Nós estamos cansados

Cobranças demasiadas, expectativas não alinhadas, vergonha de se mostrar vulnerável: o que está te distanciando do próprio eixo? Buscar essa resposta a partir de um mergulho profundo em si mesmo é um caminho para lidar com o estresse que tomou conta dos nossos dias

“Mais um dia, menos um dia”. Esse foi o lema que adotei como meu nas primeiras semanas de quarentena. A cada fim de tarde, imaginava que estava a menos um anoitecer de reencontrar as pessoas que amo e retomar a rotina que levava antes de tudo isso acontecer. Não que ela fosse perfeita, porque a gente sempre está aparando as arestas e isso é reflexo da nossa evolução. Mas, no geral, estava satisfeita.

Acontece que, depois de tanto tempo (já são mais de quatro meses sem sair de casa), percebi que colocar todo o meu foco no momento em que, finalmente, poderíamos nos dizer livres de pandemia não estava me deixando mais calma. Pelo contrário. Essa talvez tenha sido uma estratégia (ou uma fuga?) inconsciente para não precisar me debruçar sobre os meus próprios incômodos. Logo me percebi acumulando: trabalho, expectativas, emoções, frustrações. Não queria deixar a peteca cair, mas, depois, entendi que não é sobre mantê-la sempre no ar. É mais sobre reconhecer que, se eu canalizar toda a minha energia para cuidar da peteca, quem terminará no chão será eu mesma.

As causas também estão dentro da gente

Então, minha sugestão é que a gente busque identificar o porquê de tantos acúmulos. Será que são só as muitas demandas externas as responsáveis por isso? Refletindo sobre o trabalho, por exemplo, me deparei com um trecho de O caminho do artista (Sextante). Nele, a autora Julia Cameron diz que “embora já tenha sido reconhecida como um vício, a obsessão por trabalho ainda recebe certo apoio em nossa sociedade. A verdade é que frequentemente estamos trabalhando para evitar a nós mesmos, nossos cônjuges, nossos verdadeiros sentimentos”.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1992, há quase três décadas, mas segue fazendo muito sentido. Sim, a sobrecarga existe e muitas empresas ainda estão descobrindo como se adaptar ao trabalho remoto, mas nós também temos a nossa parcela de responsabilidade ao não saber frear as demandas e limitar nossos espaços. E, talvez, essa dificuldade esteja justamente no fato de que, ao passar horas em frente ao computador, não precisamos ouvir os barulhos que moram dentro da gente ou desatar um nó que vai exigir boas doses de paciência e resiliência.

Muitas dicas são válidas para melhorar a nova relação com o ofício que desempenhamos: buscar um lugar confortável que não seja nossa cama, trocar de roupa ao acordar, fazer pequenas pausas ao longo do dia, cuidar da postura corporal, alimentar-se bem, exercitar-se na medida do possível, beber bastante água, meditar. Mas penso que, além de todas essas alterações práticas, a gente precisa alinhar outras questões um tanto mais subjetivas.

O problema pode estar na cobrança desmedida

O desequilíbrio não é só de atividades e tarefas, é também interno e, especialmente, hormonal. Quando algo não vai bem, o corpo percebe e responde. O estresse, por exemplo, que altera os níveis de cortisol e adrenalina, é uma resposta do nosso organismo à combinação das características do ambiente externo com as particularidades de cada um. É por isso que, mesmo que as condições sejam as mesmas, pessoas reagem de formas distintas aos acontecimentos.

Pode ser que você conheça alguém que esteja lidando muito bem com tudo isso – o que te deixa ainda mais aborrecido. Mas sentir muito não é sinal de fraqueza. Se suas emoções estão mais descompensadas e você está com dificuldade de equilibrar os pratinhos, não significa que não sabe reagir bem às dificuldades que surgem pelo caminho. Quem me explicou isso foi a psiquiatra Andressa Covolan. Ela me disse que o principal é a gente ir com calma.

“Costumo fazer uma analogia com meus pacientes. Em tempos pré-pandemia, quando colocávamos o celular para carregar, assim que o tirávamos da tomada, ele estava com a bateria cheia. Agora, ao tirarmos, por mais que tenha ficado um bom tempo ligado à fonte de energia, ele não ultrapassa os 60% da carga”, afirma a psiquiatra. “O mesmo acontece com o nosso corpo. É difícil restabelecer a mesma energia que tínhamos quando não precisávamos lidar com o que estamos enfrentando agora”, completa. Tem gente que consegue seguir sem muitas adaptações com essa carga reduzida, mas outros precisam de um pouco mais de tempo até se reajustarem.

Tempo de assimilação

De fato, nós sempre estamos suscetíveis a problemas e imprevistos – e os obstáculos fazem parte da vida de todo mundo. Mas é preciso entender que essa é a primeira vez que nossa geração vivencia algo dessa proporção. Não é um problema exclusivamente meu, seu ou dos nossos vizinhos. É de todos nós. E estamos, de alguma forma, reaprendendo a viver. Seja por concentrar todas as tarefas dentro de um mesmo ambiente, seja pelos novos cuidados de higiene, seja por precisar andar acompanhado de um novo acessório no rosto, seja pela ausência dos beijos e abraços, seja por ver nossos planos frustrados, seja por ter que se despedir de pessoas queridas… Tantas adaptações assim pedem um tempo de assimilação – e, vale lembrar, essa medida não é universal. Cada um encontrará a sua.

O que você espera fazer é possível de ser feito?

Outro ponto importante, me conta Andressa, é alinhar as expectativas. Por uma autocrítica exacerbada ou pelo excesso de comparação com a vida alheia, tentarmos ser bons em tudo e, frequentemente, não aceitamos menos do que o ideal de perfeição que preestabelecemos. Sabe aquela história do oito ou oitenta? Pois é. Assim, ao percebermos que o resultado final está distante do que esperávamos, ficamos frustrados e estressados.

Aqui, o segredo está em definir pequenas metas possíveis. Por exemplo, se você quer passar menos tempo conectado às redes sociais, uma mudança brusca pode não ser o melhor caminho. Se você passa cinco horas por dia com o celular na mão, experimente ficar quatro amanhã, três semana que vem, até chegar ao que considera ideal para você.

O mesmo vale se seu desejo é ter uma alimentação mais saudável. Comece fazendo alterações no cardápio de uma das refeições, como o almoço. Não adianta querer que, do dia para a noite, os preparos industrializados do freezer deem lugar aos orgânicos e frescos. Vá fazendo trocas graduais até que as novas práticas se tornem hábitos e estejam incorporados na rotina. Assim, fica mais fácil ser fiel a eles e não colocar tudo a perder na mesma rapidez com quem optou pela transformação.

Lembra-se da nossa conversa sobre trabalho? Aqui também é essencial que a gente redefina o conceito de produtividade. O canadense Chris Bailey, autor de Hiperfoco: Como Trabalhar Menos e Render Mais (Benvirá), afirma que ser produtivo é cumprir o que você se propôs a fazer – e não fazer tudo. Por vezes, a gente assume tarefas que não são nossas por um desejo inconsciente de dar conta de todas as demandas e, assim, mostrar valor. “A gente já faz coisas demais. Temos que aprender a ficar sem produzir nada”, reitera ele.

Seja vulnerável

Por fim, Andressa recomenda que a gente assuma a vulnerabilidade que nos habita. Não daremos conta de tudo, nem sempre acertaremos, deixaremos a desejar em alguns momentos. “É importante falarmos sobre isso com outras pessoas”, diz a médica. “Dá medo, vergonha, mas compartilhar as fraquezas é uma forma de nos fortalecermos, porque reconhecemos que há mais gente enfrentando as mesmas questões”, reconhece. Gosto muito de Super-herói de verdade, poema de Allan Dias Castro. Ele começa dizendo “as pessoas mais fortes não são as que fazem mais força para esconder suas fraquezas. São as que encontram na vulnerabilidade a sua maior defesa”. Está aí: assumir essa nossa condição é um caminho para reduzir a pressão que colocamos sobre nós mesmos.

Allan ainda convida: “vamos trocar essa cobrança de que a gente tem que ser forte o tempo inteiro e não engolir desaforo pelo superpoder de ser feliz de quem não engole o choro. Pra que a gente possa botar para fora tudo, tudo de bom que está aqui dentro, vem dessa leveza a força que é preciso. Ai, de vez em quando, sai até um sorriso”. Desejo que saiam muitos sorrisos de você.

*Por Nara Siqueira

…………………………………………………………………………….
*Fonte: vidasimples

Você nunca vai agradar a todos. Aprenda a não ligar para isso

A verdadeira liberdade pode residir em conseguir ser feliz sem precisar da aprovação alheia

UM DOS LIVROS mais populares dos últimos anos no Japão reúne as conversas entre um jovem insatisfeito e um filósofo que lhe ensina, entre outras questões, a arte de não agradar aos outros. É um tema sensível numa cultura tão complacente como a nipônica, mas este compêndio de conversações entrou também nas listas de mais vendidos dos Estados Unidos, e no Brasil foi publicado como A Coragem de Não Agradar (Sextante).

O mestre é Ichiro Kishimi, especialista em filosofia ocidental e tradutor de Alfred Adler, um dos três gigantes da psicologia junto com Freud e Jung. E é justamente o pensamento de Adler que articula o diálogo com o jovem Fumitake Koga sobre como se emancipar da opinião alheia sem se sentir marginalizado por causa disso.

O debate socrático que eles mantêm ao longo das mais de 260 páginas do livro parte dessa ideia central: todos os problemas têm a ver com as relações interpessoais. Nas palavras do próprio Adler, “se as pessoas querem se livrar dos seus problemas, a única coisa que pode fazer é viver sozinhas no universo”. Como isso é impossível, sofremos por alguma destas razões ao nos relacionarmos com os outros:

– Sentimos um complexo de inferioridade em relação a quem “conseguido mais” do que nós.

– Sentimo-nos injustamente tratados por pessoas que amamos ou ajudamos e que não nos correspondem como esperamos.

– Tentamos desesperadamente agradar os outros para obtermos sua aprovação.

Este último ponto se transformou em um vício generalizado. Podemos vê-lo claramente nas redes sociais, onde publicamos posts procurando a aprovação dos outros na forma de curtidas e comentários. Quando uma foto ou uma reflexão importante para nós obtém poucas reações, podemos chegar a nos sentir ignorados. Também nas relações analógicas, muitos problemas interpessoais têm a mesma origem: não recebemos do outro o que acreditamos merecer. O fato de não nos agradecerem suficientemente por alguma delicadeza que fizemos, por exemplo, pode desatar o ressentimento e esfriar uma amizade.

Sob este desejo de concessões há uma ânsia de reconhecimento. Se o outro me agradecer, se apreciar o meu trabalho, se corresponder ao meu favor com um ato amável, então me sentirei reconhecido. Se isso não acontecer, interpreto como se eu não tivesse feito nada, como se não existisse para o outro. Essa visão é um poderoso gerador de problemas, já que as relações nunca são totalmente simétricas. Há pessoas que desfrutam dando, e outras que transmitem a impressão, mesmo que incorreta, de que não querem receber nada. Isso provoca muitos mal-entendidos, somado ao fato de que cada indivíduo tem uma forma diferente de expressar seu amor e gratidão. Há pessoas que verbalizam de maneira imediata e direta o que sentem por nós, e outras que nos apreciam igualmente, mas têm menos facilidade para expressar amor, ou o fazem de forma diferida, quando encontram o momento e lugar adequados.

Todas as opções são corretas, sempre que nos liberemos da ânsia por encontra uma compensação imediata e equitativa, como em um comércio no qual será preciso receber imediatamente pela mercadoria entregue.

Conforme afirma o professor Ichiro Kishimi, “quando uma relação interpessoal se alicerça na recompensa, há uma sensação interna que diz: ‘Eu lhe dei isto, então você tem que me devolver aquilo’”, o que é uma fonte inesgotável de conflitos.

Porque, além das diferentes maneiras de expressar afeto, encontraremos pessoas que simplesmente não nos entendem ou inclusive não gostam de nós. Fazer um drama por causa disso transformará nosso dia a dia em um terreno fértil para os desgostos. A verdadeira liberdade inclui não nos importarmos com o fato de algumas pessoas não irem com a nossa cara, porque estatisticamente é impossível agradar a todos. Deixar de nos preocupar com o que os outros acham de nós, especialmente os que não nos entendem, é o caminho para a serenidade.

“Quando desejamos tão intensamente que nos reconheçam, vivemos para satisfazer as expectativas dos outros”, afirma Ichiro Kishimi, e com isso já deixamos de ser livres. Não exigir contrapartidas e se permitir viver à sua maneira, dando-se inclusive o direito de não agradar, é algo que traz liberdade, paz mental e, afinal, melhores relações com demais.

Não leve para o pessoal

– Em Los Cuatro Acuerdos, célebre ensaio publicado em 1998 por Miguel Ruiz, a segunda lei diz: “Não leve nada para o lado pessoal”. O médico mexicano argumenta que para manter o equilíbrio emocional e mental não se pode dar importância ao que ocorre ao nosso redor, já que “quando você encara as coisas de forma pessoal, sente-se ofendido e reage defendendo suas crenças e criando conflitos. Faz uma montanha a partir de um grão de areia”.

– Deixar de lado a necessidade de ter razão. Parar de gastar energia em tentar convencer os outros, que têm suas próprias crenças, é profundamente libertador. Quem anda pelo mundo levando tudo para o lado pessoal vê inimigos por toda parte e nunca consegue ficar verdadeiramente tranquilo, já que sempre tem contas pendentes que circulam por sua mente, causando sofrimento.

– Segundo Miguel Ruiz, nada do que as outras pessoas fizerem ou disserem deveria nos fazer mal se assumimos o seguinte axioma: “Você nunca é responsável pelos atos de outros; só é responsável por si mesmo”.

*Por Francesc Miralles – é escritor e jornalista experiente em psicologia.

……………………………………………………………………….
*Fonte: elpais

Narciso (David Eagleman)

Na vida depois da morte você recebe uma resposta clara sobre nosso propósito na Terra: nossa missão é coletar dados.

Todos nós fomos colocados nesse planeta como sofisticadas cameras móveis.

Somos equipados com lentes poderosas, que produzem imagens em alta-resolução, calculando formas e profundidades a partir de ondas de luz. As cameras dos olhos são montadas em corpos, que as carregam por aí. Corpos que podem escalar montanhas, mergulhar em cavernas, cruzar paisagens.

Temos também orelhas, para captar ondas de ar e traduzir em sons. E um grande tecido sensível ao toque, para coletar dados sobre temperaturas e texturas. Fomos desenhados com cérebros analíticos, capazes de transportar esse equipamento acima das nuvens, abaixo dos oceanos e na superfície da Lua. Assim, cada observador, de qualquer ponto, contribuí com uma pequena parcela na vasta coleção de dados sobre a superfície planetária.

Fomos colocados aqui pelos cartógrafos, cujos livros sagrados seriam o que nós reconhecemos como mapas.

Nosso papel é cobrir cada centímetro da superfície do planeta.

A medida que nos deslocamos, vamos gravando dados através de nossos orgãos sensoriais e essa é a única razão pela qual existimos.

No momento em que morremos, acordamos em uma sala de interrogatório. Nela é feito o download de toda nossa coleção de dados e a correlação com os dados de outros que morreram antes. Através desse método os cartógrafos juntam bilhões de pontos de vista em uma uma imagem única e dinâmica, de alta resolução, do nosso planeta. Há muito tempo perceberam que o melhor método para se conseguir um mapa global, seria espalhando pequenos dispositivos móveis com capacidade de multiplicação rápida e assim explorar qualquer ponto do planeta. Para garantir que nos espalhássemos o máximo possível, nos fizeram insaciáveis, vigorosos e fecundos.

Ao contrário das versões anteriores das cameras móveis, nos deram a possibilidade de nos erguer, de girar nossos pescoços para poder mirar nossas lentes em cada detalhe, nos tornaram curiosos e com livre arbítrio para desenvolver novas ideias e aprimorar nossa mobilidade. A genialidade do design foi permitir que nossas vontades mais instintivas não fossem predeterminadas, ao contrário, fomos submetidos a uma seleção natural, desenvolvendo assim estratégias inéditas para enfrentar os desafios.

Os cartógrafos não se importam com quem vive ou quem morre, desde que tragam a maior cobertura possível. Ficam irritados com adorações e religiões; atrapalham e deixam a coleta de dados mais lenta.

Quando acordamos na gigantesca sala esférica sem janelas, leva-se algum tempo até entendermos que não estamos em um céu, acima das nuvens. Na verdade estamos exatamente no centro da Terra. Os cartógrafos são muito menores que nós. Eles vivem nas profundezas da Terra e são avessos à luz. Nós somos os maiores equipamentos que eles conseguiram fazer. Para eles, somos gigantes, grandes o bastante para saltar sobre montanhas e escalar penhascos, uma máquina incrível, ideal para uma exploração planetária.

Com muita paciência os cartógrafos nos carregaram até um ponto na superfície e nos observaram durante milênios enquanto nos esparramávamos como tinta pela superfície do planeta, até que cada área fosse coberta pela cor humana, até que todas as regiões estivessem sob a observação de seus sensores móveis compactos.

Estimando nosso sucesso de sua base de comando, os engenheiros responsáveis pelas cameras portáteis se cumprimentavam pelo trabalho bem feito. Porém, apesar do sucesso inicial, os cartógrafos são profundamente frustrados com os resultados. Mesmo com a eficiente cobertura do planeta, conseguida através de várias gerações, o sistema de cameras portáteis coletam poucos dados relevantes ou úteis para a cartografia. Ao invés disso, os aparelhos direcionam suas sofisticadas lentes compactas para outras lentes compactas, numa irônica banalização da tecnologia.

Quanto ao sofisticado tecido sensível, querem apenas que sejam tocados. Os geniais sensores de ondas de ar se viram na direção de sussurros de amantes ao invés de coletar dados críticos sobre o planeta. E apesar do design propício a exploração ao ar livre, preferem usar sua energia para construir abrigos em que possam ficar juntos. Constroem redes de comunicação para ver fotos uns dos outros, quando estão separados.

Dia após dia, com o coração apertado, os cartógrafos examinam pilhas e pilhas de dados inúteis. O arquiteto do sistema foi demitido. Criou uma maravilha da engenharia que só tira fotos dela mesma.

…..

Esse texto é de David Eagleman, neurocientísta e escritor, autor do melhor livro que lí em 2013: SUM. São contos curtos como esse, sempre sobre o mesmo assunto: o que acontece depois que a gente morre. Existe uma edição em português, com a capa mais horrorosa que já ví na vida, uma pena. Se for confortável, prefira a edição original em inglês.

*Por Wagner Brenner

………………………………………………………………………
*Fonte: updateordie

Sem educação emocional, não adianta saber resolver equações – Alerta um professor

Os jovens com maior domínio de suas emoções têm melhor desempenho acadêmico, maior capacidade de cuidar de si e dos outros, predisposição para superar as adversidades e menor probabilidade de se engajar em comportamentos de risco.

De acordo com Rafael Guerrero, que é um dos poucos professores da Universidade Complutense de Madrid a ensinar seus alunos de Magistério, que serão futuros professores, as técnicas da educação emocional..

Ele o faz voluntariamente porque o programa acadêmico dos mestrados em Educação Infantil e Primária de Bolonha não inclui nenhum assunto com esse nome.

“Muitos dos problemas dos adultos se devem às dificuldades em regular as emoções e isso não é ensinado na escola”, explica Guerrero.

Trata-se de ensinar futuros professores a entender e regular suas próprias emoções para que possam direcionar crianças e adolescentes nessa mesma tarefa.

“Meus alunos me dizem que ninguém lhes ensinou como se regular emocionalmente e que desde jovens, quando tinham que enfrentar um problema, se trancavam em uma sala para chorar, essa era a maneira deles de se acalmar”, diz o professor.

Insegurança, baixa auto-estima e comportamentos compulsivos são algumas das conseqüências da falta de ferramentas para gerenciar emoções.

“Quando atingem a idade adulta, eles têm dificuldade em se adaptar ao ambiente, tanto ao trabalho quanto às relações pessoais. Temos que começar a treinar professores com a capacidade de treinar crianças no domínio de seus pensamentos “.

Sem educação emocional, não serve saber como resolver equações O cérebro precisa ficar animado para aprender

Inteligência emocional é a capacidade de sentir, entender, controlar e modificar o humor de si mesmo e dos outros, de acordo com a definição daqueles que cunharam o termo no início dos anos 90, os psicólogos da Universidade de Yale Peter Salovey e John Mayer.

A inteligência emocional é traduzida em habilidades práticas, como a habilidade de saber o que acontece no corpo e o que sentimos, o controle emocional e o talento para nos motivar, assim como empatia e habilidades sociais.

“Quando pensamos no sistema educacional, acreditamos que o importante é a transmissão de conhecimento de professor para aluno, ao qual ele dedica 90% do tempo. O que há de errado com o equilíbrio emocional? Quem fala disso na escola? ”, Diz Rafael Bisquerra, diretor do Programa de Pós-Graduação em Educação Emocional da UB e pesquisador do GROP.

Os jovens com maior domínio de suas emoções apresentam melhor desempenho acadêmico, maior capacidade de cuidar de si e dos outros, predisposição para superar as adversidades e menor probabilidade de se engajar em comportamentos de risco – como o uso de drogas -, segundo a resultados de diversos estudos publicados pelo GROP.

“A educação emocional é uma inovação educacional que responde às necessidades que os assuntos acadêmicos comuns não cobrem.”

“O desenvolvimento de competências emocionais pode ser mais necessário do que saber como resolver equações de segundo grau “, diz Bisquerra.

Os objetivos da educação emocional, de acordo com as diretrizes de Bisquerra, são adquirir um melhor conhecimento das próprias emoções e dos outros, para prevenir os efeitos nocivos das emoções negativas – o que pode levar a problemas de ansiedade e depressão -, e desenvolver a capacidade de gerar emoções positivas e auto-motivação.

*Por Rafael Guerrero

…………………………………………………………………
*Fonte: pensarcontemporaneo

Estar bem consigo mesmo é melhor do que estar bem com todos

«Um jovem e notável discípulo de artes marciais estava aprendendo sob a tutela de um professor famoso.

Um dia, o professor estava observando uma sessão de prática no quintal e percebeu que a presença dos outros alunos estava interferindo nas tentativas do jovem de aperfeiçoar sua técnica.

O professor podia perceber o desejo do jovem de ficar bem diante dos outros e sua frustração por não conseguir. Ele se aproximou e deu um tapa no ombro dele.

– Qual é o problema? – ele perguntou.

– Não sei – disse o jovem visivelmente tenso. – Por mais que eu tente, não consigo executar os movimentos corretamente.

-Venha comigo, eu explico para você – respondeu o professor.

O professor e o aluno deixaram o prédio e caminharam até um riacho. O professor permaneceu em silêncio na praia por um tempo. Então ele falou.

– Olhe para o riacho. Há pedras no seu caminho. Tenta impressioná-las? Golpea-se contra elas por frustração? Simplesmente flui e segue em frente. Seja como a água.

O jovem tomou nota do conselho do professor e, em poucos dias, mal notou a presença de outros alunos ao seu redor. Nada poderia afetar sua maneira de executar os movimentos, cada vez mais perfeitos ».

Essa história maravilhosa nos fala sobre a necessidade de encontrar equilíbrio e paz interior, em vez de tentar impressionar os outros e obter sua aprovação. De fato, quando aguardamos a aceitação dos outros, ocorre uma contradição: quanto mais a procuramos, mais ilusória ela se torna e menos valorizamos os outros.

A parábola usa a água como um recurso, pois na filosofia budista ela tem um simbolismo especial porque encerra perfeitamente seus ensinamentos. A água flui constantemente, se adapta às formas dos recipientes e levanta todos os tipos de obstáculos. É sua capacidade de se adaptar sem perder sua essência que a torna tão especial.

Os riscos de buscar a aprovação de outras pessoas

1 – Estamos cada vez mais nos afastando de nossa essência. Quando buscamos a aceitação de outros, assumimos que algumas de nossas características não serão bem recebidas, por isso tentamos escondê-las. Colocamos uma máscara social que nos afasta da autenticidade e nos “força” a interpretar um personagem. Obviamente, viver naquele “teatro” é cansativo, porque precisamos estar cientes de reprimir muitos dos pensamentos, atitudes e emoções que experimentamos naturalmente.

2 – Vivemos em uma montanha-russa emocional. Quando a opinião dos outros se torna a bússola que dita nossos passos, subimos por conta própria a uma montanha-russa emocional, porque nosso humor começará a depender diretamente de avaliações externas. Ficaremos felizes se nos lisonjearem ou profundamente infelizes e frustrados se nos criticarem ou nos rejeitarem. Nesse ponto, paramos de possuir nossas emoções e damos controle aos outros. Tornamo-nos pessoas reativas à mercê da opinião de outras pessoas.

3 – Esquecemos nossos sonhos. É algo terrível, tão terrível que normalmente afastamos isso da mente, mas quando nossa vida gira em torno da aprovação de outros, abandonamos nossos sonhos e planejamos adaptar e adotar os objetivos dos outros. Dessa maneira, acabamos perdendo a motivação intrínseca, que é o nosso motor de direção, e ficamos sem paixão. Assim, acabamos vivendo a vida que os outros querem, não a vida que queremos.
É possível sermos nós mesmos sem “prejudicar” os outros?

Um dos obstáculos que para as pessoas no caminho da autenticidade e da libertação pessoal é o medo de prejudicar pessoas importantes. No entanto, o fato de crescer, perseguir nossos sonhos, ser independente e se sentir bem consigo mesmo não deve ser um problema para os outros. Pelo contrário, se eles realmente nos amam, devem se sentir felizes pelo nosso crescimento.

O problema é que, quando criamos um relacionamento de dependência com alguém, buscando sua aprovação antes de tomar decisões, do mais inconseqüente ao mais importante, estamos conferindo um enorme poder sobre nós. Muitas pessoas se sentem confortáveis nesse papel, gostam do poder que têm sobre nossas vidas e não querem romper esse vínculo. No entanto, muitas vezes essas pessoas se tornam cada vez mais exigentes, tentam nos amarrar mais rapidamente e suas demandas de controle se tornam desproporcionais. Nesses casos, cortar o laço é uma questão de sobrevivência psicológica.

É claro que, quando nos tornamos independentes, ousamos desejar coisas diferentes e começar a tomar nossas próprias decisões, essas pessoas estarão “magoadas” porque desejam manter esse vínculo de dependência. De certa forma, a dor é uma forma de manipulação emocional. No entanto, devemos lembrar que muitas vezes os laços que nos mantêm unidos também são os que mais nos amarram.

Nesses casos, não devemos ter medo de “prejudicar” essa pessoa porque não estamos realmente machucando-a, mas estamos dando ao relacionamento uma chance de amadurecer. O que estamos fazendo é elevar o relacionamento a um nível superior, onde não há dependência, mas duas pessoas maduras que gostam de estar juntas a partir de sua individualidade, sem dependências tóxicas.
Não seja você mesmo, seja a melhor versão de você

Um dos piores conselhos de auto-ajuda que podem nos dar é incentivar-nos a ser nós mesmos. Devemos ter em mente que muitas pessoas conseguiram ser elas mesmas, mas muitas outras falharam miseravelmente. Muitas pessoas foram felizes por serem elas mesmas, mas outras foram profundamente infelizes.

O conselho mais sábio é: seja a melhor versão de você. Isso não significa que devemos renunciar à nossa essência, mas que devemos aprender a tirar o melhor de nós mesmos. Por exemplo, ser uma pessoa raivosa no final só nos trará problemas, além de nos fazer sentir mal. Isso não significa que devemos esconder nossa decepção ou descontentamento, mas que devemos expressá-la de forma assertiva. O objetivo não é agradar aos outros, mas ser capaz de gerenciar nossas emoções porque acumular ressentimento, ódio e ressentimento acabará nos prejudicando.

O segredo para ser a melhor versão de nós mesmos é muito simples: quando desenvolvemos um bom equilíbrio interno, sabemos exatamente o que queremos na vida e estamos em paz consigo mesmos; Tudo isso se traduz em cada um de nossos atos e nos permite relacionar de forma mais assertiva e autentica.

De fato, ser autêntico não significa explodir quando nos sentimos zangados e frustrados ou dizemos a primeira coisa que vem à mente sem refletir sobre suas conseqüências, que é simplesmente um comportamento infantil.

Nas palavras de Jean Paul Sartre: “Quem é autêntico assume responsabilidade pelo que é e se reconhece livre de ser o que é”.

A pessoa autêntica pratica a congruência, é ela quem expressa o que sente e pensa assertivamente. No entanto, a autenticidade não se limita à congruência, não é simplesmente “seja você mesmo”, mas também implica um profundo conhecimento interior, assumindo responsabilidade e uma sólida auto-estima que não depende das opiniões dos outros.

A pessoa autêntica é sensível às emoções e opiniões dos outros, não pode ser diferente, mas decide não subordinar suas decisões aos julgamentos e críticas dos outros. O mais interessante é que, quando estamos bem conosco, quando somos autênticos de maneira madura e com um profundo autoconhecimento, os outros percebem isso e conquistamos seu respeito e admiração, mesmo que esse não seja o objetivo final.

*Adaptado de Rincon de la psicologia

…………………………………………………………………….
*Fonte: pensarcontemporaneo

A vida não pode ser trabalhar a semana inteira e ir ao supermercado no sábado

Paleoantropólogo Juan Luis Arsuaga, que acaba de publicar um livro, tenta desvendar o sentido da vida: “Deve haver algo mais… E essa outra coisa se chama cultura. É a música, a poesia, a natureza, a beleza…”

As escavações na jazida arqueológica de Atapuerca em Burgos começaram no final dos anos setenta. Em 1982 se juntou ao trabalho o paleoantropólogo Juan Luis Arsuaga (Madri, 1954), um dos diretores da Fundação Atapuerca com Eudald Carbonell e José María Bermúdez de Castro, além de diretor científico do Museu da Evolução Humana em Burgos. Pouco depois, começariam a ser descobertos restos de fósseis humanos que iluminariam a história da humanidade.

Atualmente centenas de milhares de pessoas visitam todos os anos a escavação e o museu, que de acordo com Arsuaga proporciona modernidade e identidade “da boa”. “O museu é um bom exemplo de como fazer as coisas”, diz.

“Minha participação na criação do Parque Nacional de Guadarrama é a coisa mais importante que já fiz em minha vida, mais até do que descobrir fósseis”

Além da descoberta de fósseis, o cientista se sente especialmente orgulhoso de sua participação na criação do parque nacional da Serra de Guadarrama em Madri em 2013. “É a coisa mais importante que fiz em toda minha vida, mais até do que descobrir fósseis”, afirma.

Junto com a publicação de seu último livro Vida, la gran historia (Vida, a Grande História), o pesquisador foi recentemente nomeado presidente da Fundação Gadea Ciencia com um objetivo: “Que a fundação se transforme em algo útil à sociedade”. Mas para o paleoantropólogo, seu cargo mais importante é o de professor na Universidade Complutense de Madri.

Pergunta. Imaginou em algum momento quais descobertas poderiam ocorrer em Atapuerca?

Resposta. Não poderia imaginar e, de fato, todos os anos ocorrem surpresas. A melhor coisa que pode acontecer em um projeto científico é que ele te surpreenda. Se não o faz significa que seus potenciais já se esgotaram.

P. E o que mais o surpreendeu ao longo desses anos?

R. A descoberta de tantos fósseis humanos é obviamente o mais importante em meu trabalho, mas nesses anos ocorreram coisas em Atapuerca e na ciência, como as análises genéticas, com as quais ninguém contava e sequer imaginava. Agora temos estudos de DNA de 400.000 anos. Foi uma surpresa para todo mundo. Em Atapuerca o mais importante foi o grande número de descobertas de restos humanos, que aparecem mais do que em qualquer outro lugar, mais do que no restante das outras jazidas arqueológicas juntas.

P. Por que escolheu a jazida arqueológica de Atapuerca?

R. É uma história que se parece com qualquer outra no mundo da ciência. Diferentes possibilidades são investigadas, linhas são exploradas, algumas parecem mais interessantes e lá se coloca mais esforço, se progride e os resultados aparecem. Então se investe mais. A história de Atapuerca não é o resultado de uma intuição genial. Na verdade, Atapuerca só começou a dar resultados em 1992, quando foi feita a primeira grande descoberta. Mas o começo foi muito duro, como o é para um astrônomo, um biólogo molecular e um botânico. No começo é uma roda que gira muito devagar. A ciência tem um método comum. Não há tanta diferença entre estudar terremotos e procurar fósseis. Consiste em explorar o desconhecido e ninguém sabe como fazê-lo.

P. Apesar de trabalhar com o desconhecido, pensam no que pode ser descoberto?

R. Não, mas escavamos onde já sabemos que há fósseis. Essas jazidas arqueológicas são para obter mais do mesmo. E depois surge o desconhecido. Há mundos novos que são os fascinantes e os conhecidos dos quais podemos saber mais. Em Atapuerca temos isso, os mundos já conhecidos e outros que não conhecemos bem.

P. Mas depois surgem descobertas, como a de uma mandíbula em Israel, que reescrevem o que já sabíamos…

R. Bom, não se deve dar tanta importância aos autores. É preciso matizar. Às vezes fico preocupado quando se diz que uma descoberta obriga a reescrever a evolução humana. Seria um desastre. É como se antes não soubéssemos nada. Se descobríssemos uma nova cidade romana, mudaria tudo o que sabemos sobre os romanos? Claro que não! Ganhamos mais conhecimento sobre certas épocas e momentos da evolução humana, mas sem exagerar.

“Ao contrário do que se pensa, a ciência é sumamente cautelosa e conservadora. As publicações científicas são muito sóbrias”

P. Ainda que algumas vezes tenha sido esse o caso…

R. Sim, é verdade que às vezes se produzem conhecimentos que não mudam o que já se sabia, mas que ampliam o conhecimento. Por exemplo, em 1994 se pensava que a Europa teria sido povoada há quinhentos mil anos, mas nesse mesmo ano encontramos fósseis humanos em grande abundância de 900.000 anos atrás. Ou seja, 400.000 anos mais antigos. Isso é como chegar a um continente desconhecido, mas o descobrimento da América não mudou a Ásia e a Europa, simplesmente acrescentou algo. A ciência cresce.

P. Em relação ao pedaço de maxilar encontrado em Israel, sua descoberta foi suficiente para determinar que o Homo sapiens saiu antes da África. Como é possível?

R. É como encontrar um relógio em um templo asteca. O que você diria? Isso é muito importante. Somente um relógio muda tudo. Como podem saber que faziam tecnologia avançada? Se faziam relógios… Há casos que são óbvios. Existem notícias que obrigam a revisar muitas coisas. Na verdade, não aparecem relógios, e sim aperfeiçoamentos e amplificações do que sabemos. Ao contrário do que se pensa, a ciência é sumamente cautelosa e conservadora. As publicações científicas são muito sóbrias.

P. Por que a antropologia nos atrai tanto?

R. Porque nossas origens nos interessam. Só há duas explicações: a religião e a ciência. As pessoas querem saber de onde vêm e por que estamos aqui. Costumamos dizer que as três perguntas da filosofia basca refletem o ser humano: quem somos? De onde viemos? E onde vamos comer? Mas além disso temos preocupações intelectuais: o que fazemos aqui? O que nos criou? Há quem procure uma explicação religiosa, mística ou extraterrestre, mas todo mundo precisa saber por que está aqui. Essa pergunta, inerente ao humano, é a mais importante que pode ser feita. Assim que você solucionar a questão da comida, a próxima é essa [risos]. As crianças que nascerem nos próximos milênios irão se fazer a mesma pergunta.

P. E na verdade nunca será totalmente respondida… ou será?

R. A religião dá uma explicação falsa e os cientistas explicam. Cada um procura sua felicidade pessoal. Mas se você quer saber de onde viemos, eu te explico. Se quer saber por que estamos aqui, eu te explico…

“Há quem procure uma explicação religiosa, mística ou extraterrestre, mas todo mundo precisa saber por que está aqui”

P. Não sei se vou perguntar ao senhor [risos]… Por que estamos aqui?

R. Meu novo livro é justamente sobre isso. A evolução, da origem do cosmos à origem da vida, passa por diferentes etapas: o surgimento da Terra, a vida nela, as células complexas, a consciência, a mente simbólica, o pensamento abstrato, etc. Cada um desses passos poderia ou não ter acontecido. Provavelmente não era preciso que acontecessem ou talvez fossem inevitáveis. A pergunta é se a história da vida e a história humana têm uma direção, um sentido. O próprio leitor, com a informação que lhe dou, decide se cada passo é algo que tinha que acontecer ou poderia nunca ter ocorrido.

P. De modo que o leitor responde a si mesmo?

R. Sim, deixo que decida por si mesmo. O leitor é tão inteligente que pode chegar às suas próprias conclusões. De modo que não sou responsável pela filosofia dos outros. Dou todas as informações sobre o que pensaram os diversos gênios. Eu conto o que existe, dou minha opinião, e o que os mais inteligentes disseram sobre os diferentes passos que nos fizeram chegar até aqui.

P. O senhor poderia me dizer, hoje, por que estamos aqui?

R. Você está aqui porque seu pai e sua mãe tiveram relações uma noite. Mas é preciso procurar a explicação. E isso está no livro.

P. Mas quanto mais informação temos, mais o mundo nos parece complexo…

R. É que é muito complexo e contraditório… Os que tentam simplificar o complexo são muito perigosos. Se pegarmos, por exemplo, o código genético que temos, o DNA, é o único possível? Podem existir outros códigos genéticos? Por que temos esse e não outro que poderia ser melhor? Por que não?

“Em meu livro, o leitor decide por si mesmo se cada passo da história humana é algo que precisava acontecer ou poderia nunca ter ocorrido”

P. Falando de DNA, me vem a cabeça a descoberta de Denny, a filha de uma neandertal e um denisovano. Com essas descobertas sempre vem à discussão uma pergunta recorrente: Homo sapiens, neandertais e denisovanos poderiam ser a mesma espécie?

R. Não, não somos. Nesse instante, você está falando em espanhol ou em árabe?

P. Espanhol, que eu saiba.

R. Você sabia que a palavra alcalde (prefeito, em português, que também tem a palavra alcaide, de significado semelhante) vem de ‘al-qadi’, de origem árabe? Mas não é por isso que falamos árabe. Termos palavras de origem árabe não transforma o espanhol em árabe. Ter 2% de genes neandertais não transforma você em neandertal. Em biologia, como nas línguas, todas as populações têm alguns genes de outras espécies. Como não foi um deus que nos criou, se espera que as espécies absorvam genes umas das outras. Somente um criacionista poderia pensar que as espécies são puras, separadas e que não têm contato com outras.

P. Essas três espécies viveram ao mesmo tempo, mas só compartilhamos uma pequena porcentagem de genes. É isso o que nos diferencia?

R. Temos genes de todas as partes. Veja os espanhóis. Temos um monte de genes africanos e das estepes. Veja os ursos da Cantábria. Têm 2% de genes de ursos das cavernas. É como se você dissesse que o espanhol foi criado por Deus como uma língua diferente do francês. Nesse caso sim seria surpreendente que tivéssemos uma palavra em comum. Deus não se repete. Mas os idiomas são um produto da evolução linguística e, levando em consideração que somos vizinhos, não me surpreende que digamos cruasán (variação em espanhol da palavra francesa croissant) mesmo não sendo franceses, e sim espanhóis. Aplico esse mesmo raciocínio à biologia.

P. O que acha das análises genéticas vendidas hoje para conhecer nossa origem? Eu, por exemplo, que sou francesa, não tenho nada de francês. Isso deve ter acontecido com muita gente. Como se explicaria isso a essas pessoas?

R. É que o francês não existe, é um conceito político. Realmente não existem o gene francês e o basco. São na realidade diferentes proporções e misturas.

P. Se as pessoas soubessem disso, acha que afetaria os nacionalismos?

R. Em princípio, não. O fato de termos genes diferentes não deveria mudar nada. O nacionalismo atual é mais cultural. Sabia que o sobrenome mais comum da Catalunha é Fernández, por exemplo? O nacionalismo renunciou há tempos ao componente biológico e agora é baseado na cultura. Utilizam outros elementos para definir a identidade. Dito isso, eu não sou nacionalista e minha família é basca e fala o idioma basco.

“Como não foi um deus que nos criou, se espera que as espécies absorvam genes umas das outras”

P. Focando na Espanha, que obstáculos enfrentam a antropologia, a arqueologia e a paleontologia?

R. Como dizia Groucho Marx, comparado com que? Se compararmos com a Argélia, estamos muito bem. Se compararmos com a França e a Itália, a situação não é tão boa. Mas houve progressos. Temos um patrimônio imenso e precisamos saber contar. É preciso investir. As instituições devem saber que isso é uma indústria e um recurso econômico, em todo caso. Essa é a nossa luta. Há trabalho a ser feito.

“O nacionalismo renunciou há tempos ao componente biológico e agora se baseia na cultura para definir a identidade”

P. Em parte, conhecer nosso passado nos faz entender e valorizar mais nosso presente, não acha?

R. Sim, e nos faz mais felizes, espero. Aprendemos, aproveitamos, vivemos outras vidas. Eu sempre digo que a vida não pode ser trabalhar a semana inteira e ir ao supermercado no sábado. Não pode ser assim. Essa vida não é humana. Deve haver algo mais, mas aqui, nessa vida. E essa outra coisa se chama cultura. É a música, a poesia, a natureza, a beleza… É o que se deve apreciar e aproveitar porque, caso contrário, isso é uma merda.

P. Nossos antepassados seguramente sabiam apreciar melhor a vida…

R. Sem dúvida. Não trabalhavam a semana inteira e não iam ao supermercado no sábado.

P. Então o que nós fizemos de errado?

R. Alguma coisa fizemos errado, mas ainda temos tempo. Temos Mozart. Não é pouco. Apreciar a beleza é uma questão de educação e sensibilidade. Procure o que é belo na vida. Há muita beleza.

* Juan Luis Arsunaga / Adeline Marcos

…………………………………………………………………………..
*Fonte: elpais

A carta mais linda do mundo escrita por José Saramago para sua avó

No ano de 1968, José Saramago publicou no jornal A Capital, de Lisboa, a crônica Carta a Josefa, minha avó. Anos mais tarde, ela seria publicada no livro Deste Mundo e do Outro. Abaixo segue a reprodução da página do jornal A Capital em que foi originalmente publicado o texto. Confira a carta na íntegra:

*Optamos por manter a grafia do português de Portugal*

……………..

Carta para Josefa, minha avó

‘Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.’

*Por Luiz Antonio Ribeito

…………………………………………………………………
*Fonte: notaterapia

Dies irae – Clarice Lispector

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação. E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade. E ter a obrigação de ser o que se chama de apresentável me irrita. Por que não posso andar em trapos, como homens que às vezes vejo na rua com barba até o peito e uma bíblia na mão, esses deuses que fizeram da loucura um meio de entender? E por que, só porque eu escrevi, pensam que tenho que continuar a escrever? Avisei a meus filhos que amanheci em cólera, e que eles não ligassem. Mas eu quero ligar. Quereria fazer alguma coisa definitiva que rebentasse com o tendão tenso que sustenta meu coração.

E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: o sistema que arranjou para viver é ocupar-se. Nenhuma ocupação lhe agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que eu fiz com amor estraçalhou-se. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia. E criaram o Dia dos Analfabetos. Só li a manchete, recusei-me a ler o texto. Recuso-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera. E comemora-se muito. E guerreia-se o tempo todo. Todo um mundo de semiparalíticos. E espera-se inutilmente o milagre. E quem não espera o milagre está ainda pior, ainda mais jarros precisaria quebrar. E as igrejas estão cheias dos que temem a cólera de Deus. E dos que pedem a graça, que seria o contrário da cólera.

Não, não tenho pena dos que morrem de fome. A ira é o que me toma. E acho certo roubar para comer. – Acabo de ser interrompida pelo telefonema de uma moça chamada Teresa que ficou muito contente de eu me lembrar dela. Lembro-me: era uma desconhecida, que um dia apareceu no hospital, durante os quase três meses onde passei para me salvar do incêndio. Ela se sentara, ficara um pouco calada, falara um pouco. Depois fora embora. E agora me telefonou para ser franca: que eu não escreva no jornal nada de crônicas ou coisa parecida. Que ela e muitos querem que eu seja eu própria, mesmo que remunerada para isso. Que muitos têm acesso a meus livros e que me querem como sou no jornal mesmo. Eu disse que sim, em parte porque também gostaria que fosse sim, em parte para mostrar a Teresa, que não me parece semiparalítica, que ainda se pode dizer sim.

Sim, meu Deus. Que se possa dizer sim. No entanto neste mesmo momento alguma coisa estranha aconteceu. Estou escrevendo de manhã e o tempo de repente escureceu de tal forma que foi preciso acender as luzes. E outro telefonema veio: de uma amiga perguntando-me espantada se aqui também tinha escurecido. Sim, aqui é noite escura às dez horas da manhã. É a ira de Deus. E se essa escuridão se transformar em chuva, que volte o dilúvio, mas sem a arca, nós que não soubemos fazer um mundo onde viver e não sabemos na nossa paralisia como viver. Porque se não voltar o dilúvio, voltarão Sodoma e Gomorra, que era a solução. Por que deixar entrar na arca um par de cada espécie? Pelo menos o par humano não tem dado senão filhos, mas não a outra vida, aquela que, não existindo, me fez amanhecer em cólera.

Teresa, quando você me visitou no hospital, viu-me toda enfaixada e imobilizada. Hoje você me veria mais imobilizada ainda. Hoje sou a paralítica e a muda. E se tento falar, sai um rugido de tristeza. Então não é cólera apenas? Não, é tristeza também.

— Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”.
Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

……………………………………………………………….
*Fonte: revistaprosaversoearte

Umberto Eco alerta: “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos.”

Cada vez mais intolerantes, as pessoas parecem precisar revestir seus discursos de agressividade, para que pareçam convincentes.

Uma das maiores dificuldades comunicativas diz respeito à capacidade de expor pontos de vista sem exagerar no tom impositivo ou mesmo agressivo com que se defendem argumentos, mesmo os mais incoerentes. Cada vez mais intolerantes, as pessoas parecem precisar revestir seus discursos de agressividade, para que pareçam convincentes.

Com o advento da Internet, todos possuímos espaços virtuais onde podemos nos expressar, expondo nossos pontos de vista sobre assuntos vários. Ilusoriamente protegidos pela distância que a tela fria traz, muitas vezes excedemos no radicalismo com que pontuamos nossos comentários, sem levar em conta a maneira como aquelas palavras atingirão o outro.

A frieza do cotidiano e a concorrência de mercado acabam por contaminar nocivamente os relacionamentos humanos, que se tornam cada vez menos afetivos, tão robóticos quanto as máquinas de café que nos entopem os sentidos. Importamo-nos quase nada com os sentimentos alheios, com a historia de vida alheia, com a necessidade de entender as razões que não são nossas, pois queremos a todo custo extravasar tudo isso que se acumula dentro de nós em meio à velocidade estressante de nossas vidas.

Nesse contexto, quando expomos aquilo que pensamos sobre determinado assunto, principalmente relacionados à política e/ou à religião, acabamos sendo vítimas de contra-ataques violentos que não rebatem o que expusemos, mas tão somente tentam neutralizar nossa verdade com destemperos emocionais isentos de criticidade. Aceitável seria, entretanto, uma contra-argumentação pautada por reflexões plausíveis, o que não ocorre, em grande parte dos casos.

O fato é que poucos estão dispostos a se abrir ao que o outro tem a oferecer, a dizer, a mostrar, a trazer de diferente para suas vidas, porque é trabalhoso refletir sobre idéias já postas e cristalizadas dentro de nós, ao passo que manter intacto aquilo que carregamos há tempos é cômodo e tranquilo. E quem não quer não muda, não recebe o novo, somente dá em troca o pouco que tem e, pior, muitas vezes de forma deselegante e depreciativa.

Portanto, é necessário que aprendamos a nos expressar e a debater nossas ideias com quem realmente estiver pronto para trocar conhecimentos, com quem possui uma postura receptiva para com o novo e que não se importa com a quebra de certezas. Não percamos nosso precioso tempo com quem só ouve o que quer e da forma que lhe convém, diminuindo-nos por conta da diversidade de opiniões. Esses definitivamente não merecem nem mesmo nossa presença.

*Por Marcel Camargo

…………………………………………………………..
*Fonte: caminhoseu

Analista explica sucesso financeiro do Coringa de Joaquin Phoenix: ‘Alienação, solidão e raiva’

Coringa se tornou um fenômeno de bilheteria, arrecadando cerca de US$ 744 milhões ao redor do mundo pouco depois de um mês de estreia e com grandes chances de se tornar o filme +18 mais lucrativo da história, um feito que parece difícil de se compreender.

Porém, para o analista de mídia sênior em Relações com Expositores Jeff Bock, que falou à Variety, os motivos para o sucesso do Palhaço do Crime são evidentes: “Coringa com certeza está rindo por último”. O primeiro fator do sucesso foi o orçamento conservador, de US$ 62,5 milhões para o filme.

“Não se consegue comprar uma adaptação de quadrinhos por esse preço, ainda assim a Warner Bros. fez funcionar contando uma boa história”, disse Bock. Mesmo ao considerar que publicidade e distribuição aumentaram o orçamento do filme em US$ 100 milhões, o investimento total continua sendo uma fração dos lucros.

O investimento “baixo” se deve aos temas sombrios e conteúdo muito mais perturbador do que a média de filmes de quadrinhos, motivando uma abordagem mais cautelosa da WarnerBros.. E este foi justamente outro ingrediente no sucesso do filme de Joaquin Phoenix.

“Eles fizeram uma aposta e deu certo. Coringa atingiu em cheio o Zeitgeist de hoje e está coletando os frutos disso”, afirmou Bock. “Estamos falando sobre temas universais, de alienação, solidão e raiva que continuam a alimentar a bilheteria desse monstro.”

A forma de representação da violência em Coringa já é algo que dava certo em outros gêneros do cinema também, segundo Bock.

“Públicos mais jovens estão defendendo esse filme de maneira muito parecida com os jovens que assistiram Assassinos Por Natureza [1994], ou Laranja Mecânica [1994] ou Pulp Fiction [1971]. Cada um desses filmes, violentos de maneiras próprias, tinha algo a dizer sobre as falhas da sociedade, tornando-os muito mais interessantes e duradouros.”

Por último, a campanha de marketing do longa dirigido por Todd Phillips merece destaque. Nas semanas anteriores a estreia, Coringa levantou muitas críticas sobre a possível romantização de um assassino em massa, e as famílias das vítimas do massacre na exibição de Cavaleiro das Trevas Ressurge, que aconteceu na cidade de Aurora em 2012, falaram contra o filme.

A Warner então aumentou a divulgação do filme nas redes sociais, numa tentativa de limitar as manchetes bombásticas e, em vez disso, aumentar o diálogo. Essa abordagem deu certo, já que notícias negativas não impactaram as vendas de ingresso, apesar do marketing direcionado ser mais custoso.

Jeff Bock também menciona o formato inovador de Coringa para o gênero, ao falar do futuro da Warner: “Agora eles [Warner Bros.] tem um modelo viável, o qual a Marvel e a Disney tem medo de fazer – adaptações +18 de quadrinhos.”

“Nos últimos anos, a Disney, como uma entidade, não conseguiu reunir de forma bem-sucedida as multidões adultas que gostam de explorar temas sombrios, conhecidos como PG-13 e além”.

 

……………………………………………………………….
*Fonte: revistarollingstone

O retorno de Freud

Era julho de 2008. A capa da SUPER estampava: “Terapia funciona?”, em frente à imagem de um Freud sisudo de sobrancelhas cerradas. E completava: “Sim, o autoconhecimento funciona. Mas Freud talvez não tenha nada a ver com isso”. Dentro da revista, a reportagem era ainda mais implacável com o barbudo de Viena: lia-se que as teorias de Freud não tinham embasamento científico, que o tratamento era longo e imprevisível, e que o austríaco tinha até inventado fatos quando elaborou suas teses. Ao final do texto, o pai da psicanálise aparecia (metaforicamente) roxo e inchado, de tanto que havíamos batido nele.

A verdade é que Freud andava desacreditado havia tempo. Nos anos 1970, o filósofo austríaco Karl Popper já tinha chamado a psicanálise de pseudociência – segundo ele, suas hipóteses eram muito amplas para serem testadas e, portanto, impossíveis de confirmar.

Céticos apontavam que ninguém tinha encontrado, no cérebro, a localização de áreas correlatas ao id, ao ego ou ao superego. Mulheres diziam que não, elas não tinham inveja do pênis, muito obrigada. O complexo de Édipo e o medo da castração pareciam ficção, contada para pessoas dispostas a gastar muito dinheiro por anos a fio com um tratamento não comprovado pela ciência.

“Sem dúvida, nenhuma outra figura importante da história esteve tão errada quanto Freud a respeito de todas as coisas importantes que disse”, escreveu o professor de filosofia canadense Todd Dufresne.

Criticá-lo passou a ser lugar comum, e o “Freudbashing” (“bater em Freud”, em tradução livre) se tornou quase um esporte. O desenvolvimento de terapias mais curtas e pontuais parecia trazer as verdadeiras respostas para todos os males da mente. E, para completar, os medicamentos psiquiátricos nunca haviam sido tão eficientes. A psicanálise tinha sido deposta para sempre.

Opa, para sempre?

Surpreendentemente, nos últimos anos, Freud ressuscitou para a ciência – e começou a ser resgatado do lixo científico. Em vez de focar nos detalhes da sua teoria, as pesquisas começaram a reparar que os grandes conceitos do austríaco – a existência do inconsciente, o significado dos sonhos, as repressões de sentimentos – não eram exatamente histórias para boi dormir.

Também surgiram estudos mostrando que as terapias inspiradas na psicanálise, que costumam ser longas e custosas, são as mais eficientes para tratar males mentais. E mais: até mesmo a neurociência apareceu para dizer que… bem, Freud explica.

Fluxogramas do bem-estar

Primeiro, é bom entender como a terapia freudiana funciona. Um tratamento clássico pode envolver de quatro a cinco sessões por semana, por meses ou até anos. O paciente deve falar livremente o que lhe passa pela cabeça, enquanto o terapeuta escuta e faz questionamentos pontuais.

É um caminho tortuoso e lento – e, por isso, é difícil medir seus avanços. “A terapia tradicional vai muito além da redução de sintomas. O que os pacientes estão buscando é mais qualidade de vida, mais confiança e segurança nos relacionamentos, mais perspectiva sobre si mesmos”, diz Nancy McWilliams, professora da Universidade Rutgers e autora da obra Psychoanalytic Psychotherapy.

Nesse cenário, ainda nos anos 1960, psicólogos começaram a procurar soluções mais práticas e mensuráveis para os problemas da psique humana. A resposta foi a Terapia Cognitivo-Comportamental, ou TCC. Criada por Albert Ellis e Aaron Beck, dois psicanalistas desiludidos com o método freudiano, a TCC prometia uma abordagem mais pé no chão, que não exigia chafurdar no lodo de nossos conflitos inconscientes.

Bastava ajustar pensamentos prejudiciais – causados por crenças pessimistas a respeito de nós mesmos, do mundo e do futuro – e comportamentos pouco funcionais que surgem desses pensamentos. Nada de focar no passado, o foco é o presente. “Não é preciso saber como uma pessoa quebrou o braço para poder tratá-lo”, diz o terapeuta cognitivo Stefan G. Hofmann, autor do livro An Introduction to Modern CBT (“Introdução à TCC”, sem edição no Brasil). Nas sessões, o paciente pode preencher fluxogramas sobre seu estado mental e recebe dicas de exercícios para alterar os pensamentos e comportamentos negativos em momentos de crise.

Em 1961, Aaron Beck desenvolveu um questionário de 21 itens para medir o grau de depressão de seus pacientes. E conseguiu provar que alguns meses da técnica eram suficientes para aliviar os sintomas em cerca de metade deles.

Muitos estudos se seguiram a esses primeiros, sempre com resultados favoráveis à técnica. Tanto que, com o tempo, o termo “terapia baseada em evidência” passou a ser sinônimo do método, e a TCC, barata e com duração mais curta – o total varia de acordo com o paciente, mas a estimativa é entre 8 e 16 semanas –, foi adotada com entusiasmo como principal política de saúde mental em diversos países.

A volta de Sigmund

Assim como ocorreu com a psicanálise, porém, a TCC começou a ter sua hegemonia questionada. Em 2015, pesquisadores noruegueses publicaram uma meta-análise mostrando que a eficácia da terapia cognitiva para tratar a depressão caiu pela metade desde os primeiros estudos, em 1977.

Meses depois, na Suécia, auditores do governo publicaram um relatório devastador sobre um experimento de saúde mental do país, que pagou ao longo de oito anos R$ 2,6 bilhões em TCC para os cidadãos suecos. O programa do governo, concluíram os auditores, falhou completamente em seus objetivos.

E um artigo de 2004 mostrou como os pesquisadores da TCC, para tornar os resultados mais fáceis de interpretar, excluíam dos estudos justamente o tipo de paciente mais comum nos consultórios, aquele com mais de um problema psicológico.

Ao mesmo tempo em que a TCC era posta em dúvida, uma novidade inesperada começou a surgir nas publicações científicas: o resgate da abordagem freudiana de terapia. Ao contrário do que se dizia, a psicanálise e as terapias psicodinâmicas funcionam, sim, e muito bem.

Um estudo de 2016, enorme e feito no sistema de saúde inglês, mostrou que, para os pacientes com depressão mais grave, 18 meses de análise foram muito mais efetivos que o tratamento padrão, que incluía TCC. O mesmo resultado vale para outros transtornos, inclusive os mais severos.

É o que demonstra uma meta-análise publicada em 2008 no prestigioso JAMA, Journal of the American Medical Association, que concluiu que terapias freudianas com mais de um ano de duração são mais eficazes que terapias de curto prazo para pacientes com patologias complexas, como transtornos de personalidade.

O mais impressionante dos dados é que, diferente da terapia cognitiva e dos remédios, os benefícios da análise não só permaneceram, como ficaram ainda maiores após o final do tratamento, causando mudanças duradouras nos pacientes.

O cérebro no divã

Além das pesquisas populacionais comprovando sua eficácia, a psicanálise passou a ser endossada pela neurociência. Até o final da década de 1990, psicologia e neurociência falavam línguas completamente diferentes, apesar de estudarem o mesmo órgão. Com o avanço das técnicas de mapeamento cerebral, porém, a distância entre as duas áreas diminuiu.

A neurociência começou a se interessar por alguns dos conceitos fundamentais da psicanálise, como o inconsciente. Hoje, já se sabe que a maioria das nossas decisões e ações acontece, primeiro, nessa parte oculta da mente; só alguns milésimos de segundos depois é que tomamos consciência delas. Ou seja, o inconsciente já sabe o que você vai dizer antes mesmo de você pensar que quer dizer alguma coisa, e até escolhe as palavras para você.

*Por Jeanne Callegari

…………………………………………………………………
*Fonte: fasdapsicanalise

Pais

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

Khalil Gibran

Ninguém se apaixona pela pessoa errada, apenas se encanta por ilusões que ela mesma inventa

Essa coisa de amor à primeira vista, não sei… não entendo. Isto nunca aconteceu comigo, talvez por acreditar que amor não é encantamento, mas sim, vivência. Desconfio de coisas fantásticas demais.

Perdi a ilusão com os contos de fadas, quando descobri que tapete mágico servia apenas para me deslizar, que castelo era solitário demais e que príncipe não passava de um homem normal qualquer. Percebi que tudo que li nos romances ou assisti na tv, apenas foram inventadas para nos fazer sonhar e aliviar algumas rotinas.

Desilusão não faz ninguém amargo, é você que permite se envenenar. Desilusão serve para que nos amadurecermos e crescermos também. Até as negatividades da vida são lições para melhorar o nosso eu. Inventamos, criamos e vivemos nossos dias. Todo mundo acaba criando expectativas com relação às pessoas e a vida.

Nem sempre somos pés no chão como deveríamos, porque criamos ilusões e investimos nessas falsas realidades. Quando estamos apaixonados ou encantados por alguém acabamos vendo beleza onde não tem, vemos humor em piadas sem graça e qualidades demais onde não existe, porque os sentimentos tem essas cegueiras estranhas.

Às vezes, levamos muito tempo para percebermos que aquele amor não passa de um gostar intenso, que aquele paquera não passa de mais um idiota, que aquela pessoa que você apostou até o último centavo não passa de um sacana. Criamos tantas expectativas com relação a alguém que até inventamos para nós mesmas que ele é bom.

Acreditamos em tantas ilusões perdidas e não temos o controle disso, muitas vezes. Ainda não foi inventado um botão para deletar ilusões que inventamos e que servem apenas para nos trapacear, infelizmente.

Apaixonamos algumas vezes, talvez milhares de vezes e cada ilusão é diferente, porque nossas perspectivas mudam de pessoa para pessoa. Inventamos um gostar íntimo para cada pessoa que passa em nossa vida e inventamos ilusões diferentes para cada um. Ninguém é igual, similar ou genérico, cada pessoa é única e sem restrições até que apareça algum mal estar para atormentar.

A realidade é muito diferente daqueles contos de fadas. A desilusão marca a gente para sempre. Viver é acertar e errar; é apostar, ganhar e perder; é ser real e fantasia; é inventar ilusões boas e ruins; é trapacear e jogar… viver é também inventar problemas, principalmente, quando cismamos com alguém que não passa de ninguém.

Ninguém se apaixona pela pessoa errada, a verdade é que inventamos expectativas e ilusões maravilhosas com relação a quem estamos envolvidos. Quando envolvemos com alguém não medimos o encantamento, muito menos prevemos se vai ser bom ou não, então vamos criando ilusões para que essa pessoa se torne especial.

Eu não acredito em amor à primeira vista, é verdade, mas acredito piamente na possibilidade de um amor para sempre. Inventei muitas ilusões e vivi todas elas e não me arrependo, porque quem não investe em um alguém especial, perde a chance de conhecer uma pessoa inesquecível ou não aprende a escapar de mais uma desilusão. Como diz uma música que a Marília Mendonça canta: ninguém se apaixona pela pessoa errada, apenas se encanta por ilusões que ela mesma inventa.

*Por Simone Guerra

 

…………………………………………………………………
*Fonte: fasdapsicanalise

Por que Santos Dumont não é reconhecido no exterior?

Esta é uma questão que gera debates bizantinos – mas só no Brasil. Para o resto do planeta, os irmãos Orvile e Wilbur Wright, americanos, inventaram o avião. Sim, inclusive a França.

Estamos sendo injustiçados pelo resto do planeta? Ou será um caso de verdade alternativa nacional – mais ou menos, guardadas as devidas diferenças, como na Turquia, único lugar do mundo onde o genocídio armênio não aconteceu?

Vejamos. Os que acusam a humanidade não brasileira de incurável estupidez costumam reduzir a disputa entre dois voos. Em 12 de novembro de 1906, em Paris, o 14-Bis voou 220 m em 21,5 segundos. Em 17 de dezembro de 1903, na Carolina do Norte, o Flyer I teria voado 260 m em 59 segundos.

 

 

 

 

Mesmo se fosse uma farsa o voo do Flyer – por razão da forma da decolagem -, a verdade é que ambos os voos não são tão importantes assim: os aparelhos voaram em linha reta, a baixa altitude e curta distância. Enfim, foram apenas testes bem-sucedidos de protótipos.

E, nisso de protótipo, já em 1890 o francês Clément Ader deu um pulinho de 50 m a 20 cm do chão, com uma máquina motorizada. E o alemão Otto Lilenthal fez mais de 2 mil voos com seu planador. E esses são apenas dois dos muitos candidatos a primeiros humanos a voar: os turcos afirmam que Hezârfen Ahmed Çelebi voou por mais de 3 km através do Estreito do Bósforo no século 17.

Mas um avião não é uma máquina que voa em linha reta. É um aparelho cujo voo é (e necessariamente tem de ser) controlado: ele sobe, desce, faz curvas, permanece no ar enquanto o piloto quiser ou o combustível durar. Nem o 14-Bis, nem o Flyer I, nem nada que veio antes foram capazes disso.

Primeiro avião de verdade

O mérito real dos irmãos Wright não foi o Flyer I, mas o Flyer III. Em 5 de outubro de 1905, Wilbur voou por 39 longos minutos e 38,5 km, com diversas voltas sobre um campo em Dayton, Ohio. Isso foi antes do 14-Bis, mas aí a coisa já está muito além de uma prioridade em voos de protótipos – o que o Flyer III marca é a construção do primeiro avião de verdade, capaz de voo controlado.

 

 

 

Como a demonstração não foi pública (ainda que fotografada e com testemunhas), os Wright ganharam fama de picaretas. Para desfazer dúvidas, em maio de 1908, Wilbur levou seu avião à França, onde fez mais de 200 voos de demonstração, o maior deles de quase duas horas. Os europeus se curvaram aos irmãos Wright e a FAI (Féderation Aéronautique Internationale) tomou a taça de Dumont. Em 2003, a instituição celebrou os 100 anos do Flyer I na França.

Mesmo se você acha que os irmãos Wright tiraram o Flyer III do bolso do casaco em 1908, que 1903 e 1905 são farsas, é impossível negar que o Flyer III foi o primeiro avião de verdade, enquanto o 14-Bis foi um dos últimos protótipos.

Mas há um prêmio de consolação – ou talvez até bem mais. Dumont não criou o primeiro avião real, mas criou o segundo – e esse talvez seja mais importante que o primeiro. Porque o Flyer não deu em nada: os Irmãos Wright passaram o resto da vida em disputas (eventualmente perdidas) de patentes, tentando evitar que os outros fizessem aviões sem pagar royalties para eles.

 

O Demoiselle de Dumont foi o primeiro avião a ser produzido em massa, com mais de 100 unidades criadas por entusiastas em todo o mundo. Era totalmente copyleft – o brasileiro fez questão de não patentear nada. E isso foi um imenso impulso à aviação, que se desenvolveu mais rapidamente na Europa, sem os entraves criados pelos Wright.

Dumont, assim, não inventou o (primeiro) avião, mas talvez mereça mesmo ser chamado de Pai da Aviação.

*Por Fábio Marton

………………………………………………………………………
*Fonte: aventurasnahistoria

A Verdade Nua e Crua

A pintura “A Verdade saindo do Poço” (1896), mostrada abaixo, é de autoria de Jean-Léon Gérôme, escultor e pintor francês, e está ligada a uma parábola do século XIX.

Segundo essa parábola, a Verdade e a Mentira se encontram um dia. A Mentira diz à Verdade: “Hoje é um dia maravilhoso!” A Verdade olha para os céus e suspira, pois o dia era realmente lindo. Elas passaram muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado de um poço. A Mentira diz à Verdade: “A água está muito boa, vamos tomar um banho juntas!” A Verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e descobre que realmente está muito gostosa. Elas se despiram e começaram a tomar banho. De repente, a Mentira sai da água, veste as roupas da Verdade e foge.

A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta.
O Mundo, vendo a Verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva.
A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo nele sua vergonha.

Desde então, a Mentira viaja ao redor do Mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua.”

Jorge Luis Borges: “O futebol é popular porque a estupidez é popular”

À primeira vista, o animus do escritor argentino em relação ao “jogo bonito” parece refletir a atitude do odiador típico de hoje em dia, cujo citações quase se tornaram um refrão: futebol é entediante. Existem muitas pontuações de empate. Eu não suporto as falsas lesões.

E é verdade: Borges chamou o futebol de “esteticamente feio”. Ele disse: “O futebol é um dos maiores crimes da Inglaterra”. E aparentemente ele até programou uma de suas palestras para o mesmo dia e horário em que aconteceria o primeiro jogo da Argentina na Copa de 1978.

Mas a aversão de Borges pelo esporte resultou de algo muito mais preocupante do que a estética. Seu problema era com a cultura dos fãs de futebol, que ele ligava ao tipo de apoio popular cego que sustentava os líderes dos movimentos políticos mais horripilantes do século 20. Em sua vida, ele viu elementos do fascismo, peronismo e até mesmo anti-semitismo emergirem na esfera política argentina, então sua intensa suspeita de movimentos políticos populares e cultura de massa – cujo apogeu, na Argentina, é o futebol – faz muito sentido.

(“Existe uma idéia de supremacia, de poder [no futebol] que me parece horrível”, escreveu ele certa vez.) Borges se opunha ao dogmatismo em qualquer forma, por isso ele naturalmente desconfiava da devoção incondicional de seus compatriotas a qualquer doutrina ou religião – até mesmo para sua querida seleção “albiceleste”.

O futebol está inextricavelmente ligado ao nacionalismo, outra das objeções de Borges ao esporte. “O nacionalismo só permite afirmações, e toda doutrina que descarta a dúvida, a negação, é uma forma de fanatismo e estupidez”, disse ele. Equipes nacionais geram fervor nacionalista, criando a possibilidade de um governo inescrupuloso usar um astro como porta-voz para se legitimar. Na verdade, foi exatamente isso que aconteceu com um dos maiores jogadores de todos os tempos: Pelé. “Mesmo com seu governo arrebatando dissidentes políticos, também produziu um cartaz gigante de Pelé esforçando-se para cabecear a bola através do gol, acompanhado pelo slogan” Ninguém segura este país”, escreve Dave Zirin em seu livro, O Brasil Dança Com o Diabo.

Governos, como a ditadura militar brasileira, podem aproveitar o vínculo que os torcedores compartilham com suas seleções para angariar apoio popular, e é isso que Borges temia – e se ressentia – sobre o esporte.

Seu conto, “Esse Est Percipi” , também pode explicar seu ódio ao futebol. Mais ou menos na metade da história, é revelado que o futebol na Argentina deixou de ser um esporte e entrou no reino do espetáculo. Neste universo fictício, o simulacro reina supremo: a representação do esporte substituiu o esporte atual. “Esses [esportes] não existem fora dos estúdios de gravação e dos jornais”, diz um presidente do clube de futebol. O futebol inspira um fanatismo tão profundo que os torcedores acompanharão jogos inexistentes na TV e no rádio sem questionar nada:

“Os estádios há muito que foram condenados e estão caindo aos pedaços. Hoje em dia tudo é encenado na televisão e no rádio. A falsa emoção do locutor esportivo nunca te fez suspeitar de que tudo é uma farsa? A última vez que uma partida de futebol foi disputada em Buenos Aires foi em 24 de junho de 1937. A partir desse momento exato, futebol, juntamente com toda a gama de esportes, pertence ao
gênero do drama, realizado por um único homem em uma cabine ou por atores uniformizados diante das câmeras de TV”.

Esta história remonta ao desconforto de Borges com movimentos de massa: ‘Para ser capaz de perceber que’ efetivamente acusa a mídia de cumplicidade na criação de uma cultura de massa que reverencia futebol, e, como resultado, deixa-se aberta à demagogia e manipulação.

De acordo com Borges, os seres humanos sentem a necessidade de pertencer a um plano universal grande, algo maior do que nós mesmos. Religião faz isso para algumas pessoas, futebol para os outros. Personagens do universo borgesiano muitas vezes lidam com esse desejo, voltando-se para ideólogos ou movimentos para efeito desastroso: O narrador da história ” Um Requiem Alemão” torna-se um nazista, enquanto que em “A Loteria da Babilônia” e “O Congresso”, organizações aparentemente inócuas transformam-se rapidamente em vastas burocracias totalitárias que distribuem punições corporais ou queimam livros.

Queremos ser parte de algo maior, tanto que nos cegamos para as falhas que se desenvolvem nesses grandes planos – ou as falhas que eram inerentes a eles o tempo todo. E, no entanto, como o narrador de “O Congresso”” nos lembra, o fascínio dessas grandes narrativas muitas vezes prova demais:”o que realmente importa é ter sentido que o nosso plano, que mais de uma vez fizemos piada, realmente e secretamente existiu e foi o mundo e nós mesmos. ”

Essa frase poderia descrever com precisão como milhões de pessoas na Terra se
sentem em relação ao futebol.

*Artigo escrito por Shaj Mathew originalmente publicado em TheNewRepublic

 

……………………………………………………………….
*Fonte: pensarcontemporaneo

Vinte razões para amar um careca

1. Não é que o careca é careca, ele tem mais rosto. É somente rosto. Sua mulher nunca erra um beijo em sua face. Atrás da cabeça ainda é bochecha. Não há aquele risco desagradável de engolir cabelo.

2. O careca é um ponto de referência em qualquer lugar público. No supermercado, por exemplo:
– Onde é o corredor do arroz?
– Depois daquele careca, à esquerda.

3. O homem tem um maior contato com a natureza, arrepia-se com as gotas da chuva ou as lufadas geladas do vento.

4. A careca é uma zona erógena e pode ser aplicada como instrumento preciso para massagens eróticas nas costas da mulher. Trata-se de uma plataforma vibratória, com funções aeróbica, anaeróbica e terapêutica.

5. Fim dos furtos dentro de casa. O xampu e o condicionador da esposa duram o dobro de tempo.

6. O macho deixa de ser hipócrita, não perguntará para a mulher de quem são os cabelos no ralo ou na pia. Com o fim da concorrência, agora tem certeza que são dela.

7. Não corre o risco de competir pelo uso do secador. Ou do aparelho de chapinha.

8. Na pressa, não precisa tomar banho, apenas completar o polimento.

9. O careca não passará pelos vexames sociais da caspa ou do piolho.

10. Nunca envergonhará sua companhia pintando os cabelos de acaju ou recorrendo às luzes.

11. Reduz as possibilidades de câncer de pele. Começa a pôr protetor solar para sair ao trabalho.

12. Não é bobo de gastar para comprar uma peruca italiana.

13. O careca é maduro, confiável, único homem que realmente abandonou a adolescência.

14. Ninguém reclamará que ele é vaidoso e que vive se olhando no espelho para ajeitar o topete.

15. Se cometer algum crime, pode mudar de personalidade colocando um chapéu, uma boina ou um boné.

16. O careca não enrola, assume o romance. É tudo ou nada. Não admite meio-termo: implante, aplique, calendário pilomax. Prefere uma cabeça raspada a falsas esperanças.

17. Rejuvenesce no ato. Aparenta cinco anos menos do que os seus colegas grisalhos ou de mechas tingidas.

18. Não existe mais nenhum problema que possa fazer o careca perder cabelo.

19. Elas gostam dos carecas porque os carecas se gostam.

20. Todo careca sabe quem é John Malkovich.

*Por Fabrício Carpinejar

 

……………………………………………………………………..
*Fonte: bmm

Afinal, do que é feita uma boa vida?

Conhecido como Grant Study, um estudo ambicioso iniciado em 1939 por pesquisadores de Harvard tinha como objetivo analisar dimensões centrais que fazem uma boa vida.

A proposta era buscar respostas para questões como: quem vive mais e por quê, o que prediz a autorrealização e o sucesso na carreira, e como a interação da natureza e criação molda quem nos tornamos.

Os pesquisadores estudaram 724 pessoas durante 75 anos. O método revolucionário utilizado visava acompanhar a vida inteira dos voluntários para analisar como eles se desenvolveram ao longo dos anos e o que influenciou na saúde e bem-estar de cada um deles.

Para o estudo, foram selecionados dois grupos distintos: um formado por estudantes de Harvard, com boas condições de vida, que se formaram durante a Segunda Guerra e logo após serviram ao exército. O segundo, por jovens de um dos bairros mais pobres de Boston, cujas famílias eram uma das mais disfuncionais e problemáticas da década de 30.

Anualmente os voluntários eram submetidos a exames médicos e entrevistas presenciais sobre trabalho, casa, relacionamento e saúde. Mais tarde, com avanços tecnológicos, seus cérebros também foram acompanhados através da Ressonância Magnética.

Robert Waldinger, psicólogo de Harvard, é o mais recente diretor do estudo de quatro gerações de cientistas, e revela que até hoje a pesquisa segue os voluntários e expande o experimento para seus filhos e mulheres. 60 dos participantes ainda estão vivos, e muito deles já com seus 90 anos.

O psicólogo explica que, ao longo de 7 décadas, eles puderam ver de perto como muito dos voluntários, de ambos os grupos, ascenderam socialmente, outros declinaram e um deles inclusive chegou à presidência dos EUA.

Com a solidez de dados massivos, a conclusão é a seguinte:

“A mensagem mais clara que recebemos deste estudo de 75 anos é: bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis”, compartilha Phil.

Em um TEDTalk, o diretor do estudo destaca 3 importantes lições que o estudo concluiu:

1- Relações sociais realmente são benéficas aos humanos; a solidão mata. Pessoas que são socialmente ligadas à família, amigos e comunidade são mais felizes, saudáveis fisicamente e têm maior expectativa de vida do que aquelas que não possuem tais laços sociais.

Pessoas que se isolam são mais infelizes, apresentam problemas de saúde mais cedo e têm a função cerebral prejudicada antes do que deveriam.

2- Não é a quantidade de amigos e familiares que uma pessoa tem ou estar em uma relação amorosa que importa, mas a qualidade das relações que ela mantém ao longo da vida.

Viver em ambientes conflituosos é nocivo para a saúde; manter relações saudáveis trazem segurança aos indivíduos.

Ao analisar os voluntários em seus 80 anos, os pesquisadores analisaram os dados de quando tinham 50 e concluíram que não era o nível de colesterol que já apontava se uma pessoa envelheceria bem, mas sua satisfação nas relações. Ou seja, quem tinha boas relações aos 50, eram os mais saudáveis aos 80.

As relações também influenciam em como as pessoas reagem a dores. Quando questionados, quem tinha uma boa relação se dizia tranquilo ao sentir alguma dor, enquanto quem estava infeliz com suas relações relatava a dor física agravada pela dor emocional.

3- Boas relações não são apenas benéficas para o corpo, mas para o cérebro. Estar conectado a alguém em uma relação onde há companheirismo ajuda a reduzir os problemas de memória, ao contrário dos que não têm.

Ao se depararem com a aposentadoria, os mais felizes eram aqueles que chegaram à esta fase da vida com boas relações, não dinheiro, fama ou aquisições.

Essa conclusão já nos foi dita muitas vezes por escritores, poetas, músicos e filósofos. Então por que é tão fácil entendê-la, mas ignorá-la?

A possível resposta é que tendemos a sempre buscar soluções fáceis e imediatas. Relações são construídas ao longo de uma vida inteira, cujas bases são paciência e dedicação. É preciso estar disposto a se doar inteiramente.

Se ainda é necessário uma fórmula mágica, eu fico com a de Bertrand Russel em seu tratado sobre a natureza de uma boa vida, escrita em 1925:

“Uma vida boa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento”

*Por Raquel Rapini

 

…………………………………………………………………..
*Fonte: geekness

Seria a astrologia a religião da nossa geração?

O aumento pela procura de recursos místicos mostra que os jovens trocaram os dogmas religiosos por essa “auto-investigação”.

Você já deve ter entrado em uma conversa com millennials em que, muito antes de perguntarem quantos anos você tem ou o que faz da vida, soltaram “qual o seu signo?”. Não é exagero dizer que há quem não comece o mês sem ler o que Susan Miller – uma das astrólogas mais famosas do mundo – tem a dizer.

Quando avaliamos a evolução das buscas pelo termo “horóscopo” no Google nos últimos cinco anos, percebemos que houve um crescimento do interesse pelas previsões ditadas pelo nosso mapa astral. Seria a astrologia, então, a religião da nossa geração?

Aparentemente, há alguns fatores que explicam o porquê da nossa busca pelo tema.

De acordo com um estudo conduzido em 1982 pelo psicólogo Graham Tyson, pessoas que consultam a astrologia o fazem como uma resposta a momentos de estresse.

Se levarmos em consideração que um estudo da Associação Americana de Psicologia de 2014 aponta que os millennials são a geração mais estressada, talvez faça sentido a nossa busca por algumas respostas que ajudem a acalmar os ânimos.

Para Thais Leão, astróloga que atua com desenvolvimento de pessoas e participa de grupos de estudo de antropologia e psicanálise com profissionais e docentes da área, cresce entre a nossa geração uma busca por autoconhecimento e a astrologia tem uma ferramenta para esse entendimento de si. “Auto-observação. Auto-investigação. Trata-se de entender cada vez mais o poder de observar e criar consciência sobre si e sobre o mundo que nos permeia, do qual fazemos parte”, ela avalia.

E essa tendência, que é global, tem alguns traços tropicais. Rebeca de Moraes, sócia-fundadora e diretora da Soledad, uma consultoria de tendências com um olhar para o contexto brasileiro, aponta que uma das tendências para os próximos três anos é recorrer a outras formas de espiritualidade: como astrologia, tarot e o poder dos cristais.

De acordo com um estudo realizado pela empresa, seria resultado da saída de um lugar de muita racionalização, que é uma vida vigiada – cheia de algoritmos, aplicativo para trabalhar, para dormir e até para fazer yoga – em direção ao humanismo. E há algumas particularidades do contexto brasileiro. “A gente vive um momento de muita incerteza e insegurança: acabamos de passar por um ano com Copa do Mundo, eleições. São coisas que mexem com os sentimentos das pessoas. E a gente terminou o ano sem saber se teria emprego, sem saber se teria aposentadoria”, pontua Rebeca. “Quando a gente pensa em misticismo, é um momento de volta do ‘eu’. Toda essa incerteza resulta em uma geração que começa a questionar aquilo que tínhamos como certo, como padrão: casamento, governos, mídia.” Para ela, diante disso, passamos a buscar as respostas dentro de nós.

E a nossa geração tem algumas características que nos tornam mais suscetíveis a isso. Diferente de outros momentos em que a espiritualidade foi pautada nas religiões tradicionais, atualmente, a busca é por saberes menos dogmáticos.

Rebeca considera que os millennials são uma geração muito propícia a lidar com verdades que são voláteis. E também que aprenderam a ser mais auto suficientes em relação à apreensão de conhecimento. “Eles pararam de se prender a dogmas, eles constroem as suas crenças e espiritualidade. Há outros tipos de conhecimento que chegam até você ou que você mesmo pode buscar e que não precisam passar por religiões ou formas de espiritualidade tradicionais. Outro ponto é que essas formas mais místicas de espiritualidade os ajudam a perceber que as pessoas mudam o tempo todo e isso é natural. Os dogmas estão menos abertos a isso”, ela diz.

Susan Miller, Madama Br00na, Astrolink. A internet também tem um papel importante na popularização desses outros modos de espiritualidade, pois ajudou a aprofundar os conhecimentos e a curiosidade sobre astrologia. E os memes fazem parte desse pacote. Eles são o canal para gerar identificação. Quando alguém fala, por exemplo, que é de gêmeos, de algum modo essa pessoa já está dizendo algo sobre a sua personalidade.

E isso é só o primeiro passo. De acordo com as descobertas do estudo realizado pela Soledad, “signo e ascendente viraram pouco. Agora, o básico é saber que Mercúrio está retrógrado em aquário. Com mais informação e a leveza dos memes, astrologia saiu da última página das revistas e ganhou status de assunto quente de millennial”.

No final do dia, diante de tantas incertezas, tudo o que a gente quer é que alguém nos diga que vai ficar tudo bem.

*Por Nathalia Rocha

 

…………………………………………………………………
*Fonte: vice

O reconhecimento facial abre caminho para o pesadelo de George Orwell

Alguém pode tirar sua foto na rua e conseguir saber quem você é para contatá-lo. Acontece na Rússia. Alguém pode atravessar a faixa de pedestres quando não for permitido e ver que as autoridades lhe multam e pegam sua foto atravessando indevidamente nas paradas de ônibus após identificá-lo com a imagem captada por uma câmera de segurança. Acontece na China. Uma pessoa pode receber a visita inoportuna da polícia porque o algoritmo falhou e a identificou erroneamente. Aconteceu nos Estados Unidos, em cinco ocasiões, com cinco pessoas, em 2015, como admitiu a polícia de Nova York. Tudo isso pode ter acontecido em outros momentos da história, mas nunca foi tão fácil como agora. A tecnologia do reconhecimento facial tem inúmeras comodidades, sim, de promessas de uma maior segurança, certo. Mas, paralelamente, a expansão de toda uma indústria de segurança que gira em torno dela transforma o pesadelo orwelliano de uma sociedade de pessoas controladas em algo mais do que uma possibilidade futura.

Derivada da inteligência artificial, ela deu seus primeiros passos em meados dos anos sessenta. Aquelas primeiras tentativas de usar um computador para reconhecer um rosto humano resultaram em uma tecnologia que alcançou um nível de plenitude assombroso. Prova disso é o iPhone X, que realiza algo que anos atrás pertencia ao domínio da ficção científica: desbloquear um celular com a imagem de nosso rosto. “Quando você encontra uma tecnologia como essa em um aparelho de consumo como o celular”, afirma Enrique Dans, professor de Inovação no IE Business School, “quer dizer que já se pode fazer de tudo com ela”.

Na China, país que fixou como meta se transformar no líder em pesquisa e aplicativos de inteligência artificial em 2030, as pessoas já podem escanear o rosto com o aplicativo para celular Xiaohua Qianbao e pedir um empréstimo ao banco virtual operado pela Xiaohua; ir a um Kentucky Fried Chicken da cidade de Hangzhou e pagar com um sorriso – o Smile to Pay (“sorria para pagar”) é o mais recente sistema desenvolvido pela empresa de pagamentos online Alipay −, e controlar a frequência às aulas de alunos da Universidade de Comunicações de Nanquim.

Ali, a tecnologia avança com os passos firmes da Face++, startup chinesa que derrotou no fim de outubro equipes do Facebook, Google e Microsoft em provas de reconhecimento de imagem na Conferência Internacional de Visão por Computador realizada na Itália. Naquele mesmo mês, a companhia levantou 460 milhões de dólares (1,5 bilhão de reais) em uma rodada de financiamento.

Mas a expansão do fenômeno não se limita a esse território. Lojas de Toronto utilizam a tecnologia para detectar ladrões. O Facebook a usa faz tempo para etiquetar quem aparece nas fotos. De fato, em 2015 já anunciou que podia identificar uma pessoa com 83% de sucesso sem ver sua cara: o tipo de corpo, o penteado e a postura são elementos suficientes. Agora, o novo desafio dos pesquisadores é conseguir identificar pessoas que usem óculos escuros, véu, máscara, balaclava (espécie de gorro com finalidades esportivas): na Universidade da Basileia, Suíça, o professor Bernhard Egger trabalha em um sistema que cria um padrão do rosto em 3D a partir das zonas descobertas da face.

Assim, o mercado do reconhecimento facial já movimenta mais de 3,3 bilhões de dólares (10,6 bilhões de reais) no mundo e poderia chegar a 7,7 bilhões de dólares (24,8 bilhões de reais) em 2022, segundo a consultora MarketsandMarkets. Bancos, companhias aéreas, telefônicas, fabricantes de computadores, todos se abrem a esta nova forma de identificação biométrica que significa um salto à frente em comparação com a impressão digital e a íris.

Mas o rosto não é a mesma coisa que a impressão digital. Quando vamos renovar nosso documento de identidade, concordamos em ceder esse dado biométrico às autoridades. Mas nosso rosto pode ser captado por qualquer um sem nosso consentimento. Por meio de qualquer câmera na rua, em qualquer lugar.

Esta tecnologia tem duas modalidades básicas, como explica por telefone de Michigan o grande especialista Anil K. Jain, professor de engenharia informática e diretor do grupo de pesquisas biométricas da Universidade de Michigan. Uma é a de autenticação ou detecção de rosto (face detection), na qual o sistema compara duas imagens: a que temos armazenada no telefone − no caso do iPhone − e um modelo em 3D criado a partir do rosto que se apresenta diante da tela. E a outra é a de busca de rosto (face search), na qual se cruza uma imagem com as que estão armazenadas em um banco de dados para ver se coincidem − para identificar desconhecidos. “Nesta segunda é muito mais fácil cometer erros”, explica Jain. “São necessários computadores potentes e grandes bancos de dados com milhões de rostos.”

Essa segunda modalidade foi a que desencadeou um debate inflamado sobre a privacidade e as liberdades. Sua combinação com a crescente autoexposição nas redes sociais está acabando com a era do anonimato. O melhor exemplo é dado pelo aplicativo FindFace, que no ano passado causou muita polêmica na Rússia: uma pessoa pega o celular e tira uma foto do passageiro à sua frente no metrô; o algoritmo do aplicativo compara a imagem com as existentes na rede social Vkontakte (que conta com mais de 400 milhões de perfis) e, com uma eficácia de 70%, permite saber quem é essa pessoa. Uma ferramenta perigosa em tempos marcados pelo assédio.

Tecnologia permite identificar em tempo recorde terroristas que acabam de cometer um atentado

E tem mais. Em 2014, os professores Alessandro Acquisti, Ralph Gross e Fred Stutzman demonstraram com o estudo Reconhecimento Facial e Privacidade na Era da Realidade Aumentada o quanto é fácil identificar um desconhecido na era das redes sociais. Com uma webcam e um bom programa de reconhecimento facial, puderam identificar um de cada três alunos que circulavam pela Universidade Carnegie Mellon. Tiveram apenas de cruzar a imagem obtida com as oferecidas pelo mecanismo de busca do Google ou pelos perfis do Facebook. Em alguns casos, o algoritmo permitia até mesmo acessar o número do Seguro Social da pessoa fotografada.

Dito isso, nem tudo é perigoso. O aperfeiçoamento dos algoritmos e das técnicas de análise de dados e a ampliação exponencial dos bancos de imagens de rostos têm proporcionado às forças de segurança um instrumento formidável para identificar em tempo recorde criminosos e terroristas que acabam de cometer um atentado. O professor Anil K. Jain, de fato, publicou em 2013 um trabalho científico no qual demonstrou que era possível identificar um dos dois irmãos que detonaram duas bombas na maratona de Boston em abril de 2013 usando, simplesmente, as imagens divulgadas pelos canais de televisão. “A precisão da detecção de rostos chega às vezes a 90% com as imagens analisadas nas delegacias”, diz. Ou seja, na modalidade de face detection. No entanto, quando se trabalha com imagens de uma câmara de vídeo de segurança da rua (face search), a coisa muda. “Aí tudo dependerá da qualidade da imagem que se obtenha.”

Para que o aparato de segurança que está sendo configurando neste início do século XXI funcione a plena capacidade, são necessários algoritmos cada vez mais precisos, sim. Mas a chave é manter os bancos de dados bem abastecidos. De rostos. E a China já dispõe de um banco de dados com um bilhão de fotos de seus cidadãos, o maior do mundo. O gigante asiático conta, além disso, com uma ampla rede de câmeras para captar imagens na rua. A Face++, segundo o Financial Times, está ajudando o Governo chinês a rastrear o 1,3 bilhão de habitantes do país através de imagens de câmeras de segurança. Escanear placas de carro, escanear rostos. O pesadelo imaginado por Orwell em seu livro 1984 vai tomando forma.

Os norte-americanos não ficam atrás. Um relatório feito no ano passado pelo Law’s Center on Privacy and Technology, o centro sobre privacidade e tecnologia da faculdade de direito da Universidade de Georgetown, estima que 117 milhões de cidadãos já estejam nos bancos de dados que a polícia pode usar. Em conversa telefônica de Nova Iorque, o diretor executivo do centro, Álvaro Bedoya, afirma que o total a esta altura já chega a 125 milhões. “Isto nunca ocorreu na história dos EUA”, protesta. “Os bancos de dados de DNA e impressões digitais eram compostos por pessoas com antecedentes penais. Está sendo criado um banco de dados biométricos de pessoas que respeitam a lei, atravessou-se o Rubicão.”

Bedoya, um destacado jurista, considera que a tecnologia só deve ser usada para crimes graves, não de forma ilimitada: “Na Rússia ela é usada para identificar manifestantes. Nos EUA, também. Caminhamos para uma sociedade de controle. Pode-se identificar qualquer um, a qualquer momento, por qualquer motivo”.

A tecnologia também é usada em ações de policiamento preventivo. O uso de inteligência artificial permite seguir alguém através das câmeras de segurança existentes em espaços públicos e analisar seus movimentos, sua linguagem corporal. Com essa enorme coleta de dados se pretende, por meio de modelos estatísticos, prever onde pode ocorrer um crime e quem pode cometê-lo.

“Na Rússia ela é usada para identificar manifestantes. Nos EUA, também”, alerta o jurista Álvaro Bedoya

O problema é onde vai parar nosso rosto. O jornal britânico The Guardian teve acesso a documentos que indicam que o procurador-geral da Austrália manteve conversas com empresas telefônicas e bancos para o uso privado de seu serviço de verificação facial em 2018. E os especialistas em proteção de dados se preocupam com o uso que as empresas possam fazer dos bancos de rostos de seus clientes. Uma investigação do jornal The Washington Post revelou em novembro que Apple estava compartilhando informações de rostos com alguns aplicativos e, como consequência da investigação jornalística, realizou uma mudança, exigindo que um aplicativo informasse seus usuários sobre isso em sua política de privacidade.

Facebook, Google e Snapchat, por sua vez, são três das empresas que já foram processadas em Illinois por capturar e armazenar imagens dos usuários sem seu consentimento. Por acaso podemos confiar em que as empresas da nova economia digital não comercializarão nossos rostos?

“O problema é que há uma total falta de transparência”, diz Kelly Gates, professora da Universidade da Califórnia em San Diego e autora do livro Our Biometric Future: Facial Recognition Technology and the Culture of Surveillance (“nosso futuro biométrico: tecnologia do reconhecimento facial e a cultura da vigilância”). “A polícia, assim como o Exército, experimenta, mas não sabemos o que estão fazendo.”

Essa pesquisadora, que agora estuda as técnicas de análise forense de vídeo, ressalta que há uma proliferação de vídeos e dados procedentes de drones, câmeras de rua e de estabelecimentos comerciais cuja análise é terceirizada para empresas privadas. “Os cientistas dizem que é uma tecnologia com a qual se cometem muitos erros. Não há uma ciência que a respalde e, mesmo assim, ela continua sendo utilizada”, assinala Gates.

Que seja feito tudo para que não aconteça na realidade o que ocorre na distopia assinada por Terry Gilliam, Brazil, filme de 1985 no qual um erro de dados leva à detenção do senhor Buttle quando o objetivo era deter o senhor Tuttle. Algo que, nas mãos de um integrante do Monty Python, é muito engraçado, mas no mundo real, não tem graça nenhuma. Gates é incisiva: “Está sendo buscada uma segurança perfeita que nunca será alcançada. Pensar que, em contextos de violência, tudo isto é a grande solução é como comprar mais aparelhos de ar condicionado para resolver os problemas representados pela mudança climática”.

No fim das contas, a questão é em quais mãos recai o uso desta tecnologia e de nossos dados. Com ela, países com problemas de direitos humanos e restrições às liberdades têm um tremendo instrumento de perseguição de dissidentes. O controle, como se não fosse suficiente aquele que pode ser exercido por meio dos dispositivos que já temos, atravessa uma nova fronteira. Alguém imagina esta tecnologia nas mãos de um Governo de extrema direita na Europa? Ou em um país governado por fundamentalistas muçulmanos?

*Por Joseba Elola

…………………………………………………………..
*Fonte: elpais

Como não conquistar alguém

Manhã de segunda-feira. Os dois no trabalho. Ele tenta, mas não disfarça que gosta dela. Do nada o cara começa a disparar perguntas consecutivas para a moça, que sequer acordou direito ainda. Pergunta quais livros de determinado autor ela leu. Detalhe hediondo: enquanto isso ele checa o assunto no Google para certificar-se de que ela está correta. Em seguida, mais indagações. A mesma pergunta, mas agora sobre outro autor. E continua até chegar em uns dez autores.

Ele é exigente. Sua taxa de amostragem é alta. Em momento algum desconfia que está abusando. Após isso, cansa-se da Literatura e parte para obras filosóficas e períodos históricos. Ela começa a sentir-se mentalmente cansada. Muito conhecimento recrutado em pouco tempo. É como se ela estivesse fazendo uma prova discursiva.

Não consegue cortá-lo depois que as horas de inquérito avançam, mas não esconde o incômodo de ter uma conversa que não gostaria de ter, que não flui. Ficou a pensar se haveria uma punição caso interrompesse a chatice, dissesse “agora não” ou mesmo respondesse um seco “não sei”. Como tem dificuldade em dizer “não” ou cortar pessoas inconvenientes, ela sofre desnecessariamente.

Ele não discorre bem sobre nada, mas tenta bravamente. Solta palavras ao vento e pergunta o que ela acha sobre aquilo. Se não concordar, começa a azucrinar e usar os argumentos que aprendeu no Facebook. Ela que aprendeu sobre argumentação e retórica há tanto tempo na faculdade saca o quanto ele é raso e pueril. É bom não aprofundar nada com ele, pois quer respostas e soluções fáceis para tudo. No dia anterior disse a ela que não era humanista, sem mais nem menos. Agora eu pergunto: para que alguém vai dizer isso, meu pai? Ele quer convencer, todos estão notando, mas como se perde!

Pergunta quais livros de outras áreas ela leu (uma garota inteligente lembraria disso?), bem como quais de sua área de formação ela mais gostou de ler. Como assim quais livros de sua e de outras áreas já leu? Será que ele desconfia da abrangência dessa pergunta? Ou que, modéstia à parte, a moça já leu tantos livros que não saberia sequer por onde começar?

Hora do almoço. Higiene dentária. Retocar a maquiagem. Novo turno à tarde. Os dois voltam ao trabalho. Ele, impiedoso, começa a recitar trechos de poemas decorados para todos da sala ouvirem, além de fazer a interpretação, claro. As palavras são tão profundas quanto um pires. Ela envergonha-se por ele.

O tempo não passa. O expediente está apertado, todos muito atarefados e ele a tagarelar. Não há percepção nenhuma da inoportunidade, impressionante. Essa é a autêntica chatice. O chato não percebe quando é inconveniente, não enxerga os sinais de que o outro não está querendo a conversa e ainda assim insisti em continuar. Não há percepção do outro, só de si. O outro afasta-se, o papo não ecoa, a sintonia nunca chega. Ninguém pergunta nada, mas para o chato está tudo bem.

Todos em volta parecem constrangidos em chamar a atenção dele ao trabalho. Ele descreve-se conservador, enquanto a moça é afinada com modernidades. Ele franze a testa e parece desaprová-la. Começa a digredir sobre as principais áreas humanísticas numas afirmações bem superficiais. Uau! Quanto tempo falta para ir embora?

Ele se inspira e elogia a área da menina, assim como diz que seria um profissional apaixonado caso fosse da área dela. Ah, enfim uma gentileza! Finalmente ele lembrou que precisava ser gentil ou agradá-la em algum momento, depois de tanta amolação. Fim de expediente. Ufa! Ambos seguem para casa. Ela, com uma tímida enxaqueca e fadigada do dia. Ele, não se sabe. Certamente devia estar admirado consigo depois da performance. Tantos conhecimentos verbalizados alhures! Ele pensa ser intelectual.

Meados da noite, passado o cansaço mental, a moça não leu um dos tomos de filosofia política de Hobbes ou o Decameron de Boccaccio. Foi cuidar dos seus gatinhos, assistir ao canal de humor no Youtube e ler o livro de contos que está devorando no momento (Rubem Fonseca é o maior!). A vida é mais simples do que supomos. Saldo do conquistador: nefasto. Acaso uma moça gosta de se agarrar com quem não tem pudor de mostrar-se soberbo competidor dela?

Diálogos intelectuais forçados definitivamente não são a melhor forma de conduzir uma paquera, dar uns beijinhos ou conquistar o coração de alguém. Chegar na moça sem afeto ou gentileza é um tiro no pé. Deixar uma primeira impressão de pessoa sem humildade e levar até as conversas que poderiam ser mais leves num tom professoral acabam por afastar pessoas.

Decerto que nesse jogo de conquista há outras qualidades também importantes – a leveza, a educação, o charme, por exemplo. É uma equação de difícil resolução, pois mulheres têm consciências diferentes, o humor influencia, a beleza do menino também conta … Enfim, a vida é um prêmio, mas viver não é fácil.

Tantas são as pessoas no mundo que as relações precisam de algum critério para iniciar e permanecer. Quando elas acontecem e duram, dão-nos força e felicidade, fazem valer a nossa rápida existência. Além disso, pessoas podem não ser grandes intelectuais, mas terem outras inteligências e sabedoria em suas formas de vida, algo que parece bem mais interessante. Portanto, é bom ficar tranquilo na hora de ganhar um amor. Devagarinho é melhor. Se a coisa prosperar, o outro terá tempo para conhecer as qualidades, o intelecto e haverá mais trocas saudáveis no seu devido tempo. Em tempo: no seu devido tempo significa tempo futuro.

*Por Denise Araújo

……………………………………………………………………
*Fonte: contioutra

Parábola da demissão da formiga desmotivada

Havia uma formiga que todos os dias chegava cedo em seu trabalho e fazia tudo com dedicação e excelência. Ela era produtiva e feliz!

Como a formiga era muito dedicada, trabalhava por conta própria. Um dia, o gerente marimbondo percebeu que a formiga estava trabalhando sem supervisão e teve um pensamento: “se ela era tão produtiva sem supervisão, imagina então se fosse supervisionada!”

Então, colocou uma barata como sua supervisora. Essa barata era muito experiente e competente, seus relatórios eram impecáveis!

Em sua nova função, a primeira medida que a barata tomou foi padronizar o horário de entrada e saída da formiga. Depois, chamou uma secretária para ajudá-la a montar os relatórios e chamou uma aranha para organizar os documentos e atender o telefone.

O gerente marimbondo se encantou com o trabalho de qualidade realizado pela barata, e também pediu gráficos com assuntos debatidos em reuniões. Para cumprir melhor sua função, a barata contratou uma mosca e comprou mais equipamentos.

A formiga, que antes era produtiva e muito feliz em seu trabalho, começou a se sentir reprimida em meio a tantos papéis, aparelhos e reuniões.

Com toda a evolução daquele departamento, o marimbondo sentiu que era o momento de contratar um gestor para a área onde a formiga trabalhava.

A escolhida para o cargo foi uma cigarra, que muito exigente mandou emperiquitar sua sala.

Não demorou muito para que a nova gestora precisasse de equipamentos pessoais de trabalho e de uma assistente, foi escolhida a pulga que já tinha trabalhado com ela anteriormente. Juntas, elas elaboram uma estratégia de melhorias para o departamento e um controle de orçamento para a área onde a formiga trabalhava, formiga essa que a cada dia ficava mais triste e desmotivada; nem cantar mais, ela cantava!

A gestora cigarra conversou com o gerente marimbondo para lhe mostrar que precisavam investir em uma pesquisa de clima. O marimbondo concordou, mas ao analisar as finanças, percebeu que a unidade onde a formiga trabalhava não estava mais rendendo como antigamente, e por esse motivo, contratou a coruja, que era uma consultora muito reconhecida e famosa, para fazer um diagnóstico da situação.

A coruja trabalhou nesse diagnóstico por três meses, e em seu extenso relatório de conclusão, ela afirmou que tinha muita gente na empresa.

Chegou a hora de demitir alguém da empresa, e adivinha quem foi a escolhida? A formiga, óbvio, porque ela tinha mudado muito de um tempo para cá, andava desmotivada e não conseguia acompanhar o ritmo da empresa.

Moral da história

O gerente, percebendo que o trabalho no setor da formiga era bem-sucedido, foi tomado pela ganância e pensou apenas em aumentar os ganhos, sem valorizar a funcionária que esteve desde o início se esforçando e dando o seu melhor no trabalho. Ele criou diversos processos e contratou novos animais, mas se esqueceu do principal: cuidar e investir em quem fez o setor crescer em primeiro lugar. A formiga, sentindo-se desmotivada e inibida por tanta novidade, começou a produzir bem menos e logo foi “descartada”, como se fosse o problema.

Isso acontece muitas vezes na vida real. Nós criamos muitos relacionamentos e desvalorizamos aquelas pessoas que estão conosco desde o início, pensamos apenas em nosso próprio bem, e assim destruímos muitos de nossos melhores relacionamentos, os mesmos que nos fizeram ir em frente na vida.

Analise a parábola com sabedoria e depois veja se existe alguma “formiga desmotivada” em sua vida, magoada por conta de suas atitudes. Se existir, procure maneiras de melhorar o seu comportamento e valorizar quem realmente contribui para o seu crescimento.

……………………………………………………………
*Fonte: osegredo

7 vezes em que Shakespeare adivinhou o que você estava sentindo

Shakespeare não é considerado um dos maiores dramaturgos e poetas de todos os tempos à toa!

Com o dom de conseguir captar a essência dos instintos e desejos humanos em palavras, o criador de “Romeo e Julieta” e “Hamlet” é um dos autores mais citados do mundo.

Shakespeare sabe o que você está sentindo! Quer uma prova? Te damos sete! Confira as vezes em que ele definitivamente “leu os seus pensamentos”!

1. Quando todos ao seu redor querem que você seja forte…

“Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.” – Shakespeare

Você tem consciência de como poderia lidar com determinadas situações, mas os sentimentos envolvidos fazem com que aquela “dor no coração” seja mais forte do que a “voz da razão”.

2. A vida é muito curta para fazer aquilo de que não se gosta…

“O que não dá prazer não dá proveito. Em resumo, senhor, estude apenas o que lhe agradar.” – William Shakespeare

Eis uma lição que muitos aprendem tarde, mas Shakespeare já adianta a resposta para a sua grande dúvida: arrisque! Escolha o caminho que te dê mais felicidade e lute por isso!

3. Saber viver e aproveitar o presente…

“O passado e o futuro parecem-nos sempre melhores; o presente sempre pior. – William Shakespeare

Pensar que os melhores momentos da sua vida já passaram ou que ainda estão por vir é um erro! É um mal do ser humano pensar que a “grama do vizinho é sempre mais verde”, assim como não aproveitar os bons momentos (mesmo pequenos) que vive!

Lembre com alegria do passado, faça planos para o futuro, mas não deixe de viver o seu presente!

4. Sou dono do meu futuro!

“Em certos momentos os homens são donos de seus próprios destinos.” – William Shakespeare

Ao longo da vida somos confrontados com alguns momentos especiais, onde são apresentados caminhos que nos levarão para diferentes destinos… E lembre-se: você é livre para trilhar o caminho que quiser, basta escolher e seguir em frente!

Você é o “senhor do seu destino” e o único responsável por fazer os seus sonhos se tornarem realidade, por isso saiba escolher os caminhos certos, ok?

5. Palavra-chave para a ansiedade: paciência!

“Tenha paciência. Tudo aquilo que você deseja, se for verdadeiro, e o mais importante: se for para ser seu, acontecerá.’ – William Shakespeare

Todo mundo tem seus momentos de ansiedade, mas nem todos sabem como lidar com essa sensação angustiante. Com o tempo você acaba encontrando a resposta, e não poderia ser mais perfeita do que a descrição feita por Shakespeare!

Sejamos pacientes!

6. Quando as ações valem mais do que mil palavras…

“Os sentimentos verdadeiros se manifestam mais por atos que por palavras” – William Shakespeare

Quem já esteve (ou está) apaixonado sabe muito bem que mais vale uma ação do que mil cartas de amor para provar os verdadeiros sentimentos, certo?

Como diz o ditado popular: “quem muito fala, nada quer”.

7. A vida é um filme!

“O mundo inteiro é um palco e todos os homens e todas as mulheres são apenas atores” – William Shakespeare

A sua vida é um grande filme, onde você é o protagonista principal! Lembre de fazer a sua melhor atuação para ter não apenas um, mas vários finais felizes ao longo da sua história!

Não importa qual seja a sua idade, o seu gênero sexual ou classe social… As pessoas passam pelos mesmos dilemas ao longo da vida. É da natureza humana ter de enfrentar determinadas questões e, como era de se esperar, Shakespeare conseguiu compreender isso muito bem, não concordam?

…………………………………………………………..
*Fonte: pensarcontemporaneo

Noam Chomsky: “As pessoas já não acreditam nos fatos”

Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) superou faz tempo as barreiras da vaidade. Não fala de sua vida privada, não usa celular e em um tempo onde abunda o líquido e até o gasoso, ele representa o sólido. Foi detido por opor-se à Guerra do Vietnã, figurou na lista negra de Richard Nixon, apoiou a publicação dos Papéis do Pentágono e denunciou a guerra suja de Ronald Reagan. Ao longo de 60 anos, não há luta que ele não tenha travado. Defende tanto a causa curda como o combate à mudança climática. Tanto aparece em uma manifestação do Occupy Movement como apoia os imigrantes sem documentos.

Mergulhado na agitação permanente, o jovem que nos anos cinquenta deslumbrou o mundo com a gramática gerativa e seus universais, longe de descansar sobre as glórias do filósofo, optou pelo movimento contínuo. Não se importou com que o acusassem de antiamericano ou extremista. Sempre seguiu em frente com valentia, enfrentando os demônios do capitalismo − sejam os grandes bancos, os conglomerados militares ou Donald Trump. À prova de fogo, sua última obra volta a confirmar sua tenacidade. Em Réquiem para o sonho americano (editora Bertrand Brasil), ele põe no papel as teses expostas no documentário homônimo e denuncia a obscena concentração de riqueza e poder que exibem as democracias ocidentais. O resultado são 192 páginas de Chomsky em estado puro. Vibrante e claro.

Preparado para o ataque.

— O senhor se considera um radical?

— Todos consideramos a nós mesmos moderados e razoáveis.

— Defina-se ideologicamente.

“As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária. O resultado é uma mistura de aborrecimento e medo”

— Acredito que toda autoridade tem de se justificar. Que toda hierarquia é ilegítima enquanto não demonstrar o contrário. Às vezes pode se justificar, mas na maioria das vezes, não. E isso… isso é anarquismo.

Uma luz seca envolve Chomsky. Depois de 60 anos dando aulas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), o professor veio viver nos confins do deserto de Sonora, no Arizona. Em Tucson, a mais de 4.200 quilômetros de Boston, ele se instalou e estreou um escritório no Departamento de Linguística da Universidade do Arizona. O centro é um dos poucos pontos verdes dessa cidade abrasadora. Freixos, salgueiros, palmeiras e nogueiras crescem em torno de um edifício de tijolos vermelhos de 1904 onde tudo fica pequeno, mas tudo é acolhedor. Pelas paredes há fotos de alunos sorridentes, mapas das populações indígenas, estudos de fonética, cartazes de atos culturais e, no fundo do corredor, à direita, o escritório do maior linguista vivo.

O lugar não tem nada a ver com o espaço inovador do Frank Gehry que o abrigava em Boston. Aqui, mal cabe uma mesa de trabalho e outra para sentar-se com dois ou três alunos. Recém-estreado, o escritório de um dos acadêmicos mais citados do século XX ainda não tem livros próprios, e seu principal ponto de atenção recai em duas janelas que inundam a sala de âmbar. Chomsky, de calças jeans e longos cabelos brancos, gosta dessa atmosfera calorosa. A luz do deserto foi um dos motivos que o levaram a se mudar para Tucson. “É seca e clara”, comenta. Sua voz é grave e ele deixa que se perca nos meandros de cada resposta. Gosta de falar longamente. Pressa não é com ele.

Pergunta. Vivemos uma época de desencanto?

Resposta. Já faz 40 anos que o neoliberalismo, liderado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, assaltou o mundo. E isso teve um efeito. A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Já não se confia nem nos próprios fatos. Há quem chama isso de populismo, mas na verdade é descrédito das instituições.

P. E assim surgem as fake news (os boatos)?

R. A desilusão com as estruturas institucionais levou a um ponto em que as pessoas já não acreditam nos fatos. Se você não confia em ninguém, por que tem de confiar nos fatos? Se ninguém faz nada por mim, por que tenho de acreditar em alguém?

P. Nem mesmo nos veículos de comunicação?

R. A maioria está servindo aos interesses de Trump.

P. Mas há alguns muito críticos, como The New York Times, The Washington Post, CNN…

R. Olhe a televisão e as primeiras páginas dos jornais. Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. A mídia caiu na estratégia traçada por Trump. Todo dia ele lhes dá um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro da atenção. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós.

P. O senhor vê em Trump um risco para a democracia?

R. Representa um perigo grave. Liberou de forma consciente e deliberada ondas de racismo, xenofobia e sexismo que estavam latentes, mas que ninguém tinha legitimado.

P. Ele voltará a ganhar?

R. É possível, se conseguir retardar o efeito letal de suas políticas. É um demagogo e showman consumado que sabe como manter ativa sua base de adoradores. Também joga a seu favor o fato de que os democratas estão mergulhados na confusão e podem não ser capazes de apresentar um programa convincente.

P. Continua apoiando o senador democrata Bernie Sanders?

R. É um homem decente. Usa o termo socialista, mas nele significa mais um New Deal democrata. Suas propostas, de fato, não seriam estranhas a Eisenhower [presidente dos EUA pelo Partido Republicano de 1953 a 1961]. Seu sucesso, mais que o de Trump, foi a verdadeira surpresa das eleições de 2016. Pela primeira vez em um século houve alguém que esteve a ponto de ser candidato sem apoio das corporações nem dos veículos de comunicação, só com o apoio popular.

“Trump liberou deliberadamente ondas de racismo, xenofobia e sexismo que estavam latentes mas não legitimadas”

P. Houve um deslizamento para a direita do espectro político?

R. Na elite do espectro político sim, ocorreu esse deslizamento, mas não na população em geral. Desde os anos oitenta se vive uma ruptura entre o que as pessoas desejam e as políticas públicas. É fácil ver isso no caso dos impostos. As pesquisas mostram que a maioria quer impostos mais altos para os ricos. Mas isso nunca se leva a cabo. Frente a isso se promoveu a ideia de que reduzir impostos traz vantagens para todos e que o Estado é o inimigo. Mas quem se beneficia da reduzir [verbas para] estradas,hospitais, água limpa e ar respirável?

P. Então o neoliberalismo triunfou?

R. O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.

P. O que o senhor descreve soa a George Orwell.

R. Até Orwell estaria assombrado. Vivemos a ficção de que o mercado é maravilhoso porque nos dizem que está composto por consumidores informados que adotam decisões racionais. Mas basta ligar a televisão e ver os anúncios: procuram informar o consumidor para que tome decisões racionais? Ou procuram enganar? Pensemos, por exemplo, nos anúncios de carros. Oferecem dados sobre suas características? Apresentam informes realizados por entidades independentes? Porque isso sim que geraria consumidores informados capazes de tomar decisões racionais. Em vez disso, o que vemos é um carro voando, pilotado por um ator famoso. Tentam prejudicar o mercado. As empresas não querem mercados livres, querem mercados cativos. De outra forma, colapsariam.

P. Diante dessa situação, não é muito fraca a contestação social?

R. Há muitos movimentos populares muito ativos, mas não se presta atenção neles porque as elites não querem que se aceite o fato de que a democracia pode funcionar. Isso é perigoso para elas. Pode ameaçar seu poder. O melhor é impor uma visão que diz a você que o Estado é seu inimigo e que você tem de fazer o que puder sozinho.

P. Trump usa frequentemente o termo antiamericano. Como o senhor entende esse termo?

“As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são marxistas mas com os valores invertidos”

R. Os Estados Unidos são o único país onde, por criticar o Governo, te chamam de antiamericano. E isso representa um controle ideológico, acendendo fogueiras patrióticas por toda parte.

P. Em alguns lugares da Europa também ocorre isso.

R. Mas nada comparável ao que ocorre aqui, não há outro país onde se vejam tantas bandeiras.

P. O senhor teme o nacionalismo?

R. Depende. Se significa estar interessado em sua cultura local, é bom. Mas se for uma arma contra outros, sabemos aonde pode conduzir, já vimos e experimentamos isso.

P. Acha possível que se repita o que ocorreu nos anos trinta?

R. A situação se deteriorou. Depois da eleição de Barack Obama se desencadeou uma reação racista de enorme virulência, com campanhas que negavam sua cidadania e identificavam o presidente negro com o anticristo. Houve muitas manifestações de ódio. No entanto, os EUA não são a República de Weimar [democracia alemã anterior ao nazismo]. Precisamos estar preocupados, mas as probabilidades de que se repita algo assim não são altas.

P. Seu livro começa lembrando a Grande Depressão, uma época em que “tudo estava pior que agora, mas havia um sentimento de que tudo iria melhorar”.

R. Eu me lembro perfeitamente. Minha família era de classe trabalhadora, estava desempregada e não tinha educação. Objetivamente, era uma época muito pior que agora, mas havia um sentimento de que todos estávamos juntos naquilo. Havia um presidente compreensivo com o sofrimento, os sindicatos estavam organizados, havia movimentos populares… Tinha-se a ideia de que juntos podíamos vencer a crise. E isso se perdeu. Agora vivemos a sensação de que estamos sozinhos, de que não há nada a fazer, de que o Estado está contra nós…

P. Ainda tem esperanças?

R. Claro que há esperança. Ainda há movimentos populares, gente disposta a lutar… As oportunidades estão aí, a questão é se somos capazes de aproveitá-las.

Chomsky termina com um sorriso. Deixa vibrando no ar sua voz grave e se despede com extrema cortesia. Em seguida, sai do escritório e desce as escadas da faculdade. Fora, esperam-lhe Tucson e a luz seca do deserto de Sonora.

*Por Jan Martinez Ahrens

……………………………………………………………
*Fonte: elpais

Nunca o Brasil precisou tanto de bom jornalismo

Gilberto Dimenstein defende: o jornalismo deveria descobrir políticos íntegros e preparados com a mesma intensidade que dedica a descobrir larápios.

Atacado por todos os lados, o jornalismo independente tem cumprido sua missão de fiscalizar todos os poderes, auxiliando no movimento de transparência que se espalha pelo Brasil. Nunca se combateu com tanto vigor a sensação de impunidade: a imprensa está ajudando a escrever um dos mais belos capítulos de resistência da história brasileira.

Porém, essa devassa nos podres poderes tem um trágico efeito colateral: a disseminação do desalento, a desconfiança de tudo e todos. Inclusive a desconfiança da eficácia da democracia. É um espaço fértil para aventureiros de diferentes ideologias. A saída é um jornalismo radicalizado na busca da objetividade. O jornalismo desenvolveu uma eficaz técnica de apontar problemas. Não existe nenhum profissional grupo tão preparado para combater a epidemia desinformação, batizada de Fake News, que contamina a internet. Uma epidemia que, literalmente, mata: basta ver como menos pessoas estão tomando vacinas, por acredita em mentiras das redes sociais.

Mas, o jornalismo ainda deixa a desejar em mostrar soluções. Isso porque existe uma tradição do “bad news is good news”. Ou seja, só conflitos, impasses ou falhas seriam notícia. Essa é uma visão parcial. A relevância da notícia não deveria ser apenas se ela é “ruim”, mas seu impacto na vida das pessoas. Ser objetivo é mostrar problemas e soluções. Daí que, nestas eleições, não faltam notícias ruins – e devem ser disseminadas com toda profundidade.

No entando, não podemos deixar de ver o óbvio: um movimento nacional de jovens entrando na política, buscando fazer a diferença especialmente no Congresso. Sem senadores e deputados qualificados, um presidente ou governador, mesmo que bem intencionado, pouco pode fazer numa nação que exige reformas urgentes. Sem essas reformas, vamos assistir passivamente ao Brasil se atolar ainda mais na ingovernabilidade, sem recursos para educação, saúde ou segurança.

Vemos voltarem doenças que se presumiam extintas, o crescimento da mortalidade infantil, o colapso dos hospitais públicos e as cidades transformadas em praças de guerra. Tudo isso só faz aumentar ainda mais a desconfiança com o sistema representativo, gerando um círculo vicioso que afasta nossos melhores talentos da vida pública. Junto com a volta do sarampo também ouvimos a volta de pessoas pedindo a intervenção militar.

O bom jornalismo deveria dedicar seu olhar investigativo a descobrir políticos íntegros e preparados – e com a mesma intensidade que dedica a descobrir larápios. Deveríamos descobrir esses personagens, estejam em que partidos estiverem, independentemente de sua ideologia. A crise brasileira da política também é uma crise de recursos humanos. Saber quem são, nesse ambiente deteriorado, é uma notícia que o leitor, ouvinte e espectador que saber para tomar uma decisão.Tratar todos igualmente não é ser objetivo nem isento. É desconsiderar o fato objetivo de que existem políticos melhores e piores.

Se o jornalismo não conseguir mostrar essa diferença, acabará, mais cedo ou mais tarde, ajudando a abalar o próprio sistema que garante a liberdade de imprensa.

*Por Gilberto Dimenstein

 

 

 

 

…………………………………………………..
*Fonte: catracalivre

Loucura mesmo é ser livre

Sou o louco mais domesticado que conheço. E não há quem se sinta mais decepcionado com isso do que eu. Acredite: um dia, já tive gana e frescor nos olhos. É uma pena. Não foi apenas um equívoco, mas, uma crueldade deixar que morresse à mingua a criança que brincava de se esconder nos labirintos de mim. Quem se importa com tamanha insegurança? De uma coisa, ao menos, não tenho certeza: é lastimável não levar a vida que se sonha.

Loucura mesmo é desmentir o dito popular e trazer, sim, a felicidade sem possuir um puto sequer no bolso. Isso eu chamo simplicidade e desprendimento. Fica aqui um conselho gratuito aos mais vendidos: para morrer de velhice e sair bem na foto, é preciso relevar as agruras da vida. Olha o passarinho. Veja como ele deixa o dia mais leve.

Sobrevoar iniquidades não é fácil. Faz tempo que parei de sonhar que voava. Deus não dá asa às cobras. Deus não é louco assim. Loucura mesmo foi ter criado o mundo em seis dias e não se arrepender no sétimo. Ah… Se arrependimento matasse, eu bebia dele. Juro pelo limite do meu cartão de crédito.

Você tem razão. Não me leve tão a sério. Estou exagerando. Já que você, assim como o criador, não me dará asas, também não dê corda para um aspirante a lunático. Os mentecaptos — não sei se lhe explicaram isso na escola, na fila da punheta ou na sessão de psicoterapia — podem arrastar gente para o mundo da lua, de onde só se volta faltando pedaços, ao amanhecer de outro dia. Sim. Eu sei. A lua está cheia e eu pareço minguante, meio perdido. Você está inteiramente correto. Adoro admitir que me desencontro um pouco mais a cada dia. Você ainda não viu nada, pequeno unicórnio.

Loucura mesmo é perder os descaminhos por andar demasiado tempo sobre os trilhos. A trilha não compensa. É preciso não temer em demasia o beijo na lona. Contudo, admito, sou um maria-vai-com-as-outras. E por falar em efeito manada, em seguir a onda, loucura mesmo é achar a coisa mais comum do mundo quando o mar quando quebra na praia. As marolas nunca são iguais. Espuma e melancolia são coisas muito subjetivas, pois cada um investe poesia na sua vida da maneira que dá conta. Em tempo: o ato mais lírico e insano que já cometi foi ter cometido filhos. É um tipo de amor que não possui métrica. Não consigo rimar nada parecido com isso.

Loucura mesmo é buscar a fama sabendo que a fome da terra nos espera com os dentes de anteontem. Há uma pressa incompreendida no nascer-e-morrer do universo. Ninguém explica isso sem partir para o fanatismo. Não sei se você concordaria com isso, mas, fanatismo é reverenciar uma boa hipótese. Se sacasse alguma coisa a respeito dessa tal Geração Y, eu perguntaria aos universitários, sem titubear: o que é a vida, chapas? Rio só de imaginar as caras deles.

Pensando bem, se prestarmos muita atenção nos detalhes da nossa longa existência no planeta, notaremos que loucura mesmo é derrubar hectares e mais hectares de mata-virgem para asfaltar a relva e plantar espigões de concreto onde seres humanos se empilham. Há pouca ou nenhuma humanidade nisso. Não faz tanto sentido quanto afirmam os arquitetos. Me corrija, se eu estiver certo: sem contar as várias noites insones em que nauseio sob o lençol, restam poucas coisas mais caóticas pra se ver do que as cidades de São Paulo, Nova Déli, Pequim e Roma. Rômulo e Remo acharam plausível, líquido e certo mamar nas tetas de uma loba. Então, mamaram. Era uma questão de sobrevivência. O que esse adendo mítico tem a ver com a minha história? A não ser pela sedução do trocadilho, nada. Não reclame. Eu avisei que estava com a macaca. Você trepou com o meu texto porque quis. Mesmo assim, não se amofine. Estou aqui, próximo de um fim, agarrando-me a qualquer fio-da-meada que se me oferecer.

Loucura mesmo é ter coragem de levar a vida na flauta, à margem da escala-de-dó dos que sofrem por falta de tempo, com sanha por patrimônio material. Que vida odiosa levam os que buscam um futuro melhor gozando o presente da pior maneira. Loucura mesmo é contar dinheiro, várias vezes ao dia, na esperança de que apareça um pouco mais dele. É organizar carnês por data de vencimento. É fazer ginástica financeira, mas, enfartar por causa do sedentarismo. Coronárias não aceitam banha-de-porco, quem dirá, desaforo.

Você foi alfabetizado, amigo? Então, conte nos dedos quantos loucos deram certo na vida. Todos. Eu digo e repito, com medo de acertar: todos. Os malucos anônimos e os malucos geniais. Os loucos magníficos, mesmo sem pleitearem os louros, entram para a história e se tornam eternos. É comum que dependuremos os seus pôsteres nas paredes, a fim de admirarmos tanta petulância. É como se falássemos ao espelho: Queria tanto ter sido como você; doido, lindo, sincero e verdadeiro.

Mas existem demandas demais, compromissos demais, impostos demais, impostores demais esperando por nós: os homens normais. Esse status tolo no qual eu e você estamos inseridos faz parte do enfadonho, triste e conveniente convívio social — não necessariamente nesta ordem. Porque, quando o assunto é desordem, não entendemos nada. Quem dela se alimenta são os loucos-de-pedra. Os homens mais livres que já caminharam sobre a face da terra.

*Por Eberth Vêncio

 

 

 

………………………………………………
*Fonte:

Depois dos 40 anos não há depois, é tudo agora

Depois dos 40 anos, o pensamento feminino muda, desembaraça. O sexo não é mais performance, exaustão, é fazer o que se gosta e do jeito que gosta. É aproveitar dez minutos com a intensidade de uma noite inteira, é reconhecer o rosto do próprio desejo no primeiro suspiro, é optar pela submissão por puro prazer, sem entrar na neurose da disputa ou do controle.

A mulher de 40 não diminui o ritmo da intimidade. Pode ler um livro com a intensidade de uma transa. Pode assistir um filme com a intensidade de uma transa. Pode conversar com a intensidade de uma transa. Ela não tem um momento para a sensualidade, a sensualidade é todo momento.

Tomar o café da manhã não é apenas um desjejum, tem a sua identidade, o seu ritual, um refinamento da história de seus sabores. Tomar o café da manhã com uma mulher de 40 anos é participar de sua memória, de suas escolhas.

Ela não precisa mais provar nada. Já sofreu separações, e tem consciência de que suporta o sofrimento. Já superou dissidências familiares, e tem consciência de que a oposição é provisória. Já recebeu fora, deu fora, entende que o amor é pontualidade e que não deve decidir pelo outro ou amar pelos dois.

A mulher de 40 anos, cansada das aparências, cometerá excessos perfeitos. É mais louca do que a loucura porque não se recrimina de véspera. É ainda mais sábia do que a sabedoria porque não guarda culpa para o dia seguinte.

A beleza se torna também um estado de espírito, um brilho nos olhos, o temperamento. A beleza é resultado da elegância das ideias, não somente do corpo e dos traços físicos.

Encontrou a suavidade dentro da serenidade. A suavidade que é segurança apaixonada, confiança curiosa.

O riso não é mais bobo, mas atento e misterioso, demonstrando a glória de estar inteira para acolher a alegria improvisada, longe da idealização, dentro das possibilidades.

Não existe roteiro a ser cumprido, mapa de intenções e requisitos.

Há a leveza de não explicar mais a vida. A leveza de perguntar para se descobrir diferente, em vez de questionar para confirmar expectativas.

Ser tia ou mãe, ser solteira ou casada não cria angústia. Os papéis sociais foram queimados com os rascunhos.

A mulher de 40 é a felicidade de não ter sido. É a felicidade daquilo que deixou para trás, daquilo que negou, daquilo que viu que era dispensável, daquilo que percebeu que não trazia esperança.

Seu charme vai decorrer mais da sensibilidade do que de suas roupas. O que ilumina sua pele é o amor a si, sua educação, sua expressividade ao falar.

A beleza está acrescida de caráter. Do destemor que enfrenta os problemas, da facilidade que sai da crise.

A beleza é vaidosa da linguagem, do bom humor. A beleza é vaidosa da inteligência, da gentileza.

Depois dos 40 anos não há depois, é tudo agora.

*Por Fabrício Carpinejar – Publicado na Revista Isto É Gente – Março de 2014

………………………………………………………..
*Fonte: portaraizes

Tempo não é questão de preferência, é falta de vontade mesmo.

Ontem, cheguei em casa mais cedo do que em dias normais. Tomei um banho, comi um pão de sal com manteiga e café. Sentei no sofá e me bateu uma preguiça, decidi ir para a cama antes das nove da noite.

Naquele canto só meu, eu virava de um lado para o outro e pensava na agenda do dia seguinte. Não contei carneirinhos, mas comecei a colocar tudo na ponta dos meus pensamentos e descobri que estou em débito comigo mesma.

Percebi que não me dou de presente noites livres para não fazer nada, porque estou me ocupando com o que não precisa.

Descobri que tenho amigos que não ligo para eles há quase um mês. Lembrei que a conversa com a minha Tia Marta está sendo trocada por mensagens no celular.

Fiquei com vergonha de mim mesma, porque percebi que eu tenho despachado minha irmã quando ela me liga. Fiquei contando minhas pendências e só não contei amores, porque já tenho um para sempre e o passado adormeceu.

Refletir dói. Refletir nos faz sentirmos culpados. Pensar é gratuito, mas pode custar arrependimento e saudade. Um travesseiro, um colo, uma noite solitária, uma taça de Bordô, nos faz confrontarmos com aquilo que precisa de reparos.

É isso… Uma noite atípica para mim, me deu a oportunidade de prestar atenção no que eu precisava ver e sentir.

Eu estou em falta com o mundo que construí. Estou trocando vida por trabalho e prazer por dinheiro. E, que mal tem? Nenhum, desde que eu não estivesse remoendo dentro de mim no silêncio escuro do meu quarto.

Estou sendo negligente comigo mesma ao me perder em horas extras, ao mergulhar por completo em compromissos que podem esperar, ao correr desesperada e derrubar meu tempo.

Somos negligentes quando a ocupação diária é mais importante do que deitar na cama mais cedo e pensar em nada, relaxar entre uma música e o travesseiro. Tempo não é questão de preferência, pode ser falta de vontade mesmo, de acomodação.

Pensamos muito na vida e nos afazeres, mas esquecemos de refletir no que nos faz bem. Estamos cercados de números, conquistas, sonhos, projetos e estamos esquecendo os sentimentos, os carinhos e o viver bem. Estamos esquecendo que repousar é tão importante quanto trabalhar dez, doze horas por dia.

Quando podemos descansar sem muita preocupação, não conseguimos e achamos estranho. Muito estranho ir para a cama cedo demais e não dormir. Estamos esquecendo que dormir, ficar olhando para o teto, pensar na vida e sair mais cedo do trabalho são sinônimos de viver também.

Estamos esquecendo que uma noite, um dia de presente de nós para nós mesmos, vale mais do que um mês de férias, alivia mais o estresse e cura qualquer aflição.

Só se vê bem com os olhos do coração, disse Exúpery. E só vive bem quem admite que é preciso parar e reconciliar com o tempo e com o descanso.

*Por Simone Guerra

 

 

 

 

……………………………………………………
*Fonte: fasdapsicanalise

Jack Kerouac, o porta-voz da Geração Beat

Uma aventura libertária sobre rodas é o que o icônico escritor Jack Kerouac (1922-1969) ofereceu a uma geração inteira de leitores. Criador da famosa dupla Dean Moriarty e Sal Paradise, o escritor foi um marco para a prosa selvagem e experimental. Sua vida foi uma verdadeira montanha russa, que com certeza deu fôlego aos livros. O mais famoso de todos, “On the road“, foi lançado em 1957 – após ser rejeitado por quase 10 anos por editoras. Inspirado pelo jazz e andanças na costa oeste do país, Kerouac escreveu em três semanas a primeira versão do que seria a bíblia da contracultura norte-americana, a base de muita benzedrina e café.

Na trama, o autor captou a sonoridade das ruas, das planícies e das estradas americanas para criar uma obra que influenciou a arte e o comportamento da juventude na segunda metade do século XX. Embora seja um livro de ficção, todos os personagens são reais, inspirados nos amigos de Jack, mas em versões romantizadas. Kerouac retratou a si mesmo no papel de Sal Paradise, um personagem neutro e de segundo plano, fascinado por Dean Moriarty, que na vida real era o ícone dos poetas da época, Neal Cassady. O livro foi adaptado para o cinema pelo cineasta brasileiro Walter Salles, em 2012 e, no Brasil, recebeu impecável tradução e introdução de Eduardo Bueno para a L&PM Pocket.
A história completa

Após o grande sucesso, Kerouac ganhou um enorme protagonismo – diferente do livro – que foi evidenciando algumas incongruências entre sua história e seu estilo de vida. O início do descompasso entre os hippies e o autor, se deu quando Kerouac iniciou um discurso antissemita, apoiou a Guerra do Vietnã e a apresentou sua tendencia reacionária de direita.

Em meio à liberdade sexual e ao uso deliberado das drogas, o escritor já era um modelo ultrapassado, o que o fez enveredar, sem volta, num martírio alcoólico enclausurado na casa de sua mãe, onde viveu até morrer. Na biografia: Jack Kerouac – King of the beats, o autor Barry Miles conta muitos detalhes dessa história. Miles foi um dos maiores pesquisadores da Geração Beat e amigo pessoal de Allen Ginsberg (1926-1997). Na década de 1970, escreveu também as biografias de Ginsberg e de William Burroughs – também representados em On the road, como Carlo Marx e Old Bull Lee.

Ao todo, Jack Kerouac escreveu 20 livros de prosa sendo Visões de Cody, considerado por muitos o melhor e mais radical livro, esse só foi publicado integralmente em 1972, três anos pós sua morte em St. Petersburg, Flórida, aos 47 anos, de cirrose hepática.

Mulheres da geração beat

A partir de um olhar mais distanciado da obra, é possível ter uma visão menos romantizada sobre o estilo de vida do grupo de Sal. E essa crítica é sentida pelo próprio Paradise, ao narrar as situações absurdas que as companheiras dos jovens eram submetidas, inclusive, acompanhadas dos filhos.

Ainda além das narrativas, dentro do próprio movimento literário, as escritoras beats foram deixadas ao ostracismo ou lembradas apenas como as namoradas dos escritores. O poeta beat Gregory Corso deu uma declaração sobre o fato no livro “A Geração Beat”, de Cláudio Willer:

Houve mulheres, estiveram lá, eu as conheci, suas famílias as internaram , elas receberam choques elétricos. Nos anos de 1950, se você era homem, podia ser um rebelde, mas se fosse mulher, sua família mandava trancá-la. Houve casos, eu as conheci, algum dia alguém escreverá a respeito.”

Mas não é preciso esperar alguém escrever a respeito delas. Há livros traduzidos para o português das beatniks. Um exemplo é a escritora, Diane Di Prima com o autobiográfico “Memórias de uma beatnik”, de 1969.

*Por Natália Figueiredo

 

…………………………………………………………
*Fonte: estantevirtual

Os dois lados da Muralha

A China possui atualmente uma das economias que mais crescem no mundo, embora tenha apresentado uma desaceleração nos últimos anos, a média de crescimento econômico deste país é de quase 7,5% nos últimos anos.

A China possui uma taxa superior à das maiores economias mundiais, representando atualmente cerca de 15% da economia mundial, onde o Produto Interno Bruto (PIB) atingiu, em valores correntes, US$ 10,46 trilhões ou 72,2 trilhões de iuanes em 2016 (com crescimento de 6,7%), fazendo deste país a segunda maior economia do mundo (fica apenas atrás dos Estados Unidos).

Por outro lado, a China vem enfrentando dificuldades neste caminho, dentre elas grande parte da população ainda vive em situação de pobreza, principalmente no campo, e a utilização em larga escala de combustíveis fósseis tem gerado um grande nível de poluição do ar e seus rios vêm apresentando altos índices de poluição.

Mesmo assim, o crescimento chinês apresenta um ritmo alucinante, podendo transformar este país, nas próximas décadas, na maior economia do mundo. Porém, o que este crescimento “poderá” representar de impactos para o mundo caso algumas das hipóteses abaixo se torne realidade?

Somente nas últimas três décadas, um terço dos recursos naturais da terra foi consumido e pelas previsões da Organização das Nações Unidas, a população mundial vai crescer 53% e chegará a 11,2 bilhões em 2100. Isso chega a ser assustador! Temos recursos para tantos? Seremos capazes de criar novos modelos que deem a sustentabilidade necessária para acomodarmos tantos seres humanos?

De acordo com Worldwatch Institute e a Universidade Livre da Mata Atlântica, trago alguns números sobre os possíveis impactos globais somente com o crescimento Chinês. Vamos ver?

Com quase 1,3 bilhões de pessoas, a China está distendendo a história, demonstrando o que acontece quando um grande número de pessoas pobres se torna repentinamente mais abastada.

À medida que a renda cresceu na China, também o consumo aumentou. Eles já alcançaram os americanos no consumo per capita de carne suína e agora concentram suas energias em aumentar a produção da carne bovina.

Para suprir esta nova demanda de consumo per capita da carne bovina aos níveis do americano médio serão necessários 49 milhões de toneladas adicionais de produção.

Se tudo isto fosse produzido com gado confinado, no estilo americano, seriam necessárias 343 milhões de toneladas anuais de grãos, um volume igual a toda a colheita dos Estados Unidos.

Hipoteticamente, caso a China, com uma população muitas vezes superior à do Japão, siga o mesmo caminho de buscar sua proteína animal pelo pescado, precisará de 100 milhões de toneladas de produtos do mar, ou seja, todo o pescado mundial para suprir esta demanda.

Em 1994, o governo chinês decidiu que o país desenvolveria um sistema de transportes centrado no automóvel e que a indústria automotiva seria um dos impulsionadores do futuro crescimento econômico.

Imaginem se isso se concretizasse e cada chinês possuísse um ou dois carros em cada garagem e consumisse petróleo no ritmo dos Estados Unidos! A China necessitaria de mais de 80 milhões de barris de petróleo ao dia, ligeiramente superior aos 74 milhões de barris diários que o mundo produz atualmente.

Em consequência, a fim de oferecer as vias e estacionamentos necessários, precisaria também pavimentar cerca de 16 milhões de hectares de terra, uma área equivalente à metade dos 31 milhões de hectares de terra atualmente, produzindo a safra anual de 132 milhões de toneladas de arroz, seu alimento básico.

Caso o consumo anual de papel na China, de 35 quilos per capita, aumentasse para o nível dos Estados Unidos, de 342 quilos, a China necessitaria de mais papel do que o mundo produz atualmente.

Estamos aprendendo que o modelo de desenvolvimento industrial do ocidente não é viável para a China, simplesmente porque não há recursos suficientes para tal.

Os recursos globais de terra e água não poderão atender às necessidades crescentes de grãos da China, caso continue seguindo o caminho atual de desenvolvimento econômico.

Como também a economia energética baseada em combustíveis fósseis não irá fornecer a energia necessária, simplesmente porque a produção mundial de petróleo não está projetada a crescer muito acima dos níveis atuais nos anos futuros.

Além da disponibilidade de petróleo, se as emissões per capita de carbono na China alcançarem o nível dos Estados Unidos, só isso duplicará as emissões globais, acelerando o aumento da concentração atmosférica do CO2.

A concepção de uma estratégia de desenvolvimento é um gigantesco desafio para a China em vista da sua densidade populacional e a adoção do modelo econômico ocidental para a China está sendo contestada internamente.

Se a economia do descarte, baseada no combustível fóssil e centrada no automóvel, não funcionar na China, então não funcionará para 01 bilhão de pessoas na Índia ou para outros 02 bilhões de pessoas no mundo em desenvolvimento.

Estamos num impasse global! A China está demonstrando que o mundo não poderá continuar mais seguindo o caminho econômico atual. Está enfatizando a urgência para reestruturar a economia global, construindo uma nova economia, uma economia projetada para o planeta Terra.

*Por Ricardo Cancela

 

 

 

 

……………………………………………………..
*Fonte: storia

A pressa é inimiga da reflexão

Li essa frase em um dos livros do Walter Longo e, desde então, tenho me questionado, como de costume, sobre o quão prejudicial é essa percepção, que as pessoas têm sobre a necessidade e a obrigatoriedade de consumir tudo que vê pela frente.

Pior ainda, essa percepção errônea de que devemos opinar sobre tudo, mesmo que esse tudo seja tudo que nós não dominamos sequer o básico.

É espécie de corrida contra a própria evolução.

Isso não é apenas uma característica dos ditos hard users de internet e redes sociais.

Outro dia, “esbarrei” em um post no linkedin em que a pessoa divulgava de maneira orgulhosa quantos livros leu no ano.

Eu gosto muito de ler, estou sempre lendo algo. Leio de tudo um pouco. De ficção a espiritualidade. De livros de negócio a livros de história.

Já fui, inclusive, o tipo de pessoa que tem meta de leitura. Algo que atualmente não faz sentido mais pra mim.

No entanto, essa pessoa do Linkedin, a qual citei acima, estava fazendo algo, na minha humildade opinião, surreal: ele transformou a leitura em matemática pura, calculando friamente quantos minutos ele gastaria – literalmente- para ler cada página.

Desprezando o que a leitura tem de mais sagrado: a capacidade de refletirmos sobre cada parágrafo.

Segundo as contas dele, ele demoraria 2 minutos em cada página, e isso lhe deu base para calcular em quanto tempo ele leria 30 páginas por dia, para que, no final do mês tivesse atingido um número X de livros junto a meta que ele havia determinado naquele post cheio de likes e de outras pessoas que, não satisfeitas em não serem vistas como pessoas cultas e leitores dedicados, começaram a disputar, implicitamente, quantos livros cada um leu mais do que o outros.

Fiquei triste de ver como a leitura foi levada à esse ponto, ao ponto de ser um hábito para sustentar egos. OK, eu sei que isso é normal. Não deveria, mas é.

Prossigamos…

Confesso que fiquei o resto do dia refletindo sobre esse cara, e depois de refletir o dia todo, e até mesmo me auto questionar sobre se o erro seria eu não acompanhar toda essa ansiedade no consumo de conteúdo, ou se esse cara estaria realmente ligado no piloto automático e seguindo o fluxo padrão de uma sociedade cada vez mais imediatista, egocêntrica e asfixiada pela bolha.

“A pressa é inimiga da reflexão” virou o meu lema

Dentre vários ensinamentos do Mr. Longo, esse, um dos mais simples e diretos ao ponto, poderia dizer que virou o meu slogan para vida pessoal e profissional.

Entrar em qualquer que seja a rede social e jogar o seu tempo fora, rolando o scroll do mouse é a doença do século. Não temos mais paciência para absorver a ponto de entender e dialogar de maneira saudável sobre qualquer que seja o assunto.

É cada um com sua verdade absoluta e individual e ai de você se discordar.

A causa de tudo isso? Uma sociedade que encontrou conforto nesse ping-pong de telas que o cotidiano nos apresenta, favorecendo apenas o nosso ponto de vista. O tal do imediatismo que nos cega e nos impede de exercer reflexões sobre pontos de vista contrários ao nosso.

Também conhecido como efeito bolha, tema que não me convém abordar nesse post.

Para finalizar o texto, tenho um exercício: faça um teste e diga para as pessoas que você não usa WhatsApp e veja a reação delas.

Acho que eles assustariam menos se você disser que matou alguém, do que dizer que não usa o WhatsApp. E isso eu digo com experiência própria, pois quase não uso WhatsApp e sempre sou surpreendido com duas expressões bastante comuns: a de espanto real e a de dúvida.

Motivo?

Nenhum em especial, apenas prefiro evitar o excesso telas e de informação no meu dia a dia, sem pressa de responder ou de obter respostas.

Nada é tão urgente que não possamos parar por alguns minutos para refletir sobre o assunto.

Obrigado pela sua atenção e até a próxima história.

*Por Edson Caldas Jr.

…………………………………………………………………..
*Fonte: storia

Aprendi a não bater de frente com quem só entende o que lhe convém

Uma das coisas mais desagradáveis que ocorrem é sermos mal entendidos, quando o outro deturpa nossas palavras ou nossas atitudes, descontextualizando-as e utilizando-as em proveito próprio, enquanto nos coloca como o vilão da história. A gente acaba até ficando sem saber se nós é que não soubemos nos colocar ou se o outro é que não sabe interpretar um texto.

Infelizmente, quanto mais tentarmos provar o nosso ponto de vista, quanto mais nos explicarmos, pior ficaremos, porque quem não entende da primeira vez raramente compreenderá dali em diante.

Quem se faz de bobo e de vítima jamais será capaz de assumir seus erros, de se responsabilizar por seus atos, de se colocar no lugar de alguém. Tentar fazê-los enxergar além de seu umbigo é inútil.

Na verdade, teremos que sempre ser verdadeiros e claros, com todo mundo, pois, assim, quem nos conhece de fato e gosta de nós não se abalará com as maledicências que alguém tentar espalhar sobre nossa pessoa.

Temos que ter a tranquilidade de que vivemos de acordo com o que somos, sem dissimulações e meias verdades, para que a mentira alheia não nos atinja nunca, tampouco possa ser levada em conta por quem nos é importante.

Eu costumava bater de frente, quando entendiam errado o que eu dizia, quando maldiziam minhas atitudes. Hoje, não perco mais tempo tentando provar nada a ninguém, de jeito nenhum. O meu tempo é por demais precioso e resolvi aproveitá-lo fazendo o que eu gosto, junto com quem me faz bem.

Hoje, tenho a certeza de que muitas pessoas só entenderão aquilo que quiserem e da maneira que melhor lhes convier.

Não importa o que eu diga ou o que eu faça, muitas pessoas somente interpretarão minha vida de acordo com o nível de percepção delas mesmas, para que possam se justificar através dos erros que transferem ao mundo – segundo elas mesmas, elas nunca erram. Não tenho muito tempo livre, portanto, não gastarei mais energia com quem não merece. Vivamos!

……………………………………………………………
*Fonte: portalraizes

Umberto Eco alerta: “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos.”

Uma das maiores dificuldades comunicativas diz respeito à capacidade de expor pontos de vista sem exagerar no tom impositivo ou mesmo agressivo com que se defendem argumentos, mesmo os mais incoerentes. Cada vez mais intolerantes, as pessoas parecem precisar revestir seus discursos de agressividade, para que pareçam convincentes.

Com o advento da Internet, todos possuímos espaços virtuais onde podemos nos expressar, expondo nossos pontos de vista sobre assuntos vários. Ilusoriamente protegidos pela distância que a tela fria traz, muitas vezes excedemos no radicalismo com que pontuamos nossos comentários, sem levar em conta a maneira como aquelas palavras atingirão o outro.

A frieza do cotidiano e a concorrência de mercado acabam por contaminar nocivamente os relacionamentos humanos, que se tornam cada vez menos afetivos, tão robóticos quanto as máquinas de café que nos entopem os sentidos. Importamo-nos quase nada com os sentimentos alheios, com a historia de vida alheia, com a necessidade de entender as razões que não são nossas, pois queremos a todo custo extravasar tudo isso que se acumula dentro de nós em meio à velocidade estressante de nossas vidas.

Nesse contexto, quando expomos aquilo que pensamos sobre determinado assunto, principalmente relacionados à política e/ou à religião, acabamos sendo vítimas de contra-ataques violentos que não rebatem o que expusemos, mas tão somente tentam neutralizar nossa verdade com destemperos emocionais isentos de criticidade. Aceitável seria, entretanto, uma contra-argumentação pautada por reflexões plausíveis, o que não ocorre, em grande parte dos casos.

O fato é que poucos estão dispostos a se abrir ao que o outro tem a oferecer, a dizer, a mostrar, a trazer de diferente para suas vidas, porque é trabalhoso refletir sobre idéias já postas e cristalizadas dentro de nós, ao passo que manter intacto aquilo que carregamos há tempos é cômodo e tranquilo. E quem não quer não muda, não recebe o novo, somente dá em troca o pouco que tem e, pior, muitas vezes de forma deselegante e depreciativa.

Portanto, é necessário que aprendamos a nos expressar e a debater nossas ideias com quem realmente estiver pronto para trocar conhecimentos, com quem possui uma postura receptiva para com o novo e que não se importa com a quebra de certezas. Não percamos nosso precioso tempo com quem só ouve o que quer e da forma que lhe convém, diminuindo-nos por conta da diversidade de opiniões. Esses definitivamente não merecem nem mesmo nossa presença.

*Por: Manoel Camargo

…………………………………………………………………….
*Fonte:

Precisamos falar sobre nós

Estamos em época da maior festa aberta do mundo. Brasil o país da alegria.

O povo mais feliz da Terra.

E ao mesmo tempo a Organização Mundial da Saúde elege o Brasil como o país mais depressivo da América Latina. 5,8% da população sofre de depressão.

Temos algo de muito errado aí então.

Uma incoerência gritante.

Alegria exorbitante e tristeza vencedora.

Precisamos falar sobre isso, na TV, na internet, nas nossas escolas, nos nossos trabalhos, nas nossas cozinhas, nas nossas rodas de amigos.

Como pode o povo mais feliz ser eleito o povo mais triste?

E estamos falando de depressão, situação que não é uma simples tristeza. Estamos falando de algo que paralisa, que desestabiliza.

Uma das explicações mais plausíveis, pode ser essa:

Sustentamos uma falsa alegria.

Uma felicidade “fake”, que só serve para postarmos em nossas redes sociais, porque quando nos vemos sozinhos com nossos travesseiros nos encharcamos de lágrimas silenciosas.

O que há de errado conosco?

Estamos sofrendo e não admitimos isso, pois culturalmente depressão é doença de “fresco”. Então guardamos interiormente, inconsciente, nossas dores pois o “outro” não está preparado e não tem interesse em me ouvir. Preciso mostrar-me equilibrado, pois senão serei fraco aos olhos reais e virtuais.

E quem vai querer ter perto alguém assim, doente?

Pode-se pensar que é revigorante estar sempre bem, estar em festas de segunda a segunda, postar cada movimento que se faz no Facebook, para que todos possam ver que eu estou bem, mesmo não estando. Focalizar minhas selfs o tempo todo, pois eu preciso que o meu espelho me ame e que minhas curtidas me idolatrem. Gastar todo o meu dinheiro, em roupas, em baladas, em status exibicionista, isso pode ser bom… e é maravilhoso!

Por um tempo…

Qual é o alicerce que estamos construindo para nossas vidas?

Que tipo de pessoas nós somos realmente.

A minha volta existe somente sorrisos, porém interiormente eu sei que todos estão devastados.

Não é errado investir nos nossos prazeres, não é errado pular os quatro dias de carnaval, não é errado se divertir.

Mas qual é a nossa motivação para essas coisas?

O que me leva a ser feliz? Minha vida como um todo? Ou datas esporádicas de feriados ou uma vida abastada financeiramente.

O que me faz realmente sorrir?

Infelizmente a resposta é que a maioria não sabe o que as faz feliz. Não sabem observar o que existe por fora e não tem a mínima ideia de quem são por dentro.

A mudança é individual. Transforma-se sozinho, na auto consciência de aceitar que algo está errado consigo mesmo. Na coragem e na ousadia de pedir ajuda e fazer com que tudo seja diferente.

Precisamos falar que quem precisa de ajuda pode encontrar um meio para que as coisas se modifiquem para melhor.

Precisamos de empatia. Precisamos de misericórdia. Precisamos tirar nossos olhos de nossas telas luminosas e enxergar quem tem um grito contido, pois não vê lugar para se abrir.

Queremos um porto seguro, mas não queremos ser o ombro amigo de ninguém que realmente sofre.

Precisamos tratar do que precisa ser tratado e parar de ignorar que algo está errado. Precisamos para de deixar de lado aquilo que nos puxa pra baixo. É necessário enfrentar nossas fraquezas e ver o que pode ser feito.

Vivemos num pais que ri alto pelas ruas, mas que chora silencioso entre quatro paredes.

Ainda é tempo. Ainda são 5,8%…

Precisamos falar sobre nós.

*Por Lucas S. Ferreira

……………………………………………………………………….
*Fonte: genialmentelouco

Deseducar Para Controlar

Nestes dias tão conturbados em que presenciamos e vivemos cataclismos políticos e sociais tão evidentes, a figura do autômato descrita pelo Filósofo e Historiador Alemão Walter Benjamin me veem a cabeça. Em seu texto Conceitos Sobre História, assim ele descreve este ser: “Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contra lance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche.”

O que de certa forma exprime a ideia contida no detalhamento da figura de um autômato fantoche, deixa mais do que claro as nuances da situação brasileira atual. Vivemos como uma população robotizada, passando por falsas transformações que ocultam uma continuidade de engrenagens de poder que se perpetuam desde a formação do país enquanto nação. Tal qual o jogo de xadrez evidenciada pelo pensador alemão, nossas jogadas são de cartas marcadas. Embora as peças sejam diferentes ao longo dos anos, nossa política, graças aos mecanismos de continuísmos, garante a perpetuação de uma série de privilégios, meandros e costumes arraigados no seu cerne.

Passando pelo período colonial, ao grito do Ipiranga dado por um Nobre Português com Disenteria proclamando a independência; da pompa do Período Imperial, vicejando a república velha e seu voto de cabresto; do (velho) Estado novo de Getúlio Vargas; da ditadura de uma noite sombria que durou 21 anos; até estes dias de tresloucada de uma incongruente democracia republicana empedernida: mudaram-se sistemas de governo, pessoas, políticos, economia e os pormenores do tempo, mas algo conseguiu manter-se como permanência em todas estas épocas.

Hábitos, costumes e uma certa cultura política e educacional calcada no uso do estado, da nação e de todos os seus dispositivos para perpetuação de um Modus Operandi voltada para o ego individualista, onde poucos se beneficiam com as mazelas da maioria, onde se deveria existir ações e pensamentos voltados para o bem-estar de todos, há o movimento contrário. Pelo sucesso individual, baseado na desgraça geral.

Instituições, empresas, órgãos públicos e privados, e a própria população são imbuídas de uma crença onde apenas o seu interesse deve ser o primordial para que seus objetivos, metas e satisfação enquanto cidadão sejam supridos. Indo por este caminho, ocorre a cegueira geral de que o bem-estar e a empatia pelo outro é desnecessária. Onde todos têm o mínimo de suas necessidades de vida, consumo, lazer, segurança, saúde e educação, a existência da sociedade e seu desenvolvimento atinge todas as expectativas e estabilidade para que aqueles pertencentes a ela se sintam aplacados e satisfeitos em sua condição existencial.

E então fica a pergunta de por que aqueles que detêm o poder não fazem as mudanças preconizando e dando prioridade a estas questões? Oras, pelo mesmo motivo que muitos tentam fraldar a bolsa de valores, enganar o arbitro em alguma competição esportiva, praticar bullying, e por aí vai; a resposta final é o ganho individual em detrimento do interesse coletivo.

É nisto que reside a realidade concreta do Brasil, uma população a mercê de ilusões criadas por uma política que mesmo mudando suas jogadas e modelo, consegue perpetuar processos e atingir os mesmíssimos resultados, não importando se a partida e o sistema forem diferentes. O resultado sempre será o mesmo, ludibriando e dando a falsa ilusão daqueles que estão envolvidos no jogo, que podem conseguir uma vitória quando uma nova partida se inicia.

Ardilosa armadilha criada pelo Estabilishment desde os primórdios da nação brasileira, ele é tão eficiente por não depender de modelo político, econômico ou social: ele se mantém entranhado nos hábitos culturais bem como nos mecanismos da indução de pensamento e influência dos costumes. É a arma perfeita nas mãos do Status Quo, pois venceu e vence suas batalhas sem dar sequer um tiro.

Para que as mudanças que não mudem tenham sua continuidade, ocorre então a necessidade de ferramentas visando manter toda esta penúria, e o meio de alcançar estas metas é o sucateamento da educação brasileira. Vamos sendo criados de modo que a imensa maioria não perceba que está sendo iludida nos joguetes do poder, e aqueles que sabem como funciona isso tudo entram num processo de conformismo com a situação.

Não existiu até hoje um verdadeiro plano de reforma educacional esclarecedora, primando pelo efetivo ensino que consiga quebrar com estas correntes de um nocivo controle das vontades do inconsciente e subconsciente brasileiro, não precisando aqui descrever o tenebroso projeto do Escola sem partido(sic). Hábitos e costumes tão profundamente incrustados no consciente nacional só são passíveis de mudança através da educação. Por isto, a educação brasileira permanece arcaica, pois vai de encontro aos interesses daqueles que, como o corcunda anão mestre no xadrez relatado por Walter Benjamin, tem nos políticos os fantoches de suas vontades.

Sendo assim, cada vez mais dou razão a afirmativa de Darcy Ribeiro: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”.

……………………………………………………………………….
*Fonte: genialmentelouco / Guilherme Lima

A hermenêutica e o discurso: estamos nos desencontrando

Quando fala-se algo, espera-se que o outro compreenda. Ou pelo menos tenha uma dimensão da experiência da pessoa que fala. Isso é o discurso, que pode ser tanto falado quanto escrito. A comunicação nos faz humanos, seres inteligíveis e inteligentes. Capazes de criar a empatia necessária para a ética.

Mas estamos falhando miseravelmente nisso. Estamos nos desconectando, mesmo estando em rede. Podemos conversar com alguém do outro lado do mundo, com outra língua, cultura, ontologia. E mesmo assim não nos entendemos, pessoas da mesma matriz linguística, cultural.

Hermenêutica é um ramo da filosofia que em termos gerais estuda a interpretação, dentro de uma perspectiva tradicional (apenas verbal) para a moderna (verbal e não-verbal). Estaremos aqui falando das interpretações quando nos referirmos a essa palavra. O sentido do discurso verbal e não-verbal.

Digo que os dois maiores problemas que enfrentamos hoje são a multiplicidade do discurso e sua hermenêutica. O primeiro é o mais visível deles, colocaria no eixo técnico, empírico. Quando se tem uma multiplicidade de diferenças, seria natural que o acordo entre as partes gerasse um conflito. Vamos ao exemplo ilustrativo: Se sou cristão, tenho minha matriz de crença. Se penso numa escola cristã, por consequência, quero impor minha agenda. O que nos leva acreditar que esses pensamentos além de múltiplos são excludentes. É difícil eu, como A querer que B possa conviver comigo e C nem pensar. Isso é variável: nem toda agenda é excludente, mas a grande maioria é.

O segundo problema é exatamente uma consequência desse primeiro, que seria internalizado. O discurso de especificidade de uma classe A gera, dentro de si, múltiplas interpretações. Quando as várias partes discursam, a confusão se instaura. Somos levados pela enxurrada de vetores de pensamento que acabam nos levando para lugar nenhum. Ou seja, a multiplicidades dos discursos é igual à zero, como se fosse realmente soma de vetores opostos. Não saímos mais do lugar por não saber contra quem lutar, com que e como lutar.

Como podemos superar esse impasse? Atacando o problema na sua raiz: o debate não existe mais por conta da anulação dos pensamentos, pois cada um interpreta como quer. Ficamos na dívida da realidade, tal como ela é e usamos o discurso pós-modernista do “tudo pode porque somos humanos”. Isso interfere nas quatro matrizes de pensamento: arte, filosofia, ciência e religião. Nenhuma está isenta desses dois problemas, porém cada uma em sua dimensão.

Se conseguimos sair do paradigma da Antítese e chegar a Síntese, poderemos superar esse problema. Se voltarmos a Síncrese e ao paradigma da Antítese, voltemos a debater e pensar na Síntese. Moto contínuo, pois somos sistemas dinâmicos de inter-relações e discursos. Devemos sempre exercitar nossa lógica dialética e dialógica e não morrer nos discursos conflitantes. Ai, como diria o grande Slavoj Zizek, pensar primeiro e agir depois fará todo sentido.

*Por Luciano Pontes

 

 

 

 

…………………………………………………..
*Fonte: genialmentelouco

Você já acordou com a sensação de que não conseguia se mexer na cama?

Após um dia cheio, nada como uma boa noite de sono para recuperar as energias. Essa é daquelas frases tão óbvias que poderiam até ser aposentadas. Todos sabemos que precisamos repousar diariamente. Mas, para algumas pessoas, a hora de dormir pode ser o início de uma experiência intensa.

Sabe quando você tem um sonho tão real que, ao despertar, fica em dúvida se ele de fato não aconteceu? Ou quando você está sonhando e tem a consciência de que é um sonho e que pode acordar a qualquer momento? Imagine acordar no meio desse sonho e não conseguir comandar seu corpo. Você tenta levantar da cama e não consegue, tenta gritar e as palavras não saem. Ao mesmo tempo em que enxerga onde está e o que acontece ao redor, suas funções motoras não lhe pertencem mais. E a sensação é de que a respiração fica mais difícil, devido a uma força inexplicável que pressiona seu peito.

Poderia ser uma ficção escrita por Stephen King ou a sinopse do mais novo filme de M. Night Shyamalan. Porém, trata-se de algo real vivido rotineiramente por um grande número de pessoas. É bem provável que você ou alguém próximo já tenha passado por algo assim.

 

Com Juliana*, 22 anos, aconteceu pela primeira vez na pré-adolescência: “Lembro muito por conta da televisão. Eu via TV para dormir e durante a experiência lembro de ter visto o que estava passando na tela”.

Ela poderia seguir a vida imaginando que tudo não passara de um sonho aflitivo. Isso se o episódio não tivesse sido reprisado há cerca de 2 anos. A partir daí, tornou-se recorrente. Durante alguns meses, chegou a acontecer quase que diariamente: “Eu deito para dormir, durmo, daí tenho isso. Do nada. Pode ser no meio da noite ou logo no começo. Varia pra caramba. Você não abre o olho. E você sabe que está de olhos fechados. Você faz muita força para abrir, seu olho não abre de jeito nenhum, mas você consegue enxergar. Isso que é estranho. Eu fico vendo o que está acontecendo de verdade, só que eu sinto como se tivesse algo ou alguém me prendendo.”

Conversando sobre o tema com outras pessoas, Juliana descobriu que não estava sozinha: “Comentei isso com uma amiga da faculdade e ela falou que já teve. Uma outra amiga contou para ela que também já teve. Mesmo minha mãe já teve isso quando era mais nova. Antes eu achava bem surreal, depois eu vi que outras pessoas têm. Mas não é algo tão comum assim. Muita gente não consegue nem entender.”

Por motivos pessoais, nossa entrevistada Juliana foi pelo caminho da espiritualidade para conseguir lidar melhor com a situação, que vinha se repetindo diariamente de forma angustiante: “Eu fiz um tratamento espírita. Veio uma pessoa que fez como se fosse uma limpeza na casa. E dai eu parei de ter”. Apesar de não se assustar mais com isso como antes, ela tem receio de que volte a acontecer. Principalmente por ser algo cansativo, que interfere no seu momento de repouso.

O fenômeno não é recente e nem são de hoje as tentativas de explicá-lo. Por exemplo, o folclore brasileiro conta a lenda da Pisadeira. É uma mulher que surge do seu esconderijo para pisar sobre o peito da pessoa adormecida, que por sua vez permanece em estado letárgico enquanto mantém a consciência de tudo que acontece. A mitologia japonesa dá a esses mesmos sintomas o nome de kanashibari, que seria obra da magia de um dos deuses budistas. Como aponta esse artigo, a experiência de acordar no meio de um sonho em conseguir se movimentar é narrada ainda por outras culturas em diferentes momentos históricos.

No contexto filosófico, alguns entendem se tratar de uma catalepsia projetiva, que seria o estágio preliminar de uma projeção astral . Segundo Wagner Borges, fundador do Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas, projeção astral é “a capacidade da consciência de se projetar temporariamente para fora de seu corpo fisico”. De acordo com ele, “enquanto o corpo físico descansa, o corpo espiritual desprende-se e flutua por cima da parte física”. Esses acontecimentos durante o sono seriam naturais para todo ser humano em todas as noites. A peculiaridade trazida pela catalepsia projetiva é a pessoa despertar no meio desse processo de transição energética e se lembrar dos acontecimentos ao acordar de volta no corpo.

Outro grande estudioso do tema aqui no Brasil é Saulo Calderon, que vem vivenciando a projeção astral desde pequeno e, na adolescência, passou por diversos episódios de catalepsia projetiva. Sofreu muito até que aprendeu a usar melhor esse fenômeno para o bem. Após aprofundar seus estudos sobre experiências extracorpóreas, ele fundou o grupo de pesquisas Viagem Astral. Saulo costuma publicar vídeos em seu canal no YouTube, onde responde dúvidas de pessoas que buscam explicações espirituais para o fenômeno, além de falar também sobre outros universos que envolvem o mundo espiritual.

Segundo Saulo Calderon, todas as noites quando dormimos, nosso corpo descansa enquanto nosso espírito se solta, ficando preso somente pelo “cordão de prata” – algo como um fio energético que sai do topo da nossa cabeça e nos liga ao corpo (segundo essa linha de estudo, quando morremos, esse cordão de rompe, e assim deixamos de habitar o nosso corpo físico). A catalepsia projetiva seria a paralisia de seus veículos de manifestação, dentro da faixa de atividade do cordão de prata. Ou seja – seu espírito já estaria num outro plano, por isso a impossibilidade de mover o corpo.

Algumas pessoas conseguem chegar nesse estado naturalmente, enquanto outras treinam e usam técnicas para conseguir se manter lúcidas durante esse processo no qual o espírito trocaria de dimensão. Saulo Calderon afirma em seus vídeos, cursos e livros que com treinamento (muitas vezes fazendo técnicas energéticas diárias para manter um estado de energia mais sutil), qualquer pode dominar essa habilidade de se manter lúcido fora do corpo.

Saulo relata que não somente visita outros planos espirituais enquanto seu corpo dorme, como também faz trabalho de amparo com espíritos necessitados que encontra pelo caminho durante as viagens astrais. Segundo ele, a grande maioria das pessoas permanece como “zumbis” ao se desligarem do corpo, mas com treinamento e dedicação, seria possível se manter lúcido enquanto o corpo descansa. O benefício seria poder comprovar com seus próprios olhos a existência de vida após a morte, e poder evoluir mais ao invés de passar tantas horas “apagado” durante a noite. Esse ponto de vista ainda é enxergado como tabu em diversas linhas espirituais – mesmo no espiritismo – mas cada dia mais pessoas tem relatado ter vivido esse tipo de experiência extra-corpórea.

 

Mas as explicações não se resumem às abordagens espiritualistas. A ciência já até deu um diagnóstico para essa condição. Paralisia do sono é seu nome de batismo acadêmico. Em 2011, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, revisaram 35 estudos sobre o tema realizados nos 50 anos anteriores. E a conclusão a que chegaram foi que aproximadamente 8% da população em geral experimenta pelo menos um episódio de paralisia do sono durante a vida. Entre estudantes as incidências chegam a 28% do total. Já entre pacientes psiquiátricos, o índice atinge quase 32%. Vamos combinar que não é pouca gente. Agora, como funciona?

Segundo à ciência, do ronco à insônia, existem diversos distúrbios que podem nos afetar enquanto dormimos. Em uma noite normal, nosso sistema fisiológico se alterna ciclicamente entre dois estados distintos. O primeiro é o sono mais lento (ou sono não REM), que ocupa até 75% do tempo dormido e vai desde um estado de leve sonolência até o sono profundo. É um estágio que costuma ser associado à conservação e recuperação de nossa energia física.

Já o segundo momento é o sono REM (do inglês Rapid Eye Movement), que se caracteriza por uma atividade cerebral maior, semelhante à das horas em que estamos acordados. Durante o sono REM, nosso organismo passa por uma manutenção geral, consolidando a memória, regulando a temperatura corporal, entre outras funções. Essa fase se caracteriza pela ocorrência de movimentos oculares e também por ser o período em que os sonhos tomam forma.

A paralisia do sono atinge diretamente o sono REM. Ela acontece quando os sentidos despertam desse estado profundo e o corpo permanece paralisado. A pessoa até enxerga onde está, mas é incapaz de se mover ou mesmo de falar. E esse estado muitas vezes vem acompanhado por alucinações oníricas, onde objetos e criaturas podem aparecer junto aos elementos do ambiente ao redor e interagir com a pessoa paralisada. É literalmente sonhar de olhos abertos e não conseguir acordar. Ou seria ter pesadelos?

A ciência, no entanto, ainda não conseguiu encontrar uma explicação definitiva para um fenômeno similar, chamado de EQM (Experiência Quase Morte). Graças à avanços na ciência, muitas vezes os médicos conseguem “ressucitar” pacientes. Ou seja – o coração da pessoa pode ter parado de bater por alguns instantes, mas os médicos conseguiram fazê-lo voltar. Dentre pessoas que viveram esse tipo de experiência, algo em torno de 6% e 23% relataram experiências que a ciência não conseguiu explicar.

Segundo matéria na revista Superinteressante, “Muitos dos que estiveram na fronteira da morte relatam experiências místicas: túneis que terminam em luzes celestiais, encontros com seres igualmente luminosos, memórias de uma consciência descolada do corpo físico, uma sensação indescritível de paz. Essas lembranças não raro incluem descrições detalhadas de fatos ocorridos entre a “morte” e a “ressurreição”. Coisas que, diz a lógica dos vivos, não poderiam ser recordadas por pessoas com atividade cerebral nula.”

O médico americano Raymon Moody Jr., foi pioneiro no estudo do tema das EQMs. Em 1975, ele publicou um livro chamado “A vida depois da vida”, com 150 relatos de pessoas que afirmavam terem estado “do outro lado” por alguns instantes. Depois dele, vários outros pesquisadores também investigaram o tema mais a fundo. Os relatos geralmente são muito mais complexos do que apenas sonhos ou alucinações causadas por remédios.

Segundo ainda a SuperInteressante “Um homem em coma atendido pela equipe do holandês Pim van Lommel teve a dentadura removida. Uma semana depois, reconheceu a enfermeira que lhe desdentou e disse que a dentadura estava num carrinho de instrumentos cirúrgicos – nem a mulher lembrava disso. Muitos pacientes dizem ter se encontrado com um parente que ninguém sabia que havia morrido. Nem o próprio paciente. Outras pessoas contam coisas que se passavam na sala do hospital [enquanto elas estavam mortas]”.

O médico cardiologista holandês Pim van Lommel, após estudar de perto 344 sobreviventes de paradas cardíacas, criou uma teoria sobre o assunto. Segundo ele: “A consciência não pode estar localizada num espaço em particular. Ela é eterna. A morte, como o nascimento, é mera passagem de um estado de consciência para outro. Ficou provado que, durante a EQM, houve aumento do grau de consciência. Isso significa que a consciência não reside no cérebro, não está limitada a ele.”

Todas essas questões complexas e polêmicas apontam para uma certeza: ainda há muito para pesquisar e descobrir sobre a complexidade do ser humano. Enquanto cada indivíduo sabe em qual território do conhecimento encontra mais conforto para suas dúvidas, deve ter uma porção de gente por aí confusa, achando que tudo não passa de sonho.

As explicações existem, com vertentes que podem atender a diferentes perfis. A gente aqui no Hypeness está menos interessado em dar respostas definitivas do que em compartilhar curiosidades humanas. Porque a curiosidade anda lado a lado com a criatividade e a inovação.

…………………………………………………………………..
*Fonte: hypeness

Era da informação, tempos de ignorância

Web: A difusão do conhecimento e sua dissolução em meio à ignorância

Nunca em toda a história o conhecimento esteve tão acessível a tão ampla parcela da população. Se por muito tempo o saber foi monopolizado por segmentos sociais dominantes, nos dias atuais qualquer um que disponha de um telefone móvel e, no mínimo, consiga acesso a uma rede Wi-Fi pode pesquisar acerca dos mais variados assuntos e conhecer – ainda que virtualmente – bens culturais de todo o mundo. De receitas culinárias, passando por manuais de sobrevivência, até foguetes caseiros, há um sem número de sites, tutoriais e vídeos tratando do assunto. No início da difusão da rede mundial de computadores esse fenômeno já fora previsto e apontado como algo que garantiria uma formação cultural mais autônoma e eficaz, a ponto de se cogitar inclusive a futura obsolescência de escolas e professores.

Não obstante, nessa mesma rede mundial de computadores, da qual um dos usos principais são outras redes – essas que se dizem “sociais” – é possível observar toda a superficialidade de ideias de grande número de usuários que reagem a, comentam e compartilham fragmentos de ideias, quase sempre descontextualizadas e utilitariamente. Ora, todos gostamos de compartilhar um meme ou frase de efeito engraçada, ou que cuja ideia principal nos agrade, ou ainda, apenas por acharmos oportuno socializar uma informação que não precisa estar teoricamente referenciada. O hábito pode ser inclusive salutar, lúdico e útil. Quantas pessoas perdidas ou distantes são encontradas através das redes sociais. Outras tantas conseguem iniciar ou ampliar seus negócios valendo-se desse mesmo recurso. Grupos de debate sobre os mais variados assuntos se multiplicam e, por vezes, ajudam até a sensibilizar para a fragilidade de convicções arraigadas, mal fundamentadas e preconceituosas. Sendo assim, não se mostra coerente criticar genericamente algo que pode oferecer tantos benefícios.

Onde estaria então o lado negativo da rede mundial de computadores e de suas redes “sociais” para a construção do conhecimento, oferecendo elas acesso a tão ampla gama de informações a um grandioso número de usuários que ainda está a crescer? A meu ver, a tentativa de responder a esse questionamento exige outra pergunta mais pessoal e nada retórica: “até que ponto redes sociais e sites com informações simplistas e sintetizadas têm se tornado minha principal fonte de informação e, grosso modo, de conhecimento, na medida em que embasam minhas exposições e argumentos (consequentemente, meu raciocínio)?”

Não deve ser difícil se pegar na “saia justa” com essa pergunta. Uma simples pesquisa no Google revela um grande número de pessoas que dizem ter se tornado incapazes de ler livros ou textos mais longos (honestamente, desconfio que muitos que começarem a ler esse texto nem chegarão até aqui). A maioria dessas pessoas e das que comentam esses “desabafos” reconhecem no uso intensivo de textos sintéticos e superficiais disponibilizados na internet a causa para essa situação. A leitura curta e simplória acaba por se tornar hábito. Vemos então que o problema não está na ferramenta, mas em um certo tipo de comodismo intelectual de quem a utiliza, tendo em vista que essa mesma internet oferece acesso a leituras clássicas de domínio público em diversas áreas.

Compreender a forma como a dinâmica de disseminação e simplificação da informação na internet pode condicionar a maneira como nos relacionamos com o conhecimento é fundamental para que dominemos de fato as Tecnologias da Informação e Comunicação. Esse domínio da tecnologia não diz respeito apenas ao uso eficaz dessas ferramentas, mas à capacidade de discernir o limite onde deixamos que as facilidades e frivolidades oferecidas pela máquina moldem nossa maneira de construir nosso próprio conhecimento e raciocínio.

Bauman e a “cultura da oferta”: o conhecimento como mercadoria virtual

Para Zygmunt Bauman, o comodismo intelectual que parece permear a superficialidade de certas postagens revela um aspecto que não é algo idiossincrático, mas ideológica e amplamente disseminado. Em seu livro “Capitalismo parasitário”, Bauman demonstra que esse fenômeno faz parte de um processo pós-moderno que ele chama de “cultura da oferta”, processo esse que tende a impregnar todos os aspectos sociais com os valores mercadológicos. Assim, não só o próprio trabalhador, mas também o lazer, as relações sociais, bem como a cultura e o próprio conhecimento acabam por assumir aspecto de mercadoria, passando a se estabelecerem sob as mesmas regras que regem o mercado. Trazendo esse conceito para nossa discussão, poder-se-ia dizer que o tal comodismo intelectual anteriormente citado passa pela internalização de valores mercadológicos como o utilitarismo, o imediatismo, a descartabilidade, o modismo. Uma ressalva se faz necessária: não sejamos tão teoréticos a ponto de não considerar também fatores mais comuns, como os culturais, sociais e – por que não dizer – a própria preguiça individual. Mas, de maneira geral, o conceito baumiano de “cultura da oferta” nos serve bem.

Nesse contexto, sem entrar nos detalhes que Bauman desenreda primorosamente em seu livro, podemos dizer que até o conhecimento tem se tornado algo a ser consumido segundo a oferta do mercado. Estuda-se para tirar uma boa nota, passar no vestibular, porque determinado assunto está na moda, ou simplesmente porque “dá dinheiro”. Dessa maneira, a internet torna-se uma conveniente depositária da cultura e do conhecimento, sempre disponível a prestar seus serviços de memória externa do intelecto humano. Dentro dessa lógica, basta que se acesse o conteúdo mínimo necessário para que se possa alcançar os objetivos sempre imediatistas e provisórios do mercado. Sínteses de livros, sites com conteúdos simplificados e até aqueles que se prestam a fazer seu trabalho de faculdade são exemplos de usos pouco edificantes da internet. A mesma fonte que oferece o acesso aos bens culturais mais elaborados também possui características dispersivas e acomodatícias.

Ora, também é comum querermos, às vezes, ter apenas uma noção de determinado assunto, sem a necessidade de nos aprofundarmos nas premissas que o sustentam. Dessa forma, para reconhecer os limites do uso saudável dos “atalhos” que a internet oferece é importante compreender a maneira como o pensamento mais elaborado é construído e comparar esse processo com a maneira simplista e fragmentada de disseminação de informações no mundo virtual.

Construtivismo: pensamento integrador X conhecimento fragmentado

Jean Piaget é um dos principais pensadores que embasam a teoria educacional conhecida como educação construtivista. Como o próprio nome denota, entende-se que o indivíduo precisa construir seu próprio conhecimento a partir de sua relação com o objeto de estudo. Piaget diz que tal relação pode sim ser mediada e socializada, mas que para construir verdadeiramente seu próprio conhecimento, o indivíduo precisa descobrir por si mesmo as causas, fatores e relações dos fenômenos estudados.

Nesse contexto, o conhecimento não é algo a ser absorvido, mas internamente elaborado. Através do confronto de seus conhecimentos prévios com novas evidências, da análise das mesmas, de suas relações com outros conhecimentos e suas implicações na vida cotidiana, o sujeito acaba por reorganizar suas estruturas cognitivas. Isso implica não apenas na assimilação de novos conceitos, mas na mudança qualitativa na capacidade de raciocínio e senso crítico. Inversamente, nada que é entregue como verdade, nada que seja apresentado como fato acabado, nada que não seja descoberto pelo próprio indivíduo, nada disso pode propiciar a reorganização de estruturas cognitivas e a consequente mudança na capacidade de pensamento.

Ora, se tomarmos como plausível a ideia piagetiana de construção do conhecimento, podemos inferir que a forma como a maior parte das informações é disseminada na internet não oportuniza o desenvolvimento de um pensamento mais elaborado e crítico. Na verdade, grande parte de conteúdos que “viralizam” são o contrário disso; apresentados de forma simplista, descontextualizada, sem proporcionar o mínimo de reflexão e articulação com outros conhecimentos e a vida cotidiana. Isso sem falar das manipulações de que se valem deterministas que desejam propagandear ou condenar infundadamente determinada ideia, o que exige atenção até mesmo quando se quer apenas obter uma noção sobre algum assunto.

Não há atalhos!

Não há dúvidas! Dentre outros benefícios, a difusão da rede mundial de computadores permitiu o acesso de grande parte da população a variados bens culturais como nunca antes na história.

O problema é que paralelamente tornaram-se comuns formas simplistas de difusão desse conhecimento, que passa a não propiciar o desenvolvimento do pensamento mais elaborado e do senso crítico. Em muitos casos, o que ocorre é a disseminação de formas de pensamento superficiais e fragmentadas.

Assim, o conhecimento toma – como tem se tornado comum aos diversos aspectos da vida atual – caráter mercadológico. Estuda-se quando o sistema exige, o mínimo em quantidade e o mais compartimentalizadamente possível. Até mesmo quando se quer apenas ter uma noção sobre determinado assunto é preciso atentar para a qualidade da informação acessada.

A verdade é que não há atalhos para aquele que deseja assimilar conhecimentos relevantes, ampliar sua capacidade de pensamento e desenvolver seu senso crítico.

Os benefícios que a universalização da vida virtual nos trouxe são inegáveis. Todavia, sua dinâmica de disseminação simplista e fragmentada de informação parece constituir uma realidade insubmissa. Isso sem falar de seus aspectos frívolos e dispersivos. É preciso conscientizar-se de que esse lado pouco edificante da Web é sutil e vicioso e pode condicionar sim nossa forma de pensar e de aprender.

Material de qualidade também há na internet. Quase todos os clássicos de diversas áreas do conhecimento podem ser encontrados de forma legal na rede. Sites especializados divulgam estatísticas mais confiáveis. Professores renomados e provocadores divulgam vídeos instigantes em suas redes sociais. É no contato com esses materiais, contextualizando-os, criticando-os, que conhecimentos sólidos são construídos e se desenvolve a qualidade do pensamento.

*Renato Paixão

…………………………………………………………………
Fonte: genialmentelouco