Sua vida vai mudar se passar um mês inteiro sem reclamar

Queixa vem do latim, de quassiare, de quassare, que significa golpear violentamente, quebrantar, e expressa uma dor, uma pena, o ressentimento, a inquietação… Um amplo espectro de sensações, mas com um nexo comum: seu caráter negativo. E esse leva ao ódio e, como é bastante sabido, o ódio leva ao lado escuro. Com isso em mente, os amigos Thierry Blancpain e Pieter Pelgrims decidiram estabelecer em fevereiro o projeto Complaint Restraint February. Um mês de 28 dias em que não poderiam reclamar por besteiras.

Os benefícios dessa atitude têm duas caras. Por um lado, aumenta a sensação de felicidade. Por outro, as pessoas se dão conta de que certos conhecidos são muito negativos e te fazem mais infeliz

“Pieter e eu somos amigos há 10 anos, e temos trabalhado juntos em muitos projetos e, no inverno de 2010, tivemos a ideia de deixar de nos queixar por um mês”, conta Blancpain, por e-mail. Esse suíço criador de tipografias não sabe de quem foi a sugestão, mas diz que um dos dois estava dando aborrecimento e o outro pediu que se calasse durante um mês. “Como depois nos sentimos mais felizes, decidimos repetir no ano seguinte”. Em 2014, perguntaram a alguns amigos se queriam se juntar e, depois de verem que também sentiam os efeitos, em 2015 abriram ao público com um site para que divulgassem o experimento. Esperavam ter 50 inscrições. No fim, foram 1.750.

Depois de esclarecer que reclamar não é ruim por si só, Blancpain explica que sua ideia é deixar de reclamar por coisas pequenas que, na verdade, não importam. “A chuva, o bebê que chora no restaurante, o chefe que te faz ficar uma hora a mais no escritório, o ônibus que você perdeu na hora de ir trabalhar”. Acontecimentos que “vistos com perspectiva não têm importância, e que reclamar é uma perda de tempo e de energia”. “Se temos comida, casa, família, amigos… não deveríamos ser felizes?”.

Ainda que reclamar em si não seja ruim, a ideia é não reclamar pelas pequenas coisas. “Se temos comida, casa, família, amigos… não deveríamos ser felizes?”

Segundo Blancpain, os benefícios dessa atitude têm duas caras. Por um lado, aumenta “a sensação de felicidade” e diminui a de “estar esgotado”. Por outro, adquirimos “conhecimentos sobre a forma como nos comunicamos e como se comunicam as pessoas do nosso entorno”. Durante esse mês, afirma que se dá conta de que certos conhecidos são muito negativos e o fazem mais infeliz. “Pode soar duro, mas acho que não é razoável passar tempo com uma pessoa com a qual nos sentimos pior depois”.

Sem serem especialistas em psicologia, Blancpain e Pelgrims têm o conhecimento resultante de anos de prática. Um truque é transformar reclamações em sugestões positivas. “Se alguém vem e me conta alguma pequena coisa negativa sobre seu trabalho, pergunto se não acha que seu chefe horrível é sinal de que deve procurar um novo emprego”. Quando você está mal e não pode estar na rua, sugere ir “ver um filme”. Alguns vão um pouco mais longe e levam um elástico ao redor do punho com o qual causam dor cada vez que se queixam alto, para se condicionar. “No mínimo ajuda, mas o importante não é deixar completamente [isso Blancpain considera impossível], e sim se dar contar e redirecionar essa energia” para aspectos positivos.

Os criadores da iniciativa têm o conhecimento de anos de prática. Um truque é transformar as reclamações em sugestões positivas

Esse foi o primeiro ano que abriram ao grande público. Estimam que foi um êxito. Alguns enviaram e-mails assegurando que tinham tornado suas vidas melhores, outros comentaram que viram um efeito negativo em suas vidas ao se dar conta de que tinham pessoas muito negativas em seu entorno. O sucesso os pegou de surpresa, de forma que na próxima edição pensam em preparar materiais, artigos, experiências… para ajudar a quem quiser se unir.

Escolheram fevereiro por ser o mês mais curto do ano, e seria mais fácil de conseguir, mas parar de reclamar não está limitado a esse período. “Pode deixar de reclamar agora mesmo, esteja onde estiver, e ter um melhor março, abril ou junho”. Só lembre que, se algo “realmente ruim” acontecer em sua vida, melhor “contar a seus amigos”. Supõe-se que tem que se sentir feliz, não miseravelmente sozinho.

*Por Carlos Carbaña
…………………………………………………………………………………….
*Fonte: brasil-elpais

O coronavírus pode matar a atual indústria da música. Talvez ela precisasse morrer

Locais, festivais e músicos enfrentam um futuro precário, mas poderia o Covid-19 ser um catalisador da reforma em uma indústria que subestima seriamente seus artistas?

Por volta das oito horas da noite de 12 de março, Simon Rattle subiu ao palco do Berliner Philharmoniker para um silêncio sinistro. Foi sua performance de retorno com a orquestra que ele liderou como maestro chefe por 16 anos, antes de retornar a Londres em 2018. Os músicos subiram no palco, mas os assentos ao redor estavam vazios.

Rattle virou-se, olhou para a lente de uma câmera e dirigiu-se a uma audiência global de milhares de pessoas que estavam assistindo em casa, confinadas. “Senhoras e senhores, boa noite, onde quer que estejam.” Sob seus cabelos grisalhos, ele parecia um pouco confuso. “Vamos apenas confirmar que isso é muito estranho. Acho que muitos de nós no palco já tiveram experiência em shows de música contemporânea para o que poderíamos chamar de público pequeno, selecionado, mas pelo menos sempre havia alguém para assistir.”

Os músicos atrás dele riram um pouco sem jeito. “Mas nós sentimos que devemos enviar um sinal ou um lembrete, se você preferir, de que, mesmo em tempos de crise, as artes e a música são extremamente importantes, e se nosso público não pode vir até nós, devemos alcançá-lo em qualquer maneira que pudermos. E, francamente, se todos nos acostumarmos a viver mais separadamente por um tempo, precisaremos de música mais do que nunca.”

Ele se virou, fechou os olhos por um momento e depois levantou o bastão.

Lembra de shows? Lembra-se da alegria absoluta de ficar ombro a ombro com estranhos gritando e suando? Ou ser mergulhado em algum líquido jogado de algum lugar atrás de você, esperando que fosse cerveja? Os shows terríveis em que a banda tocou apenas músicas novas? Os shows que mudaram sua vida onde a banda tocou as músicas que você ama, e parecia que eles estavam tocando para você? Você se lembra do barulho, das luzes e da cerimônia de tudo isso?

Tudo acabou agora, aparentemente indefinidamente. O Covid-19 matou o que a Lei de Justiça Criminal e Ordem Pública anti-delírio não fez, o que os idosos do filme Footloose não puderam. No momento, a idéia de respirar o mesmo ar corporal de centenas de estranhos é tão atraente quanto lamber a maçaneta de um hospital. Então, por enquanto, sentamos em casa e ouvimos nossos álbuns favoritos no Spotify, vasculhamos o vinil antigo, sintonizamos shows transmitidos e imaginamos se uma lata quente de cerveja pode fazer com que pareça um pouco mais com a coisa real.

“Não havia nenhuma eventualidade que eu alguma vez imaginei em que todos os shows ao vivo no mundo seriam exibidos simultaneamente”

Enquanto esperamos, a música está morrendo. E se não tomarmos cuidado, pode não haver uma cena ao vivo quando a pandemia terminar. A indústria da música está acostumada com os ventos contrários, mas a natureza indiscriminada do Covid-19 apagou as luzes da noite para o dia. Nenhum gênero é seguro, nenhum preço de ingresso ou tamanho do local protege contra as consequências. “Gosto de planejar eventualidades”, diz Alex Hardee, agente de reservas da agência global Paradigm, que conta com centenas de clientes como Ed Sheeran, My Chemical Romance e FKA Twigs. “Mas não havia nenhuma eventualidade que eu alguma vez imaginei em que todos os shows ao vivo no mundo seriam exibidos simultaneamente.”

A indústria global de música ao vivo vale cerca de US $ 30 bilhões a cada ano. Ou melhor, valia. Em questão de semanas, o Covid-19 encerrou tudo, desde shows de bares a festivais. E, ao fazer isso, também tornou aparente a forma desigual da indústria da música moderna, na qual os artistas são pagos para se apresentar, mas muitas vezes quase nada para a música que gravam.

Um dos truques da era do streaming foi que, embora o Spotify possa ter destruído a renda que você gera com os discos, torna mais fácil para as pessoas encontrarem sua música. Isso aumenta o seu público ao vivo, que é onde você ganha seu dinheiro. Agora, com o público ao vivo em zero, esse acordo parece cada vez mais impraticável.

O que resta é um oceano de músicos querendo, mas incapazes de trabalhar, e uma infra-estrutura circundante de gravadoras, distribuidoras, lojas de discos, locais de música e diretores de turnê que enfrentam uma situação precária para a qual nada poderia tê-los preparado. A única coisa que parece clara é que, independentemente da versão da indústria da música que surgir, ensangüentada, dessa pandemia, ela terá pouca semelhança com a que veio antes.

“É um jogo de volume e apenas os melhores artistas geram fluxos suficientes para se sustentar.”

Nas últimas duas décadas, a turnê substituiu as vendas de discos como a maneira como os artistas ganham a vida. O streaming aumentou a economia de uma indústria que foi construída com base na venda de discos e, 14 anos após a fundação do Spotify, os números ainda não somam. As empresas de streaming pagam apenas uma fração de um centavo por faixa e, dependendo das especificações do acordo assinado, a maior parte desse dinheiro – às vezes até 80% – flui diretamente para as gravadoras, deixando aos artistas uma pequena fatia modesta. Enquanto isso, as vendas físicas estão em declínio, e outros meios de renda, como vendas de mercadorias, não são confiáveis. É um jogo de volume e apenas os melhores artistas geram fluxos suficientes para se sustentar.

Para os artistas, o dinheiro vem em ciclos. Quando eles estão escrevendo e gravando um álbum, a gravadora adianta seus fundos. Quando é lançado, há um aumento nos lucros, muitos dos quais retornam à gravadora para pagar o adiantamento. Eles saem em turnê e tocam em festivais, que arrecadam mais dinheiro, além de vender uma grande quantidade de mercadorias. Então o foco começa a desaparecer e volta ao estúdio, com outro adiantamento, para iniciar o processo novamente.

[…]

Quanto mais nichado o artista, mais nítido é o problema. Para muitos DJs, para quem ‘fazer turnês’ na Europa é tão simples quanto pular em um avião com uma sacola de discos, é difícil ganhar dinheiro com streaming ou vendas físicas, pois a música gravada é apenas uma ferramenta de marketing – faça sucesso e obtenha mais dinheiro.

Artistas como Thibaut Machet, um DJ francês com sede em Berlim, passam a vida voando de boate em boate, fazendo dois ou três shows no fim de semana. Os cachês variam de € 500 a € 1.500 (£ 430 a £ 1300) por apresentação, menos voos e taxas de reserva, mas com clubes em todo o mundo fechados, esse número caiu para zero da noite para o dia.

Machet foi forçado a procurar ajuda do governo alemão. Um subsídio cobre o aluguel de alguns meses, mas ele não sabe quando começará a receber dinheiro novamente. “Você precisa colocar dinheiro para um lado, mas hoje é difícil economizar”, diz ele. “As pessoas pensam que ganhamos muito, mas a realidade não é assim para muitos DJs do meu nível.”

O DJ e escritor britânico Bill Brewster voltou-se para o streaming, na tentativa de preencher a lacuna, buscando doações para sets tocados em sua casa. “Não é até que algo assim aconteça que você percebe o quão precária é a sua vida”, diz ele. Não sendo adivinho, no ano passado ele gastou suas economias em reformas de casas. Sem nada no banco, ele recebeu um cheque de 500 libras da mãe.

Por mais divertido que seja curtir no conforto da sua casa seleções de Disco e House de Brewster, a experiência não pode ser comparada ao ver ele – ou qualquer um – tocando música ao vivo. Não é a mesma coisa, nem dá para comparar o clima envolvente e um sistema de som que mexe com você por dentro.

As doações proporcionaram um pequeno alívio bem-vindo a Brewster, o suficiente para cobrir as despesas semanais com comida, mas para artistas maiores, a transmissão ao vivo se tornou uma oportunidade de se conectar com os fãs mais intimamente do que em um palco de um estádio.

Os tons deliciosos de John Legend são ainda mais impressionantes quando próximos. Eles também são um meio de alcançar aqueles normalmente bloqueados em locais tradicionais, seja por causa de deficiência, local ou limitações financeiras, que abrirão novos mercados no futuro. “O mais difícil para um artista é criar um novo fã”, diz Cory Riskin, agente global de música da APA. “Tradicionalmente, fazemos festivais, mas vimos que esses festivais virtuais são a melhor maneira de atrair novos fãs rapidamente”.

Embora claramente nunca haja um bom momento para uma pandemia global, o coronavírus chegou exatamente quando a indústria da música parecia estar finalmente se adaptando à era do streaming: 2019 foi o quinto ano consecutivo de crescimento e apenas os três principais selos – Universal, Sony e Warner – agora geram quase US $ 800.000 por hora somente com serviços de streaming de música. Mas enquanto os ricos ficam mais ricos, os independentes sofrem.

“Temos um problema em que muita música e arte são essencialmente gratuitas e os artistas recebem uma quantia muito pequena de dinheiro pelo trabalho em que investem toda a sua energia e idéias”, diz McMahon. “Parece que o valor da arte foi desrespeitado pelas empresas que podem ganhar muito dinheiro e distribuir uma quantia muito pequena aos criadores desta arte. Com o atual isolamento social, destacam as estruturas capitalistas em que operamos e como os artistas, juntamente com muitos outros colaboradores da sociedade, são aproveitados.”

Niko Seizov, manager de artistas que trabalha com música eletrônica, acredita que o desbaste do rebanho é inevitável. “À medida que sua renda desaparece, muitos artistas menores precisam começar a procurar empregos, o que os impede de dedicar tempo suficiente a atividades criativas”, diz ele. “Isso prejudicará a indústria da música, porque o progresso criativo e a revolução sempre começam do fundo.”

“Isso prejudicará a indústria da música, porque o progresso criativo e a revolução sempre começam do fundo”

Stanley Dodds, violinista que se juntou a Rattle no palco em março, complementa um salário básico da Berliner Philharmoniker trabalhando como maestro freelancer. Ele viu sua renda cair “imediata e brutalmente”. Ele tem sorte de que a orquestra continue pagando a ele à medida que a crise se desenrola, mas a maioria de seus colegas é freelancer sem rede de segurança.

O Covid-19 pode catalisar a reforma em benefício daqueles que a realizam. Os músicos pediram ao Spotify que triplicasse os pagamentos para cobrir a receita perdida de shows, o que aumentaria a fatia, embora seja improvável que qualquer plataforma de streaming ofereça significativamente mais a longo prazo – o Spotify ainda era pouco rentável no início do ano, e rivais como a Apple Music são basicamente líderes em perdas, projetados para atrair mais usuários para seu ecossistema (como Tim Cook, da Apple, colocou em 2018, “não estamos fazendo isso por dinheiro”).

“O mais difícil para um artista é criar um novo fã. Tradicionalmente, fazemos festivais, mas vimos que esses festivais virtuais são a melhor maneira de atrair novos fãs rapidamente.”

É mais viável que a pandemia acenda uma discussão sobre os contratos de gravação. Embora os serviços de streaming tenham reformulado o vínculo entre varejista e gravadora, a relação artista-gravadora pouco mudou desde os anos setenta.

Os acordos de gravação tradicionais pagam aos artistas uma base de royalties, entre 15 e 20%, com o restante mantido para cobrir itens como marketing, custos de produção e as próprias necessidades de lucro da gravadora. Mas, como diz um executivo, em uma época em que as receitas com royalties caíram, elas são “antiquadas” e impedem muitos artistas de gerar dinheiro real a partir de suas gravações. As gravadoras independentes estão adotando acordos de artistas mais transparentes e personalizados há algum tempo, e o Covid-19 “agitará todo mundo e mostrará que todos precisamos olhar para eles”.

Mesmo que os artistas acabem ganhando mais dinheiro com a música que produzem, a curto prazo, pelo menos, pouco disso fluirá para a indústria que depende de seu trabalho. Exemplo disso é Jono Steer, um engenheiro de som que ia se juntar a McMahon em sua turnê. O engenheiro está na indústria da música há 20 anos e começou a trabalhar com McMahon em sua primeira turnê nacional em 2018. Desde então, ele se tornou um elemento principal em sua equipe, trabalhando em 200 shows. Além de seu papel como engenheiro de FOH de McMahon, Steer também é seu motorista e manager de turnê.

Telegram bannerOs cancelamentos atingiram Steer com força; 60% de sua renda são provenientes de eventos ao vivo. Bandas maiores podem se dar ao luxo de continuar pagando o salário para sua equipe de turnê, com contratos que a protegem de cancelamentos, mas os artistas no início de suas carreiras tendem a pagar sua equipe no dia do show, no dia da viagem e na diária. Mesmo uma pequena turnê exige de tudo, desde roadies a engenheiros de iluminação e técnicos de som, mas poucos têm contratos executáveis em vigor. Quando os shows não acontecem, eles não são pagos.

“Todos os meus colegas foram afetados”, diz Steer, “e alguns não têm perspectiva de mais trabalho durante o ano inteiro”. Essa indústria de profissionais “da graxa”, termo que se usa para nomear os profissionais dos bastidores, é invisível para a maioria dos fãs de música, mas sem eles, os shows não aconteceriam.

“Devemos aprender com essa experiência e colocar em prática coisas que nos tornam menos vulneráveis no futuro”

Existe uma preocupação real de que muitos terão que deixar o setor se a paralisação durar meses. Quando finalmente voltarmos a clubes e salas de concerto, pode não haver mais ninguém para configurar o som, ligar as luzes ou até mesmo fazer a segurança nas portas.

Steer pode voltar a produzir bandas em seu estúdio em casa, mas o isolamento social devido ao Covid-19 significa que poucos podem ir pessoalmente em primeiro lugar. Muitos artistas também financiam seu trabalho de estúdio em turnê – sem a turnê, eles não podem pagar pelo estúdio. “Há muito menos dinheiro em toda a indústria no momento”, diz Steer. Sua renda total diminuirá em cerca de 70%, transformando-o em recebedor de benefícios do Governo da Austrália.

Assistência para o backstage

McMahon se ofereceu para pagar a sua equipe 50% do valor pelos shows que foram cancelados dentro de duas semanas, e os gigantes do setor também estão oferecendo assistência. A Live Nation Entertainment lançou um fundo inicial de US $ 5 milhões projetado para ajudar as equipes de turnê e local. Embora tenha poucas ações para proteger contratantes independentes como o Steer no futuro, ele pode pelo menos pagar o aluguel no momento. Também poderia lançar as bases para novos arranjos no futuro. Um representante da agência de reservas explica que, como músicos de sessão, que geralmente são colocados em um retentor para garantir que não participem de outras turnês, os membros da equipe também podem ser contratados com um salário básico e constante.

Enquanto isso, Steer espera que o Covid-19 desencadeie uma estrutura mais ampla para proteger contratantes independentes, como ele. “Seja sindicalização, mudanças na legislação governamental ou financiamento mais acessível através de doações e subsídios, devemos aprender com essa experiência e colocar em prática coisas que nos tornem menos vulneráveis ​​no futuro”.

Ninguém sabe quando será esse futuro, mas, como o esporte, é provável que a música ao vivo seja uma das últimas coisas a serem permitidas quando o isolamento social acabar. Quando isso acontecer, a paisagem será estranha e enxuta. Nos primeiros meses, espere uma explosão de novos lançamentos, tanto os atrasados ​​pelo vírus quanto os criados enquanto os artistas foram trancados em suas casas. “Estou vendo uma energia criativa em nossa indústria que supera em muito qualquer coisa antes, não apenas no nível de ideias, mas na execução”, diz o publicitário musical Neil Bainbridge.

A princípio, os artistas encherão os locais de exibição que sobreviveram ao isolamento, mas talvez ainda não haja muitos. Os clubes e locais de shows do Reino Unido estão fechando a um ritmo horrível desde a Grande Recessão e o Covid-19 pode matar muitos dos que sobreviveram. Os relatórios sugerem que apenas 17% dos locais do Reino Unido estão financeiramente seguros pelos próximos dois meses, o que significa que mais de 500 espaços de shows podem ter fechado suas portas para sempre no início do isolamento social.

“Estou vendo uma energia criativa em nossa indústria que supera em muito qualquer coisa antes, não apenas no nível de ideias, mas na execução”

Os promotores também estão enfrentando perdas significativas. Normalmente, os seguros os cobririam, mas as apólices quase universalmente excluem doenças transmissíveis, a menos que sejam adquiridas especificamente, o que é “extremamente raro”, de acordo com um corretor. No início do ano, algumas seguradoras até removeram explicitamente o coronavírus de sua cobertura.

Em março, o South by Southwest de Austin anunciou que seria responsável por todos os custos porque o ‘surto de doença’ foi excluído de sua cobertura de seguro. O festival de house e techno de Londres, Re-Textured, foi igualmente infeliz. Nenhum dos dois retornará em 2021.

Apresentações pagas

A peça final do quebra-cabeça é a relação entre artistas e fãs. Culpe o Spotify e uma indústria de discos canibalística, tudo o que você quiser, mas somos nós que colocamos os artistas no chão; que passamos a ver a música como algo que deveria ser gratuito, e não como arte que merece ser paga. Mas, expondo falhas sistemáticas e destacando meios alternativos de interação artista-público, o Covid-19 poderia mudar isso? Os artistas em dificuldades começaram a lançar músicas ou apresentações exclusivas disponíveis por uma taxa, e outros criaram oficinas de produção on-line. Essas são correções temporárias, mas fecham o ciclo entre criatividade e recompensa.

Enquanto os shows ao vivo, como a Berliner Philharmoniker (a Filarmônica de Berlim), proliferaram, a maioria deles foi beneficente ou livre para participação. Em algum momento, porém, os preços dos ingressos digitais parecem inevitáveis. Talvez à frente da curva, Erykah Badu cobrou alguns dólares para entrar na série Quarentine Concert. “Sempre houve um mercado para isso e, nesse isolamento social, as pessoas perceberam que é legal”, diz Marc Geylman, fundador da Cardinal Artists. “Eventualmente, acho que isso se tornará um negócio.”

“Se você reconstruísse a indústria da música do zero, não a monetizaria do jeito que está atualmente”

A Filarmônica de Berlim deu um passo nessa direção mais de uma década atrás. Em 2009, percebendo que a renda de suas gravações estava em queda, eles procuraram um novo meio de disseminar e monetizar seu trabalho existente. A resposta: Digital Concert Hall, uma plataforma, acessada através de uma assinatura paga, que permite aos fãs ver a transmissão de seus shows ao vivo e revisitar centenas de gravações, além de assistir a documentários e filmes bônus. Por enquanto, eles oferecem acesso gratuito, para que os fãs possam assistir as gravações enquanto a sala de concertos real está fechada.

É verdade que isso funciona melhor quando você está tentando capturar o ar refinado de uma sala de concertos – nenhuma apresentação musical em streaming pode se aproximar da energia suada de uma rave. Mas é um passo em uma nova direção, e você só precisa olhar para os shows, onde o público apóia os artistas com assinaturas e patrocínios através das plataformas Twitch e Patreon, para ver quão anacrônico é o modelo musical. “Se você reconstruísse a indústria da música do zero, não a monetizaria do jeito que está atualmente”, diz George Connolly, gerente de artistas da Young Turks.

Além disso, o Covid-19 também pode recalibrar nossa percepção do valor de um álbum. Nunca antes a fragilidade da música foi mais clara, e isso pode nos encorajar a apoiar os artistas comprando, em vez de transmitir, nossa música por meio de plataformas transparentes e amigáveis ​​aos artistas. “Em termos de dinheiro no bolso de um artista, a compra de um único álbum ou LP vale milhares de streams”, diz Josh Kim, COO da Bandcamp, uma plataforma na qual artistas e gravadoras independentes podem vender diretamente para seus fãs.

Simon Rattle encerrou seu show às 22h. Não havia filas nas portas, nem pressa para ir no banheiro. Não havia portadores de bilhetes ou barman zunindo, apenas uma pequena equipe de câmeras posicionada na frente e no centro, capturando todos os movimentos de Rattle – desde a última onda deslumbrante de seu bastão até seu arco habitual no final. Ele proporcionava uma visualização agradável, peculiar, mas emocionante, e nela reside o valor inerente dos dois lados da lente.

Refletindo sobre o isolamento social global, um usuário do Twitter descreveu o Covid-19 como uma “máquina da verdade”, na medida em que “expõe brutalmente” as deficiências na estrutura da música.

Um dia, transferiremos o Covid-19 do presente para o passado, e as engrenagens dessa máquina global de bilhões de dólares estarão em movimento mais uma vez. Os locais abrirão as portas, os artistas tirarão o pó dos passaportes e, mais uma vez, teremos música ao vivo e, com isso, uma nova apreciação por estar em uma sala cheia de estranhos loucos para experimentá-la.

Quando esse dia finalmente chegar, tudo será mais doce – mas nessa transição, precisamos aproveitar o que aprendemos com essa pausa. Se formos inteligentes, das cinzas surgirá uma indústria que funciona para todos. Porque Deus sabe que todos precisaremos dançar novamente.

……………………………………………………………………………
*Fonte: musicaemercado

Não tenha medo, tirem suas ideias do papel, vivam seus sonhos, plantem as sementes de uma vida nova, elas estão nas suas mãos.

O momento é de crise, e o primeiro pensamento que vem é: preciso poupar o que tenho, garantir minha subsistência, e então tudo que você consegue pensar é quanto grão ainda tem no estoque.

Mas o que quero, é te desafiar a enxergar quanta semente você tem, e SIM você tem!

Todos nós somos sacos cheios de sementes, e que infelizmente, pelo nosso medo do amanhã, passamos a usá-las como grãos, apenas para garantir nossa subsistência e assim aprendemos a acumular o maior estoque possível. Isso ficou tão forte em nossa cultura, que não satisfeitos em acumular bens materiais, passamos a estocar também sentimentos, idéias, sonhos.

É tempo de recomeçar, e que nesse novo tempo nós possamos enxergar quanta semente temos e como o mundo pode ser melhor se nos as plantarmos.

Empresários, entreguem mais do que sua obrigação, fazer com excelência tem que ser parte da sua natureza, não aceite nada menos do que o seu melhor.
Amigos, parem de estocar seus sentimentos, digam eu te amo, chorem, esvaziem seus corações de tudo isso que vocês têm guardado só pra vocês.

Como aprendi com meu pai, o que nos mata sufocado não é um pulmão vazio, mas sim um pulmão cheio de ar contaminado, simplesmente porque perdemos a capacidade de colocá-lo pra fora, de troca-lo. Estoque cheios de grãos apodrecem, sacos vazios de sementes plantadas multiplicam.

Por isso, não tenha medo, tirem suas ideias do papel, vivam seus sonhos, plantem as sementes de uma vida nova, elas estão nas suas mãos, elas estão em você.

*Por Paulo Borges Neto

………………………………………………………………….
*Fonte: sabervivermais

A coragem de ser diferente

Era dia de Ano novo. Eu me levantei cedo, bem cedo, mas não pude sair logo para passear com o cachorro, pois, lá fora, a festa ainda corria solta. Somente às 10 da manhã pararam de soltar fogos e pude sair, se bem que até depois do meio-dia alguns renitentes continuavam soltando um ou outro foguete, como se as toneladas de pólvora já queimadas na madrugada não tivessem bastado. As ruas estavam cheias de lixo, muito lixo, resíduos de uma alegria curta, que se acendeu, subiu, explodiu e se apagou rapidamente. O que mais me incomodava eram as garrafas quebradas em todo e qualquer canto, testemunhas da insanidade da festa. Prestava atenção para não pisar em cacos de vidros, mas minha preocupação maior era com meu amigo de quatro patas sem sapatos.

Continuamos o passeio no meio de tanto lixo e insanidade, cruzamos o caminho de pessoas com ressaca e mau humor e fiquei questionando que sentido faria tudo aquilo. Comemoramos a virada do ano todos os anos, ficamos alegres pelo novo ano que chega, mas alegres exatamente por quê? Basta ser honesto, olhar para trás, ver todas as viradas de ano anteriores e constatar que nada muda, só continua, não há renovação, não há recomeço, o saldo no banco fica o mesmo, as dívidas também (ou mais altas, depois de tantos gastos com as festas de fim de ano), a saúde fica do mesmo jeito (ou mais abalada pelo alto consumo de álcool, comida e de tudo), os falsos amigos não se tornam verdadeiros, a obesidade só aumenta e tudo prossegue como sempre.

O mundo está aí, passando por uma enorme crise, com o maior número de migrantes desde a segunda guerra mundial, um verdadeiro êxodo, pessoas que fogem de guerras, de violência, de tortura, de fanáticos religiosos, de seca, de fome, de perseguição política, e muitos desses migrantes estão morrendo afogados ao tentar atravessar o Mar Mediterrâneo para entrar no Eldorado Europa, outros são vítimas de bandidos, traficantes de órgãos ou de gente, sendo mortos ou escravizados por aí. Quando chegam na Europa, se veem diante de arame farpado, racismo e xenofobia. A extrema-direita ganha terreno em todo o mundo. Ebola ainda mata na África, malária e AIDS também, sem falar do Zika e muitas outras epidemias que afetam a humanidade. O mundo se aquece, os oceanos são cada vez mais poluídos com nosso lixo, o consumismo nunca foi tão selvagem, com trabalho escravo, também infantil, para nos garantir roupas baratas, ou smartphones, ou seja lá o que for… No fundo, não há nada para comemorar, mas comemoramos assim mesmo.

Não vejo sentido, mas respeito, respeito porque somos todos livres para seguir o caminho que escolhermos, porque é direito de cada um de já ir com a massa para o Réveillon na praia de Copacabana já pela tarde, para garantir o melhor lugar, para fazer parte bem na frente, e ficar ali plantado por horas, esperando, como se isso tivesse realmente alguma importância. Respeito o direito de quem queima literalmente dinheiro para soltar fogos em abundância ou com fantasias de carnaval ou com ovos de chocolate na Páscoa ou com qualquer outra superficialidade, mesmo que eu não concorde, mesmo achando que isso não é justo diante do número de pessoas famintas no mundo. Respeito que cada um siga o caminho que desejar, por mais incompreensível que seja, mesmo percebendo que há pouca reflexão, que muitos vão por ir, Marias vão com as outras, que comemoram algo porque todo mundo comemora, sem cogitarem alternativas, sem terem a coragem de ser diferente, e talvez sem nem mesmo terem entendido que isso é possível.

E aqui chego ao ponto que queria chegar, ao tema que quero abordar: o direito que cada um tem de ser diferente, de não caminhar com o rebanho, de viver da forma que escolheu conscientemente, sem seguir convenções, sem fazer o que esperam os outros, de ser realmente livre. Toco nesse assunto por achar emergente, já que percebo um desvio, já que constato uma injustiça, vendo gente que tem a coragem de ser diferente sendo acuada, agredida por aqueles que acham que devemos todos nos comportar como gado, seguindo a massa sem qualquer senso crítico, sem qualquer reflexão.

Estava em um grupo no Facebook, quando li um post de um de homem que estava preocupado com sua comemoração de Ano Novo: <>. Algo normal, compreensível, já que essa pessoa tem o direito de correr atrás de festa. Mas aí alguém respondeu, uma mulher, dando alguma dica, mas dizendo que ela não iria, pois preferia passar a virada de ano em casa, com seus filhos. Estranhei então a reação do “festeiro”: <>.

E a coitada da mulher se sentiu desconsertada, começando a explicar sua postura e sua decisão, como se fosse uma ré, a acusada em um processo penal, como se estivesse agindo errado, como se ela simplesmente não tivesse o direito de dizer que não quer comemorar essa maluquice e pronto. E li em outros lugares comentários semelhantes: quem quer ficar em casa, quem se afasta da “loucura” coletiva é taxado de solitário, esquisito, triste, deprimido, frustrado, arrogante, metido a besta e um monte de outros adjetivos, rapidamente atribuídos por gente que não reconhece o direito de alguém ser diferente, de nadar contra a maré, de não seguir os outros cegamente.

E é exatamente isso que acho injusto: como se não bastasse ter que suportar uma insanidade coletiva, um exagero festivo sem pé e sem cabeça, não gostando, temos ainda que nos sentir mal por pensarmos diferente? Ser diferente, viver diferente é então sinônimo de tristeza, de frustração, de arrogância? Parece-me que aqui a maioria atropela uma minoria, fazendo com que gente diferente se sinta mal, fazendo com que originalidade e independência virem motivos de chacotas, onde pessoas corajosas, que têm o peito de pensar e agir diferente e que merecem admiração, terminem se sentindo agredidas, empurradas em um canto, onde têm então que assumir uma postura defensiva desgastante.

Vejo um desvio, uma inversão de papéis e valores. Não acho isso justo e penso que deveríamos refletir profundamente sobre o assunto.

Termino fechando esse texto com dois apelos, sendo a primeiro para aqueles que não toleram os que são diferentes, que acham que todos temos que seguir cegamente o rebanho, as tradições, as convenções, tudo aquilo que nos foi ensinado como certo, ou que simplesmente acreditamos ser certo por nunca termos feito de outra maneira: viva sua vida da forma que achar que deve, você é livre para isso. E se você acha que encontrará sua felicidade no coletivo, no modismo, no mainstream, no consumo exagerado, no correr atrás sem nunca (ou quase nunca) questionar, faça isso. Esse é um direito seu! Pessoalmente não acredito que você será feliz, mas não sei bem, já que não há receita para a felicidade. Pode ser que você esteja certo em seu caminho e eu errado em minha opinião. Mas, por favor, não tente fazer com que aqueles que têm a coragem de ser diferentes e seguir o próprio caminho se sintam como se eles fossem os “loucos”, pois isso não é assim. Não é loucura caminhar com as próprias pernas. Loucura é se deixar levar pelo “rebanho”, sem nunca questionar o percurso.

Já o segundo apelo é para os corajosos, para você, que tem o peito de ser diferente, de pensar com própria cabeça e seguir o próprio coração: continue assim! Isso é bom, muito bom! Sei que nem sempre é fácil, sem que isso muitas vezes faz com nos sintamos sós, mas não mude esse jeito jamais, pois é ele que faz de você aquilo que você realmente é: uma pessoas singular e realmente especial. Não é triste ter a coragem de optar por passar o ano novo ou outras festividades em casa, tranquilo, sem grandes pândegas e balangandãs. Triste é ter perdido essa capacidade. Assuma seu direito de ser diferente, de não caminhar com o rebanho, de viver da forma que escolheu conscientemente, sem seguir convenções, sem fazer o que esperam os outros, de ser realmente livre e feliz.

……………………………………………………..
*Fonte: revistaázes / Gustl Rosenkranz – (Blogueiro brasileiro residente em Berlim)

 

 

O que ninguém conta sobre mudar de cidade

Já faz alguns anos que deixei Brasília, cidade onde cresci e construí quase todas as minhas relações.

Morar quase a vida toda na mesma cidade tem muitos pontos positivos. Sabemos onde as coisas estão, conhecemos quase todo mundo – mesmo que seja apenas de vista – e sabemos a história de quase tudo por ali. Por mais que às vezes não gostemos, nossa cidade traz um senso de comunidade, sendo uma extensão do que forma nossa ideia de lar. O lugar que moramos e os acontecimentos à nossa volta adicionam um elemento extra de identidade à nossa personalidade.

Mas chega o dia que crescemos e, pelos embaraços da vida, precisamos nos mudar.  É assim na vida de muita gente, também foi assim na minha vida. A gente pode até achar que está preparado e sabe o que virá pela frente, mas existem alguns detalhes que só descobri quando chegou minha vez.

Pode ter sido só comigo, mas se puder confortar outras pessoas que sentiram-se dessa forma, já vale a pena compartilhar essas experiências que não vejo ninguém contando por aí.

 

Seus amigos mudam

Uma das coisas que parecem óbvias, mas nos surpreende quando chega nossa vez, é que nossos amigos mudam bastante quando estamos distantes. Não é como se permanecessem os mesmos sempre, mas quando estamos acompanhando diariamente nos acostumamos às pequenas e constantes mudanças.

Um dia voltamos para visitá-los e eles têm assuntos que não conseguimos mais acompanhar. Nossos interesses não cruzam como antes e tudo parece meio fora de sincronia. O peso da amizade de tantos anos faz o trabalho de manter a união, mas sentimos que o compasso vai se perdendo.

Por algum tempo ainda faz sentido continuar o contato com esses amigos, mas às vezes as diferenças tornam-se tão grandes que acabamos deixando de lado. O carinho e a nostalgia do passado ainda existem, mas agora cada um de fato seguiu um caminho distinto.

 

Você muda

Não são apenas nossos amigos assumem traços novos, nós também. Numa nova cidade é fácil entrar em contato com outras ideias, diferentes perspectivas e interesses que nem sabíamos que existiam.

Ao passo em que vemos nossos amigos mudando, nós também desenvolvemos um comportamento diferente do que eles estão acostumados. Cooperando para a quebra de ritmo entre os dois referenciais. Percebo com frequência o choque de amigos quando me encontram depois de um longo tempo sem me ver. O sentimento de amizade é certamente presente, mas as diferenças na forma de agir e pensar acabam causando alguns sustos.

Essas diferenças trazem diversas formas de desconforto, já que pessoas esperam que você se comporte de uma forma que já não é mais compatível, da mesma forma que acabamos criando a mesma expectativa quando nossos amigos estão diferentes.

Dos dois lados resta o sentimento de que estamos nos afastando de alguém que já foi muito importante.

 

Existe um vazio de pertencimento

Um dos efeitos mais inesperados de mudar, pelo menos para mim, foi a perda da noção de pertencer a um lugar.

No meu caso, um dia voltei para visitar Brasília, como já havia feito tantas outras vezes, mas algo ali estava diferente. As pessoas nas ruas, a jeito que se vestiam, os novos costumes e programas de final de semana. De repente, tudo aquilo não era mais parte de mim. Não existia mais conexão.

O esperado é que a nova cidade substituísse a antiga, mas não foi o que aconteceu. Eu não apenas deixei de me identificar com Brasília, como ainda não tinha vínculos com o lugar onde estava morando.

É um vazio estranho.

Não sei dizer se esse sentimento de não ter mais um “lugar para voltar”, uma referência inicial de cidade, vai passar em algum momento. O que sei até agora é que poderia morar em qualquer outro lugar do mundo, porque a cidade já não faz mais tanta diferença assim.

 

As coisas novas não importam para os amigos antigos

Por mais que você mantenha contato constante com seus amigos de sua cidade original, sua vida nova não importa para eles como antes. Você até vai contar algumas novidades e atualizá-los do que for mais importante, mas dificilmente os detalhes farão algum sentido maior.

É até compreensível que seja assim, essas pessoas não fazem parte dos detalhes e, mesmo que você conte, não tem como existir a mesma ligação. Os locais, pessoas e referências que você está citando são apenas uma ideia distante, é como contar um episódio de um seriado de TV. Para quem não acompanha bem de perto, a parte recortada da trama não tem muita graça, falta aquela conexão emocional.

Com isso, a gente acaba sentindo que o interesse dos amigos pela nossa vida já não é mais o mesmo, o que – é claro – nem sempre é o caso. Não adianta também ficar chateado ou cobrar atenção, isso só tornará as coisas mais estranhas e artificiais.

Vez ou outra surge o gancho perfeito e começam bons papos como nos velhos tempos. Mas fora isso, a gente fica ali vendo a amizade meio de longe.

 

Você não é um turista

Quando visitamos uma cidade nova, é normal correr contra o tempo para visitar todos os pontos turísticos, fazer programas interessantes e conhecer o máximo de coisas novas.

Ao pensar em mudar de cidade, é fácil achar que também fará toda essa peregrinação turística e aproveitará as surpresas do local. Só que infelizmente, o poder da rotina costuma ser mais forte que nossa vontade de explorar opções.

Reclamamos da falta de alternativas interessantes da cidade anterior, mas quando chegamos num lugar diferente, acabamos não aproveitando o que há disponível. Fica evidente que na maioria das vezes o problema da falta de atrações é nosso apego ao cotidiano, a rotina que consome nossa curiosidade e o famoso “depois eu faço”.

Morei meses em Santiago, no Chile, mas as únicas vezes que fiz programas turísticos foi quando vinham visitas do Brasil. Quando estava perto de voltar, senti que não tinha curtido a cidade como deveria. Hoje, morando em Londrina, penso que preciso mudar isso, mas quando percebo estou no mesmo restaurante pedindo os mesmos pratos de sempre.

 

O mundo se torna um lugar maior

Apesar de ter focado nos impactos que soam mais negativos, existe um ponto positivo que é capaz de superar todos os outros.

Mesmo quando mudamos para uma cidade que fica apenas um estado de distância, podemos observar como as diferenças culturais são gigantescas. Desde as pequenas tradições locais, costumes e formas de lidar com problemas, até a organização política e econômica que movimenta a região.

É muito bonito ver essas barreiras sendo quebradas e voltar a enxergar o mundo como um lugar gigantesco. Essa sensação de que conhecer apenas uma cidade de cada país não é o bastante, queremos conhecer cada cidadezinha pequena dos países mais remotos, suas nuances e histórias.

O mundo, ainda que mais conectado pela globalização, vai se mostrando como um lugar cada vez mais rico e excitante.

 

………………………………………………………………………….
*Fonte: papodehomem/ Alberto brandão

A vida, às vezes, bagunça para consertar

Enquanto amassava o pão entrei em desespero quando vi toda aquela farinha solta na mesa, nada se juntava, a mão toda cheia de massa, pensei em parar, lavar a mão, jogar a massa fora e comprar o pão no supermercado, mas não queria me dar por vencida então continuei a amassar, de repente, depois de algum tempo amassando, colocando mais leite, depois mais farinha, depois amassando novamente, a massa estava toda homogênea, não grudava nas mãos e não grudava na pedra da mesa, a massa estava linda e lisa, quase pronta para ir ao forno.

E então eu vi a minha vida ali, na massa de pão sobre a mesa. Chega a ser engraçado, mas a vida da gente é assim mesmo, algumas vezes fica tudo uma bagunça, nada se encaixa, você tenta de um jeito, não funciona, tenta de outro e meleca tudo, coloca mais atenção e a vida fica mole, se cobra demais e a vida fica dura, a verdade é que parece que nunca vamos conseguir consertar a massa, ou melhor, a vida.

Quando estamos no meio do caos, ele parece instalado e a sensação é de que nunca mais ele voltará a ser ordem novamente. Penso que, se todo mundo for igual a mim, a única vontade é sentar e chorar em busca de atenção e alguém que possa resolver toda essa desordem.

Mas aí vem uma pequena pitada espiritual, psicológica, emocional na medida tão exata que parece um passe de mágica e tudo vai ser encaixando e formando uma forte aura colorida capaz de deixar o coração em paz, a cabeça leve, o sorriso marcado no rosto, tudo volta ao seu estado de perfeita harmonia, claro que não para sempre, mas pelo menos até acabar o pão e precisar de fazer outra massa.

A verdadeira lição é entender que sim, tudo uma hora se ajeita. Vivemos ansiosos demais, em busca demais, querendo demais. Já falei da pressa outras vezes e ela persiste, precisamos de telefones mais rápidos, de computadores que conversam com você, de comida fast-food, de abraços rápidos e olhares quase inexistentes. Temos pressa. Temos ansiedade. E passamos por não perceber, que de uma forma ou de outra, a vida vai passar, se adicionarmos os ingredientes necessários e amassar com paciência, se soubermos esperar a hora de levar ao forno, a vida lhe entregará um lindo e saboroso pão.

Olhe mais nos olhos. Menos pressa. Menos ansiedade. Mais abraços. Mais carinho. Mais tranquilidade, no final tudo se resolve!

……………………………………………………………
*Fonte:osegreedo / Carol Daimond

Onde você estará quando o vento da mudança soprar?

De tempos em tempos, a música nos brinda com “hinos de resistência” – canções que por alguma razão que ninguém sabe explicar se transformam na trilha de um movimento inteiro.

Foi assim com Bella Ciao, em 1945, um apelo ao combate ao nazismo na Europa Ocidental ao final da Segunda Guerra Mundial; Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, em 1968, hino de resistência ao regime militar brasileiro; Wind of Change, da banda alemã Scorpions, símbolo do desmembramento da União Soviética e queda do Muro de Berlim, em 1990, e, mais recentemente, A Marselhesa, hino nacional da França e uníssono mundial contra o terrorismo.

Embora historicamente todas as músicas citadas acima tenham seu valor e importância, é Wind of Change, dos Scorpions, que, na minha opinião e apesar de seus quase 30 anos, segue tão contemporânea quanto na época em que marcou o fim da Guerra Fria.

Em tradução livre, a canção que começa com um inesquecível assobio, seguido com toques de guitarra, questiona: “Você já chegou a pensar que o mundo está acabando? Que todos poderíamos ser tão próximos, como irmãos? O futuro está no ar, posso senti-lo em todo lugar, soprando junto com o vento da mudança”.

A ordem mundial em 1990 era derrubar muros da vergonha, como o de Berlim, que dividia a “Alemanha Oriental” da “Alemanha Ocidental”, e uma série de tentáculos imaginários de uma poderosa União Soviética ficados no pescoço de nações menores.

Passados 27 anos, com o perdão do clichê, o mundo é outro. Basta dizer que temos algo chamado internet, que transformou tudo, e não necessariamente de forma positiva.

Estados Unidos e Rússia voltaram a se estranhar, caiu o embargo a Cuba e a ordem dos anos 2010 é a desordem. O reino hoje é da desesperança na política e na economia. Como consequência disso, na segurança, o domínio é do terror.

A China, agora chamada de Tigre Asiático, vende como nunca, embora siga medievalmente executando pessoas com tiros na nuca, e cobrando delas a bala.

O Oriente Médio arde em chamas, enquanto a Europa unida se descontrói lentamente, vendo emergir com vigor velhos fantasmas locais, como a extrema-direita.

Em vez de derrubar muros, políticos os erguem e milhões de pessoas morrem de fome ou no mar tentando fugir de… suas próprias casas.

O Brasil passa por sua maior crise político-econômica da história contemporânea, com ameaças de extensão por uma década. (Lembre-se que há países que, oito anos depois, ainda não se recuperaram da crise de 2008.)

Para onde correr? O que esperar desse mundo?

A saída é persistir. E quem persiste resiste.

É acreditar que a tempestade uma hora passa, e que sempre passa. E que, quando isso acontecer, é aquilo que fizemos para nos proteger e proteger aqueles que gostamos que ficará mais evidente. É o que nos salvará.

Não vivemos um tempo de respostas, mas sim de perguntas.

O que você está fazendo, em vez de reclamar? Onde estão as suas anotações para 2017? Quem disse que não existem planos e metas em um país em crise ou quando se está desempregado?

Onde você quer estar quando soprar o vento da mudança?

****

Fonte:  Marc Tawil / Top Voices LikedIn