Bauman e a dificuldade de amar – Anna Carolina Pinto

Zygmunt Bauman é autor de inúmeras obras com a palavra líquido em seu título. A noção de liquidez proposta pelo filósofo e sociólogo polonês, falecido no começo desse mês, é aplicada aos mais variados temas como a modernidade, o amor, o medo, a vida e o tempo, expressando a fluidez, isto é, a imensa facilidade com que estes elementos escorrem pelas mãos do homem moderno. A ideia, extraída de “O Manifesto Comunista” de Marx e Engels, vem da célebre afirmação de que tudo que é sólido se desmancha no ar e de que tudo que é sagrado é profanado: assim é a modernidade e sua essência que se alastra pela vida do homem moderno transformando-o não só como indivíduo, mas também como ser relacional.

O primeiro livro do Bauman que li foi “Amor Líquido” o qual, carinhosamente, valendo-me das palavras de Caetano, defino como “um sopapo na cara do fraco”, que me fez e faz, já que essa sorte de questionamento é constante, pensar na forma como nos relacionamos hoje em dia. Um ponto alto do livro, aos meus olhos, é o capítulo no qual Bauman fala sobre a dificuldade de amar o próximo destacando o modo como lidamos com os estranhos. Penso que nessa dificuldade é que se encontra a raiz de tantos dos nossos problemas seja na esfera pessoal ou pública. E é sobre isso que eu gostaria de refletir conjuntamente hoje.

Vivemos em uma sociedade fortemente marcada pelo conflito ser x ter na qual o homem passa a se expressar pelas suas posses, elementos definidores de sua própria identidade, o que reflete na busca por certa conformidade que ceifa a pluralidade de existências e segrega o que é diferente, estranho. O modo como as cidades se dividem é exemplo disso, os nichos considerados seguros são aqueles onde todos se parecem, exacerbando a nossa dificuldade em lidar com os estranhos que passam a ser evitados através de sistemas de segurança, muros, priorização de espaços que assegurem a conformidade de seus freqüentadores como os shoppings e etc. Evitar a todo custo o incômodo de estar na presença de estranhos, começar a enxergar naquele que sequer se sabe o nome um inimigo em potencial e desconfiar de tudo e de todos só é possível graças ao desengajamento e ruptura de laços para o sociólogo polonês.

Se levarmos em conta que amar outra pessoa não é amar o que projetamos nela e sim a sua humanidade e singularidades, não será difícil compreender que o amor é um desafio nos tempos de modernidade líquida. A busca pela felicidade individual nos transforma em tribunais individuais e, na disputa pela sentença a ser proferida, não raro, o que se vê é sair vencedor aquele que se recusa a ouvir o outro. Facilmente, pois, livramo-nos dos compromissos e de tudo aquilo que nos pareça incômodo. Ainda que tão agarrados a nós mesmos, paradoxalmente, é bastante comum que a solidão seja companhia (e problema) constante de quem vive a descartar.

Os muros que construímos ao nosso redor, físicos ou emocionais, têm mesmo esse condão de isolar e criar dois mundos em cada um de seus dois lados: o de dentro e o de fora. O último, espaço cativo dos que nos incomodam- aqui incluídos tanto quem nos relacionamos de forma íntima, quanto aqueles que preferimos distantes, inviabilizados de estar perto, enfim, aniquilados ao prender, matar, limitar a circulação, fixar em zonas periféricas e etc. É que Narciso acha feio tudo que não é espelho, já diria, mais uma vez, o sempre genial Caetano Veloso.

Dessas reflexões que vão (muito) longe e que, por ora, encerro aqui fica sempre uma mensagem muito clara para mim: amar (mesmo) é um ato revolucionário e só ama quem tem coragem o bastante pra lidar com esse desafio porque sabe que, por mais que nem tudo sejam flores, esse amor “sólido” é que nos impulsiona a querermos ser melhores seja como pessoa ou sociedade. Parece distante e utópico, mas está dentro de nós: ame profunda e verdadeiramente. Até quem você não conhece.


*Por Anna Carolina Cunha Pinto
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*Fonte: revistaprosaversoearte

Gostar da própria solidão é a manifestação mais clara de que chegou aos 40 anos

Gostar da própria solidão é a manifestação mais clara de que chegou aos 40 anos. Não precisa mais sair de casa para ser feliz, não é mais tributário do barulho e da multidão para se ver acompanhado.

Gosta do silêncio e de não fazer nada demais. Gosta do espaço vazio e da liberdade de não ter a agenda cheia.

Passa a filtrar os convites, a peneirar as festas, a abrir a porta para a rua somente quando realmente é indispensável.

Não sofre mais em dizer não. Prefere receber os amigos em casa, em pequenos e semelhantes grupos, a virar a madrugada em baladas com estranhos.

Dispensou o bordel dentro de si. Tem como princípio sexo com qualidade, não mais pela quantidade. Não está mais desesperado para transar toda noite, toda semana. Busca criar um clima para o clímax, acima de tudo. A música de qualidade e a conversa inteligente são preliminares indispensáveis antes de qualquer amasso.

Perdeu também a ganância de enriquecer, o olho de águia do sucesso, opta por ganhar menos e se incomodar menos.

Mudou a sua concepção de prosperidade, paz é prosperidade.

O que fazia quando estava gripado, de permanecer na cama lendo um livro ou emendando episódios de uma série, agora ocupa a maior parte de seus dias sadios. Preocupa-se em aguar as plantinhas, em aprender idiomas, em comprar verduras sem agrotóxico nas feirinhas de bairro.

Nem para tomar vinho acredita que depende de companhia. As quatro décadas revelam a satisfação de um cálice sentado na varanda, sem ninguém para apressar os goles. Finalmente está solto no seu mundo de pensamentos para degustar a safra e descobrir os taninos.

Sei que meus amigos sopraram as quarenta velinhas quando decidem se dedicar a cerveja artesanal. Largam os botecos e a zona de desconforto da boemia pela produção caseira de sua bebida. Ostentam experimentos e guardam as provas para limitados convidados. São cientistas do isolamento, explicando, depois de cumprida a missão, o passo-a-passo de sua incubadora com ostensivo orgulho.

Alguns encontram tempo para maturar queijos, outros se aventuram a assar pães ou pizzas, com sacerdócio de mestre-cucas. Se antes reclamavam da submissão doméstica das mães e avós, que colocavam tortas a esfriar nas janelas, agora não acham nem um pouco inconveniente o hábito de cozinhar, ainda que seja para o seu consumo.

Aliás, é simbólico nesta faixa etária querer produzir a sua própria comida. A cozinha torna-se a parte mais importante da residência, com aquisição de fornos potentes e panelas inquebrantáveis.

O discernimento da meia-idade surge com a renúncia. Entende-se que perder a agitação é ganhar autoconhecimento. A experiência traz a clareza do que é bom e do que é ruim, de que não vale realizar coisa alguma na contrariedade, de que nada mais será feito para agradar o outro.

Gostar-se é o início de uma nova vida. Longeva vida, com a adrenalina da simplicidade.

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Texto de Fabrício Carpinejar

“Entre Amigos” (Martha Medeiros)

Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.

Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, “A Identidade”, que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.

Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.

Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.

Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.

Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.

Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.

Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o réveillon.

Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.

Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.

Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.

Martha Medeiros

Mulheres que se valorizam e sabem o que querem são extremamente poderosas

Mulheres que se valorizam e sabem o que querem são extremamente poderosas

Existem mulheres que não usam subterfúgios quando querem dizer não. Dizem não com todas as letras porque se valorizam e são fiéis a si mesmas.

Essas mulheres não vão deixar de dizer o que pensam e sentem, por receio de magoar, elas são verdadeiras, donas de si.

Elas têm o hábito de se colocarem em primeiro lugar, respeitam suas vontades, suas necessidades. Não precisam de ninguém para reconhecer seu valor, seus potenciais, porque elas próprias reconhecem e se valorizam.

Mulheres que se reconhecem e se valorizam buscam experiências mais felizes, procuram relacionamentos saudáveis, e conseguem reconhecer relacionamentos que são tóxicos, que podem minar sua saúde emocional e mental, e por isso, afastam-se de pessoas que não as valorizam ou que tentam minar suas emoções.

Será muito fácil reconhecer uma mulher que é dona de si, você saberá quando estiver na presença de uma delas, essas mulheres não pedem licença para ser quem são, nem pedem licença para se expressarem como quiserem.

Elas possuem luz própria e grandeza interior. Sabem valorizar amizades e amores que as valorizam, sabem afastar da sua vida quem é decréscimo.

Elas não têm paciência com gente que só sabe desvalorizar, derrubar, puxar tapete, logo mostram que com elas essas pessoas não terão vez.

MULHERES QUE SE VALORIZAM DE VERDADE INCENTIVAM OUTRAS MULHERES, NÃO COMPETEM UMAS COM AS OUTRAS.

Elas sabem que cada uma tem o seu valor, que cada uma é única, estendem as mãos para cooperarem com outras mulheres e se solidarizam com as histórias de outras mulheres que ainda não se reconhecem em seu potencial.

Mulheres donas de si têm um brilho especial, um brilho interior que emanam para quem tiver oportunidade de estar próximo a elas.

São agregadoras, usam de solidariedade em suas relações, mas sabem estabelecer limites em todas as relações.

É difícil passar por uma mulher destas sem sentir algum impacto bom ou ruim, depende do tipo de aproximação que você estabelecer com elas porque será fácil reconhecer se você chegou para somar ou bagunçar, reagirão de acordo com sua postura, de forma segura e firme, sem titubear.

ELAS NÃO TÊM RECEIO DE ESTABELECER LIMITES E BANIR DA PRÓPRIA VIDA GENTE ESTRANHA.

Elas estão por aí contando sua própria história, desfilando com segurança e autoestima; se caem ou se levantam, seu propósito é serem felizes, buscar novas experiências; apostou, não deu certo, começam outras coisas, investem em outras situações, acreditam em tudo novamente, porque confiam o suficiente em si mesmas.

APOIAM-SE, POIS ACREDITAM NO PROCESSO DA VIDA.

Você já deve saber que uma mulher dessas não vai te colocar em primeiro lugar, porque ela estará em primeiro lugar na sua própria vida. Ela é a protagonista da sua história. Mas você poderá aproveitar da sua companhia e do seu amor verdadeiro se você for merecedor dele.

*Por Patricia Tavares
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*Fonte: seuamigoguru

O Que Você Herdou Dos Seus Filhos?

O que você herdou dos seus filhos? Eu herdei paciência. Capacidade de suportar desorganização e caos. Frieza pra lidar em situações críticas, como fraturas e cortes com sangue jorrando.

Herdei “desnojo” para limpar vômito e caca, e comer biscoito babado. Herdei medo de morrer. Medo de trânsito. Medo da noite. E o único medo de perder verdadeiro. Mas herdei coragem também. Muita.

De um, herdei a necessidade de desacelerar. De outro, herdei atenção difusa. E de outro, sagacidade para responder questões difíceis. Eu herdei vontade de montar árvores de natal, de aprender a fazer bolo de festa e assistir desenho animado.

Herdei a capacidade de fazer remédio a partir de beijo, desespero e lágrimas. Eu herdei rugas, varizes, olheiras e estrias. E as gargalhadas mais incríveis. Herdei emoções colhidas nas coisas mais bobas. Herdei força sobre-humana. Herdei sentidos mais apurados. Herdei um grito que se acha poderoso o suficiente para parar um trem
Herdei uma capacidade ilimitada de sentir culpa. E o cacoete irremediável de sempre olhar quando alguém grita ‘mãe’”.

Texto de Rita Almeida, psicóloga e psicanalista com ênfase nos seguintes temas: psicanálise, saúde pública, saúde mental, educação, educação inclusiva, teorias da aprendizagem.

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*Fonte: portalraizes

Quanto Mais Inteligente É Uma Pessoa, Menos Sociável Ela É

Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e doutor pela Universidade de São Paulo, o professor Leandro Karnal disserta sobre a inteligência e a sociabilidade. Neste vídeo ele afirma que as pessoas simples são mais sociáveis, enquanto as pessoas que se aprofundam na cultura e conhecimento acabam por se distanciar das demais pessoas, e acabam vivendo sozinhos, pois constroem uma visão de mundo muitas vezes pouco compartilhada com os demais. Confira:

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*Fonte: portalraizes

Hora de dormir

Para além das necessidades diárias, podemos confiar no sono como um lugar de entrega e reconexão.

Cresci rodeado pela falsa ideia de que dormir é um desperdício de tempo. E tempo era o que eu mais queria. Mais horas para estar em casa, para assistir séries, ler livros, brincar com os filhos, dedicar-se a uma atividade paralela, apertar o parafuso que prende o cabo na chaleira. Dormir, portanto, ocupava apenas um lugar semelhante ao de outras ações biológicas do dia, como se alimentar ou fazer a higiene pessoal. É triste constatar que nos habituamos com facilidade a cometer o equívoco de não olhar com a devida atenção aquilo que é essencial.

Fui entender o sono como sagrado quando minha primeira filha nasceu, poucos anos atrás. E por ela fui conduzido a uma entrega que o fechar dos olhos todas as noites exige. “Dormir é, de fato, entregar-se a um estado de consciência mínima, com sonhos que trabalham tanto com nossos resíduos diurnos quanto com os do nosso inconsciente”, explica o médico antroposófico e consultor da Weleda, Fabrício Dias.

Dormir é também confiar, sentimento que vem sendo complexo a tantas pessoas, especialmente neste período que vivemos. “Aqueles que não conseguem alcançar a paz interna nem a mínima consciência do seu ser próprio, sentem muito receio de se entregar ao sono. Além disso, pode haver o medo de morrer. Porque todo dia a gente morre para acordar no dia seguinte”, conta a terapeuta holística Mônica Louvison.

Para que possamos pensar o sono a partir de uma visão mais subjetiva, que vá além do aspecto estritamente médico, é necessária a permissão de olhar nossa configuração como a somatória de corpos, do físico a outros mais sutis. Dentro de culturas oriundas da Ásia, por exemplo, um fenômeno abordado seria o do prana, a energia vital presente em todo o cosmo e responsável, em uma explicação mais simples, por regular a fisiologia sutil que abasteceria o corpo físico em tudo o que necessita. Essa energia é captada quando respiramos e durante o dormir, no plano extrafísico. Portanto, quanto mais entregues ao sono e mais equilibrados, melhor seria essa reconexão. Não que a prática seja fácil. “É uma tarefa que exige intenso desprendimento de conceitos sociais adquiridos e preconceitos inconscientes”, completa o Dr. Fabrício.

Dando colo para sua criança
Em muitas noites, minha filha mais velha pede para dormir comigo. Na cama que ainda compartilhamos, por escolha própria, com a mais nova, acabamos por dormir os quatro. É fascinante que somente agora, ao produzir este texto, eu tenha compreendido o porquê de me ser tão alentador estar junto a elas no momento do sono. “Um dos privilégios de poder ser pai, ser mãe, é conseguir revisitar lugares da própria história e, de fato, dar colo para a sua criança interior. E que bom que sua filha, generosamente, permite que você se abrace ao abraçá-la”, orienta Cacá Correa, pediatra de abordagem humanizada e neonatologista.

Sem dúvida, quando pensamos em sono e crianças, não se pode desassociar o papel dos pais para que essa conexão flua. “Isso é algo tão simples e, ao mesmo tempo, tão difícil de se explicar. A segurança verdadeira não está em texto ou em fala, mas em uma condição de ambiente emocional. A criança faz a leitura desse ambiente seguro nos olhos dos pais”, enfatiza Cacá.

Dessa forma, se diante de momentos como agora os pais fingem uma normalidade, acabam transferindo insegurança aos pequenos, que, por sua vez, não conseguirão ter o sono restaurador. Em sua opinião, é melhor um sincero “não sei”, como resposta ao filho que questiona o que está a se passar no mundo agora, do que criar um cenário fantasioso. “A consciência da morte, da fragilidade, é o grande desafio da experiência do momento atual. É como se lembrássemos de novo que somos mortais, uma finitude que não está mediada pelo tempo. Essa condição de finitude sempre existiu, mas agora esse assunto ficou claro. E é como estou me relacionando com isso neste momento que vai me facilitar o dormir”, diz Cacá.

Conexão pelo cheiro
Mesmo que tenhamos consciência da necessidade do sono para restauração do nosso corpo físico e emocional, nem sempre pode ser simples esse processo. Por esse motivo, recorrer a métodos naturais como a aromaterapia pode ser um facilitador. A aromaterapeuta Renata Maria Badin conta que, muito antes da capacidade de pensar, o cérebro humano já havia desenvolvido o sistema límbico, onde se situa o olfato. “Os cheiros foram, desde muito tempo, um referencial de orientação para o homem, exercendo uma poderosa influência em nossa natureza emocional, agindo direto no subconsciente”, aponta.

Um óleo essencial pode exercer ações diversas no corpo humano, como antibióticas, anti-inflamatórias e antioxidantes, por exemplo. Estudos apontam que também carregam funções ansiolíticas, calmantes, tranquilizantes, sedativas e antidepressivas. “Os óleos essenciais são ‘vivos’ porque contêm em si a energia vital da planta. Costumo dizer que elas estão aqui há milhões de anos, conhecem o Sol, a Lua, as estrelas, os quais guardam dentro de si e nos oferecem essa energia para a nossa cura, nosso bem-estar e nosso crescimento.”

A dica de Badin para se entregar ao sono é que, meia hora antes de dormir – de preferência por volta das 22h –, você desligue a televisão, o celular e o computador para fazer um ritual com os óleos em escalda-pés, em massagens ou banhos. Os que têm dificuldade de dormir devem aproveitar o ritual para “inalar, inspirar bem os aromas, fazer respirações conscientes e se concentrar apenas no momento”, observa a aromaterapeuta. Enfim, o sono parece mesmo um lugar de mistério e restauro que nos faz um chamado cada vez mais necessário. Seja lá o que optemos por fazer, aromaterapia, meditação, ioga ou nenhuma dessas opções – ou todas –, desejo que possamos nos entregar ao sono com a alegria e a confiança de um bebê que encontra um lugar de segurança no fechar os olhos. Por enquanto, fica aqui meu boa-noite. Durma bem.

*Por GUSTAVO RANIERI aprendeu com suas crianças a passar dias e noites sonhambulando.
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*Fonte: vidasimples

Somos todos imperfeitos

Olhar para dentro e encarar que somos imperfeitos, nos faz perceber que não somos infalíveis e que existe uma grande beleza e sabedoria nisso

O poeta Manoel de Barros dizia que para entender a intimidade do mundo era preciso desinventá-lo. Isso porque antes do alfabeto, das casas, das pessoas, o mundo foi feito de água, luz, árvores e depois lagartixas. Dar importância àquilo que achamos desimportante, talvez seja o primeiro passo para conhecer nossa intimidade e ela, na maioria das vezes, esconde-se em nosso avesso, onde nem tudo é perfeito.

Ou seja, a descoberta é que dentro dessa possível imperfeição que somos há espaços vazios, abertos, feito janelas em dia de sol à espera do encontro mais importante de nossas vidas: aquele com nós mesmos. Foi isso que aconteceu com a Natália. Um dia, ela decidiu riscar sem medo de ferir o papel. Riscar sem medo de não ser aceita. Riscar e descobrir que, dentro da sua imperfeição, existia uma estética que, justamente por não se adequar aos padrões e às necessidades do que é perfeito, aceitou-se plena e imperfeita.

Como enxergar o mundo?
Natália Bianchi, artista visual, vem conversar comigo numa manhã cinza e chuvosa. Logo me diz que não vê a chuva, apenas a ouve. Natália tem uma doença rara que a faz ver apenas em preto e branco, a acromatopsia, além de ter entre 15 ou 20% de visão. Conta que as pessoas perguntam se ela não sente falta de ver o mundo de modo completo. Ainda assim, nessas horas, sorri e devolve a questão: “o que é ver o mundo completo e perfeito?”

Quando era criança, Natália não tinha consciência de que enxergava menos. Via o mundo com suas texturas e volumes. Muito depois, descobriu que não enxergava as formas e as cores. Então foi rotulada como sendo deficiente. “E ter uma deficiência é estar fora do padrão, é ser inútil”, diz ela, enquanto abre uma pasta com suas obras. São riscos, traços em aquarela e nanquim, que trazem para o papel o modo como vê.

Experimentos imperfeitos
Suas criações são dotadas de distorções, movimentos e estranhamentos. Desse modo, desacomodam o olhar acostumado a ver o mundo com linhas e contornos definidos. As bordas nos contém. “O perfeito encerra um traço que modela a imagem, eu trabalho com o caos e o acaso. Minha obra é mais afetada e afeta mais. Não sei se vejo o mundo diferente, sei que o vejo do meu jeito”. Natália trabalha com a estética da imperfeição e suas obras são uma experiência visual imperfeita.

No início da carreira, criava quadros com elementos figurativos, que a maioria das pessoas gosta, porque são conhecidos, mas o problema é que eram desconhecidos para ela. Debatia-se com a questão: “por que dar forma àquilo que não tem forma para mim?”. Portanto, seu segundo desafio na arte foram as cores. “Para uma pessoa que no máximo alcança os tons de cinza, como entender do que se trata a teoria das cores?”, brinca.

Entretanto, para não se apegar às regras, costuma riscar os nomes das cores nos tubos de tinta. Depois espalha pela paleta e pinta, livremente. “As cores nasceram sem nome para mim; por que agora que tenho consciência da minha doença eu iria me importar com isso?”. Como resultado, da sua imaginação e liberdade brotam vermelhos, amarelos, azuis. Afinal, a visão é também um ato poético do olhar.

Criar pelo avesso
Foi quebrando regras, abandonando moldes e preferindo a desproporção que Ana Júlia Poletto descobriu-se uma ceramista do imperfeito e do “desútil”, termo muito presente na obra do poeta Manoel de Barros. Assim, amassar a argila, não usar o torno e passar para a peça suas emoções e sentimentos a motivam a criar pelo avesso.

Além disso, Ana Júlia faz peças em cerâmica, artefatos imperfeitos que lembram as lunações do poeta Herberto Helder, as desutilidades de Manoel de Barros, os desassossegos de Fernando Pessoa, a coragem de Adélia Prado. “É preciso renascer e reconstruir para deixar o avesso à mostra”, diz Ana. De certa forma, para ela, o barro é visceral. Ao tocar nele, ela acredita que toca na vida, em si mesma, nos seus medos – e assim aprende a conhecê-los.

Porque suas peças são irregulares, suas formas guardam silêncios e ressonâncias de mundos internos e distantes, suas texturas nos convidam ao toque. “Foi o barro que me ensinou como ele queria ser modelado e continua me ensinando que para aceitar o inacabado, o avesso, o imperfeito, é preciso motivação e intimidade.Trabalhar com o barro é saber e aceitar que o processo é mais lento, que é preciso criar um vínculo com a matéria-prima e estar presente no momento da criação com mente e essência, sem se preocupar se ficará bonito no final”, acredita a artista, que para aceitar-se imperfeita e inacabada teve, primeiramente, que seguir em direção a si mesma.

Somos Imperfeitos
Para a psicoterapeuta Gilla Bastos, toda pessoa para viver em sociedade, pertencer a grupos e estar dentro dos padrões sociais aceitos acaba por esconder seu lado imperfeito. “Só que ele é a nossa parte mais humana”, afirma. Para ela, aceitar que somos imperfeitos e incompletos é também deixar os nossos vazios existirem, mas envoltos de afetos, de compreensão e de amor. “É na imperfeição que encontramos a nossa subjetividade. E é nas brechas do imperfeito que há espaço para a existência e o convívio com o outro”.

Aceitar a incompletude, afinal, faz de nós o que somos. Viver é confuso e dá medo dos quartos fechados dentro de nós. O escuro pode ser o nosso avesso. No entanto, diferentemente do que passamos uma vida toda ouvindo, o avesso – ao contrário do lado perfeito e polido – guarda sua plenitude justamente por ser assimétrico e inacabado.

Enfim, somos imperfeitos e a não linearidade abre brechas em que o encontro se torna possível, onde o outro pode se fazer presente. A imperfeição nos ensina a beleza da simplicidade e é ela que nos empurra para a transformação e o crescimento. Parafraseando Manoel de Barros, são os nossos olhos que renovam o mundo.

*Por Adriana Antunes

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*Fonte: vidasimples

Então… estamos de volta!

Depois de quase uma semana sem postagens nessa planície virtual, estamos de volta! Problemas sérios no computador da base não permitiam boas condições de vôo por aqui. Agora tudo (ou quase tudo) resolvido, som na máquina que o baile deve continuar.

ESTAMOS DE VOLTA!

Como a pandemia, a televisão e o Spotify ‘mataram’ os grupos musicais

Qualquer um que tenha crescido com os grandes grupos de rock e pop do passado se contorcerá na cadeira diante de uma evidência tão funesta: atualmente não há bandas como Queen, The Jam, The Police, Nirvana ou Oasis. Há escassez de novas formações —surgidas, digamos, nos últimos cinco anos— que se igualem às de antigamente em proezas comerciais. São tempos de Sheerans, Lipas, Swifts, Weeknds, Bunnies, Eilishs. De Rosalías, Tanganas, Alboranes, Aitanas, Amaias … Os solistas, ao que parece, se apoderaram das paradas.

Em março, após declarações de Adam Levine, cantor do Maroon 5 (“Dá a sensação de que não há mais bandas, somos uma espécie em extinção”, lamentou), o jornal britânico The Guardian dedicou um artigo à questão, com o seguinte título expressivo: “Por que os grupos estão desaparecendo”. O pessimismo de Levine pode ser sustentado por dados. Os 30 artistas mais ouvidos no Spotify em 2020 eram todos solistas, exceto um, o combo sul-coreano BTS (com sete integrantes que não tocam instrumentos). Foi preciso fazer uma minuciosa inspeção do ranking para localizar o Maroon 5 em 33º e o Queen em 34º. Desde março de 2019, quando o Jonas Brothers foi o número um com Sucker, até hoje, passados dois anos, apenas um outro grupo liderou a parada de singles da Billboard (Estados Unidos): o já citado BTS.

Eu, eu, eu!

Ao contrário do que acontecia décadas atrás, pop e rock não são os estilos mais em voga. Rap, trap, R&B e reggaeton… —gêneros interpretados por solistas— ganharam terreno. Todo o rock novo já é alternativo; não é mais mainstream. “À medida que o pop e o rock morrem, no que se refere a vendas milionárias, morrem as bandas, que são as que fazem pop e rock”, explica Javier Portugués, veterano A&R (responsável por Artistas e Repertório) que trabalha com a Sony Music. Colaborou com solistas como Joaquín Sabina, Marwan, Dani Martín, Rozalén e Malú e grupos como Estopa e Maldita Nerea. “Tem a ver com as idiossincrasias dos gêneros”, acrescenta. “No rap, antes de começar com o primeiro verso, você já disse seu nome e o nome do produtor 10 vezes. É uma exaltação de si mesmo.”

Os festivais podem ser considerados o último reduto de grupos de pop e rock, mas, apesar da natureza nostálgica de muitos desses eventos, mesmo os mais importantes não têm escolha a não ser seguir a corrente dominante. Na última edição do Primavera Sound (Barcelona), sete dos nove artistas de destaque eram solistas: Erykah Badu, os rappers Future e Cardi B, Solange, Janelle Monáe, J Balvin e Rosalía (os grupos eram o Interpol, formado em 1997, e Tame Impala , na verdade, um projeto do cantor e multi-instrumentista australiano Kevin Parker).

Essa mudança de regime foi bem recebida pela indústria: lidar com solistas é mais prático. “Para uma gravadora, quando se trata da promoção de um evento, mudar um cara ou uma garota em vez de uma banda inteira é mais ágil e mais barato”, diz Pablo Cebrián, produtor de David Bisbal e Amaia Romero, entre outros. Também é mais eficaz. “Em termos de marketing, é mais fácil vender uma única pessoa, um ícone”, diz Alizzz, produtor de C. Tangana.

A dinâmica interna das bandas às vezes é bastante complexa, o que contrasta com a flexibilidade dos solistas. “Cada pessoa em um grupo tem seus movimentos, e para a indústria é muito mais cômodo lidar com solistas”, continua Cebrián. “De um disco para outro, um solista pode mudar de produtor. Numa banda, essas voltas são muito mais difíceis: quando uns querem ir para um lado e outros para outro, surgem tensões.”

Discos feitos no quarto

Os avanços tecnológicos tornam mais fácil para qualquer adolescente que sente vontade de compor canções não só conseguir fazer uma gravação muito correta com as ferramentas digitais, como também postá-la nas plataformas, sem intermediários. “Agora a música é feita em um quarto”, explica Pablo Cebrián. “Pelo que tenho visto ao meu redor, as novas tecnologias têm uma grande influência”, concorda Alizzz. “Muitos artistas produzem as próprias músicas, por exemplo, eu mesmo. O que estou acostumado é a trabalhar no estúdio com um cantor, só ele ou ela e eu. Para as gravadoras, além disso, gravar uma banda sai mais caro.”

Miguel Blanes, 22 anos, vocalista e guitarrista do Mentira, banda emergente que desde 2020 lançou vários singles e um EP pela Subterfuge Records, reconhece essa supremacia: “É uma tendência superevidente. Surgiam muito mais bandas na década de 2010 do que agora. Em parte, acho que é porque a forma de compor está mudando. Com todos os recursos que temos, uma única pessoa pode fazer uma canção supercompleta. Não precisa se reunir com mais instrumentistas para formar um projeto”.

Os membros do Trashi (entre 21 e 23 anos) realizam uma mistura original de indie pop e música urbana com autotune, e lançaram vários singles pelo selo independente Helsinkipro. Cresceram admirando grupos como The 1975 e The Vamps no YouTube, “bandas formadas por amigos que se juntavam para fazer música”, dizem quase em uníssono. Eles atribuem a atual hegemonia dos solistas ao fato de que “agora qualquer um pode fazer música em casa. Trabalhar sozinho é sempre mais fácil do que em grupo: você pode fazer o que te agrada. As pessoas buscam mais projetos solo por causa disso “, declaram.

O imediatismo proporcionado pelas tecnologias modernas vai bem com os novos hábitos de consumo. “Hoje você começa a ver uma série, no segundo capítulo você se desinteressa um pouco e deixa de segui-la. É a mesma coisa com a música “, compara Pablo Cebrián. Como exemplo de velocidade, ele cita o caso de Billie Eilish, que alcançou o primeiro lugar nas paradas nos Estados Unidos em abril de 2019 com seu primeiro álbum, When we all fall asleep, where do we go?. “Uma menina que, com o irmão, no quarto de casa, escreve músicas e as sobe na internet … Encurta-se um caminho que há 30 anos era uma via crucis: você tinha que ensaiar a música com o seu grupo, arranjar alguém para bancar um estúdio, masterizar seu disco, editá-lo… Agora isso está nas mãos das pessoas. Todos os anos você vê casos de garotos que postam algo que criaram e recebem uma quantidade brutal de reproduções.” Como diz Javier Portugués, “90% do mercado acaba se concentrando no que está bombando em nível de streaming [reproduções em plataformas como o Spotify], e são todos solistas”.

Solistas colaborando com solistas

As individualidades encontram acomodação especial em uma prática dominante ultimamente: as colaborações. Em geral, os grupos não tomam parte delas. “Desde que entramos na era do consumo digital, nove entre 10 lançamentos, para ter um volume de streaming significativo, são colaborações. Solistas colaborando entre si. É o novo protótipo de artista”, afirma Javier Portugués. No Top 100 Canções da Promusicae de 25 de março a 1º de abril, apenas quatro singles dos 20 mais vendidos não eram colaborações, mas faixas solo.

Não se deve esquecer o papel que desempenham neste cenário desequilibrado os programas de talentos na televisão, uma plataforma de lançamento de novos artistas já faz algum tempo. “Os shows de talentos são focados no artista individual. O que mais chama a atenção do público, que não se detém para analisar outras coisas, é o cantor”, diz Natalia Lacunza, 22 anos, que ficou em terceiro lugar no OT 2018. Após assinar contrato com a Universal Music, foi número um em vendas com seu álbum EP2 e escolhida Artista Revelação Pop pelos Prêmios Odeón 2020. Lacunza escolheu fazer carreira solo simplesmente porque, depois de se mudar para Madri (ela é de Navarra), não conhecia ninguém com quem começar uma aventura em conjunto. Só agora recrutou uma banda que deseja que participe da composição e dos arranjos. “O mais marcante agora são os nomes de artistas solo”, opina, “mas a importância das bandas ainda continua aí, mesmo que de maneira implícita nos projetos dos solistas. Apesar de terem ficado em segundo plano, contribuem muito para o momento ao vivo”.

No entanto, as apresentações ao vivo foram reduzidas ao mínimo por causa da pandemia. Apesar da situação transitória, muitos fãs podem ter se acostumado a escutar música no computador em vez de em uma sala de shows, o que também não ajuda a resgatar as bandas. “Assim como o trabalho remoto se normalizou, na música se tornou normal a ausência de shows ao vivo”, se queixa o produtor Pablo Cebrián.

Para completar o quadro, as redes sociais, onde os artistas combinam a promoção de sua música com cenas de sua intimidade, potencializam a autonomia. Como observa Javier Portugués, “a última rede social em que havia sentimento de grupo era o MySpace. Era um lugar onde grupos musicais postavam suas canções. Não havia ali o exibicionismo público que alimenta a vaidade. Era uma rede a serviço do grupo. O Instagram, e agora o TikTok, trazem tudo de volta ao aspecto pessoal. Nas redes, a diferença de seguidores entre a conta do líder do grupo e a da banda é enorme. Sempre foi um pouco assim: todos nós entendíamos que The Police era o Sting, mas sabíamos quem era o baterista e quem era o guitarrista. Hoje, as redes sociais teriam eliminado os dois componentes que não eram o Sting”.

Um futuro só de solistas?

Com esse panorama, as bandas se sentem, como Levine comentou, uma espécie em extinção? “Poderiam dizer que sim”, responde Miguel Blanes, da Mentira. “Não acho que vão começar a desaparecer, mas, sim, perder a popularidade que costumavam ter. Existe uma tendência de mudança de formato. Eu mesmo estou consumindo mais música de solistas.” O produtor Pablo Cebrián, que começou como guitarrista do grupo Fabula (com quem lançou dois álbuns pela Warner Music e foi banda de abertura de shows do REM), teria formado uma banda se agora estivesse dando seus primeiros passos na música? “Como não sou cantor, tenho certeza que teria começado como produtor muito antes e não teria passado por uma banda. Com certeza Iván, que era nosso cantor, teria feito carreira solo e eu seria seu produtor. Não há mais referências”, afirma.

Cabe questionar se essa ausência de modelos de banda de sucesso pode incutir nos mais jovens com ambições musicais a noção de que é “normal” adotar a configuração solista. “Na nossa infância, os ídolos eram os Beatles, os Stones, o Supertramp, o Pink Floyd … As grandes bandas de rock e pop da vida toda”, argumenta Javier Portugués. “E você dava como certo que se quisesse se dedicar à música tinha que comprar uma bateria, um amplificador de guitarra, encontrar um lugar para ensaiar … Era assim que você tinha que fazer para ser parte daquele universo mágico que tinha te deslumbrado desde pequeno. Agora, esse universo é um talent show de solistas. Não sentem necessidade de se reunir para bolar um projeto. Esse é o novo paradigma e temos que conviver com isso.”

*Por Miguel Ángel Bargueño

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*Fonte: elpais

Quando a busca por um corpo perfeito esconde o medo de olhar para as entranhas de nosso interior

Desde que o homem vive na terra, há indícios da preocupação com a sua imagem física. Sempre houve algum ganho em apresentar-se fisicamente adequado. Exibir uma imagem “bonita” causa mais do que admiração e/ou desejo, em resumo, dizem que a vida é mais fácil para os “bonitos”. Talvez por isso, ao longo dos anos o conceito de beleza física foi se “aprimorando” e hoje podemos afirmar que não há mais limites para a busca do belo; entretanto, há que se lembrar que o que pensamos e sentimos vem da nossa mente, e não do corpo. Infelizmente, o que temos visto hoje na sociedade são corpos lindos – e infelizes!

“Temos mais preguiça no espírito do que no corpo.”
(François La Rochefoucauld)

O movimento de buscar sentir-se bem com a própria imagem é muito saudável e a preocupação com a saúde física e com o próprio corpo faz parte da vida e é mais uma forma – dentre tantas – de melhorar a sua autoestima. O problema surge quando a busca por um corpo perfeito passa a escravizar e, em casos mais graves, deixa de promover saúde e bem estar para ser mais um foco de doença. Para nós, psicoterapeutas, há sempre uma preocupação com o que as pessoas tentam esconder de si mesmas quando entram em qualquer padrão de comportamento compulsivo. A busca compulsiva por um corpo perfeito pode esconder o medo ou a tentativa de mascarar uma dor, uma perda ou mesmo um conceito muito ruim de si mesmo.

A melhor forma de avaliar se o culto ao corpo tornou-se patológica é observar, em primeiro lugar, o nível de importância que isso tem na sua vida e também o quanto de energia/tempo/dinheiro você investe nisso. Já diz um velho ditado: nada que é demais é bom. Se você estiver dando a isso mais importância do que outros constructos da sua vida, fique alerta. O segredo da felicidade e da saúde física/mental ainda é o equilíbrio, além do mais, ninguém gosta e nem deve ser avaliado apenas pela imagem física, então, devemos mostrar algo que possa ser visto além dela.

Em um quadro pouco otimista vemos hoje, crianças e adolescentes escravos da própria imagem física, buscando padrões idealizados e, por consequência disso, se frustrando. Não somos perfeitos e é importante passar isso para as gerações futuras. Todo e qualquer fanatismo, seja pelo corpo sarado, ou por qualquer outro assunto, vai levar ao sofrimento, pois tira a liberdade de pensar e de enxergar as diferenças. Liberte sua mente e não se escravize por qualquer padrão de conduta. Questione e questione-se sempre. Acima de tudo: ACEITE-SE. Aceitar a si mesmo é o ponto de partida para qualquer mudança e também para que se possa alcançar um objetivo.

Malhe seu corpo, mas não tenha preguiça de malhar também a sua mente, e a mente a gente malha pensando!

*Por viviane Battistella

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*Fonte: obviousmag

Robert Waldinger: “A solidão mata. É tão forte quanto o vício em cigarros ou álcool.

Cientistas decidem mapear as vidas de 268 estudantes da instituição, buscando compreender as relações entre saúde física e mental, entre saúde e felicidade. Dentre os participantes, estavam nomes como John F. Kennedy e o editor do Washington Post, Ben Bradley.

Foram quase oito décadas de acompanhamento. A pesquisa, chamada de Harvard Study of Adult Development, tornou-se o mais amplo estudo já realizado sobre a felicidade humana.

Ao longo dos anos, a pesquisa foi estendida aos filhos dos participantes. Há uma década, também às mulheres dos participantes*. Durante todo este tempo, foram analisados fracassos e sucessos pessoais, registros médicos, qualidade dos casamentos e muitas outras questões que interligavam dados de saúde física a percepções emocionais.

(*Mulheres não participaram do estudo original, pois, em 1938, Harvard era exclusiva para homens)

A conclusão foi surpreendente para todos: “descobrimos que a felicidade que sentimos nos nossos relacionamentos tem um poder incrível sobre nossa saúde”, explicou Robert Waldinger, diretor do estudo.

Waldinger é um caso à parte e merece um espaço para conhecer seu trabalho.

Quem é Robert Waldinger?

Professor de Medicina de Harvard, este psiquiatra, psicanalista e professor Zen ganhou o mundo após a publicação de sua palestra no projeto TED, uma das 10 TED Talks mais assistidas de todos os tempos.

Na palestra, ele responde as perguntas mais básicas que movem os seres humanos: o que nos mantém felizes e saudáveis durante a vida? Waldinger reúne as conclusões do estudo aos seus aprendizados práticos na psiquiatria e no Zen Budismo em três lições fundamentais para construir uma vida repleta de sentido.

Resultado: 23 milhões de pessoas assistiram à fala de Waldinger.
(Vídeo legendado: escolha a língua de sua preferência)

Relacionamentos íntimos, mais do que fama ou dinheiro, são a fonte da felicidade através da vida. Estes laços protegem as pessoas das frustrações, ajudam a retardar doenças degenerativas físicas e mentais e são parâmetros mais eficientes na análise da longevidade – mais do que classe social, QI ou até mesmo a genética.

Os pesquisadores analisaram uma infinidade de dados: centenas de relatórios médicos, entrevistas e questionários encontraram uma forte correlação entre o florescimento da vida destes homens e de seus relacionamentos com família, amigos e comunidade. Muitos estudos descobriram que o nível de satisfação com seus relacionamentos, na idade de 50 anos, foi mais importante para avaliar a saúde física do que níveis de colesterol por exemplo.

Quando reunimos tudo que tínhamos sobre os participantes aos 50 anos, vimos que não eram as taxas de colesterol que previam quantos anos eles viveriam. Era muito mais sobre a satisfação destas pessoas em suas vidas pessoais. As pessoas mais satisfeitas aos 50 anos eram os mais saudáveis aos 80”, explicou o professor Waldinger.

Os pesquisadores também descobriram que a felicidade no casamento tem um poder de proteção sobre a saúde mental. Pessoas que tiveram casamentos felizes, aos 80 anos, relataram que nem mesmo dores físicas eram capazes de abalá-los. Aqueles que tinham casamentos infelizes sofriam de mais dores físicas e emocionais.

Aqueles que mantêm relacionamentos calorosos vivem mais e com mais felicidade, disse Waldinger, e aqueles que se sentem solitários morrem mais cedo.

“A solidão mata. É tão forte quanto o vício em cigarros ou álcool.”

Os pesquisadores também avaliaram que a força dos relacionamentos reduzia a necessidade destes vícios. Ainda, que os laços sociais eram capazes de frear a degeneração mental durante a velhice. Atualmente, o estudo prossegue com os familiares dos participantes originais e aproveita tecnologias não disponíveis em 1938 para refinar as conclusões com testes de sangue e ressonância magnética.

O psiquiatra e psicanalista George Vaillant, que entrou na equipe da pesquisa em 1966, liderou o estudo de 1972 até 2004. Ele também enfatiza o papel dos relacionamentos para vidas mais saudáveis e longevas: “Quando o estudo começou, ninguém ligava para empatia ou laços. Mas, a chave para a velhice saudável são os relacionamentos, os relacionamentos e os relacionamentos”, argumenta Vaillant. Em sua obra, Ageing Well, escrito com base na pesquisa de Harvard, Vaillant descreve lições extraídas dos “homens de Harvard”.

Os seis fatores da longevidade:

– atividade física
– redução de álcool
– parar de fumar
– desenvolver mecanismos maduros para lidar com as adversidades
– manter um peso saudável
– ter um casamento estável

O estudo mostrou que o papel da genética e de ancestrais longevos se provou menos importante para conquistar uma vida longa e saudável do que os níveis de satisfação aos 50 anos, atualmente reconhecidos como fatores preditivos para a qualidade de vida na velhice. A pesquisa também desmistificou a ideia de que vidas não saudáveis na juventude prejudicariam a velhice. “Aqueles que eram trens descarrilados aos 20 ou 25 anos se tornaram ótimos octogenários. Mas, por outro lado, alcoolismo e depressão pode sim levar pessoas que começaram suas vidas maravilhosamente bem a um fim desastroso.”, explica Vaillant.

Perguntado sobre as lições que extraiu do estudo, Waldinger diz que passou a praticar mais meditação e a investir tempo e energia em seus relacionamentos. “É tão fácil se isolar, se afundar no trabalho e esquecer dos amigos”, diz o professor. “Então, apenas presto mais atenção aos meus relacionamentos.”

Em entrevista, Robert Waldinger compartilha algumas de suas lições sobre relacionamentos e fala de sua própria viagem em direção à felicidade e à resiliência.

Qual é o grande segredo para uma vida repleta de significado e felicidade?

Robert Waldinger: É tudo sobre relacionamentos. A mensagem final é que relacionamentos nos farão felizes. Porém, a mensagem completa é que precisamos aprender a trabalhar dentro destes relacionamentos – e há muito trabalho a ser feito. Nunca chegaremos a um lugar em que poderemos dizer “Ok, minha relação está boa. É isso. Não preciso fazer mais nada.” As pessoas estão sempre mudando, nós estamos sempre mudando. Portanto, as relações também sempre mudam. Cuidar dos relacionamentos é um projeto contínuo, mas que vale a pena. Vale o investimento.

Então, como podemos manter um relacionamento forte e saudável?

Robert Waldinger: A primeira lição é prestar atenção. Isso vem da minha base Zen. Estamos constantemente distraídos. Estamos com os outros, mas estamos ligados aos nossos smartphones. Quantas vezes você se sentou com alguém para tomar um drinque e todos ao redor estavam no telefone? Meus alunos, nos seminários que ministro, precisam desligar seus smartphones e devem levar este ensinamento para suas vidas.

A solução é simples: observe o outro com atenção. Se você fizer isso, sempre saberá onde o outro está – como é sua vida, seu dia enfim. Você precisa saber que é este tempo de atenção a alguém que mantém a relação saudável.

Como esta lição sobre relacionamentos afeta nossa cultura de trabalho?

Robert Waldinger: Tenho um filho que é um típico membro da geração Millenial e que trabalha em uma típica empresa Millenial. Nestas empresas, há muito mais ênfase na qualidade da vida profissional e na comunidade. É mais importante criar um espaço e uma cultura em que as pessoas se sintam engajadas umas com as outras. Esta conexão fará com que as pessoas queiram ficar nas empresas, queiram ir trabalhar diariamente e cada vez mais; elas não se sentirão isoladas, mas sim conectadas e lutando por uma causa comum. Sim, há muito falatório sobre como as empresas investem na qualidade das relações dos trabalhadores, mas creio que há sim mais atenção real a isso hoje em dia. Desenvolver ambientes de trabalho e horários de trabalho que promovam mais este laço é algo que vejo como muito positivo.

Como um professor Zen, com grande prática meditativa – alguém que está especialmente atento e focado – como você enxerga o complicado equilíbrio entre trabalho e vida pessoal?

Robert Waldinger: É um projeto em constante progresso. Estou sempre encontrando equilíbrio e perdendo equilíbrio. A minha experiência me mostra que você nunca alcança um lugar de perfeito equilíbrio, onde poder ficar para sempre – a harmonia é um ato de calibração.

Eu não era um grande adepto da meditação ou até mesmo muito envolvido com o Zen quando meus filhos eram jovens. Mas, quando eles foram para a escola e não se importavam mais onde eu estava, comecei a ter liberdade de ir a diversos lugares. Participei de retiros e meus filhos nem notavam que eu não estava em casa! Mas, quando eles eram pequenos, foi crucial que eu estivesse lá para eles, tão disponível quanto fosse possível.

Claro, sua ideia de equilíbrio depende da fase da vida em que você se encontra. Para mim, agora, eu e minha esposa adoramos trabalhar, então, trabalhamos muito. Talvez, até demais, mas temos muito prazer no que fazemos. Como disse, a ideia de equilíbrio está sempre mudando – é isso que você precisa saber.

E como suas práticas lhe ajudam atualmente?

Robert Waldinger: Estar atento é parte do meu equilíbrio: me obriga a parar e observar. É como um marcador de cada dia analisar exatamente onde estou naquele momento. Grande parte de nós não para por isso. A ideia de fazer nada é radical nesse sentido, é a ideia de não agir, de apenas observar onde estamos naquele momento.

Saúde, longevidade, produtividade e, claro, felicidade. A conquista dos pilares da qualidade de vida foi tema da conferência da psicóloga canadense Susan Pinker no Fronteiras do Pensamento. A fala, intitulada O efeito aldeia, teve base em seu livro, The village effect, em que apresenta suas pesquisas sobre o poder das relações presenciais.

A partir de seus estudos, a psicóloga pontuou dois fatores cruciais para o desenvolvimento de uma vida próspera: relações próximas, as pessoas em quem podemos confiar; e a integração social, ou seja, os laços mais frágeis, as pessoas com quem cruzamos todos os dias.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

O que o medo está tentando nos dizer

Abrir mão de uma busca neurótica por segurança é um passo necessário para apreciar a vista. Viver é correr riscos e chegar perto da margem. Com medo e apesar do medo. Nessas horas, me sinto a mais corajosa das covardes.

Dizem que a melhor maneira de superar o medo de altura é se aproximar de um precipício. É se permitir ficar ali, na beirada, naquele terreno desconhecido a um passo da completa aniquilação, onde todo o seu ser parece estar sob ameaça. Não para que a pessoa torture a si mesma e sofra deliberadamente, numa espécie de jogo sádico intencional. Mas para que ela se familiarize com o medo e faça as pazes com ele, de maneira aberta e honesta, sem tentar fugir da situação. Dizem que só assim, aceitando o medo, é possível, de fato, ter coragem.

Eu tenho pensado muito nisso, na origem do medo. De como ele surge e se cristaliza em algum subsolo da nossa psique, de onde passa a nos influenciar e moldar nossas ações com base em experiências que há muito tempo ficaram pra trás. De como, sem perceber, deixamos que esse mecanismo se aposse das nossas vidas. E de como – e se – é possível ir além dele e chegar à outra margem.

Acho que todo medo é o medo da aniquilação total, da morte pura e simples. Do não existir. Temos medo porque queremos nos preservar de alguma ameaça incompreensível, alguma coisa que, real ou não, pode nos machucar ou nos destruir, mesmo que não entendamos muito bem o que seja.
Sei disso porque tenho muitos medos e, em maior ou menor grau, todos eles me fazem sentir a mesma coisa.

Vou te contar uma informação pessoal que até então só a minha terapeuta sabia: eu tenho pavor de intimidade. Um medo danado da sensação de que estão me conhecendo a fundo e sabendo coisas sobre mim. É uma sensação tão maluca que acabo me esquivando de contatos mais profundos com as pessoas porque não quero que elas “me vejam”.

Conversando com minha terapeuta, percebi que tudo não passa do medo de ser rejeitada. Se as pessoas não me conhecem direito, se não podem se aproximar, então também não podem se afastar e concretizar aquilo que eu mais abomino: a sensação de não ser querida. A negação à intimidade é, na verdade, um escudo para não sofrer a dor da perda do afeto. E contanto isso a vocês, estou fazendo a coisa que mais abomino: estou expondo um detalhe íntimo a meu respeito, o que é profundamente incômodo.

Reflexão

Mas só assim eu consigo me aproximar de uma dimensão da vida a qual sempre me nego: a vulnerabilidade. Só assim eu consigo desafiar um pouco o medo e me abrir, ainda que bem timidamente, para o desconhecido da experiência que mais me assusta – a de criar laços com outro ser humano. Não que entre nós vá surgir qualquer relação duradoura, não é isso. Mas ao mesmo tempo, é apenas quando nos permitimos ser vulneráveis que laços verdadeiros são criados. A intimidade anda de mãos dadas com a vulnerabilidade e estar confortável com isso é um grande ato de coragem.

Quando reconhecemos e aceitamos nossa vulnerabilidade, aceitamos também que podemos – e que irremediavelmente vamos, em algum momento – ser feridos. E quando somos feridos, encaramos a verdade inalienável de que não somos indestrutíveis. De que algo pode nos cortar em pedaços – metafórica e literalmente. De que vamos, algum dia, deixar de existir.

É isso. Temos medo porque queremos nos preservar da incerteza da vida, como a incerteza de saber se seremos amados ou não. Porque a incerteza é um lembrete de que não podemos controlar as circunstâncias, não sabemos o que vem a seguir. Então tentamos impedir a todo custo qualquer situação desagradável que perturbe a aparente proteção da nossa condição atual.

Sempre é hora de perceber

O que não percebemos na maioria das vezes – e que eu demorei 28 anos para perceber – é que nenhuma dessas estratégias de autoproteção efetivamente funciona. Nunca estamos plenamente protegidos. Continuamos atraindo as mesmas experiências que despertam os mesmos gatilhos emocionais do pavor, como se a vida tentasse esfregar na nossa cara que não é possível passar por ela ileso, que você vai se arranhar se quiser contar alguma história. Do contrário, se está morto.

Não estou dizendo que é preciso provocar situações perigosas para provar a própria coragem, longe disso. O senso de autopreservação é quase sempre benéfico. O medo é muito útil quando nos faz, por exemplo, usar o cinto de segurança ou dirigir mais devagar; quando faz com que nos afastemos de uma situação de abuso ou quando nos põe em alerta ao vermos um uma cobra, um precipício, etc. Eu mesma evito esportes radicais por isso: morro de medo de quebrar uma perna, o pescoço, a coluna…
Não corra do urso

No entanto, esse mesmo senso de autopreservação é que pode ser o causador da nossa ruína. Um exemplo disso é o que acontece quando seres humanos se encontram com ursos. A reação instintiva de qualquer pessoa seria correr para se afastar do animal, mas é esse, ironicamente, o primeiro comportamento que estimularia um ataque. Outro exemplo é o meu pavor de intimidade: evito a possibilidade da decepção a todo custo, mas, ao mesmo tempo, me privo de viver a plenitude dos afetos.

Depois de muito refletir e falar sobre esse assunto com a minha terapeuta, acho que estou aceitando que, mesmo nas situações em que o medo é baseado numa ameaça real, vale a pena se aproximar dele. Vale a pena se familiarizar com esse amigo superprotetor e cheio de artifícios. Se permitir conversar com ele a respeito do que ele quer tanto me proteger.
Então, às vezes, me permito ousar

Quando me sinto à vontade, gosto de convidar meus medos para se sentarem comigo. Às vezes passeamos a beira de um precipício, às vezes preferimos só observar de longe – mas juntos e conscientes de tudo o que está acontecendo, da altura da queda ao escuro lá embaixo – a ameaça de destruição sempre presente… E nessas horas mágicas de uma presença integral, eu tenho um lampejo raro de compreensão e vejo que é impossível estar completamente protegido.

Que as incertezas nem sempre são uma ameaça, que abrir mão de uma busca neurótica por segurança é um passo necessário para apreciar a vista. E ainda, que viver é correr riscos e chegar perto da margem. Com medo e apesar do medo. Nessas horas, me sinto a mais corajosa das covardes.

*Por Alana Moura

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*Fonte: vidasimples

O lado obscuro das pessoas de grande caráter e autocontrole

Há alguns anos, 80 pessoas na França participaram de um jogo experimental no que parecia ser um programa-piloto de TV chamado La Zone Xtrême.

Inicialmente, os participantes foram informados apenas que seriam organizados em pares — um sendo o “interrogador” e o outro, o “concorrente”.
Mas assim que as luzes se acenderam e todas as regras foram explicadas, o rumo foi sombrio.
Os interrogadores foram informados de que teriam que punir os concorrentes com choques elétricos para cada resposta errada.
Também seria preciso aumentar a intensidade do castigo a cada erro, até chegar a 460 volts — mais do que o dobro da voltagem de uma tomada europeia.
Se a dupla passasse de 27 rodadas, venceria o jogo.
Cada concorrente foi então levado para uma sala trancada e amarrado em uma cadeira. Já o interrogador se sentou no centro do palco.

O jogo começou.
Como se tratava apenas de um programa-piloto, os participantes foram informados de que não haveria um prêmio em dinheiro ao fim.
Mesmo assim, a grande maioria dos interrogadores continuou aplicando choques, mesmo depois de ouvir gritos de dor vindos da sala.

Felizmente, os gritos eram apenas uma atuação — ninguém foi realmente eletrocutado.

Os interrogadores estavam participando, sem saber, de um experimento elaborado para explorar como vários traços de personalidade podem influenciar o comportamento moral.
Embora se pudesse esperar que os mais perversos fossem pessoas impulsivas e antissociais, ou pouco persistentes, cientistas franceses descobriram exatamente o oposto.
Os participantes que estavam dispostos a dar mais e maiores choques eram justamente aqueles associados a um comportamento cuidadoso, disciplinado e moral.

“Pessoas acostumadas a serem organizadas e dóceis, com boa integração social, têm mais dificuldade em desobedecer”, explica Laurent Bègue, psicólogo e pesquisador da Universidade de Grenoble-Alpes que analisou o comportamento dos participantes.

Essa descoberta se soma a uma série de estudos que já mostraram que pessoas com alto autocontrole e disciplina têm um lado obscuro surpreendente.
E este acúmulo de evidências pode nos ajudar a entender por que cidadãos exemplares às vezes se tornam tóxicos, e também a compreender comportamentos antiéticos em nossos locais de trabalho e além.

Superando impulsos

Capacidade de conter impulsos foi por muito tempo associada a um comportamento mais exemplar — mas um pesquisador de Israel propôs testar se era isso mesmo

Por décadas, o autocontrole foi visto como algo exclusivamente positivo e vantajoso.

Essa qualidade pode ser avaliada de várias maneiras, desde questionários que “medem” nosso nível de autodisciplina e organização até experimentos sobre força de vontade, como o famoso “teste do marshmallow”.

Nesses casos, pessoas com alto autocontrole apresentaram melhor desempenho na escola e no trabalho e adotaram estilos de vida mais saudáveis, pois eram menos propensas a comer demais ou a usar drogas, e mais propensas a praticar exercícios.

Pesquisas também descobriram que a capacidade de superar os impulsos mais básicos também significava fazia aqueles com maior autocontrole ter menos propensão a agir de forma agressiva ou criminal.

Assim, por muito tempo se acreditou que o autocontrole representa o caráter de alguém. Alguns estudiosos chegaram a comparar isto a um “músculo moral” que determinaria nossa capacidade de agir com ética.

Em meados da década de 2010, porém, Liad Uziel, da Universidade Bar-Ilan de Israel, começou a investigar a importância do contexto nas nossas decisões de autocontrole.

Uziel partiu da hipótese de que o autocontrole é apenas uma ferramenta para atingir objetivos, e que estes podem ser bons e ruins.

Em muitas situações, nossas normas sociais recompensam as pessoas que cooperam com outras, de modo que as pessoas com alto autocontrole seguem essa linha alegremente. Mas, se mudarmos essas normas sociais, então elas podem ser menos escrupulosas em suas relações com os outros, propôs o pesquisador.

E para testar a ideia Uziel recorreu a um experimento psicológico chamado “jogo do ditador”, no qual um participante recebe uma quantia em dinheiro e tem a oportunidade de compartilhá-la com um parceiro.

Graças às normas sociais de cooperação, as pessoas costumam ser muito generosas.

“Racionalmente, não há razão para dar ao segundo jogador qualquer quantia”, explica Uziel, “mas as pessoas geralmente dão cerca de um terço da verba para os outros.”

Só que os pesquisadores também descobriram que as pessoas com alto autocontrole só eram generosas se temessem ser julgadas por seu comportamento mesquinho, ao passo que, se suas ações fossem mantidas em sigilo, eram muito mais egoístas do que as pessoas consideradas tendo pouco autocontrole.

No experimento, uma vez que o medo do julgamento dos outros desapareceu, os “autocontrolados” escolheram seus próprios interesses em vez de ajudar os outros, ficando com quase todo o dinheiro.

Pessoas com autocontrole alto também parecem ter mais cuidado ao cometer um ato antissocial, evitando assim serem flagradas.

Na Universidade de Western Illinois, nos EUA, David Lane e seus colegas fizeram questionários sobre comportamentos desviantes e consequências de certas ações.
A equipe descobriu que pessoas com alto autocontrole tinham maior probabilidade de tentar escapar de penas por dirigir perigosamente e trapacear em testes, em comparação com pessoas com menos autocontrole.

Mais uma vez, as pessoas mais “autocontroladas” pareciam estar avaliando cuidadosamente as normas sociais, e aderindo a elas quando a transgressão pudesse ser mais prejudicial à sua reputação.

Máquinas de extermínio

Até agora, falamos de atos morais questionáveis. Mas dependendo do contexto, uma forte força de vontade pode contribuir também para atos de crueldade.

Em um estudo macabro, Thomas Denson, psicólogo da Universidade de Nova Gales do SUl, na Austrália, convidou participantes ao laboratório para… colocar insetos em um moedor de café.
Sem que os participantes soubessem, a “máquina de matar” foi construída para permitir que os insetos escapassem antes de serem mortos, mas o moedor ainda emitia um grunhido desconcertante conforme os insetos passavam pela máquina.
Foi dito que o objetivo era compreender melhor certas “interações entre humanos e animais” — uma justificativa que possivelmente tornou o ato mais socialmente aceitável para os participantes.
Para os participantes que demonstravam maior autocontrole, aumentou significativamente o número de insetos que eles estavam dispostos a matar.
Eles pareciam mais dispostos a atender ao pedido dos cientistas e tinham maior capacidade de superar qualquer sentimento de aversão à tarefa, tornando-os assassinos mais eficientes.

Os participantes do La Zone Xtrême mostraram um padrão de comportamento muito parecido, mas em escala bem maior.

Choques elétricos já foram usados diversas vezes em experimentos sobre a crueldade humana
O jogo francês foi inspirado nos polêmicos experimentos de Stanley Milgram na década de 1960 que testaram se os participantes estariam dispostos a torturar outra pessoa com choques elétricos em nome da ciência.
O experimento de Milgram foi conduzido para mostrar a obediência inabalável das pessoas à autoridade. Depois, os pesquisadores franceses quiseram saber que tipos de personalidades eram mais suscetíveis a ela.
Eles descobriram que aqueles com maior autocontrole estavam dispostos a descarregar cerca de 100 volts a mais em seus colegas — a ponto destes pararem de gritar, fingindo inconsciência ou morte.

Curiosamente, o desejo de agradar aos outros era outro traço de personalidade associado a esse comportamento insensível.

“Eles tendiam a eletrocutar mais a vítima, provavelmente para evitar um conflito desagradável com o apresentador de televisão”, disse Bègue.

“Queriam ser pessoas confiáveis e manter seu compromisso.”

Em seu artigo, a equipe de Bègue relaciona as descobertas com o estudo feito pela filósofa Hannah Arendt sobre o oficial nazista Adolf Eichmann.
Arendt cunhou o famoso termo “banalidade do mal” para descrever como as pessoas ordinárias, como Eichmann, podem cometer atos de grande crueldade.
E, de acordo com a pesquisa de Bègue, os traços que levam as pessoas a agirem de forma imoral podem ser não apenas ordinários, como desejáveis em várias situações.

Afinal, são pessoas em “conformidade” normalmente as melhores candidatas a empregos e a cônjuges.

Consequências no ambiente de trabalho

Funcionários exemplares podem às vezes ser os mesmos dispostos a ‘apunhalar pelas costas’
Bègue enfatiza que sua pesquisa precisa ser replicada antes que possamos tirar conclusões mais genéricas sobre a natureza humana.
Entretanto, é interessante especular se características como alto autocontrole podem prever o envolvimento de alguém em atos cotidianos imorais, de pequenos a grandes.

Para Lane, tudo dependeria da força das normas sociais. E há algumas evidências para apoiar isso: por exemplo, a evasão fiscal aumenta com o escrúpulo.
Enquanto isso, no ambiente de trabalho, funcionários exemplares também podem ser aqueles que roubam da empresa sob a ideia de que ninguém dará falta do dinheiro.

Uziel, por sua vez, suspeita que alguém com alto autocontrole tem mais probabilidade de agir impiedosamente quando a coesão do grupo começa a desmoronar, incluindo momentos em que seu próprio senso de poder ou autoridade é ameaçado, ou quando ela se sente em perigo.

Nessas condições, por exemplo, tais pessoas podem “apunhalar alguém pelas costas” buscando uma nova promoção; ou curvar-se diante de um chefe sem levar em conta como seu comportamento afetará os outros.
Assim, podemos começar a apreciar um pouco mais as pessoas ao nosso redor que são um pouco menos disciplinadas e obedientes do que as outras.
Elas podem nos decepcionar com sua falta de confiabilidade, mas pelo menos no jogo La Zone Xtrême seriam o tipo de pessoa que você gostaria de ter em seu caminho.

*Por David Robson

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*Fonte: bbc-brasil

Quem não consegue assimilar as informações prefere simplificar o problema!

Avarentos cognitivos: pessoas que preferem não pensar porque não são capazes de assimilar as informações que recebem.

Todos nós somos avarentos cognitivos, em maior ou menor grau. Vivemos em um mundo complexo e incerto que está em constante mudança.

Todos os dias somos confrontados com tantos estímulos e há tantas variáveis ​​a considerar que é perfeitamente compreensível para o nosso cérebro tomar atalhos e selecionar as informações que melhor se adequam às nossas crenças.

Assim, não precisamos fazer um grande esforço mental.

No entanto, esse tipo de preguiça mental tem consequências. E elas não são exatamente positivos.

O que é ganância cognitiva?

Em 1984, os psicólogos Susan Fiske e Shelley Taylor fizeram referência ao conceito de avarento cognitivo pela primeira vez. Eles o usaram para definir “aquelas pessoas que têm uma capacidade limitada de processar informações, então tomam atalhos sempre que podem”.

No entanto, a verdade é que todos nós somos avarentos cognitivos em certas situações, uma vez que nosso cérebro tem uma tendência de escolher os caminhos mais curtos diariamente.

Em vez de nos comportarmos como cientistas racionais, pesando cuidadosamente os custos e benefícios das opções, testando hipóteses ou atualizando nossas expectativas e conclusões com base nos resultados, simplesmente cedemos à preguiça cognitiva e escolhemos o caminho mais fácil.

Obviamente, temos mais probabilidade de usar atalhos mentais quando nos deparamos com situações complexas e incertas ou quando temos pouco conhecimento sobre o que está acontecendo.

Nesses casos, tentamos simplificar o problema. Somos guiados por um princípio básico: economize o máximo de energia mental possível, mesmo nas situações em que é mais necessário “usar a cabeça”.

Existem pessoas, no entanto, que fazem da ganância cognitiva seu modus operandi. Tomar atalhos mentais torna-se um hábito e padrão de não pensar.

O caminho que os avarentos cognitivos percorrem

Os avarentos cognitivos tendem a agir de duas maneiras:

Ignorando algumas das informações para reduzir sua carga cognitiva ou superestimando algum tipo de dados para que não tenham que procurar ou processar informações diferentes que poderiam destruir suas crenças ou suposições. Portanto, eles são particularmente propensos a viés de confirmação, ou seja, a ler só o título da matéria e tirar conclusões.

Na prática, o avarento cognitivo tem a tendência de buscar, focar e favorecer informações que confirmem suas crenças ou hipóteses, dando um valor excessivo a esses dados, enquanto ignora os detalhes que podem destruir suas ideias, simplesmente porque isso implica uma maior esforço mental.

Os avarentos cognitivos, ao invés de buscar entre todas as evidências relevantes para o seu problema ou a decisão que devem tomar, focam naquela informação que sustenta sua hipótese inicial ou alternativa, ignorando ou diminuindo o valor dos dados contrários ou discordantes. Portanto, eles iniciam um processo de busca parcial por informações que os impede de ver o problema de forma holística.

Eles também tendem a interpretar as informações de forma enviesada, dando mais relevância aos dados que sustentam suas teorias e visão de mundo.

Como resultado desse pensamento não racional, não é difícil para eles construir esquemas mentais mal adaptativos que não correspondem à realidade ou desenvolver estereótipos que se tornam autolimitantes.

As consequências da ganância cognitiva

Pensar pouco nos torna menos racionais e mais propensos a cair nas armadilhas que os estereótipos e preconceitos nos colocam. Este défice de conhecimento e, sobretudo, a ignorância motivada que está na sua base, dá origem a uma visão enviesada e pouco racional do mundo que nos impede de nos comportarmos de forma adaptativa.

Tomar atalhos mentais pode ser conveniente quando estamos andando na rua, pois nossa mente não é capaz de processar todos os estímulos que chegam até nós, mas fazer isso quando nos deparamos com problemas importantes e complexos na vida geralmente nos leva a tomar decisões erradas.

Quando não somos capazes de formar uma ideia geral do problema que enfrentamos e o vemos de uma forma enviesada e polarizada, é provável que ignoremos variáveis ​​relevantes e tomemos decisões precipitadas das quais nos arrependeremos mais tarde.

Outro efeito da ganância cognitiva é que ela diminui nossa capacidade de avaliar corretamente os riscos.

Quando aplicamos atalhos cognitivos, negligenciamos dados importantes, pequenos sinais que nos ajudam a entender como uma série de pequenos erros pode levar a uma catástrofe real.

Como resultado dessa cegueira cognitiva, é menos provável que aprendamos uma lição para o futuro; portanto, de certa forma, nos condenamos a tropeçar na mesma pedra repetidamente.

Engajados na câmara de eco que construímos, não vemos o mundo com clareza, mas apenas reforçamos nossas crenças e estereótipos, mantendo-os em um sistema fechado a salvo de refutação e crescimento.

Pare de ser um avarento cognitivo

Em 2013, pesquisadores do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica colocaram este problema para 248 estudantes universitários: “Um taco e uma bola juntos custam $ 1,10. O taco custa $ 1 a mais do que a bola. Quanto custa a bola? ”

Sem pensar muito, a maioria dos participantes respondeu que o taco custava $ 1 e a bola custava 10 centavos. Não é assim. A bola custa 5 centavos e o taco custa $ 1,05.

79% dos participantes pegaram um atalho mental. Eles não se preocuparam em pensar e realizar aquela pequena operação matemática. O engraçado, porém, é que a maioria das pessoas admitiu não ter certeza de sua resposta. De certa forma, eles sabiam que se comportaram como avarentos cognitivos.

Na vida real, muitas vezes é mais difícil detectar esses atalhos cognitivos, especialmente quando as emoções estão envolvidas, mas devemos prestar mais atenção à nossa intuição. Se sentirmos alguma suspeita ou insegurança a respeito de uma decisão importante que tomamos, é provável que seja um sinal de nosso inconsciente que está nos alertando de que fomos avaros cognitivos.

Outra forma de contornar os atalhos mentais é fazer uma pausa e nos perguntar se realmente avaliamos todas as variáveis ​​possíveis ou se analisamos a situação com a mente aberta. Fiske explicou que, quando estamos preocupados ou distraídos, temos menos espaço mental para pensar com cuidado. Ao contrário, quando retomamos nossa rotina e nos sentimos calmos, tendemos a pensar de forma mais racional, cautelosa e aberta.

Em qualquer caso, devemos estar cientes de que os atalhos mentais podem ser racionais ou irracionais.

São racionais quando nos ajudam a tomar decisões rápidas em contextos cotidianos ou de emergência, mas são irracionais quando nos levam a ignorar todas aquelas informações que contradizem nosso ponto de vista e nos impedem de formar uma imagem mais fiel da realidade nas situações em que temos tempo suficiente para refletir sobre nosso próximo passo.

Como disse Michael Shermer: “Não devemos esquecer que existem “pessoas inteligentes que acreditam em coisas estranhas porque foram treinadas para defender crenças que surgiram por motivos não inteligentes”.

Fontes:
Fiske, ST & Taylor, SE (2013) Social cognition: From brain to culture. Londres: Sage.
e Neys, W. et. Al. (2013) Bastões, bolas e sensibilidade de substituição: avarentos cognitivos não são tolos felizes. Psychon Bull Rev ; 20 (2): 269-273.
Corcoran, K. & Mussweiler, T. (2010) A perspectiva do avarento cognitivo: A comparação social como uma heurística em auto-julgamentos. Revisão Europeia de Psicologia Social ; 21 (1): 78-113.

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*Fonte: seuamigoguru

Síndrome de Zorro: fazer o bem e não contar pra ninguém

Com o seu silêncio, o Zorro perde a chance rara de fazer uma bela campanha de divulgação, séria, responsável. Sem comunicação, o Zorro não presta contas de seus feitos, não aumenta sua credibilidade, não recruta adesão, não constrói sua imagem de marca, não se diferencia dos heróis concorrentes.

O vilarejo em apuros, a comunidade em pânico. Vilões assaltam o único banco, saqueiam as lojas, põem fogo nas casas. Surram os homens, desorganizados, sem liderança e sem uma defesa articulada. Espancam as crianças, estupram as mulheres. Os vilões atuam livremente, diante das forças policiais inoperantes, porque incompetentes ou despreparadas ou apenas desinteressadas.

Mas eis que chega o Zorro e faz a sua parte. Afugenta os bandidos, mata alguns talvez. Recupera o dinheiro do banco, devolve as mercadorias das lojas, apaga os incêndios. Salva as mulheres e as crianças. O Zorro atua diante do olhar passivo das forças policiais inoperantes, porque incompetentes ou despreparadas ou apenas desinteressadas. Para falar a verdade, muitas vezes o Zorro atua também contra as forças policiais inoperantes, que teimam em atrapalhar seu trabalho em defesa da comunidade.

Final feliz. Todos se abraçam, todos se emocionam, dão graças aos Céus e voltam-se para agradecer àquele mascarado maravilhoso. Cadê o cara?

Do alto de uma colina, contentando-se com a sensação egocêntrica de quem acredita ter cumprido com o seu dever imediato, Zorro empina o cavalo e se despede. Egoisticamente feliz, como quem cumpriu com sua obrigação, não fez nada de mais. Afinal, é da sua índole, é da sua natureza ser discreto. Ele tem lá seus problemas.

Por que? Ele é sinceramente tímido? Orgulhoso, pero encabulado? Falso-modesto, aguardando a multidão gritar “Fica! Fica! Fica!”. Herói cheio de complexo de culpa, que se envergonha dos aplausos? Celebrar não faz parte do core-business do Zorro? Será falta de tempo? Será falta de verba? Será falta de um trabalho consistente?

De qualquer forma, o Zorro é um herói mascarado maravilhoso, mas nada exemplar.

Por que ele não trabalhou estruturalmente com a comunidade, depois que sua ação emergencial resolveu aquele problema pontualmente? Por que ele desperdiçou seu carisma, não reuniu o povo agradecido e discutiu o ocorrido, pedagogicamente? Por que ele não se preocupou em identificar os líderes naturais daquela gente e não os mobilizou? Por que ele não ensinou o vilarejo a se organizar para um próximo ataque? Por que ele não usou sua competência para capacitar a população nas artes da defesa coletiva? Por que ele não aprofundou sua ação, não buscou formar uma estrutura que permitisse à comunidade construir sua própria auto-sustentabilidade (ou auto-defensibilidade, no caso)? Por que ele só teve um gesto salvador de bravura momentaneamente e não construiu algo que permanecesse pra sempre naquele vilarejo?

Este é o sintoma número 1 da Síndrome de Zorro: contentar-se com a ação em si, que se esgota nela mesma, com seus efeitos imediatos e efêmeros.

O sintoma número 2 da Síndrome de Zorro começa na própria máscara: o Zorro não mostra a cara. O Zorro não divulga seus atos. O Zorro omite suas idéias. O Zorro esconde seu jogo. O Zorro acredita que sua ação social será reconhecida espontaneamente e, se isso não acontecer, tudo bem, não lhe fará falta.

Este tipo de comportamento calado e inseguro é natural, conseqüência da Síndrome número 1 (atuar isolada e pontualmente). Pode parecer arrogância ou inocência, que são irmãs de pecado. Mas, no caso do Zorro, é falta de foco mesmo. Ele não se sente responsável pelo que acontece com o povoado. Ele é apenas um assistencialista caridoso. Ele só ampara, socorre.

O Zorro não comunica o que faz, porque não o faz estrategicamente. Porque sua atuação social é tática e errática. Ela não está integrada a um pensamento corporativo ou a um plano de negócios de longo prazo, em parceria comprometida com o Terceiro e o Primeiro Setor. Porque sua atuação social não faz parte do negócio em si. Portanto, nada é planejado, nada é auditado, os resultados são pequenos e ao acaso. O Zorro trava batalhas avulsas, não uma guerra pensada.

Com o seu silêncio, o Zorro perde a chance rara de fazer uma bela campanha de divulgação, séria, responsável. Sem comunicação, o Zorro não presta contas de seus feitos, não aumenta sua credibilidade, não recruta adesão, não constrói sua imagem de marca, não se diferencia dos heróis concorrentes.

E o pior de tudo: sem comunicação, o Zorro despreza sua força inspiradora. Zorro não estimula o surgimento de novos Zorros, que se entusiasmem com seu sucesso, repliquem seu trabalho e atuem em rede com ele. O Zorro não entende nada de exemplaridade.

Tem gente que diz que o Zorro é assim mesmo, solitário e na dele, prefere atuar sozinho e sem alarde. Dizem que ele acha cabotino e oportunista, que é muito feio se promover às custas de suas ações a favor do Bem.

Sei lá, para mim o Zorro é um tonto.

*Por Percival Caropreso

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*Fonte: updateordie

Efeito Dunning-Kruger e o paradoxo da ignorância: por que quem sabe menos, acredita que sabe mais?

Você já ouviu falar do efeito Dunning-Kruger ? É um viés cognitivo que leva as pessoas com menos habilidade e conhecimento a pensar que sabem mais do que as outras. Quanto menos elas sabem, mais pensam que sabem.

Muitas vezes, aqueles que têm esse problema tendem a impor suas idéias, em vez de simplesmente dar uma opinião, considerando-as verdades absolutas. |Os outros são vistos como totalmente ignorantes e incompetentes, mesmo que não o sejam.

Como esse efeito foi identificado? Em 1995, McArthur Wheeler assaltou dois bancos consecutivos no mesmo dia na cidade de Pittsburg, na Pensilvânia, Estados Unidos. Detalhe: ele não usou nenhuma máscara para esconder seu rosto. Flagrado pelas câmeras, ele foi obviamente reconhecido e facilmente capturado. Ao ser preso, estava profundamente desolado. Ele havia passado suco de limão no rosto e acreditava que, com isso, teria ficado totalmente invisível.

Uns amigos seus o haviam “ensinado” o truque e ele tinha verificado: aplicou suco de limão no rosto e logo tirou uma fotografia sua. Ele pôde comprovar que a sua imagem não saia nela. No entanto, o mesmo limão o tinha impedido de ver que ele não tinha focado o seu rosto, mas sim o teto. “Como alguém pode ser tão idiota?”, perguntou-se David Dunning.”

A história chegou aos ouvidos do profissional de psicologia social da Universidade de Cornell, David Dunning, que se perguntou se a incompetência pode nos fazer desconhecer o quanto somos incompetentes. Então, iniciiou uma série de experimentos com seu colega Justin Kruger e foi esse estudo que deu origem ao efeito Dunning-Kruger.

Durante quatro experimentos, os dois psicólogos analisaram as habilidades de algumas pessoas no campo da gramática, raciocínio lógico e humor, pedindo-lhes para estimar seu nível de competência e, em seguida, realizando testes de avaliação..

Eles perceberam que, quanto mais incompetente era uma pessoa, menos consciente disso ela era. Enquanto as pessoas mais competentes se subestimavam.

Daí o efeito Dunning-Kruger, segundo o qual pessoas com baixo nível de competência tendem a pensar constantemente que sabem mais do que sabem, considerando-se mais inteligentes.

Por que se tem essa percepção distorcida? Porque se você não possui um mínimo de habilidades em uma determinada área, não pode fazer uma estimativa realista de seu desempenho e limites.

Todos nós podemos “sofrer” com essa percepção distorcida, como podemos sair dela? Os especialistas aconselham tentar primeiro estar cientes da existência desse viés cognitivo, estar aberto à dúvida e evitar impor o próprio ponto de vista, aceitando também o dos outros.

O efeito Dunning-Kruger é uma realidade contundente nesta era onde quase toda nossa interação pessoal acontece virtualmente, mas, não se limita à vida on line.

Perceber esse fenômeno em si mesmo e nos outros é um grande passo para a evolução do aprendizado (ler e ouvir de quem sabe mais!) e da melhoria no compartilhamento de informações úteis (evitar propagar dados não seguros e opiniões eivadas de emoção, que não condizem com a verdade).

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*Fonte: pensarcontemporaneo

Pesquisas apontam: quem passa menos tempo no Facebook é mais feliz

Cientistas advertem: o Facebook ativaria um poderoso processo de comparação social. “Os indivíduos tendem a postar informação, fotos e anúncios que fazem com que suas vidas pareçam sensacionais. Exposição frequente a esse tipo de informação pode levar o outro a sentir que sua vida é, em comparação, pior”.

O Facebook me intoxica. Me intoxica com reclamações de pessoas que não conheço. Com fotos de comidas que às vezes parecem vômito. Com vídeos de animais sendo maltratados. Com frases que nunca foram escritas por Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Caio Fernando Abreu ou Mario Quintana.

Me intoxica com seu patrulhamento – sempre tem um pentelho para dizer que você não deve pensar, postar ou escrever algo – e com a avalanche de informações misturadas que se encontram ali: bons artigos, boas músicas, resenhas, vídeos interessantes.

Se eu fosse clicar em todos os artigos que me chamam a atenção, ou fosse escutar num só dia todas as boas músicas que os bons amigos indicam, não faria outra coisa da vida.

Portanto, não são apenas os sem-noção que colaboram para a minha intoxicação. Os com-noção (e excelentes postagens) colaboram, e muito, porque sempre fico com a sensação de que perdi alguma coisa quando não clico ou não leio algo que supostamente acharia interessante.

Além disso, as mensagens inbox. Às vezes simplesmente não estamos com saco (nem tempo) para começar uma conversa por ali e o truque de não visualizar para o outro não ser notificado não surte o menor efeito, pois ele percebe que você está online (uma vez que posta ou curte postagens alheias) e subentende que você não leu sua mensagem porque não quis. E entre o seu direito de não querer responder e o sentimento de rejeição do outro nasce a sua culpa e o julgamento do outro de que você é arrogante, metido, insensível ou sei lá o quê.

As notificações em avalanche, os convites para aplicativos malas, a inserção forçada em grupos que nada tem a ver com a gente, as páginas que nunca curtimos, mas que nos são entubadas, as brigas políticas e a perseguição dos “politicamente-corretos” – tudo isso me intoxica.

No entanto, o que mais me intoxica é a sensação de que a minha vida, em alguns momentos, está menos interessante do que a vida do meu vizinho que está sempre viajando para lugares paradisíacos e, claro, postando muitas fotos; frequentando festas badaladas, bares, shows e restaurantes incríveis, comendo comidinhas refinadas e de chefes famosinhos em plena segunda-feira, indo a exposições interessantíssimas em plena quarta-feira, enquanto eu, pobre de mim, estou derretendo no calor do Rio de Janeiro e tentando escrever um novo livro.

Desde que li uma matéria que dizia que pessoas que passam menos tempo no Facebook são mais felizes passei a diminuir minha frequência na bolha azul.

” O Facebook ativaria um poderoso processo de comparação social. “Os indivíduos tendem a postar informação, fotos e anúncios que fazem com que suas vidas pareçam sensacionais. Exposição frequente a esse tipo de informação pode levar o outro a sentir que sua vida é, em comparação, pior”.

O resultado do meu afastamento virtual foi surpreendente. Não me comparar com ninguém (quem nunca?) me trouxe uma sensação de que a minha vida vai bem, obrigada, sem tamanho. Quando viajo, então, passo semanas sem entrar. E é tão bom desfrutar do que temos (o presente) e não do que não temos (a vida dos outros).

Quando nos concentramos em nós, nas nossas vontades, necessidades, vivências e aprendizado – e não no que devemos ser para o outro; no que queremos que outro pense de nós – há uma diminuição de ansiedade quase palpável (e tempo de sobra para aplicar em coisas que realmente nos são caras).

As famosas selfies não me incomodam. Algumas até me divertem. Gosto de ver meus amigos se sentindo bonitos em tempos onde quase todo mundo odeia a própria imagem – sim, porque para postar uma selfie a pessoa tem que estar se achando linda na foto.

Aliás, nunca consegui concordar completamente com os analistas de plantão que garantem que o excesso de fotografias em redes sociais é sinônimo de narcisismo crônico e/ou produto de uma sociedade narcísica. Ok, existe esse componente, isso é inegável, mas fecho com Ítalo Calvino, em seu conto A aventura de um fotógrafo, no livro Amores Difíceis (Editora Companhia de Bolso):

“ Somente quando põem os olhos nas fotos parecem tomar posse tangível do dia passado, somente então aquele riacho alpino, aquele jeito do menino com o baldinho, aquele reflexo do sol nas pernas da mulher adquirem a irrevogabilidade daquilo que já ocorreu e não pode mais ser posto em dúvida. O resto pode se afogar na sombra incerta da dúvida”.

Ou como aponta em outro trecho:

“ É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: ‘Ah, que bonito, tinha era que tirar uma foto!’, que já está no terreno de quem pensa que tudo o que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido, e que então para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso: ou viver de um modo o mais fotográfico possível, ou então considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida. O primeiro caminho leva à estupidez, o segundo, a loucura”.

Penso que a mania de fotografar tudo-o-tempo-todo, inclusive a si mesmo – além do advento dos telefones com máquinas digitais – tem mais a ver com uma necessidade de se esquivar do sentimento de transitoriedade (e do que é efêmero) do que qualquer outra coisa.

Voltando ao assunto inicial: por que não abandono a bolha azul se ela me intoxica tanto? Porque tem o humor de páginas como Artes Depressão, boas dicas dos amigos, a sensação de que estou próxima de pessoas que não vejo há anos por morarmos em cidades diferentes, pela ótima ferramenta que é para divulgação do meu trabalho e, também, por ser uma boa distração em noites de insônia não produtiva. O segredo, aprendi, é dosar – assim como se bebe água junto à ingestão de bebida alcóolica para não passar mal depois, se deve passar menos tempo no Facebook para não enjoar dos outros e de si mesmo.

*Por Monica Montone
Venha tomar um café comigo no canal do YouTube Dois Cafés e uma água com gás, onde falo sobre livros, comportamento, arte, cultura, moda e beleza.

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*Fonte: obviousmag

Vamos em frente!

Finalmente estamos no último dia desse cabuloso ano de 2020. Um ano que começou como a maioria dos demais mas que aos poucos, logo de cara se mostrou ser muito diferente, nos servindo (a toda humanidade) de uma grande lição – de quanto “o todo poderoso” ser humano é na real, muito frágil!

Tivemos de aprender a conviver de novas maneiras em sociedade, ora se recolhendo, ora seguindo em frente mas se “cuidando sempre” – mesmo que muitos imbecis lamentavelmente ainda não entenderam isso. Um ano de mudança, um ano em que usaram muito o termo “novo normal” – termos aliás, que eu odeio, até porque ficou apenas na teoria e a grande maioria das pessoas pouco está se lixando. Querem sim é voltar o quanto antes para EXATAMENTE o que era. Nada, néca-de-pitibiribas de mudança para algo diferente, novo ou sequer tentar algo para melhor. Não! Nada!!!. Basta ver por aí que a tal empatia é quase nula, vide atitudes das pessoas no dia a dia que teimam em se aglomerarem, pensarem somente em seu prazer, ganância, ou seja, no seu próprio umbigo. E porque não me surpreende os altos números de novos casos de Covid-19, nesse final de ano?

Também serviu muito bem para nos mostrar quem realmente são as pessoas que nos cercam. Muita coisa veio à tona, atitudes boas e outras nem tanto. Muito pensamento tosco e burraldino tomando proporções políticas em redes sociais, quando na verdade empatia, amor ao próximo e respeito são coisas da VIDA! Quanta ignorância, indiferença e egoísmo! Isso sem falar nos novos “cientistas de redes sociais”, pessoas sem qualificação alguma disseminando “verdades” sobre assuntos dos quais não dominam ou sequer tem algum conhecimento comprovado.

Um ano difícil, mas esclarecedor em muito sentidos. Que a vida siga, com muita SAÚDE e alegrias para todos!
Torcendo para em breve o fim dessa pandemia mundial e que possamos em então comemorar todos os aniversários e demais festividades que tiveram de ser adiadas. Darmos todos aqueles abraços que não foram dados, dizer pessoalmente todas as coisas boas que não foram ditas, fazer vários passeios, viagens e por em prática os tantos planos cancelados, enfim, por tudo em dia e ainda um pouco mais.

Tenham todos um abençoado novo ano, agradecendo por estamos vivos, pelas nossas conquistas e por termos superado as adversidades até então. Claro, não vai ser um simples virar de página, uma troca de dígito no calendário e pimba! Tudo vai estar, como num passe de mágica, diferente! Não! Mas sigamos resilientes e persistentes em favor da vida e da busca por dias melhores “para todos”.

*Ah! E que tal, apenas por via das dúvidas, fazer toda e qualquer daquelas tradicionais simpatias de final de ano dessa vez, de um modo diferente. Assim… só por precaução (já que não deu lá muito certo para o 2020)!?
Não custa tentar, hein!

Um Feliz 2021!

Maltrato às mulheres do rock nos anos noventa: os loucos eram eles

Crítica as transformou em uma falha do sistema cultural por seu discurso contra o ‘establishment’ mesmo vendendo milhões de discos

Há duas ideias muito presentes quando se lembra da música dos anos noventa. A primeira é que foi uma década fraca, como repete uma parte da crítica musical. A segunda tem a ver com a contribuição das mulheres a essa suposta colheita ruim. Seus trabalhos ficaram relegados à fogueira do esquecimento. Não só faziam discos “nefastos”, além de tudo estavam “loucas”. Esses são os adjetivos usados pela imprensa especializada da época, representada em sua maioria por homens brancos de classe média. Seus trabalhos venderam milhões de cópias, lotaram estádios e tocaram até gastar nos walkman, discman e mp3 das mulheres que nunca encontraram suas próprias referências em Kurt Cobain e na batalha de testosterona entre Oasis e Blur.

Primeiro exemplo: Ironic, do disco Jagged Little Pill de Alanis Morissette, que completou 25 anos em 2019. Nos Estados Unidos chegaram a rebatizar a música como Idiotic (idiota, em português) para assim outorgar-lhe o título de pior canção dos noventa. O álbum vendeu 33 milhões de cópias, levou cinco Grammy em 1996, um deles o álbum do ano, e a artista percorreu o mundo em uma turnê que durou quase um ano e meio. Desse disco também saíram os sucessos You Oughta Know e Hand in My Pocket.

Morissette teve pouco tempo para aproveitar a fama. Não só recebeu as críticas rápido demais como, segundo entrevista concedida a Oprah Winfrey em 2014, sofreu estresse pós-traumático após o lançamento do disco. Durante dois anos não conseguiu sorrir e além disso recaiu em seus problemas de alimentação após um executivo de sua gravadora lhe dizer que estava engordando. Meredith Brooks se viu arrastada por esse fenômeno: em dado momento a imprensa atribuiu seu single Bitch (onde se definia como uma prostituta) a Morissette como parte do fracassado disco que contribuiu para enterrar a década dos noventa.

No começo da década seguinte, em 2002, Lauryn Hill foi condenada por Unplugged 2.0. Após anos recebendo o beneplácito da indústria e da imprensa por discos como The Miseducation e seu trabalho com o The Fugees, a cantora lançou uma obra em que criticava o sistema capitalista, consumista e patriarcal em canções como I Find It Hard to Say (Rebel). Não só a colocou em suas letras, levou sua fúria aos palcos onde aparecia vestida com roupas coloridas e uma maquiagem extravagante para gritar: “Façam o consumismo balançar, rebelem-se…”. Como lembram Isabel Calderón e Lucía Lijtmaer em seu podcast Deforme Semanal Ideal Total, não o fazia como entretenimento, e sim para “abrir os olhos, com a ideia de subverter”.

Seu propósito se chocou contra o adjetivo vulgar e ordinário que persegue as mulheres: “Louca”. Seu ex-companheiro e colega no The Fugees, Wycleff Jean, já havia deixado por escrito na revista Rolling Stone que ela precisava de ajuda psiquiátrica. Imagem que foi reforçada quando ela criticou a pedofilia na Igreja Católica.

Minna Salami resume em seu livro El Otro Lado de la Montaña (O Outro Lado da Montanha): “O establishment cultural ridiculariza as mulheres artistas que questionam as desigualdades sistêmicas”. Também foram vítimas dessa forma de qualificar as mulheres Fiona Apple e Sinéad O’Connor. Em 1997, Apple recebeu o prêmio de melhor artista jovem no MTV Video Music Awards e disse que o mundo era uma merda. Tinha 20 anos. Foi o suficiente para que a jovem destinada a ser uma das estrelas da música não conseguisse. A mensagem não foi a única causa. Ela não se interessava por esse status e sua gravadora também não queria lidar com alguém que abandonava o estúdio quando se sentia pressionada mesmo sendo capaz de escrever um sucesso como Criminal em uma tarde e transformá-lo no hit de um álbum. A crítica, por fim, parece se render ao seu talento no final de 2020: Fetch The Bolt Cutters foi o disco do ano em várias publicações influentes.

No caso de Sinéad O’Connor a rebeldia que parecia sempre justificada nos homens se transformou em sua condenação. Em 1992, quando lançou Am I Not Your Girl?, seu terceiro disco, foi convidada ao programa de televisão Saturday Night Live. Não só promoveu seu trabalho, também denunciou os abusos sexuais cometidos na Igreja Católica. A artista interpretou War, de Bob Marley, em que convidou as crianças a lutar: “Acreditamos na vitória do bem contra o mal” disse antes de começar e jogar contra a câmera uma foto do papa João Paulo II, para acabar gritando: “Lutem contra o verdadeiro inimigo!”. Sua carreira foi interrompida nessa noite mesmo tendo sido a autora de canções como Troy e Mandika, além de uma das mais célebres versões de Nothing Compares 2 U, original de Prince.

Dolores O’Riordan (cantora do The Cranberries), Courtney Love (já como artista solo) e Shirley Manson (líder da Garbage), acabaram fagocitadas pelas críticas às suas declarações mais do que por seus trabalhos. No caso de Love, sofreu o mesmo castigo de Yoko Ono: foram responsabilizadas por prejudicar as carreiras de seus companheiros Kurt Cobain e John Lennon (e até do fim dos The Beatles).

Amparo Llanos, líder do Dover com sua irmã Cristina, lembrou em uma entrevista ao S Moda os momentos difíceis que precisaram viver por ser duas mulheres na liderança de uma banda de rock: “Fomos definidas como uma falha, uma anomalia do rock, de modo que não poderíamos encaixar em nenhuma antologia de sua música. E isso é terrível porque faz com que as jovens que começam não tenham tradição para olhar para trás. Não existe essa tradição. Na sociedade patriarcal os homens a têm, olha para trás e dizem ‘como era bom Nirvana, como era bom Jimmy Hendrix, como era bom esse e aquele outro’. E, por outro lado, nós não, porque você é enterrada antes do tempo. Acho que é importantíssimo que as jovens possam ter referências femininas”.

Que esta lista sirva para lembrar de todas elas e tantas outras como Gwen Stefani do No Doubt, Natalie Imbruglia e Joss Stone, entre tantas outras.

*Por Ana Marcos

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*Fonte: elpais

A capitalização dos sentimentos

Cada dia que passa, aumenta a convicção que na sociedade atual, por mais que as pessoas tenham tendência a aflorar sentimentos positivos frente às diversas situações, o sistema capitaliza toda e qualquer expressão de boa vontade.

Somos bombardeados diariamente com a promoção da catástrofe frente a uma relativização das boas ações. Você não gosta o suficiente se não é capaz de dar um bom (caro) presente; você não é um bom cidadão consumindo menos que a maioria; seu carro (considerando que precise de um) pode estar perfeito, com a mecânica em dia, funilaria boa, ou seja: em perfeitas condições. Ainda assim teimam em lhe empurrar que depois de três anos o mesmo já está ultrapassado. Até mesmo os “vintage” estão superestimados, tudo vale mais do que a grande maioria da população mundial pode pagar.

Cabe aqui um aparte do provável surgimento da inflação nos preços de praticamente todos os produtos.

Por que uma pintura custa milhões? Porque determinados serviços que poderiam ser de baixo custo são elevados a preços altíssimos? A resposta pode ser mais simples do que parece. Deve-se ao fato de a sociedade capitalista perceber que por mais que as elites acumulassem fortunas, isso ainda não os tornava tão diferentes da massa pobre. Precisavam de um diferencial. Necessitavam ter onde e como gastar as fortunas acumuladas com base na exploração dos menos favorecidos.

Milionários, bilionários, precisam estampar as revistas e os jornais com suas mais novas aquisições. Pode ser uma obra de um pintor famoso, um carro exclusivo ou uma grande propriedade.

Não estou questionando a genialidade de pintores, mas duvido muito que quando eles fizeram suas obras era com o intuito de serem vendidas a preços exorbitantes. Ainda mais em uma sociedade que tanta gente morre de fome (leia-se falta de nutrientes, tendo em vista que milhões de pessoas no mundo são obrigadas a sobreviverem com uma dieta de um ou dois alimentos somente). Também não estou questionando o trabalho de engenheiros e designers de carros de luxo. Ao menos não estou questionando suas capacidades. A questão é: por que desenvolver carros caríssimos que só servirão a uma mínima parcela da sociedade?

O resultado disso tudo é que para a elite exploradora manter seu nível vida, fazem com que os lucros de seus investimentos sejam sempre maiores, estourando a conta de quem nem consegue pagar suas contas e se alimentar bem. Aumenta-se o lucro proporcionalmente à diminuição da qualidade de vida.

Finalmente chegamos ao ponto em questão: a capitalização dos sentimentos. Não satisfeitos com a exploração, com a fome e com a baixa qualidade de vida da grande maioria das pessoas, agora atacam no subconsciente. A maioria das pessoas acha louvável quando um milionário doa 0,0001% do que tem (só doa quando é publicado nas mídias: televisão, jornal, revistas etc.), mas quando um vizinho procura desenvolver ações em prol de uma melhora na qualidade de vida de pessoas próximas, diz que não fez mais que a obrigação. Ou quem sabe questiona se o mesmo pediu “autorização” para tal benfeitoria.

Defende com unhas e dentes quem os explora, enquanto elege culpados entre os iguais. Reclama de ações assistencialistas que não comprometem a economia, ao mesmo tempo em que não sabe que instituições financeiras ficam com um terço do PIB de países latino-americanos. E ainda tem os que sabem destes fatos, mas solenemente ignoram. Apesar de todos esses elementos ainda acredito que após décadas manipulação é complicadíssimo ao menos favorecido compreender esta situação.

Deveríamos destinar um momento de reflexão em nossas vidas, para que, portanto, sejamos capazes de compreender mais elementos dentre os que compõem nossa sociedade. Mesmo que ainda seja pouco, já é um pequeno passo em prol de uma melhora. Diariamente poderíamos refletir acerca das situações que influenciam diretamente em nossas vidas e de nossos semelhantes. Talvez quando formos capazes de reconhecer nossos próprios erros, poderemos então (con)viver em uma sociedade mais justa.

*Por Leonardo Onofre

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*Fonte: obviousmag

As ruas da vida: uma breve reflexão sobre ansiedade

Às vezes eu fico pensando em como que as coisas fluem, e é bem esquisito, sinto até alguns calafrios em relação a isso.

De modo bem simplificado, nascemos numa rodovia enorme, denominada vida, alguns em posições mais privilegiadas e outros menos, mas isso não vem ao caso, não é o que quero esmiuçar aqui. Percebo como se cada ação nossa, as escolhas, fossem uma rua arterial — vamos pular as estradas, né? Pra ficar mais dinâmico — em que você ingressa e sai dessa rodovia, e na rua que você opta por entrar tem várias coisas que você vê justamente porque entrou nela. De repente encontra outras ruazinhas, em consequência de ter entrado naquela e vai encontrando mais coisas e mais coisas.

De antemão penso que, você jamais saberia o que haveria de fato naquela rua se não ousasse entrar, no máximo seria capaz de dar uma espiadinha da esquina. Mas apenas espreitando, admita para si mesmo, convenhamos, você não seria capaz de enxergar quase nada: os buracos presentes naquele caminho, as pedras que possivelmente iriam te fazer tropeçar, a escassez de iluminação talvez em dado trecho da via; ou talvez, pior, o seu self, dessa mesma esquina, poderia sofrer uma “ilusão de ótica”, digamos assim, e quiçá aquela rua nem era tão longa o quanto você pensou ser (e você percebe isso só na caminhada). Muitas dessas coisas você se depara porque decidiu adentrar, talvez com certo receio, ou muito seguro de si, quem sabe?

Do mesmo modo que você só é capaz de perceber quase todas as adversidades existentes no seu caminho quando já está nele, também só conseguirá deslumbrar àquela possível linda vegetação vigente no local, apreciar as rosas e tulipas, admirar a paisagem, sentir o contato dos seus pés com um asfalto liso e macio, o qual parece, novamente, quiçá, adequado para os seus próprios pés, ao passo que caminha em sua trajetória. Eu sinceramente não sei se você já parou para pensar sobre isso, principalmente sob essa perspectiva, mas é o que acontece todos os dias.

A cada dia que você acorda, lida com tomadas de decisões. Sabe, apelando um pouco de maneira direta pra literatura, há um poema do poeta Mário de Andrade — Lira paulistana — em que a interpretação pode caber aqui.

“Os versos nos quais a garoa de São Paulo se parece com a neblina de Londres, isto é, com um véu denso de ar úmido, dizem que não conseguimos ver a realidade: o negro, de longe, é branco, o pobre, de longe, é rico; só muito de perto, sem o véu da garoa, o negro é negro e o pobre é pobre. Mas, apesar de vê-los de perto tais como são, de longe voltam a ser o que não são.”

Nesse quesito, penso que nós cobramos demais de si mesmos em determinados aspectos da vida, pois não parece tão claro que precisamos entrar na rua para enxergar de fato.

Se o que você leu até agora não foi o suficiente para elucidar que você não tem total controle do que virá pela frente e que, mais importante ainda, não precisa ter, e que isso isso é normal, eu irei um pouco além a fim de te “conscientizar”. Se ainda pensa que você deve controlar tudo de ponta a ponta, resta-me a esperança de te convencer com algumas outras palavras, tendo em vista que a vida flui sim de acordo com suas decisões e consequências em virtude de tais supracitadas, mas o que muitos apresentam dificuldade em entender é que isso não implica que você deva ter domínio absoluto disso. Você é, muito provavelmente, só mais um humano entre os 7,7 bilhões existentes no nosso planeta. Já cogitou quantas ruas existem no mundo? E uma coisa é certa, o tempo não para. Tendo uma conversa franca com você, sem mesmo saber quem você é (não preciso, se você é um humano já teve que tomar decisões), presumo que você teve e tinha infinitas ruas pra ter entrado, porque a gente toma decisão todo dia, então é como se entrássemos em novas ruas a todo momento, é claro que algumas despertam mais emoções em nós do que outras.

Há vezes em que a gente passa em frente a uma rua, e simplesmente não entramos, por seja lá qual for o motivo. Mas e aí? Você possivelmente nunca vai saber o que tem lá, no máximo vai dar uma espiadinha da esquina. E já sabemos o resultado dessa espiadinha.

Eu, particularmente, não quero que você saia entrando em ruas completamente desconhecidas, como um louco, vai acabar se machucando. Só quero elucidar pra você que não é necessário temer de modo extremado, e muito menos se martirizar, caso descubra que a rua não era tão longa quanto você cogitava ser, ou que não haveria tantos buracos quanto haviam: nós não somos perfeitos, o nosso cérebro é falho. Porém reflita que há um peso bem requintado, numa decisão de entrar em uma via, e não em outra, e isso pode mudar severamente às nossas vidas. E no que tange especificamente à algumas ruas, você só consegue ter acesso naquele momento, porque elas podem deixar de existir, algumas vezes até de um minuto para o outro, é rápido né (é o que trivialmente chamamos de oportunidade)? E como ressaltei anteriormente, o tempo não para, enquanto você está descobrindo uma rua, o que será que está acontecendo na outra? Pois é, consegue entender melhor que jamais teremos um controle absoluto sobre tudo? Isso é a vida. Não deve temer exageradamente, mas não aconselharia deixar o receio totalmente de lado, para nossa própria segurança, digo isso para mim e você, para nossa espécie. E caso tropece demais, o que é comum ocorrer, tenha isso em mente: “uma ostra produz uma pérola a partir de um grão de areia. O grão de areia irrita a ostra. Em resposta, ela cria uma camada protetora que recobre o grão e areia, o que proporciona alívio. Essa cobertura protetora é uma linda pérola. Para uma ostra, um fator irritante se transforma em uma semente para algo novo e bonito (GREENBERGER; PADESKY, 2016)”: encare sua experiência como aprendizado, estamos vulneráveis a equívocos a todo momento, mas podemos aprender com isso e melhorar.

Não é “autoajuda”, é o fluxo da vida sob uma perspectiva diferente e metafórica. Ouse, mas ouse mesmo entrar em ruas, porém use sua experiência!

*Por Bruno Gallotte

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*Fonte: ciencianautas

Adeus Paolo Rossi

Como já ficou por diversas vezes bem evidente aqui no blog, sou um torcedor fanático do tricolor gaúcho, o Grêmio. Mas por incrível que pareça, a minha maior tristeza de todos os tempos em termos de futebol, foi aquela fatídica derrota da seleção brasileira para a Itália, na Copa da Espanha, no estádio Sarriá, em 1982.

Me lembro até hoje desse jogo! A família reunida naquela tarde em frente a TV para assistir a esse grande e importante jogo de nossa seleção – diga-se “a melhor seleção de futebol do Brasil, que já vi jogar”). O jogo começa e logo as coisas não saem tão bem como o esperado ou imaginado, estamos atrás no placar, golkde Paolo Rossi. Empatamos em seguida com um gol de Sócrates. Agora vai! Mas um balde de água fria vem, outro gol de Paolo Rossi, seu segundo na partida. É um jogo duro e difícil, o que não se imaginava (se imaginava sim, que o grande rival dessa Copa seria enfrentar a Seleção da Alemanha…). Mas paciência, vamos virar, ainda havia tempo no relógio e esperança nos pés de nossos jogadores da canarinho. Ah! Tinha sim!

O jogo prossegue com esse placar adverso e assim mesmo o nosso time metendo pressão o tempo todo sobre o adversário, afinal era um festival de craques brazucas em campo – já disse, nunca me empolguei tanto com a nossa seleção como com a dessa Copa. Mas a tensão era grande mesmo assim. Aí o inusitado. Um pouco antes do intervalo do jogo, com o placar ainda no tenso 2×1 para a Itália acontece uma falta de energia elétrica na minha região. Putz!

Lembro de todo mundo na casa ficar tenso. Era um pensamento só…. vai voltar logo a luz! Vai voltar logo. quase rezando. Não era sequer possível perder de assistir a esse jogo. E a energia não voltava. Seguimos então acompanhando o jogo pelo rádio do meu pai. Vem o intervalo. Ufa! Temos mais 15 minutos para a tal energia então voltar. Vão arrumar essa falha. Meu pai liga para a casa do seu irmão, que ficava na outra ponta da cidade. Lembro dele sorridente avisando de que lá havia luz. Pimba, ele e meu irmão resolvem ir de carro até lá para continuarem assistindo ao jogo. Sei lá porque, resolvo ficar em casa com minha mãe, na esperança da energia voltar e poder continuar assistindo a partida. O tempo passa e nada.

O segundo tempo recomeça. E nada de voltar a luz. E eu grudado no som do rádio, que lembro bem, estava em cima da mesa da sala e eu deitado no tapete, ao chão. Não sei se as gerações atuais sabem o que é isso, mas escutar uma partida de futebol no rádio tem uma emoção muito mais intensa, qualquer lateral vira quase uma batida de pênalti. Foi muito tenso, acho que até fiquei um pouco traumatizado depois disso (rsrsrs), aliás, desde então foram poucas vezes em que escutei com calma e tranquilidade alguma partida de futebol pelo rádio. O jogo segue, a luz finalmente retorna, dá tempo de ver o golaço do Falcão – sem dúvida alguma, para mim essa é a imagem mais emblemática que tenho do futebol (não, não é a da Batalha dos Aflitos, nem a do título do Grêmio em Tóquio em 1983, ou alguma outra de campeão do meu time), é essa expressão dele correndo e comemorando depois de ter feito o gol. Felicidade total. Ufa! Agora ninguém mais nos segura, foi o que pensei. Depois desse aperto seremos campeões. Agora vai!

Só que não foi. O destino ainda nos reservava uma grande desilusão, mais um gol do Paolo Rossi. Fim de jogo e o placar fecha num amargo 3×2. Lembro de uma sensação de velório tomar conta do ambiente, das ruas, da minha cidade. O noticiário foi triste naquelka noite. O futebol perdeu a graça por alguns dias, depois disso. Tristeza geral. Chorei, não tinha como segurar. Eu mesmo criança já tinha noção de que era termos uma baita seleção em campo, que eliminada de uma forma inesperada. Mas isso faz parte, é coisa da história e da magia do futebol. Tantos sentiram os abro da derrota ou então da vitória antes, nesse esporte. Não era a primeira nem a última vez.

Duas grande lições eu tirei dessa partida. Uma delas foi a de que jamais senti ou sequer tive ódio de nosso carrasco, o Paolo Rossi. O cara meteu 3 buchas na gente, mas nunca o vi como um vilão. Foi sem dúvida um herói para a sua seleção e país, ganharam limpo, no jogo, em campo e na bola. Não podemos sequer reclamar. Parabéns! Grandes jogos são assim. Nem sempre se ganha.
E a segunda lição, foi a de que outro Paulo, só que esse, Roberto Falcão, ídolo do Internacional, o eterno time rival do meu, me fez vibrar como nunca com seu gol. enfim, coisas na vida que me marcaram e jamais irei me esquecer. Perdemos, é verdade, mas foi um grande momento e um inesquecível jogo. Depois dessa Copa, é verdade, poucas vezes me emocionei com a nossa seleção. Tenho muitos amigos amigos que falam com fervor sobre o título de 1994… pfffff. Ok. Estão perdoados, isso é só porque não viram ao vivo essa seleção de 1982 jogando.

Descanse em paz Paolo Rossi.
Sempre foi um jogador respeitoso para com o Brasil, mesmo com sua façanha daquele fatídico dia do embate no Estádio Sarriá, na Copa de 1982. Aliás, esses tempos assisti a um documentário sobre essa seleção de 1982 e o Rossi aparecia aqui no Brasil. E era muito bem tratado por todos com quem cruzava no caminho e vários solicitavam fazer um foto com o craque italiano. Me passou ser um sujeito muito simpático e acima de tudo, muito respeitoso com o nosso futebol.
Seria então ele um algóz, vilão, nosso carrasco? Nah! Longe disso. Apenas um atleta fazendo bem o seu serviço. Que nos sirva de lição.

 

Nos relacionamentos, pequenas coisas importam! Faça!

Nos relacionamentos, pequenas coisas importam

1. Pequenos insultos importam.

Elogios indiretos sutis e comentários rudes colocados aqui e ali podem não parecer grande coisa.

Eles podem não parecer motivos para uma separação no início. Mas ele pode fazer alguém crescer em uma direção diferente da sua.

Eles podem fazer alguém parar de confiar em você. Ele pode fazer alguém se sentir desconfortável perto de você, como se não pudesse dizer nada, como se você fosse julgá-lo.

Pequenos insultos, mesmo quando pretendem ser engraçados, podem arruinar o relacionamento. Isso pode fazer seu parceiro se afastar de você. Pode convencê-lo de que podem fazer melhor.

2. Pequenos fragmentos de esforço são importantes.

Pequenos atos de bondade podem ser muito úteis. Grandes gestos românticos são maravilhosos – mas não são a parte mais importante de um relacionamento.

As coisas do dia a dia que você faz são mais importantes. Agarrando a mão de seu parceiro enquanto você dirige.

Abrace-os enquanto você assiste a um filme. Fazendo café pela manhã. Enviando mensagens de boa noite para eles.

Perguntando como estão seus amigos e familiares. Comprando seus lanches favoritos quando você vai às compras. Essas pequenas coisas se somam. Eles tornam um relacionamento mais forte.

3. Pequenos compromissos são importantes.

Deixando sua pessoa escolher o filme. Deixando-o escolher o restaurante. Deixá-lo escolher a música para um passeio de carro.

Essas coisas podem parecer pequenas, mas agir como se a opinião delas fosse importante para você é importante. Atuar em equipe é importante. Mostrar a eles que você valoriza sua felicidade é importante.

4. Pequenos elogios importam.

Você não tem ideia de como suas palavras são poderosas. Você pode esquecer completamente que disse algo momentos depois que ele sai de sua boca, mas sua pessoa pode se lembrar dessas palavras para sempre.

Isso pode melhorar seu humor e sua confiança. Certifique-se de nunca esconder seus sentimentos de seu parceiro. Não hesite em dizer a eles como eles são maravilhosos ou o quanto você os ama.

Não deixe um dia passar sem lembrá-lo do quanto ele significa para você.

5. Pequenos argumentos importam.

Mais importante, como você lida com pequenos argumentos importa. Quer esteja brigando por algo bobo ou sério, você deve levar em consideração os sentimentos de seu parceiro.

Você deve ouvir o lado deles da história. Você não deve amaldiçoá-lo ou agir como se sua opinião fosse mais importante do que a dele. Você não deve deixá-lo louco por suas emoções. Você deve tratá-lo com respeito, sempre.

6. Pequenas traições importam.

Você pode não achar que é grande coisa esconder um segredo do seu parceiro ou contar uma mentirinha, mas eles querem que você seja honesto com eles.

Mesmo a menor traição pode fazer com que eles parem de confiar em você. Pode fazê-lo questionar se você mentiu sobre outras coisas, coisas maiores. Pode ser o começo do fim do seu relacionamento.

7. Pequenos atos de afeto são importantes.

Um beijo na testa. Um aperto na mão. Um longo abraço por trás. As pequenas coisas fofas que você faz para seu parceiro tornarão o dia dele mais brilhante. Isso fará com que eles o amem ainda mais.

Mesmo que você tenha certeza de que eles já sabem como você se sente, nunca é demais lembrá-lo com um ou dois toques.

*Por Holly Riordan

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*Fonte: resilienciamag

6 coisas que as francesas fazem melhor do que você

Compilamos os seis mitos que mais estrago fizeram à autoestima do resto das cidadãs do planeta

Se as anglo-saxãs invejam e olharam com cuidadoso (ou melhor, com muito cuidadoso) receio para as francesas desde os tempos em que Coco Chanel passeava vestindo calças e camisetas listradas estilo marinheiro por sua casa de campo La Pausa é, basicamente, porque não entendem o que está acontecendo. Ou assim o vê Emmanuelle Seigner. A atriz parisiense resolveu rapidamente a eterna dúvida sobre a eterna (e debatida) superioridade das francesas: “As norte-americanas se arrumam muito de manhã: nem um fio de cabelo fora do lugar, unhas esmaltadas, saltos… Parece que pensam que terão de desfilar pelo proverbial tapete vermelho ou que deverão fazer ato de presença em um coquetel. As francesas não se levam tão a sério”. Ora, tanta história para reivindicar que o coque despenteado feito sem espelho é a quintessência do chique?

Longe de tomar como guia existencial essa resposta simplista; o mundo editorial, os arquétipos cinematográficos e a cultura popular insistem há um século nessa ideia: a francesa, esse ser requintado com alergia à escova e curtida na arte de fazer beicinho olhando para o Mediterrâneo com seus shorts de cintura alta de xadrez vichy, sempre fará as coisas melhor do que você. Não há necessidade de gastar energia se esforçando mais. Cabe combater esses mitos nos inculcaram a ferro e fogo… para fazer o resto das cidadãs do planeta se sentir miserável:

1. As francesas criam seus filhos melhor do que você

Faz uma década que a França é o país europeu com a maior taxa de natalidade, ou, como a imprensa francesa gosta de alardear: “Os franceses são os melhores da Europa fazendo bebês” Allez les bleus! E isso, por quê?, perguntou recentemente Laura June na New York Magazine, que tentou buscar uma explicação e encontrou vários esclarecimentos. Baseado no livro Crianças Francesas Não Fazem Manha (Fontanar), o polêmico ensaio de uma norte-americana que viveu em Paris e há alguns anos provocou exasperação por defender crianças francesas felizes/tranquilas contra crianças mimadas/obesas nos EUA, June chega a várias conclusões: os americanos dão brinquedos demais aos filhos, os levam a um estado de estresse, não os alimentam bem e, consequentemente, os guris do outro lado do Atlântico não são tão calmos e dormem pior do que os franceses.

Tudo isso sem esquecer a ajuda institucional, o que pode parecer uma coisa de outro planeta para um habitante do país em que o ObamaCare foi visto por muitos como um apocalipse socialista: além da seguridade social, as mães francesas têm um complemento salarial (de 9,26 euros por dia até 83 euros); a licença-maternidade de 16 semanas pode chegar a 26 se a mulher já tiver outros filhos ou a 34 semanas em caso de gêmeos; e também existem ajudas para pagar a creche (que podem chegar a 80% do valor). “É claro que os filhos das francesas descansam melhor e não são tão gordos. O Governo as ajuda. Elas vivem num país que aceitou a realidade de que a maioria das pessoas tem filhos e continua trabalhando fora de casa”, diz a jornalista, que alguém deveria informar (urgentemente) sobre as maravilhas da educação (e da maternidade) finlandesa/escandinava.
Jane Birkin, despreocupada como boa ‘fille adoptive’, com seus filhos vestidos da mesma maneira numa foto de verão.
Jane Birkin, despreocupada como boa ‘fille adoptive’, com seus filhos vestidos da mesma maneira numa foto de verão.Cordon Press

2. As franceses não engordam

Outra bomba editorial que ajudou a minar a autoestima das mulheres do resto do mundo em 2005 foi Mulheres Francesas não Engordam (Companhia das Letras), em que a escritora Mireille Guiliano explicou os supostos segredos das francesas para terem uma aparência radiante apesar se incharem de beber vinho, comerem pão com manteiga e não terem medo de molhos: fugir das dietas ioiô, não comer entre as refeições e saber ouvir o próprio corpo. Nada de novo sob o sol, mas um autêntico sucesso de vendas no Reino Unido e nos EUA.

3. As francesas não envelhecem

Guiliano quis continuar a explorar sua galinha dos ovos de ouro e voltou à carga há poucos anos, quando publicou French Women don’t get Facelifts: The Secret of Aging with Style & Attitude [Mulheres Francesas não Fazem Facelifts : O Segredo do Envelhecimento com Estilo & Atitude], continuação de seu best-seller no qual basicamente acumulou clichês. Embora dissesse que as francesas são alérgicas aos esportes e as academias são apenas para os turistas dos hotéis (um pouco de yoga, isso sim, não faz mal), o segredo do envelhecimento com dignidade para além dos Pireneus se deve a uma cultura distante da cirurgia plástica, à boa alimentação e a uma relação com o próprio corpo muito mais saudável do que a das anglo-saxãs.

4. As francesas seduzem melhor do que você

Em 2012, a correspondente do New York Times em Paris, Elaine Sciolino, pôs o dedo na ferida quando publicou La Séduction [A Sedução], um ensaio em que defende por que o erotismo impregna todas as relações que se estabelecem no país, seja no guichê de um funcionário público, entrevistando o presidente da República, numa lavanderia pública ou no terraço de um café. “Trata-se de um vaivém entre os dois interlocutores, de um flerte na conversa que não serve apenas para se divertir. A sedução não é um jogo, mas uma batalha. Você tem que adivinhar quem é o seu inimigo e decidir como você quer derrotá-lo”. Não nos esqueçamos, é claro, que desse território saiu isto.

5. As francesas se vestem melhor do que você

Só para deixar você sabendo já foram encomendados muitos livros e guias publicados nos últimos anos. Primeiro foi Inès de la Fressange, que explodiu o mercado há alguns anos com La Parisienne (Flammarion) [A Parisiense], que fornece os mandamentos para conseguir o venerado chic sem esforço das mulheres na capital: fugir dos conjuntos, nada de ostentação, procurar pechinchas em feiras, não ter medo de roupas esportivas (estávamos na era pré-athleisure) e desconfiar do bom-gosto eram algumas das suas dicas (além de fazer da loja Merci um verdadeiro ponto de passagem de turistas/leitores ávidos para sentir a vida como aquela que foi musa de Lagerfeld).

A fotógrafa Frédérique Veysset (Vanity Fair, Allure, Grazia Italia ou Madame Figaro) e a jornalista Isabelle Thomas também se uniram para publicar Paris Street Style: A Guide to Effortless Chic (Abrams) [O Estilo de Rua de Paris: Um Guia para Ser Chique sem Fazer Força], onde outras recomendações para captar a allure francesa passavam por máximas como “as bailarinas são sempre chiques” ou “as lantejoulas e o strass fazem você parecer uma árvore de natal”. A mudança geracional em relação a De la Fressange chegou com a sempre despenteada, mas estilosa, Caroline de Maigret, nova embaixatriz oficial do chique francês. Com seu livro How to Be A Parisian Wherever You Are (Doubleday) [Como Ser Parisiense Onde Quer que Você Esteja] também faturou o seu com mantras como “Respire o ar limpo do mar, mas continue fumando”, “Nas férias, beba café com canudinho, mas sem sutiã”, ou “Coloque um sutiã preto sob uma blusa branca, como duas notas sobre um pentagrama”. Confidências mais irônicas, mas que continuam explorando sem cessar todos esses clichês com os quais temos nos alimentado desde os filmes de Godard.

6. As francesas se maquiam melhor (porque basicamente não se maquiam)

Afasta, Kim Kardashian, as francesinhas de tudo o que seja contouring e os 840 mil passos para aplicá-lo não têm a menor importância. Ou assim esclarece Violette, uma eminência francesa no que se refere à maquiagem e consultora da Dior: “A razão pela qual não fazemos contouring é porque para fazer isso você precisa de fixador, base, blush, iluminador… você precisa de muitos produtos. Nós, francesas, quase não usamos base de maquiagem. Não queremos que se veja que temos algo sobre a pele”. Isto explicaria também a aparente alergia social das francesas à tatuagem. A confirmação dessa ditadura do au naturel, tão característica delas, como estilo de vida.

*Por: Noelia Ramírez

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*Fonte: elpais

E nós, como estamos nos preparando para o futuro?

Vou iniciar este nosso papo semanal voltando a citar a famosa frase de Abraham Lincoln: “O melhor meio de prever o seu futuro é criando-o”. Legal, não? Significa que nosso futuro, além de previsível, mesmo sem “bolas de cristal”, está em nossas mãos, e pode ser construído por nós mesmos. Que bom!

E a pandemia do Coronavírus, que mais uma vez nos mostra como somos insignificantes frente à força da natureza, nos permite também, como seres inteligentes que somos, descobrir sinais que podem nos indicar novos caminhos para um futuro melhor, mais humano e progressista…

Confesso que tenho pensado muito neste assunto, e gostaria estão de compartilhar algo do que tenho refletido a respeito, mas sem esgotar o assunto (impossível, creio eu, por ser tão vasto…). Mas, como acho que nosso modo de viver e de se relacionar vai se transformar de modo intenso, fico pensando em:

O que aprendemos com a vivência de tempos tão difíceis e tão fora das realidades nas quais sempre vivemos? Conseguiremos crescer, ou estagnaremos como pessoas? No que erramos e/ou acertamos? Aprendemos com nossos erros e acertos?

Seremos mais solidários e empáticos, ou nos fecharemos ainda mais?

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Saberemos utilizar melhor os fantásticos meios de comunicação que nos estão disponíveis, as redes sociais, de modo melhor, mais produtivo, e mais humano?

Mudaremos nossos hábitos de consumo, consumindo apenas o necessário e salutar, diminuindo o consumismo desenfreado, e de coisas realmente supérfluas?

Sob o ponto de vista financeiro, sempre reservaremos algo para as necessidades básicas, para nos precavermos de outras crises que seguramente virão nos visitar? Vamos desenvolver bons hábitos em relação às finanças pessoais?

Nossas empresas vão se reinventar, criando plataformas digitais cada vez melhores e eficazes? Afinal, o mundo está se digitalizando de modo irrevogável…

O comercio “on line” será o predominante. As lojas “físicas” deverão continuar a existir, mas para servirem principalmente como pontos de mostruário e experimentação…

O sistema de “delivery” vai crescer e se consolidar. Estaremos preparados para isso, como empresários e consumidores?

Então, estaremos estudando e nos preparando para este “mundo digital”?

As profissões vão se alterar radicalmente, mas sempre necessitando de maior qualificação… E sempre haverá necessidade de treinamento contínuo.

O sistema escolar vai ter que se adaptar ao novo mundo, com teleaulas, atividades diversas que levem a uma maior realidade, e estreito contato com o setor produtivo…

Teremos percebido a nossa insignificância face à natureza, e aí nos colocaremos de fato como parte dela, respeitando-a e valorizando-a?

Enfim, são alguns pensamentos que tenho tido, deixando uma variedade de outros para que você, prezada leitora e prezado leitor, dentro de suas realidades, possa acrescentar algo mais… O importante é que temos que melhorar no mundo novo que se aproxima!

*Por Mario Augusto

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*Fonte: engenhariae

José Saramago e a indiferença social

Uma das obras mais famosas e célebres de José Saramago é Ensaio sobre a Cegueira, romance que convida a uma reflexão profunda sobre a alma humana e sobre o que aos nossos olhos parece invisível.

José Saramago foi a voz mais autoritária da literatura portuguesa. O refinamento de sua escrita lhe valeu o Prêmio Nobel, mas não menos importante foi seu compromisso do ponto de vista político e social. Obras como “Ensaio sobre a cegueira” são um meio excepcional de catarse, um ponto de partida para a reflexão filosófica, um convite claro para “acordar”.

De José Saramago diz-se frequentemente que ele era um agitador de consciências. Ele nunca desistiu de denunciar as injustiças e sempre assumiu uma posição clara contra os conflitos de sua época. Em uma de suas palestras, ele se definiu como um escritor apaixonado, impulsionado pela necessidade de levantar cada pedra, mesmo sabendo que monstros reais poderiam estar escondidos embaixo.

A busca da verdade e o desejo de estimular a mente eram os ingredientes de um estilo literário único. Suas parábolas, construídas com imaginação, ironia e compaixão, desenham uma realidade que ninguém pode permanecer indiferente.

Vários anos após sua morte, os trabalhos de Saramago continuam sendo reimpressos em diferentes idiomas. E nem mesmo as novas gerações permanecem insensíveis ao encanto de uma personalidade tão multifacetada, um homem que chegou a pensar em completar a Declaração Universal dos Direitos Humanos com sua Carta de Deveres e Obrigações. .

Foi o escritor mais brilhante que Portugal nos deu, ao lado de outros nomes ilustres como o de Fernando Pessoa e Eça de Queiroz . Sua provocativa, mágica e perturbadora obra nos convidou a analisar o presente através de seus olhos.

“Os três males do homem moderno são a ausência de comunicação, a revolução tecnológica e uma vida centrada no triunfo pessoal”.

-José Saramago-

Biografia de José Saramago, um estudioso de origens humildes

José de Sousa Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922 na Golegã, Portugal. Seus pais eram José de Sousa e María da Piedade, um casal de agricultores de origem humilde que ganhavam a vida com o trabalho duro da terra. Quando o pequeno José tem apenas dois anos, os dois decidem emigrar para Lisboa em busca de melhor sorte.

Na capital portuguesa conseguem alcançar uma certa estabilidade econômica. O pai começa a trabalhar como policial e José tem a oportunidade de receber educação primária. Por alguns anos ele frequentou um Instituto Técnico, mas foi forçado a sair quando seus pais não podiam mais pagar a ele o ensino médio.

Por esse motivo, o jovem José não tem escolha senão começar a trabalhar em uma fundição. Ao realizar essa atividade, com a qual ele ganha a vida, ele também usa outras roupas: as de erudito . Na verdade, ele nunca para de ler, aprendendo sozinho e, acima de tudo, escrevendo . Assim, em 1947, aos 25 anos, publicou seu primeiro romance, Terra del Peccato . Nesse mesmo ano nasceu sua filha Violante, fruto do primeiro casamento.

Maturidade como escritor e jornalista comprometido

A partir de 1955, José Saramago começou a traduzir as obras de Hegel e Tolstoi para a editora Estúdios Cor. Ao mesmo tempo, ele se esforça para tornar seu estilo de escrita mais maduro, e está empenhado em buscar novas oportunidades para alcançar o sucesso com seus romances. No momento, na verdade, apesar do talento inquestionável, nenhum editor está disposto a publicar seus trabalhos.

Depois de ver o novo romance rejeitado, Claraboia (que será publicado somente após sua morte), Saramago leva vários anos para decidir tentar novamente. Teremos que esperar até 1966, com Poemas Possíveis e uma segunda coleção de poemas, Provavelmente Alegria

Tendo alcançado o sucesso literário, Saramago sente a necessidade de embarcar em uma nova carreira no mundo do jornalismo. Começou a trabalhar para o jornal Diário de Notícias, onde mais tarde retornou como vice-diretor. Mais tarde trabalhou como comentarista político no Diário de Lisboa.

Em 25 de abril de 1974, a chamada Revolução dos Cravos explode em Portugal e, desde então, Saramago tomou a decisão de dedicar-se exclusivamente à escrita. Agora é uma figura conhecida e respeitada, e o que ele quer é deixar mais obras, mais livros para o mundo. Desde 1976 publica Os Apontamentos, obras teatrais como A Noite (1979) e livros de histórias como Objecto quase (1978).

O Prêmio Nobel

Nos anos 80, José Saramago é agora um escritor mundialmente famoso. Memorial do Convento (1982) consagra-o definitivamente como um autor internacionalmente apreciado. Alguns anos depois, ele consolidou seu sucesso com A Jangada de Pedra (1986), o polêmico O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991) e, em particular, Ensaio sobre a cegueira (1995).

Seu estilo agora é mais procurado e seus livros são mais engajados, de modo que, em 1998, o Comitê de Estocolmo (Suécia) deu a ele o maior prêmio por um escritor: o Prêmio Nobel de Literatura. Naquela época, José Saramago dividia sua vida entre duas terras: Lisboa e Lanzarote (Ilhas Canárias). Neste último lugar, ele passou os últimos anos de sua vida com sua terceira esposa, Maria del Pilar del Rio Sánchez, jornalista e tradutora espanhola.

Ele morreu em 18 de junho de 2010 depois de lutar por um longo tempo contra a leucemia. Ele tinha 87 anos e acabava de começar um novo romance , dos quais existem apenas as primeiras 30 páginas.

Ensaio sobre cegueira

“Nós não somos cegos, mas nós não vemos”. Essas palavras resumem bem a metáfora argumentativa de uma das obras mais perturbadoras de Saramago. Em Cegueira, falamos sobre a incapacidade dos seres humanos de reconhecer o próximo. As pessoas de repente se transformam em criaturas mesquinhas, seres cegos que precisam da orientação dos outros para entender as coisas e sobreviver.

O romance é uma profunda reflexão sobre a alma humana. É um conto distópico, que mantém você preso até pela curiosidade de descobrir por que essa estranha forma de cegueira afetou a população e continua a se espalhar como uma infecção. As coisas precipitam quando o governo decide colocar em quarentena os doentes, sujeitando-os a formas estritas de controle.

Entre os protagonistas da história, só se pode ver: uma mulher que acompanha o marido naquela prisão, emprestando-lhe, por sua vez, seus olhos para ajudá-lo em tudo o mais. No entanto, todo o cenário não é menos opressivo. A higiene é escassa, os soldados não hesitam em atirar em quem chega perto demais e a degradação começa a se espalhar. Lentamente, a situação assume a forma de uma verdadeira ditadura. O caos reina e a esperança é consumida inexoravelmente.

Uma obra em que nos é mostrada a cegueira interna do ser humano. Essa incapacidade de reconhecer um ao outro e que evoca egoísmo, perda de razão, conflito e medo. Um cenário perturbador, através do qual Saramago convida a uma reflexão moral corajosa.

Ensaio sobre a Cegueira é um livro chocante, um marco na literatura contemporânea que vale sempre a pena redescobrir ou descobrir pela primeira vez.

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*Fonte: pensarcontemporaneo

 

Rita Lee: ‘A humanidade, sim, tem sido o grande vírus’

Fazer parte do grupo de risco por eu ter 73 anos pode ser uma chatice, mas não para mim. Não vou morrer desse vírus voodoo e peço ao Universo que minha morte seja rápida e indolor, de preferência dormindo e sonhando que estou com minha família numa praia do Caribe.

É sequência natural que velhos morram antes de jovens e crianças, mas não precisava ser nesta situação apocalíptica de fim do mundo, apavorando vovôs e vovós. Os milhares de corpos que temos visto empilhados em cemitérios precários e caminhões frigoríficos expõem os humanos a mais um perigo, contaminando o solo por sei lá quanto tempo com um vírus cuja consequência é desconhecida. Não seria melhor uma nova lei para organizar uma cremação desses corpos? Há séculos o fazem na Índia e com o maior respeito, tudo diante de um fogo sagrado que transforma os defuntos em cinzas e higieniza o planeta Terra.

Pensando bem, eu sempre fui considerada grupo de risco. Desde que entrei para o mundo da música, fui a artista mais censurada na época da ditadura no país, por ser tida como uma mulher perigosa para os bons costumes da família brasileira.

Fui grupo de risco no colégio, quando me arrisquei tascando fogo no cenário do teatro por ter sido rejeitada para fazer o papel de Julieta.
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Sou grupo de risco desde que luto contra os donos do poder, declarando meu repúdio aos maus-tratos de animais em rodeios, circos, aviários, matadouros, zoológicos, touradas, vaquejadas, ao contrabando de bichos silvestres, aos criadores gananciosos, às rinhas de galos e cachorros e a zilhões de outras barbaridades cometidas pela raça humana, que trata animais como objetos.

Desde que deixei os palcos, há oito anos, vivo confinada na minha toca, numa casinha no meio do mato cercada de bichos e plantas, só saindo para ir ao dentista, fazer supermercado, comprar ração para meus animais e, eventualmente, visitar meus netos. Hoje, faço tudo pela internet e rezo para não quebrar um dente. Sou parte de um grupo de risco saudável e esperançoso, por acreditar que esta pandemia faz parte de um propósito Divino para conscientizar a raça humana a respeitar nossa Nave Mãe Terra de toda a destruição que vem sofrendo, em todas as suas formas de vida. E revelando que a humanidade, sim, é que tem sido o grande vírus, fazendo o Jardim do Éden, nossa Mamãe Natureza, virar o maior grupo de risco.

Desejo a todos saúde física, mental, psicológica e espiritual.

P.S.: aproveite a quarentena e adote um bichinho. O melhor amigo.

*Por Rita Lee

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*Fonte: veja

“A vida não pode ser economizada para amanhã.” (Rubem Alves)

Sempre se disse que amanhã pode ser muito tarde. Que é preciso aproveitar o hoje como se fosse uma oportunidade única. E é assim que a vida segue, sem voltar atrás, no ritmo que dermos a ela, no compasso que escolhermos.

Embora, ela não seja tão vaidosa quanto acreditamos. Ela quer ser aproveitada, mas não requer os luxos que atribuímos a ela.

A urgência não está somente no ter, no conseguir, no ganhar.

Existe importância em tudo, nos momentos de descanso, nas risadas, nas brincadeiras de criança, nas rodas de conversa.

Tudo ensina, tudo acrescenta, tudo é capaz de satisfazer.

Vive mais feliz quem aprende a dosar tudo isso.

Quem entende que a vida é um conjunto equilibrado de todas essas coisas; que ela vai muito além da rotina apressada que estabelecemos para nossos dias.

A vida é artigo de primeira necessidade. Não se vive sem, não é óbvio?

Mas, a maior parte do tempo não reparamos nisso, porque temos nos ocupado com muitas coisas ao mesmo tempo. Os dias passam e na maior parte dele, nós apenas pilotamos nosso automático, porque já programamos nossos passos.

O que acontece ao longo do dia passa despercebido. Os abraços, os sorrisos, os encontros, o jardim, a gentileza… tudo fica em segundo plano, porque já temos pressa demais para nos preocupar.

Há um conto muito interessante a esse respeito.

Diz-se que um homem se apresentou a um mestre e disse: Meu mestre anterior faleceu. Ele era um homem santo, capaz de fazer muitos milagres.

Que milagre és capaz de realizar?

E a resposta do mestre foi: Eu quando como, como; quando durmo, durmo.

O homem respondeu, dizendo que isso não era milagre algum, já que ele também era capaz dos mesmos feitos.

Ao que o mestre rebateu: Não! Quando você come, pensa em mil coisas; quando dorme, fantasia e sonha. Eu somente como e durmo. Isto é um milagre.

A verdade é que temos cada vez menos a capacidade de fazer esse milagre. É preciso repensar.

É necessário se reinventar e tornar a viver com mais leveza, rindo e chorando, errando e aprendendo, caindo e levantando e enxergando tudo isso como algo essencial ao processo de viver.

A vida pede compromisso, temos um acordo, o de fazer o nosso melhor a cada dia. Mas com menos pressão do que temos feito sobre nós mesmos. É preciso suavidade, doses menores, menos exageros.

É importante que se aprenda a desfrutar de cada dia, com zelo e com gosto.

É fundamental criar momentos agradáveis todos os dias, ter um pouco de diversão, de calmaria e de descanso.

Por Rubem Alves, “Carpe Diem” quer dizer “colha a vida”. Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.”

*Por Alessandra Piassarollo

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*Fonte: seuamigoguru

Não tenha medo, tirem suas ideias do papel, vivam seus sonhos, plantem as sementes de uma vida nova, elas estão nas suas mãos.

O momento é de crise, e o primeiro pensamento que vem é: preciso poupar o que tenho, garantir minha subsistência, e então tudo que você consegue pensar é quanto grão ainda tem no estoque.

Mas o que quero, é te desafiar a enxergar quanta semente você tem, e SIM você tem!

Todos nós somos sacos cheios de sementes, e que infelizmente, pelo nosso medo do amanhã, passamos a usá-las como grãos, apenas para garantir nossa subsistência e assim aprendemos a acumular o maior estoque possível. Isso ficou tão forte em nossa cultura, que não satisfeitos em acumular bens materiais, passamos a estocar também sentimentos, idéias, sonhos.

É tempo de recomeçar, e que nesse novo tempo nós possamos enxergar quanta semente temos e como o mundo pode ser melhor se nos as plantarmos.

Empresários, entreguem mais do que sua obrigação, fazer com excelência tem que ser parte da sua natureza, não aceite nada menos do que o seu melhor.
Amigos, parem de estocar seus sentimentos, digam eu te amo, chorem, esvaziem seus corações de tudo isso que vocês têm guardado só pra vocês.

Como aprendi com meu pai, o que nos mata sufocado não é um pulmão vazio, mas sim um pulmão cheio de ar contaminado, simplesmente porque perdemos a capacidade de colocá-lo pra fora, de troca-lo. Estoque cheios de grãos apodrecem, sacos vazios de sementes plantadas multiplicam.

Por isso, não tenha medo, tirem suas ideias do papel, vivam seus sonhos, plantem as sementes de uma vida nova, elas estão nas suas mãos, elas estão em você.

*Por Paulo Borges Neto

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*Fonte: sabervivermais

Estamos na era dos palpites, mas também do conhecimento

Os palpites não vêm do conhecimento, uma vez que sãos coisas impensadas, ditas numa mesa de botequim, numa reunião de torcedores ou numa festa de amigos. Mas alguns palpiteiros ganharam espaço nas mídias, nas redes sociais e nos cargos públicos. Falam como se fossem autoridades no assunto e ainda fazem campanha contra a ciência e os dados técnicos.

Estamos na era dos palpites, das opiniões e do senso comum, mas também do conhecimento. Temos informações, argumentos, senso crítico e aprendizado ao nosso alcance pela internet, contudo, as coisas não são bem assim, porque existe uma multidão que solta a sua verborreia, criando muito alvoroço. É como diz o escritor Ted Hughes: “Emocionalismo descontrolado conduz a confusão e desordem.”

Vamos recorrer a dois ditados populares, que nos ajudam a explicar essa confusão, que se tornou um “balaio de gato”, expressão que define um lugar onde ninguém se entende. Assim, não seremos “Maria vai com as outras”, que se refere a uma pessoa que se deixa convencer com facilidade, por não ter posicionamento crítico.

Os palpites não vêm do conhecimento, uma vez que sãos coisas impensadas, ditas numa mesa de botequim, numa reunião de torcedores ou numa festa de amigos. Mas alguns palpiteiros ganharam espaço nas mídias, nas redes sociais e nos cargos públicos. Falam como se fossem autoridades no assunto e ainda fazem campanha contra a ciência e os dados técnicos.

A opinião é um termo que vem do latim e quer dizer “supor” ou “julgar”. Ela é um modo de ver e agir de um indivíduo a uma determinada realidade, que depende do seu nível de maturidade psicológica, podendo ser ofensivo para outras pessoas.

É comum que as opiniões sejam divergentes, já que os sujeitos vivem contextos e experiências diferentes. Todavia, é preciso ter cautela para não emitir uma opinião ofensiva, que pode gerar dano moral à uma pessoa ou grupo, afetando o seu ânimo psíquico, ético e intelectual.

O senso comum é formado a partir de hábitos, crenças e preconceitos, sendo transmitido de geração para geração. Ele é subjetivo e reflete sentimentos e julgamentos, que podem ser propagadores de estereótipos e hostilidades.

Entretanto, o que desconsidera os palpites é a informação, palavra que deriva do latim “informare”, que significa “dar forma”. Ela é o conjunto sistematizado de elementos, que quanto mais legíveis melhor será a sua comunicação com o público.

Não obstante, os argumentos desconstroem as opiniões, em razão de que eles são ideias lógicas relacionadas entre si e com o fito de esclarecer e resolver situações. Aliás, são premissas que ajudam a construir uma fundamentação, que por meio de fatos, teses, estudos, problemas e soluções respaldam determinado pensamento.

Na verdade, para não sermos Maria vai com as outras, precisamos ter senso crítico. A palavra crítica é de origem grega, que tem o sentido de “pergunta”, pois pensar é questionar a si mesmo: O que temos ao nosso dispor é realmente bom para nós? Se é possível melhorar? Se têm critérios de clareza, credibilidade, relevância e significância?

Por conseguinte, a era da confusão e seus balaios de gatos são desfeitos pelo conhecimento científico, que é revelado pela informação, pelos argumentos e pelo senso crítico, a fim de comprovar e atestar a veracidade ou a falsidade de uma ou mais teorias. E, por fim, invocamos o dramaturgo Bertolt Brecht: “Que tempos são estes em que temos de defender o óbvio?”

*Por Jackson César Buonocore

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*Fonte: contioutra

Pandemias do passado, velhas quarentenas e novos ensinamentos

As doenças existem desde que o mundo é mundo, mas as epidemias, como a que vivemos atualmente, ou algo parecido, ocorrem em populações que passam certo tempo sob circunstâncias anormais, por exemplo, sob o desgaste de uma guerra, quando os campos deixam de ser cultivados e a fome se espalha. Mas e agora, por que as andanças do coronavírus em uma cidade do Oriente ocasionou tamanha letalidade mundo afora? Quando foram inventadas as quarentenas? Os Governos se aproveitam das pandemias? Quais são os bodes expiatórios? O medo é manipulado? Ana María Carrillo Farga é historiadora da Medicina, especialista em pandemias e professora do departamento de Saúde Pública da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Conversar com ela é como participar de um jogo de perguntas e respostas sobre a história da ciência.

Os dias no deserto

Quem acha que vivemos algo excepcional atualmente deveria saber que as quarentenas existem desde a época dos Estados venezianos do século XIV. Na época se desconhecia o período de incubação das doenças (e muitas outras coisas de caráter científico e sanitário), de modo que se estabeleceu um isolamento arbitrário de 40 dias, um número bíblico, de fato, os que Jesus Cristo passou na sua travessia espiritual pelo deserto. A peste era o demônio da época. As quarentenas não só isolavam ao doente do saudável como também impediam o desembarque de navios que chegassem ao porto, e mesmo assim a população se contagiava misteriosamente… Só no final do século XIX, com o desenvolvimento da bacteriologia (os vírus ainda eram pequenos demais para serem detectados com a tecnologia disponível), o campo do conhecimento saltou da Bíblia para a ciência.

A infância da globalização: duas teorias

Marinheiros e exploradores estenderam os limites do mundo e levaram o comércio além dos estreitos horizontes então vislumbrados. As epidemias naquele tempo eram uma ferramenta de conquista ―por exemplo, a varíola no processo de colonização da Mesoamérica. E tiveram um papel determinante na drástica queda da população ocorrida nos séculos XVI e XVII. Mas quando não foram úteis, buscou-se uma forma de combatê-las. No final do século XVIII havia duas posições a respeito, duas escolas: uns acreditavam na teoria do contágio entre pessoas e defendiam o isolamento (chamado com razão de sequestro). Estes eram os conservadores, os que não queriam mexer em nada, só controlar. Os espanhóis eram destes, para proteger o comércio das suas colônias.

No outro grupo estavam os que defendiam a teoria miasmática, os ingleses entre eles. Acreditavam que os corpos em decomposição, o lixo e as águas residuais emanavam eflúvios que adoeciam a população ao serem inalados. Estes se inclinavam pelo saneamento das cidades e pela melhoria das condições trabalhistas e domésticas como medidas mais eficazes para a saúde pública. Ambos tinham parte da razão; os segundos, se não na causa, pelo menos a respeito das consequências de viver em cidades insalubres. Mas algo continuava escapando ao entendimento: se a tripulação de um navio permanece isolada e não há contato entre pessoas nem circunstâncias ambientais, por que a população em terra acabava se contagiando? Faltava um terceiro elemento: os vetores, geralmente insetos, mosquitos, pulgas…

Uma estratégia internacional

A saúde começou oficialmente a ser um assunto de todos em 1851, na primeira reunião internacional sobre ela realizada em Paris, ainda com uma aparência muito europeia. Em 1881 o evento ocorreu em Washington. “As primeiras convenções sanitárias buscavam proteger os países e regiões da chegada de epidemias, mas tratando de interferir o mínimo possível no livre comércio e no trânsito de pessoas”, diz Ana María Carrillo.

A pauta daqueles encontros tinha outros objetivos secundários, como impulsionar a criação de organismos de saúde nos Governos de cada país ou insistir em que, em caso de pandemia, o conveniente era informar com transparência à comunidade internacional, assim como a pertinência do saneamento de portos e cidades. Preocupavam especialmente naqueles anos o cólera e a peste, que causavam estragos desde meados do século XIX e que foram o estopim destas cúpulas sanitárias. Depois seria a febre amarela.

As duas Guerras Mundiais deixaram seus respectivos avanços neste campo. Depois da Primeira, criou-se a Liga das Nações, com sua respectiva área sanitária, e em 1948 surgiu a Organização Mundial da Saúde (OMS). México, Estados Unidos, Guatemala, Costa Rica e Uruguai já tinham fundado em 1902 a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) que, com o tempo, se tornaria uma filial da OMS. Todos estes organismos procuram respostas coordenadas em tempos de pandemia. Em 1969 foi redigido um primeiro regulamento sanitário internacional que insistia na não interrupção do trânsito de pessoas de forma radical. “É semelhante ao que faz o México hoje em dia. Aquele documento dizia que parar o comércio não detém as epidemias”, afirma Carrillo.

O peso do comércio

O equilíbrio entre a proteção da saúde e a estabilidade econômica, buscado de forma tão desesperada por muitos países atualmente, tem séculos de tradição. Naquelas reuniões internacionais de sanitaristas e higienistas do século XIX tinham muito peso as intervenções políticas e empresariais, a diplomacia comercial. “Os comerciantes sempre tratavam de ocultar as epidemias, e os Governos também preferiam evitar certo pânico, assim que os alarmes chegavam tarde para o controle efetivo da doença, que se espalhava cada vez mais. Foi preciso convencê-los de que a transparência ajudava o controle e, portanto, a economia.”

O comércio já estava globalizado, e a América Latina e o Caribe se incorporavam a esse negócio internacional quando se atravessava a segunda revolução industrial. O México, por sua vez, começa um intercâmbio de mercadorias muito desigual, mas intenso, com os Estados Unidos. Como nos tempos da conquista espanhola, as epidemias também se transformaram nesse período em uma ferramenta, neste caso de controle comercial, para fechar fronteiras e estigmatizar certos países. “O Texas mantinha o México sob quarentena permanente para atrapalhar o comércio, enquanto os Estados Unidos olhavam para o outro lado argumentando que cada um de seus Estados era soberano”, conta a professora da UNAM.

O vírus como estilingue

A política clássica da OMS condena que países sejam estigmatizados por serem identificados como a origem de uma pandemia. Recrimina, assim, denominações como cólera asiática, vírus chinês, gripe mexicana, gripe espanhola… Há duas boas razões para isso. A primeira é que os vírus não são de ninguém, pois “é difícil determinar onde começa uma pandemia e possivelmente onde acaba”. Em segundo lugar, apontar um povo como o causador da desgraça não contribui para sua erradicação, porque “se alguém se sente marcado ou perseguido se esconderá, certo? E isso impede um melhor controle e um freio na transmissão da doença”.

Mas os direitos humanos não costumam estar em primeiro lugar na pauta, e poucos resistiram a utilizar as pandemias em benefício próprio. O México, por exemplo, tem uma triste historia de discriminação com a população chinesa em seu território, que não só contribuiu para a construção de ferrovias e outras obras públicas como também se integrou plenamente e se transformou em uma comunidade próspera dentro do país. Eis aí o pecado. “Sempre foram acusados de transmitir doenças. Inclusive a cor da sua pele acabou sendo associada à febre amarela, quando [o nome da doença] só tinha a ver com a icterícia que causa”. Também se atribuía a eles a peste que o México sofreu em 1092/1903, quando esse grupo étnico se mostrou imune.

Também o nome atribuído à mortífera gripe espanhola escondia certos interesses. “Tratava-se de evitar que o pânico se espalhasse entre as tropas [na Primeira Guerra Mundial], assim era muito mais simples circunscrevê-la à Espanha, ausente na luta”. Sempre houve bodes expiatórios ―os gays no caso do HIV, ou as prostitutas em tempos de sífilis. O H1N1 que circulou pelo México em 2009 foi fatal para o comércio da carne suína no país, que precisou de exibições públicas dos políticos comendo tacos para esconjurar os temores.

Manipular o medo

Esta pandemia que o mundo atravessa atualmente viaja de avião, o que se reflete num primeiro contágio entre pessoas ricas e uma segunda fase de contágio local que cedo ou tarde afetará em maior medida os mais pobres, como todas. “Nem sempre as pandemias têm sua origem nas classes superiores para passar depois às mais desfavorecidas. Houve um tempo em que chegavam de ferrovia ou de navio com o deslocamento da classe operária, os migrantes”. Por suas condições de vida e profissionais, os pobres sempre acabam sofrendo mais contágios e ficam em pior situação quanto à cura. E isso os torna bodes expiatórios como os que vimos anteriormente, porque a origem e a propagação da epidemia acabam sendo atribuídas a ele. Isto também se deve a interesses. Ana María Carrillo cita o exemplo do México. “No final do século XIX ocorreu a chamada peste cinza, transmitida por um piolho, e, embora houvesse infectados de todas as classes, manipulou-se o medo contra os pobres, que certamente foram mais afetados. Conseguiu-se expulsá-los do centro de várias cidades e se estabeleceram colônias [bairros] de ricos, como as hoje famosas e acomodadas colônias Condesa e Roma, na Cidade do México, enquanto as classes baixas foram deslocadas para a periferia.”

As pandemias são muito eficazes também para direcionar ou controlar o comércio. A professora Carrillo vê com receio a “insistência atual em criminalizar os chineses”, que circulou não só nas redes sociais com humor mais ou menos ácido, mas também pela boca de líderes políticos como Donald Trump, em cujos discursos não deixava de citar o “vírus chinês”. A insistência com a China, opina a professora, teria neste caso a ver “com a expansão do comércio nesse país, muito poderoso nos últimos anos. Não me atrevo a apontar a origem da pandemia, mas vejo pressões comerciais na denominação que lhe foi dada. Historicamente, as pandemias foram usadas para frear comércios florescentes. Os Estados Unidos já tinham feito isso com a febre amarela, por exemplo”.

Ensinamentos para o futuro

Dizia-se no princípio deste artigo que as epidemias surgem quando uma sociedade está passando por um mau momento ―fome, guerras, fragilidade ou tudo junto. Mas o que está acontecendo agora para que a Covid-19 esteja ceifando uma população aparentemente sã e em perfeito desenvolvimento? A professora Carrillo se soma aos que opinam que “o neoliberalismo político” teve muito a ver com a transmissão e expansão do vírus.

“Por um lado, as sociedades estão mais empobrecidas devido às crises econômicas recentes, e isso é um caldo de cultivo para os contágios, como dizíamos. Em segundo lugar, os sistemas sanitários públicos sofreram com estas políticas durante muito tempo, foram privatizados, tiveram recursos cortados.” São fatores que não deixam de ser recordados nos países europeus e que alimentam a disputa política nas últimas semanas. Além disso, leva-se em conta que haverá os mesmos contágios em quase todos os países, e o que estes fazem então é tratar de que seus hospitais, tão carentes de recursos, não fiquem sobrecarregados.

Carrillo Farga cita em terceiro lugar as comorbidades que se destacam como um fator de risco acrescentado na letalidade do vírus. Todas essas doenças que agravam o risco de morrer de Covid-19 estão relacionadas com um mundo onde as classes pobres, sobretudo, foram perdendo a dieta tradicional para se integrar ao mercado das calorias vazias, dos refrigerantes borbulhantes no café da manhã, almoço e jantar. Obesidade, diabetes e hipertensão serão a gota d’água para muitos destes doentes que sucumbiram a necessidades geradas antes que o produto lhes fosse oferecido. “Acho que esta pandemia resultará em uma melhora dos sistemas sanitários públicos. O ensinamento que deixará será que é preciso reforçar os Estados nos recursos e serviços para a saúde pública”.

*Por Carmen Morán Breña

 

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*Fonte: elpais-brasil

Coronavírus escancarou a conta do nosso egoísmo

Se antes bastava se cercar no próprio feudo e a guerra não chegaria ali, agora, para funcionar para mim, precisa funcionar para todo mundo

No último dia 22, no meio da pandemia de coronavírus, uma senhora de 90 anos faleceu na Bélgica após ter recusado o ventilador mecânico para ceder o equipamento em favor de alguém mais jovem. “Guarde para alguém mais jovem. Eu vivi uma boa vida” foi o que ela disse dias antes de falecer.

Não é hidroxicloroquina ou cloroquina que irão nos salvar dessa vez.

O inimigo dessa vez é invisível e implacável: fez os líderes das grandes nações parecem crianças assustadas, fez o Papa sozinho e cabisbaixo perdoar os nossos pecados, fez judeus e muçulmanos rezarem juntos.

As nossas tradicionais armaduras falharam. De nada adiantou o poderio militar nuclear dos mísseis ou os inalcançáveis imóveis de luxo do Central Park: o gramado agora está cheio de tendas de hospital de campanha. Nossos planos de saúde caros não foram suficientes para tirar o receio da falta de equipamentos de nossas cabeças e tampouco nossos celulares e televisões sofisticados foram capazes de entreter no meio dessa solidão sentida e vivenciada por todos.

Sentimo-nos amedrontados, perdidos, sozinhos. E aí, diante de algo que não sabemos como nem quando vai acabar, fomos obrigados a ajoelhar. E para ajoelhar, todos nós fomos obrigados a aprender que é necessário sair dos nossos tronos, das nossas bolhas, das nossas coberturas, das nossas realidades e aproximar a cabeça do chão, frágeis e despidos.

Quando a gente se abaixou, acabamos esbarrando as cabeças uns nos outros e o milagre começou a acontecer. Começamos a perceber que a doença que mata a minha mãe também mata a mãe de quem mora do outro lado do mundo. Vimos que o mesmo problema que quebra o meu negócio desemprega o meu funcionário mais simples. Passamos a enxergar a importância de profissões que muitas vezes considerávamos pouco importantes ou dispensáveis. Constatamos que o medicamento que me falta também faltará para quem mora na favela. Sentimos que a mesma solidão que se abate sobre mim angustia o outro que tem nome, cor, origem e religião diferentes dos meus.

Despedaçados perante nossos medos mais ocultos, enfim fomos obrigados a admitir aquilo que já sabíamos mas não queríamos aceitar: somos todos iguais. No final das contas, após todo o dinheiro, todo o status, todos os privilégios, encolhemo-nos de medo das mesmas coisas e sentimos uma compaixão comum diante dos números que crescem, seja na Itália, nos Estados Unidos ou na nossa cidade.

Se antes bastava se cercar no próprio feudo e a guerra não chegaria ali, agora, para funcionar para mim, precisa funcionar para todo mundo. Para que eu seja protegido, preciso proteger os outros. A conta do nosso egoísmo chegou, cara e sem nenhum desconto.

Mas com o milagre, percebemos que essa conta pode ser paga de outra forma. Dito e repetido, não são hidroxicloroquina ou cloroquina que encerrarão esses tempos obscuros. Já descobrimos a cura e ela se chama amor. Pode parecer piegas, não é mesmo? Mas a verdade é que chegamos no ponto decisivo, na curva da inflexão na qual ou nós mudamos a maneira de convivermos enquanto sociedade ou estaremos sempre à mercê de nosso próprio egoísmo disfarçado de vírus, guerras, crises econômicas ou governantes inescrupulosos.

Para muito além do desespero e caos que estafam a nossa mente, o Brasil que se apresenta agora é o Brasil dos profissionais de saúde exaustos que se revezam incansavelmente para salvar pessoas que nem conhecem. É o Brasil de empresários assumindo prejuízos para não demitir seus funcionários. É o Brasil de pessoas parando suas atividades para garantir o bem-estar de outros. É o Brasil dos entregadores, garis, caminhoneiros e caixas de supermercados. É o Brasil de pessoas que doam o pouco que tem para que quem tem menos ainda possa ter algo. É o país do amor ao próximo e de gente que se preocupa com gente, de forma real e para além de qualquer discurso vazio e hipócrita.

Esse país de gente solidária, trabalhadora e resiliente pode afinal ser o gigante que acordou, ainda que tantos discursos e personagens irresponsáveis tentem macular nosso foco. A reflexão sobre qual lado da história iremos (e optaremos por) estar nunca foi tão necessária.

Tempos difíceis servem para algumas coisas, entre elas grandes aprendizados e reflexões incômodas. Quando aquela senhora heroína na Bélgica cedeu seu equipamento, a afirmação dela pode e deve ser repetida aqui: “guarde para alguém mais jovem”. E dessa vez, não é sobre o equipamento. É sobre o legado e a história que estamos construindo nesse momento decisivo. É a hora de abaixarmos as nossas bandeiras ideológicas e substituí-las por empatia, bom-senso e álcool em gel. Fiquemos em casa e ajudemos uns aos outros, irrestritamente. Construamos, unidos, nesse momento difícil, uma nação melhor e mais solidária, para que possamos deixar, após a crise, um país melhor “guardado para os mais jovens”. É essa a real cura para o temido vírus.

*Pedro Aihara é bombeiro militar, mestre em Direitos Humanos, especialista em Gestão e Prevenção de desastres, professor e palestrante. Atuou em crises como as de Brumadinho, Mariana, Janaúba, entre outras.

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*Fonte: elpais

Saudades de coisas comuns

De quarentena, trabalhando home office e a vida que segue mesmo que aos trancos e barrancos por esse viés de uma época difícil. Que chegou rápido, mesmo mque deu lá os seus avisos. Por aqui ainda nenhum caso de confirmado do vírus (não vou falar o nome – não aguento mais!). Mesmo assim, todo cuidado é pouco.

De resto apenas muita saudades de coisas simples do dia a dia, como conversar com meus pais, no fundo da casa deles ao final de tarde. De poder caminhar pelas ruas despreocupadamente, traçando planos, fazendo contas, vendo possibilidades, travando diálogos mentais ao ritmo das passadas. E os tais planos curtos para logo mais que agora não tem mais o mesmo significado!? Não existe aquela coisa do tive uma ideia, vou ali no mercadinho rapidamente comprar isso e aquilo. Nah! Nada de aglomerar pessoas em espaços pequenos. Mercadinho não. Também sinto falta das conversas e risadas com amigos em alguma mesa de bar, de um chimarrão compartilhado na manhã no horário de trabalho e principalmente de ir e vir. Um direito do cidadão que agora me foi privado, não por lei, mas por precaução, segurança e bem-estar ao próximo.

Esses dias irão passar. Dias melhores virão, com outras ideias, comportamentos e atitudes. Pode crer. Mas e saudade? Ah, aperta.

“Quantos anos tenho”, por José Saramago

Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.

Tenho os anos em que os sonhos começam trocar carinhos com os dedos e as ilusões se transformam em esperança.

Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama louca, ansiosa para se consumir no fogo de uma paixão desejada. E em outras, uma corrente de paz, como um entardecer na praia.

Quantos anos eu tenho? Não preciso de números para marcar, pois meus anseios alcançados, as lágrimas que derramei pelo caminho, ao ver meus sonhos destruídos…
Valem muito mais que isso.

Não importa se faço vinte, quarenta ou sessenta!
O que importa é a idade que eu sinto.

Tenho os anos de que preciso para viver livre e sem medos.
Para seguir sem medo pelo caminho, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus anseios.

Quantos anos tenho? Isso não importa a ninguém!
Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e sinto.

José Saramago

Meus destaques da última década

Já que hoje é o último dia do ano de 2019 e como também representa uma mudança de casa decimal com o final de uma decada, resolvi (sem pretensão alguma e de boas) fazer algumas escolhas e comentários numa pequena lista com vários ítens relevantes,
Somente coisas que de alguma formame  são importantes no meu dia a dia, leituras, filmes, pesquisas, motos, buscas e tal. Não se trata disso ou aquilo ser melhor do que tal coisa, é apenas uma listagem de coisas bacanas nesses últimos 10 anos. É um exercício bacana de se fazer, podes crer. A diferença é que vou deixar aqui expressa a minha listagem, mas você bem que também poderia fazer a sua!

 

>>> FILMES:

Então o começando pelo universo da telona, os filmes. Estabeleci selecionar 5 filmes que eu curti bastante. Isso é convenhamos, é difícil de escolher (no caso dos livros também), não me ative aqui a selecionar filmes ‘cabeça’ ou então cheios de premiações, mas sim filmes que GOSTEI. Simples assim. Então deixei minha memória correr solta, me guiar pela emoção mais do que pela razão e estatuetas de Oscar. Escolhi os seguintes:

. “A Vida Secreta de Walter Mitty” (2013)
Para mim, um dos melhores filmes dos últimos tempos! O roteiro começa quase que como uma comédia e aos poucos muda de tom. Chega a dar uma certa liçãozinha de vida… Cenas e locações incríveis, sem falar na ótima trilha sonora. Filmaço!

. “Questão de Tempo” (2013)
Filme que curti logo de cara. Muito bom.

. “Ondine” (2010)
Outro que assisti sem grandes expectativas, mas me pareceu incrível.

. “Relatos Selvagens” (2014)
Sensacional filme argentino que reúne seis incríveis histórias de vingança que fogem do controle. Difícil escolher qual a melhor. A da noiva, talvez a dos completos desconhecidos que discutem na estrada ou então a da cobrança do boleto/multa…?

 

. “O Grande Hotel Budapeste” (2015)
. “Moonrise Kingdom” (2012)
Driblei aqui, escolhi 2 filmes, ma so blog é meu, eu então posso fazer isso!
Não poderia jamais deixar de fora algum dos filmes de Wes Anderson, meu diretor de cinema preferido. Cada filme uma magia, desde os enquadramentos de tela matematicamente elaborados até as incríveis paletas de cores de cada um de seus filmes. Sem falar no elenco e os roteiros diferentões. Excelente sempre!

 

>>> LIVROS:

Também tentei fugir do óbvio, dos best sellers e afins. Novamente me deixei guiar pela emoção, do prazer que me foi tal leitura, da vontade de que o livro não acabe nunca, do inúmeros momentos de parar para pensar no que havia lido e no que isso tinha de relevância para mim. Sou um ávido leitor de biografias, ainda mais depois que as grandes bandas e artista de rock envelheceram e deixaram de fazerem novos bons ou melhores álbuns que os seus das décadas passadas. Assim escolhi  o que julguei serem 3 bons livros.

.”AC/DC – A biografia – 2014 (Mick Wall)
Desde que me conheço por gente, mesmo quando garoto, a primeira de rock de verdade que me causou um furor, me deixou louco, foi o AC/DC. Minha primeira grande paixão no universo do rock. Tempos depois, com seus LPs comprados, vários CDs e DVDs na estante com horas e horas de vôo, era necessário completar os dados, fatos e lacunas na história desses caras. eu tinha de saber melhor como tudo começou e demais fatos. É sabido de que o AC/DC é uma banda meio reclusa, avessa aos holofotes da fama e sem muitas informações. Esse livro ajudou bastante a tomar conhecimento das histórias do grupo, a gravação de cada álbum e muito mais. Hoje já não sou mais tão fan assim dos caras, tenho outras bandas na frente agora, mas foi importante ler esse livro e solucionar alguns dos seus mistérios. Em tempo – já havia lido duas outras bios deles e ambas achei uma bela merda. Muito chapa branca, muio incenso jogado prá mcima deles. Essa não! Essa é true, tanto para o bem como para o mal. Fica a dica!

. “Rita Lee uma Autobiografia” – 2016 (Rita Lee)
Também pelo fato de ter muita curiosidades por essa incrível mulher, sem dúvida a rainha do rock nacional. Uma história de vida prá lá de interessante, precursora já do tempo de “Mutantes”, depois de Tutti Frutti e depois na sua prolífica carreira solo. *(Sim, sou fanzaço de sua fase no Tuti Fruti – uma espécie de Black Crowes brasileiro, pode-se dizer). Livro muito bem escrito e foi um daqueles que me deixou triste depois que terminou a leitura, queria mais… Salve Rita!!!

. “Here,m there, and Everywhere – Minha Vida Gravando os Beatles”
2013 (Geoff Emerick)
Os bastidores do universo das gravações dos Beatles descrito pelo jovem e novato engenheiro de som, contratado pela gravadora da banda. O tempo passa e Geoff se aprofunda ainda mais em relatar as suas experiências diárias de estúdio com a banda. Um relato bem detalhado.

 

 

 

 


>>> MÚSICA:

Aqui ao invés de selecionar apenas músicas, resolvi escolher 10 artistas com os quais  eu de verdade me impressionei nos últimos anos. E oklha que a música anda tão babaca, caidona e sem graça, que foi um alento para mim descobrir essas bandas e estar acompanhando as suas trajetória desde então.

. Gary Clark Jr.

. The Blackbarry Smoke

. Markus King

. Larking Poe

. Jared Nichols

. Rival Sons

. Chris Stapleton

. Tyler Bryant & The Shakedown

. The Record Company

. The Sheepdogs

>>> MOTOS:

Em termos de moto off road, que é uma de minhas paixões declaradas aqui no blog, resolvi escolher a moto que eu mais curti nessa década. Essa foi uma das escolhas mais fáceis, eu que sou um grande fan e defensor das motos de motocross da Yamaha (sim, a cor padrão azul ajuda), na verdade agora tive de dar o braço à torcer. A moto que mais me empolgou realmente foi a Suzuki 450 do piloto Ken Roczen, no título do AMA Motocross de 2016. Uma moto incrível e linda! Ele que já havia ganho um título anteriormente com a poderosa KTM, mudou de equipe e veio rachando tendo de mostrar serviço na época. É um excelente piloto, hoje no time Honda e continua sendo um dos meus top 5 dos pilotos preferidos também.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Outro destaque que merece reconhecimento no off road mundial é o garoto Enzo Lopes, que é daqui da cidade vizinha de Lajeado. O cara já correu dois anos seguidos pela equipe JGR Suzuki no AMA motocross (2017-18) e esse ano, de contrato novo na categoria 250cc, vai de Yamaha. Não é nada fácil de se chegar nesse nível de pilotagam e ainda mais participar e competir em igualdade com esses gringos nos EUA – motocross lá é coisa séria! E o multi-campeão Enzo segue firme e forte na sua carreira de piloto profissional. Boa sorte garoto em 2020!

 

 

 

 

 

 

Quanto ao assunto de moto velocidade e o famoso campeonato da Moto GP, bem daí a coisa fica mais fácil ainda de escolher. Sou fan de carteirinha do grande Valentino Rossi e mais ainda quando pilota uma azulzinha da Yamaha. A moto dele que eu mais curti foi a de quanto os pilotos adversários espanhóis se reuniram e fizeram tipo um complô contra ele no ano de 2015, quando lhe tiraram a chance de conquistar mais um título do mundial na categoria principal. Uma puta sacanagem!

*Ver matéria [ AQUI ]

 

 

 

 

 

 

E continuando o tema motos, agora então a escolha do que seria a minha moto preferida dentre todas (sonho de consumo) dessa década. É uma escolha bem simples, bastante humilde até eu diria, mas ficaria com certeza com uma Triumph Bonneville T100 com toda certeza! Moto ágil, de bom tamanho, fácil pilotagem, motor potente e de boa cilindrada, não é gritona e além do tudo é muito bonita – tudo por causa de seu estilo clássico total. Enfim, uma moto de homem! Vai em qualquer lugar, encara qualquer coisa. E não, eu não curto motos esportivas e muito menos big trails. Não precisa ser uma coisa super high-tech para ser boa.

 

Os motivos pelos quais sua jornada de trabalho deveria ser mais curta

Quando me mudei de Washington, nos Estados Unidos, para Roma, na Itália, uma visão me impressionou mais do que qualquer coluna antiga ou basílica: pessoas sem fazer nada.

Eu frequentemente via mulheres idosas em suas janelas, observando as pessoas passarem, ou famílias fazendo passeios noturnos, parando de vez em quando para cumprimentar amigos. Até mesmo a vida no escritório se mostrou diferente. Esqueça aquele sanduíche comido às pressas na própria mesa. Na hora do almoço, os restaurantes ficavam cheios de trabalhadores fazendo boas refeições.

É claro que, desde que os europeus começaram a viajar e a fazer observações sobre os diferentes estilos de vida no continente, no século 17, criou-se uma ideia estereotipada da “preguiça” italiana. Mas a história não é bem assim. As mesmas pessoas que iam para casa almoçar tranquilamente geralmente voltavam para o escritório para trabalhar até às 20h.

Mesmo assim, a aparente crença no equilíbrio entre o trabalho árduo e o ócio sempre me impressionou. Afinal, não fazer nada parece ser o oposto de ser produtivo. E a produtividade, seja criativa, intelectual ou industrial, é o objetivo máximo de nosso tempo.

À medida que preenchemos nossos dias com mais e mais afazeres, muitos de nós estão descobrindo que não parar não é a ápice da produtividade. É seu inimigo.

Pesquisadores estão mostrando não apenas que o trabalho que produzimos no final de uma jornada de 14 horas é de pior qualidade em comparação com o que fazemos quando estamos descansados. Esse padrão de trabalho também prejudica nossa criatividade e nossa cognição. Com o tempo, pode nos fazer sentir fisicamente doentes – e até, ironicamente, dar a sensação de vivermos sem próposito.

Pense em um trabalho mental como se fossem flexões, diz Josh Davis, autor de Two Awesome Hours (As Duas Horas Incríveis, em inglês). Digamos que você queira fazer 10 mil flexões. A maneira mais “eficiente” seria fazer todas de uma vez, sem pausa. Sabemos instintivamente, porém, que isso é impossível. Em vez disso, se fizéssemos apenas algumas de cada vez, entre outras atividades e ao longo de semanas, atingir esta meta seria mais viável.

“O cérebro é muito parecido com um músculo nesse sentido”, escreve Davis. “Em condições erradas e com trabalho constante, realizamos pouco. Com as condições certas, há poucas coisas que não somos capazes de fazer.”

Os efeitos do excesso de trabalho na saúde

Muitos de nós, porém, tendem a pensar no cérebro não como um músculo, mas como um computador: uma máquina capaz de trabalho constante. Isso não é apenas mentira, mas nos forçar a trabalhar por horas seguidas sem descanso pode ser prejudicial, dizem especialistas.

“A ideia de que você pode estender indefinidamente seu foco e produtividade está errada. É autodestrutivo”, diz o pesquisador Andrew Smart, autor do Autopilot (Piloto Automático, em inglês). “Se seu corpo está dizendo ‘preciso de uma pausa’, mas você continua se esforçando, a resposta a este estresse torna-se crônica – e, com o tempo, pode ser extremamente perigosa.”

Uma análise comparada de diversos estudos descobriu que longas jornadas de trabalho aumentam o risco de uma pessoa ter uma doença coronariana em 40% – quase tanto quanto fumar (50%).

Outro estudo descobriu que pessoas que trabalham por muitas horas têm um risco significativamente maior de sofrer um acidente vascular cerebral, enquanto as pessoas que trabalham mais de 11 horas por dia têm quase 2,5 vezes mais chances de ter um episódio depressivo grave do que aquelas que trabalham de sete a oito horas.

No Japão, isso levou à tendência perturbadora de karoshi, a morte por excesso de trabalho.

Isso quer dizer que você deve tirar aquelas férias há tempos vencidas? A resposta pode ser sim. Um estudo com executivos e empresários na Finlândia descobriu que, ao longo de 26 anos, aqueles que tiraram menos férias tinham maior probabilidade de morrer mais cedo e de ter uma saúde pior na velhice.

Sair de férias também podem trazer benefícios à carreira. Um estudo com mais de 5 mil trabalhadores americanos com empregos de tempo integral descobriu que quem tira menos de dez dias de férias por ano tem menos chances de obter um aumento salarial ou um bônus do que quem tira mais de dez dias.

A relação entre produtividade e o tempo trabalhado

É fácil pensar que eficiência e produtividade são uma obsessão nova. Mas o filósofo Bertrand Russell (1872-1970) teria discordado.

“Diz-se que, embora um pouco de lazer seja agradável, os homens não saberiam como preencher seus dias se tivessem apenas quatro horas de trabalho”, escreveu Russell em 1932, acrescentando que “isso não seria verdade no passado”.

“Antes, existia uma capacidade de despreocupação e diversão que foi de certa forma inibida pelo culto da eficiência. O homem moderno pensa que tudo deve ser feito para o bem de outra coisa e nunca para seu próprio bem.”

Dito isso, algumas das pessoas mais criativas e produtivas do mundo perceberam a importância de fazer menos. Eles tinham uma forte ética de trabalho, mas também se preocupavam em descansar e se divertir.

“Trabalhe em uma coisa de cada vez até terminar”, escreveu o escritor e escritor Henry Miller (1891-1980) em seus “11 mandamentos sobre a escrita”. “Pare na hora marcada! Continue a ser humano! Encontre-se com pessoas, vá a lugares, beba, se quiser.”

Até mesmo um dos “pais fundadores” dos Estados Unidos, Benjamin Franklin (1706-1790), um exemplo de diligência, dedicou grande parte de seu tempo ao ócio. Todos os dias, ele tinha duas horas de almoço, noites livres e uma noite inteira de sono.

Em vez de trabalhar sem parar como editor para pagar as contas, ele dedicava “um tempo enorme” a hobbies e à socialização. “Na verdade, os interesses que o afastaram de sua profissão levaram a muitas das coisas pelas quais ele é conhecido hoje, como inventar o fogão e o para-raios”, escreve Davis.

Mesmo em nível global, não há uma correlação clara entre a produtividade de um país e a média de horas de trabalho. Com uma jornada semanal de 38,6 horas, por exemplo, o funcionário médio americano trabalha 4,6 horas por semana a mais do que o norueguês. Mas, segundo o Produto Interno Bruto (PIB), os trabalhadores da Noruega contribuem com o equivalente a US$ 78,70 (R$ 300,20) por hora – em comparação com os US$ 69,60 (R$ 265,50) nos Estados Unidos.

E quanto à Itália? Com uma média de 35,5 horas semanais de trabalho, se produz no país quase 40% a mais por hora do que na Turquia, onde as pessoas trabalham em média 47,9 horas por semana. Supera até mesmo o Reino Unido, onde as pessoas trabalham 36,5 horas.

Todos aqueles intervalos no trabalho, ao que parece, podem não ser tão ruins assim.

A origem da jornada de oito horas de trabalho

A razão pela qual temos oito horas de trabalho por dia foi porque as empresas descobriram que reduzir a jornada dos funcionários tinha o efeito inverso do que esperavam: aumentava a produtividade.

Durante a Revolução Industrial, os dias de 10 a 16 horas eram normais. A Ford foi a primeira empresa a experimentar oito horas – e descobriu que seus funcionários eram mais produtivos não apenas por hora, mas no geral. Em dois anos, suas margens de lucro dobraram.

Se os dias de oito horas são melhores que os de dez horas, jornadas ainda mais curtas podem ser melhores? Possivelmente.

Um levantamento do Instituto de Pesquisa Social e Econômica Aplicada de Melbourne, na Austrália, concluiu que, para pessoas com mais de 40 anos, uma semana de trabalho de 25 horas pode ser ideal para a cognição, enquanto a Suécia recentemente experimentou seis horas por dia e descobriu que a saúde e a produtividade dos trabalhadores melhoraram.

Isso parece estar relacionado à forma como as pessoas se comportam durante o dia de trabalho. Uma pesquisa com quase 2 mil trabalhadores de escritório em tempo integral no Reino Unido descobriu que as pessoas eram produtivas apenas por 2 horas e 53 minutos em um dia de oito horas.

O resto do tempo foi gasto checando redes sociais, lendo notícias, conversando sobre temas não relacionados ao trabalho com os colegas, comendo e até mesmo procurando novos empregos.

Podemos nos concentrar por um período de tempo ainda menor quando estamos no limite de nossas capacidades. Pesquisadores como o psicólogo K. Anders Ericsson, da Universidade de Estocolmo, na Suécia, descobriram que, quando fazemos um esforço para realmente dominar uma habilidade, precisamos de mais pausas do que imaginamos.

A maioria das pessoas só aguenta uma hora sem descanso. E muitos músicos, escritores e atletas de elite nunca dedicam mais de cinco horas por dia ao trabalho.

Outra prática comum entre eles? Existe uma “tendência crescente de tirar sonecas”, escreve Ericsson – é uma maneira de descansar o cérebro e o corpo.

Outros estudos também descobriram que fazer pausas curtas em uma tarefa ajuda a manter o foco e continuar realizando um trabalho de alto nível. Não fazer pausas piora o desempenho.

A arte do descanso ativo

Mas “descanso”, como alguns pesquisadores apontam, não é necessariamente a melhor palavra para o que estamos fazendo quando pensamos que não estamos fazendo nada.

Como já escrevemos anteriormente, a parte do cérebro que é ativada quando estamos “sem fazer nada”, conhecida como rede neural de modo padrão (DMN, na sigla em inglês), desempenha um papel crucial na consolidação da memória e nossa capacidade de vislumbrar o futuro.

É também a área do cérebro que é ativada quando as pessoas estão observando os outros, pensando sobre si mesmas, fazendo um julgamento moral ou processando emoções de outras pessoas.

Em outras palavras, se essa rede fosse desligada, teríamos problemas para lembrar das coisas, prever consequências, captar interações sociais, compreender a nós mesmos, agir eticamente ou ter empatia com os outros – todas as coisas que nos tornam não apenas funcionais no local de trabalho, mas também na vida.

“Isso ajuda você a reconhecer a importância das situações, a dar sentido às coisas. Quando você não consegue fazer isso, está apenas agindo e reagindo ao que acontece no momento”, diz a neurocientista Mary Helen Immordino-Yang, pesquisadora do Instituto de Criatividade e Cérebro da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos.

Também não poderíamos ter novas ideias ou fazer novas conexões. Local onde nasce a criatividade, a DMN é ativada quando você faz associações entre assuntos aparentemente não relacionados ou tem ideias originais.

É também o lugar onde seus momentos de “iluminação” se escondem – o que significa que se, assim como Arquimedes, você teve uma boa ideia enquanto estava no banho ou em um passeio, deve agradecer à sua biologia.

Talvez o mais importante de tudo seja que, se não tivermos tempo para voltar nossa atenção para dentro de nós, perdemos um elemento crucial para a felicidade.

“Quando você não tem a capacidade de relacionar suas ações a uma causa mais ampla, elas parecem sem propósito e vazias com o tempo, por não estarem conectadas a um sentido além de si mesmas. E sabemos que, quando uma pessoa pensa que está agindo sem um propósito, isso tem efeitos negativos sobre sua saúde psicológica e fisiológica com o passar do tempo”, diz Immordino-Yang.

Como se livrar dos efeitos nocivos do trabalho intenso

Como qualquer pessoa que tenha experimentado a meditação sabe, não fazer nada é surpreendentemente difícil. Quantos de nós, após 30 segundos de ócio, pegam o celular?

Na verdade, não fazer nada nos deixa tão desconfortáveis ​​que preferimos nos machucar. Literalmente. Em 11 estudos diferentes, os pesquisadores descobriram que os participantes preferiram fazer qualquer coisa – até dar choques elétricos em si mesmos – em vez de ficarem ociosos. E não foi como se tivessem que permanecer assim por muito tempo: os períodos de ócio variaram entre seis e 15 minutos.

A boa notícia é que você não precisa ficar sem fazer absolutamente nada para obter benefícios. É verdade que o descanso é importante. Mas também é importante fazer uma reflexão ativa, pensar sobre um problema que você tem ou em uma ideia.

De fato, qualquer coisa que exija a visualização de resultados hipotéticos ou cenários imaginários – como discutir um problema com amigos ou mergulhar em um bom livro – também ajuda, diz Immordino-Yang. Se você agir da forma certa, poderá até ativar sua DMN até ao olhar uma rede social.

“Se você está apenas vendo uma foto bonita, ela fica desativada. Mas, se você está fazendo uma pausa e permitindo-se refletir internamente sobre algo mais amplo, como por exemplo o motivo que levou a pessoa da foto a se sentir de tal forma, elaborando uma narrativa em torno dela, então, você pode ativar essa rede”, diz ela.

Também não demora muito para desfazer os efeitos prejudiciais da atividade constante. Quando adultos e crianças ficaram ao ar livre, sem aparelhos eletrônicos, por quatro dias, seu desempenho em uma tarefa que exigia criatividade e capacidade de resolução de problemas melhorou em 50%. Mesmo fazer uma caminhada, de preferência em um local externo, melhora significativamente a criatividade.

Outro método eficaz de reparar estes danos é a meditação: apenas uma semana de prática para indivíduos que nunca meditaram antes, ou uma única sessão para praticantes experientes, pode melhorar a criatividade, o humor, a memória e a concentração.

Qualquer outra tarefa que não exija 100% de concentração também pode ajudar, como tricotar ou desenhar.

Parte do problema para fazer isso, no entanto, está em nossa capacidade de nos controlarmos – o receio de que, se relaxarmos por um momento, tudo desabará.

Isso está errado, diz a poeta, empreendedora e consultora de carreiras Janne Robinson. “A metáfora que gosto de usar é a da fogueira. Quando começamos um negócio e, depois de um ano, finalmente podemos tirar uma semana de folga, a maioria de nós não confia que uma outra pessoa possa realizar nossas tarefas em nosso lugar. Nós pensamos ‘a fogueira vai se apagar'”, diz ela.

“E se nós apenas confiássemos que o fogo está quente o suficiente e que podemos ir embora? Que alguém pode jogar mais madeira na fogueira e fazer ela aumentar?”

Isso não é fácil para aqueles de nós que sentem que precisam estar constantemente “realizando” alguma coisa. Mas, para fazer mais, parece que devemos nos sentir confortáveis em fazer meno

*Por Amanda Ruggeri

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*Fonte: bbc-brasil

A felicidade de tocar um ‘blues’

Estudo com pianistas de jazz descobre que improvisar um solo triste ativa o módulo cerebral do prazer

Melinda McPherson, Charles Limb e seus colegas da Faculdade de Medicina Johns Hopkins, em Baltimore, e da Universidade da Califórnia em San Francisco não usaram Casablanca para pesquisar a relação entre a criatividade musical e as emoções, e sim 12 pianistas de jazz de carne e osso. Mostraram-lhes fotos em que uma atriz aparece ou triste, ou alegre, ou com uma expressão neutra impenetrável, e pediram a eles que improvisassem um solo de piano que casasse com essas emoções. Enquanto tocavam, examinaram seus cérebros com uma ressonância magnética funcional (fMRI), a técnica que revela os segredos mais ocultos da mente humana.

Os resultados, apresentados na revista Scientific Reports, são nítidos, embora complexos, como tudo o que diz respeito ao nosso cérebro. Por um lado, o mero fato de improvisar um solo desliga o chamado córtex pré-frontal dorsolateral (DLPFC, na sigla em inglês), uma região no alto da testa que evoluiu nos últimos milhões de anos (um piscar de olhos nas escalas geológicas) e que leva décadas até amadurecer totalmente durante o desenvolvimento pessoal. Essa região se ocupa de altíssimas funções intelectuais, como a memória operacional, a flexibilidade cognitiva e o raciocínio abstrato. É curioso que seja preciso desligá-la para improvisar um solo de piano, como se o músico de jazz tivesse que viajar ao passado da espécie para fazer o seu trabalho.

É como se expressar alegria fosse uma tarefa menos executiva, menos intelectual ou mais antiga —em termos evolutivos— do que expressar tristeza

Mais curioso ainda é que o apagamento dessa parte superior da testa é muito mais drástico do que nas improvisações alegres do que nas tristes, como se expressar alegria fosse uma tarefa menos executiva, menos intelectual ou mais antiga — em termos evolutivos — do que expressar tristeza. Apagar o DLPFC, segundo os autores da pesquisa, permite aos músicos entrarem em um estado “de fluxo”, deixar-se levar pelas emoções produzidas pela sua própria música. E os dados revelam que esse automatismo mental ocorre com muito mais força na interpretação de um solo alegre do que de um triste.

Interpretar um solo triste, por outro lado, também tem as suas compensações, mas em uma região do cérebro muito mais antiga, a chamada substância negra (ou substantia nigra em latim), uma região mesencefálica enterrada nas profundezas reptilianas de nossa cabeça, que evoluíram na noite dos tempos e hoje se ocupam — como já faziam então — dos mecanismos de recompensa e, portanto, são responsáveis também pela dependência às drogas, ao jogo, ao sexo e todas as demais. Contra todas as intuições, essa armadilha darwiniana da recompensa é ativada quando se toca um solo triste, mas não quando se toca um solo alegre.

“A emoção e a criatividade estão estreitamente vinculadas”, concluem os pesquisadores, “e os mecanismos neurológicos subjacentes à criatividade dependem do estado emocional”. De fato, os autores do estudo entendem que a capacidade artística de sentir e expressar as emoções é provavelmente a razão fundamental “para a onipresença da arte em todas as culturas ao longo da história humana”.

Talvez seja importante frisar que os 12 pianistas de jazz envolvidos no estudo são músicos profissionais muito experientes. Os resultados teriam sido bem diferentes com um pianista de jazz iniciante, que normalmente estaria tão preocupado em acertar as mudanças do acorde de sétima e a escala menor melódica que teria de tocar o piano usando todo o cérebro e quase o corpo todo.

Sam também era um músico experiente. Pena que se enganou de canção. Ou será que fez isso para obter uma recompensa de seu cérebro reptiliano?

*Por Javier Sampedro

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*Fonte: elpais-brasil

A humanidade e seus lobos

Homo hominis lupus. A frase em destaque significa “o homem é o lobo do homem” em latim. Tal sentença foi criada por Plauto, um dramaturgo romano que viveu no período republicano de Roma entre 230 – 180 a.C., aparecendo pela primeira vez em sua obra conhecida como “Asinaria”. Nessa obra, a variação escrita por Plauto se encontra da seguinte forma: “o homem não é homem, mas sim um lobo para com um estranho.” Aqui, interpretando-se homem como sendo toda a sociedade humana (homens e mulheres), o autor tenta exprimir um comportamento antropológico característico— a capacidade que nós temos de julgar e excluir aqueles que não fazem parte de nosso grupo.

Thomas Hobbes, um filósofo inglês e um dos fundadores da filosofia política, utilizou-se da frase citada acima em sua obra “De Cive” (Sobre o Cidadão, em tradução livre). Nela, o mesmo fundamento lógico é usado para endereçar o mesmo problema: nós, humanos, gostamos de fazer parte de grupos sociais e no momento em que reconhecemos a presença de estranhos, inicialmente os tratamos não da forma com que rotineiramente tratariamos aqueles pertencentes a nossa sociedade, mas de uma forma diferente. Envolvido em uma teia de argumentos ratificando o resultado do ser humano sem uma entidade intermediadora, algo que conhecemos como estado, Hobbes concordava com o fato do ser humano não compactuar com indivíduos de grupos diferentes que o seu e colocou como sendo importante o estabelecimento de tal entidade. Nesse contexto, esse é o significado da frase “o homem é o lobo do homem”.

Mas eu quero seguir em um caminho diferente no que diz respeito ao significado de tal sentença. Um caminho que pode se desviar um pouco daquele percorrido por Hobbes e Plauto, mas que vale a pena ser refletido e analisado. É possível encontrarmos diversos exemplos na curta vida da civilização de nossa espécie — alguns meros milhares de anos — que sugerem uma característica peculiar sobre nós mesmos: a habilidade que temos de dar significado aquilo que nos rodeia. Por toda a natureza, consegue-se localizar uma gigantesca dose de impessoalidade. Supernovas, imensas explosões que marcam de uma estrela em seus últimos dias de vida e que podem devastar vários mundos que estiverem perto demais pela liberação de letais raios-X e raios gama; buracos negros, que devido a sua imensa gravidade consegue capturar até mesmo a luz, não deixando sair, portanto, nenhuma outro objeto físico (pelo menos não por onde entraram); e, em uma escala mais local, olhemos os terremotos e furacões, nos quais os primeiros são ocasionados pelo encontro de ventos fortes que se chocam em direções específicas, transformando a energia cinética de seus gases em momento angular, girando sem parar e podendo causar grande dano, além do segundo causar igual ou até maior estrago, sendo originado pela movimentação contínua do magma abaixo da crosta terrestre, e, especificamente, pela colisão dessas — as conhecidas placas tectônicas. Todos esses eventos acontecem em todo o lugar no Universo, a todo momento. Alguns desses, como no caso das supernovas, foram essenciais para a evolução do Cosmos como conhecemos hoje, apesar dos aparentes estragos que eles podem ocasionar.

Esses eventos são produtos das leis da física presentes no Universo ao nosso redor. Eles simplesmente acontecem. Porém, pode-se perguntar, será que os acontecimentos naturais ao nosso redor são categoricamente bons ou ruins? Somente a partir da ascensão da consciência é que essas questões começam a fazer algum sentido. E, devido a isso, cabe aos seres que possuem tal consciência determinarem o significado de eventos que, sem aquela, são indiferentes para a realidade física. Creio que essa habilidade é tanto uma benção quanto uma maldição. Uma vez que temos a capacidade de estabelecer significados para eventos, categorizando-os como coisas boas ou ruins, estamos fadados a possibilidade de não possuir sabedoria suficiente para discernir entre um e outro. Diferentemente dos eventos naturais que acontecem independente de nossa vontade, mas sim em decorrência de leis físicas do mundo em que vivemos, cabe a nós escolhermos cuidadosamente nossas ações com relação ao ambiente que nos circunda. É bem verdade que nós, seres humanos, possuímos incríveis qualidades. Porém, como a história de nossa espécie mostra, e o século XX ratifica, podemos ser capazes de coisas inimaginavelmente terríveis. Essa dualidade — em que podemos fazer coisas incríveis e, ao mesmo tempo, realizar atrocidades inimagináveis — pode se tornar, se não é que já se tornou, algo danoso para a sobrevivência da nossa espécie no longo prazo.

Um exemplo claro disso é a jornada mais bem-sucedida já embarcada por nós: a ciência. Através dela, fomos capazes de dizimar diversas doenças antes consideradas incuráveis, aumentar a expectativa e a qualidade de vida, minimizar o tempo de locomoção entre locais, conectar todo globo em uma rede de comunicação mundial, além de criar indústrias antes inimagináveis e, a partir dessas, garantir o desenvolvimento econômico do mundo, só para citar algumas. Incríveis conquistas para uma espécie de primatas com um cérebro mais desenvolvido que os demais e que anda em suas duas pernas. Com tal método, conseguimos avançar tecnologicamente a escalas nunca pensadas antes, desde colocarmos os pés em outro mundo até enviar robôs para outros planetas e sóis. Porém, com essa mesma ferramenta, guerras foram iniciadas, armas foram desenvolvidas, matando um incontável número de pessoas no processo. Bombas de destruição em massa acabaram, no dia 6 de abril de 1945, com a cidade de Hiroshima, no Japão, com dezenas de milhares de vidas em questão de segundos, além de outras centenas de milhares em Nagasaki, no dia 9 de agosto do mesmo ano. Enquanto estamos tentando desenvolver a cura de doenças hoje incuráveis como o câncer, o mal de Alzheimer e a AIDS, buscando acabar com o sofrimento de incontáveis pessoas ao redor do planeta, hoje possuímos o poder destrutivo de dizimar toda a população mundial com bombas atômicas e outras armas de alta destruição. E, além disso, assim como outras áreas do conhecimento a ciência também está refém de decisões políticas que são tomadas por um pequeno grupo de indivíduos, sendo muitas vezes resultado de investidas econômicas por parte desses agentes. Faz sentido perguntar, logo, se possuímos a sabedoria suficiente para tomar uma decisão para, no mínimo, não causarmos danos maiores a nós mesmos e ao que está ao nosso redor.

Mesmo não possuindo o mesmo sentido utilizado por Houbes e Plauto, às vezes percebemos que, realmente, nós podemos ser nossos próprios “lobos”. A humanidade pode ser inimiga de si própria quando coloca sentimentos extremistas e imediatos na frente do pensamento crítico e de uma visão holística e de longo prazo. Devemos pensar mais sobre esta fase de nossa civilização. Estamos com uma ferramenta (o método científico) que possui capacidades exponenciais, porém se não utilizado de maneira correta mais se parece com uma arma na mão de uma criança. Mesmo parecendo pensamentos caracteristicamente filosóficos, são ideias que valem a pena serem consideradas. É o nosso papel como cidadãos conscientes entender sobre a contribuição que a ciência possui em nossa sociedade, não apenas em nosso país, mas em uma escala global — e isso inclui quem colocamos no poder e as políticas que possuem nesse sentido. Cabe a nós a escolha de fazermos dessa um período de aprendizagem por meio dos inúmeros erros já cometidos ou o último erro de uma espécie que, mesmo tendo tido uma infância humilde, possuía tantas qualidades e prospecções, tantos sonhos e objetivos, mas que não conseguiu superar sua adolescência e as crises inerentes a ela.

*Por Weslley Victor

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*Fonte: ciencianautas