8 inesquecíveis poemas de Mário Quintana

Das utopias
Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!
– Mario Quintana, do livro “Espelho mágico”, 1945-1951.

Da observação
Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio…
– Mario Quintana, do livro “Espelho mágico”, 1945-1951.

Bilhete
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…
– Mario Quintana, do livro “Esconderijos do tempo”, 1980.

Seiscentos e sessenta e seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ªfeira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
– Mario Quintana, do livro “Esconderijos do tempo”, 1980.

Confissão
Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
– Mario Quintana, do livro “Velório sem defunto”, 1990.

Madrigal
Tu és a matéria plástica de meus versos, querida…
Porque, afinal,
Eu nunca fiz meus versos propriamente a ti:
Eu sempre fiz versos de ti!
– Mario Quintana, do livro “Velório sem defunto”, 1990.

Inquietude
Esse olhar inquisitivo que me dirige às vezes nosso próprio cão…
Que quer ele saber que eu não sei responder?
Sou desse jeito… Vivo cercado de interrogações.
Dinheiro que eu tenha, como vou gastá-lo?
E como fazer para que não me esqueças?
(ou eu não te esqueça…)
Sinto-me assim, sem motivo algum,
Como alguém que estivesse comendo uma empada de camarão sem
camarões
Num velório sem defunto…
– Mario Quintana, do livro “Velório sem defunto”, 1990.

Quando eu me for
Quando eu me for, os caminhos continuarão andando…
E os meus sapatos também!
Porque os quartos, as casas que habitamos,
Todas, todas as coisas que foram nossas na vida
Possuem igualmente os seus fantasmas próprios,
Para alucinarem as nossas noites de insônia!
– Mario Quintana, do livro “Velório sem defunto”, 1990.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

“Esquece o futuro. Ele não te pertence” – um dos mais belos e profundos poemas de Montaigne

O escritor, filósofo e humanista francês, Michel Eyquem de Montaigne, disse que quando queria lidar com o medo da morte recorria a Sêneca. Não por acaso. Ninguém se deteve de forma tão profunda e brilhante sobre a maior das aflições humanas: o medo da morte. Sêneca, numa carta a um discípulo, escreveu uma frase célebre: “E por mais que te espantes, aprender a viver não é mais que aprender a morrer”.

No poema “Esquece o futuro”, Montaigne se vale desse medo da morte para vivenciar o presente com urgência, beleza e muita vontade.

Neste vídeo a singular interpretação do ator Ivan Lima dá voz ao poema de Montaigne. Vale muito assistir.

“Esquece o futuro… ele não te pertence!
O presente te basta!
Mas é preciso ser rápido, quando ele é mau presente
E andar devagar quando se trata de saboreá-lo
Expressões como: “passar o tempo” espelham bem a maneira
de viver dessa gente prudente que imagina não haver coisa melhor
pra fazer da vida,
deixam passar o presente, esquivam-se, ignoram o presente,
como se estar vivo fosse uma coisa desprezível.
Porque a natureza nos deu a vida em condições tão favoráveis
que só mesmo por nossa culpa ela poderia se tornar pesada e inútil”. Montaigne

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Poema inédito de Mario Quintana é encontrado em manuscrito dentro de um livro

Um manuscrito de um poema inédito de Mario Quintana, datado de 1º de janeiro de 1941, foi adquirido pela Associação de Amigos da Biblioteca Pública do Estado. Em breve, a peça integrará o acervo da Biblioteca Pública do Estado e entrará em exposição.

A peça estava dentro da primeira edição de um livro do próprio autor, intitulado “Poesias” . As letras garrafais anunciam “Canção do Primeiro do Ano” no topo da página. A caligrafia marcante de Quintana transporta o leitor para observar, pelo movimento das horas, a chegada de um novo tempo. Um poema com o mesmo título já havia sido publicado, mas o conteúdo dos versos é totalmente diferente ao encontrado em 2022.

O achado foi feito a partir da compra do acervo de uma família pelo livreiro George Augusto. Ele, então, entrou em contato com o professor, crítico e presidente da Fundação Theatro São Pedro, Antonio Hohlfeldt, que trabalhou com Mario Quintana na redação do jornal Correio do Povo. Hohlfeldt imediatamente reconheceu a caligrafia inconfundível do poeta e, percebendo a importância da situação, entrou em contato com o presidente da AABPE, Gilberto Schwartsmann, que comprou a peça.

“Fico feliz com a entrega do poema à Biblioteca, tornando-o um patrimônio público. Ele vem de uma importantíssima leva de poetas dos anos 30, mas nunca foi muito valorizado, por ser erroneamente considerado simples. A complexidade do Mario está justamente em fazer tudo parecer simples”, apontou Hohlfeldt.Patrimônio público

A ideia é que a peça faça parte do acervo da Biblioteca e, posteriormente, fique em exibição na Casa de Cultura Mario Quintana, que possui uma área dedicada ao poeta.

Canção do primeiro do ano

Pelas estradas antigas
As horas vêm a cantar.
As horas são raparigas,
Entram na praça a dançar.

As horas são raparigas…

E a doce algazarra sua
De rua em rua se ouvia.
De casa em casa, na rua,
Uma janela se abria.

As horas são raparigas
Lindas de ouvir e de olhar.
As horas cantam cantigas

E eu vivo só de momentos,
Sou como as nuvens do céu…

Prendi a rosa dos ventos
Na fita do meu chapéu.
Uma por uma, as janelas
Se abriram de par em par.

As horas são raparigas…

Passam na rua a dançar.
As horas são raparigas
Lindas de ouvir e de olhar.

As horas cantam cantigas
E eu vivo só de momentos,
Sou como as nuvens do céu…

Prendi a rosa dos ventos
Na fita do meu chapéu.

Uma por uma, as janelas
Se abriram de par em par.

As horas são raparigas

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*Fonte: pensarcontemporaneo

“O Tempo que Foge” – Belíssimo poema para refletir

Nós todos sabemos que a vida muitas vezes não é longa o suficiente para viver tanto quanto gostaríamos, mas muitas vezes, além disso, não somos capazes de valorizar o que temos, o que vemos, desperdiçamos tempo com coisas que não merecem, não porque sejam irrelevantes, mas porque nosso coração não está nelas.

Ricardo Gondim nos presenteia com esse lindo poema (“O Tempo que Foge”), que nos mostra uma bela apreciação da vida, que se conseguirmos nos inspirar nele, podemos sem dúvida dar muito mais valor a cada segundo com esse presente que chamamos vida.


O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturas.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa.

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!

*Ricardo Gondim
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*Fonte:

“Carpe Diem”, o belo e encantador poema de Walt Whitman que irá motivá-lo a lutar por seus sonhos

Carpe Diem é uma frase em latim de um poema de Horácio, e é popularmente traduzida para colha o dia ou aproveite o momento. É também utilizada como uma expressão para solicitar que se evite gastar o tempo com coisas inúteis ou como uma justificativa para o prazer imediato, sem medo do futuro.

Vindo da decadência do império Romano o termo Carpe diem era dito para retratar o “cada um por si”, devido o império estar se desfazendo, naquele momento a visão de que cada dia poderia ser realmente o último era retratado pela frase que hoje é utilizada como uma coisa boa, porém sua origem vem do desespero da destruição de um grande império antigo.

No filme “A Sociedade dos Poetas Mortos”, o personagem de Robin Williams, Professor Keating, utiliza-a assim:

“Mas se você escutar bem de perto, você pode ouvi-los sussurrar o seu legado. Vá em frente, abaixe-se. Escute, está ouvindo? – Carpe – ouve? – Carpe, carpe diem, colham o dia garotos, tornem extraordinárias as suas vidas.”

O poema relacionado à ideia de Carpe Diem, de autoria de Walt Whitman, utilizado como mote no filme:

Aproveita o dia (Walt Whitman)

Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…

*Walter Whitman (1819 – 1892) – foi um jornalista, ensaísta e poeta americano considerado o “pai do verso livre” e o grande poeta da revolução americana.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

“O Tempo que Foge” – Belíssimo poema para refletir

Nós todos sabemos que a vida muitas vezes não é longa o suficiente para viver tanto quanto gostaríamos, mas muitas vezes, além disso, não somos capazes de valorizar o que temos, o que vemos, desperdiçamos tempo com coisas que não merecem, não porque sejam irrelevantes, mas porque nosso coração não está nelas.

Ricardo Gondim nos presenteia com esse lindo poema (“O Tempo que Foge”), que nos mostra uma bela apreciação da vida, que se conseguirmos nos inspirar nele, podemos sem dúvida dar muito mais valor a cada segundo com esse presente que chamamos vida.

O valioso tempo dos maduros
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturas.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa.

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!



*Por Ricardo Gondim
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*Fonte: pensarcontemporaneo

O Instante Antes do Beijo

Não quero o primeiro beijo:
basta-me
O instante antes do beijo.

Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.

O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.

Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.

Mia Couto, in ‘Tradutor de Chuvas’

O famoso poema ‘Carpe diem’, do poeta romano Horácio

“Carpe diem”
– por Antônio Cícero*

UM DOS poemas mais famosos do poeta romano Horácio é a ode 1.11. Nela, dirigindo-se a uma personagem feminina, Leucônoe, o poeta lhe diz que não procure adivinhar o futuro:

Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti
que fim os deuses darão, Leucônoe. Nem tentes
os cálculos babilônicos. Antes aceitar o que for,
quer muitos invernos nos conceda Júpiter, quer este último
apenas, que ora despedaça o mar Tirreno contra as pedras
vulcânicas. Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo
poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada
a hora: colhe o dia, minimamente crédula no porvir.

[Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques, et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.]

A frase “carpe diem” tornou-se um aforismo epicurista e um tema poético a que inúmeros poetas recorrem. No Brasil, por exemplo, Gregório de Matos, imitando um famoso poema de Góngora, diz, em soneto dedicado a uma “discreta e formosíssima Maria“:

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca o Sol, e o Dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.

Ó não aguardes que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

O soneto mencionado de Góngora, uma obra-prima, é o seguinte:

Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano;
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;

mientras a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano;
y mientras triunfa con desdén lozano
del luciente cristal tu gentil cuello;

goza cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fue en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,

no sólo en plata o viola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

O poeta Mário Faustino escreveu o seguinte belíssimo soneto chamado “Carpe Diem“:

Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)

Mas Horácio, em outra ode igualmente famosa, a 3.30, afirma que suas Odes sobreviverão às milenàrias pirâmides:

Erigi um monumento mais duradouro que o bronze,
mais alto do que a régia construção das pirâmides
que nem a voraz chuva, nem o impetuoso Áquilo
nem a inumerável série dos anos,
nem a fuga do tempo poderão destruir.
Nem tudo de mim morrerá, de mim grande parte
escapará a Libitina: jovem para sempre crescerei
no louvor dos vindouros, enquanto o pontífice
com a tácita virgem subir ao Capitólio.
Dir-se-á de mim, onde o violento Áufido brama,
onde Dauno pobre em água sobre rústicos povos reinou,
que de origem humilde me tornei poderoso,
o primeiro a trazer o canto eólio aos metros itálicos.
Assume o orgulho que o mérito conquistou
e benévola cinge meus cabelos,
Melpómene, com o délfico louro.

[Exegi monumentum aere perennius
regalique situ pyramidum altius,
quod non imber edax, non aquilo impotens
possit diruere aut innumerabilis
annorum series et fuga temporum.
non omnis moriar multaque pars mei
vitabit Libitinam: usque ego postera
crescam laude recens, dum Capitolium
scandet cum tacita virgine pontifex:
dicar, qua violens obstrepit Aufidus
et qua pauper aquae Daunus agrestium
regnavit populorum, ex humili potens
princeps Aeolium carmen ad Italos
deduxisse modos. sume superbiam
quaesitam meritis et mihi Delphica
lauro cinge volens, Melpomene, comam.]

A própria admiração que a ode continua a suscitar, parecendo confirmar o vaticínio de Horácio, aumenta essa admiração.

Ou seja, enquanto na ode 1.11 o poeta recomenda ignorar o futuro, na ode 3.30 ele exalta o futuro dos seus poemas. Que haja uma contradição aqui não é nenhum problema. Diferentemente dos textos teóricos, os poéticos podem contradizer-se, ainda que sejam do mesmo autor, sem que, com isso, sofram o menor arranhão.

Se ambos forem bons, então, ao ler o primeiro, concordamos inteiramente com ele; ao ler o segundo, é com este que concordamos inteiramente, sem deixar de continuar a concordar com o primeiro. Ambos podem ser profundamente verdadeiros ou reveladores. Um poema é capaz de contradizer a si próprio e ser uma obra-prima: ele pode até ter que se contradizer, como o “Odeio e Amo” (“Odi et amo”), de Catulo, para vir a ser uma obra-prima.

De todo modo, o poeta Haroldo de Campos escreveu um magnífico poema, intitulado “Horácio Contra Horácio”, que diz:

ergui mais do que o bronze ou que a pirâmide
ao tempo resistente um monumento
mas gloria-se em vão quem sobre o tempo
elusivo pensou cantar vitória:
não só a estátua de metal corrói-se
também a letra os versos a memória
— quem nunca soube os cantos dos hititas
ou dos etruscos devassou o arcano?
o tempo não se move ou se comove
ao sabor dos humanos vanilóquios —
rosas e vinho — vamos! — celebremos
o instante a ruína a desmemória

Não só, portanto, aos poetas é lícito contradizerem-se uns aos outros ou a si próprios, tanto em diferentes poemas quanto no mesmo poema, como tais contradições podem constituir o motivo de um poema.

Observo, porém, que a ode 1.11 pode também ser lida de modo que não necessariamente contradiga a ode 3.30. Digamos que a concepção de poesia subjacente à ode 3.30 seja que, dado que o grande poema vale por si, ele é, em princípio, indiferente às contingências do tempo. Sendo assim, não se concebe um tempo em que tal poema venha a caducar.

Logo, mesmo reconhecendo a possibilidade de que os textos se percam, talvez a verdadeira razão do orgulho de Horácio seja o fato de que suas odes intrinsecamente merecem existir. Isso quer dizer que elas merecem existir AGORA.

E merecem existir agora, seja quando for agora: seja quando for que alguém diga ou pense: “agora”. É desse modo que, precisamente ao celebrar “o instante a ruína a desmemória”, o poema se faz eterno agora. Nesse sentido, apreciá-lo é colher o dia: “carpere diem”.

*Artigo do poeta Antônio Cicero foi originalmente publicado 6 de fevereiro de 2010, na coluna do autora na “Ilustrada”, da Folha de São Paulo. Está disponível no blog Acontecimentos.

Poeta romano Horácio

Quinto Horácio Flaco (latim: Quintus Horatius Flaccus – 65 a.C.-8 a.C.). Poeta lírico, satírico e filósofo latino. Horácio nasceu em Venúsia, Itália, no ano 65 a. C. Filho de um escravo liberto que exercia a função de cobrador de impostos, fez seus estudos em Roma onde foi aluno de Lucio Orbílio Pupilo. Aperfeiçoou seus estudos literários em Atenas.

Estabeleceu-se em Roma como escriba de questores. Foi amigo do poeta Virgílio, que o apresentou a Caio Mecenas que o levou para integrar os círculos literários, tornando-se o primeiro literato profissional romano. Cultivou diversos gêneros literários principalmente a ode, em que utilizou os moldes gregos. Procurou sempre imprimir um cunho nacional às suas produções.

Seu primeiro livro conhecido foi “Sátiras” (35 a.C.). Sua obra prima, são os três livros de poemas líricos, “Odes” (23 a.C.), complementados por um quarto volume escrito em 13 a.C. Gozou de grande prestígio junto ao imperador Augusto e para ele compôs “Carmem Saeculare” (20 a.C.), um hino epistolar de caráter litúrgico dedicado a Apolo e Diana. Sua poesia escrita em forma de sentença teve muitas delas transformadas em provérbios. Faleceu em Roma, Itália, no ano 8 a.C.

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*Fonte: revistaprosaversoearte

Esse poema de Fernando Pessoa te fará repensar sobre quem você quer ser DE VERDADE

Quem você está sendo hoje?

Esse poema de Fernando Pessoa te fará repensar sobre quem você está se tornando

Qual é o preço que pagamos por mostrar os nossos verdadeiros sentimentos?

Viver ver nos anos atuais está cada vez mais restrito as provas dos afetos que tanto eram mostrados nas décadas passadas.

Passamos por gerações que menosprezavam uma falta de romantismo e que viviam na corda bamba quando o quesito eram demonstrações de amores intensas.

Mas hoje, parece existir um certo incômodo por parte da maioria das pessoas que falam abertamente sobre os sentimentos, escancara de verdade tudo aquilo que guardo no peito.

Fernando Pessoa é um poeta, dramaturgo, filósofo, crítico literário e dono de todas as nossas admirações que nos encanta até hoje com as belas palavras que trouxe em sua vida.

Em um de seus poemas, de Fernando chega a nos trazer uma mensagem sobre intensa sobre tudo aquilo que nos faz arder o nosso interior.

O que pode parecer ser um grande problema hoje, esse poema é intitulado como Tenho Tanto Sentimento nos faz repensar em tudo aquilo que estamos acreditando, cultivando e deixando para as gerações futuras.

O valor que todo sentimento tem precisa ser bem mais que merecido

Quando Fernando chega ajuntar cada palavra que compõe este poema, não é nenhum exagero levarmos cada trechinho como um verdadeiro conselho a ser vivido por todas as pessoas.

Mais do que nunca, precisamos lembrar de como uma perda de mão acalentador, um abraço verdadeiro ou até mesmo uma simples frase que traduz sentir falta de alguém, são gestos que precisam ser vividos todos os dias.

Assim começa o seu poema:

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

De que vale viver se não somos cheios de sentimentos a transbordar em todos os nossos bons momentos?

Mas a seguir, temos um grande questionamento que nos impulsiona ainda mais a nos questionar:

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

E é exatamente sobre isso que devemos pensar todos os dias que nos levantamos de nossas camas para viver. Fernando Pessoa termina seu poema dizendo:

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Como viver sem aproveitar todos os dias de nossas vidas?

Em uma era onde ter um coração de pedra é algo que inspira, que se respeita, que se merece e que sim procura sempre ter, difícil é reconhecer os grandes valores que o nosso viver pode trazer.

Fernando Pessoa nos traz uma grande mensagem sobre nos fazer repensar em tudo aquilo que estamos fazendo com as nossas vidas, algo a ser feito todos os dias.

Levantar questões como:

Será que de fato amo o meu trabalho?
Isso merece tudo o meu tempo?
Preciso ser outra pessoa para agradar aos outros?
Dizer não está fora de cogitação?

Não é clichê quando falamos que precisamos viver de forma intensa por termos apenas uma vida. Essa é a questão mais óbvia e importante que todo ser humano deveria tragar valores reais.

Se hoje buscamos não sentir, o que será do nosso amanhã ao lado das pessoas que amamos e tentamos cativar parece estar presente em todos os nossos momentos?

Uma lição que devemos aprender e repassar sem temer, é que é preciso sim colocar todos os sentimentos do mundo em tudo aquilo que fazemos, pensamos e trazemos para o nosso presente.

Você só tem esse agora para viver
Uma vida que é vivida e outra vida que é pensada…

Como podemos dizer que somos felizes e vivemos da forma mais robusta possível, se estamos sempre a se desmanchar para poder nos encaixar em grupos que não somos aceitos por sermos quem somos?

É preciso entender que em cada ser humano bate dentro do seu peito uma própria Essência que jamais poderá ser copiada por outro.

Se você reconhece os grandes sentimentos que possui, parabéns! Você é uma verdadeira pessoa de ouro e sabe que para dar o grande valor à vida, é preciso correspondê-la com os mais intensos amores e paixões que podem ser depositadas.

Quando te falam em “ser trouxa”, “ser feito de bobo”, ” ser feito de otário” ou qualquer coisa similar porque você depositou confiança e sensibilidade em uma relação e acabou sendo enganado, saiba que a pessoa mais forte é você.

Não abra mão dos sentimentos que possui

Todos os dias levantamos tentando acertar em tudo. Todavia, também em todos os dias erramos em várias coisas que fazemos ou deixamos de fazer, isso é normal do ser humano e faz parte de nossas vidas.

O que você precisa entender, é que assim como todas as outras pessoas, estaremos a vida inteira esbarrando com pessoas que não saberão valorizar todo amor que damos e todo sentimento que depositamos em tudo que fazemos.

E lembre-se sempre:

O erro nunca está em você, mas em quem abrir mão do sentir.

Sabemos que por mais difícil que seja superar todas as perdas, traições, rejeições e renúncias, quando mantemos aquecido a chama dos verdadeiros sentimentos dentro de nós, isso tudo será mais fácil de superar.

Assim como disse o grande poeta Carlos Drummond de Andrade: tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, esse pode ser um dos bens mais valiosos que você carregará por toda a sua vida.

E sabe qual o mais importante de tudo isso

Você transforma a vida de muitas pessoas que estão ao seu redor, principalmente aquelas que você tanto ama e tem poder de influência por ser reconhecido como uma pessoa de coração bom.

Nunca abra mão do sentir, isso é uma das essências da vida!

*Por amanda Ferraz

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*Fonte: awebic

3 poemas selecionados do livro “Tradutor de Chuvas” – de Mia Couto

A Editora Caminho assim apresenta o livro do qual os poemas abaixo foram selecionados: “O primeiro livro que Mia Couto publicou – Raiz de Orvalho, 1986 – era (e) um livro de poesia. Depois disso publicou 21 livros em prosa em vários gêneros – romance, conto, crônica, ensaio – sem nunca sair da poesia, que e onde se sente bem .

Em 2007 voltou a poesia propriamente dita com Idades, Cidades, Divindades, e agora volta lá de novo com este Tradutor de Chuvas. Livro que tem muito de autobiográfico, permite aos leitores mais atentos de Mia Couto descobrir as pontes da sua extraordinária obra literária.”

Seguem 3 poemas selecionados:

DANOS E ENGANOS
Aquele que acredita ter visto o mundo,
não aprendeu a escutar-se no vento.
Aquele que se deitou na terra,
vestiu sonhos como se fossem vidas
e tudo o mais fossem regressos.
Mas aquele que tocou o fruto
provou a inicial doçura do tempo.
E quando tombou
de si mesmo se fez semente.

POEMA DIDÁTICO
Já tive um país pequeno,
tão pequeno
que andava descalço dentro de mim.
Um país tão magro
que no seu firmamento
não cabia senão uma estrela menina,
tão tímida e delicada
que só por dentro brilhava.
Eu tive um país
escrito sem maiúscula.
Não tinha fundos
para pagar a um herói.
Não tinha panos
para costurar bandeira.
Nem solenidade
para entoar um hino.

Mas tinha pão e esperança
para os viventes
e sonhos para os nascentes.
Eu tive um país pequeno,
tão pequeno
que não cabia no mundo.

TRADUTOR DE CHUVAS
Um lenço branco
apaga o céu.
A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.
O mundo voa
e apenas o poeta
faz companhia ao chão.

*Por Mia Couto

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*Fonte: revistapazes

“Carpe Diem”, o belo e encantador poema de Walt Whitman que irá motivá-lo a lutar por seus sonhos

Carpe Diem é uma frase em latim de um poema de Horácio, e é popularmente traduzida para colha o dia ou aproveite o momento. É também utilizada como uma expressão para solicitar que se evite gastar o tempo com coisas inúteis ou como uma justificativa para o prazer imediato, sem medo do futuro.

Vindo da decadência do império Romano o termo Carpe diem era dito para retratar o “cada um por si”, devido o império estar se desfazendo, naquele momento a visão de que cada dia poderia ser realmente o último era retratado pela frase que hoje é utilizada como uma coisa boa, porém sua origem vem do desespero da destruição de um grande império antigo.

No filme “A Sociedade dos Poetas Mortos”, o personagem de Robin Williams, Professor Keating, utiliza-a assim:

“Mas se você escutar bem de perto, você pode ouvi-los sussurrar o seu legado. Vá em frente, abaixe-se. Escute, está ouvindo? – Carpe – ouve? – Carpe, carpe diem, colham o dia garotos, tornem extraordinárias as suas vidas.”

O poema relacionado à ideia de Carpe Diem, de autoria de Walt Whitman, utilizado como mote no filme:

Aproveita o dia (Walt Whitman)

Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…

Walter Whitman (1819 – 1892) foi um jornalista, ensaísta e poeta americano considerado o “pai do verso livre” e o grande poeta da revolução americana.

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*Fonte: asomadetodososafetos

“Quantos anos tenho”, por José Saramago

Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.

Tenho os anos em que os sonhos começam trocar carinhos com os dedos e as ilusões se transformam em esperança.

Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama louca, ansiosa para se consumir no fogo de uma paixão desejada. E em outras, uma corrente de paz, como um entardecer na praia.

Quantos anos eu tenho? Não preciso de números para marcar, pois meus anseios alcançados, as lágrimas que derramei pelo caminho, ao ver meus sonhos destruídos…
Valem muito mais que isso.

Não importa se faço vinte, quarenta ou sessenta!
O que importa é a idade que eu sinto.

Tenho os anos de que preciso para viver livre e sem medos.
Para seguir sem medo pelo caminho, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus anseios.

Quantos anos tenho? Isso não importa a ninguém!
Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e sinto.

José Saramago

A ciência comprova: poesia é mais eficaz que autoajuda

Ler poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool.

Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos de Henry Vaughan,John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin e depois essas mesmas passagens traduzidas para a “linguagem coloquial”.

Os resultados da pesquisa mostraram que a atividade do cérebro “acelera” quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.

Os especialistas descobriram que a poesia é mais útil que os livros de autoajuda porque afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los desde outra perspectiva.

Os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens.

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*Fonte: revistapazes

A carta mais linda do mundo escrita por José Saramago para sua avó

No ano de 1968, José Saramago publicou no jornal A Capital, de Lisboa, a crônica Carta a Josefa, minha avó. Anos mais tarde, ela seria publicada no livro Deste Mundo e do Outro. Abaixo segue a reprodução da página do jornal A Capital em que foi originalmente publicado o texto. Confira a carta na íntegra:

*Optamos por manter a grafia do português de Portugal*

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Carta para Josefa, minha avó

‘Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.’

*Por Luiz Antonio Ribeito

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*Fonte: notaterapia

Canção – um poema Allen Ginsberg (traduzido)

Canção

O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação

o peso
o peso que carregamos
é o amor.

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –

pois o fardo da vida
é o amor,

mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.

Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:

o peso é demasiado
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.

Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –

sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.

_
Allen Ginsberg

 

 

 

 

 

 

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O belíssimo poema de Dalai Lama sobre a calma que todos deveríamos conhecer

A calma é um dos tesouros mais preciosos para o nosso equilíbrio mental, mas também um dos mais ilusórios, especialmente em uma sociedade que defende o imediatismo e onde a hiperestimulação reina.

Calma é um estado de tranquilidade e serenidade. Isso não implica que os problemas tenham desaparecido, mas que eles não nos afetam, são como as nuvens no horizonte: sabemos que elas existem, mas também estamos conscientes de que, mais cedo ou mais tarde, elas desaparecerão.

A calma nos permite responder com equanimidade às provocações e nos ajuda a manter o controle no meio da tempestade, para que possamos tomar as melhores decisões possíveis e aprender a responder em vez de apenas reagir.

Portanto, não é estranho que a calma tenha um papel protagonista no budismo. Esta proposta filosófica não se refere apenas à calma ambiental, mas fundamentalmente à calma mental. Refere-se a aquietar a mente, de modo que emoções e pensamentos não desencadeiem tempestades internas.

Nossa mente não é fixa, é antes um processo; um fluxo mental. Se a mente sempre permanecesse em um pensamento, ficaria paralisada. Estaria congelado. A mente está sempre se movendo porque é dinâmica. O problema é que, à medida que os pensamentos passam por nossas mentes, a continuidade é assegurada. É por isso que a mente não educada salta
continuamente de uma preocupação para outra. Esse fluxo de pensamentos negativos não termina

Esses hábitos mentais nos levam a um estado de confusão e agitação longe da calma. Esse hábito é muito, muito forte. Nossa mente é inquie e é um dos nossos principais impedimentos para alcançar a paz interior.

Esse “problema” é resolvido treinando a mente em tranquilidade. Essa ode do Dalai Lama para acalmar nos ajudará a dar-lhe o lugar que merece em nossa vida:

Se chama calma e me custou muitas tempestades. ⠀
Se chama calma e quando desaparece a busco incessantemente.
Se chama calma e me ensina a respirar, pensar e repensar. ⠀
Se chama calma e quando a loucura chega desencadeia ventos valentes que custam dominar. ⠀
Se chama calma e vem com os anos quando a ambição da língua jovem se solta, a barriga esfria sem ânsia, dá mais silêncio e mais sabedoria. ⠀
Se chama calma e, quando você aprende a amar, quando o egoísmo se esvai e o inconformismo acaba, abre-se o coração e a alma para quem quer receber e dar.
Se chama calma quando a amizade é tão sincera que todas as máscaras caem e tudo pode ser dito. ⠀
Se chama calma e o entendimento do mundo vem da unicidade saindo do labirinto que inventa guerras que ninguém nunca vencerá. ⠀
Se chama calma quando o silêncio é apreciado, quando os ruídos não são apenas música e loucura, mas o vento, os pássaros, a boa companhia, o barulho do mar. ⠀
Se chama calma e não pode ser paga, não há moeda de qualquer cor que possa cobrir seu valor quando se torna realidade. ⠀
Se chama calma e isso me custou muitas tempestades e eu as passaria mil vezes até encontrá-la novamente. ⠀
Se chama calma, a amo, a respeito e não quero deixá-la ir.

*Por Dalai Lama

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*Fonte: portalraizes

Conheça ‘Se’ – um dos mais belos poemas de todos os tempos de Rudyard Kipling

Do site Prosa, verso e arte
O poema “Se | IF”, escrito em 1895 pelo escritor anglo-indiano Rudyard Kipling (Prêmio Nobel de Literatura – 1907) e publicado pela primeira vez em 1910 numa coletânea de contos e poemas intitulada “Rewards and Fairies”.

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“Se”

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,
De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;

De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais –tu serás um homem, ó meu filho!

 

 

 

 

 

 

.

If
If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise;
If you can dream–and not make dreams your master,
If you can think–and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ‘em up with worn-out tools;
If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on!”

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings –nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And –which is more– you’ll be a Man, my son
– Rudyard Kipling [tradução Guilherme de Almeida]
LP Paulo Bonfim, Guilherme de Almeida. gravadora RGE. selo Prosa e Poesia, 1989.

Poema “Si” | “If”, de Rudyard Kipling.

 

Não quero alguém que morra de amores por mim – Por Mário Quintana

Não quero alguém que morra de amor por mim…
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.

Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim…

Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível…

E que esse momento será inesquecível…

Só quero que meu sentimento seja valorizado.

Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre…
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.

Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém… e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho…

Que a esperança nunca me pareça um “não” que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como “sim”.

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros…

Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão… que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim… e que valeu a pena!!”

(Mário Quintana)

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*Fonte: osegredo

Saiba o que acontece em seu cérebro quando você lê poesia

Poesia são dardos em forma de palavras que vão direto para a parte mais emocional do nosso cérebro. Há poemas que despertam um tsunami emotivo real e nos arrepiam, como “A Primeira Elegia”, de Rainer Maria Rilke, cujos versos dizem:

“A beleza é nada mais que o princípio do terrível,
Aquilo que somos apenas capazes de suportar,
Aquilo que admiramos porque serenamente deseja nos destruir,
Todo anjo é terrível. ”

Rilke descreveu o terror que sentimos quando adquirimos um conhecimento mais amplo, o momento em que ficamos mais conscientes de nossas limitações e da complexidade do mundo, e percebemos tudo o que não entendemos, conscientes daquilo que nunca iremos compreender. É uma possibilidade bela e sedutora, mas também muito assustadora.

A poesia tem a capacidade de enviar poderosas mensagens emocionais e ativar a reflexão, ainda que seja certo dizer que o maior prazer que sentimos ao ler um poema, como quando desfrutamos de uma obra de arte, não provém de uma reflexão profunda, mas de sensações que nós experimentamos. Na verdade, Vladimir Nabokov disse que não se deve ler com o coração ou com o cérebro, mas com o corpo.

Pesquisadores do Instituto Max Planck de Estética Empírica se propuseram a explorar mais a fundo as influências da poesia em nosso cérebro, e os resultados de seu estudo são fascinantes.

A poesia gera mais prazer, a nível cerebral, que a música.

Pesquisadores pediram a um grupo de pessoas, alguns liam poesia com frequência, para ouvir poemas lidos em voz alta. Alguns dos poemas pertenciam a conhecidos poetas alemães como Friedrich Schiller, Theodor Fontane e Otto Ernst, apesar de que foi dada a opção para os participantes escolherem algumas obras, incluindo autores como William Shakespeare, Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Nietzsche, Edgar Allan Poe, Paul Celan e Rilke.

Enquanto os voluntários escutavam os poemas, os pesquisadores registravam o ritmo cardíaco, expressões faciais e até mesmo os movimentos dos pelos sobre a pele. Além disso, quando as pessoas sentiam um arrepio, elas eram instruídas a avisar, pressionando um botão.

Curiosamente, todas as pessoas, mesmo aquelas que não tinham costume de ler poesia, relatavam calafrios em algum momento durante e leitura, 40% sentiram arrepios várias vezes. Estas são respostas similares àquelas que experimentamos quando escutamos música ou assistimos a uma cena de um filme que gera grande ressonância emocional.
No entanto, as respostas neurológicas estimuladas pela poesia eram únicas. Os dados mostraram que ao tomar contato com os poemas, partes do cérebro usualmente desativadas quando expostas ao estímulo de filmes e música foram despertadas.

Os neurocientistas descobriram que a poesia cria um estado que chamaram de “pré-relaxamento”; ou seja, que provoca uma reação de prazer gradativo a cada estrofe escutada. Na prática, ao invés da emoção nos invadir repentinamente, como quando escutamos uma canção, a poesia gera um crescendo emocional que começa até 4,5 segundos antes de sentirmos o arrepio.

Curiosamente, esses picos emocionais ocorriam especificamente em trechos dos versos, como no final das estrofes e, acima de tudo, no final da poesia. É uma descoberta muito interessante, especialmente considerando-se que 77% dos participantes que nunca tinha escutado um poema também mostraram as mesmas reações e sinais neurológicos que antecipavam os focos emocionais da leitura.

A poesia estimula a memória, facilita a introspecção e nos relaxa.

Neurocientistas da Universidade de Exeter escanearam os cérebros de um grupo de participantes enquanto liam conteúdos diferentes, desde um manual de instalação de ar-condicionado, passando por diálogos de novela, até sonetos e poemas.

Estes pesquisadores descobriram que o nosso cérebro processa a poesia de forma diferente que a prosa. É ativada uma “rede de leitura” peculiar que abraça diferentes áreas, entre elas, aquelas responsáveis pelo processamento emocional, ativadas fundamentalmente pela música.

Eles também perceberam que a poesia estimula áreas do cérebro associadas com a memória, como o córtex cingulado posterior e o lobo temporal médio, áreas que são despertadas quando estamos relaxados, ou introspectivos.

Isto demonstra que existe algo muito especial na estrutura do texto poético que gera prazer. Na verdade, a poesia é uma expressão literária muito especial que transmite sentimentos, pensamentos e ideias, praticando síntese métrica, trabalhando rimas e aliteração.

Portanto, não faz mal inserir um poema por dia em nossa rotina 🙂

Texto originalmente publicado no site Rincón de la Pscicología, traduzido e livremente adaptado pela equipe da Revista Pensar Contemporâneo.

*Por Jennifer Delgado Suárez, psicóloga

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*Fonte: pensamentocontemporaneo

A ciência comprova: poesia é mais eficaz que autoajuda

Ler poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool.

Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos de Henry Vaughan,John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin e depois essas mesmas passagens traduzidas para a “linguagem coloquial”.

Os resultados da pesquisa mostraram que a atividade do cérebro “acelera” quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.

Os especialistas descobriram que a poesia é mais útil que os livros de autoajuda porque afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los desde outra perspectiva.

Os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens.

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*Fonte: revistapazes

O Dia Nacional da Poesia

O dia nacional da poesia era em 14 de março, no aniversário de Castro Alves.

A partir de 2015, foi sancionada a lei 13.131, que mudou a data para o aniversário de Carlos Drummond de Andrade em 31 de outubro.
Ou seja, agora o dia nacional da poesia é em 31 de outubro.

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*Ano que vem mudam de novo para a data de nascimento de outro escritor…

Elogio da Sombra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Elogio da Sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

 

Jorge Luis Borges

“El poema que Borges nunca escribió”

“Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo”

 

Você conhece esse poema?
Provavelmente já o leu ou alguém quem sabe, o tenha comentado algum dia com você. Se não o conhece, bem vale a leitura, é bom.
Mas acontece que erroneamente é considerado por muitos (há muitos anos), como sendo da autoria do escritor Jorge Luis Borges, mas na realidade não é. Nem se sabe ao certo o porque de atribuírem a ele, sua autoria.

Confira o texto abaixo de Elizabeth Lorenzotti que esclarece o assunto.

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Desvendado o enigma. Esta matéria saiu no jornal espanhol El Pais, de 10/5/99.
A autora da poesia é uma senhora americana, Nadine Stair.  Quem está brava é a Maria Kodama, mas acho que brava demasiado.  Afinal, essa poesia rodou o mundo, de repente. Eu  fiquei procurando nas obras completas de Borges e nunca encontrei. Se ela rodou o mundo, é porque alguma função há de ter. E a poesia, como diz Anónio Scarmeta (O carteiro e o poeta) é para quem precisa dela.
  Um abraço
                                    Elizabeth

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“El poema que Borges nunca escribió”

Una poetisa norteamericana es la autora de unos versos falsamente atribuidos al insigne argentino Jorge Luis Borges.
FRANCISCO PEREGIL, Madrid

El siguiente poema ha sido inscrito hasta en camisetas y tazas de porcelana; algunos lectores de Jorge Luis Borges, como Alfonso Guerra, ex vicepresidente del Gobierno, lo han reproducido en su última felicitación navideña, aunque se cubrió las espaldas sobre la autoría del mismo atribuyéndoselo a un “anónimo borgiano”. E incluso un anuncio de una compañía de seguros que se ve estos días en televisión parafrasea su comienzo:

“Si pudiera vivir nuevamente mi vida,  
en la próxima trataría de cometer más errores.  
No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.  
Sería más tonto de lo que he sido;  
de hecho tomaría muy pocas cosas con seriedad.
Correría más riesgos, haría más viajes,  
contemplaría más atardeceres,  
subiría más montañas,
nadaría más ríos.  

Iría a más lugares a donde nunca he ido,  
comería más helados y más habas,  
tendría más problemas reales y menos imaginarios
(…)”.
Pero también el anuncio en cuestión omite referirse al autor, que, según la creencia de la calle, sería Borges. Craso error, porque la verdadera
autora del apócrifo es una desconocida poetisa norteamericana llamada Nadine Stair, que lo publicó en 1978, ocho años antes de que Borges muriera, en Ginebra, a los 86 años.
La bola de nieve había comenzado a rodar en 1983. Aquel año, el escritor de best sellers Leo Buscaglia reproduce el citado poema en su libro Living,
loving & learning. Se lo atribuía a un hombre que sabía que iba a morir.  En 1986, el estadounidense Harold Kushner, autor de libros como ¿Quién
necesita a Dios?, publica Cuando nada te basta, cómo dar sentido a tu vida, libro de la editorial Emecé en cuya página 162 se lee: “Recuerdo haber leído un reportaje sobre una mujer de los montes de Kentucky, en el cual se le pedía que pasara revista a su vida y reflexionara sobre todo lo que había aprendido. Con el típico toque de nostalgia que tiñe toda evolución del pasado, la anciana respondió: ‘Si pudiera vivir nuevamente mi vida (…) He sido de esas que nunca iban a ninguna parte sin un termómetro, una bolsa de agua caliente, un paraguas y un paracaídas”.

Después de muerto Borges, la revista argentina Uno Mismo, especializada en psicología, publicó el poema bajo el título Instantes y se lo atribuyó al poeta argentino. María Kodama, viuda del escritor, consiguió que Uno Mismo rectificara y que el Ministerio de Cultura y Educación publicara  una gacetilla donde se aclarase quién fue la autora del poema. Pero en eso tardó ocho años.

Nadie sabía al principio de dónde procedían aquellas palabras. “Tardé demasiado tiempo en descubrir que ese poema fue publicado originariamente en inglés”, afirma Kodama. Cuando consiguió reparar el entuerto, el poema se había expandido a base de fotocopias por los
institutos y universidades de medio mundo.

El año pasado, en la librería de Alfonso Guerra en Sevilla, una mujer próxima al ex vicepresidente le confesó a María Kodama su admiración por esos versos, su identificación con el contenido. A lo cual, Kodama contestó: “Si Borges hubiera escrito eso yo habría dejado de estar enamorada de él en ese momento”.

“El poema, sin ningún valor literario”, ha escrito Kodama, “desvirtúa el mensaje de la obra de Borges. Amparándose en una firma famosa, se
intenta transmitir un sentido de la vida completamente materialista, sin ninguna busca de perfección espiritual ni inquietud intelectual”. 

 

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*Fonte: jornaldapoesia

Com a morte de Ferreira Gullar, morre a poesia brasileira do século 20

Quando um grande artista se vai, ele não desaparece. Eternizado em sua obra, permanece para nós, leitores, pobres vivos que passarão, talvez com a sorte de beleza com que passam os passarinhos. Ferreira Gullar, um artista de verdade, um glutão do saber e da cultura, da palavra e do fazer expressivo, que se aventurou na pintura, na música, no teatro, na teledramaturgia, nos movimentos de cultura popular, faleceu hoje, no quarto dia de um mês de Dezembro de 2016, ano custoso de terminar.

Li a sua obra do começo ao fim algumas vezes. Estudando-o, acompanhei seu pensamento, e quando pude conhecê-lo, encontrei um Gullar bem diferente daquele por mim conhecido em sua poesia de esquerda, engajada, politicamente comprometida com justiça social e uma agenda harmônica com o que havia de mais puro em se tratando de ideologia esquerdista.

Sua poesia mudou. Sua vida mudou. Mas era assim que tinha que ser, pois a desarmonia sempre foi o seu alvo: “Eu não tenho projeto, eu nunca tive projeto”, dizia ele. Agia por impulso permanente de mudar. Revolucionário de si mesmo, sem pudores, mudava de opinião, e talvez corroborasse com Paulo Francis, mesmo em um período de sua trajetória na qual os dois pudessem estar diametralmente opostos, seguindo a máxima do jornalista (também outrora de esquerda): “Toda pessoa inteligente é contraditória. Só gente burra que nunca se contradiz”.

Gullar mudou, mas sem jamais deixar de ser Gullar, poeta que dava peso e medida a cada palavra desmedida de sua poesia, comprometida com a informação de um sentimento ou estado de espírito, mesmo quando parecia não estar.

Com Ferreira Gullar e Manoel de Barros mortos, o século 20 talvez termine, literariamente, para o Brasil, ao menos no que diz respeito à poesia. Na prosa ainda respira Lygia. O que nos resta deste século 20, vivos, na prosa, são “pilares” frágeis demais para serem mantidos de pé com a mesma envergadura de Barros e Gullar: ficarão, no máximo, como colunas velhas de uma época pela qual passaram Bandeira e Drummond, Cabral e Mário de Andrade, os irmãos Campos.

Seu trabalho como crítico de arte o coloca na sala de honra da intelectualidade brasileira. Gullar foi um guia e uma inspiração para jovens que não queriam apenas saber literatura, mas eram ciosos de saber mais e mais, não por vaidade, ou não apenas por ela, mas porque a paixão pelo belo, a inquietação permanente construída pelo incômodo que o não saber traz aos inquietos, movimentavam esse homem.

Essa carência por mais e mais o tirou do Maranhão. Trouxe-o para o Rio de Janeiro. Queria uma cidade na qual pudesse conversar com pessoas sobre ideias, ver quadros, ver obras, estar no caos permanente. Meditar sobre o açúcar em uma mesa de café da manhã, em Ipanema, voltando assim aos canaviais dos quais saía aquele açúcar. Forma sublime de retornar à região natal, com a força do pensamento e a expressividade estética. Por via do açúcar parado na mesa de Ipanema, fincava, através da poesia, seus pés nas suas origens, talvez de maneira mais forte do que teria feito, caso lá tivesse ficado. Afastar-se para ver melhor, e sem jamais deixar de ser quem era.

Gullar, na sua fragilidade física — era mais baixo e magro do que parecia aos que o conheceram somente pela televisão — era glutão como poucos se o assunto era o conhecimento. Sua biblioteca, que transformava sua casa, e especialmente sua sala, em um ambiente belamente claustrofóbico, misturava-se aos quadros e esculturas. Presentes que ganhou de tantos artistas sobre os quais escreveu e a respeito dos quais se calou, mas amou profundamente. Lá havia também sua gatinha, presente da cantora Adriana Calcanhoto, mais um mimo de artista, e mais uma coisa viva que lhe rendeu um poema, no qual se refere à cor dos olhos da gatinha: “olhos azuis safira”, muito mais dignos de interesse do seu sujeito lírico do que os mistérios do mundo, ante os quais se rendia, deles nem querendo saber: a vida presente, os homens presentes, o tempo presente.

A morte sempre o abalou. A ideia de perder um ente querido aterrorizava aquele que passou pela maior das dores: enterrar um filho. Dessa dor tirou um poema, absolutamente poderoso, recorrendo sempre às palavras mais simples, porém manejadas com um primor e sabedoria fatais.

Na última vez que estive com ele, falamos de tudo um pouco, mas muito de Proust. Não consigo me esquecer de sua voz rouca e aborrecida, lendo o poema que fez para a Clarice Lispector quando de sua morte. E me estranha as surpresas da vida e os volteios dela em torno da linguagem. Ontem eu me saudava de Clarice que, pobre de mim e de minha perdida geração (para citar Borges falando de James Joyce, que ele também não conheceu), não conheci e nem pude conhecer pessoalmente, e me veio à lembrança a narrativa dele, falando-me dela, da morte dela, com extrema, profunda, resignada e ao mesmo tempo revoltosa saudade.

As mudanças pelas quais passou o seu pensamento político mudaram a visão de muitos que o adoravam, colocando nele o símbolo de esquerda. Talvez ele tenha mesmo sido. Perdeu um emprego, na juventude, em uma rádio, por ter se recusado a ler uma notícia que acusava jovens comunistas. Pode ter mudado de lado, mas o maior e o principal dos lados ele jamais abandonou: o da coerência, coragem, independência, fortaleza para ser quem era, sustentar as posições que tinha, fossem quais fossem, diferentes, antagônicas ou apenas relativamente diferentes das de outrora.

No fundo, sempre desejou justiça social. Só mudou a forma de acreditar no modo pelo qual esta justiça se faria presente. Reconheceu, com a gentileza que a idade faz para alguns, que não há verdades absolutas. Tudo o que temos são crenças. Há, em nós, essências, e creio: a essência de sua alma solidária e brava jamais se alterou. Pouco importa se à direita, à esquerda, ou no acomodado e reservado centro. Seu coração estava à frente, não de um lado e nem de outro. E era assim que ele se interessava pelo ser humano: sendo humano, ao seu modo.

“Poema Sujo”, sua obra-prima, talvez um dos maiores poemas do século 20, em todas as línguas e literaturas ocidentais, figurando, sem qualquer timidez, ao lado de T. S. Eliot e do conjunto drummondiano, garantiu-lhe lugar permanente nos livros didáticos, nas mesas de discussões e em qualquer lista honesta e responsável elaborada por um pretenso especialista ou reunião de pretensos especialistas.

Quando fez “Poema Sujo”, estava exilado e sem rumo. É um poema que, como ele, tem a ambição glutona de engolir a significação do existir e da existência em um momento de tensão limite. Obra corajosa, monolítica, real, sem pudor na escolha vocabular e altamente audaciosa na sua execução que, como no conjunto de sua obra e trajetória, não tinha projeto dado de início: fez-se como ele era, movido insanamente “dentro da noite veloz”, e está nessa imprecisão sua precisão sólida de poesia verdadeira, sanguínea, que não nos coloca em dúvida por um segundo sequer se estamos diante de uma expressão poética com peso de carne perfurada por uma bala. E o poema nos atinge, em sua clareza acidental. Limpo, sem qualquer palavra que possa ser suprimida ou acrescida, suja-nos com a vida que não está fotografada ali, mas radiografada pelo olhar do poeta, que rompe o tecido do conceitual, e mais que retratar a realidade, cria-a.

Muitos senões vão aparecer agora. Muitos lamentarão a morte do Gullar dos anos 60/70/80, e talvez farão piadas pobres e vazias a respeito do Gullar dos últimos dias, colunista, ai dele, da “Folha de São Paulo”, baluarte da esquerda para os direitistas radicais, e baluarte da direita para os esquerdistas radicais. Para Gullar, apenas um emprego, um veículo no qual escrevia com a liberdade garantida por um lastro que somente a história de uma vida dedicada para o propósito da arte, da compreensão do mundo e da contribuição para a melhora deste mundo pode dar.

Esses, que julgam mais homens que obras, passarão. Sua obra ficará. “Poema Sujo” continuará a ser matéria que leciono em minhas aulas, e tema dos livros que tratam a produção do homem na história da humanidade, em especial na história do século 20.

Para quem ama a linguagem, fica de Gullar tudo, mas um tudo que transcende a política, especialmente esta política de hoje, pobre e podre. Mas, ora, um tudo que requer ressalvas não pode ser chamado de tudo. É que na arte, o tudo é só o que dura. E a vida passa, mas a arte fica. Gullar não foi. Não estava. Não era.

Ferreira Gullar, um dos maiores poetas do século 20, na poesia brasileira e ocidental, é. É e fica sendo. No sempre. Agora.

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*Fonte: revistabula / Carlos Augusto Silva

ferreira-gullar1

Esquece o futuro – Montaigne

 

 

“Esquece o futuro… ele não te pertence!
O presente te basta!
Mas é preciso ser rápido, quando ele é mau presente
E andar devagar quando se trata de saboreá-lo
Expressões como: “passar o tempo” espelham bem a maneira
de viver dessa prudente…. que imagina não haver coisa melhor
pra fazer da vida.
Deixam passar o presente, esquivam-se, ignoram o presente…
Como se estar vivo fosse uma coisa desprezível…
Porque a natureza nos deu a vida em condições tão favoráveis…
que só mesmo por nossa culpa ela poderia se tornar pesada e inútil”.

Montaigne

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*Fonte: portalraizes

Ah! Os relógios!

Ah! Os relógios!
Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológicos…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de Poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…

Mario Quintana – A Cor do Invisível, 1989.

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Então lá vai um poeminha

POEMA PORNÔ SÉRIO

Quer seja curto ou comprido
Quer seja fino ou mais grosso
É um órgão muito querido
Por não ter espinhas nem osso

De incalculável valor
Ninguém tem um a mais
E desempenha no amor
Um dos papéis principais

Quando uma dama aparece
Ei-lo a pular com fervor
Se é um rapaz, estremece
Se é velho, tem pouco vigor

O seu nome não é tão feio
Pois tem sete letrinhas só
Tem um R e um A no meio
Começa em C e acaba em O

Nunca se encontra sozinho
Vive sempre acompanhado
Por outros dois orgãozinhos
Junto de si, lado a lado

O nome destes porém
Não gera confusões
Tem sete letras também
Tem L e acaba em ÕES

Prá acabar com o embalo
E com as más impressões
Os órgãos de que eu falo…
São o CORAÇÃO e os PULMÕES.