seu pote e só ladra para aquilo que ameaça desconstruir a realidade dele.” – Bruno Formagio

O lobo em si, é uma visão diplomática do que o homem deveria seguir em relação a seus princípios éticos. O que vemos hoje, temo que seja simplesmente uma imagem dos homens que tornaram-se “cães”.

Homens deixaram há muito tempo de ser lobos, atualmente são meros “cães” adestrados e manipulados. “Cães” que andam abanando o rabo para qualquer novidade que julguem interessante. Só saem de coleira no pescoço, guiados pelo “dono” para andar em círculos ao redor do quarteirão, sempre tentando marcar seu território ilusoriamente e comendo ração de “qualidade”, que não passa de sobras do banquete principal.

Você pode ser um lobo, um tigre, um leão. Mas o que você tem que aprender é viver para proteger sua família, seus princípios e não ser adestrado para se tornar um “cão” ou um “gatinho” meramente criado para entretenimento. Use a cabeça, tenha suas ideias, seja cordial, honesto e ande na sua “matilha/alcateia/bando”, onde todos devem proteger um ao outro. Se você conseguir essa façanha, estará vários passos à frente desse grande canil que se tornou o mundo.

Um lobo nunca abandona seu irmão, um lobo nunca aceita ser subjugado por um estranho e defende com a vida seus valores, um lobo é fiel aos seus, o lobo não se vende.

E você é um lobo? Ou é um cão que tem até seus valores, mas se acovarda muitas vezes? Ou você é um leão forte imponente, mas ao estalo de um chicote age como um gatinho?

Nós sicilianos somos lobos, lutamos por nossa alcateia, nunca nos curvamos por mais forte que seja o inimigo, calmamente nós o cercamos, nossa união retira nossa momentânea desvantagem, e logo nosso inimigo está no chão a ser dilacerado, e aquilo que era forte e amedrontador virou nosso alimento.

Davvero amici seja em qual situação da vida que você esteja passando, pode escrever o que digo, se não tiveres espirito de lobo, você será subjugado, e acabará no circo sendo entretenimento de fracassados.

Il Lupo è coraggio, lealtà, fedeltà, onore, vendetta e Omertà.
Cent’anni a tutti!

*Por: Luigi Pallazzolo

…………………………………………………………
*Fonte: cosanostranews

“Seguindo o Universo” ou “Freud e o Inquietante”

Li, não me lembro onde, que certa vez Isaac Newton teria recebido a visita de um amigo em sua casa que teria ficado intrigado com uma ferradura de cavalo próxima à porta. Não resistindo à curiosidade, teria perguntado ao formulador lei da gravidade se ele de fato acreditava que o objeto traria boa sorte. Ao que o cientista teria respondido: “Claro que não. Mas ouvi dizer que funciona mesmo assim”.

Pesquisando um pouco, vi que a frase já foi atribuída a Bohr e a Einstein, entre outros, e que na verdade nem se sabe se ela realmente foi dita por qualquer um deles. Mesmo assim, a anedota tem seu apelo: até as mentes de mais aguçada razão não vão deixar de ter algum grau de superstição, ainda que em muitos casos façam de tudo para nela não acreditar.

Até as mentes de mais aguçada razão não vão deixar de ter algum grau de superstição, ainda que em muitos casos façam de tudo para nela não acreditar.

 

De qualquer forma, difícil negligenciar coincidências que se tornam recorrentes. Imagine o caso de um mesmo número que insiste em se repetir (o número do quarto do hotel é o mesmo da poltrona no cinema, que é também o preço do táxi de volta, por exemplo). Não será apenas notado. Provavelmente vai causar um certo estranhamento… Algo que Freud trata no ensaio “O inquietante”, de 1919 . Inquietante é a tradução para o português do original alemão unheimliche, que, pela Wikipedia, refere-se a algo que não é propriamente misterioso, mas “estranhamente familiar, suscitando uma sensação de angústia, confusão e estranhamento”.

Segundo Freud, entre as diversas origens desse estranhamento estaria a “onipotência dos pensamentos”, uma espécie de “supervalorização narcisista que uma pessoa teria de seus próprios processos mentais”. Em outras palavras, uma crença arcaica no poder mágico dos pensamentos, os quais seriam capazes de fazer com que desejos se realizassem. “Nós – ou nossos ancestrais primitivos – um dia acreditamos que essas possibilidades eram realidades, e estávamos convencidos de que elas realmente aconteciam. Hoje em dia, não mais temos tal crença, ultrapassamos esses modos de pensamento. […] Uma experiência misteriosamente inquietante [unheimliche] ocorre tanto quando complexos infantis que foram reprimidos são reavivados por alguma impressão, ou quando crenças primitivas que foram ultrapassadas parecem uma vez mais ser confirmadas”. Por exemplo: queria muito que chovesse para não ter que sair amanhã, e acordo com o barulho de um temporal. Algo lá no fundo parece querer me dizer que fui capaz de mudar o tempo.

Realmente, um pensamento assim parece um tanto exagerado nos dias de hoje. O avanço da ciência fez que os “pensamentos mágicos” parecessem algo meio ridículo. A ironia é que isso tenha ocorrido não sem a criação de pelo menos um substituto que também de certa forma exerce apelo ao narcisismo existente em cada um de nós. Diria ser algo como uma crença na “onipotência das ações”. Só aquilo pelo qual batalhei é passível de valorização? O que realizo com facilidade não é digno de reconhecimento?

Trabalhar é, de certa forma, pôr em prática algo que não aconteceria espontaneamente. Qualquer que seja o trabalho que realizemos, ele sempre “muda o mundo”, ainda que infinitesimalmente. Assim, é meio óbvio que quanto mais fizermos as coisas acontecerem de uma determinada maneira, que quanto mais “mudarmos o mundo”, mais seremos recompensados. Claro: mais valor terá sido criado quanto mais as coisas tenham ocorrido em dissonância de seu fluxo natural. Quem já carrega em si uma certa tendência à obsessão acaba recebendo um “reforço negativo”: promoções, salários maiores indicando que vale a pena agir de maneira obsessiva, tentar controlar tudo. E aí essa tal de “onipotência das ações” acaba virando um vício.

 

Quem já carrega em si uma certa tendência à obsessão acaba recebendo um “reforço negativo”: promoções, salários maiores indicando que vale a pena agir de maneira obsessiva, tentar controlar tudo.

 

Quanto maior o sucesso obtido no plano profissional, mais seremos tentados a acreditar que somos capazes e devemos fazer as coisas acontecerem de uma determinada maneira pré-concebida. Estaremos tentados a interferir em tudo com nossos atos. Em todos as demais esferas da vida. Recebemos todos os sinais de que nosso trabalho não é compatível com nossa vocação, mas movemos mundos e fundos para fazer dar certo. Treinamos na academia com uma lesão porque aguentar a dor parece mais importante do que abrir mão de um determinado objetivo – mesmo que esse objetivo tenha sido criado puramente por nós mesmos.

Parece esoterismo falar em “seguir o universo” – ainda que o universo, o cosmos, tenha sido o modelo de vida dentro da mitologia que originou a racionalidade ocidental, a grega. Mas não precisa ter nada de sobrenatural. Não é preciso nenhuma fé para se guiar por algo além da razão. Uma intuição de que algo “feels right” pode ser suficiente. Mudar de ideia. Seguindo a terminologia do próprio Freud, ir atrás do princípio do prazer. E não puramente da vontade cega de fazer. Uma queda d’água sempre encontra o caminho de menor resistência, até porque não quer desafiar as leis da física. Sem esforço.

Talvez por isso Newton tenha descoberto a lei da gravidade: por ter deixado abertos os canais de sua intuição! Teria algum valor toda a racionalidade da física newtoniana sem aquela sacada inicial da maçã?

 

 

 

…………………………………………………….
*Fonte: blumvivante

23 Frases Brilhantes de Dostoiévski que vão Libertar sua Mente

Fyodor Dostoyevsky é um dos escritores mais famosos da literatura mundial. Suas obras interrogam as questões mais difíceis e importantes sobre a vida e da morte.

…………….

Você tem que amar a vida além doo significado da própria vida.

…………….

Dar um novo passo, pronunciar uma nova palavra: eis o que as pessoas mais temem.

…………….

Existe um limite na mente das pessoas sobre quão longe é seguro ir. Após cruzar essa linha é impossível voltar atrás.

…………….

Felicidade não está na felicidade, mas sim na sua busca.

…………….

Quando você para de ler livros, você para de pensar.

…………….

Liberdade não está na restrição, mas sim no controle de si mesmo.

…………….

Felicidade não vem do conforto, mas sim do sofrimento.

…………….

Num coração verdadeiramente amoroso, ou o ciúme mata o amor, ou o amor mata o ciúme.

…………….

Não é necessário muito para destruir uma pessoa. Basta convencê-la de que todo o seu trabalho não possuiu nenhum significado.

…………….

O silêncio é sempre bonito, e uma pessoa silenciosa é sempre mais bonita do que alguém que fala muito.

…………….

Uma pessoa pode ser sábia, mas para agir com sabedoria a inteligência não é suficiente.

…………….

Você nunca alcançará seu destino se você parar e jogar pedras em cada cachorro que latir.

…………….

Quero falar sobre tudo com pelo menos uma pessoa enquanto falo sobre essas as coisas comigo mesmo.

…………….

É incrível o que apenas um raio de luz solar pode fazer pela sua alma.

…………….

É preciso conversar com os outros de uma maneira que revele os pensamentos mais internos através do rosto, que revele os problemas do coração diretamente em suas palavras. Uma palavra dita com o convicção, com total sinceridade, sem hesitação, enquanto se olha para os olhos de outra pessoa, significa mais que dezenas de páginas de um livro.

…………….

Viver sem um objetivo é sufocante.

…………….

A alma é curada na presença de crianças.

…………….

Mesmo uma pessoa de mãos atadas pode fazer o bem, se desejar.

…………….

A beleza salvará o mundo.

…………….

As pessoas falam de crueldade bestial, mas essa é uma grande injustiça e insulto para os animais. Uma besta nunca pode ser tão artisticamente cruel quanto um homem.

…………….

Adultos se esquecem que as crianças podem dar conselhos extremamente bons, mesmo nos casos mais difíceis.

…………….

Não preencha sua memória com todas as vezes que você se sentiu ofendido; você pode acabar sem espaço para guardar os momentos mais maravilhosos que você experimentou.

…………….

Uma pessoa que sabe como abraçar outra é uma boa pessoa.

…………….

 

 

 

 

………………………………………………..
*Fonte: sociologialiquida

O Mito da Caverna – (Platão)

É Platão quem nos dá uma idéia magnífica sobre a questão da ordem implícita e explícita no seu célebre “Mito da Caverna” que se encontra no centro do Diálogo A República.

O Mito da Caverna

Vejamos o que nos diz Platão, através da boca de Sócrates:

Imaginemos homens que vivam numa caverna cuja entrada se abre para a
luz em toda a sua largura, com um amplo saguão de acesso. Imaginemos que esta caverna seja habitada, e seus habitantes tenham as pernas e o pescoço amarrados de tal modo que não possam mudar de posição e tenham de olhar apenas para o fundo da caverna, onde há uma parede. Imaginemos ainda que, bem em frente da entrada da caverna, exista um pequeno muro da altura de um homem e que, por trás desse muro, se movam homens carregando sobre os ombros estátuas trabalhadas em pedra e madeira, representando os mais diversos tipos de coisas. Imaginemos também que, por lá, no alto, brilhe o sol. Finalmente, imaginemos que a caverna produza ecos e que os homens que passam por trás do muro estejam falando de modo que suas vozes ecoem no fundo da caverna.

Se fosse assim, certamente os habitantes da caverna nada poderiam ver além das sombras das pequenas estátuas projetadas no fundo da caverna e ouviriam apenas o eco das vozes. Entretanto, por nunca terem visto outra coisa, eles acreditariam que aquelas sombras, que eram cópias imperfeitas de objetos reais, eram a única e verdadeira realidade e que o eco das vozes seriam o som real das vozes emitidas pelas sombras.

Suponhamos, agora, que um daqueles habitantes consiga se soltar das correntes que o prendem. Com muita dificuldade e sentindo-se freqüentemente tonto, ele se voltaria para a luz e começaria a subir até a entrada da caverna. Com muita dificuldade e sentindo-se perdido, ele começaria a se habituar à nova visão com a qual se deparava. Habituando os olhos e os ouvidos, ele veria as estatuetas moverem-se por sobre o muro e, após formular inúmeras hipóteses, por fim compreenderia que elas possuem mais detalhes e são muito mais belas que as sombras que antes via na caverna, e que agora lhes parece algo irreal ou limitado.

Suponhamos que alguém o traga para o outro lado do muro. Primeiramente ele ficaria ofuscado e amedrontado pelo excesso de luz; depois, habituando-se, veria as várias coisas em si mesmas; e, por último, veria a própria luz do sol refletida em todas as coisas. Compreenderia, então, que estas e somente
estas coisas seriam a realidade e que o sol seria a causa de todas as outras coisas.

Mas ele se entristeceria se seus companheiros da caverna ficassem ainda em sua obscura ignorância acerca das causas últimas das coisas. Assim, ele, por amor, voltaria à caverna a fim de libertar seus irmãos do julgo da ignorância e dos grilhões que os prendiam. Mas, quando volta, ele é recebido como um louco que não reconhece ou não mais se adapta à realidade que eles pensam ser a verdadeira: a realidade das sombras. E, então, eles o desprezariam….

Platão

……………………………………………………………….
*Fonte: holos

25 frases de Fiódor Dostoiévski que vão te fazer pensar

Dostoiévski foi um escritor que penetrou nos cantos mais escuros da alma russa. Ele é considerado um psicólogo da escrita e um pesquisador do coração humano, porque compadecia o sofrimento dos seus personagens. O que eles sentiam, ele havia conhecido na própria pele.

O Incrível.club juntou 25 frases marcantes deste escritor. Elas vão te fazer refletir por um bom tempo.

…………………………….

Devemos amar mais a vida do que o sentido da vida.

Nenhum dos dois dará o primeiro passo porque ambos pensam que não é mútuo.

Tudo tem uma linha e cruzá-la é perigoso; uma vez cruzada, é impossível voltar atrás.

Felicidade é saber alcançar a felicidade.

O povo aproveita o próprio sofrimento.

Parar de ler livros é parar de pensar.

Liberdade não é conter-se, é saber se controlar.

Não há felicidade na comodidade; a felicidade se compra com o sofrimento.

Em um coração que ama de verdade, ou o ciúme mata o amor, ou o amor mata o ciúme.

Não é preciso muito para matar uma pessoa: basta convencê-la de que ninguém precisa do que ela faz.

Meu amigo, lembre-se: ficar em silêncio é bom, seguro e bonito.

Um escritor cujas obras não fizeram sucesso, facilmente se transforma em um crítico ácido; como um vinho ruim e sem sabor que se transforma em vinagre.

É uma pessoa inteligente, mas para agir com inteligência ela não é suficiente.

Se, ao tentar alcançar um objetivo, você parar para jogar pedras em cada cachorro que latir, você nunca vai chegar ao final.

Quero poder falar de tudo com pelo menos uma pessoa, até comigo mesmo.

É surpreendente o que um raio de sol pode fazer com a alma humana!

É preciso falar cara a cara para poder ler a alma no rosto, para que o coração soe em palavras. Uma palavra dita com convicção, com plena sinceridade e sem medo, vale muito mais que dez folhas de papel cobertas de palavras.

A vida é salva sem um propósito.

A alma se cura ao lado das crianças.

Quem quer ser útil, até com as mãos atadas pode fazer o bem.

A beleza salvará o mundo.

Às vezes, se fala na brutalidade animal do ser humano, mas isso é incrivelmente injusto e insultante para as feras; um animal nunca poderia ser tão cruel como o ser humano, tão artisticamente cruel.

Os adultos não sabem que uma criança pode dar um conselho extremamente importante até em um assunto super complicado.

Não encha a sua memória com rancores para que não falte espaço para os momentos bonitos.

A pessoa que sabe abraçar é uma boa pessoa.

………………………………………………………
*Fonte: incrivelclub

“A era do humanismo está terminando” – Achille Mbembe

Achille Mbembe (1957, Camarões francês) é historiador, pensador pós-colonial e cientista político; estudou na França na década de 1980 e depois ensinou na África (África do Sul, Senegal) e Estados Unidos. Atualmente, ensina no Wits Institute for Social and Economic Research (Universidade de Witwatersrand, África do Sul). Ele publicou Les Jeunes et l’ordre politique en Afrique noire (1985), La naissance du maquis dans le Sud-Cameroun. 1920-1960: histoire des usages de la raison en colonie (1996), De la Postcolonie, essai sur l’imagination politique dans l’Afrique contemporaine (2000), Du gouvernement prive indirect (2000), Sortir de la grande nuit – Essai sur l’Afrique décolonisée (2010), Critique de la raison nègre (2013). Seu novo livro, The Politics of Enmity, será publicado pela Duke University Press neste ano de 2017.

O artigo foi publicado, originalmente, em inglês, no dia 22-12-2016, no sítio do Mail & Guardian, da África do Sul, sob o título “The age of humanism is ending” e traduzido para o espanhol e publicado por Contemporea filosofia, 31-12-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo:

Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016.

Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo.

Nos Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow.

A Europa continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural Stuart Hall chamou de populismo autoritário. Apesar dos complexos acordos alcançados nos fóruns internacionais, a destruição ecológica da Terra continuará e a guerra contra o terror se converterá cada vez mais em uma guerra de extermínio entre as várias formas de niilismo.

As desigualdades continuarão a crescer em todo o mundo. Mas, longe de alimentar um ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão cada vez mais a forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais.

A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa.

Com o triunfo desta aproximação neodarwiniana para fazer história, o apartheid, sob diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma. Sua restauração abrirá caminho para novos impulsos separatistas, para a construção de mais muros, para a militarização de mais fronteiras, para formas mortais de policiamento, para guerras mais assimétricas, para alianças quebradas e para inumeráveis divisões internas, inclusive em democracias estabelecidas.

Nenhuma das alternativas acima é acidental. Em qualquer caso, é um sintoma de mudanças estruturais, mudanças que se farão cada vez mais evidentes à medida que o novo século se desenrolar. O mundo como o conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, com os longos anos da descolonização, a Guerra Fria e a derrota do comunismo, esse mundo acabou.

Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo.

O capitalismo e a democracia liberal triunfaram sobre o fascismo em 1945 e sobre o comunismo no começo dos anos 1990 com a queda da União Soviética. Com a dissolução da União Soviética e o advento da globalização, seus destinos foram desenredados. A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização.

Apoiado pelo poder tecnológico e militar, o capital financeiro conseguiu sua hegemonia sobre o mundo mediante a anexação do núcleo dos desejos humanos e, no processo, transformando-se ele mesmo na primeira teologia secular global. Combinando os atributos de uma tecnologia e uma religião, ela se baseava em dogmas inquestionáveis que as formas modernas de capitalismo compartilharam relutantemente com a democracia desde o período do pós-guerra – a liberdade individual, a competição no mercado e a regra da mercadoria e da propriedade, o culto à ciência, à tecnologia e à razão.

Cada um destes artigos de fé está sob ameaça. Em seu núcleo, a democracia liberal não é compatível com a lógica interna do capitalismo financeiro. É provável que o choque entre estas duas ideias e princípios seja o acontecimento mais significativo da paisagem política da primeira metade do século XXI, uma paisagem formada menos pela regra da razão do que pela liberação geral de paixões, emoções e afetos.

Nesta nova paisagem, o conhecimento será definido como conhecimento para o mercado. O próprio mercado será re-imaginado como o mecanismo principal para a validação da verdade. Como os mercados estão se transformam cada vez mais em estruturas e tecnologias algorítmicas, o único conhecimento útil será algorítmico. Em vez de pessoas com corpo, história e carne, inferências estatísticas serão tudo o que conta. As estatísticas e outros dados importantes serão derivados principalmente da computação. Como resultado da confusão de conhecimento, tecnologia e mercados, o desprezo se estenderá a qualquer pessoa que não tiver nada para vender.

A noção humanística e iluminista do sujeito racional capaz de deliberação e escolha será substituída pela do consumidor conscientemente deliberante e eleitor. Já em construção, um novo tipo de vontade humana triunfará. Este não será o indivíduo liberal que, não faz muito tempo, acreditamos que poderia ser o tema da democracia. O novo ser humano será constituído através e dentro das tecnologias digitais e dos meios computacionais.

A era computacional – a era do Facebook, Instagram, Twitter – é dominada pela ideia de que há quadros negros limpos no inconsciente. As formas dos novos meios não só levantaram a tampa que as eras culturais anteriores colocaram sobre o inconsciente, mas se converteram nas novas infraestruturas do inconsciente. Ontem, a sociabilidade humana consistia em manter os limites sobre o inconsciente. Pois produzir o social significava exercer vigilância sobre nós mesmos, ou delegar a autoridades específicas o direito de fazer cumprir tal vigilância. A isto se chamava de repressão.

A principal função da repressão era estabelecer as condições para a sublimação. Nem todos os desejos podem ser realizados. Nem tudo pode ser dito ou feito. A capacidade de limitar-se a si mesmo era a essência da própria liberdade e da liberdade de todos. Em parte graças às formas dos novos meios e à era pós-repressiva que desencadearam, o inconsciente pode agora vagar livremente. A sublimação já não é mais necessária. A linguagem se deslocou. O conteúdo está na forma e a forma está além, ou excedendo o conteúdo. Agora somos levados a acreditar que a mediação já não é necessária.

Isso explica a crescente posição anti-humanista que agora anda de mãos dadas com um desprezo geral pela democracia. Chamar esta fase da nossa história de fascista poderia ser enganoso, a menos que por fascismo estejamos nos referindo à normalização de um estado social da guerra. Tal estado seria em si mesmo um paradoxo, pois, em todo caso, a guerra leva à dissolução do social. No entanto, sob as condições do capitalismo neoliberal, a política se converterá em uma guerra mal sublimada. Esta será uma guerra de classe que nega sua própria natureza: uma guerra contra os pobres, uma guerra racial contra as minorias, uma guerra de gênero contra as mulheres, uma guerra religiosa contra os muçulmanos, uma guerra contra os deficientes.

O capitalismo neoliberal deixou em sua esteira uma multidão de sujeitos destruídos, muitos dos quais estão profundamente convencidos de que seu futuro imediato será uma exposição contínua à violência e à ameaça existencial. Eles anseiam genuinamente um retorno a certo sentimento de certeza – o sagrado, a hierarquia, a religião e a tradição. Eles acreditam que as nações se transformaram em algo como pântanos que necessitam ser drenados e que o mundo tal como é deve ser levado ao fim. Para que isto aconteça, tudo deve ser limpo. Eles estão convencidos de que só podem se salvar em uma luta violenta para restaurar sua masculinidade, cuja perda atribuem aos mais fracos dentre eles, aos fracos em que não querem se transformar.

Neste contexto, os empreendedores políticos de maior sucesso serão aqueles que falarem de maneira convincente aos perdedores, aos homens e mulheres destruídos pela globalização e pelas suas identidades arruinadas.

A política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo.

Sob tais condições, o futuro da política de massas de esquerda, progressista e orientada para o futuro, é muito incerto. Em um mundo centrado na objetivação de todos e de todo ser vivo em nome do lucro, a eliminação da política pelo capital é a ameaça real. A transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política.

Se a civilização pode dar lugar a alguma forma de vida política, este é o problema do século XXI.

Fonte: Revista IHU On-line

……………………………………………………
*Fonte: revistaprosaversoearte

A desconstrução do mérito: Foucault e a categorização dos indivíduos como um regime de poder

Desde o processo de socialização primária e diariamente em nosso cotidiano, estamos expostos à uma série de influências discursivas que impregnam a nossa maneira de observar os elementos que ao nosso redor se encontram e mesmo os meios pelos quais exercemos a capacidade de disposição do livre-arbítrio. Certamente algum tempo é necessário para que os sujeitos se apercebam de tais limitações instituídas ao pensamento e passem a refletir criticamente acerca do meio no qual se encontram inseridos. Essa “quebra de correntes” pressupõe primeiramente que aquele que está sob o jugo dessas externalidades capte as interações mais elementares que constituem os nossos relacionamentos em sociedade e os converta mentalmente em panoramas que possam ser dignos de questionamentos ou não, bem como tenha os espaços e as oportunidades para constituir um reflexão autônoma.

Logicamente, esse exercício do intelecto não é uma tarefa fácil e para grande parte dos sujeitos sequer aprazível ou mesmo disponível, tendo em vista que as possibilidades de constituição de olhares próprios no que diz respeito à realidade vem sendo cerceada sistemática e historicamente por uma série de razões “convenientes” que passam fundamentalmente pela manutenção do status quo da presente ordem sócio-econômica vigente. Diante disso, os regimes de poder (e aqui me valho de uma categoria foucaultiana) acabam passando desaperbecidos no momento em que estão sendo praticados. O modus operandi de classificação e categorização dos indivíduos, conhecido por todos nós pelo divino nome “meritocracia”, é um deles. Talvez seja essa uma das mais problemáticas formas de exercício do poder em nossa sociedade, a depender do ponto de vista do observador.

A justificativa da meritocracia em si passa pela ideia de que a organização social se dá da melhor maneira possível quando alguns são recompensados pelos seus esforços hercúleos enquanto outros são punidos por sua incompetência. A noção que está por trás desse argumento joga toda a conta do sucesso ou fracasso de um indivíduo apenas na chamada “responsabilidade individual”, algo que deita raízes em parte do pensamento liberal clássico que chegou, em meados do século XIX e por meio de alguns teóricos, a atribuir a pobreza de ampla gama de pessoas a uma mera questão de dedicação ou talento. Uma das incoerências que aí reside tem a ver com a ignorância acerca dos contextos micro e macro onde os sujeitos se fazem presentes, pois os locais nos quais cada um está inserido pode apresentar limitações ou aberturas de ordem gigantesca, que facilitam ou não a aquisição de diversos tipos de capitais.

Outro ponto frágil dessa crença ideológica é a conclusão “lógica” de que a escolha adequada de meios de auferição do conhecimento e de outros tipos de capacidade dos sujeitos resultarão em uma distribuição mais justa dos bens materiais e imateriais em uma dada sociedade. Uma análise superficial é suficiente para constatar que na verdade os mecanismos avaliatórios disponíveis nada mais são do que perpetuadores das desigualdades que vem de berço (para utilizar a expressão popular), já que àqueles aos quais foi concedido um treinamento específico e de razoável ou grande qualidade, algo que exige capital econômico considerável principalmente quando se trata de sociedades que não dispõem de equipamentos públicos de porte, se faz mais realista um horizonte que contenha como resultante a conquista de “prêmios” pelos seus esforços, no fundo uma resultante das condições estabelecidas.

É evidente que exceções a esse quadro podem vir à tona, mas ao invés de fatos corriqueiros de escape ao poder, elas devem ser pensadas muito mais como pautas fetichistas para a imprensa, que trata de expô-las em matérias que celebram esforços muitas vezes anormais e que nada mais são do que o retrato de uma pirâmide social repleta de abismos e mazelas. Não se trata aqui de enxergar como ideal um mundo no qual há a desvalorização da qualidade de trabalhos bem-feitos ou o desestímulo para que os sujeitos exerçam aquilo para o qual estão melhor vocacionados, até mesmo porque ir nessa direção seria de um simplismo aterrador.

O ponto do qual não se pode escapar é a necessidade de desvelar todas as contradições de um discurso que move paixões em nossa sociedade, enxergando o mérito não como um “dom” concedido divinamente ou uma simples questão de esforço mas como um atributo construído gradualmente e observando atentamente para a meritocracia (regime de exponencialização do mérito) enquanto maneira de eternizar a distribuição dispare dos recursos existentes. Esse regime de poder em exercício, assim como outros, é uma ficção reguladora a ser enfrentada, pois não possui necessariamente um criador ou dono identificável e intencionado, já que o poder, como o próprio Foucault menciona na sua obra, não emana de alguma fonte. Dando alguns passos para pensar nesse sentido, quem sabe novas formas de concessão, mais niveladoras, não possam ser construídas, ainda que no plano das ideias.

Referências bibliográficas:

Michel Foucault, 1926 – 1984. Microfísica do Poder/Michel Foucault; organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machad. – 4. ed. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

…………………………………………………………………….
*Fonte/texto: genialmentelouco

A ideia de uma vida boa foi substituída pela de uma vida a ser invejada

“Um dos mais influentes psicanalistas da Inglaterra, autor de dez livros e editor da nova tradução da obra de Sigmund Freud (1856-1939), Adam Phillips, mais parece um profeta do que um homem da ciência. Pelo menos essa é a ideia que se tem depois de ler a entrevista que ele concedeu à revista Veja em 12 de março de 2003, “Páginas amarelas”), mas que sete anos depois me parece atualizadíssima as questões erguidas por ele, da qual se extraíram as dez denúncias abaixo numeradas:

1. Hoje as pessoas têm mais medo de morrer do que no passado. Há uma preocupação desmedida com o envelhecimento, com acidentes e doenças. É como se o mundo pudesse existir sem essas coisas.

2. A ideia de uma vida boa foi substituída pela de uma vida a ser invejada.

3. Hoje todo mundo fala de sexo, mas ninguém diz nada interessante. É uma conversa estereotipada atrás da outra. Vemos exageros até com crianças, que aprendem danças sensuais e são expostas ao assunto muito cedo. Estamos cada vez mais infelizes e desesperados, com o estilo de vida que levamos.

4. Nos consultórios, qualquer tristeza é chamada de depressão.

5. As crianças entram na corrida pelo sucesso muito cedo e ficam sem tempo para sonhar.

6. No século 14, se as pessoas fossem perguntadas sobre o que queriam da vida, diriam que buscavam a salvação divina. Hoje a resposta é: “ser rico e famoso”. Existe uma espécie de culto que faz com que as pessoas não consigam enxergar o que realmente querem da vida.

7. Os pais criam limites que a cultura não sanciona. Por exemplo: alguns pais tentam controlar a dieta dos filhos, dizendo que é mais saudável comer verduras do que salgadinhos, enquanto as propagandas dão a mensagem diametralmente oposta. O mesmo pode ser dito em relação ao comportamento sexual dos adolescentes. Muitos pais procuram argumentar que é necessário ter um comportamento responsável enquanto a mídia diz que não há limites.

8. [Precisamos] instruir as crianças a interpretar a cultura em que vivemos, ensiná-las a ser críticas, mostrar que as propagandas não são ordens e devem ser analisadas.

9. Uma coisa precisa ficar clara de uma vez por todas: embora reclamem, as crianças dependem do controle dos adultos. Quando não têm esse controle, sentem-se completamente poderosas, mas ao mesmo tempo perdidas. Hoje há muitos pais com medo dos próprios filhos.

10. Ninguém deveria escolher a profissão de psicanalista para enriquecer. Os preços das sessões deveriam ser baixos e o serviço, acessível. Deve-se desconfiar de analistas caros. A psicanálise não pode ser medida pelo padrão consumista, do tipo “se um produto é caro, então é bom”. Todos precisam de um espaço para falar e refletir sobre sua vida.”

 

………………………………………………….
*Fonte: pensadoranonimo

 

SÉRIE: Humano, Demasiado Humano – Martin Heidegger: Projeto Para Viver

Documentário
Humano, Demasiado Humano – Martin Heidegger: Projeto Para Viver

O projeto do tratado Ser e Tempo, foi publicado em 1927 no mesmo ano que Minha Luta (Adolf Hitler). Este programa examina a vida e a filosofia de Martin Heidegger, descreve a sua ascensão a proeminência intelectual, expondo os motivos do seu envolvimento no partido Nazi. Entrevistas com o seu filho, Hermann Heidegger, George Steiner autor de uma influente critica da sua filosofia, contado também com o seu biógrafo Hugo Ott; e ex-aluno de Hans-Georg Gadamer, fornecem novas ideias enquanto se faz uma reconstrução dos momentos chaves da vida de Heidegger. Vida e história de um homem cujos apologistas e os antagonistas ainda amargamente se dividem.

………………………………………………………………
*Fonte: revistaprosaversoearte

 

SÉRIE: Humano, Demasiado Humano – Friedrich Nietzsche: Além do bem e do mal

Documentário
Humano, Demasiado Humano – Friedrich Nietzsche: Além do bem e do mal

A semente do pensamento disseminado por Nietzsche no século 19 prefigurava o piloto do século 20 sobre os conceitos do existencialismo e da psicanálise. Este programa conta com entrevistas de grandes estudiosos do pensamento do Nietzsche sendo eles: Ronald Hayman e Leslie Chamberlain (biógrafos de Nietzsche), Andrea Bollinger (arquivista), Reg Hollingdale (tradutor), Will Self (escritor) e Keith Ansell Pearson (filosofa) que sonda a vida e os escritos de Nietzsche. Além de mostrar também o papel da irmã de Nietzsche na edição das suas obras para o uso como propaganda nazi. Conta também com partes de prosas aforísticas extraídas de obras como a parábola de um louco e assim falou Zaratustra.

………………………………………………………………
*Fonte: revistaprosaversoearte

SÉRIE- Humano, Demasiado Humano (Jean Paul Sartre)

Documentário
Humano, Demasiado Humano – Jean-Paul Sartre: O Caminho Para a Liberdade

Neste episódio é abordada a vida e a obra do mais famoso filósofo existencialista europeu, Jean-Paul Sartre (1905-1980). O homem que passou a vida a desafiar a lógica convencional amava os paradoxos. O documentário expõe estes paradoxos da sua vida e da sua obra, ao mesmo tempo em que ambos são questionados. A pergunta central que é colocada é: Se o ser humano é livre para fazer o que quiser, como justifica Sartre, então como devemos viver as nossas vidas no dia-a-dia?

 

………………………………………………………………
*Fonte: revistaprosaversoearte

 

“Somos inundados de informação e famintos de sabedoria”

Zygmunt Bauman é dos grandes pensadores da Modernidade, conhecido mundialmente por seu célebre conceito de “”liquidez””.

Perspicaz analista dos fatos cotidianos, o sociólogo tem vasta obra sobre temas contemporâneos, com destaque para o best-seller Amor líquido, fundamental para a compreensão das relações afetivas no mundo atual.

Bauman nasceu na Polônia e mora na Inglaterra desde 1971. Professor emérito das Universidades de Varsóvia e Leeds, tem mais de trinta livros publicados no Brasil.

 

……………………………………………………………
*Fonte: pensadorcontemporaneo