Efeito Flynn: por que (não) estamos ficando mais inteligentes que nossos pais

No último domingo foi dia dos pais e é possível que você tenha presenteado o ‘velho’ com um novo celular. É igualmente possível que agora você tenha se colocado na missão de tirar as dúvidas de funcionamento do aparelho. Assim como é possível que a essa altura você já esteja achando que cometeu um tremendo erro a cada vez que ele pergunta como mexer no zap zap!

Da mesma forma, é possível que você também já tenha se colocado na situação de presentear uma criança com um desses aparelhos eletrônicos. Nesse caso, é bastante verossímil (eu mesmo já presenciei!) imaginar que antes mesmo que você pudesse pegar o manual (alguém ainda faz isso?), ela já esteja entretida assistindo Galinha Pintadinha no Netflix.

Piadinhas à parte, esse é um exemplo claro em que você se pergunta: será que as crianças de hoje em dia são gênios e os idosos lentos demais?

A hipótese pode parecer absurda, mas foi exatamente essa mesma dúvida que os pesquisadores tiveram quando pararam para analisar os resultados de testes de QI realizados no último século e descobriram que a média de pontuação da população subiu consistentemente, muito!

Foi então que elaboraram o Efeito Flynn.

Efeito Flynn

Em 1982, um filósofo e psicólogo da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, chamado James Flynn observou e analisou os testes de QI realizados ao longo do último século e reparou uma coisa interessante. Para atingir o objetivo do teste de sempre obter uma média de 100 pontos entre os respondentes, era preciso que o nível de dificuldade subisse cada vez mais, assim, os questionários foram atualizados, em média, a cada 25 anos.

Em outras palavras, Flynn percebeu que se um americano médio fizesse o primeiro teste de QI criado ele faria 130 pontos, pontuação atribuída a pessoas geniais. Da mesma forma, se o teste atual fosse aplicado com um americano médio daquela época, sua pontuação seria de 70, literalmente um resultado esperado de deficientes intelectuais.

Tudo isso fez com que Flynn chegasse à conclusão de que o Quociente de Inteligência da população tem aumentando, em média, 3 pontos por década. E apesar do cientista ressaltar que ele não foi o primeiro a notar este padrão, tampouco quem o batizou assim: até hoje, é dado a este crescimento o nome de Efeito Flynn.

Mas o cientista não parou aí. Ele não se convenceu simplesmente de que todos nós seríamos geniais no começo do século 20, assim como não ousou concluir que qualquer pessoa nascida em 1930 é mais burra do que uma criança com problemas mentais. E a partir disso surgiram várias hipóteses para explicar o porquê desse resultado acontecer.

Hipóteses

Em primeiro lugar é preciso dizer que apesar do aumento ser notado em todas as fases do teste, umas aumentaram mais do que outras. Em áreas do conhecimento como aritmética e vocabulário, o aumento não é tão sensível quanto no que é chamado de Matrizes Progressivas de Raven, conforme mostra o gráfico.

Por Matrizes de Raven, podemos chamar aqueles testes de associações do tipo:

Esse aspecto é muito importante de ser notado porque ele diz respeito, sobretudo, à nossa capacidade de pensar em questões abstratas, compreender símbolos e fazer conexões que não têm uma âncora tão imediata com a realidade. Segundo Flynn, esta exigência do mundo moderno é o principal componente para que tenhamos resultados tão diferentes.

Isso pode ser representado quanto observamos os ícones utilizados até hoje em meios digitais para representar as coisas: envelope de carta quer dizer email; ponteiro quer dizer horas; telefone fixo quer dizer ligações; gravata quer dizer homem (ops!);

Para facilitar o processo de aprendizado das pessoas, ainda é preciso que os símbolos tenham um lastro com objetos físicos que elas conhecem, porém, a tendência é que, com o passar do tempo, essas referências sejam perdidas e nós vamos precisar explicar para as novas gerações que um dia, quando você queria falar com alguém, era preciso pegar um papel, uma caneta, escrever, colocar dentro de um envelope, lacrar, ir até uma agência dos correios, enviar e esperar muitos dias até que a mensagem chegasse a outra pessoa e por isso que envelope é o símbolo utilizado para representar essa troca de mensagens…

Já os símbolos novos que forem surgindo vão tanto ter menos ligação com a realidade física quanto o meio digital ganhar importância e autossuficiência em nossas vidas.

Faz sentido?

Estímulos

Resumidamente, Flynn acredita que tudo pode ser explicado pela diferença de estímulos que as pessoas recebem. Ele não concorda com a hipótese de que somos mais inteligentes do que antes, mas que os estímulos que recebemos hoje estão mais alinhados com o ‘tipo de inteligência’ que os testes de QI avaliam.

Começando pelo fator genético, ele aponta que uma nutrição mais rica e adequada pode ser determinante no desempenho de crianças nos testes. Um estudo realizado em 2005 na China mostrou que crianças que tinham déficit de um nutriente muito específico – o iodo – tinham pontuações mais baixas que crianças que não tinham essa deficiência. Se apenas um elemento é suficiente para apontar variação no resultado, imagine a nutrição completa.

Os estímulos continuam na fase escolar. Como sabemos, as pessoas têm passado cada vez mais tempo em escolas e universidades sendo expostas à educação formal que é sustentada no modelo científico e, como ele mesmo diz, não há ciência sem pensamento hipotético. Sendo assim, quanto mais anos de estudo temos, mas anos de treinamento e condicionamento do nosso cérebro para um desempenho melhor nas Matrizes de Raden.

Há também uma série de influências da família e dos amigos com o qual convivemos. É aquilo que os cientistas chamam de influências do ambiente. Segundo eles, estar num ambiente onde se lê mais livros ou ser estimulado a ler desde criança pelos pais é determinante na capacidade de abstração e conexão que nosso cérebro é capaz de ter. Além disso, existe a hipótese de que: como as famílias estão tendo menos filhos, as crianças têm convivido cada vez mais com adultos, fazendo com que elas pulem etapas, aumentem o vocabulário e adquiram conhecimento formal mais rápido.

Um caso como Lisa Simpson (inteligência excepcional numa família medíocre) é muito raro.

Mas talvez o que resuma melhor a diferença de estímulo sejam as atividades profissionais. Estima-se que em 1900, somente 3% dos americanos tinham um emprego que fosse “cognitivamente exigente” e atualmente esse número subiu para 35%. Além disso, mesmo os empregos que existiam 100 anos atrás como banqueiro, fazendeiro, advogado, hoje exigem muito mais capacidade de raciocínio abstrato do que antes.

Ressalvas

Há, porém, argumentos mais céticos em relação aos testes de QI. Em primeiro lugar há a ressalva do que os cientistas chamaram de “Sabedoria do Teste”. Isso acontece quando os indivíduos que estão sendo testados sabem que estão sendo testados e, portanto, não se importam de errar as questões. Isso faz com que eles sintam menos pressão e tenham melhor desempenho.

Fora isso, há um questionamento muito sério a respeito da efetividade do teste de QI para ‘medir’ a inteligência das pessoas. Já sabemos que o teste não serve para mensurar a inteligência individual (dependendo da modalidade do teste que você fizer, os resultados podem ser diferentes), mas numa média geral eles deveriam ser efetivos, afinal, eles foram criados, sobretudo, para orientar políticas públicas de educação.

Porém, o questionamento que fica é: se os testes de QI estão indicando que as pessoas estão ficando mais inteligentes, mas nós não vemos uma legião de gênios andando por aí, talvez o teste não seja mais eficaz.

Sobre isso, um cientista colega de Flynn chamado William Dickens, resumiu:

“Como poderia aumentar tanto, sem que a gente perceba todas essas pessoas super inteligentes andando por aí? Isso é um mistério. Mas as pessoas começaram a dizer que talvez existam pessoas mais brilhantes e elas estariam escondidas por causa da maneira como a ciência se tornou ‘especializada’ ao extremo. Eles estariam trabalhando em seus próprios campos de pesquisa, fazendo coisas incríveis, e agindo como pessoas normais e genuínas. Mas eles não são identificados como ‘gênios’.”

No fim, parece que tudo continua se tratando do que você acredita. Argumentos de ambas as partes não faltam. Ou você não é inteligente o suficiente pra perceber?

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*Fonte: papodehomem/Breno França

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Mergulhados em turbilhão de informações, estamos nos tornando cada vez mais burros

Você chega em casa e liga a tevê. Enquanto seu programa está no intervalo, vai navegando aleatoriamente pela internet do laptop e clica em um vídeo. Enquanto ele carrega, você atualiza o Instagram e assiste a alguns stories, mas logo é distraído por uma mensagem urgente no Whatsapp. Antes que termine de respondê-la, chega um e-mail do seu chefe (aquele puto trabalha até as 22h!). De repente, o programa da TV acaba e você sequer sabe sobre o que ele falou, as mensagens do Whatsapp já estão quase na casa das centenas, 102 pessoas já postaram novos stories e isso tudo enquanto você respondia, com a testa molhada de suor, ao e-mail do chefe.

Com as devidas adaptações, raramente alguém não passou por algo similar. Estamos afogados em possibilidades: as portas e janelas já não são mais suficientes, é preciso penetrar as entranhas e os poros da informação e dividi-la com a plateia, ainda que sua colaboração se restrinja ao mais inútil prato de miojo.

A Era Digital traz consigo uma série de deslumbres. Conceitos modernos, como Aldeia Global e democratização da informação, dão o frágil sentimento de que estamos evoluindo. Mas a popularização de dados vai muito além de seu acesso e faz emergirem conceitos preocupantes, como a tal da pós-verdade, eleita como a palavra do ano pela Universidade de Oxford. É uma loucura isso de sermos pós-verdadeiros, porque se exprime uma contradição: em plena era da informação, tem sido cada vez menor a preocupação com a veracidade, que vem cedendo rápido espaço à mera subjetividade. Somos todos produtores de conteúdo, ainda que poucos tenham habilidade, competência ou conhecimento para tamanha responsabilidade. Qualquer um pode criar uma notícia, transformá-la indiscriminadamente num post bombástico e disseminar um hoax maluco por aí. Não se assuste se sua tia compartilhar indignada o “fato” de que um menino se tornou um sanduíche a olhos vistos no Congo, ou que estudiosos comprovaram que comer asfalto faz bem para quem tem diabetes, ou que Ivete Sangalo é, na verdade, um android.

Como se não bastasse, as informações em excesso — mesmo as inverídicas — parecem nos tornar menos sensíveis. É tanta desgraceira, que a sensação de alarme e condoimento não dura mais que um segundo. Mergulhamos num estado de torpor em que uma notícia de linchamento coletivo faz o mesmo efeito que a de uma propaganda de iogurte, e qualquer esboço de nó no estômago se desfaz com um vídeo fofo de gatinhos serelepes. A digitalização da Era parece ter digitalizado nossas almas.

Até mesmo as conversas de bar perderam muito da bossa. Era uma delícia quando ninguém à mesa se lembrava do nome de um filme, e então ficávamos todos espremendo o cérebro para alcançar uma pista. Hoje, ao primeiro lampejo incerto, alguém saca o Google, mestre-de-todo-o-conhecimento-amém, e já decreta a verdade — ou pós-verdade? Já nem sei mais — acabando com o suspense que conferiria alguma magia ao encontro de amigos.

Nada disso, no entanto, é uma conclamação pelo repúdio ao que é tecnológico ou mesmo à informação em excesso. A culpa não é dela, coitada, toda cheia das boas intenções. O negócio é o descompasso entre cabeça e espírito, objetivo e subjetivo, ser e não ser. Talvez a velocidade de nossos cérebros esteja muito além do que comportam nossos corações.

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*Fonte/texto: revistabula/ Lara Brenner

A ideia de uma vida boa foi substituída pela de uma vida a ser invejada

“Um dos mais influentes psicanalistas da Inglaterra, autor de dez livros e editor da nova tradução da obra de Sigmund Freud (1856-1939), Adam Phillips, mais parece um profeta do que um homem da ciência. Pelo menos essa é a ideia que se tem depois de ler a entrevista que ele concedeu à revista Veja em 12 de março de 2003, “Páginas amarelas”), mas que sete anos depois me parece atualizadíssima as questões erguidas por ele, da qual se extraíram as dez denúncias abaixo numeradas:

1. Hoje as pessoas têm mais medo de morrer do que no passado. Há uma preocupação desmedida com o envelhecimento, com acidentes e doenças. É como se o mundo pudesse existir sem essas coisas.

2. A ideia de uma vida boa foi substituída pela de uma vida a ser invejada.

3. Hoje todo mundo fala de sexo, mas ninguém diz nada interessante. É uma conversa estereotipada atrás da outra. Vemos exageros até com crianças, que aprendem danças sensuais e são expostas ao assunto muito cedo. Estamos cada vez mais infelizes e desesperados, com o estilo de vida que levamos.

4. Nos consultórios, qualquer tristeza é chamada de depressão.

5. As crianças entram na corrida pelo sucesso muito cedo e ficam sem tempo para sonhar.

6. No século 14, se as pessoas fossem perguntadas sobre o que queriam da vida, diriam que buscavam a salvação divina. Hoje a resposta é: “ser rico e famoso”. Existe uma espécie de culto que faz com que as pessoas não consigam enxergar o que realmente querem da vida.

7. Os pais criam limites que a cultura não sanciona. Por exemplo: alguns pais tentam controlar a dieta dos filhos, dizendo que é mais saudável comer verduras do que salgadinhos, enquanto as propagandas dão a mensagem diametralmente oposta. O mesmo pode ser dito em relação ao comportamento sexual dos adolescentes. Muitos pais procuram argumentar que é necessário ter um comportamento responsável enquanto a mídia diz que não há limites.

8. [Precisamos] instruir as crianças a interpretar a cultura em que vivemos, ensiná-las a ser críticas, mostrar que as propagandas não são ordens e devem ser analisadas.

9. Uma coisa precisa ficar clara de uma vez por todas: embora reclamem, as crianças dependem do controle dos adultos. Quando não têm esse controle, sentem-se completamente poderosas, mas ao mesmo tempo perdidas. Hoje há muitos pais com medo dos próprios filhos.

10. Ninguém deveria escolher a profissão de psicanalista para enriquecer. Os preços das sessões deveriam ser baixos e o serviço, acessível. Deve-se desconfiar de analistas caros. A psicanálise não pode ser medida pelo padrão consumista, do tipo “se um produto é caro, então é bom”. Todos precisam de um espaço para falar e refletir sobre sua vida.”

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*Fonte: pensarcontemporaneo

A arte de manipular multidões

A era da pós-verdade é na realidade a era do engano e da mentira, mas a novidade associada a esse neologismo consiste na popularização das crenças falsas e na facilidade para fazer com que os boatos prosperem.

A mentira dever ter uma alta porcentagem de verdade para ser mais crível. E terá ainda maior eficácia a mentira composta totalmente por uma verdade. Parece uma contradição, mas não é. Na sequência analisaremos como isso pode acontecer.

A pós-mentira

Hoje em dia tudo é verificável e, portanto, não é fácil mentir. Mas essa dificuldade pode ser superada com dois elementos básicos: a insistência na asseveração falsa, apesar dos desmentidos confiáveis; e a desqualificação de quem a contradiz. E a isso se soma um terceiro fator: milhões de pessoas prescindiram dos intermediários de garantias (previamente desprestigiados pelos enganadores) e não se informam pelos veículos de comunicação rigorosos, mas diretamente nas fontes manipuladoras (páginas de Internet relacionadas e determinados perfis nas redes sociais). A era da pós-mentira fica assim configurada.

Quem se manifesta à margem da tese dominante recebe uma desqualificação ofensiva que serve como aviso para outros navegadores

Dessa forma, milhões de norte-americanos acreditaram em uma mentira comprovada como a afirmação de Donald Trump de que Barak Obama é um muçulmano nascido no estrangeiro e milhões de britânicos estavam convencidos de que, com o Brexit,o Serviço Nacional de Saúde teria por semana 350 milhões de libras (1,4 bilhão de reais) adicionais.

A tecnologia permite hoje manipular digitalmente qualquer documento (incluindo as imagens), e isso avaliza que se indique como suspeitos os que reagem com dados certos diante das mentiras, porque suas provas já não têm valor de fato. E se acrescenta a isso a perda de parte da independência na imprensa com a crise econômica. O número de jornalistas foi reduzido e ela precisou levar em consideração não só os leitores, mas também os proprietários e anunciantes. Em certos casos, utilizam também técnicas sensacionalistas para obter reações na Rede, o que fez com que perdesse credibilidade.

Com tudo isso, se chegou à paradoxal situação de que as pessoas já não acreditam em nada e ao mesmo tempo são capazes de acreditarem em qualquer coisa.

Muitos jornais dos Estados Unidos verificaram as dezenas de falsidades difundidas pelo presidente Trump (em janeiro já havia dito 99 mentiras segundo o The New York Times), mas isso não as desativou. E a imprensa britânica, por sua vez, esmiuçou as mentiras dos que pediam a saída da UE, mas isso não desanimou milhões de eleitores.

A pós-verdade

A mentira sempre é arriscada, e requer formas muito potentes para sustentar-se. Por isso as técnicas de silêncio costumam ser mais eficazes: emite-se uma parte comprovável da mensagem, mas se omite outra igualmente verdadeira. Aqui estão alguns exemplos:

A insinuação. Não é preciso usar dados falsos. Basta sugeri-los. Na insinuação, as palavras e imagens expressadas se detêm em um ponto, mas as conclusões inevitavelmente extraídas delas vão muito mais além. O emissor, entretanto, poderá se defender afirmando que só disse o que disse, que só mostrou o que mostrou. A principal técnica da insinuação na imprensa parte das justaposições: ou seja, uma ideia situada ao lado de outra sem que se explicite a relação sintática ou semântica entre ambas. Mas sua contiguidade obriga o leitor a deduzir uma ligação.

Isso aconteceu em 4 de outubro de 2016 quando Iván Cuéllar, goleiro do Sporting de Gijón, saía do ônibus de sua equipe para jogar no estádio Riazor. Recebido com vaias pela torcida do La Coruña, Cuéllar parou e olhou fixamente em direção aos torcedores. A câmera só enfocou ele, o que levava à dedução de uma atitude desafiadora diante das vaias. E a situação foi apresentada dessa forma em um vídeo de um veículo de comunicação asturiano. Dessa forma, foram mostrados, justapostos, dois fatos: a torcida rival que vaiava e o jogador que olhava fixamente em direção aos torcedores. Não demorou a chegar a acusação de que Cuéllar havia sido um provocador irresponsável.

Ocorreu algo que aquelas imagens não mostraram: entre os torcedores, uma pessoa havia sofrido um ataque epilético e isso chamou a atenção do goleiro do Sporting, que olhou fixamente nessa direção para comprovar que o torcedor estava sendo atendido (pelo próprio serviço médico do clube). Ao verificar que o atendimento foi feito, seguiu seu caminho. Tanto a presença dos torcedores como suas vaias e o olhar do jogador foram verdadeiros. A mensagem, entretanto, foi alterada – e, portanto, a realidade percebida – ao se justapor os acontecimentos ocultando um fato relevante.

A pressuposição e o subentendido. A pressuposição e o subentendido possuem traços em comum, e se baseiam em dar algo como certo sem questioná-lo. Por exemplo, no conflito catalão se difundiu a pressuposição de que votar é sempre bom. Mas essa afirmação não pode ser universal, uma vez que não se aceitaria que o Governo espanhol colocasse urnas para que a população votasse se deseja ou não a escravidão. Somente o fato de se admitir essa possibilidade já seria inconstitucional, por mais que a resposta esperada fosse negativa. Primeiro seria necessário modificar a Constituição para permitir a escravidão, e depois sim poderia ocorrer uma votação a respeito. Foi criada, portanto, uma pressuposição segundo a qual o fato de votar é sempre bom, quando a validade de uma consulta está ligada à legitimidade e à legalidade democrática do que é colocado em votação.

Por vezes os subentendidos são criados a partir de antecedentes que, – reunindo todos os requisitos de veracidade, se projetam sobre circunstâncias que concordam somente em parte com eles. Por exemplo, nos chamados Panama Papers foram denunciados casos reais de ocultação fiscal. Uma vez expostos os fatos reais e criadas as condições para sua condenação social, foram acrescentados à lista outros nomes sem relação com a ilegalidade; mas o subentendido transformou a oração “tem uma conta no Panamá” em algo delituoso que contribuiu com a criação de um estado geral de opinião falso. Não é crime realizar negócios no Panamá e por conta disso abrir contas nesse país; mas se isso se expressa com essa oração suspeita, o legal se transforma em condenável pela pressuposição.

A falta de contexto. A falta do contexto adequado manipula os fatos. Assim aconteceu quando o deputado independentista catalão Lluis Llach recebeu ataques injustos por declarações sobre o Senegal. Em 9 de setembro de 2015, um jornal barcelonês postava em sua manchete esta frase, colocada na boca do ex-cantor e compositor: “Se a opção do sim à independência não for majoritária, vou para o Senegal”. Daí se poderia deduzir que ir para o Senegal era algo assim como um ato de desespero (e uma ofensa para aquele país africano). Desse modo interpretaram alguns colunistas e centenas de comentários publicados sob a notícia. No entanto, o jornal tinha omitido um contexto importante: Llach criou anos atrás uma fundação humanitária de ajuda ao Senegal e, portanto, longe de expressar desprezo em suas palavras, ele mostrava o desejo de se voltar para essa atividade se o seu esforço político fracassasse. Nessa falta de dados de contexto se pode incluir a omissão cada vez mais habitual das versões e das opiniões –que deveriam ser recolhidas com neutralidade e honestidade– daquelas pessoas atacadas por uma notícia ou opinião.

Inversão da relevância. Os beneficiários desta era da pós-verdade nem sempre dispõem de fatos relevantes pelos quais atacar seus adversários. Por isso, com frequência recorrem a aspectos muito secundários…. que transformam em relevantes. Os costumes pessoais, a vestimenta, o penteado, o caráter de uma pessoa em seu entorno particular, um detalhe menor de um livro ou de um artigo ou de uma obra (como naquele caso dos manipuladores de marionetes em Madri)…adquirem um valor crucial na comunicação pública, em detrimento do conjunto e das atividades de verdadeiro interesse geral ou social. Desse modo, o que for opinião ou subjetividade sobre esses aspectos secundários se apresenta como noticioso e objetivo. E, portanto, relevante.

A pós-censura

Até aqui foram analisadas brevemente (por razões de espaço e de lógica jornalística) as técnicas da pós-mentira e da pós-verdade. Mas os efeitos perniciosos de ambas recebem o impulso da pós-censura, segundo retratou e definiu Juan Soto Ivars em Arden las Redes (Debate, 2017).

Neste novo mundo de pós-censura quem se manifesta à margem da tese dominante recebe uma desqualificação muito ofensiva que serve como aviso para outros navegadores. Assim, a censura já não é exercida nem pelo Governo nem pelo poder econômico, mas por grupos de dezenas de milhares de cidadãos que não toleram uma ideia discrepante, que se realimentam uns com os outros, que são capazes de linchar quem, a seu ver, atenta contra o que eles consideram inquestionável, e que exercem seu papel de turba mesmo sem saber muito bem o que estão criticando.

Soto Ivars detalha alguns casos assustadores. Por exemplo, o espancamento verbal sofrido pelos escritores Hernán Migoya e María Frisa a partir dos respectivos tuítes iniciais de quem confundiu o que expressavam seus personagens de ficção com o que pensava cada autor, e que foram secundados de imediato por uma multidão endogâmica de seguidores que se apresentaram para o bombardeio sem comprovação alguma. Fizeram a mesma coisa alguns jornalistas que, para não ficarem de fora da corrente dominante, simplesmente recolheram das redes o manipulado escândalo, branqueando assim a mercadoria avariada.

Esta inquisição popular contribui para formar uma espiral do silêncio (como a definiu Elisabeth Noelle Neumann em 1972) que acaba criando uma aparência de realidade e de maioria cujo fim consiste em expulsar do debate as posições minoritárias. Nesse processo, as pessoas se dão conta logo de que é arriscado sustentar algumas opiniões, e desistem de defendê-las, para maior glória da pós-verdade, da pós-mentira e da pós-censura. Assim, o círculo da manipulação fica fechado.

Álex Grijelmo é autor de La Información del Silencio. Cómo se Miente Contando Hechos Verdaderos (A Informação do Silêncio. Como se Mente Contando Fatos Verdadeiros)

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*Fonte: elpais

“A era do humanismo está terminando” – Achille Mbembe

“Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo”, escreve Achille Mbembe. E faz um alerta: “A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização”.

Achille Mbembe (1957, Camarões francês) é historiador, pensador pós-colonial e cientista político; estudou na França na década de 1980 e depois ensinou na África (África do Sul, Senegal) e Estados Unidos. Atualmente, ensina no Wits Institute for Social and Economic Research (Universidade de Witwatersrand, África do Sul). Ele publicou Les Jeunes et l’ordre politique en Afrique noire (1985), La naissance du maquis dans le Sud-Cameroun. 1920-1960: histoire des usages de la raison en colonie (1996), De la Postcolonie, essai sur l’imagination politique dans l’Afrique contemporaine (2000), Du gouvernement prive indirect (2000), Sortir de la grande nuit – Essai sur l’Afrique décolonisée (2010), Critique de la raison nègre (2013). Seu novo livro, The Politics of Enmity, será publicado pela Duke University Press neste ano de 2017.

O artigo foi publicado, originalmente, em inglês, no dia 22-12-2016, no sítio do Mail & Guardian, da África do Sul, sob o título “The age of humanism is ending” e traduzido para o espanhol e publicado por Contemporea filosofia, 31-12-2016. A tradução é de André Langer.

 

Eis o artigo:

Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016.

Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo.

Nos Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow.

A Europa continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural Stuart Hall chamou de populismo autoritário. Apesar dos complexos acordos alcançados nos fóruns internacionais, a destruição ecológica da Terra continuará e a guerra contra o terror se converterá cada vez mais em uma guerra de extermínio entre as várias formas de niilismo.

As desigualdades continuarão a crescer em todo o mundo. Mas, longe de alimentar um ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão cada vez mais a forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais.

A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa.

Com o triunfo desta aproximação neodarwiniana para fazer história, o apartheid, sob diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma. Sua restauração abrirá caminho para novos impulsos separatistas, para a construção de mais muros, para a militarização de mais fronteiras, para formas mortais de policiamento, para guerras mais assimétricas, para alianças quebradas e para inumeráveis divisões internas, inclusive em democracias estabelecidas.

Nenhuma das alternativas acima é acidental. Em qualquer caso, é um sintoma de mudanças estruturais, mudanças que se farão cada vez mais evidentes à medida que o novo século se desenrolar. O mundo como o conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, com os longos anos da descolonização, a Guerra Fria e a derrota do comunismo, esse mundo acabou.

Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo.

O capitalismo e a democracia liberal triunfaram sobre o fascismo em 1945 e sobre o comunismo no começo dos anos 1990 com a queda da União Soviética. Com a dissolução da União Soviética e o advento da globalização, seus destinos foram desenredados. A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização.

Apoiado pelo poder tecnológico e militar, o capital financeiro conseguiu sua hegemonia sobre o mundo mediante a anexação do núcleo dos desejos humanos e, no processo, transformando-se ele mesmo na primeira teologia secular global. Combinando os atributos de uma tecnologia e uma religião, ela se baseava em dogmas inquestionáveis que as formas modernas de capitalismo compartilharam relutantemente com a democracia desde o período do pós-guerra – a liberdade individual, a competição no mercado e a regra da mercadoria e da propriedade, o culto à ciência, à tecnologia e à razão.

Cada um destes artigos de fé está sob ameaça. Em seu núcleo, a democracia liberal não é compatível com a lógica interna do capitalismo financeiro. É provável que o choque entre estas duas ideias e princípios seja o acontecimento mais significativo da paisagem política da primeira metade do século XXI, uma paisagem formada menos pela regra da razão do que pela liberação geral de paixões, emoções e afetos.

Nesta nova paisagem, o conhecimento será definido como conhecimento para o mercado. O próprio mercado será re-imaginado como o mecanismo principal para a validação da verdade. Como os mercados estão se transformam cada vez mais em estruturas e tecnologias algorítmicas, o único conhecimento útil será algorítmico. Em vez de pessoas com corpo, história e carne, inferências estatísticas serão tudo o que conta. As estatísticas e outros dados importantes serão derivados principalmente da computação. Como resultado da confusão de conhecimento, tecnologia e mercados, o desprezo se estenderá a qualquer pessoa que não tiver nada para vender.

A noção humanística e iluminista do sujeito racional capaz de deliberação e escolha será substituída pela do consumidor conscientemente deliberante e eleitor. Já em construção, um novo tipo de vontade humana triunfará. Este não será o indivíduo liberal que, não faz muito tempo, acreditamos que poderia ser o tema da democracia. O novo ser humano será constituído através e dentro das tecnologias digitais e dos meios computacionais.

A era computacional – a era do Facebook, Instagram, Twitter – é dominada pela ideia de que há quadros negros limpos no inconsciente. As formas dos novos meios não só levantaram a tampa que as eras culturais anteriores colocaram sobre o inconsciente, mas se converteram nas novas infraestruturas do inconsciente. Ontem, a sociabilidade humana consistia em manter os limites sobre o inconsciente. Pois produzir o social significava exercer vigilância sobre nós mesmos, ou delegar a autoridades específicas o direito de fazer cumprir tal vigilância. A isto se chamava de repressão.

A principal função da repressão era estabelecer as condições para a sublimação. Nem todos os desejos podem ser realizados. Nem tudo pode ser dito ou feito. A capacidade de limitar-se a si mesmo era a essência da própria liberdade e da liberdade de todos. Em parte graças às formas dos novos meios e à era pós-repressiva que desencadearam, o inconsciente pode agora vagar livremente. A sublimação já não é mais necessária. A linguagem se deslocou. O conteúdo está na forma e a forma está além, ou excedendo o conteúdo. Agora somos levados a acreditar que a mediação já não é necessária.

Isso explica a crescente posição anti-humanista que agora anda de mãos dadas com um desprezo geral pela democracia. Chamar esta fase da nossa história de fascista poderia ser enganoso, a menos que por fascismo estejamos nos referindo à normalização de um estado social da guerra. Tal estado seria em si mesmo um paradoxo, pois, em todo caso, a guerra leva à dissolução do social. No entanto, sob as condições do capitalismo neoliberal, a política se converterá em uma guerra mal sublimada. Esta será uma guerra de classe que nega sua própria natureza: uma guerra contra os pobres, uma guerra racial contra as minorias, uma guerra de gênero contra as mulheres, uma guerra religiosa contra os muçulmanos, uma guerra contra os deficientes.

O capitalismo neoliberal deixou em sua esteira uma multidão de sujeitos destruídos, muitos dos quais estão profundamente convencidos de que seu futuro imediato será uma exposição contínua à violência e à ameaça existencial. Eles anseiam genuinamente um retorno a certo sentimento de certeza – o sagrado, a hierarquia, a religião e a tradição. Eles acreditam que as nações se transformaram em algo como pântanos que necessitam ser drenados e que o mundo tal como é deve ser levado ao fim. Para que isto aconteça, tudo deve ser limpo. Eles estão convencidos de que só podem se salvar em uma luta violenta para restaurar sua masculinidade, cuja perda atribuem aos mais fracos dentre eles, aos fracos em que não querem se transformar.

Neste contexto, os empreendedores políticos de maior sucesso serão aqueles que falarem de maneira convincente aos perdedores, aos homens e mulheres destruídos pela globalização e pelas suas identidades arruinadas.

A política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo.

Sob tais condições, o futuro da política de massas de esquerda, progressista e orientada para o futuro, é muito incerto. Em um mundo centrado na objetivação de todos e de todo ser vivo em nome do lucro, a eliminação da política pelo capital é a ameaça real. A transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política.

Se a civilização pode dar lugar a alguma forma de vida política, este é o problema do século XXI.

 

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*Fonte: revistaprosaversoearte

 

Este alerta está colocado na porta de um consultório:

A enfermidade é um conflito entre a personalidade e a alma.
O resfriado escorre quando o corpo não chora.
A dor de garganta entope quando não é possível comunicar as aflições.
O estômago arde quando as raivas não conseguem sair.
O diabetes invade quando a solidão dói.
O corpo engorda quando a insatisfação aperta.
A dor de cabeça deprime quando as duvidas aumentam.
O coração desiste quando o sentido da vida parece terminar.
A alergia aparece quando o perfeccionismo fica intolerável.
As unhas quebram quando as defesas ficam ameaçadas.
O peito aperta quando o orgulho escraviza.
A pressão sobe quando o medo aprisiona.
As neuroses paralisam quando a “criança interna” tiraniza.
A febre esquenta quando as defesas detonam as fronteiras da imunidade.
Os joelhos doem quando o orgulho não se dobra.
O câncer mata quando não se perdoa e/ou cansa de viver.
E as dores caladas?
Como falam em nosso corpo?
A enfermidade não é má, ela avisa quando erramos a direção.

O caminho para a felicidade não é reto, existem curvas chamadas Equívocos, existem semáforos chamados Amigos, luzes de precaução chamadas Família, e ajudará muito ter no caminho uma peça de reposição chamada Decisão, um potente motor chamado Amor, um bom seguro chamado Determinação, abundante combustível chamado Paciência. Mas principalmente um maravilhoso Condutor chamado Inteligência.

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“A era do humanismo está terminando” – Achille Mbembe

Achille Mbembe (1957, Camarões francês) é historiador, pensador pós-colonial e cientista político; estudou na França na década de 1980 e depois ensinou na África (África do Sul, Senegal) e Estados Unidos. Atualmente, ensina no Wits Institute for Social and Economic Research (Universidade de Witwatersrand, África do Sul). Ele publicou Les Jeunes et l’ordre politique en Afrique noire (1985), La naissance du maquis dans le Sud-Cameroun. 1920-1960: histoire des usages de la raison en colonie (1996), De la Postcolonie, essai sur l’imagination politique dans l’Afrique contemporaine (2000), Du gouvernement prive indirect (2000), Sortir de la grande nuit – Essai sur l’Afrique décolonisée (2010), Critique de la raison nègre (2013). Seu novo livro, The Politics of Enmity, será publicado pela Duke University Press neste ano de 2017.

O artigo foi publicado, originalmente, em inglês, no dia 22-12-2016, no sítio do Mail & Guardian, da África do Sul, sob o título “The age of humanism is ending” e traduzido para o espanhol e publicado por Contemporea filosofia, 31-12-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo:

Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016.

Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo.

Nos Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow.

A Europa continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural Stuart Hall chamou de populismo autoritário. Apesar dos complexos acordos alcançados nos fóruns internacionais, a destruição ecológica da Terra continuará e a guerra contra o terror se converterá cada vez mais em uma guerra de extermínio entre as várias formas de niilismo.

As desigualdades continuarão a crescer em todo o mundo. Mas, longe de alimentar um ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão cada vez mais a forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais.

A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa.

Com o triunfo desta aproximação neodarwiniana para fazer história, o apartheid, sob diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma. Sua restauração abrirá caminho para novos impulsos separatistas, para a construção de mais muros, para a militarização de mais fronteiras, para formas mortais de policiamento, para guerras mais assimétricas, para alianças quebradas e para inumeráveis divisões internas, inclusive em democracias estabelecidas.

Nenhuma das alternativas acima é acidental. Em qualquer caso, é um sintoma de mudanças estruturais, mudanças que se farão cada vez mais evidentes à medida que o novo século se desenrolar. O mundo como o conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, com os longos anos da descolonização, a Guerra Fria e a derrota do comunismo, esse mundo acabou.

Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo.

O capitalismo e a democracia liberal triunfaram sobre o fascismo em 1945 e sobre o comunismo no começo dos anos 1990 com a queda da União Soviética. Com a dissolução da União Soviética e o advento da globalização, seus destinos foram desenredados. A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização.

Apoiado pelo poder tecnológico e militar, o capital financeiro conseguiu sua hegemonia sobre o mundo mediante a anexação do núcleo dos desejos humanos e, no processo, transformando-se ele mesmo na primeira teologia secular global. Combinando os atributos de uma tecnologia e uma religião, ela se baseava em dogmas inquestionáveis que as formas modernas de capitalismo compartilharam relutantemente com a democracia desde o período do pós-guerra – a liberdade individual, a competição no mercado e a regra da mercadoria e da propriedade, o culto à ciência, à tecnologia e à razão.

Cada um destes artigos de fé está sob ameaça. Em seu núcleo, a democracia liberal não é compatível com a lógica interna do capitalismo financeiro. É provável que o choque entre estas duas ideias e princípios seja o acontecimento mais significativo da paisagem política da primeira metade do século XXI, uma paisagem formada menos pela regra da razão do que pela liberação geral de paixões, emoções e afetos.

Nesta nova paisagem, o conhecimento será definido como conhecimento para o mercado. O próprio mercado será re-imaginado como o mecanismo principal para a validação da verdade. Como os mercados estão se transformam cada vez mais em estruturas e tecnologias algorítmicas, o único conhecimento útil será algorítmico. Em vez de pessoas com corpo, história e carne, inferências estatísticas serão tudo o que conta. As estatísticas e outros dados importantes serão derivados principalmente da computação. Como resultado da confusão de conhecimento, tecnologia e mercados, o desprezo se estenderá a qualquer pessoa que não tiver nada para vender.

A noção humanística e iluminista do sujeito racional capaz de deliberação e escolha será substituída pela do consumidor conscientemente deliberante e eleitor. Já em construção, um novo tipo de vontade humana triunfará. Este não será o indivíduo liberal que, não faz muito tempo, acreditamos que poderia ser o tema da democracia. O novo ser humano será constituído através e dentro das tecnologias digitais e dos meios computacionais.

A era computacional – a era do Facebook, Instagram, Twitter – é dominada pela ideia de que há quadros negros limpos no inconsciente. As formas dos novos meios não só levantaram a tampa que as eras culturais anteriores colocaram sobre o inconsciente, mas se converteram nas novas infraestruturas do inconsciente. Ontem, a sociabilidade humana consistia em manter os limites sobre o inconsciente. Pois produzir o social significava exercer vigilância sobre nós mesmos, ou delegar a autoridades específicas o direito de fazer cumprir tal vigilância. A isto se chamava de repressão.

A principal função da repressão era estabelecer as condições para a sublimação. Nem todos os desejos podem ser realizados. Nem tudo pode ser dito ou feito. A capacidade de limitar-se a si mesmo era a essência da própria liberdade e da liberdade de todos. Em parte graças às formas dos novos meios e à era pós-repressiva que desencadearam, o inconsciente pode agora vagar livremente. A sublimação já não é mais necessária. A linguagem se deslocou. O conteúdo está na forma e a forma está além, ou excedendo o conteúdo. Agora somos levados a acreditar que a mediação já não é necessária.

Isso explica a crescente posição anti-humanista que agora anda de mãos dadas com um desprezo geral pela democracia. Chamar esta fase da nossa história de fascista poderia ser enganoso, a menos que por fascismo estejamos nos referindo à normalização de um estado social da guerra. Tal estado seria em si mesmo um paradoxo, pois, em todo caso, a guerra leva à dissolução do social. No entanto, sob as condições do capitalismo neoliberal, a política se converterá em uma guerra mal sublimada. Esta será uma guerra de classe que nega sua própria natureza: uma guerra contra os pobres, uma guerra racial contra as minorias, uma guerra de gênero contra as mulheres, uma guerra religiosa contra os muçulmanos, uma guerra contra os deficientes.

O capitalismo neoliberal deixou em sua esteira uma multidão de sujeitos destruídos, muitos dos quais estão profundamente convencidos de que seu futuro imediato será uma exposição contínua à violência e à ameaça existencial. Eles anseiam genuinamente um retorno a certo sentimento de certeza – o sagrado, a hierarquia, a religião e a tradição. Eles acreditam que as nações se transformaram em algo como pântanos que necessitam ser drenados e que o mundo tal como é deve ser levado ao fim. Para que isto aconteça, tudo deve ser limpo. Eles estão convencidos de que só podem se salvar em uma luta violenta para restaurar sua masculinidade, cuja perda atribuem aos mais fracos dentre eles, aos fracos em que não querem se transformar.

Neste contexto, os empreendedores políticos de maior sucesso serão aqueles que falarem de maneira convincente aos perdedores, aos homens e mulheres destruídos pela globalização e pelas suas identidades arruinadas.

A política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo.

Sob tais condições, o futuro da política de massas de esquerda, progressista e orientada para o futuro, é muito incerto. Em um mundo centrado na objetivação de todos e de todo ser vivo em nome do lucro, a eliminação da política pelo capital é a ameaça real. A transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política.

Se a civilização pode dar lugar a alguma forma de vida política, este é o problema do século XXI.

Fonte: Revista IHU On-line

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*Fonte: revistaprosaversoearte

A desconstrução do mérito: Foucault e a categorização dos indivíduos como um regime de poder

Desde o processo de socialização primária e diariamente em nosso cotidiano, estamos expostos à uma série de influências discursivas que impregnam a nossa maneira de observar os elementos que ao nosso redor se encontram e mesmo os meios pelos quais exercemos a capacidade de disposição do livre-arbítrio. Certamente algum tempo é necessário para que os sujeitos se apercebam de tais limitações instituídas ao pensamento e passem a refletir criticamente acerca do meio no qual se encontram inseridos. Essa “quebra de correntes” pressupõe primeiramente que aquele que está sob o jugo dessas externalidades capte as interações mais elementares que constituem os nossos relacionamentos em sociedade e os converta mentalmente em panoramas que possam ser dignos de questionamentos ou não, bem como tenha os espaços e as oportunidades para constituir um reflexão autônoma.

Logicamente, esse exercício do intelecto não é uma tarefa fácil e para grande parte dos sujeitos sequer aprazível ou mesmo disponível, tendo em vista que as possibilidades de constituição de olhares próprios no que diz respeito à realidade vem sendo cerceada sistemática e historicamente por uma série de razões “convenientes” que passam fundamentalmente pela manutenção do status quo da presente ordem sócio-econômica vigente. Diante disso, os regimes de poder (e aqui me valho de uma categoria foucaultiana) acabam passando desaperbecidos no momento em que estão sendo praticados. O modus operandi de classificação e categorização dos indivíduos, conhecido por todos nós pelo divino nome “meritocracia”, é um deles. Talvez seja essa uma das mais problemáticas formas de exercício do poder em nossa sociedade, a depender do ponto de vista do observador.

A justificativa da meritocracia em si passa pela ideia de que a organização social se dá da melhor maneira possível quando alguns são recompensados pelos seus esforços hercúleos enquanto outros são punidos por sua incompetência. A noção que está por trás desse argumento joga toda a conta do sucesso ou fracasso de um indivíduo apenas na chamada “responsabilidade individual”, algo que deita raízes em parte do pensamento liberal clássico que chegou, em meados do século XIX e por meio de alguns teóricos, a atribuir a pobreza de ampla gama de pessoas a uma mera questão de dedicação ou talento. Uma das incoerências que aí reside tem a ver com a ignorância acerca dos contextos micro e macro onde os sujeitos se fazem presentes, pois os locais nos quais cada um está inserido pode apresentar limitações ou aberturas de ordem gigantesca, que facilitam ou não a aquisição de diversos tipos de capitais.

Outro ponto frágil dessa crença ideológica é a conclusão “lógica” de que a escolha adequada de meios de auferição do conhecimento e de outros tipos de capacidade dos sujeitos resultarão em uma distribuição mais justa dos bens materiais e imateriais em uma dada sociedade. Uma análise superficial é suficiente para constatar que na verdade os mecanismos avaliatórios disponíveis nada mais são do que perpetuadores das desigualdades que vem de berço (para utilizar a expressão popular), já que àqueles aos quais foi concedido um treinamento específico e de razoável ou grande qualidade, algo que exige capital econômico considerável principalmente quando se trata de sociedades que não dispõem de equipamentos públicos de porte, se faz mais realista um horizonte que contenha como resultante a conquista de “prêmios” pelos seus esforços, no fundo uma resultante das condições estabelecidas.

É evidente que exceções a esse quadro podem vir à tona, mas ao invés de fatos corriqueiros de escape ao poder, elas devem ser pensadas muito mais como pautas fetichistas para a imprensa, que trata de expô-las em matérias que celebram esforços muitas vezes anormais e que nada mais são do que o retrato de uma pirâmide social repleta de abismos e mazelas. Não se trata aqui de enxergar como ideal um mundo no qual há a desvalorização da qualidade de trabalhos bem-feitos ou o desestímulo para que os sujeitos exerçam aquilo para o qual estão melhor vocacionados, até mesmo porque ir nessa direção seria de um simplismo aterrador.

O ponto do qual não se pode escapar é a necessidade de desvelar todas as contradições de um discurso que move paixões em nossa sociedade, enxergando o mérito não como um “dom” concedido divinamente ou uma simples questão de esforço mas como um atributo construído gradualmente e observando atentamente para a meritocracia (regime de exponencialização do mérito) enquanto maneira de eternizar a distribuição dispare dos recursos existentes. Esse regime de poder em exercício, assim como outros, é uma ficção reguladora a ser enfrentada, pois não possui necessariamente um criador ou dono identificável e intencionado, já que o poder, como o próprio Foucault menciona na sua obra, não emana de alguma fonte. Dando alguns passos para pensar nesse sentido, quem sabe novas formas de concessão, mais niveladoras, não possam ser construídas, ainda que no plano das ideias.

Referências bibliográficas:

Michel Foucault, 1926 – 1984. Microfísica do Poder/Michel Foucault; organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machad. – 4. ed. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

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*Fonte/texto: genialmentelouco

Umberto Eco: 14 lições para identificar o neofascismo e o fascismo eterno

‘O Fascismo Eterno’

Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos — o que vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.

Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “liberação”.

Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal exercício.

 

Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria. A praça principal estava cheia de gente que cantava e desfraldava bandeirolas, invocando Mimo, o líder a resistência na área, em alto brado. Mimo, ex-suboficial dos carabinieri, envolveu-se com os partidários do marechal Badoglio e perdeu uma perna nos primeiros confrontos. Apareceu no balcão da Prefeitura, apoiado em muletas, pálido; tentou acalmar a multidão com uma mão. Eu estava ali esperando seu discurso, já que toda a minha infância tinha sido marcada pelos grandes discursos históricos de Mussolini, cujos passos mais significativos aprendíamos de cor na escola. Silêncio. Mimo falo com voz rouca, quase não se ouvia. Disse: “Cidadãos, amigos. Depois de tantos sacrifícios dolorosos… aqui estamos. Glória aos que caíram pela liberdade…”. E foi tudo. Ele voltou para dentro. A multidão gritava, os membros da resistência levantaram as armas e atiraram para o alto, festivamente. Nós, rapazes, nos precipitamos para recolher os cartuchos, preciosos objetos de coleção, mas eu tinha aprendido então que liberdade de palavra significa também liberdade da retórica.

Alguns dias depois vi os primeiros soldados norte-americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Um dos oficiais (o major ou capitão Muddy) era hóspede na casa da família de dois dos meus companheiros de escola. Sentia-me em casa naquele jardim em que alguns senhores amontoavam-se em torno ao capitão Muddy, falando um francês aproximativo. O capitão Muddy tinha uma boa educação superior e conhecia um pouco de francês. Assim, minha primeira imagem dos libertadores norte-americanos, depois de tantos caras-pálidas de camisa negra, era a de um negro culto em uniforme cáqui que dizia: “Oui, merci beaucoup Madame, moi aussi j’aime le champagne…” Infelizmente, faltava o champagne, mas ganhei do capitão Muddy o meu primeiro chiclete e comecei mastigando o dia inteiro. De noite colocava o chiclete em um copo d’água para que ficasse fresco para o dia seguinte.

Em maio, ouvimos dizer que a guerra tinha acabado. A paz deu-me uma sensação curiosa. Haviam me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano. Nos meses seguintes descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas Europeu. Aprendi novas e excitantes palavras como “reseau”, “maquis”, “armée secrète”, “Rote Kapelle”, “gueto de Varsóvia”. Vi as primeiras fotografias do Holocausto e assim compreendi seu significado antes mesmo de conhecer a palavra. Percebi que havíamos sido liberados.

 

Hoje na Itália existem algumas pessoas que se perguntam se a Resistência teve algum impacto militar real no curso da guerra. Para a minha geração a questão é irrelevante: compreendo imediatamente o significado moral e psicológico da Resistência. Era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela liberação. Penso que, também para os jovens norte-americanos que derramaram seu sangue pela nossa liberdade, não era irrelevante saber que atrás das linhas havia europeus que já estavam pagando seu débito.

Hoje na Itália tem gente que diz que a Resistência é um mito comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos resistentes com bandeiras de diversas cores.

Grudado ao rádio, passava as noites — as janelas fechadas e a escuridão geral faziam do pequeno espaço em torno ao aparelho o único halo luminoso — escutando as mensagens que a Rádio Londres transmitia para a Resistência. Eram, ao mesmo tempo, obscuras e poéticas (“Ainda brilha o sol”, “As rosas hão de florir”), mas a maior parte eram “mensagens para Franchi”. Alguém soprou no meu ouvido que Franchi era o líder de um dos grupos clandestinos mais poderosos da Itália do Norte, um homem de coragem legendária. Franchi tornou-se o meu herói. Franchi (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista tão anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi até acusado de ter participado de um golpe de Estado reacionário. Mas que importa? Sogno ainda é o sonho da minha infância. A liberação foi um empreendimento comum de gente das mais diversas cores.

Hoje na Itália tem gente que diz que a guerra de liberação foi um trágico período de divisão, e que precisamos agora de uma reconciliação nacional. A recordação daqueles anos terríveis deveria ser reprimida. Mas a repressão provoca neuroses. Se a reconciliação significa compaixão e respeito por todos aqueles que lutaram sua guerra de boa-fé, perdoar não significa esquecer. Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua missão, mas não posso dizer: “Ok, volte e faça tudo de novo”. Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar solenemente que “eles” não podem repetir o que fizeram.

 

Mas quem são “eles”?

Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um líder carismático, no corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, em uma vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no anti-semitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional, nascida do MSI (Movimento Social e Italiano), é certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, e sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira.

Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro fantasma que ronda a Europa (para não falar de outras partes do mundo)?

Ionesco disse certa vez que “somente as palavras contam, o resto é falatório”. Os hábitos linguísticos são muitas vezes sintomas importantes de sentimentos não expressos.

Portanto, permitam-me perguntar por que não somente a Resistência mas toda a Segunda Guerra Mundial foram definidas em todo o mundo com uma luta contra o fascismo. Se relerem “Por quem os sinos dobram”, de Hemingway, vão descobrir que Robert Jordan identifica seus inimigos com os fascistas, mesmo quando está pensando nos falangistas espanhóis.

Permitam-me passar a palavra a Franklin Delano Roosevelt: “A vitória do povo americano e de seus aliados será uma vitória contra o fascismo e o beco sem saída que ele representa” (23 de setembro de 1944).

Durante os anos de McCarthy, os norte-americanos que tinham participado da guerra civil espanhola eram chamados de “fascistas prematuros” — entendendo com isso que combater Hitler nos anos 1940 era um dever moral de todo bom norte-americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 1930, era suspeito. Por que uma expressão como “fascist pig” era usada pelos radicais norte-americanos até para indicar um policial que não aprovava os que fumavam? Por que não diziam: “Porco Caugolard”, “Porco Falangista”, “Porco Quisling”, “Porco croata”, “Porco Ante Pavelic”, “Porco nazista”?

Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa de entartete Kunst, a “arte degenerada”, uma filosofia da vontade de potência e da Übermensch. O nazismo era decididamente anticristão e neopagão, da mesma maneira que o Diamat (versão oficial do marxismo soviético) de Stalin era claramente materialista e ateu. Se como totalitarismo entende-se um regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e sua ideologia, então nazismo e estalinismo eram regimes totalitários.

 

Hitler e Mussolini em Munique, em 1940

O fascismo foi certamente uma ditadura, mas não era completamente totalitário, nem tanto por sua brandura quanto pela debilidade filosófica de sua ideologia. Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do “Estado ético absoluto”, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica.

Começou como ateu militante, para depois firmar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas. Em seus primeiros anos anticlericais, segundo uma lenda plausível, pediu certa vez a Deus que o fulminasse ali mesmo para provar sua existência. Deus estava, evidentemente, distraído. Nos anos seguintes, em seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e não desdenhava o epíteto: “homem da Providência”. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini.

O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir-se — conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 1930 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar da Alemanha. Foi o fascismo italiano que convenceu muitos líderes liberais europeus de que o novo regime estava realizando interessantes reformas sociais, capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucionária à ameaça comunista.

Todavia, a prioridade histórica não me parece ser uma razão suficiente para explicar por que a palavra “fascismo” tornou-se uma sinédoque, uma denominação pars pro toto para movimentos totalitários diversos. Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, por assim dizer, em “estado quintessencial”. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy[1]. O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideais políticas e filosóficas, uma colmeia de contradições. É possível conceber um movimento totalitário que consiga juntar monarquia e revolução, exército real e milícia pessoal de Mussolini, os privilégios concedidos à Igreja e uma educação estatal que exaltava a violência e o livre mercado?

O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários de terras mais conservadores, que esperavam uma contrarrevolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante vinte anos proclamando sua lealdade à família real, permitindo que um “duce” puxasse as cordinhas de um “rei”, a quem ofereceu até o título de “imperador”. Mas quando, em 1943, o rei despediu Mussolini, o partido reapareceu dois meses depois, com a ajuda dos alemães, sob a bandeira de uma república “social”, reciclando sua velha partitura revolucionária, enriquecida de acentuações quase jacobinas.

Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. Da mesma maneira, sob Stalin, se Lamarck tinha razão, não havia lugar para Darwin. Ao contrário, existiram certamente arquitetos fascistas, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.

Não houve um Zdanov fascista. Na Itália existiam dois importantes prêmios artísticos: o Prêmio Cremona era controlado por um fascista inculto e fanático como Farinacci, que encorajava uma arte propagandista (recordo-me de quadros intitulados Ascoltando all radio un discorso del Duce ou Stati mentali creati dal Fascismo); e o Prêmio Bergamo, patrocinado por um fascista culto e razoavelmente tolerante como Bottai, que protegia a arte pela arte e as novas experiências da arte de vanguarda que, na Alemanha, haviam sido banidas como corruptas, criptocomunistas, contrárias ao Kitsch nibelúngico, o único aceito.

O poeta nacional era D’Annunzio, um dândi que na Alemanha ou na Rússia teria sido colocado diante de um pelotão de fuzilamento. Foi alçado à categoria de vate do regime pro seu nacionalismo e seu culto do heroísmo — com o acréscimo de grandes doses de decadentismo francês.

Tomemos o futurismo. Deveria ter sido considerado um exemplo de entartete Kunst, assim como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo. Mas os primeiros futuristas italianos eram nacionalistas, favoreciam por motivos estéticos a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial, celebravam a velocidade, a violência, o risco e, de certa maneira, estes aspectos pareciam próximos ao culto fascista da juventude. Quando o fascismo identificou-se com o império romano e redescobriu as tradições rurais, Marinetti (que proclamava que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia e queria inclusive matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d’Italia, que tratava o luar com grande respeito.

Muitos dos futuros membros da Resistência, e dos futuros intelectuais do futuro Partido Comunista, foram educados no GUF, a associação fascista dos estudantes universitários, que deveria ser o berço da nova cultura fascista. Esses clubes tornaram-se uma espécie de caldeirão intelectual em que circulavam novas ideias sem nenhum controle ideológico real, não tanto porque os homens de partido fossem tolerantes, mas porque poucos entre eles possuíam os instrumentos intelectuais para controlá-los.

No curso daqueles vinte anos, a poesia dos herméticos representou uma reação ao estilo pomposo do regime: a estes poetas era permitido elaborar seus protestos literários dentro da torre de marfim. O sentimento dos herméticos era exatamente o contrário do culto fascista do otimismo e do heroísmo. O regime tolerava esta distensão evidente, embora socialmente imperceptível, porque não prestava atenção suficiente ao um jargão tão obscuro.

O que não significa que o fascismo italiano fosse tolerante. Gramsci foi mantido na prisão até a morte, Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes políticos confinados em ilhas remotas, o poder legislativo tornou-se pura ficção e o executivo (que controlava o judiciário, assim como a mídia) emanava diretamente as novas leis, entre as quais a da defesa da raça (apoio formal italiano ao Holocausto).

A imagem incoerente que descrevi não era devida à tolerância: era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico. Mas era um “desconjuntamento ordenado”, uma confusão estruturada. O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos.

Chegamos agora ao segundo ponto de minha tese. Existiu apenas um nazismo, e não podemos chamar de “nazismo” o falangismo hipercatólico de Franco, pois o nazismo é fundamentalmente pagão, politeísta e anticristão, ou não é nazismo. Ao contrário, pode-se jogar com o fascismo de muitas maneiras, e o nome do jogo não muda. Acontece com a noção de “fascismo” aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de “jogo”. Um jogo pode ser ou não competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma “semelhança de família”:

Suponhamos que exista uma série de grupos políticos. O grupo 1 é caracterizado pelos aspectos abc, o grupo 2, pelos aspectos bcd e assim por diante. 2 é semelhante a 1 na medida em que têm dois aspectos em comum. 3 é semelhante a 2 e 4 e é semelhante a 1 (têm em comum o aspecto c). O caso mais curioso é dado pelo 4, obviamente semelhante a 3 e a 2, mas sem nenhuma característica em comum com 1. Contudo, em virtude da ininterrupta série de decrescentes similaridades entre 1 e 4, permanece, por uma espécie de transitoriedade ilusória, um ar de família entre 4 e 1.

O termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista. Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julios Evola.
Após percorrer 38 cidades em um ano, fotógrafo lança livro sobre o Mais Médicos: ‘é um manifesto humanista’, diz
Considerando o futuro da humanidade, mudanças climáticas só podem ser comparadas a guerra nuclear, diz Chomsky
Morre Umberto Eco, intelectual italiano que criticou a corrupção e manipulação no jornalismo

A despeito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.
Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas com indulgência pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas.
Essa nova cultura tinha que ser sincretista. “Sincretismo” não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.
Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário juntando De Maistre, Guenon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo.
Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação “New Age”, irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma de Ur-Fascismo.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra” (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.

7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Na América, o último exemplo de obsessão pelo complô foi o livro The New World Order, de Pat Robertson.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Quando eu era criança ensinavam-me que os ingleses eram o “povo das cinco refeições”: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres mas sóbrios. Os judeus são ricos e ajudam-se uns aos outros graças a uma rede secreta de mútua assistência. Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.

9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido. Mas patrícios não podem existir sem plebeus. O líder, que sabem muito em que seu poder não foi obtido por delegação, mas conquistado pela força, sabe também que sua força baseia-se na debilidade das massas, tão fracas que têm necessidade e merecem um “dominador”. No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: “Viva la muerte!” À gente normal diz-se que a morte é desagradável, mas é preciso enfrentá-la com dignidade; aos crentes, diz-se que é um modo doloroso de atingir a felicidade sobrenatural. O herói Ur-Fascista, ao contrário, aspira à morte, anunciada como a melhor recompensa para uma vida heroica. O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma inveja pênis permanente.

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas pars pro toto, para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. Para ter um bom exemplo de populismo qualitativo, não precisamos mais da Piazza Venezia ou do estádio de Nuremberg.
Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “voz do povo”. Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no Parlamento italiano foi:“Eu poderia ter transformado esta assembleia surda e cinza em um acampamento para meus regimentos”. De fato, ele logo encontrou alojamento melhor para seus regimentos e pouco depois liquidou o Parlamento. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do Parlamento por não representar mais a “voz do povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.

14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.

Depois de indicar os arquétipos possíveis do Ur-Fascismo, permitam-me concluir. Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes. Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista.

Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas.

A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno à liberdade: liberdade de palavra, de imprensa, de associação política. Estas palavras, “liberdade”, “ditadura” — Deus meu —, era a primeira vez em toda a minha vida que eu as lia. Em virtude dessas novas palavras renasci como homem livre ocidental.

Devemos ficar atentos para que o sentido dessas palavras não seja esquecido de novo. O Ur-Fascismo ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: “Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!”. Ai de mim, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas — a cada dia, em cada lugar do mundo. Cito ainda as palavras de Roosevelt: “Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país” (4 de novembro de 1938). Liberdade, liberação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: “Não esqueçam”.

E permitam-me acabar com uma poesia de Franco Fortini:
Sulla spalletta del ponte
Le teste degli impiccati
Nell’acqua della fonte
La bava degli impiccati
Sul lastrico del mercato
Le unghie dei fucilati
Sull’erba secca del prato
I denti dei fucilati

Mordere l’aria mordere i sassi
La nostra carne non à più d’uomini
Mordere l’aria mordere i sassi
Il nostro cuore non à più d’uomini.
Ma noi s’è letto negli occhi dei morti
E sulla terra faremo libertà
Ma l’hanno stretta i pugni dei morti
La giustizia che si farà.

Na amurada da ponte
A cabeça dos enforcados
Na água da fonte
A baba dos enforcados
No calçamento do mercado
As unhas dos fuzilados
Sobre a grama seca do prado
Os dentes dos fuzilados

Morder o ar morder as pedras
Nossa carne não é mais de homens
Morder o ar morder as pedras
Nosso coração não é mais de homens
Mas lemos nos olhos dos mortos
E sobre a terra a liberdade havemos de fazer
Mas estreitaram-na nos punhos os mortos
A justiça que se há de fazer.

Umberto Eco, O Fascismo Eterno, in: Cinco Escritos Morais,

Tradução: Eliana Aguiar, Editora Record, Rio de Janeiro, 2002.

[1] Usado atualmente em lógica para designar conjuntos “esfumados”, de contornos imprecisos, o termo fuzzy poderia ser traduzido como “esfumado”, “confuso”, “impreciso”, “desfocado”.

 

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*Fonte/textos: operamundi

Porque é mesmo necessário sair da ilha para ver a ilha

Nunca compreendi tão bem esse conto do José Saramago como hoje. O livro chama-se “O conto da ilha desconhecida”. Ganhei esse livro há alguns anos, tinha lido na época, e recentemente o reli. A releitura mostrou-me aspectos que tinham passado quando o li da primeira vez, mas somente a vida real mesmo me fez compreender essa frase – “É necessário sair da ilha para ver a ilha” – que tantas vezes é compartilhada em redes sociais, displicentemente, sem que quem compartilha consiga compreender a profundidade dela. Até porque, a frase faz parte do conto e fica um tanto quanto desprovida de seu sentido quando pinçada e tirada de seu contexto.

O conto é sobre um homem que resolve pedir ao rei uma embarcação para sair em busca de uma ilha desconhecida. No entanto, conforme descrito no conto, todos sabem que não há mais ilhas desconhecidas. Todas as ilhas já foram devidamente descobertas e mapeadas, catalogadas, conforme se espera. O homem, no entanto, insiste e diz que não vai sair de frente do castelo se o rei não conceder a ele a embarcação para sair em busca da tal ilha. Como há muitas pessoas fazendo pedidos ao rei e aquele homem ameaçava a ordem e a paz do reino, o rei cede e fornece a embarcação. O homem, então, vai ao barco, acaba arrumando a companhia de uma mulher que trabalhava no castelo, mas que também anseia deixar essa ilha conhecida em busca da ilha desconhecida, e parte em sua busca. E eis que no final, eles dão ao barco o nome de Ilha Desconhecida.

Quando li a primeira vez achei estranho e sem graça esse final. Ora, eles queriam encontrar uma ilha ou um barco? O barco era a ilha? Essa releitura que fiz me mostrou o que não compreendi na primeira vez que li. O barco é a ilha desconhecida, porque a ilha desconhecida é a nossa vida, somos nós.

Ele ia partir dessa “ilha conhecida”, de scripts prontos, já pré-formatada que vivemos, em busca da vida que ele queria construir e viver, do caminho que ele queria traçar e seguir. Em busca da construção, por ele mesmo, por suas próprias mãos, de sua vida, de seu caminho, de seu percurso. Ele é a ilha desconhecida. Somos todos ilhas desconhecidas.

O que o conto nos diz de forma muito inteligente é que sim, há ilhas desconhecidas, muitas, diversas. Não estão todas mapeadas, o caminho a se seguir não está no mapa, não está pré-traçado. Mas, por que é preciso sair da ilha para ver a ilha? Ora, porque estando na ilha você não consegue, mesmo, ver que há opções. Só conseguimos ver que há uma ilha quando assistimos à história de fora, quando vemos todos os personagens e cenários, quando percebemos que temos participação ativa nessa história, que somos na verdade os protagonistas dela.

Que não somos personagens que vivem scripts. Que temos nosso papel e que podemos e devemos assumir o controle da nossa embarcação, da nossa vida, da nossa ilha desconhecida. Que só conhecendo a ilha, conhecendo nós mesmos, conseguimos esse protagonismo. Entendemos que podemos e devemos tomar o controle da embarcação e que se errarmos o rumo, não calcularmos direito os provimentos, se não conseguirmos manter o barco firme durante as incontáveis e imprevisíveis tempestades, somos nós que sofreremos as consequências e teremos que lidar com elas. Não é o rei. Não é o reino. Somos nós. Sou eu. É você.

Somos todos ilhas desconhecidas. O que aprendi recentemente a duras penas é que a saída da ilha para ver a ilha é um processo pessoal e intransferível. Não há como convencer alguém a ver a ilha de fora, porque a pessoa não vê a ilha. Na maioria das vezes, a tendência é ela achar que você está louco e que, como já disse o rei, não há ilhas desconhecidas, pois todas já foram mapeadas. Você acena feito louco, tenta mostrar, conta como viu a ilha, mas não adianta. Só vê a ilha quem quer ver a ilha e o impulso para que isso aconteça tem que ser muito grande, porque, por ser desconhecida, essa ilha que somos nós é bastante assustadora a princípio.

Poucos são os que sentem coragem em enfrentar o oceano sem o mapa, sem a diretriz, sem o capitão direcionando, sem um rumo certo, tendo que decidir metro a metro tudo o que vai acontecer e sem saber se está indo na direção certa, porque, não há mapa. É um processo difícil, mas necessário e sem volta. E depois se acostuma com essa liberdade de decisão do rumo, que vem sempre associada à “náusea” – emprestando o termo usado por Sartre – que é justamente a angústia de dirigir sozinho o barco da nossa própria vida. A nossa ilha desconhecida, que somos nós.

 

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*Fonte: pensarcontemporaneo

 

10 Coisas que você nunca deve tolerar da vida!

Muitas pessoas permitem que sua felicidade seja prejudicada, trabalhando em um emprego que odeiam, cercando-se com pessoas negativas ou tendo muito medo de sair de sua zona de conforto. É importante lembrar que você é responsável pela sua própria felicidade.

Aqui estão 10 coisas que você nunca deve tolerar da vida:

 

1. Tentar agradar outras pessoas

Quando você constantemente busca a aprovação dos outros, está diminuindo o poder de sua própria opinião. É impossível fazer todos felizes, 100% do tempo. Tentar agradar os outros só o conduzirá a um caminho para a infelicidade. Em vez de se preocupar com as opiniões dos outros, concentre-se no que o faz feliz.

 

2. Negligenciar sua saúde

A verdadeira felicidade interior começa com a maneira como você se trata. Se você não for saudável, não será capaz de desfrutar de todas as coisas maravilhosas na vida. Tenha uma dieta equilibrada, durma o suficiente, beba muita água e permaneça ativo. Sempre trate sua mente, corpo e alma com respeito.

 

3. Deixar as pessoas pisarem em você

Ser bondoso é uma coisa. Mas permitir-se tornar-se um capacho dos outros mostra uma falta de respeito por si mesmo. Se alguém estiver te usando ou tirando proveito de você, fale. Se não resolver, deixe-o ir.

 

4. Permanecer em sua zona de conforto

É fácil ficar preso em sua zona de conforto, porque é onde você se sente seguro. Mas, a fim de aprender, crescer e experimentar coisas novas, você precisa sair da caixa. Tenha coragem suficiente para permitir-se experimentar o mundo.

 

5. Trabalhar em um emprego que você odeia

Todos nós temos contas a pagar, mas se contentar com um trabalho que você odeia, só porque você tem um salário estável prejudica a sua felicidade. Mesmo que você ganhe menos dinheiro seguindo suas paixões, você sempre pode ajustar seu estilo de vida para trabalhar melhor com sua renda. Um trabalho estressante que você odeia pode ter um impacto emocional, físico e espiritual.

 

6. Deixar o dinheiro governar sua vida

Muitas pessoas deixam o dinheiro ditar suas vidas inteiras. Colocar o dinheiro acima de tudo pode afetar a sua qualidade de vida. Na próxima vez que você estiver estressado com o dinheiro, lembre-se que não pode levá-lo com você. Há muitas outras coisas na vida que são muito mais importantes.

 

7. Ter que se explicar constantemente

Independentemente de quanto você tente convencê-las, algumas pessoas nunca vão entender ou apoiar seus objetivos ou aspirações. Lembre-se de que você não precisa da validação de outra pessoa para viver sua vida ou ir atrás do que quer.

 

8. Comunicação interna negativa

Quando essa pequena voz dentro de sua cabeça fala, ela pode te dar confiança ou destruí-la. Seus pensamentos criam sua realidade. Seja gentil consigo mesmo. Aprenda com seus erros, mas não se culpe por eles. Pratique amor próprio e autoaceitação. Pode fazer toda a diferença em termos de sua felicidade.

 

9. Amigos críticos

Verdadeiros amigos irão levantar-se, apoiá-lo e estar lá para você quando mais precisar. Se você tem um círculo de amigos que critica suas ideias, zomba de seus sonhos ou ignora suas realizações, é hora de cortá-lo de sua vida. Saiba que você merece estar em torno de pessoas positivas que se preocupam com você e querem ver você ter sucesso.

 

10.Não estar feliz

Muitas pessoas estão infelizes dia após dia, vivendo uma vida que as coloca para baixo. Lembre-se que você sempre pode mudar suas circunstâncias. Nunca se contente com uma vida que não te faz feliz. Siga seus sonhos, trabalhe duro e viva suas paixões.

 

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*Fonte: osegredo / David Wolfe

O Silêncio dos Lobos

Pense em alguém poderoso.
Essa pessoa briga e grita como uma galinha ou olha em calmo silêncio, como um lobo?

Os lobos não gritam.

Eles têm uma aura de força e poder. Observam em silêncio.
Somente os poderosos, sejam lobos, homens ou mulheres, respondem a um ataque verbal com o silêncio.

Além disso, quem evita dizer tudo o que tem vontade, raramente se arrepende por magoar alguém com palavras ásperas e impensadas.
Exatamente por isso, o primeiro e mais óbvio sinal de poder sobre si mesmo é o silêncio em momentos críticos.

Se você está em silêncio, olhando para o problema, mostra que está pensando, sem tempo para debates fúteis.

Se for uma discussão que já deixou o terreno da razão, quem silencia e continua a trabalhar mostra que já venceu, mesmo quando o outro lado insiste em gritar a sua derrota.

Olhe… sorria… silencie… vá em frente.

Lembre-se de que há momentos de falar e há momentos de silenciar.

Escolha qual desses momentos é o correto, mesmo que tenha que se esforçar para isso.

Por alguma razão, provavelmente cultural, somos treinados para a (falsa) ideia de que somos obrigados a responder a todas as perguntas e reagir a todos os ataques.

Não é verdade. Você responde somente ao que quer responder e reage somente ao que quer reagir.
Você nem mesmo é obrigado a atender seu telefone pessoal.

Falar é uma escolha, não uma exigência, por mais que assim o pareça.
Você pode escolher o silêncio.

Além disso, você não terá que se arrepender por coisas ditas em momentos impensados, como defendeu Xenócrates, mais de trezentos anos antes de Cristo, ao afirmar:

“Arrependo-me de coisas que disse, mas jamais de meu silêncio.”

Responda com o silêncio, quando for necessário.

Use sorrisos, não sorrisos sarcásticos, mas reais, use o olhar, use um abraço ou use qualquer outra coisa para não ter que responder em alguns momentos.

Você verá que o silêncio pode ser a mais poderosa das respostas.

E, no momento certo, a mais compreensiva e real delas.
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*Fonte: osegredo/Aldo Novak

Você está realmente ouvindo ou só está esperando a sua vez de falar?

Não estou sugerindo de forma nenhuma a apatia. A sugestão é ouvir genuinamente.

Uma vez participei de um exercício chamado “Diálogo”. Essa experiência me mostrou um ângulo que eu nunca havia visto sobre os diálogos do nosso dia a dia.

Regras do exercício: Um tópico era escolhido e todos podiam conversar e opinar sobre o assunto em questão, mas ninguém podia interromper o outro e Cada um tinha até 1 minuto para falar.

Esse foi um dos exercícios mais difíceis que já fiz.

Um assunto bem polêmico foi escolhido e começou o exercício. A vontade de interromper era constante, quando a opinião divergia da minha então, parecia que eu ia morrer se não expusesse a minha visão. E quando eu concordava também! Sentia um enorme impulso de fazer observações sobre o que estava sendo dito, apoiando o discurso. Essa vontade me deixava inquieta como se o mundo estivesse perdendo algo muito grandioso que só eu pudesse acrescentar.

Descobri nesse dia, que essa inquietação era o Ego gritando, pedindo atenção, dizendo: Eu conheço o assunto que você está comentando, tenho uma nova informação que talvez você não conheça, e ainda tenho um fato pra complementar, me ouça!”. E sabe de uma coisa? Todas as vezes que deixei de interromper alguém, esse alguém conseguiu criar um argumento tão completo que realmente todas as informações que eu sentia o dever de compartilhar já não fazia mais sentido algum.

Às vezes o silêncio é a melhor resposta, e sempre o melhor professor.

 

Não era só deixar de falar que era difícil. Ouvir era ainda mais desafiador.

Enquanto outra pessoa estava expondo seus pensamentos, minha mente já estava analisando, julgando e pensando no que falar ao invés de simplesmente ouvir.

Apenas receber as informações sem impor nenhum julgamento sobre elas.

Você já fez isso? É mágico. As palavras deixam de ser ruidosas e não geram julgamentos ou emoções, elas são suaves, apenas nos apontam a informação.

Não estou sugerindo de forma nenhuma a apatia. A sugestão é ouvir genuinamente.

Dê a chance das coisas serem como são antes de transformá-las no que você acha que deveriam ser. Depois de ouvir com neutralidade, sem gerar julgamentos você pode decidir o que fazer ou como se sentir diante do que foi dito, mas não antes disso.

Depois que participei desse exercício, comecei a observar mais as relações e a forma como o diálogo se dava nelas. Percebi uma tendência enorme nas relações modernas: O monólogo em dupla, ou em grupo. Cada um fala de si, sem acrescentar nada relevante a fala do outro e sem o ouvir verdadeiramente.

Recentemente fiz um teste: Chamei 3 amigas para um bar com o pretexto que  “eu precisava conversar”.

E eu não fui verdadeiramente ouvida nenhuma vez. Cada vez que eu expunha um pensamento a pessoa encontrava uma forma de falar de si mesma por associação. Sabe aquela coisa?

– Nossa, briguei com meu namorado! Isso está me deixando tão triste…

– E eu que peguei várias conversas no Whatsapp do Pedro. Tô pior que você, menina!

E já vi conversas seguirem assim por horas, como se competissem pela melhor história, ou por quem tem o problema maior. (repare nas pessoas conversando ao seu redor).

 

A impressão é que ninguém nos ouve mais!

As pessoas andam sufocadas, com uma necessidade, muitas vezes inconsciente, de despejar suas emoções suprimidas. A substituição em massa da fala pelo texto é um dos grandes causadores dessa necessidade demasiada de falar, perdendo-se, consequentemente, a habilidade de ouvir.

Os relacionamentos estão morrendo por mensagem de texto. (e vamos combinar, não somos todos “reis da ortografia”. Como não vai dar treta? Uma vírgula muda tudo!).

Não quero saber.
Não, quero saber.

A interação social humana (ao vivo) é necessária e altamente recomendável para nossa saúde física e emocional. Somos seres sociais, mas não de redes sociais.

Vejo pessoas mais empolgadas de colocar “em um relacionamento sério” no facebook do que estar em um relacionamento realmente, e enfrentar tudo que vem com ele.

As redes sociais que têm nos contado que Fulano vai ter um bebê, ou que Ciclano se mudou para Nova Zelândia. Nos dias de hoje, dificilmente os telefones tocam.

Somos a geração holograma: Temos a ilusão de que estamos cercados de gente, mas atrás da telinha estamos sozinhos, nos comunicando superficialmente, sem conseguir nos tolerar e nos conhecer. Estamos entrando em uma introversão não saudável, fazendo literalmente galerias para expor nossos pontos fortes e gastando toda nossa energia usando máscaras para ignorar nossas sombras.

 

Te proponho um exercício! Da próxima vez que você conversar com alguém se pergunte: Estou realmente ouvindo, ou só estou esperando a minha vez de falar?

 

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*Fonte: osegredo

 

45 lições de vida, escritas por um senhor de 90 anos

1. A vida não é justa, mas ainda é boa.

2. Em caso de dúvida, simplesmente dê o próximo passo.

3. A vida é curta demais pra não se aproveitar dela.

4. Seu trabalho não vai cuidar de você quando estiver doente. Sua família e amigos irão.

5. Não compre coisas que não precisa.

6. Você não precisa vencer todas as discussões. Apenas se mantenha honesto consigo mesmo.

7. Chore acompanhado. É mais edificante que chorar sozinho.

8. Tudo bem ter raiva de Deus. Ele aguenta.

9. Economize para coisas que importam.

10. Quando o assunto é chocolate, resistir é inútil.

11. Faça as pazes com o passado para não cagar o presente.

12. Tudo bem se seus filhos te verem chorar.

13. Não compare sua vida com a dos outros. O caminho deles é diferente do seu.

14. Se um relacionamento precisa ser secreto, você não deveria estar nele.

15. Tudo pode mudar num piscar de olhos, mas não se preocupe, Deus não pisca.

16. Respire fundo. Fazer isso acalma a mente.

17. Se livre de tudo que não for útil. Peso extra te atrasa de muitas maneiras.

18. O que não te mata te fortalece, de verdade.

19. Nunca é tarde demais pra ser feliz, mas isso é responsabilidade sua e de mais ninguém.

20. Quando o assunto é perseguir os amores da sua vida, não aceite não como resposta.

21. Queime  os incensos, use seus melhores lençóis, use roupas íntimas extravagantes. Não guarde essas coisas pra uma ocasião especial. Hoje é

especial.

22. Se prepare bastante, mas quando começar, vá com a onda.

23. Faça loucuras agora mesmo. Não espere ficar velho para vestir púrpura.

24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.

25. Ninguém está na chefia da sua felicidade além de você mesmo.

26. Etiquete cada coisa que chamarem de desastre com o rótulo “Isso vai importar daqui a cinco anos?”

27. Sempre escolha viver.

28. Perdôe, mas não esqueça.

29. O que as outras pessoas pensam não te interessa.

30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo.

31. Não importa se uma situação é boa ou ruim, ela vai mudar.

32. Não se leve tão a sério. Ninguém leva.

33. Acredite em milagres.

34. Deus te ama porque é Deus, não por causa daquilo que você fez ou não fez.

35. Faça o que der pra ser feito agora, agora e não depois, e o que sobrar faça depois.

36. Seus filhos terão apenas uma infância.

37. Ficar velho é melhor que a outra alternativa – morrer jovem.

38. O que mais importa no final é que você amou.

39. Saia de casa todos os dias. Milagres esperam em todos os lugares.

40. Se todos nós jogássemos nossos problemas numa pilha, veríamos os problemas dos outros e pegaríamos os nossos de volta.

41. Inveja é perda de tempo. Aceite o que você já tem, não aquilo que você acha que precisa.

42. O melhor ainda vai aparecer…

43. Não importa como você está se sentindo, se levante, se arrume e compareça.

44. Produza.

45. A vida não vem enrolada com um laço de fita, mas ainda é um presente.

 

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*Fonte: osegredo

A vida é uma sequência de tapas na cara

É isso mesmo. Tapas na cara. Bofetadas estaladas e sem pudor que esfolam a carne das bochechas indefesas.

Não tem jeito, não tem saída. Quando se acha que está tudo bem, ela surge, intrépida, pra provar que “tudo bem” é só uma invenção que dissimula nossas falhas e temores. Se, num momento inocente, o caminho parece reto, é porque ela está na caixa de Pandora engenhando o próximo baile.

Tapas na cara são excelentes para eliminar certezas. O indivíduo está lá, todo convicto de sua estrada, gestando em si um bocado de verdades… Começa a se achar interessante; tocar um projetinho tímido; colocar um pé atrás do outro, numa frágil linha reta… Incauto! O cenário da segurança é o preferido da hospedeira. É porrada para todo lado.

Basta que se descuide das palavras, dos hormônios ou dos sonhos (ou de qualquer das fraquezas humanas). Dar a qualquer desses um instante de autonomia é a certeza de plantar o golpe certeiro. Falar demais é porrada certa. Falar de menos também. Obedecer ao corpo — tão cru, tão vil — é construir o próprio abismo. Dar vazão aos sonhos — esses tolos incansáveis — é subir bem alto só para mirar o vale de cima. O segredo é querer nada para ser livre.

As bofetadas vêm sob formas diversas: um amigo que decide liberar os cachorros, um familiar que cisma de puxar o tapete, uma oportunidade que dá as caras e se recolhe após causar frisson. Pode ser um livro cheio de carapuças prontinhas para ser usadas, ou uma situação embaraçosa que arranca todo mundo da inércia de uma só vez. Pode, ainda, ser a sutil ausência da palavra, aquela plácida nudez carregada de fel, que encontra na pele da cara uma morada incompetente.

Só que a gente, essa manada de bobocas, tem mania de mirar o queixo para o céu. E se levanta, e cospe poeira, e se irrita, e cai do precipício. Mas lá se manda o queixo para o céu de novo. Vai entender. A vida é tapa atrás de tapa. Mas a gente é cara de ferro e um dia entende que muito buscamos porque nada somos.

 

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*Fonte: revistabula/ Lara Brenner

Não agrade os ingratos, nem sirva aos folgados

Passamos muito tempo fazendo a coisa certa para as pessoas erradas, sofrendo as consequências das péssimas escolhas pelo caminho, sofrendo à toa por coisas inúteis e gente sem conteúdo, alimentando vãs esperanças em relação ao que não tem a menor chance de vir a acontecer. Perdemos muito tempo investindo no vazio, esperando retorno do que não volta, aguardando sorrisos de quem nem nos olha direito. É preciso focar no que é real, pois, mesmo que não haja muito de verdadeiro nesses terrenos, esse pouco bastará.

Precisamos parar de tentar agradar aos ingratos, às pessoas descontentes e incapazes de receber algo de fora. Existem indivíduos que se encontram por demais fechados ao acolhimento do que não se encontra dentro deles, do que não faz parte daquele mundinho em que eles se fecham, presos a crenças e sentimentos que não mudam, não são repensados, não saem do lugar. Tentar alcançá-los é inútil.

É necessário evitar a servidão aos folgados, aos aproveitadores, a quem não sai do lugar por si só, a quem foge a qualquer tipo de responsabilidade, pois sabe que alguém sempre fará por ele. Temos que ter clareza quanto ao que realmente devemos e poderemos tomar para nós, ou acumularemos cargas de bagagens que não são, nem de longe, relacionadas às nossas vidas. Muita gente precisa de ajuda, sim, mas muitos precisam é de vergonha na cara.

Não podemos nutrir amizades duvidosas, com pessoas que não expressam a menor necessidade de nós, como se tanto nossa presença quanto nossa ausência fossem a mesma coisa, algo sem importância, invisível, dispensável. Nem todos de quem gostamos irão gostar de nós, o retorno da estima e da afeição nunca é uma certeza, portanto, há necessidade de que adentremos exclusivamente os encontros verdadeiros.

Não é fácil nem tranquilo conseguirmos acertar quanto ao que poderemos regar com a certeza de retorno e reciprocidade, uma vez que as pessoas, os acontecimentos, a vida, tudo é imprevisível. Embora muito do que acontecerá em nossas vidas não possa ser controlado, mantermos sob controle nossas verdades e a certeza de que merecemos ser felizes nos tornará mais fortes diante dos tombos, sem que desistamos de nossos sonhos.

 

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*Fonte: resilienciamag / Prof. Marcel Camargo

A triste geração que precisa ter para ser

Estamos testemunhando a era da ‘ostentação’, onde para ser legal e aceito pela sociedade, é preciso usar roupas caras, produtos importados de última tecnologia, dirigir carrões, que custam uma fortuna, mas que muitas vezes, não condizem com os salários e posições de seus respectivos donos.

Algumas pessoas gastam o que não podem, para fingir uma realidade a qual não pertencem, para muitas vezes, impressionar desconhecidos.

Todo esse conceito de provar que ‘pode’ através de bens materiais ou de tudo aquilo que só o dinheiro pode comprar, está silenciosamente, nos condenando a uma eterna insatisfação, uma tristeza crônica, que muitos acreditam poder curar somente com aquisições financeiras.

Infelizmente, esse tipo de comportamento, é o resultado de uma sociedade fútil, capitalista e que a cada dia mais inverte valores, e nos transforma em zumbis perseguidores do dinheiro.
Quero deixar claro, que o inimigo não é o dinheiro, mas sim a ambição desmedida, e a falsa impressão de que ‘ele’ pode comprar tudo e resolver todos os problemas.

Também não é pecado algum, gastar um dinheiro que é seu, que é consequência do seu esforço e trabalho.

O problema é quando queremos viver um estilo de vida que não condiz com a nossa condição real. Não é feio usar roupas mais baratas ou frequentar lugares mais simples. Feio é gastar mais do que pode, comprar e não conseguir pagar.

Além do mais, saiba que o sentido da vida e a verdadeira Felicidade que você tanto procura, infelizmente não podem ser encontrados nessas banalidades e modismos ridículos.

Não seja produto dessa sociedade cruel, não se torne um ventrículo nesse espetáculo de manipulação.
Estar na moda e ser elegante tem mais a ver com a sua personalidade, sua educação e comportamento, do que com as roupas que você usa.

Luxo mesmo é levar uma vida decente, com dignidade, amor próprio, e uma consciência limpa que não te faz perder nenhuma noite de sono, pensando nas dívidas que fez, para poder finalmente ter a falsa impressão de ser alguém.

Lembre-se que, Ser humano, gentil, educado, humilde, ter paz e saúde, é a única riqueza que ninguém pode, e nunca vai tirar de você.

 

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*Fonte: resilienciamag

Não precisamos de mais tempo. Precisamos de um tempo que seja nosso.

Mia Couto, escritor moçambicano notável por sua prosa poética, cuja força das palavras faz ressurgir em nós o ímpeto de sonhar, nasceu e foi escolarizado na Beira, cidade capital da província de Sofala, em Moçambique – África.

Autor de uma obra literária extensa e diversificada, incluindo poesia, contos, romance e crônicas, Mia tem sido bastante festejado nos últimos anos, tanto no Brasil quanto mundo, tendo sido o ganhador, em 2013, do prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa.

Além de escritor, Mia é biólogo e ativista político, tendo participado da luta pela independência do seu país na década de setenta.

No vídeo abaixo Mia pondera sobre a velocidade característica do mundo contemporâneo, “uma espécie de corrida infrutífera para não ficarmos desatualizados”, que torna tudo efêmero, vazio. “Como é que isso aconteceu?”, se questiona para em seguida responder: “eu acho que foi uma coisa que se chama Mercado”. Confira na íntegra:

 

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*Fonte: pensarcomtemporaneo / Mia Couto

Vivemos na era do narcisismo. Como sobreviver no mundo do eu, eu, eu

Os comportamentos narcisistas nos rodeiam. Famosos que se exibem nas redes sociais, a obsessão pelas ‘selfies’. Fala-se em epidemia, mas, é assim tão preocupante?

Foi o belo e vaidoso Narciso, personagem da mitologia grega incapaz de amar outras pessoas e que morreu por se apaixonar pela própria imagem, que inspirou o termo narcisista. O conceito foi depois reinterpretado por Freud, o primeiro que descreveu o narcisismo como uma patologia. Nos anos setenta, o sociólogo Christopher Lasch transformou a doença em norma cultural e determinou que a neurose e a histeria que caracterizavam as sociedades do início do século XX tinham dado lugar ao culto ao indivíduo e à busca fanática pelo sucesso pessoal e o dinheiro. Um novo mal dominante. Quase quatro décadas depois ganhou força a teoria de que a sociedade ocidental atual é ainda mais narcisa.

Este comportamento parece expandir-se como uma praga na sociedade contemporânea. E não só entre os adolescentes e jovens que inundam as redes sociais. “A desordem narcisista da personalidade –um padrão geral de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia– continua sendo um diagnóstico bastante raro, mas as características narcisistas estão certamente em alta”, explica a psicóloga Pat MacDonald, autora do trabalho Narcissism in the Modern World (narcisismo no mundo moderno). “Basta observar o consumismo galopante, a autopromoção nas redes sociais, a busca da fama a qualquer preço e o uso da cirurgia para frear o envelhecimento”, acrescenta em uma entrevista por telefone.

As pesquisas realizadas a partir de 2009 por Jean Twenge, da Universidade do Texas, são uma das principais referências para as hipóteses mais catastróficas. Depois de estudar milhares de estudantes norte-americanos, a psicóloga proclamou que esses comportamentos tinham aumentado no mesmo ritmo que a obesidade desde 1980” e haviam alcançado níveis de epidemia. Ela publicou dois livros –The Narcissism Epidemic (a epidemia do narcisismo), com Keith Campbell, da Universidade da Geórgia, e Generation Me (geração eu)—, nos quais afirma que os adolescentes do século XXI “se acham com direito a quase tudo, mas também são mais infelizes”.

Os traços narcisistas nem sempre são fáceis de reconhecer e, sendo moderados, não há por que serem um problema. São comportamentos egoístas, pouco empáticos, às vezes um tanto exibicionistas, de pessoas que querem ser o centro da atenção, ser reconhecidas socialmente, que costumam resistir a admitir seus erros ou mentiras e que se consideram extraordinárias (embora sua autoestima seja, na realidade, baixa). Um exemplo extremo, contado por Twenge, é o de uma adolescente que em um reality da MTV tenta justificar assim o bloqueio de uma rua para realizar sua festa de aniversário, sem se importar que haja um hospital no meio: “Meu aniversário é mais importante!”.

“A imagem conta mais do que o que fazemos, e queremos alcançar muitos sucessos sem esforço”, opina o psicanalista J.C. Bouchoux

Em outras ocasiões este tipo de comportamento é mais sutil, mais comum e, às vezes, mais prejudicial. É aquela pessoa que exige uma atenção exagerada a seus comentários e problemas e, se não consegue, conclui que é diferente dos outros e que nunca recebe o respeito que merece. Ou um chefe encantador que, de repente, faz você se sentir culpado por um projeto fracassado que era ideia dele. “Para tampar seus problemas, uma pessoa com elevado nível de narcisismo costuma buscar uma ou duas vítimas próximas, não precisa mais do que isso, mas pode tornar-lhes a vida impossível”, afirma o psicanalista francês Jean-Charles Bouchoux, autor de Les Pervers Narcissiques (os perversos narcisistas), que acaba de ser traduzido para o espanhol e vendeu mais de 250.000 exemplares na França. “Há um aumento do narcisismo porque agora a imagem conta mais do que o que fazemos e porque queremos ter muitos êxitos sem esforço”, opina.

Proliferam os casos na política –é difícil navegar na Internet sem ver o nome de Donald Trump associado ao narcisismo– e na televisão. O assunto fascina, como mostram os índices de audiência dos realities. Talvez a principal novidade sejam as redes sociais, lugar onde os millennials (nascidos entre 1980 e 1997) e os não tão millennials, os famosos e os não tão famosos, transformam o corriqueiro em algo extraordinário. Todos os dias são colocadas no Instagram 80 milhões de fotografias, com mais de 3,5 bilhões de curtidas: “Eu, comendo”, “Eu, com minha melhor amiga”, “Eu em um novo bar”. No Facebook, milhões de usuários dão detalhes de sua vida ao mundo. A Internet está nos convertendo não só em espectadores passivos, mas em narcisistas ávidos pela notoriedade fácil, obcecados por conseguir amigos virtuais e pelo impacto de nossos posts?

Convém ter muito cuidado com as fotos de si mesmo. Nem todos os que tiram selfies são narcisistas, mas um estudo realizado por Daniel Halpern e Sebastián Valenzuela, da Pontifícia Universidade Católica do Chile, concluiu que as pessoas que tiraram mais fotos de si mesmas durante o primeiro ano da pesquisa mostraram um aumento de 5% no nível de narcisismo no segundo ano. “As redes sociais podem modificar a personalidade. Autorretratar-se, quando se é narcisista, alimenta esse comportamento”, explica, por telefone, Halpern. “Nas redes podemos nos mostrar como queremos que nos vejam. Essa imagem perfeita que acreditamos que os demais têm de nós pode alterar a que nós temos de nós mesmos”, adverte. Ter impacto nas redes pode causar dependência e também temor (o medo do vazio de uma postagem sem uma curtida sequer).

Além disso, o narcisismo crescente movimenta dinheiro. Um recente relatório do Bank of America Merrill Lynch calcula que o consumo relacionado com os produtos que nos fazem sentir melhor e tornam possível uma aparência à prova de selfies –chamam a isso de vanity capital– movimenta no mundo 3,7 trilhões de dólares (11,65 trilhões de reais). A lista inclui carros e outros artigos de luxo, cirurgias estéticas, vinhos de qualidade, joias e cosméticos.

Como chegamos até aqui? A inabalável corrida por conquistas pessoais exigida de jovens e adultos explica parte da ânsia narcisista. “A sociedade é hiperdemandante e hiperexigente. Agora, por exemplo, é preciso ter muitos amigos, vivemos hiperconectados. Meu pai não tinha amigos, tinha sua família, e era feliz”, explica Rafael Santandreu, psicólogo e autor de Ser Feliz en Alaska, que vincula o narcisismo –e a frustração que pode provocar– com a depressão, a ansiedade e a agressividade.

Há causas que nascem na infância. As teorias de Twenge tocaram em um nervo cultural ao culpar pais e educadores por terem criado uma geração de narcisistas dizendo-lhes o quanto são especiais, sem se importar com suas conquistas. Um estudo europeu publicado em 2015 na revista PNAS mostra que o narcisismo está relacionado a uma educação parental que sobrevaloriza os filhos, haja ou não fundamento. “São elogiados em excesso e, com o tempo, as crianças se consideram únicas”, explica um dos autores, Eddie Brummelman, do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento Infantil, da Universidade de Amsterdam. “A autoestima é confundida com narcisismo. O que é preciso cultivar é a autoestima, que se consegue com carinho, apoio, atenção e limites”, acrescenta.

Quer dizer que não se deve pensar grande? Não exatamente. Cultivar certo ego saudável é benéfico. É o que afirma Craig Malkin, psicólogo clínico da Escola de Medicina de Harvard. “Um pouco de narcisismo na adolescência ajuda os jovens a suportar a tempestade e o ímpeto da juventude. Só as pessoas que nunca se sentem especiais ou as que se sentem sempre especiais são uma ameaça para elas mesmos ou o mundo. O desejo de se sentir especial não é um estado mental reservado para imbecis ou sociopatas”, afirma em Rethinking Narcissism (repensando o narcisismo).

Craig integra o grupo que considera que a maioria dos estudos sobre narcisismo não tem sido justo com os jovens e que os que falam de epidemia exageram. O Inventário da Personalidade Narcisista, um questionário básico para os pesquisadores do mundo todo, incluindo Twenge, é falho, argumenta Craig. Entre outras coisas, esta ferramenta considera negativo querer ser um líder ou alguém dizer que é decidido. “As pessoas que gostam de dizer o que pensam ou que querem liderar são claramente diferentes dos narcisistas, que costumam recorrer à manipulação e à mentira.” Um exaustivo estudo publicado em 2010 em Perspectives on Psychological Science tenta refutar a teoria da epidemia. Foi realizado com um milhão de adolescentes nos EUA entre 1976 e 2006. Os pesquisadores encontraram pouca ou nenhuma diferença psicológica entre os millennials e as gerações anteriores, a não ser mais autoestima. Em uma tentativa de relativizar o problema, o estudo é aberto com uma frase de Sócrates: “As crianças de hoje [século V a. de C.] são umas tiranas. Contradizem seus pais, engolem a comida e tiranizam os professores”.

De um lado e outro do debate, não parece haver dúvida de que é recomendável fugir das pessoas com elevados níveis de narcisismo. Kristin Dombek resume isso bem em The Selfishness of Others (o egoísmo dos outros), ensaio em que analisa a abundância no mundo virtual anglo-saxão de informações relacionadas com os narcisistas, sobre como reconhecê-los e enfrentá-los: “Um desses blogueiros dizia: o que uma pessoa deve fazer quando conhece um narcisista? Colocar os tênis e sair logo correndo”.

 

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*Fonte / texto: elpais

old-skool-selfie

A vida é dura. Aqui estão seis maneiras de lidar com isso.

Um antigo conjunto de aforismos budistas nos oferecem seis técnicas poderosas para transformar as dificuldades da vida em benefício e caminho para o despertar. O professor zen Norman Fischer guia-nos por elas. Ilustrações de Keith Abbott.

Existe um antigo ditado Zen que diz: o mundo inteiro está de cabeça para baixo. Em outras palavras, o modo como o mundo aparenta ser do ponto de vista comum ou convencional é praticamente o oposto da forma como o mundo realmente é. Existe uma história que ilustra isso.

Havia um mestre Zen que era chamado de Roshi Ninho de Pássaro [Roshi na tradição Zen significa “velho mestre”] porque ele meditava dentro de um ninho de águia no topo de uma árvore. Ele se tornou bastante famoso por conta dessa prática arriscada. Uma vez, o poeta Su Shih (que também era um oficial do governo) da Dinastia Song foi visitá-lo e, parado em pé muito abaixo de onde o mestre meditava, perguntou que tipo de espírito do mal o havia possuído que o fazia viver de forma tão perigosa. O roshi respondeu: “Você chama isso de perigoso? O que você está fazendo é muito mais perigoso!” Viver normalmente no mundo, ignorando a morte, a impermanência e a derrota, as perdas e o sofrimento, como nós rotineiramente fazemos, como se isso fosse um modo normal e seguro de se viver, é na realidade muito mais perigoso do que subir em um galho de árvore para meditar.

Por mais que pareça natural e compreensível tentar evitar as dificuldades, isso na verdade não funciona. Nós achamos que faz sentido nos protegermos da dor, mas nossa autoproteção acaba por nos causar dores mais profundas. Nós achamos que precisamos nos agarrar ao que temos, mas esse próprio ato de agarrar nos faz perder o que temos. Nós estamos apegados ao que gostamos e tentamos evitar o que não gostamos, mas não conseguimos manter o objeto que nos atrai e não conseguimos evitar os objetos que não desejamos.

Então, embora possa parecer contraintuitivo, evitar as dificuldades da vida na verdade não é o caminho de menor resistência; esse é um meio perigoso de se viver. Se você quer ter uma vida plena e feliz, em tempos bons e ruins, você deve se acostumar com a ideia de que encarar o infortúnio de forma direta é melhor do que tentar escapar dele.

Não se trata de focar as dificuldades da vida com austeridade. É simplesmente a forma mais suave possível de acessar a felicidade. É claro que quando pudermos evitar as dificuldades nós o faremos. Pode ser que o mundo esteja de cabeça para baixo, mas nós ainda temos que viver nesse mundo de cabeça para baixo e temos que ser práticos nessas condições. O ensinamento sobre como transformar as circunstâncias difíceis em caminho não nega isso. O que eles apontam é a atitude subjacente de ansiedade, medo e de mentalidade estreita que faz com que tenhamos vidas infelizes, cheias de medo e limitadas.

Transformar circunstâncias difíceis em caminho está associado à prática da paciência. Existem seis frases de treinamento da mente (lojong) conectadas a isso:

    Transforme todos os contratempos em caminho.
    Atribua todas as culpas a um só.
    Seja grato a todos.
    Veja a confusão como o Buda e pratique a vacuidade.
    Faça o bem, evite o mal, aprecie sua loucura, reze por ajuda.
    O que quer que encontre é o caminho.

1. Transforme todos os contratempos em caminho.

O primeiro aforismo, “Transforme todos os contratempos em caminho”, soa completamente impossível à primeira vista. Como você faria isso? Quando as coisas vão bem nós nos alegramos — nos sentimos bem e temos sentimentos espirituais positivos — mas assim que coisas ruins começam a acontecer, nós ficamos depressivos, desmoronamos, ou, na melhor das hipóteses, seguramos firme e lidamos com a situação. Nós certamente não transformamos os contratempos em caminho. E por que o faríamos? Nós não queremos que os contratempos existam; nós queremos que eles desapareçam o mais rápido possível.

“Nós não estamos falando sobre milagres. Nós estamos falando sobre treinar a mente.”

Aqui, o aforismo nos diz que nós podemos transformar tudo isso em caminho. Fazemos isso praticando a paciência, minha qualidade espiritual insuperavelmente favorita. Paciência é a capacidade de dar boas-vindas às dificuldades quando elas chegam, com um espírito de força, resistência, tolerância e dignidade, ao invés de medo, ansiedade e fuga. Nenhum de nós gosta de ser oprimido ou derrotado, no entanto conseguir suportar a opressão e a derrota com força, sem lamentar, nos enobrece. A paciência torna isso possível. Na nossa cultura, nós achamos que a paciência é passiva e sem glamour; outras qualidades como amor e compaixão ou insight são muito mais populares. Mas quando tempos difíceis fazem com que o amor se desgaste e se torne aborrecimento, que a compaixão seja vencida pelo medo e que o insight evapore, aí então a paciência começa a fazer sentido. Para mim ela é a mais substancial, a mais útil e a mais confiável de todas as qualidades espirituais. Sem ela, todas as outras qualidades se tornam instáveis.

A prática da paciência é bastante simples. Quando a dificuldade surgir, perceba as formas óbvias e não tão óbvias com as quais nós tentamos evitá-la — as coisas que falamos e fazemos, os jeitos sutis com que nossos corpos recuam e tensionam quando alguém diz ou faz algo para nós que não gostamos.

Praticar a paciência é notar essas coisas e manter-se ferozmente presente com elas (respirar um pouco ajuda; voltar para a plena consciência do corpo ajuda) ao invés de reagir a elas. Nós nos pegamos fugindo e invertemos o curso, voltando-nos para as emoções aflitivas, entendendo que elas são naturais em tais circunstâncias — e que evitá-las não irá funcionar. Nós evitamos nossa agitação em relação a essas emoções e então permitimos que elas fiquem presentes com dignidade. Nós nos perdoamos por tê-las,  perdoamos (pelo menos provisoriamente) quem quer que estejamos culpando por nossas dificuldades, e com esse perdão espontâneo surge uma sensação de alívio e até mesmo de gratidão.

Isso pode soar um pouco forçado, mas não é. Nós não estamos, no final das contas, falando sobre milagres; nós não estamos falando sobre afirmações ou sobre desejar o impossível. Nós estamos falando sobre treinar a mente. Se você meditasse diariamente, trazendo à mente essa frase, “Transformar todos os contratempos em caminho”, na sua meditação formal, escrevendo-a, repetindo muitas vezes ao dia, então você poderia ver que pode acontecer uma mudança em seu coração e em sua mente exatamente da forma como estou descrevendo. O modo como você espontaneamente reage em tempos difíceis não é imutável.

A sua mente e o seu coração podem ser treinados. Uma vez que você tenha uma única experiência de reagir de forma diferente, você se sentirá encorajado, e, em uma próxima vez, será mais provável que você se pegue pela mão. Quando surgir alguma dificuldade, você treinará para parar de dizer: “Droga! Por que isso teve que acontecer?!” para começar a dizer: “Sim, claro, isso é assim mesmo. Agora eu vou olhar para isso, vou praticar com isso, vou atravessar essa confusão em direção à gratidão.”

Isso porque você terá compreendido que coisas ruins irão acontecer porque você está vivo e não morto, porque você tem um corpo humano e não algum outro tipo de corpo, porque este é um mundo físico e não um mundo etéreo, e porque todos nós juntos como pessoas somos o que somos. Isso é o mais natural, o mais normal, a coisa mais inevitável no mundo. Não se trata de um erro e não é culpa de ninguém. E nós podemos fazer uso disso para aprofundarmos nossa gratidão e nossa compaixão.

2. Atribua todas as culpas a um só.

O segundo aforismo sobre transformar circunstâncias difíceis é famoso: Atribua todas as culpas a um só. Esse também é bem contraintuitivo, bem de ponta-cabeça. O que ele diz é: o que quer que aconteça, nunca culpe alguém ou algo; sempre culpe apenas você mesmo.

Isso é complicado, porque não é exatamente nos culpar em um sentido comum. Nós sabemos perfeitamente bem como fazer para nos culparmos. Nós temos feito isso durante todas as nossas vidas. Nós não precisamos de aforismos budistas para nos mandar fazer isso. Mas claramente não é isso que significa.

“Atribuir todas as culpas a um só” significa que você não pode culpar ninguém pelo o que acontece. Mesmo se for de fato erro de alguém, você não pode realmente culpá-lo. Algo aconteceu, e já que aconteceu, não há nada mais a ser feito a não ser tirar algum proveito disso.

Em tudo o que acontece, seja o desastre que for, e seja quem for que tenha falhado, existe um benefício potencial e sua tarefa é achá-lo. Atribuir todas as culpas a um só significa que você assume total responsabilidade por tudo o que surge em sua vida.

Isso é muito ruim, não era isso que eu queria, isso vai causar muitos outros problemas. Mas o que eu vou fazer com isso? O que eu posso aprender com isso? Como posso fazer uso disso no caminho? Essas são as questões a serem feitas, e respondê-las é responsabilidade totalmente sua. Além do mais, você consegue respondê-las; você tem o poder e a capacidade para isso. Atribuir todas as culpas a um só é uma prática formidável para cortar o antigo hábito humano de reclamar e lamentar, e de achar, do outro lado disso, a força para transformar todas situações em caminho. Aí está. É isso. Não há outro lugar para ir a não ser para o próximo momento. Repita essa frase quantas vezes for necessário.

3. Seja grato a todos.

Seja grato a todos: esta é muito simples mas bastante profunda.

Minha esposa e eu temos um neto. Nós fomos visitá-lo quando ele estava com mais ou menos seis semanas de vida. Ele não conseguia fazer nada, nem mesmo manter sua cabeça firme, muito menos se alimentar. Se ele estivesse em apuros, ele não conseguiria pedir ajuda. Impossibilitado de fazer qualquer coisa por conta própria, ele era completamente dependente dos cuidados e constante atenção de sua mãe. Ela o alimentava, ninava, tentava entender e antecipar suas necessidades e cuidava de tudo, incluindo do seu xixi e cocô.

Nós já estivemos todos exatamente nessa situação e alguém teve que cuidar completamente de nós do mesmo modo. Sem 100% de cuidado de outra pessoa, ou talvez de muitas, não estaríamos aqui. Estes certamente são motivos para sentirmos gratidão a outras pessoas.

“Não poderia haver o que chamamos de uma pessoa sem outras pessoas.”

Mas nossa dependência dos outros não termina aí. Nós não crescemos e então nos tornamos independentes. Agora nós podemos manter a cabeça firme, preparar o almoço, limpar nosso bumbum, e parece que não precisamos que nossa mãe e nosso pai cuidem de nós — então pensamos que somos autônomos.

Mas pense nisso por um momento. Você cultivou o alimento que te sustenta todos os dias? Você produziu o carro ou o trem que te leva para o trabalho? Você costurou suas roupas? Construiu sua própria casa com a madeira que você serrou?

Você precisa dos outros todos os dias, em cada momento da sua vida. É graças à presença e aos esforços dos outros que você tem as coisas que precisa para seguir, e que tem amizade, amor e sentido para a vida. Sem os outros você não é nada.

Nossa dependência dos outros é ainda muito mais profunda que isso. Para começar, de onde vem a pessoa que nós acreditamos ser? Além dos genes, apoio e cuidados dos nossos pais, e da sociedade e de tudo que ela produz para nós, existe toda uma rede de condições e circunstâncias que intimamente nos faz ser o que somos. O que dizer de seus pensamentos e sentimentos? De onde eles vêm? Sem palavras para se pensar, nós não pensamos, nós não temos nada como um sentido de um eu como nós entendemos, e nós não temos as emoções e sentimentos que são moldados e definidos por nossas palavras. Sem a miríade de circunstâncias que nos proporcionaram as oportunidades para a educação, fala, conhecimento e trabalho, nós não estaríamos aqui da maneira que estamos.

Então é literalmente o caso de que não poderia haver o que chamamos de uma pessoa sem outras pessoas. Nós podemos dizer “pessoa” como se pudesse haver tal coisa autônoma, mas na verdade isso não existe. Não há tal coisa como uma pessoa — há apenas pessoas que cocriaram umas às outras durante a longa história da nossa espécie. A ideia de uma pessoa independente, isolada e atomizada é impossível. E aqui não estamos falando apenas sobre nossa necessidade dos outros no âmbito prático. Nós estamos falando sobre nosso mais íntimo sentido de identidade. Nossa consciência de nós mesmos nunca é independente dos outros.

Isso é o que não-eu ou vacuidade significa no ensinamento budista: que não existe tal coisa como um indivíduo isolado. Embora nós possamos dizer que exista e embora nós pensemos que exista, e apesar de muitos de nossos pensamentos e motivações aparentarem estar baseados nessa ideia, na realidade essa é uma ideia errada. Literalmente todos os pensamentos em nossas mentes, cada emoção que sentimos, cada palavra que sai de nossas bocas, tudo o que precisamos para o nosso sustento material a cada dia, vêm através da bondade dos outros e da interação com os outros. E não apenas outras pessoas mas não-humanos também, literalmente toda a Terra, o solo, o céu, as árvores, o ar que respiramos, a água que bebemos. Nós não apenas dependemos de tudo isso — nós somos tudo isso e tudo isso é nós. Isso não é uma teoria, não é um ensinamento religioso. É simplesmente a mais nua realidade.

Então, praticar “Seja grato a todos” é treinar esse profundo entendimento. É cultivar todos os dias esse senso de gratidão, a mais feliz de todas as atitudes. Infelicidade e gratidão simplesmente não podem existir em um mesmo momento. Se você se sente grato, você é uma pessoa feliz. Se você se sente grato por aquilo que é possível para você neste momento, sem importar quais são os desafios, se você se sente grato simplesmente por estar vivo, por ter a capacidade de pensar, de sentir, de manter-se em pé, sentar, andar, falar — se você se sente grato, você é feliz e você maximiza suas chances de bem-estar e de partilhar a felicidade com os outros.

4. Veja a confusão como o Buda e pratique a vacuidade

O quarto aforismo, “Veja a confusão como Buda e pratique a vacuidade”, requer um pouco de explicação. Isso vai além do nosso entendimento convencional ou relativo, em direção a um sentido mais profundo do que nós somos. Embora convencionalmente eu seja eu e você seja você, de uma perspectiva absoluta, aos olhos de Deus, se preferir, não há o eu e não há o outro. Há apenas o existir, e existe apenas amor, compartilhado por si só calidamente e sem impedimentos. Só acaba parecendo haver um eu e você para nós porque é assim que nossas mentes e aparatos sensoriais funcionam. Esse amor sem limites é a prática da vacuidade.

“Veja a confusão como Buda e pratique a vacuidade” significa que nós nos situamos de forma diferente em relação à nossa confusão humana comum, à resistência, à dor, ao medo, à mágoa, e assim por diante. Ao invés de desejar que essas emoções e reações por fim desapareçam e que nos livremos delas, nós as levamos a um nível mais profundo. Nós olhamos para sua realidade subjacente.

O que realmente está acontecendo quando estamos chateados ou com raiva? Se pudéssemos nos desprender por um momento do ato de culpar, do desejo e da auto-piedade e então olhar para a base real do que está de fato acontecendo, o que veríamos? Nós veríamos o tempo passando. Nós veríamos as coisas mudando. Nós veríamos a vida surgindo e passando, vindo de lugar nenhum e indo para lugar nenhum. Momento a momento, o tempo escapa e as coisas se transformam. O presente se torna o passado — ou ele se torna o futuro? E, ainda assim, no momento presente não há passado nem futuro. Assim que examinarmos o “agora”, ele terá ido embora. E nós não temos como saber como ou para onde ele vai.

Isso pode soar como filosofia, mas não parece filosofia quando você ou alguém próximo a você está dando à luz. Se nesse momento você está sentado na sala de espera ou está você mesma, em meio à dor e à alegria, está dando à luz — nesse primeiro momento de explosão, você fica maravilhada. Essa vidinha que você achava que estava vivendo, com suas várias questões e problemas, desaparece completamente frente ao milagre da vida visceral brotando na frente dos seus olhos. Ou se você está presente quando alguém deixa este mundo e entra na morte (se é que existe um lugar para entrar), você sabe então que esse vazio não é somente filosofia. Você pode não saber o que é, mas você saberá que é real. Você sabe que essa realidade é poderosa e faz com que você olhe para a sua vida, e para a vida como um todo, de forma bastante diferente. Surge um novo contexto que é mais que um pensamento, mais que um conceito. Quando você olha para seus problemas humanos diários à luz do nascimento e da morte, você está praticando esse aforismo. Cada momento da sua vida, até mesmo (e talvez especialmente) seus momentos de dor, desespero ou confusão, é um momento de buda.

Então esteja presente em momentos de nascimento e de morte sempre que possível e aceite esses momentos como presentes, como oportunidades para a profunda prática espiritual. Mas mesmo quando você não estiver participando desses momentos de pico, você pode repetir e rever essa frase, e você pode meditar sobre ela. E quando sua mente estiver emaranhada na confusão, você pode respirar e tentar escorregar para o que está por debaixo do desejo e da confusão. Você pode perceber que nesse exato momento o tempo está passando, as coisas estão se transformando e que esse fato impossível é profundo, bonito e alegre, mesmo que você continue com sua angústia.

5. Faça o bem, evite o mal, aprecie sua loucura, reze por ajuda.

Agora os aforismos nos trazem de volta à terra. Se os ensinamentos espirituais existem para realmente transformar nossas vidas, eles precisam oscilar (como esses aforismos fazem) entre dois níveis, o profundo e o mundano. Se a prática é muito profunda, isso não é bom. Nós estamos cheios de insights maravilhosos e elevados, mas nos falta a habilidade de atravessar o dia com alguma graciosidade, ou de nos relacionarmos com os problemas e as pessoas na vida comum. Nós podemos ser sublimemente metafísicos, tocantemente compassivos, e ainda sermos incapazes de nos relacionarmos com um ser humano normal ou com um problema mundano. Esse é o momento em que o mestre Zen nos golpeia com seu bastão e diz: “Lavem suas tigelas! Matem o Buda!”.

Por outro lado, se a prática é muito mundana, se nós nos tornamos demasiadamente interessados nos detalhes de como nós e os outros nos sentimos e o que nós ou eles precisam ou querem, então a natureza elevada de nossos corações não estarão acessíveis e nós afundaremos com o peso das obrigações, dos detalhes e das preocupações do cotidiano. Este é o momento em que o mestre diria: “Se você tiver uma bengala, eu te darei apoio; se você precisar de uma bengala, eu a tirarei de você.” Nós precisamos tanto da filosofia religiosa profunda quanto das ferramentas práticas para o dia-a-dia. Essa necessidade dupla, de acordo com as circunstâncias, parece sempre acompanhar o ser humano. Nós estivemos contemplando a realidade como o Buda e praticando a vacuidade. Isso foi importante. Agora é hora de voltar para a terra.

Primeiro, faça o bem. Tenha ações positivas. Diga oi para as pessoas, sorria para elas, diga feliz aniversário, sinto muito pela sua perda, há algo que eu possa fazer para ajudar? Estas coisas são gentilezas sociais comuns, e as pessoas dizem isso o tempo todo. Mas praticá-las intencionalmente é trabalhar um pouco mais duro para que sejam realmente sinceras. Nós genuinamente tentamos ser úteis, gentis e atenciosos de formas simples e grandiosas todos os dias do jeito que conseguirmos.

Segundo, evite o mal. Isso significa prestar mais atenção em nossas ações de corpo, fala e mente, notando quando nós fazemos, falamos ou pensamos coisas que são prejudiciais ou indelicadas. Tendo chegado até aqui com o treinamento da mente, nós não temos como não notar nossos momentos ordinários ou maldosos. E quando notamos, nos sentimos mal. No passado nós poderíamos ter dito para nós mesmos: “Eu só disse isso porque ela realmente precisa se endireitar. Se ela não tivesse feito isso comigo, eu não teria dito aquilo para ela. Foi realmente culpa dela.” Agora nós vemos que essa é uma forma de nos protegermos (afinal de contas, nós acabamos de praticar “Atribua todas as culpas a um só”) e almejamos aceitar a responsabilidade pelas nossas ações. Então nós prestamos atenção nas coisas que falamos, pensamos e fazemos — não obsessivamente, não de um modo perfeccionista, mas apenas naturalmente e com generosidade e compreensão — e finalmente nós nos purificamos de boa parte dos pensamentos e palavras pouco generosos.

As duas últimas práticas deste aforismo, que eu interpretei como “Aprecie sua loucura” e “Reze por ajuda”, têm tradicionalmente relação com fazer oferendas para dois tipos de criaturas: demônios (seres que estão te impedindo de manter-se determinado em sua prática) e protetores do Darma (seres que estão te ajudando a permanecer sincero na sua prática). Mas para nossos propósitos neste momento é melhor vê-las de forma mais geral.

Nós podemos entender as oferendas a demônios como “aprecie sua loucura”. Reverencie suas próprias fraquezas, sua própria loucura, sua própria resistência. Congratule-se por elas, as aprecie. Isso é de fato uma maravilha, o quanto nós somos egoístas, confusos, preguiçosos, ressentidos e assim por diante. Nós adquirimos essas coisas com honestidade. Nós fomos bem treinados para manifestá-las a cada momento. Esse é o prodígio da vida humana transbordando, é o efeito da nossa criação, da nossa sociedade, que nós apreciamos até mesmo quando estamos tentando domá-las e gentilmente convencê-las a manifestar o bem. Então nós fazemos oferendas aos demônios dentro de nós e desenvolvemos um senso de apreciação bem-humorada de nossa própria estupidez. Estamos em boa companhia! Podemos rir de nós mesmos e de todo o resto.

Ao fazermos oferendas para os protetores do Darma, nós rezamos a qualquer força, que nós acreditamos ou não, para nos ajudar. Quer imaginemos uma deidade ou um Deus ou não, nós podemos buscar algo além de nós mesmos e além de qualquer coisa que possamos descrever objetivamente e pedir por ajuda e força para o nosso trabalho espiritual. Nós podemos fazer isso em meditação, com palavras silenciosas ou em voz alta, verbalizando nossas esperanças e desejos.

A oração é uma prática poderosa. Não é uma questão de abandonar a nossa própria responsabilidade. Nós não estamos pedindo para sermos liberados da necessidade de agir. Nós estamos pedindo ajuda e força para fazer o que nós sabemos que precisamos fazer, com o entendimento de que embora nós precisemos dar o nosso melhor, qualquer coisa benéfica que surja em nosso caminho não é realização nossa, produção pessoal nossa. Isso vem de uma esfera mais ampla do que podemos controlar. Na verdade, é contraproducente conceber a prática espiritual como uma tarefa que vamos realizar sozinhos. Afinal de contas, já não praticamos o “Seja grato a todos”? Nós já não aprendemos que não há como fazer nada sozinho? Afinal de contas, estamos treinando uma prática espiritual e não uma auto-ajuda pessoal (embora esperemos que isso nos ajude, e provavelmente ajudará). Então, não apenas faz sentido rezar por ajuda, não apenas aparenta ser poderosamente certo e bom fazê-lo, isso é importante também para que possamos lembrar que não estamos sozinhos e que não podemos fazer nada sozinhos.

Seria natural esquecermos este ponto, cairmos no hábito de imaginarmos uma autossuficiência ilusória. As pessoas frequentemente dizem que budistas não rezam porque o budismo é uma tradição ateísta ou não-teísta, que não reconhece Deus ou um Ser Supremo. Tecnicamente isso pode estar correto, mas a verdade é que budistas rezam e sempre rezaram. Eles rezam para toda uma panóplia de budas e bodisatvas. Até mesmo zen-budistas rezam. Rezar não requer uma crença em Deus ou deuses.

6. O que quer que encontre é o caminho

Esse aforismo resume os outros cinco: o que quer que aconteça, bom ou ruim, faça com que isso seja parte da sua prática espiritual.

Na prática espiritual, que é a sua vida, não há intervalos nem erros. Nós seres humanos estamos sempre realizando uma prática espiritual, saibamos disso ou não. Você pode pensar que perdeu o fio de sua prática, que você estava indo muito bem e então a vida ficou muito ocupada e complicada e você perdeu o rumo do que estava fazendo. Você pode se sentir mal por causa disso, e esse sentimento se alimenta de si mesmo, e torna-se cada vez mais difícil de voltar para o trilho.

Mas isso é apenas o que você pensa; não é isso que está acontecendo. Uma vez que você começa a praticar, você está sempre prosseguindo, porque tudo é prática, até mesmo os dias ou as semanas ou as vidas inteiras em que você esqueceu de meditar. Mesmo assim, você está praticando, porque é impossível se perder. Você está constantemente sendo achado, sabendo disso ou não. Praticar esse aforismo é saber que, não importa o que esteja acontecendo — não importa quão distraído você pense que esteja, não importa o quanto você se sinta um indivíduo terrivelmente preguiçoso que perdeu completamente o rumo de suas boas intenções e está agora irremediavelmente perdido — ainda assim você tem a responsabilidade e a capacidade de pegar toda essa negatividade, circunstâncias adversas e dificuldades e transformá-las em caminho.

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*Fonte/textos: budavirtual/Norman Fischer

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E se você acordasse amanhã apenas com as coisas que agradeceu hoje?

Hoje meditei sobre a gratidão, e como ela influencia em vários aspectos de nossa vida. A gratidão tem o poder de se transformar em plenitude e abundância. A gratidão atrai bons pensamentos, energias positivas e traz leveza ao coração.

Quantas vezes dedicamos horas a sofrer com algum problema, algo que deu errado. Quantas vezes dedicamos uma postagem em uma rede social a reclamar de um dia de chuva, ou de sol, ou de nuvens. O ser humano não sabe para aonde vai e onde quer chegar; gasta energia com situações que o levarão a lugar nenhum.

Não temos tempo para nada, para nossa família, para os amigos. Não encontramos tempo para ler um livro, assistir a um filme, ou vivenciar  situações que nos conecte com nós mesmos. Passamos os dias justificando nossas ações, buscando culpados, nos vitimizando quando somos colocados contra a parede. Quando somos ‘vítimas’  automaticamente nos voltamos contra todo o sistema. Nessa posição, de coitados, não enxergamos um “palmo diante do nariz’.

 

O mendigo nu

“Alexandre, o Grande, encontrou Diógenes que era um mendigo nu, com apenas uma lâmpada, sua única posse. E mantinha sua lâmpada acesa mesmo durante o dia. Ele se comportava de maneira muito estranha, e Alexandre teve de lhe perguntar: – Por que está mantendo essa lâmpada acesa durante o dia? Diógenes levantou sua lâmpada, olhou para o rosto de Alexandre e disse: ‘Estou procurando pelo homem honesto dia e noite e não o encontro’.

Alexandre ficou chocado por um mendigo nu poder dizer esse tipo de coisa a ele, um conquistador do mundo. No entanto ele notava que Diógenes era muito belo em sua nudez. Os olhos eram tão serenos, o rosto tão pacífico, suas palavras tinham tanta autoridade, sua presença era tão tranquila que o próprio Alexandre parecia um mendigo ao lado dele. Ele escreveu em seu diário: ‘Pela primeira vez senti que a riqueza é algo diferente de ter dinheiro. Eu vi um homem rico’”. (Paráfrase)

 

E se dedicássemos a mesma energia da ingratidão à gratidão?

Eu faço essa pergunta e peço que reflita um pouco sobre a história de Alexandre, o Grande, e Diógenes que foi um grande filósofo que perambulava por Atenas com uns trapos e sua lâmpada.

Note que ele se apresenta simples diante dos olhos dos outros, mas há uma linha de pensamento grandiosa. Estar grato é muito maior que simplesmente agradecer ao porteiro do prédio por abrir a porta do elevador para você. Ser grato é maior que tudo isso. É, ao mesmo tempo, ser e agradecer pelo que tem e pelo que é. Usamos nossa energia para pedir, reclamar, justificar. E se dedicássemos a mesma energia da ingratidão à gratidão?

 

Agradecer é a forma mais limpa e forte de se conectar com o Divino

Para que nossos desejos sejam manifestados precisamos estar em sincronia com as Leis Universais. A sincronicidade não é um fenômeno que apresenta somente soluções grandiosas, espetaculares. Ela se apresenta no dia a dia em nossa vida – em detalhes – como aquele chinelo “esquecido” na porta de casa, justo naquele dia chuvoso em que tudo que você precisava era tirar os sapatos. Ou como aquele abraço, vindo de uma pessoa querida, naquele dia em que parece que tudo dera errado.

Agradecer é a forma mais limpa e forte de se conectar com o Divino. Tenha certeza de que quanto maior nossa gratidão mais bênçãos de amor, alegria, paz, virtudes positivas e prosperidade Ele nos enviará. A gratidão tem o poder de transformar nossa vida despetalando-a em plenitude.

As pessoas costumam procurar a fórmula da felicidade e não sabem que ela existe. Quando agradecemos cada momento feliz e lhe dedicamos ao menos cinco minutos, cultivamos a felicidade abrindo espaço para que ela seja parte de nossa vida. Quando buscamos uma vida plena precisamos dedicar tempo a ela, o mesmo tempo que normalmente dedicamos a reclamações e justificativas. O mesmo tempo poderia ser colocado para os momentos de plenitude e felicidade.

 

Matéria e a realidade podem ser alteradas pelos nossos pensamentos

Estudos da Física quântica confirmam que a matéria e a realidade podem ser alteradas pelos nossos pensamentos. A Lei da Atração, um dos cinco princípios fundamentais da existência nos diz que “semelhante atrai semelhante.” É uma prova científico de que os pensamentos são energia. Os neurônios em nosso cérebro produzem pensamentos. Se a energia segue a energia, então a energia segue o pensamento, e a gratidão segue a abundância.

(…)Dedique alguns minutos a refletir sobre o por que é grato. A gratidão transforma negação em aceitação, caos em ordem, confusão em clareza; uma refeição em um banquete, uma casa em um lar, um estranho em um amigo.

Finalizo com Brian Tracy: “Desenvolva uma atitude de gratidão e dê graças por tudo o que acontece com você, sabendo que cada passo em frente é um passo para alcançar algo maior e melhor do que a sua situação atual”.

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*Fonte: portalraizes / Queli Rodrigues

O pescador mexicano

Um turista passava suas férias no litoral, quando reparou em um pequeno barco na areia, que tinha acabado de voltar do mar.
Curioso, aproximou-se do pescador e perguntou:

-”Bom dia! Quanto tempo o senhor leva para pegar esses peixes?”
-”Não muito”.
-”Então por que o senhor não fica mais tempo no mar, pra pegar mais?”

O pescador explica que aquela quantidade é suficiente para suas necessidades, para cuidar da família.

-”Mas aí o senhor fica fazendo o que com o tempo que sobra?” insiste o turista.
“Ah, sei lá, depois de pescar eu arrumo minhas coisas, leio um pouco, brinco com meus meninos. Depois fico com a minha mulher… aí no fim do dia gosto de ficar vendo o sol baixar na água, depois encontro com uns camaradas meus lá na vila… vou curtindo a minha vidinha aqui”

O turista começa a enxergar um potencial enorme escondido naquela prainha e naquele pescador e interrompe animado:

-”Pois eu posso ajudar o senhor a ter uma vida boa de verdade! Vou explicar: eu sou um empresário muito bem sucedido, estudei nas melhores escolas e sei reconhecer um bom negócio. Isso aqui vale ouro. O senhor tem talento e juntos podemos transformar isso tudo”.

O pescador espreme os olhos, presta atenção e ele continua.

– “A gente faz assim: primeiro o senhor vai passar mais tempo pescando, vamos otimizar essa captação. Depois, esse volume adicional de peixes nós vamos trabalhar, vamos capitalizar. Rapidinho vai dar para investir em um barco maior. Um não, dois. Três até! Vamos ancorar uma frota inteira aqui. Nosso ROI vai ser fenomenal e vamos parar de vender para o mercado local. Pensar grande! A gente cria um site, monta um network poderoso, viraliza isso tudo e faz umas aproximações com as grandes fábricas. Ou melhor ainda, a gente arruma um angel pra montar nossa própria fábrica! Gênio! Gênio!”

-”Puxa!”, diz o pescador.
-”Peraí, tem mais! Depois dessa estruturada vamos cuidar da sua vida também! O senhor vai poder deixar esse vilarejozinho e ir morar em uma cidade grande, em uma casa enorme, com um carrão na garagem, hein? Já pensou? Viajar pro exterior…
-”E depois?” pergunta o pescador.
-”Depois? Ah… depois o senhor simplesmente vai ficar mi-li-o-ná-ri-o”
-”Milionário? Sério? E depois disso?
-”Seríssimo! Depois… ah… aí o senhor vai poder se aposentar… viver pro resto da vida de frente pro mar… pé na areia… ficar sossegado num vilarejo bonito… com seu barquinho particular… pescar uns peixinhos… ler na rede… ficar com sua esposa e com seus filhos… e passar as noites se divertindo com seus amigos…”

* (baseada na história “Pescador mexicano”, autor desconhecido.)

pescadormexicano

 

 

 

 

 

 

 

Viver é se despedir um pouco de nós mesmos

Essa vida é mesmo surpreendente. Em uma única existência somos capazes de viver e sobreviver a diversas fases, sob a sorte e a falta dela que nos unge os dias. De uma forma concisa eu poderia dizer que viver é uma sucessão de erros e acertos, de tropeços e saltos, afogamentos, resgates, onde só desfrutamos e valoramos as subidas depois que despencamos ladeira abaixo. E como toda história tem dois lados, na vida não poderia ser diferente. A gente só percebe a vitória e a derrota quando estamos no topo, ou no poço.

Acredito que nós, seres humanos, somos providos de uma força sobre-humana para aguentar tanta pedrada que a vivência insiste em mandar. É incrível a nossa capacidade de cair e levantar, de reformular por dentro, sangrar e estancar, ressurgir. Somos feitos de partículas de persistência, átomos de dedicação, moléculas de crença, células de esperança. Quanto mais nos entregamos e mergulhamos em nossos motivos, mais reforçamos o nosso propósito de viver. Acontece que, vez ou outra, vem uma paulada pelas costas, um tombo violento e esparramado, uma bala perdida que nos encontra na escuridão. Então morremos. Para, depois, nascermos de novo.

A vida é cheia de ciclos… E para começar um é preciso encerrar o outro. Por isso morremos tantas vezes durante tantos anos. A prova viva da morte está no fim cruciante de um relacionamento amoroso, no vazio assustador do abandono físico, na escassez de alguém ali, que nos ame, ou que ao menos nos suporte. Está na falta de emprego e perspectiva, na despensa vazia, na ordem de despejo, na saúde fragilizada e apavorada, na despedida de uma alma querida. Quando perdemos tudo, o que nos resta é recomeçar do nada. Precisamos morrer para renascer, assim como o mito da Fênix, que antes da sua morte entrava em combustão para depois renascer das próprias cinzas. Somos assim. Aves tão fortes que conseguimos carregar elefantes. Nossas lágrimas não só expelem alívio, como também têm o poder de cura.

A verdade é que os golpes da vida nunca são gentis, muito menos educados ao ponto de anunciar a chegada. Ao lançar-nos no chão parece que um buraco se abre e nos engole, mastiga, degusta e então, cospe. Do que sobra de nós é preciso dar forma e pôr de pé. Morre um para nascer outro, indiscutivelmente mais resistente. Desse jeito, toda vez que recebemos uma pancada desnorteante nos despedimos de um pouco de nós, um fio de esperança se perde, um bocado de confiança vaza, um tanto de boa fé escorre. É possível que nos recuperemos adiante, embora algumas vezes isso não aconteça. Morremos.

Como a Fênix, cessamos em nossa autocremação de dores, de ódio, indignação e sensação de incapacidade, um mistura de venenos que nos corrói e nos traz de volta à terra. É com base na junção de algumas mortes passadas e futuras vidas que eu digo: Deve-se cortar para florescer, é preciso morrer para voltar a viver.

Então, do pó ressurgimos, amedrontados, cambaleando, abrindo os olhos e as asas, sacudindo a poeira. Enchemos o pulmão de ar para arriscar um primeiro voo, ainda contido e baixo, mas consumidos de uma força maior acreditada em nossas capacidades e virtudes. Aos poucos, nos enchemos de esperança e de coragem para alçar novas manobras e riscar outros horizontes.

Não adianta. A nossa força oriunda das quedas. É por isso que as feridas são imprescindíveis para o crescimento, por mais que nos regalem certa rigidez ao casco. É a capacidade de recomeçar dentro de nós mesmos que nos permite viver outra vez. Somente dessa forma recuperamos a nossa vida.

Quando a alegria decorrer em tristeza, quando a leveza se transformar em pesar, é o momento de desprender-se outra vez. E outra, e outra, e outra. Quantas forem necessárias. Em busca da felicidade vamos, endurecendo-nos, mas sem perder a ternura. Jamais.

*Texto (Karen Curi): revistabula

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Pessoas que riem de tudo são mais livres

Nem tudo parece desejo e desespero. Eu respondi que não estava interessado em me divertir um pouquinho em troca de cinquenta pilas. Estava um calor infernal naquela tarde, portanto, fiz uma contraproposta. Ofereci a ela um picolé de groselha. Ao contrário do que vocês possam imaginar — e até desejar — , ela não mandou que eu o enfiasse no rabo. Sorriu sem economia, aceitou o mimo e as negociações de alcova morreram ainda no nascedouro.

Estávamos sentados no banco de um agitado parque da cidade. Tinha um monte de crianças correndo pra todo lado. Tudo parecia estranhamente feliz e promissor. Eu quis saber mais sobre ela. Contou-me que tinha 20; seu filho, 7. Nunca fui muito bom em matemática, mesmo assim, fiz a subtração de cabeça e concluí — bravo! — que ela dera à luz aos 13. Achei aquilo prematuro e triste. Ela riu da minha cara de besta. O corante de groselha deixava seu sorriso ainda mais rubro, vivo e encantador. Fiquei lamentando por que ela não procurava algo menos degradante para se manter viva no jogo. Ah, como somos estranhos…

Aquilo parecia um picolé de pinga, uma espécie de soro da verdade congelado, pois ela desatou a tagarelar sobre si mesma. Esse meu jeito de bom ouvinte, de “ombro amigo”, atrai muita gente complicada. Confessou, por exemplo, que nos anúncios classificados dos jornais fazia questão de ressaltar que, além de novata no ramo, era universitária — embora não fosse. Isso parecia atrair a atenção dos homens mais velhos como eu, foi o que ela disse. Puro marketing de guerrilha. Na impura vida real, abandonou a escola no quinto ano do ensino fundamental. Achei fundamental bisbilhotar mais sobre o seu passado e entender aquela história de maternidade aos 13 anos. “Foi rola de primo”, ela disse e quase rolou de rir no gramado. Não achei graça nenhuma. Era um comentário grosseiro.

Ela contou que não conhecia o pai nem por fotografia. Tinha dois irmãos, cada um deles de um reprodutor diferente. Certo dia, sua mãe acabou se apaixonando por um motoboy que propôs juntassem os trapos. Parecia, finalmente, uma boa possibilidade de ser feliz. Sem pensar muito, a mulher topou a provocação e foi comer sal no mesmo prato com o seu novo amor. Levou junto os três filhos: dois meninos e uma menina — a minha doce, extrovertida, extravagante interlocutora.

Quando foi morar com o padrasto, somava 12 anos. Não demorou muito, o sujeito tomou apreço desvirtuado por ela — “Carne nova na área, amigão” , era aquele tipo de homem que conversava com o próprio pênis — e cismou que precisava transar com ela o mais rápido possível, antes que outro espertinho o fizesse. Sentia muita atração pela enteada.

Quando percebeu que seria atacada pelo sujeito, juntou todo o seu patrimônio material, enfiou dentro de uma sacola de supermercado e vazou. A mãe ficou apavorada ao supor que algum maníaco tivesse raptado a filha. Então, rezou muito para Deus, chorou no ombro do canalha amado, e pediu que anunciassem o sumiço da menina na rádio e no alto-falante da igreja.

Foi morar na casa da avó materna, que já tinha rompido relações com a filha por causa da sua mania de fazer filhos em série com homens que não eram homens. A velhota era viúva, geniosa, sofria de premonições e morava com outro neto, um rapazote de vinte e tantos anos. Ninguém é perfeito, mesmo sendo uma avó com sexto sentido. Portanto, não previu o que sucederia debaixo do próprio teto e nariz. Demorou quase nada, o marmanjo ficou caidinho pela prima. Com muita simpatia, jeito e presentinhos, acabou traçando a menina antes mesmo que ela conseguisse soletrar “Brasil, Pátria Educadora”. Foi o prazo da menstruação sumir, o safardana também sumiu.

Ao notar que a neta andava barriguda além da conta, a senhorinha receou que se tratava de bolo de lombrigas ou um furioso cisto ovariano a crescer nas suas entranhas infantis. Achou aquilo danoso e a levou até um postinho de doenças da prefeitura, onde ouviu do médico cubano que a menina tinha entrado pelo cano, e que o tal cisto, na verdade, possuía braços, pernas e um ânus — nasceria antes das doze badaladas dos sinos no final daquele ano.

Enquanto contava, ia rindo muito das próprias mazelas e deixando respingar gotas de groselha na sua camiseta com os dizeres “Vai ter poesia”. Pra mim, sua reação não soava como desespero, mas sim, libertação. Lembrei-me do poema “Desejo”, do escritor francês Victor Hugo, e cheguei a inferir que ela fosse uma espécie de ser humano superior. Sua alegria superava meu entendimento. Certamente, eu não estava a sua altura. Havia muito brilho, graça e visgo naquele olhar. Era uma das criaturas mais fascinantes e livres com quem eu tinha conversado nos últimos tempos. Tanto assim que partiu voando do meu “ombro amigo”, dentro da tarde quente de domingo.

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sorrisos111

 

 

 

 

 

 

 

Fonte / Texto: revistabula

 

 

O fim da propriedade

Na canção I Get Around, os Beach Boys iam de cidade em cidade arrasando brotinhos a bordo de seu carango que nunca fora batido. Onde houvesse música jovem nos anos 60 e 70, lá estaria o carro, símbolo máximo de independência. Beatles com Drive My Car, Deep Purple com Highway Star. Mas algo mudou. Desde 1990, jovens de países desenvolvidos como Reino Unido, Alemanha e Japão têm dirigido cada vez menos. O fenômeno até ganhou um nome japonês – kuruma banare, ou desmotorização. Uma década depois, veio o impensável: o kuruma banare americano. De 2001 a 2009, os jovens dirigiram 23% menos, andaram 24% mais de bicicleta, 16% a pé e 40% de transporte público nos EUA. Mesmo aqueles com renda familiar acima de US$ 70 mil anuais dobraram seu gasto com transporte público de 2001 a 2009.

É verdade que a crise econômica global tem seu papel aí – sem grana, jovens deixam para depois o casamento, os filhos e o financiamento da casa própria. Em vez disso, alugam um apartamento perto do transporte público, do trabalho, das compras e da diversão – ou simplesmente ficam na casa dos pais e continuam a pegar o carro do velho, como faziam aos 18 anos. Talvez eles voltem ao subúrbio quando a economia melhorar. Ou talvez não. Isso porque, junto com a economia, as aspirações de consumo entre os jovens urbanos de classe média também mudaram.

“O automóvel passou a ser identificado como um produto antigo – afinal, seus avós e pais já tinham um carro na garagem”, diz Adriana Marotti, professora da Faculdade de Economia e Administração da USP e pesquisadora de novas tecnologias na indústria automotiva. “Além disso, não tem o mesmo apelo tecnológico de smartphones e tablets, e é considerado vilão em questões ambientais.” Isso, somado aos custos de propriedade do veículo – impostos, combustível, estacionamento – e à grande disponibilidade de transporte público, faz o automóvel perder o apelo para os jovens em países desenvolvidos.

Algo parecido acontece com a casa própria. Nos EUA, três em cada dez adultos entre 25 e 34 anos moram com os pais, o número mais alto desde a década de 1950, segundo um relatório do Pew Research Center. E isso é pouco perto do que acontece na Itália, onde um em cada quatro adultos entre 30 e 44 anos vive com a “mamma”. Com o financiamento da faculdade, o salário inicial baixo no início de carreira e a vida de solteiro alargada, voltar para a casa dos pais depois da faculdade virou o caminho natural. Mesmo entre os que saem do ninho, o aluguel passa a ser mais atraente do que a casa própria. Novamente, a culpa não é apenas da crise econômica – o fenômeno, que pode ser observado em outros países desenvolvidos, começou já nos anos 80, embora tenha se acentuado depois de 2008.

E quais são os desejos dessa geração? Investir não em coisas, mas em si. O dinheiro que seria gasto com carro e casa é repartido em cursos (o principal motivo para americanos não saírem de casa é que estão pagando o financiamento da universidade), viagens (jovens fazem 190 milhões de viagens internacionais e, segundo a ONU, isso vai subir para 300 milhões em 2020), shows de música (de 1999 a 2009, a venda de ingressos nos EUA subiu de US$ 1,5 bilhão para US$ 4,6 bilhões), jantares, espetáculos bacanas, saltos de paraquedas… O jovem urbanita não precisa necessariamente de um carro para sair azarando, mas de um smartphone para saber onde se dará bem e de um táxi ou transporte público para chegar até lá. Voltemos ao pesadelo do carro. Se somarmos IPVA, seguro e depreciação de um carro popular, teremos algo por volta de R$ 6 mil em um ano – sem contar manutenção e combustível. Com esse dinheiro, dá para comprar uma passagem de ida e volta para a Alemanha (R$ 2 mil), cinco noites num hotel simples (R$ 500), ter fundos para comer e se divertir (R$ 1 mil) e, de quebra, mais dois dias de aluguel de um Porsche para dirigir sem limite de velocidade pelas Autobahnen (R$ 2 500). Agora, qual foto renderá mais “curtir” no Facebook – você lavando o carro 1.0 na frente de casa ou você ao volante do Porsche alugado? Pois é, o que conta na hora de compartilhar não é o “eu tenho”, mas contar: “Vim, vi e vivi”.

Para ter acesso às coisas sem precisar possuí-las, jovens começam a substituir a propriedade por serviços ou trocas. Isso deu espaço para um novo tipo de mercado, que teve seu embrião no fim da década de 1990, com o compartilhamento de músicas nos tempos do Napster, encontrou o meio ideal em meados dos anos 2000, com o Ebay e as redes sociais, e teve finalmente uma motivação econômica com a crise de 2008 – a economia do compartilhamento. Com a ajuda de sites e apps, é possível pegar emprestado desde uma serra tico-tico até um apartamento em Ipanema a preços módicos. O site Airbnb, por exemplo, permite que pessoas ofereçam para aluguel um imóvel durante a temporada em que não forem usá-lo – por exemplo, quando estiverem em férias. Fundada em 2008, a empresa já funciona com mais de 200 mil imóveis em 26 mil cidades de 192 países.

Camaro amarelo
O funkeiro paulista MC Danado não parece concordar. Para ele, “vida é ter um Hyundai”. Já a dupla sertaneja universitária Munhoz e Mariano ficou doce igual caramelo tirando onda de Camaro amarelo comprado com a herança do véio. “Tá sobrando mulher”, conclui a letra da dupla. A verdade é que, enquanto as economias avançadas veem o declínio da posse, em mercados emergentes como o brasileiro jovens recém-ascendidos à classe média estão dispostos a viver seu momento Beach Boys, com atraso de meio século. Eles acabam de ingressar no mercado de consumo e, pela primeira vez na vida deles e de sua família, podem comprar bens relativamente caros.

O resultado é que, com 405 mil emplacamentos, o Brasil superou o Japão em outubro de 2012 como o 3º maior mercado automobilístico do mundo, atrás de China e EUA. No top 10 estão ainda Rússia, Índia e Tailândia. É uma indústria que representa 22,5% da indústria brasileira e 5,2% do PIB, segundo a Associação Nacional de Fabricantes de Automotores. Não é então de espantar que uma das medidas do governo federal para evitar um impacto maior da crise no País tenha sido facilitar o crédito e diminuir o IPI. A economia brasileira é movida a quatro rodas, e brasileiros gostam disso. Com pouca disponibilidade e baixa qualidade do transporte público, o desejo de ter um carro se transforma em necessidade. Já em cidades onde o transporte público leva o passageiro rapidamente a muitos lugares, sem a dor de cabeça de enfrentar o trânsito e gastar com estacionamento, ele se torna uma alternativa mais atraente do que o carro. E com o dinheiro que sobra ao deixar de comprar um carro, pode-se gastar com outras aspirações: em vez de levar a moça de Camaro amarelo à lanchonete, ir com ela de metrô ao restaurante com estrela Michelin.

Uma nova economia
Tudo isso também representa um desafio para os países desenvolvidos. E que desafio: mudar as bases de suas economias. A indústria automobilística, por exemplo, sempre foi o pilar econômico da Alemanha, orgulhosa de seus Audis, Mercedes, BMWs, Porsches e Volkswagens. Com menos gente dirigindo, esse pilar pode acabar fraco demais para sustentar todo o resto. A construção de novas casas, apartamentos e prédios de escritório criou booms imobiliários nos EUA, no Japão, na Espanha. Booms que mais tarde dariam em bolhas, mas que mesmo assim foram fundamentais para enriquecer esses países. Com menos gente comprando casa na praia (e preferindo alugar imóveis que, obviamente, já estão construídos), e menos gente saindo da casa dos pais, a demanda por casas e prédios novos também diminui. A construção civil sofre. E mais um pilar tradicional das economias perde força. E agora?

Bom, talvez a resposta esteja embutida na própria crise da economia tradicional. Se algumas áreas definham, outras crescem e aparecem. É o caso dos “serviços conectados”, como o do Airbnb. “Conectados” porque não teriam como existir sem a internet onipresente de hoje. O que esses serviços novos fazem é transformar essa onipresença em onipotência – o acesso à rede (e a posse de um cartão de crédito) já garante casa e carro prét-à-porter em qualquer grande centro. Mas o fato é que ainda há muito o que expandir nessa área. Muito a criar. E é nesse terreno fértil e ainda pouco explorado que podem estar os alicerces de uma nova economia.

MENOS É MAIS
A posse de bens diminui no exterior. E o dinheiro vai para restaurantes, viagens, shows…

MAIS É MENOS
No Brasil, a tendência ainda é gastar com carrões. E não sobrar muito para o resto.

Edição: Alexandre Versignassi Reportagem: Maurício Horta
*Fonte / Textos: SuperInteressante

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TAO – A sabedoria do silêncio interno

Pense no que vai dizer antes de abrir a boca. Seja breve e preciso, já que cada vez que deixa sair uma palavra, deixa sair uma parte do seu Chi (energia). Assim, aprenderá a desenvolver a arte de falar sem perder energia.

Nunca faça promessas que não possa cumprir. Não se queixe, nem utilize palavras que projetem imagens negativas, porque se reproduzirá ao seu redor tudo o que tenha fabricado com as suas palavras carregadas de Chi.

Se não tem nada de bom, verdadeiro e útil a dizer, é melhor não dizer nada. Aprenda a ser como um espelho: observe e reflita a energia. O Universo é o melhor exemplo de um espelho que a natureza nos deu, porque aceita, sem condições, os nossos pensamentos, emoções, palavras e ações, e envia-nos o reflexo da nossa própria energia através das diferentes circunstâncias que se apresentam nas nossas vidas.

Se se identifica com o êxito, terá êxito. Se se identifica com o fracasso, terá fracasso. Assim, podemos observar que as circunstâncias que vivemos são simplesmente manifestações externas do conteúdo da nossa conversa interna. Aprenda a ser como o Universo, escutando e refletindo a energia sem emoções densas e sem preconceitos.

Porque, sendo como um espelho, com o poder mental tranquilo e em silêncio, sem lhe dar oportunidade de se impor com as suas opiniões pessoais, e evitando reações emocionais excessivas, tem oportunidade de uma comunicação sincera e fluída.

Não se dê demasiada importância, e seja humilde, pois quanto mais se mostra superior, inteligente e prepotente, mais se torna prisioneiro da sua própria imagem e vive num mundo de tensão e ilusões. Seja discreto, preserve a sua vida íntima. Desta forma libertar-se-á da opinião dos outros e terá uma vida tranquila e benevolente invisível, misteriosa, indefinível, insondável como o TAO.

Não entre em competição com os demais, a terra que nos nutre dá-nos o necessário. Ajude o próximo a perceber as suas próprias virtudes e qualidades. O espírito competitivo faz com que o ego cresça e, inevitavelmente, crie conflitos. Tenha confiança em si mesmo. Preserve a sua paz interior, evitando entrar na provação e nas trapaças dos outros. Não se comprometa facilmente, agindo de maneira precipitada, sem ter consciência profunda da situação.

Tenha um momento de silêncio interno para considerar tudo que se apresenta e só então tome uma decisão. Assim desenvolverá a confiança em si mesmo e a Sabedoria. Se realmente há algo que não sabe, ou para que não tenha resposta, aceite o fato. Não saber é muito incômodo para o ego, porque ele gosta de saber tudo, ter sempre razão e dar a sua opinião muito pessoal. Mas, na realidade, o ego nada sabe, simplesmente faz acreditar que sabe.

Evite julgar ou criticar. O TAO é imparcial nos seus juízos: não critica ninguém, tem uma compaixão infinita e não conhece a dualidade. Cada vez que julga alguém, a única coisa que faz é expressar a sua opinião pessoal, e isso é uma perda de energia, é puro ruído. Julgar é uma maneira de esconder as nossas próprias fraquezas.

O Sábio tolera tudo sem dizer uma palavra. Tudo o que o incomoda nos outros é uma projeção do que não venceu em si mesmo. Deixe que cada um resolva os seus problemas e concentre a sua energia na sua própria vida. Ocupe-se de si mesmo, não se defenda. Quando tenta defender-se, está a dar demasiada importância às palavras dos outros, a dar mais força à agressão deles.

Se aceita não se defender, mostra que as opiniões dos demais não o afetam, que são simplesmente opiniões, e que não necessita de os convencer para ser feliz. O seu silêncio interno torna-o impassível. Faça uso regular do silêncio para educar o seu ego, que tem o mau costume de falar o tempo todo.

Pratique a arte de não falar. Tome algumas horas para se abster de falar. Este é um exercício excelente para conhecer e aprender o universo do TAO ilimitado, em vez de tentar explicar o que é o TAO. Progressivamente desenvolverá a arte de falar sem falar, e a sua verdadeira natureza interna substituirá a sua personalidade artificial, deixando aparecer a luz do seu coração e o poder da sabedoria do silêncio.

Graças a essa força, atrairá para si tudo o que necessita para a sua própria realização e completa libertação. Porém, tem que ter cuidado para que o ego não se infiltre… O Poder permanece quando o ego se mantém tranquilo e em silêncio. Se o ego se impõe e abusa desse Poder, este converter-se-á num veneno, que o envenenará rapidamente.

Fique em silêncio, cultive o seu próprio poder interno. Respeite a vida de tudo o que existe no mundo. Não force, manipule ou controle o próximo. Converta-se no seu próprio Mestre e deixe os demais serem o que têm a capacidade de ser. Por outras palavras, viva seguindo a via sagrada do TAO.

*Texto Taoísta

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Umberto Eco alerta: “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos.”

Uma das maiores dificuldades comunicativas diz respeito à capacidade de expor pontos de vista sem exagerar no tom impositivo ou mesmo agressivo com que se defendem argumentos, mesmo os mais incoerentes. Cada vez mais intolerantes, as pessoas parecem precisar revestir seus discursos de agressividade, para que pareçam convincentes.

Com o advento da Internet, todos possuímos espaços virtuais onde podemos nos expressar, expondo nossos pontos de vista sobre assuntos vários. Ilusoriamente protegidos pela distância que a tela fria traz, muitas vezes excedemos no radicalismo com que pontuamos nossos comentários, sem levar em conta a maneira como aquelas palavras atingirão o outro.

A frieza do cotidiano e a concorrência de mercado acabam por contaminar nocivamente os relacionamentos humanos, que se tornam cada vez menos afetivos, tão robóticos quanto as máquinas de café que nos entopem os sentidos. Importamo-nos quase nada com os sentimentos alheios, com a historia de vida alheia, com a necessidade de entender as razões que não são nossas, pois queremos a todo custo extravasar tudo isso que se acumula dentro de nós em meio à velocidade estressante de nossas vidas.

Nesse contexto, quando expomos aquilo que pensamos sobre determinado assunto, principalmente relacionados à política e/ou à religião, acabamos sendo vítimas de contra-ataques violentos que não rebatem o que expusemos, mas tão somente tentam neutralizar nossa verdade com destemperos emocionais isentos de criticidade. Aceitável seria, entretanto, uma contra-argumentação pautada por reflexões plausíveis, o que não ocorre, em grande parte dos casos.

O fato é que poucos estão dispostos a se abrir ao que o outro tem a oferecer, a dizer, a mostrar, a trazer de diferente para suas vidas, porque é trabalhoso refletir sobre idéias já postas e cristalizadas dentro de nós, ao passo que manter intacto aquilo que carregamos há tempos é cômodo e tranquilo. E quem não quer não muda, não recebe o novo, somente dá em troca o pouco que tem e, pior, muitas vezes de forma deselegante e depreciativa.

Portanto, é necessário que aprendamos a nos expressar e a debater nossas ideias com quem realmente estiver pronto para trocar conhecimentos, com quem possui uma postura receptiva para com o novo e que não se importa com a quebra de certezas. Não percamos nosso precioso tempo com quem só ouve o que quer e da forma que lhe convém, diminuindo-nos por conta da diversidade de opiniões. Esses definitivamente não merecem nem mesmo nossa presença.

Fonte: Contioutra

Geração “só a cabecinha”

Outro dia vi um estudo que diz que 25% das músicas do Spotify são puladas após 5 segundos. E que metade dos usuários avança a música antes do seu final. Enquanto isso, no YouTube, a média de tempo assistindo a vídeos não passa dos 90 segundos. O mais chocante desses dois dados é que o uso do Spotify e do YouTube, em geral, está focado no lazer, no entretenimento. Ou seja, se a gente não tem paciência para ficar mais de 90 segundos focado em uma atividade que nos dá prazer, o que acontece com o resto das coisas?

Você ficou sabendo da entrada do ator Selton Mello no seriado Game Of Thrones? Saiu em vários grandes portais brasileiros e a galera na internet compartilhou loucamente a notícia. Tudo muito bacana, não fosse a notícia um hoax, um boato inventado por um empresário brasileiro apenas pra zoar e ver até onde a história poderia chegar. Bem, ela foi longe: mais de 500 tuítes com o link, mais de 3 mil compartilhamentos no Facebook, mais de 13 mil curtidas, matéria no UOL, Ego, Bandeirantes, O Dia e vários outros sites.

Quem não tem paciência de ouvir cinco segundos de uma música tem menos paciência ainda pra ler uma notícia inteira. Pesquisas já mostraram que a maioria das pessoas compartilha reportagens sem ler. Viramos a Geração “só a cabecinha”, um amontoado de pessoas que vivem com pressa, ansiosas demais pra se aprofundar nas coisas. Somos a geração que lê o título, comenta sobre ele, compartilha, mas não vai até o fim do texto. Não precisa, ninguém lê!

“SOMOS A GERAÇÃO QUE LÊ O TÍTULO, COMENTA SOBRE ELE, COMPARTILHA, MAS NÃO VAI ATÉ O FIM DO TEXTO. NÃO PRECISA, NINGUÉM LÊ!”

Nunca achei que a internet alienasse as pessoas ou nos deixasse mais burros, pois sei que a web é o que fazemos dela. Ela é sempre um reflexo do nosso eu, para o bem e para o mal. Mas é verdade que as redes sociais causaram, sim, um efeito esquisito nas pessoas. A timeline corre 24 horas por dia, 7 dias da semana e é veloz. Daí que muita gente acaba reagindo aos conteúdos com a mesma rapidez com que eles chegam. Nas redes sociais, um link dura em média 3 horas. Esse é o tempo entre ser divulgado, espalhar-se e morrer completamente. Se for uma notícia, o ciclo de vida é ainda menor: 5 minutos. CINCO MINUTOS! Não podemos nos dar ao luxo de ficar de fora do assunto do momento, certo? Então é melhor emitir logo qualquer opinião ou dar aquele compartilhar maroto só pra mostrar que estamos por dentro. Não precisa aprofundar, daqui a pouco vem outro assunto mesmo.

Por outro lado… quem lê tanta notícia? Se Caetano Veloso já achava que tinha muita notícia nos anos 1960, o que dizer de hoje? Ao mesmo tempo em que essa atitude é condenável, também é totalmente compreensível. Todo mundo é criador de conteúdo, queremos acompanhar tudo, mas não conseguimos. Resta-nos apenas respirar fundo, tentar manter a calma e absorver a maior quantidade de informação que pudermos sem clicar em nada. Será que conseguimos?

* Co-criadora e curadora do youPIX e da Campus Party Brasil. Seu trabalho busca entender como os jovens brasileiros usam a rede para se expressar e criar movimentos culturais

*Fonte: RevistaGalileu / texto de Bia Granja

Não tema o invejoso

Você teme o invejoso? Por quê? Enquanto você pesca, ele olha o rio. O invejoso é um eterno espectador, pois enquanto você dorme pacificamente, ele perde o sono pensando em você.

Você acorda e saúda o sol, ele olha o seu bronzeado. Você sai para o trabalho, ele calcula o seu salário. Você constrói sua casa, ele julga a cor das tintas. Você estuda, tem boas notas, ele se preocupa com esses números.

Você conquista um diploma, ele vive o medo do seu sucesso futuro. Você levanta um prédio, ele escolhe uma janela pra pular. Você cura os doentes, ele adoece por causa disso. Você ensina os seus alunos, ele tenta descobrir o que você não sabe.

Você tem a simpatia da chefia, ele prefere chamá-lo de puxa-saco. Você recebe os aplausos, ele busca saber se alguém o vaia. Você liga seu computador para serviço útil, ele coleciona programas de vírus.

O que ele realmente faz, quando faz: você cria, ele copia! Ele é um eterno espectador e merece sua compaixão. Não seu temor.

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*Autor desconhecido

Texto de Fabrício Carpinejar

BOWIE (1947-2016)

Quantos homens num só homem? Quantas mulheres num só homem? Quantos gêneros musicais em um só homem?

Camaleão. Enquanto as pessoas passam por fases, suas fases foram outras vidas. Reencarnava em si mesmo, não precisou de novo corpo. Exauriu o espírito com o próprio corpo. Chegou até o fim e voltou várias vezes. Cumpriu o infinito dentro do finito, a ponto dos limites humanos terem medo de sua voz.

Fiel à revolução, sempre mudava. Fiel à música, sempre mudava. Fez o milagre de transformar a água em uísque; o jazz, em rock.

“As cicatrizes são invisíveis” e as peles brilhantes. Ninguém viu a costura entre o fora e o dentro, entre o céu e o inferno, entre Londres e o mundo.

Todas as suas mudanças hoje são eternas.

Não duvide: do ventre masculino, é possível nascer muitos homens.

Fabrício Carpinejar

 

A extinção da solidão

Solidão. Palavra pesada, conceito amplo, um temor quase que unânime. No final das contas o ser humano alcançou a poética contradição de ampliar as fronteiras da individualidade na mesma medida em que as enfraqueceu. Temos todas as ferramentas necessárias para vivermos em paz, de forma única e isolada. Mesmo assim, conseguir estar sozinho tornou-se um desafio.

Foi-nos dada a possibilidade de ampliar as nossas relações. Expandimos o mundo, as chances, as necessidades. A vida é fascinante, brilha como um letreiro neon em uma noite escura. Ligaram o mundo e agora ele funciona sempre. A internet pega fogo e as redes sociais saem por aí, zunindo e riscando o céu como fogos de artifício coloridos. Nós apenas ficamos parados, sentados na grama, observando tudo com os nossos redondos olhos de criança, admirados com tudo que aí está.

Aumentar as possibilidades de um jeito tão intenso pode ter seu preço. De repente nos são dadas inúmeras chances que, naturalmente, acabam se convertendo em responsabilidades, desafios. Antigamente havia mais espaço para o indivíduo se sentar à beira de uma calçada em uma tarde preguiçosa, acender um cigarro à luz do sol e ficar parado, sem fazer nada. Quando indagado sobre os projetos da vida ele apenas respondia que nada poderia ser feito a respeito. Hoje não há mais desculpas. Podemos ser dinâmicos, produtivos e criativos. Justamente, esse poder que paira nos horizontes acaba nos tirando as forças, uma vez que nos é exposto o melancólico fato de que fracassamos também porque não somos bons o suficiente para realizar algo.

Diariamente nos é dada a chance de militarmos politicamente no Facebook, debater e defender ideais, formar opiniões, conhecer novas pessoas, trocar sensações, procurar pelo amor e perdê-lo, sentir-se acolhido e ao mesmo tempo excluído. Blogs, vlogs, notícias, vídeos. Motivos para chorar, motivos para rir, imagens lindas, fotos toscas. Uma irresistível vontade de fazer parte de tudo e se lançar para o universo com todos os propósitos possíveis, só que, no meio disso tudo, somos sufocado por esse furacão de informações e acabamos caindo no chão de tão tontos, sem ao menos conseguir saber quem somos e o que queremos fazer.

Socialmente falando, as obrigações aumentam. As amizades se estendem para além do encontro físico e são simplificadas, sintetizadas e espalhadas em doses homeopáticas para o dia inteiro. Os encontros cada vez mais instantâneos nos deixam cada vez mais alerta. Somos obrigados a dar retorno, em existir, em estar presente quase que sempre. E no final das contas, conseguimos encontrar no fundo disso tudo uma obrigação que se sustenta a partir de uma tônica que permeia nossa existência quase que diariamente: afinal, estamos sozinhos, ou não?

Há um medo de se perder por aí, em meio a um rodízio de sonhos e de esperanças que desaparecem com a mesma velocidade com que surgem. Afinal, o quanto o nosso dia muda com uma mensagem visualizada e não respondida? Pequenas doses de stress que vão se somando e nos tirando o foco e que, no final das contas, nos proíbem de sentarmos e conversarmos com nós mesmos. O silêncio torna-se raro em um cotidiano em que a cada minuto eu posso ser alertado com um assobio de whatsapp.

Justamente, sem o silêncio não nos ouvimos. Sem o isolamento, sem preciosos instantes de existência, não nos enxergamos. O mundo anda ao nosso lado o tempo todo e fala, fala, fala. Nunca se cala! O espaço para respirarmos e escutarmos a nós mesmo esta cada vez menor. Detalhe: tal espaço, de fato, não diminuiu por conta de alguma imposição externa que nos obrigue a ficar conectados o tempo inteiro, mas sim a partir de um estado de sítio implantado no nosso ritmo interno.

Ocorre que nos foi dada um padrão de intensidade que, no final das contas, se converteu em ansiedade. Perdemos o costume de ficarmos sozinhos, porque vimos que as pessoas estão ao nosso redor e é fácil estar com elas. Porém, o distanciamento posterior acaba se tornando um desafio. Como aceitar a não comunicação. ‘Como assim, passar um dia inteiro sem falar com ninguém?’ Como se houvesse um medo interior que nos impedisse de ‘desperdiçar’ esse monstruoso aparato de interações. E então, a solidão nos remete à melancolia, a inatividade nos remete à inutilidade e nossa liberdade acaba nos aprisionando.

Fonte: Gabriel Affatato
http://www.updateordie.com/2015/06/09/a-extincao-da-solidao/

Ah! Os relógios!

Ah! Os relógios!
Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológicos…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de Poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…

Mario Quintana – A Cor do Invisível, 1989.

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A mente apaga registros duplicados

A MENTE APAGA REGISTROS DUPLICADOS
Por Airton Luiz Mendonça
Artigo do jornal O Estado de São Paulo
O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos..Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio… Você começará a perder a noção do tempo.Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea.

Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol.

Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar:

Nosso cérebro é extremamente otimizado.

Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho.

Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia.

Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade.

Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muito s recursos para compreender o que está acontecendo.

É quando você se sente mais vivo.

Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e ‘apagando’ as experiências duplicadas.

Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente.

Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo.

Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo.

Como acontece?
Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa , no lugar de repetir realmente a experiência).

Ou seja, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa são apagados de sua noção de passagem do tempo.

Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida.

Conforme envelhecemos as coisas começam a se repetir – as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações, -…. enfim… as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo.

Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década.

Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a…

ROTINA

A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos.

Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo:

M & M (Mude e Marque). Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas.

Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais.
< BR>Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo.Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente.

Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes.

Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes.

Seja diferente.

Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos.. . em outras palavras…

V-I-V-A. !!!Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo.E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais v-i-v-o… do que a maioria dos livros da vida que existem por aí.

Cerque-se de amigos.

Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes.

Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é?

Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.

E S CR EVA em tAmaNhos diFeRenTes e em CorES

di fE rEn tEs ! CRIE, RECORTE, PINTE, RASGUE, MOLHE, DOBRE, PICOTE, INVENTE, REINVENTE…

V I V A !!!

13 Coisas que pessoas mentalmente fortes não fazem

Este artigo foi traduzido a partir de um artigo publicado no site da Forbes em 18/Nov/2013. Para ler o artigo na íntegra (em inglês), clique aqui.

*Fonte em português desta pesquisa: professoresdosucesso
…..

Pessoas de mentalidade forte possuem hábitos saudáveis. Elas lidam com suas emoções, pensamentos e comportamentos de forma a empodera-las para o sucesso na vida. Verifique essas coisas que as pessoas mentalmente fortes não fazem para que você também possa ter uma mente forte.
1) Elas não perdem tempo sentindo pena de si mesmas
Pessoas de mentalidade forte não ficam sentindo pena de suas circunstâncias ou como os outros as trataram. Ao invés disso, elas assumem a responsabilidade por seu papel na vida e compreendem que a vida nem sempre é fácil ou justa.

2) Elas não deixam de lado seu poder
Elas não permitem que os outros as controlem, e elas não permitem alguém tenha poder sobre elas. Elas não dizem coisas como, “Meu chefe me faz sentir mal”, porque elas compreendem que elas estão no controle sobre suas emoções e elas possuem a escolha de como reagir.

3) Elas não fogem dos desafios
Pessoas mentalmente fortes não tentam evitar o desafio. Ao invés disso, elas dão boas vindas de forma positiva às mudanças e estão sempre querendo ser flexíveis. Elas compreendem que a mudança é inevitável e acreditam em suas habilidades de adaptação.

4) Elas não gastam energia com coisas que não podem controlar
Você não ouve uma pessoa mentalmente forte reclamando da mala perdida ou do trânsito. Ao invés disso, elas focam naquilo que podem controlar em suas vidas. Elas reconhecem que algumas vezes, a única coisa que podem controlar, é sua atitude.

5) Elas não se preocupam em agradar todo mundo
Pessoas mentalmente fortes reconhecem que não precisam agradar todo mundo o tempo todo. Elas não têm medo de dizer não ou falar quando é necessário. Elas buscam ser gentis e justas, mas podem lidar com outras pessoas chateadas se elas as fizeram felizes.

6) Elas não têm medo de assumir riscos calculados
Elas não assumem ricos bobos ou fáceis, mas não se importam de assumir riscos calculados. Pessoas mentalmente fortes investem tempo pesando os riscos e benefícios antes de tomar uma grande decisão, e elas estão completamente informadas dos problemas possíveis antes de tomarem ação.

7) Elas não renegam o passado

Pessoas mentalmente fortes não gastam tempo renegando o passado e querendo que as coisas fossem diferentes. Elas reconhecem o passado e podem dizer o que elas aprenderam com ele. Entretanto, elas não revivem constantemente as experiências ruins ou fantasiam sobre os dias gloriosos. Ao invés disso, elas vivem para o presente e planejam para o futuro.

8) Elas não cometem o mesmo erro várias vezes
Pessoas mentalmente fortes aceitam a responsabilidade por seu comportamento e aprendem com os erros do passado. Como resultado, elas não ficam repetindo os mesmos erros sempre. Ao invés disso, elas seguem em frente e tomam melhores decisões no futuro.

9) Elas não ficam ressentidas pelo sucesso alheio
Pessoas mentalmente fortes conseguem apreciar e celebrar o sucesso na vida de outras pessoas. Elas não ficam invejosas ou se sentem trapaceadas quando outros as superam. Ao invés disso, elas reconhecem que o sucesso é conquistado através de trabalho duro, e elas estão querendo o trabalho duro para própria chance de sucesso.

10) Elas não desistem depois da primeira falha
Pessoas mentalmente fortes não percebem uma falha como razão para desistir. Ao invés disso, elas usam o erro como uma oportunidade de crescer e melhorar. Elas querem continuar tentando até conseguirem fazer o certo.

11) Elas não temem a solidão
Pessoas mentalmente fortes conseguem tolerar a solidão e elas não temem o silêncio. Elas não têm medo de ficarem sozinhas com seus pensamentos e elas podem usar esses momentos para serem produtivas. Elas curtem sua própria companhia e não são dependentes de outros para companhia e diversão todo o tempo, mas conseguem ser felizes sozinhas.

12) Elas não acham que o mundo deve alguma coisa a elas
Particularmente na economia atual, executivos e empregados em qualquer nível estão começando a perceber que o mundo não lhes deve um salário, um pacote de benefícios e uma vida confortável,  independente de sua preparação e educação. Pessoas mentalmente fortes entram no mundo preparadas para trabalhar e serem bem sucedidas por seus méritos, em cada estágio do jogo.

13) Elas não esperam resultados imediatos
Seja uma rotina de treinos, um regime nutricional ou começar um novo negócio, pessoas mentalmente fortes estão comprometidas com o longo prazo. Elas sabem muito bem não esperar por resultados imediatos. Elas dedicam suas energias e tempo em doses medidas e celebram a cada meta e aumento de sucesso ao longo do caminho. Elas possuem o “poder de permanecer”. E elas compreender que mudanças genuínas levam tempo.

mente-e-corpo

Esta noitchi

Texto legal que recebi do meu chapa, Tuta. Sei que não vai fazer sentido algum para muitas pessoas, mas a brothagem vai sacar.

………….

Esta noitchi:
Por um longo tempo, em todas as manhãs enevoadas do Reino da Padualândia, na região da Wildnéria, uma poção lendária foi criada para tonificar a energia de um representante da mais fina jaez da família dos Condes de Pantuffington.
– Por um lado, alguns afirmam que a bebida predileta de Sandoval, o fenomenal, é Hidromel de Toddynho, Cuidadosamente elaborado pela mística discípula de Paracelsus, a misteriosa Alma!
– Outros vêm na direção contrária, afirmando ser uma mistura numa dose exata e apenas de conhecimento dos iniciados, provém do Nescau a substância druídica que é preparada pela emérita alquimista Lena no equinócio da meia-tarde, e traz reparação instantânea para os danos provocados pela atribulada jornada alternante entre coçação de saco e puxamento de cordas eletrificadas.
E mais: Documento Galhofo – seriam Alma e Lena a mesma pessoa? O testemunho exclusivo do Jats revela tudo!
Quem tem rasgão? Hoje saberemos!
Um embate de cuspe à distância, jogo do sério e víspora vai varar a noite até as 22:30, quando as mulheres começam a ligar.
Não perdam, hoje, no Piscovery Channel!
Tuta

Arnaldo Jabor – Os Gaúchos

*Encontrei este texto hoje no Facebook do amigo Alexandre e como ele mesmo diz, não sabe se é realmente um texto do Jabor, sabe como é… em tempos de internet a questão da autoria facilmente se diliu entre os bits. Mas em todo caso está dado o alerta.
De qualquer forma o texto é bem interessante, vale a pena ser lido por gaúchos e não gaúchos também.
Um forte abraço!
…………………………………
Os gaúchosO Rio Grande do Sul é como aquele filho que sai muito diferente do resto da família. A gente gosta, mas estranha. O Rio Grande do Sul entrou tarde no mapa do Brasil . Até o começo do século XIX, espanhóis e portugueses ainda se esfolavam para saber quem era o dono da terra gaúcha. Talvez por ter chegado depois, o Estado ficou com um jeito diferente de ser.Começa que diverge no clima: um Brasil onde faz frio e venta, com pinheiros em vez de coqueiros, é tão fora do padrão quanto um Canadá que fosse à praia. Depois, tem a mania de tocar sanfona, que lá no RS chamam de gaita, e de tomar mate em vez de café. Mas o mais original de tudo é a personalidade forte do gaúcho. A gente rigorosa do sul não sabe nada do riso fácil e da fala mansa dos brasileiros do litoral, como cariocas e baianos. Em lugar do calorzinho da praia, o gaúcho tem o vazio e o silêncio do pampa, que precisou ser conquistado à unha dos espanhóis.

Há quem interprete que foi o desamparo diante desses abismos horizontais de espaço que gerou, como reação, o famoso temperamento belicoso dos sulinos.
É uma teoria – mas conta com o precioso aval de um certo Analista de Bagé, personagem de Luis Fernando Veríssimo que recebia seus pacientes de bombacha e esporas, berrando: “Mas que frescura é essa de neurose, tchê?”

Todo gaúcho ama sua terra acima de tudo e está sempre a postos para defendê- la. Mesmo que tenha de pagar o preço em sangue e luta.
Gaúcho que se preze já nasce montado no bagual (cavalo bravo). E, antes de trocar os dentes de leite, já é especialista em dar tiros de laço. Ou seja, saber laçar novilhos à moda gaúcha, que é diferente da jeito americano, porque laço é de couro trançado em vez de corda, e o tamanho da laçada, ou armada, é bem maior, com oito metros de diâmetro, em vez de dois ou três.

Mas por baixo do poncho bate um coração capaz de se emocionar até as lágrimas em uma reunião de um Centro de Tradições Gaúchas, o CTG, criados para preservar os usos e costumes locais. Neles, os durões se derretem: cantam, dançam e até declamam versinhos em honra da garrucha, da erva-mate e outros gauchismos. Um dos poemas prediletos é “Chimarrão”, do tradicionalista Glauco Saraiva, que tem estrofes como: “E a cuia, seio moreno/que passa de mão em mão/traduz no meu chimarrão/a velha hospitalidade da gente do meu rincão.” (bem, tirando o machismo do seio moreno, passando de mão em mão, até que é bonito).

Esse regionalismo exacerbado costuma criar problemas de imagem para os gaúchos, sempre acusados de se sentir superiores ao resto do País.

Não é verdade – mas poderia ser, a julgar por alguns dados e estatísticas.
O Rio Grande do Sul é possuidor do melhor índice de desenvolvimento humano do Brasil, de acordo com a ONU, do menor índice de analfabetismo do País, segundo o IBGE e o da população mais longeva da América Latina, (tendo Veranópolis a terceira cidade do mundo em longevidade), segundo a Organização Mundial da Saúde. E ainda tem as mulheres mais bonitas do País, segundo a Agência Ford Models. (eu já sabia!!! rss) Além do gaúcho, chamado de machista”, qual outro povo que valoriza a mulher a ponto de chamá-la de prenda (que quer dizer algo de muito valor)?
Macanudo, tchê. Ou, como se diz em outra praças: “legal às pampas”, uma expressão que, por sinal, veio de lá.

Aos meus amigos gaúchos e não gaúchos, um forte abraço!

Arnaldo Jabor – Os Gaúchos

Porque as coisas que realmente importam, são as mais simples:

1. O nosso maior problema na vida é que ninguém tem nada a ver com os nossos problemas.

2. Tempo é precioso. Pare de assistir a séries ou novelas na TV.

3. Nunca recuse um chiclete de menta.

4. É possível reconhecer o nível de educação de uma pessoa pela forma com que ela trata o faxineiro.

5. Nunca diga a uma mulher que está terminando um relacionamento porque ela engordou. Mesmo se for verdade.

6. Alongue-se. Aprenda com os cachorros.

7. Corajoso não é aquele que não tem medo – é aquele que enfrenta o medo.

8. Se quer conhecer alguém de verdade, leve-o para viajar.

9. A felicidade sentida com a compra de um carro novo dura poucos dias. Pense nisso quando for investir toda sua grana em um.

10. Nunca mexa na bolsa de uma mulher.

11. Se você gasta a maior parte das suas horas num trabalho que não gosta, e outras tantas no trânsito, então você precisa rever seus conceitos. Rápido.

12. Pare de reclamar dos seus problemas. Faça algo para solucioná-los em vez disso.

13. Esqueça os conselhos dos filmes pornô – toda mulher goza pela mente.

14. Para ganhar muito dinheiro, é preciso abdicar do seu tempo. Escolha qual caminho te faz mas feliz.

15. Entre no mar sempre que tiver a chance de fazê-lo.

16. Filhos nem sempre trazem felicidade.

17. O que você fala não significa nada. O que você faz é o que realmente conta.

18. Dinheiro é somente uma invenção humana. Certifique-se se realmente quer virar escravo de algo que não existe.

19. A vida é curta demais pra dispensar a sobremesa.

20. Independente da situação ser muito boa ou muito ruim, ela vai mudar em algum momento.

21. Aprenda a identificar o canto dos pássaros e você nunca estará sozinho de novo.

22. Só porque uma pessoa sente saudades de você, não significa que ela está voltando. Sentir saudade faz parte do partir pra outra.

23. Erre rápido e barato.

24. Pra algumas coisas na vida, há somente uma chance. Não a perca.

25. Não empreste seus livros preferidos. Eles não voltarão.

26. O que te separa do seu sonho é somente o salto. Pule.

27. Não gaste tempo tentando convencer alguém a te amar. Parta pra próxima.

28. Não force seu filho a gostar de química ou física. Há poucas chances dele precisar disso na vida.

29. Corte seu cabelo de uma forma que você vai se arrepender. O que não te mata, te fortalece.

30. Se você, diariamente, tem vontade de mandar seu chefe pastar, faça-o finalmente. Sentimentos ruins guardados causam câncer.”

give-what-you-get

A maior tragédia de nossas vidas

*por: Fabrício Carpinejar
Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.

A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.

Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.

A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.

As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.

Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.

Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.

Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.

Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.

Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.

Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.

Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?

O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.

A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos e cinquenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.

As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.

Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.

As palavras perderam o sentido.

Manual para 2013

Saúde:

1.  Beba muita água

2.  Coma mais o que nasce em árvores e plantas, e menos comida produzida em fábricas;

3.  Viva com os 3 E’s: Energia, Entusiasmo e Empatia;

4.  Arranje tempo para refletir;

5.  Jogue mais jogos;

6.  Leia mais livros do que leu em 2012;

7.  Sente-se em silêncio pelo menos 10 minutos por dia;

8.  Durma 8 horas por dia;

9. Faça caminhadas de 20-60 minutos por dia, e enquanto caminha sorria.

Personalidade:

11.  Não compare a sua vida a dos outros. Ninguém faz idéia de como é a caminhada dos outros;

12.  Não tenha pensamentos negativos ou coisas de que não tenha controle;

13.  Não se exceda. Mantenha-se nos seus limites;

14.  Não se torne demasiadamente sério;

15.  Não desperdice a sua energia preciosa em fofocas;

16.  Sonhe mais;

17.  Inveja é uma perda de tempo. Tem tudo que necessita….

18.  Esqueça questões do passado. Não lembre seu parceiro dos seus erros do passado. Isso destruirá a sua felicidade presente;

19.  A vida é curta demais para odiar alguém. Não odeie.

20.  Faça as pazes com o seu passado para não estragar o seu presente;

21.  Ninguém comanda a sua felicidade a não ser você;

22.  Tenha consciência que a vida é uma escola e que está nela para aprender. Problemas são apenas parte, que aparecem e se desvanecem como uma aula de álgebra, mas as lições que aprende, perduram uma vida inteira;

23.  Sorria e gargalhe mais;

24.  Não necessite ganhar todas as discussões. Aceite também a discordância;

Sociedade:

25.  Entre mais em contato com sua família;

26.  Dê algo de bom aos outros diariamente;

27.  Perdoe a todos por tudo;

28.  Passe tempo com pessoas acima de 70 anos e abaixo de 6;

29.  Tente fazer sorrir pelo menos três pessoas por dia;

30.  Não te diz respeito o que os outros pensam de você;

31. O seu trabalho não tomará conta de você quando estiver doente. Os seus amigos o farão. Mantém contato com eles.

A Vida:

32.  Faça o que é correto;

33.  Desfaça-se do que não é útil, bonito ou alegre;

34.  O TEMPO cura tudo;

35.  Por muito boa ou má que a situação seja…. Ela mudará…

36.  Não interessa como se sente, levanta, se arruma e aparece;

37.  O melhor ainda está para vir;

38.  Quando acordar vivo de manhã, agradeça!

39.  Mantenha seu coração sempre feliz.