Infelicidade e solidão pode envelhecer mais que o cigarro

A depressão traz um sofrimento terrível a quem tem esta doença. Isto provavelmente você já sabe. Mas o que os pesquisadores estão descobrindo agora é que ela pode ter outros efeitos, como envelhecer o doente – até mais do que faz o cigarro, por exemplo.

Estudos recentes sugerem que, quanto mais velha cronologicamente for a pessoa, mais propensa ela está a ter algumas doenças que podem levar à morte. Mas agora novas pesquisas estão colocando mais um elemento relacionado ao envelhecimento: a saúde psicológica.

A relação entre a infelicidade e o envelhecimento

O que os pesquisadores estão pontuando é que se sentir infeliz, solitário ou mesmo deprimido pode acelerar os processos de envelhecimento, da mesma que forma que faz o tabagismo e outras doenças. Eles estão levantando como fatores para a velhice, além da idade cronológica, baseada em quando uma pessoa nasceu, a idade biológica, influenciada pela genética, pelo estilo de vida e outros fatores.

Novos estudos sugerem que, quando maior for a idade biológica, maior será o fator de risco a doenças que podem inclusive levar ao risco de morte. Agora, os pesquisadores dizem estar criando um “modelo digital de envelhecimento”, que pode calcular a idade de uma pessoa a partir destes dois fatores.

O relógio do envelhecimento

Pesquisadores da Universidade de Stanford e da Universidade de Hong Kong têm trabalhado em uma startup chamada Deep Longevity. Eles dizem ter criado um “relógio do envelhecimento” a partir de dados coletados com 4846 adultos em 2015. Por meio deste estudo, eles chegaram em 16 biomarcadores sanguíneos relacionados à saúde, como níveis de colesterol, glicose, índice da massa corporal, sexo e medidas da função pulmonar.

Em seguida, eles compararam a idade cronológica dos indivíduos pelo modelo previsto pela sua idade. Os resultados sugeriram que fatores ligados à idade cronológica, o que envolve dados da saúde mental e do nível de satisfação com a vida, interferiram no ritmo do envelhecimento. “Demonstramos que fatores psicológicos, como sentir-se infeliz ou solitário, somam 1,65 anos à idade biológica”, escreveram em um estudo.

Embora o número seja apenas uma estimativa, o estudo revela que cuidar do estado psicológico é fator crucial em relação ao envelhecimento. Outra constatação é que os fumantes tendem a ser 15 meses mais velhos do que os não-fumantes com a mesma idade cronológica.

Os pesquisadores também apontaram mais fatores que são relacionados a esse relógio: o casamento tende a reduzir a idade em sete meses, enquanto a vida em ambiente rural tende a aumentar cinco meses na idade biológica, em relação às pessoas que vivem em centros urbanos.

Andrew Steptoe, professor da Universidade College London, destacou que o trabalho pode trazer uma importante contribuição à sociedade. “Os resultados são interessantes e se somam às evidências existentes na América do Norte e na Europa de que fatores como estresse e baixa posição socioeconômica estão relacionados ao envelhecimento acelerado”, afirmou.

*por Maura Martins
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*Fonte: megacurioso

A solidão das mulheres inteligentes

A inteligência de uma mulher atrai os homens? Provavelmente uma grande parte dos homens diria que sim, claro. Entretanto, se perguntássemos às mulheres, muitas responderiam justamente o contrário. E curiosamente os dois teriam razão, segundo um artigo publicado em 2015 na revista Personality and Social Psychology Bulletin.

Lora Park, psicóloga social da Universidade de Buffalo (Estado de Nova York), e seus colegas Ariana Young e Paul Eastwick realizaram diversas pesquisas para comprovar o que acontece com os homens quando estão com uma mulher que parece ser mais inteligente que eles. Num primeiro experimento, pediram que avaliassem uma garota hipoteticamente mais preparada e habilidosa em matemática e em inglês. Todos eles qualificaram a moça como um par romântico desejável em longo prazo. Até aqui tudo bem, essa era a teoria. Mas e na prática? Para responder, os pesquisadores criaram diversas situações em que as pessoas competiam entre elas. Quando uma garota demonstrava ser mais inteligente que os rapazes, “num passe de mágica” ela deixava de ser tão atrativa aos olhos deles. E, inclusive, os garotos chegavam a reconhecer que se sentiam inseguros na frente dela.

A conclusão do estudo acima, portanto, poderia ser resumida em uma ideia: teoricamente a inteligência da mulher atrai os homens, mas na prática e em distâncias curtas lhes causa insegurança (obviamente, sempre há exceções). Pesquisas acadêmicas à parte, é provável que você conheça mulheres que considerem que a inteligência foi uma barreira na hora de encontrar parceiro e manter uma relação bem sucedida. Também é possível que você conheça homens que apoiam as carreiras profissionais das suas parceiras e se sintam muito orgulhosos da sua inteligência. De acordo, qualquer generalização é incorreta. Mas, dito tudo isto, ainda hoje persiste uma parcela de homens que ficam inseguros ou que sentem sua masculinidade questionada quando estão diante de uma mulher brilhante. Talvez esse resultado dependa da autoestima e da maturidade de cada um, mas vale a pena levá-lo conta para saber como agir e administrar as solidões e as possíveis frustrações.

Necessitamo-nos mutuamente. Tanto é que uma das chaves para o sucesso profissional de uma mulher (e de um homem) é ter um bom cônjuge, segundo Sheryl Sandberg, diretora financeira do Facebook. De fato, das 28 mulheres que já foram diretoras-gerais de alguma empresa da lista Fortune 500, 26 são casadas, uma divorciada, e uma é solteira. Mas as mudanças da sociedade são tão profundas que também estão afetando as dinâmicas entre o homem e a mulher, o que nos obriga a administrar novos medos, disfarçados de outro modo. E para poder combatê-los bem é necessário melhorar o autoconhecimento a fim de ganhar confiança e segurança em si mesmo(a), e não pelo que o outro faça ou diga. Também é importante educar em inteligência emocional desde a infância, de forma que tanto os homens como as mulheres possam se preparar para os novos papéis sociais que irão viver. E, obviamente, precisamos abrir novos diálogos dentro dos casais para encontrar os pontos de conexão e de colaboração, e não os de competição. Só assim aprenderemos a superar as dificuldades que todos e todas nós enfrentamos.

*Por Pilar Jericó

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*Fonte: elpais

Robert Waldinger: “A solidão mata. É tão forte quanto o vício em cigarros ou álcool.

Cientistas decidem mapear as vidas de 268 estudantes da instituição, buscando compreender as relações entre saúde física e mental, entre saúde e felicidade. Dentre os participantes, estavam nomes como John F. Kennedy e o editor do Washington Post, Ben Bradley.

Foram quase oito décadas de acompanhamento. A pesquisa, chamada de Harvard Study of Adult Development, tornou-se o mais amplo estudo já realizado sobre a felicidade humana.

Ao longo dos anos, a pesquisa foi estendida aos filhos dos participantes. Há uma década, também às mulheres dos participantes*. Durante todo este tempo, foram analisados fracassos e sucessos pessoais, registros médicos, qualidade dos casamentos e muitas outras questões que interligavam dados de saúde física a percepções emocionais.

(*Mulheres não participaram do estudo original, pois, em 1938, Harvard era exclusiva para homens)

A conclusão foi surpreendente para todos: “descobrimos que a felicidade que sentimos nos nossos relacionamentos tem um poder incrível sobre nossa saúde”, explicou Robert Waldinger, diretor do estudo.

Waldinger é um caso à parte e merece um espaço para conhecer seu trabalho.

Quem é Robert Waldinger?

Professor de Medicina de Harvard, este psiquiatra, psicanalista e professor Zen ganhou o mundo após a publicação de sua palestra no projeto TED, uma das 10 TED Talks mais assistidas de todos os tempos.

Na palestra, ele responde as perguntas mais básicas que movem os seres humanos: o que nos mantém felizes e saudáveis durante a vida? Waldinger reúne as conclusões do estudo aos seus aprendizados práticos na psiquiatria e no Zen Budismo em três lições fundamentais para construir uma vida repleta de sentido.

Resultado: 23 milhões de pessoas assistiram à fala de Waldinger.
(Vídeo legendado: escolha a língua de sua preferência)

Relacionamentos íntimos, mais do que fama ou dinheiro, são a fonte da felicidade através da vida. Estes laços protegem as pessoas das frustrações, ajudam a retardar doenças degenerativas físicas e mentais e são parâmetros mais eficientes na análise da longevidade – mais do que classe social, QI ou até mesmo a genética.

Os pesquisadores analisaram uma infinidade de dados: centenas de relatórios médicos, entrevistas e questionários encontraram uma forte correlação entre o florescimento da vida destes homens e de seus relacionamentos com família, amigos e comunidade. Muitos estudos descobriram que o nível de satisfação com seus relacionamentos, na idade de 50 anos, foi mais importante para avaliar a saúde física do que níveis de colesterol por exemplo.

Quando reunimos tudo que tínhamos sobre os participantes aos 50 anos, vimos que não eram as taxas de colesterol que previam quantos anos eles viveriam. Era muito mais sobre a satisfação destas pessoas em suas vidas pessoais. As pessoas mais satisfeitas aos 50 anos eram os mais saudáveis aos 80”, explicou o professor Waldinger.

Os pesquisadores também descobriram que a felicidade no casamento tem um poder de proteção sobre a saúde mental. Pessoas que tiveram casamentos felizes, aos 80 anos, relataram que nem mesmo dores físicas eram capazes de abalá-los. Aqueles que tinham casamentos infelizes sofriam de mais dores físicas e emocionais.

Aqueles que mantêm relacionamentos calorosos vivem mais e com mais felicidade, disse Waldinger, e aqueles que se sentem solitários morrem mais cedo.

“A solidão mata. É tão forte quanto o vício em cigarros ou álcool.”

Os pesquisadores também avaliaram que a força dos relacionamentos reduzia a necessidade destes vícios. Ainda, que os laços sociais eram capazes de frear a degeneração mental durante a velhice. Atualmente, o estudo prossegue com os familiares dos participantes originais e aproveita tecnologias não disponíveis em 1938 para refinar as conclusões com testes de sangue e ressonância magnética.

O psiquiatra e psicanalista George Vaillant, que entrou na equipe da pesquisa em 1966, liderou o estudo de 1972 até 2004. Ele também enfatiza o papel dos relacionamentos para vidas mais saudáveis e longevas: “Quando o estudo começou, ninguém ligava para empatia ou laços. Mas, a chave para a velhice saudável são os relacionamentos, os relacionamentos e os relacionamentos”, argumenta Vaillant. Em sua obra, Ageing Well, escrito com base na pesquisa de Harvard, Vaillant descreve lições extraídas dos “homens de Harvard”.

Os seis fatores da longevidade:

– atividade física
– redução de álcool
– parar de fumar
– desenvolver mecanismos maduros para lidar com as adversidades
– manter um peso saudável
– ter um casamento estável

O estudo mostrou que o papel da genética e de ancestrais longevos se provou menos importante para conquistar uma vida longa e saudável do que os níveis de satisfação aos 50 anos, atualmente reconhecidos como fatores preditivos para a qualidade de vida na velhice. A pesquisa também desmistificou a ideia de que vidas não saudáveis na juventude prejudicariam a velhice. “Aqueles que eram trens descarrilados aos 20 ou 25 anos se tornaram ótimos octogenários. Mas, por outro lado, alcoolismo e depressão pode sim levar pessoas que começaram suas vidas maravilhosamente bem a um fim desastroso.”, explica Vaillant.

Perguntado sobre as lições que extraiu do estudo, Waldinger diz que passou a praticar mais meditação e a investir tempo e energia em seus relacionamentos. “É tão fácil se isolar, se afundar no trabalho e esquecer dos amigos”, diz o professor. “Então, apenas presto mais atenção aos meus relacionamentos.”

Em entrevista, Robert Waldinger compartilha algumas de suas lições sobre relacionamentos e fala de sua própria viagem em direção à felicidade e à resiliência.

Qual é o grande segredo para uma vida repleta de significado e felicidade?

Robert Waldinger: É tudo sobre relacionamentos. A mensagem final é que relacionamentos nos farão felizes. Porém, a mensagem completa é que precisamos aprender a trabalhar dentro destes relacionamentos – e há muito trabalho a ser feito. Nunca chegaremos a um lugar em que poderemos dizer “Ok, minha relação está boa. É isso. Não preciso fazer mais nada.” As pessoas estão sempre mudando, nós estamos sempre mudando. Portanto, as relações também sempre mudam. Cuidar dos relacionamentos é um projeto contínuo, mas que vale a pena. Vale o investimento.

Então, como podemos manter um relacionamento forte e saudável?

Robert Waldinger: A primeira lição é prestar atenção. Isso vem da minha base Zen. Estamos constantemente distraídos. Estamos com os outros, mas estamos ligados aos nossos smartphones. Quantas vezes você se sentou com alguém para tomar um drinque e todos ao redor estavam no telefone? Meus alunos, nos seminários que ministro, precisam desligar seus smartphones e devem levar este ensinamento para suas vidas.

A solução é simples: observe o outro com atenção. Se você fizer isso, sempre saberá onde o outro está – como é sua vida, seu dia enfim. Você precisa saber que é este tempo de atenção a alguém que mantém a relação saudável.

Como esta lição sobre relacionamentos afeta nossa cultura de trabalho?

Robert Waldinger: Tenho um filho que é um típico membro da geração Millenial e que trabalha em uma típica empresa Millenial. Nestas empresas, há muito mais ênfase na qualidade da vida profissional e na comunidade. É mais importante criar um espaço e uma cultura em que as pessoas se sintam engajadas umas com as outras. Esta conexão fará com que as pessoas queiram ficar nas empresas, queiram ir trabalhar diariamente e cada vez mais; elas não se sentirão isoladas, mas sim conectadas e lutando por uma causa comum. Sim, há muito falatório sobre como as empresas investem na qualidade das relações dos trabalhadores, mas creio que há sim mais atenção real a isso hoje em dia. Desenvolver ambientes de trabalho e horários de trabalho que promovam mais este laço é algo que vejo como muito positivo.

Como um professor Zen, com grande prática meditativa – alguém que está especialmente atento e focado – como você enxerga o complicado equilíbrio entre trabalho e vida pessoal?

Robert Waldinger: É um projeto em constante progresso. Estou sempre encontrando equilíbrio e perdendo equilíbrio. A minha experiência me mostra que você nunca alcança um lugar de perfeito equilíbrio, onde poder ficar para sempre – a harmonia é um ato de calibração.

Eu não era um grande adepto da meditação ou até mesmo muito envolvido com o Zen quando meus filhos eram jovens. Mas, quando eles foram para a escola e não se importavam mais onde eu estava, comecei a ter liberdade de ir a diversos lugares. Participei de retiros e meus filhos nem notavam que eu não estava em casa! Mas, quando eles eram pequenos, foi crucial que eu estivesse lá para eles, tão disponível quanto fosse possível.

Claro, sua ideia de equilíbrio depende da fase da vida em que você se encontra. Para mim, agora, eu e minha esposa adoramos trabalhar, então, trabalhamos muito. Talvez, até demais, mas temos muito prazer no que fazemos. Como disse, a ideia de equilíbrio está sempre mudando – é isso que você precisa saber.

E como suas práticas lhe ajudam atualmente?

Robert Waldinger: Estar atento é parte do meu equilíbrio: me obriga a parar e observar. É como um marcador de cada dia analisar exatamente onde estou naquele momento. Grande parte de nós não para por isso. A ideia de fazer nada é radical nesse sentido, é a ideia de não agir, de apenas observar onde estamos naquele momento.

Saúde, longevidade, produtividade e, claro, felicidade. A conquista dos pilares da qualidade de vida foi tema da conferência da psicóloga canadense Susan Pinker no Fronteiras do Pensamento. A fala, intitulada O efeito aldeia, teve base em seu livro, The village effect, em que apresenta suas pesquisas sobre o poder das relações presenciais.

A partir de seus estudos, a psicóloga pontuou dois fatores cruciais para o desenvolvimento de uma vida próspera: relações próximas, as pessoas em quem podemos confiar; e a integração social, ou seja, os laços mais frágeis, as pessoas com quem cruzamos todos os dias.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Será a solidão o mal do século?

A solidão pode te encontrar num dia chuvoso e frio num canto da sua casa ou num quarto luxuoso de Paris com um príncipe encantado ao seu lado.

Há quem diga que ser ou estar solteiro(a) é sinônimo de solidão. E solidão é uma palavra engraçada… Até em sua classificação, ela é ímpar, é singular. É estranho fazer o seu plural. No dicionário, ela é descrita como a “condição ou estado de quem está desacompanhado ou só”. Já os existencialistas acreditam que ela é inerente ao ser humano: nós nascemos sós, atravessamos nossa vida como um ser destacado e morremos sós. Independente do significado que se dê ou queira dar à solidão, a maior parte das pessoas a associa imediatamente a algo negativo, repulsivo até.

A verdade é que desde pequenos, nós fomos criados acreditando que para sermos felizes nós necessariamente precisaríamos ter alguém ao nosso lado. Lembra de todos aqueles natais com aquelas tias (chatinhas pra cacete, diga-se de passagem) te enchendo o saco para saber como ia o(a) “namoradinho(a)”? Ou todas as vezes que a sua mãe te perguntou se você tinha uma paquera? (olha eu denunciando a minha idade com o vocabulário…) Ou os seus amigos cobrando uma atitude sua, do tipo: “Para de enrolar a(o) garota(o)! Quando vocês vão casar?” Fora essas pressões, você sempre precisou tirar boas notas, ganhar dinheiro, ser um(a) bom(a) filho(a), ser feliz, fazer os outros felizes, entregar aqueles relatórios super chatos no prazo, arrumar um tempo para visitar aquele(a) amigo(a) que você não via a séculos, aturar chefe babaca, colega de trabalho babaca, ficar gostoso(a) na academia, gerenciar a sua TPM, ou mesmo garantir a sobrevivência da espécie. As pressões e cobranças vêm de todos os lados: do nosso ambiente de trabalho, da nossa família, de nossos relacionamentos e de nós mesmos, para sermos e termos uma multiplicidade de coisas. Muitas pessoas cedem à pressão e se casam ou se juntam muito cedo. Ainda sim, uma boa parte dessas pessoas, com o passar dos anos se vêem solitárias, dentro do próprio relacionamento.

Pois há quem goste de ser, estar ou se assumir solteiro(a) e inclusive sinta até um certo orgulho nisso. Sabe aquele “melhor só do que mal acompanhado(a)”? E aquela sensação de liberdade, de não ter que dar satisfações a uma outra pessoa, de ser você mesmo sem travas, não ter que dividir o espelho do banheiro, seu controle remoto ou o seu armário com outra pessoa? E ter que aturar as manias do(a) outro(a) então? Ê lê lê ! Difícil né? Pois é, a vida a dois (ou a três como alguns preferem) parece ser mesmo um desafio com todas as facilidades que a vida moderna te proporciona. As pessoas que vivem bem consigo mesmas, sozinhas, têm dificuldade de fazer grandes concessões para viver com outra pessoa. Quem nunca chegou do trabalho desejando apenas um momento de silêncio, uma bebida qualquer e uma boa brisa no rosto? Um momento saudável, único, uma bênção! Praticamente um monólogo, onde só você atua, só você fala e só você interage consigo mesmo. Solitário também, não é mesmo?

O bom mesmo é quando você encontra alguém que não te deixa se sentir só. Que não concorde com você, mas te respeite, que não te sufoque, que divida as tarefas, as confissões e a conta do restaurante, que te apóie em momentos difíceis, que te conheça tão bem a ponto de adivinhar que às vezes você precisa de um tempo só para você, que antes de ser um companheiro(a) é um(a) amigo(a), que te incentive a ter um relacionamento saudável com seus amigos, que confie em você. E o mais importante: que te dê espaço para ser o que você realmente é, porque acredita em ti. E isso é algo difícil de achar quando se vive em um grande supermercado repleto de distrações, que é o nosso mundo. Muitas vezes você o encontra com o tempo, sem preocupações ou pressões. E quando isso acontece, não é preciso “papel passado”, a bênção de um(a) religioso(a) ou mesmo um ritual porque você vai achar a coisa mais natural do mundo.

*Por Rafael Pinheiro

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*Fonte: obviousmag

Analista explica sucesso financeiro do Coringa de Joaquin Phoenix: ‘Alienação, solidão e raiva’

Coringa se tornou um fenômeno de bilheteria, arrecadando cerca de US$ 744 milhões ao redor do mundo pouco depois de um mês de estreia e com grandes chances de se tornar o filme +18 mais lucrativo da história, um feito que parece difícil de se compreender.

Porém, para o analista de mídia sênior em Relações com Expositores Jeff Bock, que falou à Variety, os motivos para o sucesso do Palhaço do Crime são evidentes: “Coringa com certeza está rindo por último”. O primeiro fator do sucesso foi o orçamento conservador, de US$ 62,5 milhões para o filme.

“Não se consegue comprar uma adaptação de quadrinhos por esse preço, ainda assim a Warner Bros. fez funcionar contando uma boa história”, disse Bock. Mesmo ao considerar que publicidade e distribuição aumentaram o orçamento do filme em US$ 100 milhões, o investimento total continua sendo uma fração dos lucros.

O investimento “baixo” se deve aos temas sombrios e conteúdo muito mais perturbador do que a média de filmes de quadrinhos, motivando uma abordagem mais cautelosa da WarnerBros.. E este foi justamente outro ingrediente no sucesso do filme de Joaquin Phoenix.

“Eles fizeram uma aposta e deu certo. Coringa atingiu em cheio o Zeitgeist de hoje e está coletando os frutos disso”, afirmou Bock. “Estamos falando sobre temas universais, de alienação, solidão e raiva que continuam a alimentar a bilheteria desse monstro.”

A forma de representação da violência em Coringa já é algo que dava certo em outros gêneros do cinema também, segundo Bock.

“Públicos mais jovens estão defendendo esse filme de maneira muito parecida com os jovens que assistiram Assassinos Por Natureza [1994], ou Laranja Mecânica [1994] ou Pulp Fiction [1971]. Cada um desses filmes, violentos de maneiras próprias, tinha algo a dizer sobre as falhas da sociedade, tornando-os muito mais interessantes e duradouros.”

Por último, a campanha de marketing do longa dirigido por Todd Phillips merece destaque. Nas semanas anteriores a estreia, Coringa levantou muitas críticas sobre a possível romantização de um assassino em massa, e as famílias das vítimas do massacre na exibição de Cavaleiro das Trevas Ressurge, que aconteceu na cidade de Aurora em 2012, falaram contra o filme.

A Warner então aumentou a divulgação do filme nas redes sociais, numa tentativa de limitar as manchetes bombásticas e, em vez disso, aumentar o diálogo. Essa abordagem deu certo, já que notícias negativas não impactaram as vendas de ingresso, apesar do marketing direcionado ser mais custoso.

Jeff Bock também menciona o formato inovador de Coringa para o gênero, ao falar do futuro da Warner: “Agora eles [Warner Bros.] tem um modelo viável, o qual a Marvel e a Disney tem medo de fazer – adaptações +18 de quadrinhos.”

“Nos últimos anos, a Disney, como uma entidade, não conseguiu reunir de forma bem-sucedida as multidões adultas que gostam de explorar temas sombrios, conhecidos como PG-13 e além”.

 

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*Fonte: revistarollingstone

Estamos todos numa multidão e numa solidão ao mesmo tempo…

“Estamos todos numa multidão e numa solidão ao mesmo tempo”, disse Zygmunt Bauman.

Uma frase aparentemente contraditória que elucida os relacionamentos modernos.

Em um mundo cada vez mais conectado, é de se estranhar a tamanha solidão que nos forma. Desse paradoxo, Bauman tirou a sua emblemática frase, uma vez que estava atento para a relação entre esses dois fatores. É indiscutível os grandes avanços que o desenvolvimento tecnológico permitiu, principalmente, no que tange às tecnologias da informação. Entretanto, é preciso, como fez o sociólogo polonês, estar atento às problemáticas trazidas e/ou potencializadas a partir do desenvolvimento tecnológico.

Para ele, o grande atrativo dos relacionamentos desenvolvidos no meio virtual, as “amizades Facebook”, está na facilidade em desconectar que estas possuem, dispensando todo o desgaste que uma relação concreta exige. De fato, a internet permite que amizades sejam construídas e desconstruídas em um clique, todavia, isso não é um fato que se resume à internet, podendo ser tranquilamente aplicado às relações “concretas”. Dessa maneira, o Facebook e toda a parafernália tecnológica desenvolvida “apenas” potencializaram a dificuldade existente em nós de criar laços.

Apesar de não ser a causa propriamente dita, as tecnologias da informação não perdem o seu caráter problemático e contraditório percebido por Bauman, já que sendo aportes criados para promover a conexão, é contraditório como as suas próprias estruturas estimulam a desconectabilidade entre as pessoas. Mas, novamente, isso só acontece em função da nossa formação enquanto indivíduos, sendo, portanto, o maior (ou real) problema o homem e não a máquina.

Sendo assim, o problema deve ser encarado como um via de mão dupla, uma vez que o mundo virtual e o mundo real estão interligados, e a peça de ligação é o homem, de modo que se há condições para uma maior aproximação entre as pessoas, seja entre pessoas que se conhecem no mundo real (pois muitos dos nossos contatos no mundo “online” também existem no mundo “off-line”), seja entre pessoas que se relacionam “apenas” virtualmente, e isso, verdadeiramente, não ocorre, o epicentro do problema não está nos meios de comunicação, mas em quem sustenta, ou tenta sustentar, esses meios, inclusive, o olho no olho.

A questão é que não estamos dispostos a nos esforçar por qualquer relação, não queremos esperar o tempo de preparo, não queremos semear, e, dessa forma, nos adaptamos rapidamente aos “relacionamentos Facebook”, como também, passamos a “compartilhar” a nossa experiência virtual no âmbito físico. Isso ocorre porque ao não estarmos dispostos a nos empenhar em uma relação, acabamos por não conseguir nos conectar verdadeiramente a alguém e, consequentemente, dividir emoções, sentimentos, alegrias, sofrimentos, que é o que permite que uma relação verdadeira seja criada.

Pouco importa, assim, se a relação existe no mundo concreto, ela é tão líquida quanto a amizade que acabou de ser feita com alguém que mal se sabe quem é em uma rede social. O problema, portanto, não está no meio em que a relação foi desenvolvida, e sim, no meio em que ela se sustenta, se existe troca de afeto, de palavras, se há abertura para que qualquer coisa seja dita, para que confissões sejam feitas.

Isso é o que define uma relação, o modo como as pessoas que se relacionam se portam diante dela, em como elas fazem para que ela seja nutrida. Entretanto, não agimos dessa maneira e, por conseguinte, possuímos relações tão frágeis, que não possuem qualquer capacidade de retirar-nos da solidão, embora as redes sociais aparentem a grande conectividade que possuímos. Nesse ponto reside outro elemento de destaque e de interesse dos relacionamentos virtuais, a maquiagem que ela promove na nossa solidão, demonstrando, aparentemente, uma ideia falsa de rede. Contudo, como toda maquiagem, ela sai com água… ou com lágrimas, deixando vir à tona a solidão que em momento algum deixou de existir.

Posto isso, a solidão não deixou de existir porque temos milhares de amigos no Facebook ou porque conseguimos falar com um número gigante de pessoas por meio do WhatsApp. A solidão não deixou de existir porque ainda somos (e, parece-me, que estamos “evoluindo” nisso) “incapazes” de nos ligar à outra pessoa e, então, experimentar a beleza da pluralidade.

Ao contrário da solidão, as multidões aumentam, com a sua “capacidade” ludibriadora, fantasiando relacionamentos frágeis com máscaras de conectividade. Apesar de problemático, há pouco incômodo, porque as multidões, como disse, só fazem crescer. Multidões on-line cheias de solidões off-line, corpos próximos com almas distantes, mundo cheio de paradoxos, de distâncias próximas, de homens que mesmo estando na multidão, sentem-se sozinhos. Só mesmo uma resposta aparentemente contraditória para esclarecer uma mentira com aparência de verdade.

 

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*Fonte: osegredo

sozinhomultidao

A extinção da solidão

Solidão. Palavra pesada, conceito amplo, um temor quase que unânime. No final das contas o ser humano alcançou a poética contradição de ampliar as fronteiras da individualidade na mesma medida em que as enfraqueceu. Temos todas as ferramentas necessárias para vivermos em paz, de forma única e isolada. Mesmo assim, conseguir estar sozinho tornou-se um desafio.

Foi-nos dada a possibilidade de ampliar as nossas relações. Expandimos o mundo, as chances, as necessidades. A vida é fascinante, brilha como um letreiro neon em uma noite escura. Ligaram o mundo e agora ele funciona sempre. A internet pega fogo e as redes sociais saem por aí, zunindo e riscando o céu como fogos de artifício coloridos. Nós apenas ficamos parados, sentados na grama, observando tudo com os nossos redondos olhos de criança, admirados com tudo que aí está.

Aumentar as possibilidades de um jeito tão intenso pode ter seu preço. De repente nos são dadas inúmeras chances que, naturalmente, acabam se convertendo em responsabilidades, desafios. Antigamente havia mais espaço para o indivíduo se sentar à beira de uma calçada em uma tarde preguiçosa, acender um cigarro à luz do sol e ficar parado, sem fazer nada. Quando indagado sobre os projetos da vida ele apenas respondia que nada poderia ser feito a respeito. Hoje não há mais desculpas. Podemos ser dinâmicos, produtivos e criativos. Justamente, esse poder que paira nos horizontes acaba nos tirando as forças, uma vez que nos é exposto o melancólico fato de que fracassamos também porque não somos bons o suficiente para realizar algo.

Diariamente nos é dada a chance de militarmos politicamente no Facebook, debater e defender ideais, formar opiniões, conhecer novas pessoas, trocar sensações, procurar pelo amor e perdê-lo, sentir-se acolhido e ao mesmo tempo excluído. Blogs, vlogs, notícias, vídeos. Motivos para chorar, motivos para rir, imagens lindas, fotos toscas. Uma irresistível vontade de fazer parte de tudo e se lançar para o universo com todos os propósitos possíveis, só que, no meio disso tudo, somos sufocado por esse furacão de informações e acabamos caindo no chão de tão tontos, sem ao menos conseguir saber quem somos e o que queremos fazer.

Socialmente falando, as obrigações aumentam. As amizades se estendem para além do encontro físico e são simplificadas, sintetizadas e espalhadas em doses homeopáticas para o dia inteiro. Os encontros cada vez mais instantâneos nos deixam cada vez mais alerta. Somos obrigados a dar retorno, em existir, em estar presente quase que sempre. E no final das contas, conseguimos encontrar no fundo disso tudo uma obrigação que se sustenta a partir de uma tônica que permeia nossa existência quase que diariamente: afinal, estamos sozinhos, ou não?

Há um medo de se perder por aí, em meio a um rodízio de sonhos e de esperanças que desaparecem com a mesma velocidade com que surgem. Afinal, o quanto o nosso dia muda com uma mensagem visualizada e não respondida? Pequenas doses de stress que vão se somando e nos tirando o foco e que, no final das contas, nos proíbem de sentarmos e conversarmos com nós mesmos. O silêncio torna-se raro em um cotidiano em que a cada minuto eu posso ser alertado com um assobio de whatsapp.

Justamente, sem o silêncio não nos ouvimos. Sem o isolamento, sem preciosos instantes de existência, não nos enxergamos. O mundo anda ao nosso lado o tempo todo e fala, fala, fala. Nunca se cala! O espaço para respirarmos e escutarmos a nós mesmo esta cada vez menor. Detalhe: tal espaço, de fato, não diminuiu por conta de alguma imposição externa que nos obrigue a ficar conectados o tempo inteiro, mas sim a partir de um estado de sítio implantado no nosso ritmo interno.

Ocorre que nos foi dada um padrão de intensidade que, no final das contas, se converteu em ansiedade. Perdemos o costume de ficarmos sozinhos, porque vimos que as pessoas estão ao nosso redor e é fácil estar com elas. Porém, o distanciamento posterior acaba se tornando um desafio. Como aceitar a não comunicação. ‘Como assim, passar um dia inteiro sem falar com ninguém?’ Como se houvesse um medo interior que nos impedisse de ‘desperdiçar’ esse monstruoso aparato de interações. E então, a solidão nos remete à melancolia, a inatividade nos remete à inutilidade e nossa liberdade acaba nos aprisionando.

Fonte: Gabriel Affatato
http://www.updateordie.com/2015/06/09/a-extincao-da-solidao/